Page 7

que o andamento dos astros no céu estava ligado às migrações animais, primeiro, e, um pouco depois, à época das sementeiras e das colheitas. Galileu foi o primeiro a servir-se de um telescópio rudimentar para observar os planetas. Edwin Hubble descobriu que grande parte das “estrelas” do céu eram, afinal, outras galáxias (e que se afastavam de nós a uma velocidade vertiginosa). A radiotelescopia permitiu examinar o céu em comprimentos de onda complementares, mas a atmosfera terrestre bloqueia a maior parte das radiações provenientes do espaço. Surgiram os telescópios espaciais. A expansão do universo (aparentemente a acelerar, devido a uma misteriosa força a que, à falta de melhor, chamamos “energia escura”) faz desviar a luz enviada por corpos muito distantes (mais próximos da origem do universo) para o vermelho e daí para zonas fora do espectro visível, como as micro-ondas. Colocámos em órbita telescópios capazes de receber essa radiação. Resultado: obtivemos uma fotografia de como seria o cosmos 380 mil anos depois do Big Bang. Seria legítimo pensar que, melhorando os instrumentos, poderíamos ir mais longe, mas

não. Por uma razão simples: só nessa altura a “sopa primordial” se arranjou nos átomos (de hidrogénio e hélio) que conhecemos. Finalmente, os fotões (a luz) puderam começar a circular sem serem imediatamente absorvidos. Para trás deste momento na história do universo, é como se não houvesse luz: havia, mas o percurso de cada fotão era muito curto. Nada poderemos ver por essa via, por melhores que sejam os nossos telescópios e qualquer que seja o comprimento de onda em que funcionem. Pura e simplesmente, a luz não se propagava a grandes distâncias. Resultado: um nevoeiro cósmico impenetrável. Quer dizer que essa fase inicial da vida do universo nos escapará para sempre? Talvez não. As ondas gravitacionais, para além de não serem afetadas pela matéria, são independentes do que se passa com fotões e outras partículas elementares. O que a equipa do LIGO demonstrou é que temos ao nosso alcance meios para detetar essas ondas e começar a interpretar o que nos dizem. Bom prelúdio para a missão eLISA, da Agência Espacial Europeia (ESA), que pretende colocar na órbita solar, por volta de 2030, uma versão alargada do LIGO: três naves num triângulo

equilátero, separadas por um milhão de quilómetros. Será o maior instrumento científico (na realidade, a maior máquina) jamais construída pelo homem. Antes disso, foi despachada para o espaço, em dezembro passado, a sonda LISA Pathfinder, para testar e demonstrar a viabilidade do projeto. Vale a pena fazer um parêntesis para referir que tem a participação da empresa portuguesa LusoSpace, que concebeu o laser de alta potência e estabilidade que será enviado pela nave-mãe para ser refletido pelas naves-filhas. Portanto, e abreviadamente, o que o Nobel que certamente coroará o trabalho do LIGO vai distinguir é algo de radicalmente novo: além de validar mais uma vez a teoria da relatividade geral de Einstein e reforçar a ideia da existência de buracos negros, coloca ao nosso dispor uma nova forma de estudar o universo. Sem dúvida, são belas notícias para quem procura compreender o que são a matéria e a energia escuras, o maior enigma da física atual. Encontrará mais informações sobre o assunto nesta edição, embora, agora, tenham ficado ligeiramente desatualizadas. De facto, o mundo mudou com uma simples observação. C.M./P.A.

Interessante

5

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement