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SPL

Em grupo. Trilobites da espécie Ellipsocephalus hoffi. Estes extintos artrópodes tinham um comportamento gregário.

que sobreviveram nos mares e oceanos do planeta durante quase 300 M.a. Por tudo isto, as fotos fossilizadas com diferentes formas e comportamentos abundam neste grupo de artrópodes ou invertebrados marinhos. Foram encontradas, por exemplo, muitas provas da morte em massa de trilobites devido a catástrofes súbitas produzidas por furacões. Rochas cheias de indivíduos da mesma espécie e tamanho revelam que esses antigos seres podiam ser gregários. Alguns fósseis contêm centenas de exoesqueletos de mudas recentes. Tal como alguns caranguejos modernos, as trilobites juntavam-se em grandes aglomerações para lançar operações delicadas e de risco, mas necessárias para a sua sobrevivência: em concreto, mudar a carapaça e, aproveitando a nudez, acasalar em autênticas orgias. Na costa norte de Portugal, junto do Porto, foram encontrados restos fossilizados que mostram longas cadeias de pequenas trilobites em comboio. Trata-se de filas migratórias, um comportamento social que observamos hoje nos gafanhotos e que tem, aparentemente, mais de 400 milhões de anos de antiguidade.

ACASALAMENTO FATAL

Os paleontólogos descobriram muitos exemplos fossilizados de cópulas entre insetos e ácaros, mas não havia um de animais vertebrados. Por fim, em 2012, foram encontrados

nove pares de tartarugas do Eoceno, com 47 M.a., na jazida alemã de Messel, a sul de Frankfurt. Em tempos, foi um lago tropical formado numa cratera profunda, cujo fundo, sem oxigénio e talvez saturado de substâncias tóxicas, conservou de forma espetacular os corpos de muitos animais. Podemos afirmar que as tartarugas, nove machos e fêmeas da espécie Allaeochelys crassesculpta, estavam a copular? Os machos são 17 por cento mais pequenos e possuem uma cauda mais comprida, enquanto as fêmeas têm na carapaça uma parte móvel com uma espécie de dobradiça, útil para pôr os ovos. Em dois dos fósseis, as caudas estão em posição de acasalamento. Porque terão morrido no ato? As tartarugas aquáticas acasalam na água. Quando a fecundação ocorre, o casal em êxtase afunda-se por alguns momentos. Nesse caso, à medida que desciam até às camadas mais baixas do lago, aumentava a concentração de gases tóxicos, os quais invadiam a corrente sanguínea dos amantes, matando-os em segundos.

A SERPENTE QUE ROUBAVA OVOS

Os amantes dos documentários sobre a natureza recordam certamente aquela serpente africana que consegue engolir um ovo inteiro, maior do que a sua cabeça. Mandíbulas de borracha e grandes goelas são também características de boas, pitões, cobras, víboras... Porém,

as serpentes antigas não dispunham das mesmas capacidades de muitas das suas descendentes modernas. Assim, a Sanajeh indicus, do Cretácico tardio, não tinha um crânio apto para engolir um grande ovo, nem dentes capazes de perfurar uma casca grossa. Talvez pudesse partir os ovos esmagando-os com o corpo, como faz atualmente a Loxocemus bicolor americana, mas precisaria de muita força. Teria sido mais fácil rondar os ninhos alheios, detetar pelo ruído os que tinham ovos prestes a eclodir e esperar tranquilamente pelo nascimento da cria para a devorar. É a estratégia que se pode deduzir de um fóssil encontrado na Índia, em 1984. Contém um ninho de ovos de titanossauro, um grande dinossauro saurópode de pescoço comprido que não protegia os seus ovos. A nidificação contém os restos de uma cria recém-nascida com meio metro de comprimento. Dezassete anos depois, após um novo exame feito ao fóssil, descobriu-se a serpente. Estava enrolada junto do bebé dinossauro, em redor de vestígios do que fora o seu ovo. Tinha cerca de 3,5 m de comprimento. Antes de ter podido devorar o pobre recém-nascido, um monte de sedimentos caiu-lhes em cima e sepultou-os para sempre. Os paleontólogos descobriram restos de Sanajeh indicus noutros ninhos de titanossauro. Interpretam, por conseguinte, que a associação Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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