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JOHN SEARLE

John Searle acha que acabaremos por descobrir o que gera a consciência.

Semelhante à digestão

J

ohn Searle, nascido em Denver (Colorado), em 1932, é uma lenda viva da filosofia e dá aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley desde há 56 anos. É escandaloso que, num tema como o da consciência, não haja sequer acordo sobre a sua existência... Filósofos como Daniel Dennett estão presos na ideia de que reconhecer a sua existência implicaria assumir alguma forma de misticismo e a imortalidade da alma. Eu digo que se trata de um fenómeno biológico, localizado no cérebro, tal como a digestão é feita no estômago. Por sua vez, Dennett compara-o a um programa de computador. Os astrónomos ultrapassam as suas disputas com dados. Seria possível resolver assim a questão? Seria preciso ultrapassar 2000 anos de convicções erróneas, algo que não se consegue de um dia para o outro. A loucura de uma posição como a de Dennet será rapidamente esquecida. Durante séculos, foi-nos dito que a consciência não podia fazer parte no nosso mundo físico.

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No entanto, é isso que acontece. Conceções erróneas podem conduzir a investigações inúteis? Com as atuais tecnologias, podemos assinalar o lugar no cérebro onde um indivíduo deixou de ver um pato e vê um coelho, mas eu defino a consciência como uma característica global. Embora alguns cientistas explorem essa via, como Rodolfo Llinás e Wolf Singer, o problema é que as técnicas de investigação localizada são muito melhores. Há dois processos comuns: o estudo de um único neurónio para observar como é ativado sob determinadas condições, e a ressonância magnética funcional, que mostra a atividade de uma zona do cérebro quando se executa uma ação. Ambos focam pontos concretos, e não o conjunto. O linguista Noam Chomsky afirmou que nunca conseguiremos entender o que é a consciência... Sabemos que ela é criada pelo cérebro, através de processos neurobiológicos. Não há razão para não chegarmos a compreender como surge.

Máquinas de pensar Alguns teóricos equiparam o pensamento humano ao processamento de dados dos computadores.

tidade pessoal e de livre arbítrio, resultam apenas, na realidade, do comportamento de vastos conjuntos de neurónios e das moléculas que lhes estão associadas.” Faltava apenas estabelecer o processo que conduzia da massa cinzenta à mente consciente. Os estados subjetivos caracterizam-se por serem privados (só eu apreendo o que captam os meus sentidos) e incomunicáveis, pois não é possível ter acesso ao que os outros sentem. A fim de ultrapassar esse obstáculo, Crick e o seu colaborador, o neurocientista norte-americano Christof Koch, procuraram localizar os neurónios que se ativavam de cada vez que uma pessoa experimentava uma sensação.

OSCILAÇÕES EM SINTONIA

Embora não tivessem encontrado uma região encarregada de processar todos os dados de que temos consciência, constataram que os sinais elétricos emitidos por diferentes células nervosas pareciam oscilar em sintonia. Em 1990, os dois cientistas sugeriram que tais sincronizações davam origem à consciência. Contudo,

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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