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Tempos desiguais

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nossa perceção da passagem do tempo depende da idade: à medida que envelhecemos, parece passar mais depressa. Para o neurocientista David Eagleman, esse fenómeno está sobretudo relacionado com a novidade. Quando somos jovens, experimentamos muitas coisas pela primeira vez: os primeiros aniversários, as primeiras férias, o primeiro beijo... Eagleman assinala que há muito para recordar dessas ocasiões. A lista é tão densa e as memórias ficam tão apertadas que temos a sensação, ao evocá-las, de que devem ter durado muito. “É possível comprová-lo no nosso quotidiano”, indica. “Quando se conduz, pela primeira vez, até um novo local de trabalho, o caminho parece mais longo. Porém, quando já se fez o percurso diversas vezes, parece mais curto, pois o cérebro deixou de armazenar informação.” Contudo, “estas sensações não passam de uma ilusão, uma fantástica construção do nosso cérebro”, explica Eagleman. “Quanto mais recordações tivermos associadas a algo, mais tempo o nosso cérebro pensa que duraram”, diz. Na sua opinião, o que acontece é que o encéfalo conserva as novas experiências de um modo distinto do habitual. Além disso, descobriu-se que utiliza mais energia quando tem de dar forma a uma evocação inédita. Por outras palavras, o acontecimento original suscita abundantes recordações, enquanto coisas rotineiras do nosso quotidiano, posteriores ao episódio inédito, não passam de meros esboços na nossa cabeça.

entender como construímos o presente, que o cérebro processa a informação a uma velocidade diferente da que lhe é proporcionada pelos sentidos. O nosso sistema auditivo, por exemplo, pode distinguir dois sons separados entre si por um milésimo de segundo, mas o visual quase não consegue entender como distintas duas imagens que distem menos de uma dezena de milésimos de segundo. As coisas complicam-se quando procuramos determinar se dois acontecimentos ocorrem de forma simultânea. A nossa mente crê que é isso que aconteceu quando o intervalo entre ambos é inferior a cinco milésimos de segundo, mas detetar a ordem pela qual se produzem os estímulos exige-nos bastante mais tempo: pode chegar aos cinquenta milésimos de segundo. Tal conclusão implica que o nosso cérebro tem de compaginar essas disparidades para poder criar uma imagem unificada do meio circundante. “Para que o cérebro visual possa apreender os diferentes eventos, é preciso esperar pelo menos um décimo de segundo, o tempo

que a informação mais lenta demora a chegar”, explica Eagleman. A tarefa complica-se se tivermos presente que a luz e o som viajam a velocidades distintas, pelo que os nossos sentidos não os captam ao mesmo tempo, mesmo que tenham sido produzidos em simultâneo, como acontece, por exemplo, no caso de um espetáculo de fogo de artifício.

PREVISÕES EM SÉRIE

Como consegue a nossa cabeça lidar com tudo isto? Os neurocientistas pensam que, para consegui-lo, o encéfalo faz continuamente previsões sobre o que irá acontecer. Essa característica foi aproveitada nos primeiros dias da televisão, quando se procurava harmonizar os sinais de vídeo e áudio. Os engenheiros perceberam que o cérebro dos telespetadores sincronizava automaticamente ambos se eles chegassem dentro de um intervalo de um décimo de segundo. Uma equipa de cientistas coordenada por Virginie van Wassenhove, da Unidade de Neu-

roimagem Cognitiva do Centro de Investigação Neurospin, em Gifsur-Yvette (França), desenvolveu um ensaio para lançar um pouco de luz sobre o fenómeno. Os cientistas expuseram um grupo de voluntários a uma série de clarões e bips produzidos uma vez por segundo, mas separados entre si por dois décimos de segundo. Em simultâneo, registaram a sua atividade cerebral. Descobriram, assim, que se produziam duas ondas cerebrais, uma no córtex visual e outra no auditivo, com uma frequência igual de uma vez por segundo. Inicialmente, os sinais acústicos e visuais estavam desfasados; para os voluntários, clarões e sons eram estímulos separados. Todavia, quando começaram a apreendê-los em simultâneo, as suas ondas cerebrais começaram a ajustar-se. Segundo Van Wassenhove, “esse facto reflete a existência de um mecanismo ativo no cérebro que lhe indica como lidar com o tempo”. O estudo sugere que o cérebro inconsciente é que decide o que é o agora. Em 2014, David Melcher, investigador prinInteressante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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