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Caçadores de Estrelas

Equinócio, Lua e Páscoa

É

tido como certo que a escolha de datas próximas de Lua Cheia para a realização de rituais pagãos ou religiosos, ao longo dos tempos, terá resultado da necessidade de aproveitar o luar quer para as deslocações noturnas quer para manter alguma iluminação nos locais em que decorriam os cultos. Tal tradição, por ocasião da passagem do inverno para a primavera, terá fixado festividades, representando para uns simples festejos associados ao findar de um período frio e pouco produtivo a que se seguia o ressurgimento de condições naturais propícias ao crescimento de cereais e plantas que constituiriam o indispensável sustento, e para outros o momento de agradecerem aos seus deuses a vida que lhes permitia contemplar a repetição de um ciclo da natureza e orar para que o ano seguinte lhes trouxesse felicidade e abundância. A “passagem” – que alguns investigadores associam à sucessão do inverno pela primavera ou à libertação (Pessach) de Israel do regime escravo do Egito, ou ainda, mais recentemente, à morte e ressurreição de Cristo – estabeleceu-se também intimamente ligada à Lua Cheia. Em todos os casos, a relação com o início da primavera é evidente, ocasião em que o calendário hebreu fixou o seu primeiro mês (Nisan) e que foi também o primeiro mês do ano (março) para os romanos, até 713 a.C., data em que Numa Pompílio fez entrar em vigor um calendário de inspiração lunar. Nas igrejas cristãs, a celebração da Páscoa gerou, inicialmente, alguma controvérsia: enquanto uns preferiam uma data certa (mesmo que fosse dia de semana), outros optavam pelo domingo seguinte a essa data e outros ainda – com o objetivo de conformar a ocasião com hábitos anteriores, de judeus convertidos – faziam coincidir as celebrações com a data da Pessach. Depois de três séculos de conflitos, no ano de 325, na cidade de Niceia (atual Izniq, na Turquia) reuniu-se um concílio de bispos que, para além de outros assuntos da igreja cristã, tratou a questão da data da Páscoa, tendo estabelecido a regra de que a Páscoa é no domingo seguinte ao décimo quarto dia da Lua

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Ícone da igrja ortodoxa representando o primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325.

que atinge esta idade a 21 de março ou imediatamente a seguir. Tal decisão, embora tivesse a intenção de conduzir a uma uniformização em toda a igreja, em qualquer região geográfica do mundo, arrastaria consigo uma característica ainda hoje bem conhecida – a data variável da Páscoa e, com isso, outros momentos com ela relacionados, como o Carnaval – e a particularidade de a definição da data, embora muito ligada às fases da Lua, ficar sujeita a ocorrências de incompatibilidades entre o calendário eclesiástico e o astronómico, pois o décimo quarto dia após a Lua Nova pode não corresponder, exatamente, à fase de Lua Cheia, e o equinócio ocorre mais vezes a 20 do que a 21 de março. Assim, esta lei impõe uma data da Páscoa a vagabundear entre 22 de março e 25 de abril, ou seja, a poder coincidir com trinta e cinco datas

diferentes, sendo certo que as extremas (22 de março e 25 de abril) são as menos prováveis. O assunto voltou a ser abordado, em 1997, no Conselho Mundial das Igrejas realizado em Alepo (Síria), tendo então sido admitido que “a data da Páscoa passaria a coincidir com o primeiro domingo após a Lua Cheia astronómica posterior ao equinócio de março”. A “Lua Cheia da Páscoa” deste ano de 2016 ocorrerá no dia 23 de março, pelo que o domingo seguinte (27 de março) será “domingo de Páscoa”, circunstância consideravelmente diferente do que acontecerá no próximo ano. A primeira Lua Cheia a seguir ao equinócio de março de 2017 verificar-se-á a 11 de abril e, consequentemente, a Páscoa será comemorada no domingo seguinte, 16 de abril. MÁXIMO FERREIRA Diretor do Centro Ciência Viva de Constância

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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