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D. JOÃO IV (1604–1656) O paço ducal de Vila Viçosa. Aqui nasceu D. João IV e aqui recebeu os conjurados.

Uma única batalha

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Porém, a Res­tauração não se fez somente no primeiro dia de dezembro; aliás, o mais importante ficava ain­da por fazer. A situação era dra­mática: Portugal estava sem exér­cito e sem marinha, com as fi­nanças arruinadas e poucos alia­dos na Europa. É certo que Pa­ris apoiou a revolução portugue­sa, mas Richelieu morreu em 1642 e o seu sucessor, Mazarin, mostrou-se bem menos entusiasta: achava que os portugueses deviam tomar a ofensiva. D. João IV não tinha ilusões a esse respeito. A guerra com a Es­pa­nha, inevitável, tinha de ser essencialmente de­fen­si­va. Logo após a sua aclama­ção so­lene, o rei preocupou-se com as ques­t ões prioritárias, que eram mui­t as: a defesa, em primeiro lu­g ar. Logo a 11 de dezembro, D. João criou o Conselho de Guer­ra e depois interveio pessoalmente nas operações que se desenrola­ram no Alentejo. Também a di­plomacia era essencial, e a cam­ pa­nha que lançou, lo­go em 1641, prolongar-se-ia du­ran­te todo o seu reinado. Isto ainda não bastava: havia toda uma ad­m inistração a reedi­ficar. Por is­so, este reinado conheceu um

in­ten­so trabalho legislativo; além do Con­selho de Guerra, D. João IV criou o Tribunal da Junta dos Três Estados, o Tribunal do Con­se­lho Ultramarino e a Companhia da Junta do Comércio. Reformou a Secretaria de Estado, para a tor­nar mais operacional. Reuniu cor­t es por cinco vezes, e note-se que se vivia já na Europa em ple­no absolutismo monárquico. Porém, o soberano entendia bem a gravi­da­de da situação do reino, sabia que eram precisos muitos sacrifí­ cios e que todos os portugueses, de todos os estados, deviam ser en­volvidos nesse esforço e deviam, como tal, ser ouvidos. Porque não se fala mais deste rei e do seu governo? Talvez por­que D. João IV preferiu a eficiên­cia ao espetáculo, praticava uma es­trita economia e assumia um es­tilo discreto. Talvez porque o seu génio frio e reservado não fala à nossa imaginação. Um exem­plo des­sa frieza foi o modo im­placável co­mo fez punir a cons­ pi­ra­ção que, lo­go em 1641, se for­mou para o der­rubar e de­vol­ver o trono a Filipe IV. Dos cons­pi­ra­dores, só escapou à pena de mor­te o arcebispo de Braga, D. Se­bas­tião de Matos

urante o reinado de D. João IV, a única batalha importante con­tra as forças espanholas foi a do Mon­ti­jo (re­presentada na imagem, num painel de azu­lejos). Isso não significa que não hou­vesse outras operações mi­li­ta­res. Aliás, o rei di­ri­giu pes­soal­mente a defesa da fron­teira no Alen­tejo. No entanto, é um facto que o maior recontro se deu na pro­vín­cia de Badajoz, a 26 de maio de 1644. O exér­cito português, coman­da­do por Ma­tias de Albuquerque, atra­vessou a fronteira e tomou a pra­ça do Monti­jo, após o que iniciou a mar­cha de re­gres­so, mas sempre à espera de um ataque espa­ nhol, que aconteceu, sob o comando do mar­quês de Tor­re­cu­sa. O desenlace foi favorável a Ma­tias de Albuquer­que e a vitória veio dar grande ânimo aos por­ tugueses, ao mesmo tem­po que causava sur­pre­sa nas ca­pi­tais europeias. A partir de 1644, o governo de Ma­drid preferiu esperar que a nova di­nastia caísse, quer pela morte do rei (para o que contratou um as­sas­si­no, cuja missão se malogrou), quer por eventuais querelas internas. Isto por­que a Espanha tinha as suas me­lho­ res tropas empenhadas na Guerra da Catalunha e na Guerra dos 30 Anos. Ora, D. João IV apressou-se a ti­rar partido dessa relativa “trégua”, que lhe permitiu reorganizar o exército e procurar apoios no es­tran­geiro. A Guerra da Restaura­ção só se rea­cen­deria depois da sua mor­te, em 1659 (batalha das Li­nhas de Elvas), mas o monarca por­tuguês teve ainda ou­tras guerras a gerir. Sobretudo, con­tra os holan­de­ses, que tiveram im­portantes ga­nhos no Oriente mas per­deram em Angola e no Brasil. Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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