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Erro trágico. Francisco Lázaro terá sido vítima dos cuidados que tomara para se proteger do calor intenso daquela tarde.

Estocolmo. No desempenho deste papel, mereceu diversos elogios, nomeadamente do embaixador português na Suécia, António Feijó. Na capital sueca, Correia fez vários contactos importantes, como por exemplo com o barão Pierre de Coubertin, e foi ele quem tratou do funeral de Francisco Lázaro e da viagem de regresso a Portugal.

FRANCISCO LÁZARO, O CARPINTEIRO

Estava-se mais ou menos a meio do programa dos Jogos de 1912 quando se disputou a maratona. Até então, a participação portuguesa era relativamente dececionante, mas faltava entrar o atleta no qual mais esperanças se depositavam: Francisco Lázaro. Em Portugal, acreditava-se convictamente na capacidade do seu melhor atleta. Nesse mesmo ano, Lázaro vencera a maratona de Lisboa com um tempo muito promissor, que o colocava como favorito à conquista olímpica. A sua história justifica a lenda: nascido num bairro pobre de Benfica, a 22 de setembro de 1889, começou por se sentir atraído pelo futebol, no Grupo Sport de Benfica. Deu nas vistas nas corridas a pé em 1908, e em 1911 passou a representar o Sport Lisboa e Benfica; no ano seguinte, transitou para o Lisboa Sporting Clube. Lázaro aprendera o ofício de carpinteiro, especializando-se em carroçarias de automóveis. O seu treino habitual era muito simples: ao sair do Bairro Alto (onde trabalhava), corria até São Sebastião da Pedreira e depois até Benfica, perseguindo os elétricos. Casou pouco antes de embarcar para Estocolmo, deixando a mulher grávida de uma menina. Como já se percebeu, era o mais humilde dos seis. Muitas vezes, teve de ser ajudado em questões de etiqueta ou de trajes a envergar. No dia da corrida, 14 de julho, estava bem disposto e até surpreendeu os colegas, atrasando-se na apresentação na pista: foram dar com ele a ensebar o corpo. Pretendia, dessa forma, evitar o forte calor que se fazia sentir (a prova iniciou-se às 13h48, com 32 graus à sombra!). A utilização de substâncias como o sebo era, então, habitual em provas longas de

natação em alto mar, mas não viria a ter o mesmo efeito na maratona. Aos 30 quilómetros, o atleta português sucumbiu e teve de ser levado para o hospital, inconsciente, com convulsões em todo o corpo, estado de delírio e febre superior a 41 ºC. Apesar de todos os esforços dos médicos suecos, acabaria por falecer às 6h20 do dia 15 de julho. O campeão português entrou, assim, para a lenda. Foi o primeiro atleta a morrer nuns Jogos Olímpicos da era mosderna, e logo na primeira participação nacional. Devido a este caso, os médicos recomendaram que a maratona passasse a ser disputada nas horas mais frescas do dia e não no pico do calor. A sua morte foi alvo de grandes discussões: houve quem referisse o facto de não ter protegido a cabeça, mas sabe-se que a meio da prova já levava um lenço branco na cabeça. Ataque cardíaco, má preparação e abuso de estricnina foram outras causas equacionadas, mas a razão mais forte para o sucedido parece mesmo ter sido, segundo a maior parte dos estudos, a utilização do sebo no corpo, que causou um aquecimento exagerado e impediu a normal transpiração do atleta. A odisseia de Lázaro não terminou naquela manhã de 15 de julho. No dia 16, realizou-se um funeral provisório, após o que o corpo ficou depositado numa igreja católica sueca, até o dia da trasladação para Portugal, dois meses depois! Na Suécia, ao saber-se que o atleta deixara mulher e uma filha pequena, surgiu a ideia de uma subscrição para ajudar a família, ideia que o príncipe Gustavo Adolfo transformou num festival desportivo no Estádio Olímpico, que na altura gerou uma receita de cerca de 40 mil coroas (aproximadamente 70 mil euros). O dinheiro foi aplicado num fundo, recebendo a família os dividendos anualmente; o a verba foi entregue, na totalidade, em 1930, quando a filha de Lázaro atingiu a maioridade. Sabe-se que na década de 70 esta vivia em Moçambique e ainda trocava correspondência com a família real sueca. Dois meses após o fatídico dia, o navio de

Índio injustiçado

E

m que cenário desportivo participou Portugal pela primeira vez? Os Jogos Olímpicos eram então uma prova da afirmação internacional de um país, e a Suécia fez questão de organizar a melhor competição até então disputada. Estiveram presentes 28 países, dos quais cinco estreantes: Portugal, Egito, Islândia, Japão e Sérvia. Participaram 2407 atletas (2359 homens e 48 mulheres), em 14 modalidades e 102 eventos diferentes. A Suécia foi o país com mais medalhas (65), mas foi um norte-americano a grande figura da competição: Jim Thorpe, atleta de origem indígena, ganhou as provas do pentatlo e do decatlo, de tal forma que o rei Gustavo V o considerou “o melhor atleta do mundo”. Porém, posteriormente detetou-se que Thorpe tinha jogado basebol profissional em 1910, pelo que as medalhas lhe foram retiradas: não era um atleta amador. A injustiça seria emendada demasiado tarde, em 1983, já depois da morte de Thorpe (1953), quando o COI decidiu devolver-lhe as medalhas. Na verdade, o profissionalismo não se confirmara: Thorpe apenas recebera 15 euros por mês, aos 20 anos, durante umas férias em que jogara basebol, e apenas a título de subsídio de alimentação...

guerra sueco Vendysset transportou o corpo de Lázaro para Lisboa. A 23 de setembro, fez-se o desembarque da urna, e a viúva recebeu do comandante do navio uma lata de terra, apanhada no local onde o atleta desfalecera, e uma fotografia da igreja onde o corpo estivera depositado. No dia 24, realizou-se finalmente o funeral, para o cemitério de Benfica, perante centenas de pessoas e vários discursos comoventes. Terminara, enfim, a primeira odisseia olímpica do desporto português. Com tristeza, porém com muito heroísmo. Nada, jamais, seria igual. J.S.

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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