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Naquele 27 de março de 1605, no entanto, a imponente embarcação era apenas mais uma, no meio da armada real fundeada no Tejo.

MARINHEIROS DE ÁGUA DOCE

Ao todo, cinco navios aprontavam‑se para largar as amarras, navegar para o outro lado do mundo e voltar para a capital carregados de valiosas especiarias (que valiam o seu peso em ouro pela Europa fora), porcelanas e outros tesouros asiáticos. Guiados pela nau Nossa Senhora de Betancor, do experiente Brás Telles de Menezes, líder da expedição, seguiam ainda a Nossa Senhora da Salvação, a Nossa Senhora da Conceição e a Nossa Senhora da Oliveira. Duas semanas antes, tinha partido outra armada, que levava a bordo Marim Afonso de Castro para substituir Aires de Saldanha como vice‑rei da Índia: Filipe II queria no posto um governante mais bélico, para enfrentar os holandeses nos mares de Malaca, na atual Malásia (com a união dos dois reinos da penín‑ sula Ibérica, Portugal herdara os inúmeros conflitos espanhóis). Aos lemes da Nossa Senhora dos Mártires, ia um comandante que ganhara o prestigiado

lugar da forma mais comum na época: com uma cunha, por graça do seu sangue azulado. Manuel Barreto Rolim era filho de Jorge Bar‑ reto, comendador da Azambuja, e de D. Leo‑ nor de Moura Rolim, que não aceitaram o seu casamento com D. Catarina de Eça. Deserdado, Manuel teve de fazer pela vida, e a Carreira das Índias era a solução mais lucrativa da altura. Pouco importava que os seus conhecimentos de navegação fossem mínimos. Era, aliás, bas‑ tante comum marinheiros de água doce como ele acabarem a capitanear imponentes navios. Com maus resultados, muitas vezes. Independentemente dos capitães, a saída para a Índia de uma armada pertencente ao reino era um momento especial na vida de Lisboa, com milhares de pessoas a encher as margens do Tejo para se despedirem dos marinheiros. Foi nesse ambiente entre a festa e a melancolia que os cinco navios zarparam de Belém.

PARA LÁ DOS LIMITES

A viagem correu sem mácula. A 28 de setembro, seis meses e um dia após a partida, as cinco naus atracaram no porto de Goa.

Daí seguiram para Cochim, onde uma imensa carga de pimenta as esperava. Havia uma grande pressão para carregar cada navio até ao limite, ou para lá do limite. Assim se aumentavam os lucros e se fazia boa figura junto do rei. Porém, ambição em dema‑ sia, como se sabe, costuma dar mau resultado. Além de as embarcações regressarem a Lisboa quase sempre sobrecarregadas, o peso tam‑ bém era mal distribuído, desequilibrando as naus e dificultando a navegação. A Nossa Senhora dos Mártires largou de Cochim a 16 de janeiro de 1606, na compa‑ nhia da Nossa Senhora da Salvação. O resto da armada saíra 18 dias antes, ainda em dezembro, como mandavam as regras. Partidas tardias cos‑ tumavam resultar em viagens problemáticas, com correntes e ventos adversos. A razão do atraso destes dois navios perdeu‑se no tempo. A bordo, o navio de Manuel Rolim levava Aires de Saldanha, 17.º vice‑rei da Índia, que terminara a comissão de serviço. Outra figura de relevo era o padre jesuíta Francisco Rodri‑ gues, que regressava a Portugal após mais de 20 anos a espalhar a letra da Bíblia no Extremo Oriente. O missionário fazia‑se acompanhar Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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