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Não é só o futebol

EFE

O

condições climáticas, árbitro... Imaginemos que vamos defrontar o nosso maior rival daqui a um mês. A equipa de analistas começa por estudá-lo e assinala as principais jogadas. Uma semana antes do desafio, o treinador-adjunto já tem todo o material e pode ver o que quiser: por exemplo, as perdas de bola espontâneas do lado direito da equipa adversária nas últimas seis jornadas. Seria de grande ajuda para uma formação específica do lateral.” O Er1c evoluiu muito, afirma o diretor da empresa: “Os utilizadores já podem importar dados biométricos captados por sensores e GPS. Além de analisar uma jogada, o facto de ter essa informação na frente permite avaliar se o jogador perdeu a bola porque estava em sobreesforço. Talvez sejamos a única plataforma internacional que proporciona, em simultâneo, estatística e análise subjetiva.” A empresa, com sede em Barcelona, disponibiliza a sua tecnologia a várias equipas da primeira e da segunda divisões espanholas, incluindo o próprio Barcelona. Todas tiveram de alterar a estrutura técnica para melhor se ajustarem às novas necessidades associadas à tecnologia, como a torrente de estatísticas que é preciso processar sobre os treinos, os jogos e os adversários, embora ainda não ao mesmo nível da Premier League inglesa, onde estão mais avançados: “Depende muito da entidade, mas, em Inglaterra, chega a haver cinco pessoas para analisar dados numa equipa de segunda, ou 50 num dos grandes clubes”, afirma Sebastian Brunnert.

Há uma área em que nenhum clube tem dúvidas sobre a utilidade da tecnologia: a médica. Tem lógica, pois boa parte do rendimento do ano (no campo desportivo e económico) depende de a enfermaria se encontrar mais ou menos cheia: “Estima-se que, na temporada passada, o custo médio das lesões nas quatro ligas europeias mais importantes foi de mais de onze milhões de euros por cada campeonato. Também se estima que os clubes perdem, todos os anos, entre 10 e 30 por cento dos seus jogadores por causa das lesões. Se se conseguir reduzir significativamente os problemas físicos, os clubes pouparão muito dinheiro”, defende Brunnert.

ANTECIPAR LESÕES

A SAP trabalha numa solução para o problema: o Injury Risk Monitor, que será integrado na plataforma SAP Sports One. O programa obtém dados relevantes sobre um jogador através dos chips integrados na sua indumentária ou outros dispositivos externos. A informação é recolhida durante os treinos, os testes físicos e os jogos, e aplica-se uma fórmula matemática para estimar o risco de o futebolista sofrer uma lesão. Isso ajuda médicos e fisioterapeutas a conhecer os pontos fracos do atleta e a escolher os cuidados necessários. Desempenha também um papel fundamental nas fases de recuperação, pois avalia os ritmos de restabelecimento e proporciona dados de prevenção para evitar que o problema se agrave ou se torne crónico.

futebol é sempre a ponta do icebergue pela sua relevância mediática, mas os sistemas de recolha de dados para otimizar o rendimento estão a chegar a quase todos os desportos e, em alguns casos, até em maior medida. É o caso do râguebi: os técnicos podem receber informação durante os desafios, em tempo real, e utilizá-la para alterar as suas táticas. A multinacional alemã SAP já aplica a sua tecnologia a modalidades como o hóquei sobre gelo, a vela, o golfe, a Fórmula 1, o futebol americano, o basebol, o basquetebol e o ténis, entre outros. Neste último desporto, chegou a acordo com a WTA, a Associação de Ténis Feminino, para proporcionar métodos e equipas de análise de dados que ajudam as atletas a estudar o seu jogo e a aperfeiçoar a estratégia. Uma das novidades da temporada em curso é uma aplicação móvel que os treinadores podem utilizar nos jogos para analisar o rendimento das suas jogadoras.

Alguns receiam que a tecnologia possa aprofundar a brecha entre profissionais e categorias amadoras, mas a realidade desmente essa preocupação: os amadores também utilizam métodos avançados. Segundo Brunnert, muitas coisas são testadas nos juvenis e, quando a tecnologia está madura, passa para as equipas principais. Há também programas específicos, como o Scout7, que oferecem bases de dados com milhares de futebolistas de todo o mundo, classificados pela posição em que jogam, nacionalidade, clube, idade, lesões e outros parâmetros muito úteis para as direções desportivas dos clubes profissionais. Outros programas de análise, como o Er1c, também oferecem esse serviço, com uma opção adaptada às equipas técnicas dos clubes. É muito semelhante ao que os treinadores usam, mas incorpora um módulo independente com uma base de dados sobre jogadores de todo o planeta. É possível ver aí as diversas facetas do futebolista escolhido: a defender, a driblar, a marcar golo, a marcar o avançado rival... Trata-se de ferramentas de grande utilidade, embora o fator humano continue a ser insubstituível. As bases de dados de jogadores, nem que seja pela quantidade de informação que contêm, são importantes quando se trata de avaliar possíveis contratações, e constituem uma boa ajuda, mas não se contrata alguém que não se tenha visto jogar ao vivo umas quantas vezes. D.L.

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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