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História O mais quente da guerra fria

Um mundo DIVIDIDO

Finda a Segunda Guerra Mundial, teve início um conflito que dividiria o mundo em dois blocos. A importância do confronto aumenta à medida que os seus segredos são revelados.

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ntre ruínas e rostos famélicos, mas com toda a alegria possível, os europeus celebravam, em maio de 1945, o termo da Segunda Guerra Mundial, embora o fim definitivo das hostilidades só chegasse a 15 de agosto, data da rendição do Japão. O conflito fora brutal e muita coisa fazia lembrar o Apocalipse: cidades e países devastados, património com séculos de antiguidade destruído e o apavorante número de setenta milhões de mortos. Contudo, mesmo no descalabro, perduravam divergências cujas faíscas não tinham cessado. Começava outra guerra silenciosa, que iria durar muitos mais anos e que também causaria, dissimuladamente, milhões de vítimas. Mais cedo ou mais tarde, teria de se produzir esse confronto entre o capitalismo norte-americano e o comunismo soviético. A liderar a causa, os Estados Unidos, transformados em absoluta superpotência, lançaram-se numa espiral desenfreada de estratégias secretas, manipulações e guerras inventadas para extirpar esse mal demoníaco que se expandira na Rússia e na China. O bloco comunista respondia com táticas semelhantes, mas quase sempre na defensiva. Decorreram, assim, décadas, com focos de destruição em diferentes zonas do planeta, aparentemente sem ligação, mas sabemos agora que o pano de fundo era sempre o mesmo. A verdade é que ainda resta muito por saber de um conflito que, na realidade, ainda não terminou, apesar da proclamação oficial do fim da guerra fria feita por Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov na cimeira realizada em

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Malta, em dezembro de 1989, após a queda do Muro de Berlim. Essas faíscas que iriam incendiar o conflito tinham passado quase despercebidas quando as potências vencedoras da guerra mundial se reuniram para reorganizar o mundo, nas célebres conferências de Yalta e Potsdam. Ainda se estava em 1945 e, em seguida, Winston Churchill, esse perito em charutos e frases aparatosas, saiu-se com a ideia da “cortina de ferro”. Era o começo de várias décadas de um confronto mudo para dominar o mundo, cheio de espiões e muitas vítimas propiciatórias.

GUERRA POR PROCURAÇÃO

Norte-americanos e soviéticos não se enfrentam diretamente, mas fazem-no nos bastidores, em guerras, guerrilhas e golpes de estado que beneficiam um ou outro, sejam quais forem as consequências. Em ideias e burocracias, confrontam-se sem dissimulação. São mais agressivos os gringos (que saíram praticamente ilesos da guerra) do que os soviéticos, com toda a sua imensa pátria devastada e o peso atroz dos 27 milhões de vítimas do confronto bélico. Assim, os Estados Unidos aderem à Doutrina Truman, na qual o referido presidente proclama a necessidade de combater o comunismo. Antes, porém, é preciso compor a face do capitalismo europeu, tão macerada pela demolidora contenda, e arquiteta-se o Plano Marshall, que dá os seus primeiros passos rumo à reconstrução na Grécia e na Turquia, em 1947. Um maná para tantos civis que tinham visto as suas vidas destroçadas sem saber muito bem porquê, e deveras conveniente para as

Linha entre dois mundos Uma mulher consegue, em 1955, passar da parte oriental de Berlim para a ocidental, enquanto os guardas dos dois lados se enfrentam. A divisão da capital alemã era marcada por um risco no chão.

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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