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SUPER Portugueses

Um cérebro real É tempo, mais que tempo, de fazer justiça a este rei tão caluniado. Em boa parte, a Restauração de 1640 foi obra sua, por muito que isso pese aos românticos.

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ão já muitos os historiadores e investigadores que, lendo com atenção os documentos existentes, resgataram a memória de D. João IV, oitavo duque de Bra­gan­ça e primeiro rei da quarta di­nas­tia de Portugal. Porém, na ima­gi­na­ção romântica de alguns, e na ima­gem que prevalece na (aliás mui­to confusa) memória histórica dos portugueses contemporâneos, ele continua a ser uma triste figura, empurrado por uma esposa va­ro­nil e corajosa, o cobarde que não queria arriscar-se a aceitar a co­roa a que tinha direito e a lutar pe­la independência. Em parte, esta imagem foi criada por incompetência na consulta da documentação. Numa ou­tra parte, a imagem não é ino­cente: houve um interesse ideo­lógico e político em denegrir, tan­to quanto possível, a Casa de Bra­gança, começando logo pelo pri­meiro rei da dinastia. Vamos aos factos, tanto quanto o espaço o permite. Que o rei Restaurador tinha defeitos e cometeu erros, isso é evidente: fala-se aqui de D. João IV e não de São João IV. Esses erros em nada se relacionam com o re­tra­to sombrio que dele se fez. Pa­ra tentarmos entender este mo­narca, será útil considerar um pe­queno episódio: em meados de novembro de 1640, quando a cons­piração estava em marcha, o du­que de Bragança chamou a Vila Viçosa, com grande urgência, o seu agente e administrador João Pin­to Ribeiro, que foi um dos princi­pais organizadores da Restaura­ção. Pinto Ribeiro foi encontrar o seu amo tão decidido a avançar com a revolta que estava disposto a mobilizar os povos do Alentejo ain­da que em Lisboa os conjurados não agissem. Entusiasmado, o administrador do duque ajoe­lhou-se, tratou-o de “majestade” e quis beijar-lhe a mão; porém, D. João esquivou-se e disse-lhe: “Não compremos a couve primeiro que a carne”…

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Esta frase traduz bem a menta­li­d ade do futuro rei. Tinha um enor­me bom senso e uma enorme pru­dência, e, ainda, uma cabe­ça per­ feitamente fria – tanto que po­de­rá não nos ser simpático. Foi essa frieza que salvou muitas si­tuações, antes e depois de ele su­bir ao trono. A relutância e a in­decisão que muitos leram na sua atitude perante os conjurados não eram mais do que cautela e frie­za. D. João sabia-se vigiado de mui­to perto pela corte de Madrid e sabia que qualquer deslize seria fa­tal, não somente para si como pa­r a a causa portuguesa. Sabia ain­da que havia o risco perma­ nen­te de uma inconfidência ou de uma desistência por parte dos con­jurados. Estes receios não eram excessivos: três dias antes do ataque ao Pa­ço da Ribeira, a 28 de novembro, ainda houve conjurados que per­ deram o ânimo, por julgarem não haver meios suficientes para as­se­gurar o êxito, o que obrigou João Pinto Ribeiro a enviar, a meio da noite, um mensageiro a Vi­la Viçosa, pedindo ao duque de Bra­gança que não tomasse ini­cia­ti­vas. Segundo se lê na Res­tau­ração de Portugal Prodigiosa, a resposta de D. João foi que “a sua vida, sendo necessário, havia de ser a primeira que se desse pela liberdade da pátria”. O duque estava bem decidido e percebera que era tarde para recuar.

DISCRETO MAS ATIVO

Uma distorcida “tradição” ro­mân­tica colocou a decisão na pes­soa e na voz da duquesa de Bra­ gan­ça, D. Luísa de Gusmão: “An­tes duas horas rainha que toda a vida duquesa”… Esta é uma das muitas variantes. Na realidade, o duque consultou a mulher, cu­ja opinião respeitava, e esta de­cla­rou o seu imediato apoio ao pro­jeto. Porém, é bem claro – por exem­plo, na História de Portu­gal Res­tau­ra­do, do conde da Ericeira,

uma das principais fontes para a his­tó­ria da época –, que D. João con­sul­tou a duquesa depois de ter de­cla­ra­do aos representantes dos con­ju­rados que aceitava a coroa. Não foi por acaso, nem por pres­sões matrimoniais, que ele “ce­deu” à insistência dos conjura­dos naquele ano de 1640. Em Por­tu­gal, o descontentamento com o domínio filipino vinha cres­cen­do havia já largos anos e ma­ni­fes­ tara-se expressivamente nas cha­madas “alterações de Évora” (a “revolta do Manueli­nho”), mas o du­que de Bragança agira sem­pre como elemento apazigua­d or. Sim­p lesmente, em 1640 a Catalu­nha revoltou-se; Espanha tinha já muitos efetivos empenhados na Guerra dos 30 anos; em Fran­ça, o cardeal de Richelieu, pri­ meiro-ministro de Luís XIII, dis­punha-se a auxiliar todos os ini­migos do governo de Madrid. Ou seja: chegara, finalmente, uma ocasião propícia.

JORNADA VITORIOSA

Sabemos que a escolha era acer­t ada. A jornada do 1.º de De­zem­bro foi uma vitória.

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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