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SPL

Documento Chandra Wickramasinghe acredita que há cada vez mais provas em favor da teoria da panspermia.

Biosfera cósmica

N

os anos 70, o astrónomo Fred Hoyle (1915–2001) e o matemático Chandra Wickramasinghe (nascido em 1939) lançaram a tese de que foram os cometas que distribuíram a vida pelo cosmos. Desde então, Wickramasinghe, natural do Sri Lanka e professor na Universidade de Buckingham (Inglaterra), tem insistido na controversa ideia, conhecida por “panspermia”. Que provas existem para defender que a vida provém do espaço? Em primeiro lugar, também não há provas de que tenha começado no nosso planeta. As primeiras bactérias teriam surgido a partir do momento em que podiam sobreviver, há cerca de 4000 milhões de anos. Aconteceu em finais do chamado éon Hadiano, quando a Terra sofreu um episódio de terríveis impactos de cometas. É provável que esses corpos celestes trouxessem água para a Terra, e também transportassem vida. Exclui, então, a ideia de que os primeiros organismos surgiram de um meio inerte? O aparecimento de células autorreplicantes simples a partir de uma sopa pré-biótica (através do ARN ou de qualquer outra rota proposta) implica tremendas improbabilidades. Se nos afastarmos do pequeníssimo volume que os oceanos primordiais da Terra ocupavam e considerarmos um cenário muito mais vasto, colmatamos a brecha do sumamente improvável. É essa a razão para invocar que a vida constitui

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um fenómeno cósmico: teria tido origem uma única vez na história do universo, e a panspermia ter-se-ia encarregado do resto. Por outro lado, a Terra é um campo aberto, e as células e o seu material genético podem mover-se com facilidade uma vez estabelecidas, entrando e saindo do planeta. Por exemplo, se um cometa ou um asteroide atingir a Terra, uma pequena fração dos materiais expulsos pode alcançar os sistemas planetários circundantes. Recentemente, estimou-se que o número de exoplanetas presentes na nossa galáxia pode ultrapassar os 140 mil milhões! Isso significa que a distância entre mundos extrassolares potencialmente habitáveis é de apenas alguns anos-luz. Estamos a falar de uma magnitude muito pequena do ponto de vista da astronomia, e que pode ser facilmente ultrapassada por processos panspérmicos. Crê que a sua tese possui agora mais fundamento do que quando a propôs, há quarenta anos? Sim. É apoiada pela descoberta de que uma importante fração do carbono existente no universo se encontra na forma de moléculas biologicamente relevantes. Além disso, estudos recentes indicam que os cometas são compostos de um material semelhante. Por último, a deteção de células bacterianas em amostras de poeira de cometas obtida na alta estratosfera deveria convencer-nos de que fazemos parte de uma única biosfera interligada.

o ácido ribonucleico (ARN) extrai e transporta as diretrizes contidas no ácido desoxirribonucleico (ADN) até aos ribossomas, organitos que as processam para fabricar proteínas.

TETRAVÔ COMUM

Esta coincidência indica que todas as células partilham um único tetravô, batizado com o nome de LUCA (sigla inglesa de “último antepassado comum universal”), um organismo hipotético do qual não existem restos fósseis. Até agora, pensava-se que essa criatura primordial teria surgido há 3700 milhões de anos, mas uma nova descoberta poderá atrasar o seu nascimento. Trata-se de cristais de zircão, com uma antiguidade de 4100 milhões de anos, dotados de certos vestígios orgânicos de provável origem origem biológica. Seja qual for a data em que surgiu, LUCA parece um ente demasiado complexo e per-

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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