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Lusofonia em 2004

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nacional. Nos Jogos de 1912, além de atleta, foi também treinador e massagista. Nesta última função, ficou para a história um episódio quase anedótico, que revela bem o amadorismo da representação nacional, assim descrito no livro Os 6 de Estocolmo, de Francisco Pinheiro e Rita Nunes: “O massagista improvisado era Joaquim Vital, que ao ver os restantes atletas, das outras equipas, a levarem massagens, decidiu tentar comprar numa farmácia sueca as chamadas ‘emborcagens’ (mistura de vários líquidos, alguns de cariz alcoólico e anestesiante). O farmacêutico sueco, por inépcia ou falta de comunicação, já que Vital dominava mal o francês e não falava inglês, vendeu-lhe um frasco com um líquido transparente e incolor. Depois de um treino, Armando Cortesão foi o primeiro a ser massajado por Vital com esse líquido, perante o olhar estupefacto de um grupo de suecos, que ao ver o frasco avisou os atletas portugueses que se tratava de um remédio para os dentes.” Profissionalmente, Vital era empregado comercial, e simultaneamente preenchia a sua vocação de jornalista com colaborações na

secção desportiva d’O Século e em Os Sports Illustrados, a mais destacada publicação da área, na altura. Aliás, Os Sports Illustrados beneficiaram da presença em Estocolmo de Vital, que fez uma excelente cobertura da presença nacional e foi o último dos portugueses a falar com Francisco Lázaro, à passagem do 25.º quilómetro da maratona.

PEREIRA, O HOMEM FORTE

O quarto atleta português a entrar em competição foi António Pereira, em luta greco-romana (–60 kg). A 9 de julho de 1912, às 9h30, defrontou o finlandês Lauri Haapanen e perdeu, algo pouco habitual para este “super-homem” português, cuja especialidade, porém, não era a luta, mas o halterofilismo.

m competição olímpica, o português só começou a ouvir-se, efetivamente, em 1912, com a participação dos seis heróis referidos neste trabalho. Embora a comunidade dos países de língua oficial portuguesa seja vasta, e populosa, por diversas razões só muito tarde esses países chegaram às olimpíadas, até porque a maior parte deles apenas se tornou independente em 1975. O Brasil, o maior país lusófono, participou pela primeira vez oito anos depois de Portugal, nos Jogos de Antuérpia, em 1920. A partir daí, tornou-se uma das potências da competição: participou sempre, à exceção de 1928, quando uma crise das bolsas impediu o envio de atletas. Logo em 1920, conquistou uma medalha (Guilherme Paraense, ouro no tiro), totalizando atualmente 108 medalhas (23 de ouro, 30 de prata e 55 de bronze), de um total de 2683 atletas enviados aos Jogos! O Brasil será também o primeiro país de língua portuguesa a receber a competição de verão (refira-se que o Brasil regista também sete participações nos Jogos de inverno...). Portugal e Brasil estiveram, pois, juntos na competição a partir de 1920, mas só receberiam a companhia de outros países de língua oficial portuguesa... 60 anos depois! Uma situação que tem, claro, a ver com a tardia independência das colónias de África, só consumada após o 25 de Abril de 1974. Assim, os Jogos de 1980, em Moscovo, já registaram as participações de Angola e Moçambique. Em 1996, em Atlanta, juntaram-se ao grupo a Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Finalmente, Timor-Leste entrou em 2004, em Atenas, Jogos que juntaram, pela primeira vez, todos os países de língua oficial portuguesa. É uma forte comunidade, já com muitas participações e um bom lote de medalhas: 108 do Brasil, 23 de Portugal (quatro de ouro, oito de prata, onze de bronze) e duas de Moçambique (uma de ouro e uma de bronze, ambas pela atleta Maria Mutola, na prova de 800 metros).

Pereira chegou a Estocolmo com um curioso percurso: nascido em Pragança, no concelho do Cadaval, a 4 de abril de 1888, cresceu numa quinta em Lisboa. Uma vida, a do campo, que ele sempre relacionou com a sua força física. “Fui um pequeno Tarzan, de manhã à noite: corria, trepava às árvores, comia fruta, matava a sede e banhava-me nas águas do tanque. Creio que este viver selvagem e livre foi benéfico para o futuro de atleta que eu viria a ser”, contou numa entrevista, em 1972, ao jornalista e escritor Romeu Correia, transcrita no livro Portugueses na V Olimpíada (Editorial Notícias, 1988). Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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