Page 40

O tempo flui, mas nós estamos sempre no presente

RITMOS IMPLÍCITOS

No seu modelo fisiológico, Meck estabelece uma distinção entre ritmo temporal implícito e explícito. O segundo determina a duração de um estímulo, enquanto o primeiro estabelece quanto tempo separa um evento de outro iminente; o ritmo implícito seria, pois, o modo como o cérebro define o agora. Nestas duas formas de estimativa temporal, regista-se a intervenção de diferentes áreas neuronais: a implícita, que surge, por exemplo, quando vamos efetuar uma atividade motora, implica o cerebelo e o córtex parietal e pré-motor esquerdos; por sua vez, a explícita utiliza habitualmente o córtex pré-frontal direito e a área motora suplementar, uma parte do córtex que contribui para controlar o movimento. Todavia, o nosso sentido implícito do tempo apresenta dois aspetos, aparentemente incompatíveis: por um lado, mostra-nos que existimos de forma permanente no presente; por outro, que o tempo flui continuamente e sem saltos, do passado para o futuro.

38 SUPER

DARREN HOPES / AGE

N

ão é fácil saber o que é o presente. O termo indica uma ação que ocorre no momento em que estamos a falar, algo instantâneo. Por isso, dizemos “estou a comer” e não “como”. Alguns estudiosos acreditaram ter encontrado uma definição para o fenómeno num dos Aforismos do Ioga de Patanjali, escritos entre os séculos IV e III a.C., nos quais se sugere que só através da supressão dos processos mentais podemos experimentar o agora; o simples ato de pensar traz à cabeça experiências passadas, o que nos impede de conhecê-lo. Seja como for, se quisermos saber algo sobre o presente, será necessário entender como apreendemos a passagem dos minutos e das horas. Embora não tenhamos um sistema sensorial específico para o tempo, desenvolvemos algumas estruturas biológicas que nos ajudam a delimitá-lo, como o córtex cerebral, o cerebelo e os gânglios basais. Além disso, temos na parte central do hipotálamo o núcleo supraquiasmático, que controla os ciclos circadianos e do qual dependem os ritmos regulares seguidos pelo nosso organismo. O psicólogo Warren Meck, da Universidade Duke (Estados Unidos), um dos maiores especialistas no assunto, assegura que a nossa capacidade para apreciar o tempo se deve à atividade oscilatória das células do córtex superior do cérebro, cuja frequência é detetada pelo núcleo estriado, outra zona do encéfalo.

Para as crianças, o tempo passa mais devagar, pois estão constantemente a experimentar coisas novas. As rotinas fazem o tempo passar mais depressa.

Como é possível que uma série de agoras se transforme nesse rio de tempo que flui sem interrupção? Segundo Marc Wittmann, do Instituto de Áreas Limítrofes da Psicologia e da Saúde Mental, de Friburgo (Alemanha), há uma hierarquia nesses instantes, dos quais cada um forma os tijolos com os quais se começa a construir o seguinte. De acordo com Wittman, tudo começa com um momento funcional, isto é, a reação do cérebro a um estímulo externo, o qual dura geralmente, quanto muito, uma dezena de milésimos de segundo. Depois, todos os momentos funcionais combinam-se para formar o agora consciente, uma tarefa que leva ao cérebro três segundos. Por último, o nosso órgão pensante constrói essa imagem de que o tempo flui, o que lhe exige apenas meio minuto. O que chamou a atenção de Wittmann foi uma das premissas do ioga, a qual afirma que meditar nos faz estar mais em contacto com o presente. Intrigado com essa ideia, concebeu uma experiência. Wittmann pediu a 38 pessoas

que se dedicavam habitualmente à meditação e a outras 38 que não o faziam que observassem um cubo de Necker, uma estrutura cuja perspetiva parece mudar continuamente devido a uma ilusão ótica. Os voluntários tinham de premir um botão de cada vez que pensassem ver uma alteração. Desse modo, era possível estimar a duração do presente psicológico. Com base nos dados obtidos, Wittmann conseguiu estabelecer que era de quase quatro segundos. Aparentemente, a meditação não favorecia o apego ao presente que apregoava. Contudo, o especialista observou que os que a praticavam conseguiam ver a mesma perspetiva do cubo de Necker durante oito segundos, mais dois do que os que não o faziam: o que a meditação melhora é a capacidade de atenção.

TRABALHO DE SINCRONIZAÇÃO

Como explica o neurocientista David Eagleman, que dirige o Laboratório de Perceção e Ação da Faculdade de Medicina de Baylor (Texas), devemos tomar em consideração, para

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement