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Sociedade Digital

Aaron Sartz, herói digital Fez no passado dia 11 de janeiro três anos que Aaron Swartz, então com 26 anos, pôs fim à própria vida no seu apartamento de Brooklyn, Nova Iorque. Nesse dia, o programador, hacker, ativista e empreendedor brilhante converteu-se naquele que é provavelmente o primeiro herói da revolução digital.

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uando se fala de heróis (ou vilões, conforme o ponto de vista) da era da internet, os nomes que imediatamente vêm à baila são os de Julian Assange ou Eduard Snowden. Ambos lutaram, à sua maneira, para proteger os cidadãos do poder abusivo dos estados nesta era de abundância dos mecanismos de vigilância e controlo digital, mas nenhum deles deriva o seu “heroísmo” daquela que é a essência da revolução digital em curso: a liberdade de produção e distribuição de informação. Aaron Swartz é o primeiro mártir dessa revolução, e provavelmente o seu primeiro grande herói. Dois livros editados recentemente ajudam a explicar porquê. Um deles – The Boy Who Could Change the World: The Writings of Aaron Swartz – reúne as ideias expressas em vários locais e circunstâncias pelo próprio Swartz. O outro – The Idealist: Aaron Swartz and the Rise of Free Culture on the Internet – é uma biografia, assinada por Justin Peters, que tem a vantagem de explicar em pormenor e do ponto de vista teórico qual a essência e a razão de ser do ativismo de Aaron Swartz. O documentário The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, realizado por Brian Knappenberger em 2014 (e disponível no YouTube, naturalmente) ouve familiares, amigos e especialistas para obter o mesmo ponto de equilíbrio entre o lado pessoal de Aaron Swartz e a sua militância política e social. Vale a pena ver!

QUEM ERA AARON SWARTZ?

Aaron Swartz era o protótipo do menino-prodígio da era da internet. Programador e hacker, desde cedo revelou uma curiosidade insaciável pelos temas da tecnologia e da programação, andando sempre um ou dois pas-

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sos à frente dos outros jovens da sua idade em termos de percurso académico. Na verdade, quando olhamos para o percurso de vida do jovem Swartz, é impossível não notar o paralelo com muitos outros jovens que hoje dão cartas nas novas empresas de Silicon Valley. A diferença, em Swartz, foi que em determinado momento as suas preocupações políticas e sociais sobrepuseram-se ao seu empreendedorismo e ele tornou-se o ativista que hoje conhecemos. Esteve ligado à fundação do site Reddit, criou a primeira geração do RSS, desenvolveu as licenças Creative Commons e iniciou o movimento que levou à derrota dos projetos SOPA e PIPA, que pretendiam compartimentar e regular a livre circulação da informação na internet. Uma das coisas que irritava particularmente Aaron Swartz era o facto de os trabalhos académicos, cujo valor social e científico é obviamente inestimável, serem mantidos atrás de uma barreira de copyright que ele considerava antiquada e anquilosada. Foi esse sentimento de injustiça que o levou à cave do MIT para, usando as suas credenciais académicas, descarregar milhares de trabalhos da base de dados do JStor. Parece claro que o seu objetivo não era vender esses documentos nem realizar lucro com eles, mas somente colocá-los ao dispor do público em geral (o que aliás tinha sido muito antes expresso num manifesto). No entanto, foi isso que levou à acusação de obtenção ilegal de documentos, entre outras, com penas que, no conjunto, podiam ir até aos 35 anos de prisão e um milhão de dólares em multas. Ou seja, a justiça norte-americana queria fazer de Aaron Swartz um exemplo e foi a perspetiva de isso vir a acontecer que ele não aguentou.

A LIBERDADE DE INFORMAÇÃO

Por detrás da luta de Aaron Swartz estava obviamente a confrontação entre dois mundos muito diferentes: de um lado, as instituições que continuam a regular e controlar os fluxos de informação na sociedade (as editoras e os direitos de autor, por exemplo); do outro, os efeitos desreguladores que as tecnologias de informação e comunicação digitais têm sobre essas instituições. Para perceber a fundo a questão, precisamos olhar para as características especiais da informação e para o efeito que as tecnologias digitais têm sobre elas. Em primeiro lugar, a informação é, ao contrário dos outros, um produto “não rival”, o que significa que a utilização de uma informação por parte de alguém não impede que outra pessoa a use também. Em segundo lugar, é “não exclusiva”, o que significa que, uma vez que alguém tenha uma informação, é muito difícil evitar que outras pessoas não a tenham também. Por outro lado, a informação é aquilo de que são feitas as nossas relações sociais. É através de trocas de informação que nós coordenamos as nossas ações sociais, sejam elas pessoais ou profissionais, económicas ou não econó-

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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