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Reconhecem os donos até no ecrã da televisão

Traz-me o Pokémon! Estudado por cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha), o border collie Rico era capaz de identificar 200 objetos pelo nome. Morreu em 2008.

ter emulado os seres humanos, enquanto os restantes foram incentivados para o conseguirem através dos seus próprios métodos. Resultado? O grupo de imitadores aprendeu muito mais depressa. Ou seja, os cães não abordam este tipo de problemas através de tentativa e erro: podem resolvê-lo de forma imediata se virem alguém fazê-lo primeiro. A conclusão é que a memória canina é mais parecida com a nossa do que se pensava. De facto, os cães também possuem a modalidade declarativa ou episódica, a capacidade de recuperar conscientemente memórias associadas a factos ou conhecimentos.

COMUNICAÇÃO

Plásticas e flexíveis, as cordas vocais dos cães permitem-lhes emitir sons com significados que tanto os seus congéneres como os seres humanos entendem, pois os latidos variam, consoante o contexto, em amplitude, duração e tom. Assim, fazem-se ouvir para recrutar outros em caso de perigo, e identificam os indivíduos pelos sons que captam, a fim de classificá-los como amigos ou inimigos. Parecem também saber ajustar a sua expressividade à audiência. Isso significa que modificam as vocalizações e os gestos consoante o que vê ou não vê (e ouve ou não ouve) quem os acompanha. Assim, os cães-guia que ajudam as pessoas cegas lambem mais os donos para que possam receber a informação que possuem: as lambidelas são a sua resposta por viver com pessoas que não reagem a sinais visuais. Do mesmo modo, desobedecem às ordens se houver perigo para os donos. Numa determinada experiência, um cão devia escolher entre pedir comida a uma pessoa com os olhos tapados ou a outra que podia ver. O animal dirigia-se sempre à segunda: sabia que podia comunicar com ela se distinguisse os seus olhos. Trata-se de algo que a maior parte dos animais não faz: identificar quem possui a informação desejada. A fim de averiguá-lo com maior precisão, o psicólogo József Topál, da Academia Húngara de Ciências, ocultou vários objetos em caixas, todas fechadas à chave. Depois de escondê-las na presença de um cão chamado Philip, surgia um ser humano que não sabia onde estavam. As reações de Philip foram muito semelhantes às que se obtêm de crianças nas mesmas circunstâncias: apanhava as chaves e conduzia a pessoa até ao sítio onde o objeto estava guardado. Se o voluntário estivesse presente quando Topál fechava as caixas, o cão nada

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fazia para ajudá-lo. Isto é, tinha consciência do que tinha visto, ou não, no passado. Embora os cães não possuam uma linguagem tão complexa como a nossa, a sua inteligência em termos de comunicação é fascinante.

AUTOCONSCIÊNCIA

O teste clássico para determinar se um animal possui perceção de si próprio consiste em confrontá-lo com um espelho. Se pintarmos uma marca na cara de um chimpanzé ou de um elefante sem que ele se tenha apercebido, irá tocar no sinal, ou tentar retirá-lo, ao ver o seu reflexo, pois sabe que se trata da sua própria imagem. O problema de utilizar este tipo de testes com cães é que eles não são tão visuais; por essa razão, nem todos os autores concordam com o mérito do teste. Por exemplo, Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evo-

lutiva na Universidade do Colorado, considera que ele não pode ser aplicado a espécies que apreendem o mundo através do olfato. Se pensarmos que um cão possui 220 milhões de recetores olfativos, e compararmos esse número com os cinco milhões presentes no nariz humano, a ideia não parece descabida. De facto, Bekoff concebeu um teste que promete abrir novos debates entre os especialistas. Em primeiro lugar, o investigador obtém uma amostra de urina de um cão e esconde-a num bosque. Em seguida, passeia a criatura pela zona e examina as suas reações perante a própria micção, a fim de poder compará-las com as que manifesta quando fareja a urina de outros. Assim, o especialista norte-americano conseguiu comprovar que os exemplares não urinavam sobre as próprias marcas, o que parece constituir um indício de possuírem uma certa consciência de si próprios.

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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