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A Nebulosa do Caranguejo (M1).

O céu de março

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úpiter já faz parte do céu observável ao princípio das noites do mês de março deste ano e é muito frequente ouvir-se dizer que “é mais bonito do que Saturno”, dado que este, excetuando a “novidade” de se mostrar com uma espécie de “chapéu” (Galileu afirmou que, pelos seus telescópios, pareciam orelhas), não apresenta tantos pormenores e variações de aspeto como Júpiter. De facto, o maior dos planetas do Sistema Solar evidencia – mesmo através de um telescópio não muito grande – como que faixas irregulares mais visíveis na região equatorial e, talvez mais interessante do que isso, as suas quatro luas facilmente observáveis não param de alterar as posições relativas, simulando uma espécie de bailado cósmico. Por o seu deslocamento pela esfera celeste ser extraordinariamente lento, todos os meses Júpiter é ultrapassado pela Lua, acontecimento que ocorrerá no dia 21, segundo dia de primavera. Antes disso, já o nosso satélite natural terá percorrido quase todo o céu, tendo surgido no dia 11 (com a idade de dois dias, ou seja, dois dias depois de Lua Nova), como um

fino crescente projetado sobre estrelas da constelação dos Peixes. Depois, prosseguirá o seu atraso em relação às estrelas, surgindo em cada noite um pouco mais à esquerda, sempre nas proximidades da eclíptica, linha imaginária no céu que corresponde ao plano da órbita da Terra e que no mapa das páginas seguintes se representa a tracejado. No dia 13, a Lua passará a sul do enxame das Plêiades (M45) e o seu brilho é já suficiente para ofuscar aquele grupo de estrelas (popularmente designado por “sete estrelo”), embora ainda seja possível ver as mais brilhantes, apesar de ligeiramente “apagadas”. Dois dias depois (15 de março), será Quarto Crescente e a Lua projetar-se-á (ainda na constelação do Touro) praticamente na direção em que se encontra uma nebulosa que o astrónomo francês Charles Messier observou em 1758 e o motivou a elaborar o seu famoso catálogo de manchas que via no céu e que, aos poucos, se foi confirmando englobarem nebulosas, enxames de estrelas e galáxias. À referida nebulosa, situada na constelação do

Touro e onde Lord Ross, em 1844, viu filamentos que comparou com as “pernas de um caranguejo”, Messier atribuiu o número 1 do seu catálogo, razão por que é conhecida como M1. Na véspera do início da primavera, a Lua estará um pouco à esquerda de outro enxame, o M44, que, em ambientes de céu escuro, os olhos podem alcançar e corresponde ao objeto celeste já referido em registos anteriores ao início da nossa era, não se sabendo quem ali imaginou um Presépio ou uma Colmeia, designações que ainda hoje se lhe atribuem. Depois do aparecimento do telescópio, tornou-se possível perceber que a “pequena nuvem” (como lhe chamou Hiparco, em 130 a.C.) é constituída por centenas de estrelas, das quais Galileu terá contado 36. O céu visível a norte mostra a Ursa Maior bem alta, logo ao princípio das noites, ao passo que a Cassiopeia vai surgindo cada vez mais perto do horizonte, a noroeste. Agora como sempre, o céu é visto como rodando em torno de um ponto “fixo” – o polo – marcado pela Estrela Polar, que “não se move”. Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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