Page 19

Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, de Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013) http://bit.ly/1hrY8Zc

Quando encontraram os vestígios da Nossa Senhora dos Mártires, junto ao Forte de São Julião da Barra, os arqueólogos subaquáticos verificaram que ainda havia grãos de pimenta espalhados no lodo.

algum tempo. Perdido num país estranho, fez‑se ao mar na primeira oportunidade. Nunca voltaria a ver as ilhas nipónicas: morre‑ ria pouco antes de lá chegar, em Macau, qua‑ tro anos mais tarde.

SOBREVIVENTES

menos quase toda a gente foi resgatada. A 15 de setembro, uma sexta‑feira, a Nossa Senhora dos Mártires deparou com o mesmo temporal. Manuel Rolim, vendo o destino da Salvação, tomou uma decisão mais audaz do que o seu colega. A audácia sair‑lhe‑ia cara.

MANOBRA ARRISCADA

O comandante optou por entrar no rio, mesmo com perigosos ventos laterais e a maré a vazar. Com dois oceanos conquistados sem soluços, não passou pela cabeça de Manuel Rolim que a barra do Tejo fosse grande adver‑ sário. A soberba e a pressa em fugir da tempes‑ tade, aliadas à sua ingenuidade naval, foram fatais: ao passar a praia de Carcavelos, a Nossa Senhora dos Mártires foi sendo empurrada, lenta mas inexoravelmente, em direção às rochas do Forte de São Julião da Barra. Soltou‑se o pavor a bordo. Nada havia a fazer. A nau esmagou‑se contra as pedras e desfez‑se em milhares de pedaços. Passageiros e tripu‑ lantes caíram à água, o que naquele tempo era morte quase certa: pouca gente sabia nadar, e entre os marinheiros, a maioria recrutada no interior do país, ainda menos.

Na margem, milhares de pessoas que tinham vindo esperar os seus familiares assis‑ tiram, horrorizadas, à tragédia. Alguns pesca‑ dores apressaram‑se a recolher sobreviventes. No final, contaram‑se duzentas vidas perdidas às portas do Tejo. Durante os dias seguintes, dezenas de corpos deram a terra. Horas após o naufrágio, a linha de costa entre Lisboa e Cascais enegreceu. Trezentas toneladas de pimenta invadiram as margens do Tejo e as praias. A população ribeirinha, mise‑ rável e desesperada, depressa se esqueceu dos mortos e acorreu à costa para recolher o valioso ouro negro da época. A guarda real multiplicou os esforços e a violência para ten‑ tar evitar o saque, mas a maior parte das espe‑ ciarias acabou nas mãos do povo. Acabava assim em tragédia a viagem inau‑ gural da Nossa Senhora dos Mártires. No fundo das águas, junto ao forte, ficariam os restos da nau, porcelanas chinesas e outros tesouros que vinham a bordo, incluindo os pertences de Aires de Saldanha. O padre Francisco Rodrigues foi uma das vítimas do naufrágio. Miguel, o seu aprendiz japonês, sobreviveu‑lhe, pelo menos durante

Quem se salvou para viver os anos dourados foi Cristóvão de Abreu, um modesto grumete, que havia feito a sua primeira viagem na Nossa Senhora dos Mártires. O marujo não ganhou medo ao mar. Continuou a fazer carreira na Rota das Índias, subiu na vida e chegou a mestre (o homem que tem a seu cargo as manobras do navio e a quem os marinheiros respondem diretamente). Morreria 41 anos mais tarde, com uma vida de trabalho honrosa quanto baste para que a viúva tivesse direito a uma pensão decente pelos seus serviços à causa real. Outro dos sobreviventes do desastre, con‑ tra todos os lirismos marítimos, foi o coman‑ dante. O responsável pelo naufrágio, no entanto, não se despenhou em desgraça. A 9 de fevereiro de 1609, voltaria a comandar um navio, empossado pelo próprio Filipe II. “Pela confiança que ponho em Manuel Barreto Rolim, nobre da minha casa, e pela experiência que tem em navegação, vejo por bem encar‑ regá‑lo da capitania da nau Nossa Senhora de Guadalupe, que é uma das que este ano viaja‑ rão até à Índia”, mandava o documento real. O regresso de Manuel Rolim ao mar não durou muito. Morreu ao largo do cabo da Boa Esperança, logo na viagem de ida, ironica‑ mente, de doença. A Nossa Senhora de Guadalupe, entretanto, perdeu o leme e foi obrigada a aportar em Angola e a regressar a Portugal, como se uma maldição da Nossa Senhora dos Mártires perseguisse os sobreviventes do seu naufrágio, até depois de mortos. Interessante

17

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement