Page 74

Controlo apertado. Cargueiro russo parte de Cuba sob vigilância norte-americana, durante a crise dos mísseis (1962).

Morris Childs passou 35 anos como espião no Kremlin grandes empresas, incluindo as muitas que não tinham torcido o nariz ao nazismo. Os soviéticos reagem ao ímpeto invasivo com o Comecon, que zelará pela segurança e impermeabilidade dos países na órbita do Kremlin. É nessa altura que ocorre ao financeiro norte-americano Bernard Baruch o termo “guerra fria”. Corria o ano de 1947 e a coisa era tão séria que levou à criação, nesse mesmo ano, da CIA, instituição que definiria um estilo próprio de controlo obscuro e meios questionáveis. O caudal de episódios não cessa: ora é o bloqueio soviético a Berlim, ultrapassado por uma ponte aérea que incluía o lançamento de caramelos para as crianças da cidade; ora a atitude de Tito, à frente da desaparecida Jugoslávia, que se demarca e inventa sabiamente a organização dos países não-alinhados; ora é a NATO e a divisão da Alemanha em RFA e RDA, ora é o triunfo de Mao Zedong na China... Nessa altura, a Doutrina Truman já não é suficiente e é preciso cercear qualquer surto que cheire a comunista. Onde? Por todo o planeta, agora que já estamos nos anos 50 e o processo de descolonização faz não haver tempo a perder.

72 SUPER

A guerra fria mostra a sua verdadeira temperatura na guerra da Coreia, e continuará a fazê-lo a partir de então, apesar dos arrazoados antiarmamentistas de Dwight Eisenhower e Nikita Kruschev, na repressão da revolta antissoviética na Hungria, na ostentação nuclear norte-americana na guerra do Sinai, ou no grande estrondo mediático que rodeou a crise dos mísseis em Cuba, com um John F. Kennedy a armar-se em salvador do mundo.

PARAÍSO PARA A ESPIONAGEM

Tanto conflito de meias tintas constituía um paraíso para a espionagem, cuja realidade não se assemelhava muito à de James Bond, embora seja verdade que as peripécias de alguns agentes fossem deveras cinematográficas. Trata-se, sem dúvida, dos espiões mais conspícuos da história, e sabemos agora que as suas aventuras já tinham tido início antes da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 30, já exerciam a profissão os chamados “cinco de Cambridge”, universitários britânicos de boas famílias que, imbuídos do fervor socialista da época, passavam informação aos soviéticos sem abandonar

a sua existência abastada e não isenta de atrativos: álcool, amantes, agentes duplos, luxos... Não foram apanhados, como também não o seriam os muitos antigos nazis a soldo da CIA, que chegaram mesmo a ser treinados no Maryland para uma possível invasão da URSS. Nenhum alcançou a eficiência de CG 5824-S, sigla para designar Morris Childs, considerado o número 1 dos espiões norte-americanos, pois enviou, durante 35 anos, informação das profundezas do Kremlin, onde era bem recebido por ser considerado um verdadeiro comunista e por ter nascido na Ucrânia. Por sua vez, os soviéticos também tiveram a sua estrela: o cientista austríaco Engelbert Broda, conhecido pelo nome de código Eric, que trabalhou em Inglaterra e passou segredos nucleares a Moscovo. O trabalho do agente infiltrado tornou-se conhecido quando foram revelados documentos tanto do KGB como do serviço de inteligência britânico, o MI5. Nos Estados Unidos, o período anticomunista de “caça às bruxas” organizado pelo senador McCarthy fazia vítimas: o caso mais célebre foi o do casal de judeus Julius e Ethel Rosenberg, acusado de fornecer informações à União Soviética sobre a bomba atómica. Foram julgados e condenados à morte: a sua execução, em 1953, causou controvérsia em todo o mundo, já que não havia provas suficientes do

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement