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As teorias dos Big Bangs Que tudo começou com uma grande explosão parecia ser uma ideia inquestionável, mas a moderna astrofísica adianta, agora, alternativas exóticas, com universos múltiplos e ciclos eternos de expansão, contração e regresso ao início.

T

udo indica que, durante a sua primeira infância, o universo era extraordinariamente denso e quente, e que foi arrefecendo enquanto crescia. A radiação cósmica de fundo de micro-ondas, uma espécie de foto do cosmos quando ele tinha apenas 380 mil anos, revela duas características: que é tridimensionalmente plano (o que coincide com a geometria euclidiana), e que possui uma temperatura homogénea. Este último dado é difícil de explicar, pois implica que zonas separadas por longas distâncias troquem informação entre si. A que se deve o equilíbrio térmico existente entre pontos tão distantes e teoricamente sem possibilidade de terem tido contacto físico? Para que tais atributos pudessem encaixar no modelo do Big Bang, o físico norte-americano Alan Guth, do MIT, propôs, em 1980, a teoria da inflação. Guth defende que, durante uma brevíssima fração do primeiro segundo de vida, o universo multiplicou 1026 vezes o seu tamanho. Ou seja, deu um imenso esticão mal nasceu, e isso a uma velocidade muito superior à da luz. Como o que se teria inflacionado era o espaço-tempo (e não as partículas), não contradiz a teoria da relatividade. O inflatão seria o campo hipotético com a energia necessária para produzir a repulsão gravitacional. O estranho cenário, que parecia resolver

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todos os problemas de uma assentada, continua a ser a tese apoiada por boa parte da comunidade científica. Atualmente, trabalha-se num modelo de inflação eterna, um campo do qual surgiriam infinitos universos com diferentes características e condições iniciais: planos, curvos, que se expandem para sempre ou se contraem de imediato. Tal como explicou o próprio Guth, “partindo deste pressuposto, tudo o que possa acontecer acontecerá: de facto, fá-lo-á um número infinito de vezes”.

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Por outro lado, isso poderia explicar por que motivo a carga do protão ou a massa do eletrão possuem valores tão surpreendentemente apropriados para a química e a vida poderem prosperar; o nosso mundo é improvável, pois saem todos os números do Euromilhões: há sempre prémio. Os partidários do cosmos inflacionário afirmam que a expansão ultra-acelerada deve ter deixado uma marca no espaço-tempo, uma onda gravitacional que teria polarizado a radiação de fundo de micro-ondas. O sinal, extraordi­ nariamente ténue, seria o primeiro dado real desse instante, 10–36 segundos após o Big Bang. Contudo, cientistas como Paul Steinhardt duvidam de que ele possa alguma vez ser descoberto. Steinhardt considera que o modelo

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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