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ENIGMAS DA CIÊNCIA: CONSCIÊNCIA

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SHUTTERSTOCK

Os especialistas não conseguiram localizar o centro de operações do nosso mundo interior. Talvez ele dependa de uma complexa interligação neuronal que implique boa parte do órgão pensante.

té há poucas décadas, falar de consciência era uma ocupação própria de charlatães. A ciência é objetiva, com um discurso na terceira pessoa, enquanto a consciência se conjuga, por definição, na primeira pessoa: trata-se do conhecimento de nós próprios, de pura sujetividade. Uma ciência da consciência parecia, pois, uma contradição. Contudo, havia indícios que a vinculavam ao cérebro e convidavam a aprofundar o mistério; era apenas necessário que alguém suficientemente respeitado se atrevesse a ultrapassar todos os preconceitos. Francis Crick (1916–2004), biólogo e físico, com o Prémio Nobel debaixo do braço pela descoberta da dupla hélice do ADN, ousou dar esse passo decisivo e acabar com o ostracismo científico que rodeava a apaixonante questão. Basicamente, o problema que Crick enfrentava era o seguinte: como poderá um sistema físico criar estados conscientes? É aquilo que o filósofo australiano David Chalmers classificou como “o problema difícil”. O (aparentemente) fácil residia em explicar como o cérebro guarda e trata a informação. Crick expôs a base em que assentava o seu plano de investigação nos seguintes termos: “Os nossos prazeres e os nossos desgostos, as nossas recordações e as nossas ambições, o nosso sentido de iden-

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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