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KRIS KRÜG

Em fuga. Para o neurocientista David Eagleman, quando a nossa consciência consegue processar a informação necessária para construir o agora, ela já passou à história.

Viver perto do presente é uma vantagem evolutiva cipal do Grupo de Perceção Ativa da Universidade de Trento (Itália), demonstrou que o presente se prolonga por dois a três segundos. Para comprová-lo, pegou numa película e cortou algumas cenas em troços mais pequenos. Em alguns casos, duravam milésimos de segundo; noutros, vários segundos. Depois, montou-os de forma aleatória e reconstituiu as cenas. Melcher descobriu que os voluntários que participavam na sua experiência acompanhavam o argumento como se nada se tivesse passado no caso de a duração dos pequenos cortes não ultrapassar os 2,5 segundos; para além desse limite, os espetadores percebiam que se passava algo de estranho. O efeito, segundo Melcher, é semelhante ao que acontece quando se vê um texto no qual se suprimiu ou mudou de lugar algumas letras de cada palavra. Apesar disso, conseguimos lê-la, pois o cérebro preenche as ausências. No entanto, falha quando modificamos sistematicamente, por exemplo, a primeira e última letra de cada palavra. Melcher explica que essa janela de quase três segundos de que dispomos para perceber o agora é consequência de um mecanismo que resolve um problema alucinante: o de o cére-

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bro estar sempre a lidar com informação obsoleta. A janela não pode ser demasiado grande. O facto de o encéfalo trabalhar tudo o mais perto possível do presente é uma nítida vantagem evolutiva. Se vivêssemos, por exemplo, demasiado no passado, correríamos o risco de não nos inteirarmos do que acontece no agora. É por isso, segundo Eagleman, que o cérebro permite aos nossos sistemas de perceção um atraso máximo de um décimo de segundo para poder, depois, construir o presente, que na realidade já decorreu, em pouco mais de dois segundos. “A nossa perceção do mundo está colocada no passado”, diz o especialista.

PERCEÇÃO VARIÁVEL

No nosso encéfalo, há estruturas que utilizam os ciclos de luz e de escuridão para ajustar determinados ritmos biológicos, mas ainda não se esclareceu como registam a passagem dos segundos e dos minutos. Efetivamente, há situações que alteram a nossa perceção do tempo: um estudo feito com estudantes de psicologia demonstrou que estes sobreestimavam a duração de determinado intervalo depois de terem visto fragmentos de filmes de terror. Sylvie Droit-Volet, professora do

Laboratório de Psicologia Social e Cognitiva da Universidade Blaise Pascal (França), indica que tal acontece porque o medo estimula a amígdala cerebral, o que acelera o nosso relógio interno. Segundo Droit-Volet, tratar-se-ia de um mecanismo de defesa ancestral, desenvolvido para podermos decidir sem demora se enfrentamos uma ameaça ou fugimos dela. Um estudo publicado na revista PLoS One por especialistas do Reino Unido e da Irlanda estabeleceu, pelo contrário, que as pessoas deprimidas estimam com maior precisão a duração dos intervalos que se prolongam por três a 65 segundos. Curiosamente, as substâncias estimulantes fazem-nos sobreestimar os períodos de tempo, enquanto os antidepressivos e os anestésicos têm o efeito oposto. Do mesmo modo, a nossa perceção temporal acelera à medida que envelhecemos. Quando se pediu a dois grupos de pessoas, um com indivíduos entre os 19 e os 24 anos, e outro com voluntários dos 60 aos 80, para calcularem a passagem de três minutos, observou-se que os jovens erravam, em média, cerca de três segundos. No segundo caso, o erro era de 40 segundos. A que se deverá isto? Mistério... A verdade é que Einstein já parecia perceber o que acontece no nosso cérebro quando afirmou, referindo-se à relatividade, que “a distinção entre passado, presente e futuro constitui uma ilusão persistente”. M.A.S.

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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