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Arriscado. Fóssil de Chaohusaurus dando à luz três crias, que saíam assomando primeiro a cabeça. O esquema à direita ajuda a compreender a imagem: a preto e azul, a coluna vertebral da mãe e a sua pélvis; a verde, a caixa torácica; a amarelo, a cria a nascer; a laranja, o embrião ainda no ventre da mãe; a vermelho, vestígios da cria já nascida.

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chus. O pterossauro acabava por se afogar e o peixe, como não conseguia desprender-se, morria de exaustão.

TRÍPTICO DA CADEIA ALIMENTAR

Há 290 milhões de anos, um Triodus, antigo tubarão de água doce, devorou um primitivo anfíbio que comera, imediatamente antes, um peixe. O tubarão, satisfeito e de barriga cheia, morreu sepultado sob um monte de sedimentos. Os sucos gástricos não tinham tido tempo de digerir praticamente nada, de modo que ficou perfeitamente preservado o instantâneo de uma cadeia alimentar com três sequências, cada uma dentro da outra, à semelhança das bonecas russas matrioskas. Este fóssil excecional foi encontrado no sudoeste da Alemanha e descrito em 2007. Os cientistas tiveram o cuidado de esclarecer que os animais não tinham surgido juntos dessa forma por acaso, mas porque cada um devorara o seguinte. Na realidade, o tubarão não comera um anfíbio, mas sim dois: um Archegosaurus em fase larvar e um Cheliderpeton,

que tinha no estômago um peixe da espécie Acanthodes. Os tubarões de água doce já não existem, nem esse tipo de anfíbios ou os primitivos peixes Acanthodes. O tríptico fóssil constitui uma fotografia de enorme valor da ecologia de uma época muito remota e diferente da nossa.

O PARTO DO ICTIOSSAURO

Poucos instantantâneos fósseis podem ser tão dramáticos como os de um parto, mas mostram interessantes alterações na reprodução dos animais extintos. Os ictiossauros (lagartos-peixes) foram répteis marinhos semelhantes aos golfinhos. Não punham ovos, mas pariam as crias dentro de água. Foram encontradas centenas de fêmeas com embriões no seu interior e são conhecidos pelo menos dois partos em diferentes etapas. O primeiro é de um Stenopterygius, um género muito comum que viveu há 180 M.a. (Jurássico). A mãe tem cerca de 3 m. A cria nasce de nádegas, com a cauda primeiro, como os golfinhos. Tem lógica: se a cabeça surgir antes

e o parto se complicar, a cria poderá afogar-se. O segundo é de um Chaohusaurus, o ictios­ sau­ro mais antigo que se conhece (248 M.a.). Com apenas 1 m, de corpo alongado e barbatanas pouco desenvolvidas, nadava ondulando o corpo. A sua estirpe estava há pouco tempo no mar e ainda não adquirira a forma de fuso. No parto pertrificado, é possível observar três crias: uma ainda dentro da mãe, outra fora e a terceira a nascer, de cabeça primeiro. Não parece acidental, pois as três possuem a mesma orientação, mas nascer de cabeça é tão vantajoso num animal terrestre como perigoso no caso de um aquático. Os investigadores deduzem que, antes de se adaptar a viver na água, os antepassados dos ictiossauros davam à luz em terra. Embora fossem répteis, tinham deixado de pôr ovos. Depois, à medida que a evolução modelava um corpo apto para a vida marinha, o parto aquático melhorou. Em algum momento entre o Chaohusaurus e o Stenopterygius, as crias deram a volta. E.C.

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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