Page 84

O primeiro esgrimista nacional foi afastado de forma pouco clara Médico no COI

N

em só de atletas se faz a história dos Jogos Olímpicos. Alguns anos antes de 1912, um outro português levava, pela primeira vez, a presença nacional ao movimento liderado pelo barão de Coubertin. Falamos de D. António de Lancastre, médico da Casa Real e, à altura (junho de 1906), secretário da Assistência Nacional dos Tuberculosos. Descendente dos condes de Lancastre e dos condes de Caria, D. António (1857– –1941) é muitas vezes apontado como último médico da Casa Real. Clínico assistente do rei D. Carlos, foi por este nomeado para representante de Portugal no Comité Olímpico Internacional, em 1906. O barão de Coubertin queria desenvolver o movimento, para o qual arrastava dezenas de personalidades: príncipes, cientistas, generais, professores, autoridades políticas e sociais... Assim, convidou o monarca português a fazer a nomeação, diz-se que numa das frequentes presenças de D. Carlos em Paris. A presença de D. António Lancastre no COI durou até 1911: em fevereiro deste ano, exilado em Paris, pediu a demissão, alegando a mudança política em Portugal, que entretanto, após o regicídio, declarara a República. Seria substituído, em 1912, por outro exilado na capital francesa, também monárquico, o conde de Penha Garcia. Este último, mais ligado às coisas do desporto, seria ainda nomeado presidente de honra da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional, e distinguido, em abril de 1912, como presidente de honra do primeiro Comité Olímpico Nacional. Como João Sequeira Andrade escreveu em 2010, num texto para o Fórum Olímpico de Portugal, “não houve nem há qualquer notícia da interferência direta ou indireta das citadas personalidades na atividade olímpica de Portugal”. Nem, adianta, quando se tornaram necessárias múltiplas diligências na sequência da morte trágica de Francisco Lázaro.

82 SUPER

A verdade é que desde cedo mostrou capacidades físicas para ser um atleta notável. Começou por destacar-se no halterofilismo, no Ateneu Comercial de Lisboa, e bateu vários records nacionais, vencendo diversos campeonatos. Em 1910, apurou-se para o Europeu, em Budapeste, onde só não disputou a final por alegados erros dos juízes. Certo é que entre 1911 e 1914 ganhou todas as provas em que participou. A ida a Estocolmo constituiu uma espécie de intervalo neste percurso pelo levantamento de pesos: em 1912, especializou-se na luta greco-romana, cuja prática iniciara há quatro anos. Campeão nacional de levíssimos, ganhou o passaporte para os Jogos, onde porém não foi feliz. Ainda conseguiu uma vitória sobre o britânico McEnzie, mas na terceira ronda voltou a perder, face ao sueco Andersson. Terminou no 19.º lugar. Em 1914, interrompeu a atividade desportiva, por motivos profissionais, mas retomou-a em 1924, apenas como halterofilista: apurou-se para as Olimpíadas de 1924, mas uma distensão muscular impediu-o de se classificar. Voltou aos Jogos em 1928, em Amesterdão, para ser 11.º entre 21 concorrentes. Abandonou após estes Jogos, com 40 anos, após muitos triunfos e sucessos, o maior dos quais terá sido o record do mundo de levíssimos, em 1925. Também praticou futebol, remo e ciclismo. Foi ainda treinador no Lisboa Ginásio, na Guilherme Cossoul e na Sport Conimbricense. Foi condecorado com a medalha de Mérito Desportivo. Profissionalmente, foi topógrafo-desenhador (trabalhou na elaboração das plantas de Lisboa e do concelho de Cascais), diretor da Empresa Mineira de Porto de Mós e da Fábrica de Cimentos da Maceira, chefe na Empresa Nacional de Máquinas e diretor de empreitadas de equipamentos eletromecânicos. Faleceu em 1978, com quase 90 anos.

CORREIA, O DIPLOMATA

Fernando Correia, esgrimista, chefe da comitiva, cofundador do COP, foi o quinto atleta português a competir nuns Jogos Olímpicos. Às nove da manhã de 11 de julho de 1912, defrontou, na categoria de espada, um representante finlandês, mas acabou por ser desqualificado. Uma situação polémica, que ele descreveu depois, em 27 de julho desse ano, em Os Sports Illustrados: “Sobre o torneio individual em que entrei, à nota oficial do Comité devo acrescentar que fui forçado a desfazer a barrage, como conse-

quência não só de me terem anulado uma vitória que tinha sobre um atirador que o júri desclassificara, como por outros atiradores terem melhorado na sua posição de inferioridade em que estavam para comigo porque lhes anularam a derrota, que tinham sofrido do atirador desclassificado. Fui apurado para as meias-finais, eram 11 horas da manhã. Às duas horas da tarde, o júri da minha série, que já me tinha prejudicado colocando-me em barrage, tendo sido ouvido pelo júri internacional, a propósito do protesto que o atirador desclassificado lhe apresentara, propôs a minha exclusão. O júri internacional aceitou-a! Que fazer perante isto? Só tenho pena de nesse júri internacional o nosso país não ter voz.” O incidente é também relatado, com outros pormenores, no livro Espadas e Floretes, de José Vilarinho: “Quando lhe faltava assaltar apenas com Tvorsky, este abordou o português perguntando-lhe a sua classificação. Correia respondeu que dependia do resultado do assalto entre ambos. Durante o assalto, Tvorsky descobriu-se de tal maneira que o português ficou indeciso em tocá-lo, só o fazendo por imposição do tempo e do júri. Este, no final, chamou os dois atiradores perguntando-lhes se tinha havido alguma combinação.” O resto, sabe-se pelas explicações de Correia: Tvorsky desqualificado, assaltos anulados, uma vitória a menos para o português, que teve de ir a uma barrage; venceu dois assaltos, apurou-se, mas um novo protesto de Tvorsky levou o caso para o júri internacional de apelo, que decidiu excluir também o representante português. Nascido em 1880, Correia era um dos desportistas de referência da sua geração (campeão nacional de espada), mas nesta primeira participação olímpica ficou, assim, pela primeira eliminatória; voltou a participar nos Jogos de 1920, em Antuérpia, onde foi semifinalista. Conta-se, sobre ele, que era um homem capaz de conciliar vontades e postura política, e por essa razão este empregado superior do Montepio Geral foi diretor em vários clubes lisboetas, membro do Comité Olímpico Português e nomeado chefe da comitiva que viajou para

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement