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Março 2016 Mensal l Portugal € 3,50

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N.º 215

00215

Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciência I Tecnologia I Ambiente I Comportamento

De onde vieram • O universo • A matéria • A vida • A consciência

Os grandes

ENIGMAS DA CIÊNCIA Nordeste Por detrás das máscaras

Animais A inteligência canina

Psicologia O que é o presente?

Olimpíadas A estreia portuguesa


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SUPER


Interessante

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Reconfirmação

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á três edições, registávamos a passagem de um século sobre o momento em que Albert Einstein apresentou a sua teoria da relatividade geral, incluindo nela a gravitação. Outro artigo apontava pequenas discrepâncias entre as previsões da teoria e algumas medições: o puzzle einsteiniano não está a encaixar tão bem como devia. Nesta edição, regressamos ao tema por outra via: há ou não há matéria escura, e que consequências tem isso para a teoria (ver pág. 50)? Sabemos que há buracos negros e temos uma teoria que nos ajuda a compreender como se formaram. No entanto, surge um problema: no centro do buraco negro, há uma singularidade, que é a etiqueta que os físicos inventaram para caracterizar condições que escapam de todo às leis da física. A singularidade é um ponto onde espaço e tempo deixam de existir, onde a densidade da matéria e a temperatura se tornam infinitas... Ops! Infinito? Para muitos cientistas, se as equações de uma teoria dão resultados infinitos, é porque a teoria não é boa, tem de ser corrigida. Há muita gente a trabalhar nisso, assim como há muita gente a verificar e reverificar todas as previsões que se podem extrair da relatividade geral. Uma delas é que corpos extraordinariamente massivos (buracos negros, por exemplo) em aceleração geram ondas gravitacionais, umas ondulações ínfimas do espaço-tempo que esperávamos há anos poder detetar com instrumentos ultrassensíveis. Já depois do fecho desta edição, foi anunciada a sua deteção pelo observatório LIGO. Ainda pudemos emendar esta página e as duas seguintes. Entretanto, o problema persiste: algo não bate certo... C.M.

ANIMAIS

Cães, uns bichos espertos PALEONTOLOGIA

Imobilizados na pedra CIÊNCIA

A ilusão do agora DESPORTO

A matemática dos golos TECNOLOGIA

Pague com o telemóvel MANUELA HARTLING / REUTERS

GIULIO PISCITELLI

Março 2016

DOCUMENTO

Os maiores enigmas da ciência PSICOLOGIA

Dez mitos conjugais HISTÓRIA Homens ao mar O drama dos refugiados não poderia estar ausente do festival Visa pour l’Image, que todos os anos transforma a cidade francesa de Perpignan na capital do fotojornalismo mundial. Pág. 92

Estou a perceber, sim Estudos recentes demonstram que, efetivamente, aos nossos cães só falta falar: de resto, pensam e sentem muito mais do que se julgava. Pág. 24 Parto triplo Ao longo de milhões de anos, tragédias súbitas fixaram momentos na vida dos animais que nos precederam na Terra. Pág. 30

Guerra fria: um mundo dividido DESPORTO

Seis heróis do Olimpo ANTROPOLOGIA

Por detrás da máscara FOTOGRAFIA

Rabanadas de realidade

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Assine com um clique! amento ia I Ambiente I Comport e I Ciência I Tecnolog I História I Sociedad Saúde I Natureza N.º 215 00215

O mundo ao contrário Do solstício de dezembro até ao Carnaval, dezenas de festas do Nordeste recorrem às máscaras para inverter a ordem social e recomeçar de novo. Pág. 84

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JORGE NUNES

SECÇÕES

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De onde vieram • O universo • A matéria • A vida • A consciência

Os grandes

ENIGMAS DA CIÊNCIA Nordeste

Por detrás das máscaras

Animais A inteligência canina

Psicologia O que é o presente?

Olimpíadas A estreia portuguesa

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Observatório

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Motor

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Super Portugueses

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Histórias do Tejo

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Caçadores de Estrelas

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Sociedade Digital

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Flash 76 Marcas & Produtos

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Observatório

Finalmente, as ondas

David Reitze, diretor-executivo do LIGO, descreveu de forma gráfica a colisão que terá provocado as ondas detetadas: “Imagine um corpo com um diâmetro de uns 150 quilómetros e a massa de 30 sóis, a deslocar-se a metade da velocidade da luz. Imagine outro corpo igual. Agora imagine que eles colidem...” O LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatories) divulgou esta imagem para ilustrar a descoberta.

É

oficial! Quando o LIGO voltou à atividade, depois de uma série de melhoramentos, em setembro de 2015, os cientistas tinham expectativas de que pudesse estar mais perto de detetar aquilo para que foi construído: ondas gravitacionais. Não esperavam é que o primeiro sinal inequívoco surgisse quase imediatamente. Analisados os dados, chegaram à conclusão de que se tratava da assinatura da fusão (ou colisão, é difícil escolher palavras para eventos desta dimensão) de dois buracos negros, ocorrida há 1337 milhões de anos, mais coisa menos coisa. O anúncio foi feito numa conferência de imprensa realizada a 11 de fevereiro (já esta edição da SUPER estava fechada), pelo que nos limitamos a dar aqui nota dela e abordar superficialmente o assunto, reservando para momento posterior um artigo mais desenvolvido sobre o tema, que aliás abordámos inúmeras vezes na revista. Pela mesma razão, algumas páginas desta mesma edição ficaram ligeiramente desatualizadas. É um problema recorrente do jornalismo impresso: só dá as notícias de ontem, na melhor das hipóteses. Regressemos ao assunto: o LIGO é um observatório composto por dois instrumentos situados nos Estados Unidos, um no estado de Washington e outro na Louisiana, com um afastamento de 3002 km. A duplicação serve para garantir que os efeitos sentidos num deles não se devem a causas locais (microssismos, explosões em pedreiras, trânsito pesado, etc.). Se o sinal surgir nos dois, quase simultaneamente (as ondas gravitacionais propagam-se à velocidade da luz), então deverá tratar-se de algo vindo do espaço e poderá ser certificado como digno de nota. Esses dois instrumentos são construções em forma de L, em que cada braço tem quatro quilómetros de comprimento. No eixo do L (a junção dos braços), é disparado um feixe laser para cada lado. Os dois feixes percorrem os braços (em 13 milionésimos de segundo), são refletidos em espelhos e regressam à origem, onde são combinados, num processo conhecido como “interferometria”. Qual é o objetivo? As ondas gravitacionais resultam diretamente da teoria da relatividade geral, apresentada por Einstein em 1915: corpos em movimento acelerado provocam ondulações no espaço-tempo. Se os corpos forem suficientemente grandes (os físicos

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preferem dizer “massivos”, porque o que interessa é a massa, não o tamanho), então será (teoricamente) possível detetar essas ondas, na medida em que, ao comprimir o tecido do espaço-tempo numa direção e expandi-lo na perpendicular (a seguir, acontece o oposto), levariam instrumentos como o LIGO a assinalar uma pequena diferença no tempo que o feixe laser leva a percorrer cada um dos braços do L. Dizer “pequeno” é pouco. No caso do LIGO, a diferença no percurso de 4 km seria inferior ao tamanho do núcleo atómico... Foi o que aconteceu às 9h50 de 14 de setembro de 2015: pouco depois de reativarem o observatório, após as obras de melhoramento, os cientistas descobriram um padrão de interferência no instrumento. Verificaram os dados e... bingo! Não só tinham a assinatura de algo nunca antes visto, como as medições se ajustavam perfeitamente às previsões que resultam da teoria de Einstein. Para todos os efeitos práticos, o Nobel está a caminho. É um grande triunfo para a ciência. Trata-se da última grande previsão decorrente da teoria de Einstein que ainda não tinha sido possível confirmar. É também um grande triunfo da engenharia (e do engenho humano, de uma

forma mais geral): construir um instrumento destes envolve desafios quase insuperáveis. O LIGO funcionou entre 2002 e 2010 sem ter detetado algo de significativo, e há outros instrumentos semelhantes espalhados pelo mundo que também não conseguiram qualquer resultado. Só os melhoramentos introduzidos ao longo de cinco anos, até meados de setembro de 2015 (que custaram 620 milhões de dólares) permitiram o feito agora alcançado. Porém, o Nobel não vai premiar apenas o engenho da equipa ou a derradeira confirmação (enfim, há outros assuntos por resolver, ver pág. 50) da relatividade geral. O que está em causa é muito mais profundo. A equipa do LIGO demonstrou a operacionalidade de um novo instrumento para sondar o universo, que pode levar-nos (sejamos otimistas) ao próprio momento do Big Bang. De facto, há muito mais, e mais excitante. Quando pensamos em meios de compreender o universo, abrem-se duas vias: a teórica (Isaac Newton, Albert Einstein ou Stephen Hawking, para referir apenas nomes mediáticos) e a prática. Esta envolve olhar para fora da Terra. A humanidade sempre o fez, e de forma especial a partir do momento em que compreendeu


que o andamento dos astros no céu estava ligado às migrações animais, primeiro, e, um pouco depois, à época das sementeiras e das colheitas. Galileu foi o primeiro a servir-se de um telescópio rudimentar para observar os planetas. Edwin Hubble descobriu que grande parte das “estrelas” do céu eram, afinal, outras galáxias (e que se afastavam de nós a uma velocidade vertiginosa). A radiotelescopia permitiu examinar o céu em comprimentos de onda complementares, mas a atmosfera terrestre bloqueia a maior parte das radiações provenientes do espaço. Surgiram os telescópios espaciais. A expansão do universo (aparentemente a acelerar, devido a uma misteriosa força a que, à falta de melhor, chamamos “energia escura”) faz desviar a luz enviada por corpos muito distantes (mais próximos da origem do universo) para o vermelho e daí para zonas fora do espectro visível, como as micro-ondas. Colocámos em órbita telescópios capazes de receber essa radiação. Resultado: obtivemos uma fotografia de como seria o cosmos 380 mil anos depois do Big Bang. Seria legítimo pensar que, melhorando os instrumentos, poderíamos ir mais longe, mas

não. Por uma razão simples: só nessa altura a “sopa primordial” se arranjou nos átomos (de hidrogénio e hélio) que conhecemos. Finalmente, os fotões (a luz) puderam começar a circular sem serem imediatamente absorvidos. Para trás deste momento na história do universo, é como se não houvesse luz: havia, mas o percurso de cada fotão era muito curto. Nada poderemos ver por essa via, por melhores que sejam os nossos telescópios e qualquer que seja o comprimento de onda em que funcionem. Pura e simplesmente, a luz não se propagava a grandes distâncias. Resultado: um nevoeiro cósmico impenetrável. Quer dizer que essa fase inicial da vida do universo nos escapará para sempre? Talvez não. As ondas gravitacionais, para além de não serem afetadas pela matéria, são independentes do que se passa com fotões e outras partículas elementares. O que a equipa do LIGO demonstrou é que temos ao nosso alcance meios para detetar essas ondas e começar a interpretar o que nos dizem. Bom prelúdio para a missão eLISA, da Agência Espacial Europeia (ESA), que pretende colocar na órbita solar, por volta de 2030, uma versão alargada do LIGO: três naves num triângulo

equilátero, separadas por um milhão de quilómetros. Será o maior instrumento científico (na realidade, a maior máquina) jamais construída pelo homem. Antes disso, foi despachada para o espaço, em dezembro passado, a sonda LISA Pathfinder, para testar e demonstrar a viabilidade do projeto. Vale a pena fazer um parêntesis para referir que tem a participação da empresa portuguesa LusoSpace, que concebeu o laser de alta potência e estabilidade que será enviado pela nave-mãe para ser refletido pelas naves-filhas. Portanto, e abreviadamente, o que o Nobel que certamente coroará o trabalho do LIGO vai distinguir é algo de radicalmente novo: além de validar mais uma vez a teoria da relatividade geral de Einstein e reforçar a ideia da existência de buracos negros, coloca ao nosso dispor uma nova forma de estudar o universo. Sem dúvida, são belas notícias para quem procura compreender o que são a matéria e a energia escuras, o maior enigma da física atual. Encontrará mais informações sobre o assunto nesta edição, embora, agora, tenham ficado ligeiramente desatualizadas. De facto, o mundo mudou com uma simples observação. C.M./P.A.

Interessante

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Observatório

Europa visita Marte

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em outubro. Nesse momento, começarão a funcionar os dois engenhos que compõem a missão: o orbitador Trace Gas Orbiter (TGO) e o módulo de aterragem Schiaparelli, assim batizado em honra do astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli, grande observador marciano do século XIX. O TGO ficará instalado numa órbita a 400 quilómetros acima da superfície e realizará uma análise pormenorizada da atmosfera, em busca de gases

que possam ter origem biológica, como o metano. O orbitador estudará também possíveis locais para fazer pousar o rover que a ESA lançará em 2018, e que será a segunda parte da missão ExoMars. Pelo seu lado, o módulo Schiaparelli (na imagem, a separar-se do TGO) testará as tecnologias concebidas para que o veículo pouse sem problemas, como o radar de altimetria e o sistema de travagem aerodinâmica.

Outro monstro

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centro da nossa galáxia está ocupado por um gigantesco buraco negro, quatro milhões de vezes mais massivo do que o Sol, conhecido como Sagitário A*. Agora, uma equipa de investigadores coordenada pelo astrofísico Tomoharu Oka, da Universidade de Keiō (Japão), assegura ter dado com o rasto de outro destes objetos, que, na sua opinião, seria, além disso, o segundo maior da Via Láctea. A confirmar-se a sua existência, este buraco negro teria uma massa equivalente à de cem mil sóis, isto é, encontrar-se-ia entre os supermassivos, como o Sagitário A*, que ocupam o centro das galáxias, e os estelares, que se formam após o colapso de uma estrela de massa trinta vezes superior à solar. Para encontrar o objeto ainda sem nome, os cientistas utilizaram os radiotelescópios Nobeyama, no Japão, e ASTE, no Chile, e observaram a invulgar velocidade de dispersão de uma nuvem de gás próximo do centro da galáxia, que sugere que uma imensa força gravitacional, como a gerada por um buraco negro, estará a acelerar as suas moléculas.

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Uma nuvem de gás situada a 200 anos-luz do núcleo da galáxia poderá ocultar um novo tipo de buraco negro de massa intermédia, o segundo maior da Via Láctea.

TOMOHARU OKA / KEIO UNIVERSITY

ESA

e tudo correr como previsto, a ESA enviará para marte, em meados de março, a primeira das duas sondas que integram a missão ExoMars, desenvolvida em colaboração com a agência espacial russa (FKA). Devido à posição relativa privilegiada que ocupam este ano a Terra e o planeta vermelho, a viagem durará apenas sete meses, pelo que a nave deverá alcançar o nosso vizinho planetário


Motor

Raio X Audi A4

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Técnica vs. ética

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Opel está a desenvolver um sistema que evita acidentes, tomando conta da direção. Em situações em que o carro que segue à frente se desvia subitamente, deixando à vista um outro carro parado ou a baixa velocidade, o sistema de travagem automática pode não ter tempo para evitar a colisão. Nesse caso, entra em cena a direção autónoma, que desvia o carro para a faixa do lado, em dois golpes de volante, consecutivos (direita e esquerda), a uma velocidade de rotação que nenhum ser humano seria capaz de imitar. Para garantir que, para evitar um acidente, não se cria outro, as faixas de rodagem adjacentes são monitorizadas, garantindo que não há carros em sentido contrário, ou no mesmo sentido. Dependendo da velocidade e da distância, o sistema pode ficar-se apenas pela travagem de emergência, fazer a manobra de fuga ou bater à menor velocidade possível no carro da frente. Este sistema utiliza um software específico, desenvolvido por um estudante chinês do projeto UR:BAN, um programa de pesquisa de inteligência artificial aplicada à segurança rodoviária, parcialmente financiado pelo governo alemão e do qual a

CARRO DO MÊS

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Renault Mégane 1.6 dCi GT Line

nova geração do Renault Mégane chegou ao mercado nacional com muitas novidades, a começar por uma nova plataforma, que partilha com outros modelos da aliança Renault/Nissan. O estilo mudou muito, alinhando-se com os mais recentes modelos da marca, tanto no que diz respeito à imagem da frente, com assinatura luminosa LED em forma de “C”, como aos flancos mais pronunciados. No interior, a estrutura e a organização do tablier e do painel de instrumentos foram remodeladas, agora com a presença do monitor tátil R-Link 2 que permite aceder aos principais comandos de funções secundárias e confi-

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Opel é uma das parceiras. O sistema usa uma câmara de vídeo frontal estéreo, mas a mono que equipa já hoje muitos modelos da marca também serve, tal como o radar. Depois, é só controlar os travões e a assistência elétrica da direção. O segredo está no algoritmo, que faz tudo acontecer em milésimos de segundo. O sistema está pronto e funciona, mas há ainda questões burocráticas, psicológicas e éticas a resolver. Enquanto a direção está a ser comandada pelo sistema, passamos a ter um carro autónomo, e isso ainda não é legal. Depois, há questões de outra ordem: o que deve o programa decidir quando o embate é inevitável mas a faixa à esquerda está ocupada por outro carro? Bater na traseira do carro em frente ou arriscar uma saída para a berma? E se o cenário se passar com um peão na estrada e outros em redor? Qual ou quais vão ser atingidos se o atropelamento for inevitável? Ou, simplesmente, é lícito o carro mudar de faixa (porque os cálculos do sistema dizem que é possível) quando a manobra pode assustar outros condutores e provocar-lhes acidentes? Muitas vezes, a tecnologia não termina nos engenheiros.

gurações. Também passou a estar disponível um mostrador head-up display e a possibilidade de alterar a cor da luz ambiente e do painel de instrumentos através da tecla Multi-Sense, que também altera a resposta do acelerador e a assistência da direção, de acordo com as preferências do condutor. Nem falta um modo Eco, para reduzir os consumos. Um dos bons avanços desta geração está na melhor posição de condução, com a coluna de direção menos inclinada e novos bancos com excelente apoio lateral e massagem, em opção. O aumento de 28 milímetros na distância entre eixos permitiu aumentar o espaço para passa-

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A

nova geração do Audi A4 chegou ao mercado nacional com um conjunto de novas tecnologias que o colocam no topo do segmento das berlinas compactas de prestígio. Vamos descobrir algumas delas. 1 – Carroçaria com a melhor aerodinâmica da classe: a Audi anuncia um Cx de 0,23. 2 – Motor Diesel 2.0 TDI de 150 cavalos. Em versão Ultra, emite apenas 99 gramas de dióxido de carbono por quilómetro e é o mais procurado em Portugal. 3 – Faróis com tecnologia de matriz LED, disponíveis como opção e com máximos automáticos, que iluminam sem encandear. 4 – A utilização de um misto de aço de alta resistência e de alumínio permitiu descer


Opinião 4

Regulamentos

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o peso da estrutura até um máximo de 120 quilos, dependendo do motor considerado. 5 – Estreado no Audi TT, o cockpit virtual substitui o painel de instrumentos convencional por um monitor LCD de 12,3 polegadas, com gráficos de alta definição e totalmente configurável. 6 – Novo sistema de infotainment com ligação à internet via LTE, hotspot Wi-Fi a bordo e novo interface para sistemas iOS e Android, incluindo ainda prateleira de carga da bateria do telemóvel por indução. 7 – Direção com rácio variável e amortecimento regulável, dois dos parâmetros que podem ser ajustados pelo condutor no comando Audi Drive Select.

8 – A disponibilidade de assistentes à condução segura é muito alargada. Um dos mais curiosos antecipa situações da estrada e do trânsito, usando o sistema de navegação e câmaras, avisando o condutor da aproximação de rotundas e cruzamentos ou aconselhando a fazer desvios, em caso de trânsito congestionado. Além disso, inclui o auxílio à manutenção de faixa de rodagem, cruise control adaptativo com função Stop & Go, estacionamento automático, aviso de trânsito cruzado em saídas de parques sem visibilidade, travagem de emergência, iluminação de curva e sistema pre-sense, que prepara o carro para um embate, entre outros.

geiros nos lugares traseiros, e isso nota-se. Em termos dinâmicos, o novo Mégane ficou ainda mais eficaz, com uma suspensão capaz de suportar bem mais do que os 130 cavalos do 1.6 dCi que testámos. Este motor Diesel é já conhecido de outros modelos do grupo: permitindo acelerar dos 0 aos 100 quilómetros por hora em dez segundos e atingir os 198 km/h, tem uma boa resposta ao acelerador, mesmo a baixos regimes, e está bem isolado, em termos acústicos. Os consumos anunciados são de 4,7 litros aos 100 km, em cidade. De resto, esta nova geração tem disponível um completo conjunto de ajudas eletrónicas à condução segura, com destaque para a travagem ativa de emergência, alerta de saída de faixa, reconhecimento de sinais de trânsito, câmara de marcha-atrás e outros. O preço desta versão GT Line é de 29 850 euros, mas, com o motor 1.5 dCi de 90 cv e nível de equipamento Zen, o preço começa nos 23 200 euros.

indústria automóvel está submetida a regulamentos, impostos pelos vários países e instituições de segurança rodoviária, cuja extensão é difícil avaliar. Refiro apenas alguns, começando pela condução autónoma, um assunto que encanta os políticos e faz os engenheiros gastar horas de trabalho. Resumidamente, trata-se de aplicar aos automóveis o piloto automático que os aviões têm há dezenas de anos. O problema é que, por enquanto, as leis que regem a circulação de veículos nas estradas, algumas delas com origem no início do século passado, dizem que um automóvel só pode circular se um condutor estiver ao seu comando. Portanto, o piloto automático é ilegal. Outro exemplo vem das seguradoras de alguns países. Para reduzir o preço das reparações nos toques em cidade, as seguradoras “obrigam” os construtores de automóveis a fazer prolongar os para-choques de plástico para cima, de forma a deixar o bordo anterior do capô metálico o mais recuado possível. Mas há mais, muito mais. Por exemplo, os espelhos retrovisores. A sua existência, numa altura em que grande parte dos carros estão equipados com todo o tipo de câmaras de vídeo, só continua porque as leis da estrada assim o obrigam. Mais: a sua dimensão, tão prejudicial à aerodinâmica, segue dimensões mínimas estabelecidas por leis que regem a largura e outras a altura. Mais um exemplo? Em alguns países, continua a ser obrigatório que as rodas possam ser equipadas com correntes de neve. Isto obriga a um determinado espaço entre o pneu e a cava da roda, condicionando o tamanho da roda, dos pneus e dos travões. Isto sem entrar nos testes de colisão, que muitos construtores usam no marketing, mas que, por si só, estão longe de garantir a efetiva segurança. À boca pequena, já ouvi especialistas de algumas marcas dizerem que hoje se fazem carros para passar nos testes de colisão, não necessariamente para ser mais seguros. A verdade é que há regulamentos para tudo, no que aos automóveis diz respeito, com coisas tão básicas como a obrigatoriedade de cada carro ter faróis nos dois extremos da frente, numa altura em que a tecnologia de iluminação permitiria a sua colocação em posições bem mais eficazes. FRANCISCO MOTA Diretor técnico do Auto Hoje

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SUPER Portugueses

Um cérebro real É tempo, mais que tempo, de fazer justiça a este rei tão caluniado. Em boa parte, a Restauração de 1640 foi obra sua, por muito que isso pese aos românticos.

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ão já muitos os historiadores e investigadores que, lendo com atenção os documentos existentes, resgataram a memória de D. João IV, oitavo duque de Bra­gan­ça e primeiro rei da quarta di­nas­tia de Portugal. Porém, na ima­gi­na­ção romântica de alguns, e na ima­gem que prevalece na (aliás mui­to confusa) memória histórica dos portugueses contemporâneos, ele continua a ser uma triste figura, empurrado por uma esposa va­ro­nil e corajosa, o cobarde que não queria arriscar-se a aceitar a co­roa a que tinha direito e a lutar pe­la independência. Em parte, esta imagem foi criada por incompetência na consulta da documentação. Numa ou­tra parte, a imagem não é ino­cente: houve um interesse ideo­lógico e político em denegrir, tan­to quanto possível, a Casa de Bra­gança, começando logo pelo pri­meiro rei da dinastia. Vamos aos factos, tanto quanto o espaço o permite. Que o rei Restaurador tinha defeitos e cometeu erros, isso é evidente: fala-se aqui de D. João IV e não de São João IV. Esses erros em nada se relacionam com o re­tra­to sombrio que dele se fez. Pa­ra tentarmos entender este mo­narca, será útil considerar um pe­queno episódio: em meados de novembro de 1640, quando a cons­piração estava em marcha, o du­que de Bragança chamou a Vila Viçosa, com grande urgência, o seu agente e administrador João Pin­to Ribeiro, que foi um dos princi­pais organizadores da Restaura­ção. Pinto Ribeiro foi encontrar o seu amo tão decidido a avançar com a revolta que estava disposto a mobilizar os povos do Alentejo ain­da que em Lisboa os conjurados não agissem. Entusiasmado, o administrador do duque ajoe­lhou-se, tratou-o de “majestade” e quis beijar-lhe a mão; porém, D. João esquivou-se e disse-lhe: “Não compremos a couve primeiro que a carne”…

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Esta frase traduz bem a menta­li­d ade do futuro rei. Tinha um enor­me bom senso e uma enorme pru­dência, e, ainda, uma cabe­ça per­ feitamente fria – tanto que po­de­rá não nos ser simpático. Foi essa frieza que salvou muitas si­tuações, antes e depois de ele su­bir ao trono. A relutância e a in­decisão que muitos leram na sua atitude perante os conjurados não eram mais do que cautela e frie­za. D. João sabia-se vigiado de mui­to perto pela corte de Madrid e sabia que qualquer deslize seria fa­tal, não somente para si como pa­r a a causa portuguesa. Sabia ain­da que havia o risco perma­ nen­te de uma inconfidência ou de uma desistência por parte dos con­jurados. Estes receios não eram excessivos: três dias antes do ataque ao Pa­ço da Ribeira, a 28 de novembro, ainda houve conjurados que per­ deram o ânimo, por julgarem não haver meios suficientes para as­se­gurar o êxito, o que obrigou João Pinto Ribeiro a enviar, a meio da noite, um mensageiro a Vi­la Viçosa, pedindo ao duque de Bra­gança que não tomasse ini­cia­ti­vas. Segundo se lê na Res­tau­ração de Portugal Prodigiosa, a resposta de D. João foi que “a sua vida, sendo necessário, havia de ser a primeira que se desse pela liberdade da pátria”. O duque estava bem decidido e percebera que era tarde para recuar.

DISCRETO MAS ATIVO

Uma distorcida “tradição” ro­mân­tica colocou a decisão na pes­soa e na voz da duquesa de Bra­ gan­ça, D. Luísa de Gusmão: “An­tes duas horas rainha que toda a vida duquesa”… Esta é uma das muitas variantes. Na realidade, o duque consultou a mulher, cu­ja opinião respeitava, e esta de­cla­rou o seu imediato apoio ao pro­jeto. Porém, é bem claro – por exem­plo, na História de Portu­gal Res­tau­ra­do, do conde da Ericeira,

uma das principais fontes para a his­tó­ria da época –, que D. João con­sul­tou a duquesa depois de ter de­cla­ra­do aos representantes dos con­ju­rados que aceitava a coroa. Não foi por acaso, nem por pres­sões matrimoniais, que ele “ce­deu” à insistência dos conjura­dos naquele ano de 1640. Em Por­tu­gal, o descontentamento com o domínio filipino vinha cres­cen­do havia já largos anos e ma­ni­fes­ tara-se expressivamente nas cha­madas “alterações de Évora” (a “revolta do Manueli­nho”), mas o du­que de Bragança agira sem­pre como elemento apazigua­d or. Sim­p lesmente, em 1640 a Catalu­nha revoltou-se; Espanha tinha já muitos efetivos empenhados na Guerra dos 30 anos; em Fran­ça, o cardeal de Richelieu, pri­ meiro-ministro de Luís XIII, dis­punha-se a auxiliar todos os ini­migos do governo de Madrid. Ou seja: chegara, finalmente, uma ocasião propícia.

JORNADA VITORIOSA

Sabemos que a escolha era acer­t ada. A jornada do 1.º de De­zem­bro foi uma vitória.


D. JOÃO IV (1604–1656) O paço ducal de Vila Viçosa. Aqui nasceu D. João IV e aqui recebeu os conjurados.

Uma única batalha

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Porém, a Res­tauração não se fez somente no primeiro dia de dezembro; aliás, o mais importante ficava ain­da por fazer. A situação era dra­mática: Portugal estava sem exér­cito e sem marinha, com as fi­nanças arruinadas e poucos alia­dos na Europa. É certo que Pa­ris apoiou a revolução portugue­sa, mas Richelieu morreu em 1642 e o seu sucessor, Mazarin, mostrou-se bem menos entusiasta: achava que os portugueses deviam tomar a ofensiva. D. João IV não tinha ilusões a esse respeito. A guerra com a Es­pa­nha, inevitável, tinha de ser essencialmente de­fen­si­va. Logo após a sua aclama­ção so­lene, o rei preocupou-se com as ques­t ões prioritárias, que eram mui­t as: a defesa, em primeiro lu­g ar. Logo a 11 de dezembro, D. João criou o Conselho de Guer­ra e depois interveio pessoalmente nas operações que se desenrola­ram no Alentejo. Também a di­plomacia era essencial, e a cam­ pa­nha que lançou, lo­go em 1641, prolongar-se-ia du­ran­te todo o seu reinado. Isto ainda não bastava: havia toda uma ad­m inistração a reedi­ficar. Por is­so, este reinado conheceu um

in­ten­so trabalho legislativo; além do Con­selho de Guerra, D. João IV criou o Tribunal da Junta dos Três Estados, o Tribunal do Con­se­lho Ultramarino e a Companhia da Junta do Comércio. Reformou a Secretaria de Estado, para a tor­nar mais operacional. Reuniu cor­t es por cinco vezes, e note-se que se vivia já na Europa em ple­no absolutismo monárquico. Porém, o soberano entendia bem a gravi­da­de da situação do reino, sabia que eram precisos muitos sacrifí­ cios e que todos os portugueses, de todos os estados, deviam ser en­volvidos nesse esforço e deviam, como tal, ser ouvidos. Porque não se fala mais deste rei e do seu governo? Talvez por­que D. João IV preferiu a eficiên­cia ao espetáculo, praticava uma es­trita economia e assumia um es­tilo discreto. Talvez porque o seu génio frio e reservado não fala à nossa imaginação. Um exem­plo des­sa frieza foi o modo im­placável co­mo fez punir a cons­ pi­ra­ção que, lo­go em 1641, se for­mou para o der­rubar e de­vol­ver o trono a Filipe IV. Dos cons­pi­ra­dores, só escapou à pena de mor­te o arcebispo de Braga, D. Se­bas­tião de Matos

urante o reinado de D. João IV, a única batalha importante con­tra as forças espanholas foi a do Mon­ti­jo (re­presentada na imagem, num painel de azu­lejos). Isso não significa que não hou­vesse outras operações mi­li­ta­res. Aliás, o rei di­ri­giu pes­soal­mente a defesa da fron­teira no Alen­tejo. No entanto, é um facto que o maior recontro se deu na pro­vín­cia de Badajoz, a 26 de maio de 1644. O exér­cito português, coman­da­do por Ma­tias de Albuquerque, atra­vessou a fronteira e tomou a pra­ça do Monti­jo, após o que iniciou a mar­cha de re­gres­so, mas sempre à espera de um ataque espa­ nhol, que aconteceu, sob o comando do mar­quês de Tor­re­cu­sa. O desenlace foi favorável a Ma­tias de Albuquer­que e a vitória veio dar grande ânimo aos por­ tugueses, ao mesmo tem­po que causava sur­pre­sa nas ca­pi­tais europeias. A partir de 1644, o governo de Ma­drid preferiu esperar que a nova di­nastia caísse, quer pela morte do rei (para o que contratou um as­sas­si­no, cuja missão se malogrou), quer por eventuais querelas internas. Isto por­que a Espanha tinha as suas me­lho­ res tropas empenhadas na Guerra da Catalunha e na Guerra dos 30 Anos. Ora, D. João IV apressou-se a ti­rar partido dessa relativa “trégua”, que lhe permitiu reorganizar o exército e procurar apoios no es­tran­geiro. A Guerra da Restaura­ção só se rea­cen­deria depois da sua mor­te, em 1659 (batalha das Li­nhas de Elvas), mas o monarca por­tuguês teve ainda ou­tras guerras a gerir. Sobretudo, con­tra os holan­de­ses, que tiveram im­portantes ga­nhos no Oriente mas per­deram em Angola e no Brasil. Interessante

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SUPER Portugueses

João Pinto Ribeiro foi um dos organizadores do 1.º de Dezembro e um precioso auxiliar de D. João IV.

Os colaboradores

O

rei D. João IV teve, ao longo do seu reina­do, o apoio de um gru­po de personalidades notáveis. Se­rá justo que se mencione, em primei­ro lugar, a sua mulher, D. Luísa de Gus­­mão, espanhola, pertencente à gran­de ca­sa de Medina Sidónia, mas que se revelou uma excelente por­tu­guesa. O Dr. João Pinto Ri­bei­ro, administrador dos bens da Casa de Bra­gan­ça, teve uma ação deci­si­va para o êxi­to da conspiração de 1640 e serviu depois o rei com a mes­ma lealdade e a mesma inteli­gên­­cia. Quanto ao padre António Vieira, foi, co­mo se sabe, um homem da confiança de D. João IV, embora não tenha sido muito feliz nas suas mis­sões diplomáticas. Neste campo da diplomacia, des­ta­caram-se, en­tre outros, D. Vasco Luís da Gama, conde da Vidigueira, Fran­cisco de Sousa Cou­ tinho, António de Sousa de Macedo e D. Antão de Almada, um dos conjurados de 1640, em cujo palácio lisboeta (hoje cha­ mado da Independência) se efe­tuaram algumas das reuniões. Haveria muitos mais para citar, pois a guerra diplomática que Portugal travou no tempo de D. João IV e no reinado seguinte não foi menos im­portante nem menos renhida do que a guerra militar. Neste setor, desta­cou-se Matias de Albuquerque, o ven­cedor do Montijo, que o rei fez con­de de Alegrete. Note-se que a Guer­ra da Restauração levaria à ri­bal­ta outros grandes chefes mili­ta­res, como o primeiro marquês de Marial­va e D. Sancho Manuel, que se des­ta­cariam durante o reinado de D. Afonso VI.

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de Noro­nha, que foi enviado sob pri­são pa­ra a Tor­re de Belém e mor­reria pou­co de­pois em S. Julião da Bar­ra. Os res­tantes foram to­dos exe­ cu­ta­dos, incluindo o mar­quês de Vila Real e o seu filho, o du­que de Ca­mi­nha. Este último re­cu­sara-se a par­ti­cipar na conju­ra, somente se ca­lara para não com­prometer o pai. O rei sabia-o, po­rém não lhe co­­mu­tou a pena. Era preciso dar um exemplo de se­ve­ri­dade e as­sim se fez. Mais inocente ainda estaria o se­cretário de Estado, Francisco de Lucena, que viria a ser vítima de intriguistas que o caluniaram, com êxito, acusando-o de conspirar contra o rei. A sua execução apon­ta um traço do caráter de D. João IV: uma desconfiança doen­tia. Diga-se, por outro la­do, que é um traço compreensí­vel. Desde muito jovem, soube o que era ser vigiado e espiado, já que, como foi dito, os Braganças eram uma permanente fonte de preo­cupações para Madrid. Antes da Restauração, e embora Filipe IV o nomeasse governador das ar­mas de Portugal, estava proibido de re­sidir em Lisboa e mesmo de en­trar na cidade, o que mostra bem a delicadeza da sua posição pe­ran­te Madrid. Depois, enquanto rei, ele, que era tão económico, não poupou gastos para comprar es­piões na corte espanhola. Isto per­mitiu-lhe, muitas vezes, an­te­cipar as jogadas do governo es­pa­ nhol, mas também o terá levado a observar a facilidade com que mui­ta e muito boa gente se vendia. Essa tendência para a descon­fian­ça não prejudicou, no entanto, uma prática que caracterizou a a­tuação do rei: ele era, por vezes, len­to a tomar decisões porque, além de as ponderar, costumava ou­vir a opinião dos seus conse­lhei­ ros, ou, mesmo, a opinião dos três estados, como demonstra a realização de cortes por cinco ve­zes. Depois, tomada a decisão, man­ tinha-a com firmeza.

LARGA DÍVIDA

Uma coisa é certa: tendo em con­ta a situação crítica em que o país se encontrava quando D. João IV foi aclamado, muito pou­cos seriam os homens capazes de fa­zer o que ele fez. Não colhe ar­g u­m entar que não o fez sozinho; ne­nhum governante, nem mesmo um ditador (que ele não foi), go­verna e sobrevive sem colabora­do­res. No entanto, ele assumiu direta­men­te a orientação política, di­plo­mática e militar. No final do seu reinado de quinze anos, fora pos­sível expulsar os holandeses do Brasil e de Angola, fazer frente aos espanhóis, encetar a recons­tru­ção da economia, conseguir o re­co­nhecimento diplomático das principais potências. Isto foi obtido com poucos ras­gos heroicos (no Brasil e em An­go­la, sobretudo) e com muita pa­ciên­cia, muita tenacidade, uma vi­são fria e realista, e também com grandes sacrifícios e alguns des­gos­tos, que não pouparam o rei:

apesar dos seus esforços, não con­seguiu libertar o irmão, o in­fan­te D. Duarte, que, depois de pres­tar brilhantes serviços ao im­pe­ra­dor alemão, foi preso por es­te, pa­ra agradar à Espanha, e veio a mor­rer em cativeiro. Outro gol­pe mui­to rude foi a morte do prín­ci­pe her­deiro, D. Teodósio. Em momento algum o rei des­c urou a defesa e os interesses do reino. Não hesitou, mesmo, em pon­derar soluções impopulares: a da­da altura, a situação era tão gra­ve que chegou a considerar a hi­pó­tese de se retirar para os Aço­r es e aí reinar sobre o Brasil, en­quan­to no reino ficaria o prínci­pe D. Teodósio, que casaria com uma princesa francesa. Solução que, naturalmente, desagradava ao orgulho nacional, mas D. João IV, já foi dito, era um pragmático e pen­sou que seria assim possível fa­zer frente com mais eficácia à amea­ça espanhola. No entanto, es­te pragmatismo não obstou a que ele sempre defendesse a dig­ni­dade da coroa. Se considerarmos, no seu todo, o reinado do fundador da quarta di­nastia, teremos de admitir que, his­toricamente, os portugueses de­vem muito a D. João IV. Não ha­verá, naquele período, grandes mo­ti­vos heroicos (se bem que ha­ja muito a dizer sobre a atua­ção militar portuguesa, tanto no rei­no como em África e no Brasil), mas nem por isso a dívida é me­nos larga.

COMPOSITOR E BIBLIÓFILO

Enfim, é também justo reco­nhe­cer os méritos culturais deste rei. Um dos seus mestres, o Dr. Je­ró­nimo Soares, deu-lhe uma ex­ce­lente instrução em teolo­gia e le­tras clássicas. Em música, estudou com o inglês Robert Tornar, mes­tre de capela em Vila Viçosa, e com o contrapontista (e exce­len­te compositor) João Lourenço Re­belo, que, além de seu professor, foi também seu amigo. Sabe-se que D. João IV compôs música sa­cra, mas dela pouco ou nada so­bre­viveu, e há ainda dúvidas quanto aos dois motetes que lhe são atribuídos. Não só compôs mú­si­ca como escreveu sobre mú­si­ca, e formou uma magnífica bi­blio­teca a partir daquela que lhe dei­xara o avô. Infelizmente, estava instalada no Paço da Ribeira, em Lisboa, e desapareceu durante o terramoto de 1755. Não há, portanto, grandes ves­tí­gios da atividade cultural de D. João IV. É pena, claro, mas, ten­do em conta o seu perfil e a épo­ca histórica em que viveu, não é es­sen­cial. A sua dedicação ao rei­no e a ação que desenvolveu em con­di­ ções extremamente des­fa­vo­rá­veis bastam para o con­sa­grar co­mo um superpor­tu­guês. JOÃO AGUIAR Este artigo foi publicado originalmente na SUPER 125. João Aguiar faleceu em 2010.


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Interessante

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Histórias do Tejo

A Nossa Senhora dos Mártires pertencia ao topo de gama da construção naval do iníco do século XVII. O objetivo era ir à Índia e voltar com um carregamento de pimenta, o ouro negro.

A única viagem No início do século XVII, a nau Nossa Senhora dos Mártires, carregada com pimenta da Índia, desfez‑se contra as rochas na barra do Tejo. O povo foi a correr apanhar a pimenta que cobriu de negro a costa e as margens do rio, enquanto duzentas pessoas se afogavam. 14 SUPER

T

arde de 15 de setembro de 1606. Ao passar pela nau Salvação, encalhada há dois dias nas areias da baía de Cas‑ cais, os passageiros e a tripulação da Nossa Senhora dos Mártires lamentaram o seu final inglório. Horas depois, quando o navio descontrolado se aproximava das rochas assassinas do Forte de São Julião da Barra, rezavam a Deus para ter o mesmo destino misericordioso. Duzentas pessoas rezaram em vão. Ano e meio antes, a Nossa Senhora dos Mártires acabara de sair dos estaleiros da Ribeira de Lisboa e preparava‑se para o batismo mais nobre que um navio do início do século XVII podia ter: uma viagem à Índia. A embarcação era o topo de gama do seu género. Com mais de 30 metros de comprimento, 13 de largura e dezenas de canhões, a nau era capaz de trans‑ portar cargas de 300 toneladas. A importância do tamanho do porão era proporcional ao da travessia: com mais de um ano a separar a par‑ tida do regresso, compensava usar grandes navios, para trazer a maior quantidade possível de especiarias de uma só vez. O que se perdia em velocidade e agilidade ganhava‑se em músculo.


Naquele 27 de março de 1605, no entanto, a imponente embarcação era apenas mais uma, no meio da armada real fundeada no Tejo.

MARINHEIROS DE ÁGUA DOCE

Ao todo, cinco navios aprontavam‑se para largar as amarras, navegar para o outro lado do mundo e voltar para a capital carregados de valiosas especiarias (que valiam o seu peso em ouro pela Europa fora), porcelanas e outros tesouros asiáticos. Guiados pela nau Nossa Senhora de Betancor, do experiente Brás Telles de Menezes, líder da expedição, seguiam ainda a Nossa Senhora da Salvação, a Nossa Senhora da Conceição e a Nossa Senhora da Oliveira. Duas semanas antes, tinha partido outra armada, que levava a bordo Marim Afonso de Castro para substituir Aires de Saldanha como vice‑rei da Índia: Filipe II queria no posto um governante mais bélico, para enfrentar os holandeses nos mares de Malaca, na atual Malásia (com a união dos dois reinos da penín‑ sula Ibérica, Portugal herdara os inúmeros conflitos espanhóis). Aos lemes da Nossa Senhora dos Mártires, ia um comandante que ganhara o prestigiado

lugar da forma mais comum na época: com uma cunha, por graça do seu sangue azulado. Manuel Barreto Rolim era filho de Jorge Bar‑ reto, comendador da Azambuja, e de D. Leo‑ nor de Moura Rolim, que não aceitaram o seu casamento com D. Catarina de Eça. Deserdado, Manuel teve de fazer pela vida, e a Carreira das Índias era a solução mais lucrativa da altura. Pouco importava que os seus conhecimentos de navegação fossem mínimos. Era, aliás, bas‑ tante comum marinheiros de água doce como ele acabarem a capitanear imponentes navios. Com maus resultados, muitas vezes. Independentemente dos capitães, a saída para a Índia de uma armada pertencente ao reino era um momento especial na vida de Lisboa, com milhares de pessoas a encher as margens do Tejo para se despedirem dos marinheiros. Foi nesse ambiente entre a festa e a melancolia que os cinco navios zarparam de Belém.

PARA LÁ DOS LIMITES

A viagem correu sem mácula. A 28 de setembro, seis meses e um dia após a partida, as cinco naus atracaram no porto de Goa.

Daí seguiram para Cochim, onde uma imensa carga de pimenta as esperava. Havia uma grande pressão para carregar cada navio até ao limite, ou para lá do limite. Assim se aumentavam os lucros e se fazia boa figura junto do rei. Porém, ambição em dema‑ sia, como se sabe, costuma dar mau resultado. Além de as embarcações regressarem a Lisboa quase sempre sobrecarregadas, o peso tam‑ bém era mal distribuído, desequilibrando as naus e dificultando a navegação. A Nossa Senhora dos Mártires largou de Cochim a 16 de janeiro de 1606, na compa‑ nhia da Nossa Senhora da Salvação. O resto da armada saíra 18 dias antes, ainda em dezembro, como mandavam as regras. Partidas tardias cos‑ tumavam resultar em viagens problemáticas, com correntes e ventos adversos. A razão do atraso destes dois navios perdeu‑se no tempo. A bordo, o navio de Manuel Rolim levava Aires de Saldanha, 17.º vice‑rei da Índia, que terminara a comissão de serviço. Outra figura de relevo era o padre jesuíta Francisco Rodri‑ gues, que regressava a Portugal após mais de 20 anos a espalhar a letra da Bíblia no Extremo Oriente. O missionário fazia‑se acompanhar Interessante

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Histórias do Tejo por um jovem japonês, convertido ao cris‑ tianismo e rebatizado de Miguel. A tripular o barco iam 60 marinheiros e 70 grumetes, um sacerdote e outros homens especializados (como um barbeiro, que servia igualmente de cirurgião quando a ocasião exigia outra fina‑ lidade às suas lâminas). Embora o seu obje‑ tivo fosse o transporte de mercadorias, a nau deveria ainda levar algumas dezenas de pas‑ sageiros, entre legítimos e clandestinos, e 40 soldados, para o caso de se cruzar com piratas ou corsários.

TEMPORAL IMPREVISTO

Os meses seguintes foram relativamente tranquilos, descontando a saúde de Aires de Saldanha, a definhar ao longo da travessia. A 18 de junho, dias antes da atracagem na baía de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, o ex‑vice‑rei morreu. A nobreza que lhe corria nas veias e, sobretudo, o facto de os Açores estarem perto salvou‑o de ser lançado ao mar: nenhum navio se podia dar ao luxo de ter um corpo a apodrecer a bordo. Aires de Saldanha seria convenientemente sepultado na catedral da cidade. A sua fortuna continuaria o cami‑ nho sem ele. As duas naus irmãs aventuraram‑se pelo último percurso em julho. Durante as 850 milhas náuticas que separavam (e ainda sepa‑ ram) a Terceira da capital portuguesa, a Salvação adiantou‑se. Aproximou‑se de Cascais no dia 12 de setembro. Não foi um bom momento para chegar. O vento batia forte de sul, empurrando insis‑ tentemente o navio para a costa. Uma galera tentou rebocar o navio e falhou. Aos poucos, a Salvação perdia as forças e a batalha contra a natureza. Ainda assim, o comandante preferiu

Resgatada

E

m 1994, os vestígios da Nossa Senhora dos Mártires foram encontrados no fundo das águas por uma equipa de arqueó‑ logos. Descobriu‑se o casco (um pedaço de madeira de 12 metros por sete), vários canhões, astrolábios, pratos chineses e ainda uma boa quantidade das especiarias que deram o nome à tragédia daquele dia 15 de setembro de 1606: o Naufrágio da Pimenta. Os arqueólogos subaquáticos, liderados por Francisco Alves (ex‑diretor do Centro Na‑ cional de Arqueologia Náutica e Subaquáti‑ ca), tiveram de usar uma máquina sugadora, com collants de senhora a servir de filtro, para recuperar os grãos de pimenta que ain‑ da se encontravam espalhados entre o lodo, praticamente 400 anos após o naufrágio.

16 SUPER

não avançar pelo estuário do Tejo adentro, onde encontraria águas mais calmas. D. João de Menezes sabia que passar a barra naquelas

condições era suicídio. A sua opção fê‑lo perder o navio. No dia seguinte, a embarcação fica‑ ria presa nas areias em frente à vila, mas pelo


Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, de Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013) http://bit.ly/1hrY8Zc

Quando encontraram os vestígios da Nossa Senhora dos Mártires, junto ao Forte de São Julião da Barra, os arqueólogos subaquáticos verificaram que ainda havia grãos de pimenta espalhados no lodo.

algum tempo. Perdido num país estranho, fez‑se ao mar na primeira oportunidade. Nunca voltaria a ver as ilhas nipónicas: morre‑ ria pouco antes de lá chegar, em Macau, qua‑ tro anos mais tarde.

SOBREVIVENTES

menos quase toda a gente foi resgatada. A 15 de setembro, uma sexta‑feira, a Nossa Senhora dos Mártires deparou com o mesmo temporal. Manuel Rolim, vendo o destino da Salvação, tomou uma decisão mais audaz do que o seu colega. A audácia sair‑lhe‑ia cara.

MANOBRA ARRISCADA

O comandante optou por entrar no rio, mesmo com perigosos ventos laterais e a maré a vazar. Com dois oceanos conquistados sem soluços, não passou pela cabeça de Manuel Rolim que a barra do Tejo fosse grande adver‑ sário. A soberba e a pressa em fugir da tempes‑ tade, aliadas à sua ingenuidade naval, foram fatais: ao passar a praia de Carcavelos, a Nossa Senhora dos Mártires foi sendo empurrada, lenta mas inexoravelmente, em direção às rochas do Forte de São Julião da Barra. Soltou‑se o pavor a bordo. Nada havia a fazer. A nau esmagou‑se contra as pedras e desfez‑se em milhares de pedaços. Passageiros e tripu‑ lantes caíram à água, o que naquele tempo era morte quase certa: pouca gente sabia nadar, e entre os marinheiros, a maioria recrutada no interior do país, ainda menos.

Na margem, milhares de pessoas que tinham vindo esperar os seus familiares assis‑ tiram, horrorizadas, à tragédia. Alguns pesca‑ dores apressaram‑se a recolher sobreviventes. No final, contaram‑se duzentas vidas perdidas às portas do Tejo. Durante os dias seguintes, dezenas de corpos deram a terra. Horas após o naufrágio, a linha de costa entre Lisboa e Cascais enegreceu. Trezentas toneladas de pimenta invadiram as margens do Tejo e as praias. A população ribeirinha, mise‑ rável e desesperada, depressa se esqueceu dos mortos e acorreu à costa para recolher o valioso ouro negro da época. A guarda real multiplicou os esforços e a violência para ten‑ tar evitar o saque, mas a maior parte das espe‑ ciarias acabou nas mãos do povo. Acabava assim em tragédia a viagem inau‑ gural da Nossa Senhora dos Mártires. No fundo das águas, junto ao forte, ficariam os restos da nau, porcelanas chinesas e outros tesouros que vinham a bordo, incluindo os pertences de Aires de Saldanha. O padre Francisco Rodrigues foi uma das vítimas do naufrágio. Miguel, o seu aprendiz japonês, sobreviveu‑lhe, pelo menos durante

Quem se salvou para viver os anos dourados foi Cristóvão de Abreu, um modesto grumete, que havia feito a sua primeira viagem na Nossa Senhora dos Mártires. O marujo não ganhou medo ao mar. Continuou a fazer carreira na Rota das Índias, subiu na vida e chegou a mestre (o homem que tem a seu cargo as manobras do navio e a quem os marinheiros respondem diretamente). Morreria 41 anos mais tarde, com uma vida de trabalho honrosa quanto baste para que a viúva tivesse direito a uma pensão decente pelos seus serviços à causa real. Outro dos sobreviventes do desastre, con‑ tra todos os lirismos marítimos, foi o coman‑ dante. O responsável pelo naufrágio, no entanto, não se despenhou em desgraça. A 9 de fevereiro de 1609, voltaria a comandar um navio, empossado pelo próprio Filipe II. “Pela confiança que ponho em Manuel Barreto Rolim, nobre da minha casa, e pela experiência que tem em navegação, vejo por bem encar‑ regá‑lo da capitania da nau Nossa Senhora de Guadalupe, que é uma das que este ano viaja‑ rão até à Índia”, mandava o documento real. O regresso de Manuel Rolim ao mar não durou muito. Morreu ao largo do cabo da Boa Esperança, logo na viagem de ida, ironica‑ mente, de doença. A Nossa Senhora de Guadalupe, entretanto, perdeu o leme e foi obrigada a aportar em Angola e a regressar a Portugal, como se uma maldição da Nossa Senhora dos Mártires perseguisse os sobreviventes do seu naufrágio, até depois de mortos. Interessante

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Caçadores de Estrelas

Equinócio, Lua e Páscoa

É

tido como certo que a escolha de datas próximas de Lua Cheia para a realização de rituais pagãos ou religiosos, ao longo dos tempos, terá resultado da necessidade de aproveitar o luar quer para as deslocações noturnas quer para manter alguma iluminação nos locais em que decorriam os cultos. Tal tradição, por ocasião da passagem do inverno para a primavera, terá fixado festividades, representando para uns simples festejos associados ao findar de um período frio e pouco produtivo a que se seguia o ressurgimento de condições naturais propícias ao crescimento de cereais e plantas que constituiriam o indispensável sustento, e para outros o momento de agradecerem aos seus deuses a vida que lhes permitia contemplar a repetição de um ciclo da natureza e orar para que o ano seguinte lhes trouxesse felicidade e abundância. A “passagem” – que alguns investigadores associam à sucessão do inverno pela primavera ou à libertação (Pessach) de Israel do regime escravo do Egito, ou ainda, mais recentemente, à morte e ressurreição de Cristo – estabeleceu-se também intimamente ligada à Lua Cheia. Em todos os casos, a relação com o início da primavera é evidente, ocasião em que o calendário hebreu fixou o seu primeiro mês (Nisan) e que foi também o primeiro mês do ano (março) para os romanos, até 713 a.C., data em que Numa Pompílio fez entrar em vigor um calendário de inspiração lunar. Nas igrejas cristãs, a celebração da Páscoa gerou, inicialmente, alguma controvérsia: enquanto uns preferiam uma data certa (mesmo que fosse dia de semana), outros optavam pelo domingo seguinte a essa data e outros ainda – com o objetivo de conformar a ocasião com hábitos anteriores, de judeus convertidos – faziam coincidir as celebrações com a data da Pessach. Depois de três séculos de conflitos, no ano de 325, na cidade de Niceia (atual Izniq, na Turquia) reuniu-se um concílio de bispos que, para além de outros assuntos da igreja cristã, tratou a questão da data da Páscoa, tendo estabelecido a regra de que a Páscoa é no domingo seguinte ao décimo quarto dia da Lua

18 SUPER

Ícone da igrja ortodoxa representando o primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325.

que atinge esta idade a 21 de março ou imediatamente a seguir. Tal decisão, embora tivesse a intenção de conduzir a uma uniformização em toda a igreja, em qualquer região geográfica do mundo, arrastaria consigo uma característica ainda hoje bem conhecida – a data variável da Páscoa e, com isso, outros momentos com ela relacionados, como o Carnaval – e a particularidade de a definição da data, embora muito ligada às fases da Lua, ficar sujeita a ocorrências de incompatibilidades entre o calendário eclesiástico e o astronómico, pois o décimo quarto dia após a Lua Nova pode não corresponder, exatamente, à fase de Lua Cheia, e o equinócio ocorre mais vezes a 20 do que a 21 de março. Assim, esta lei impõe uma data da Páscoa a vagabundear entre 22 de março e 25 de abril, ou seja, a poder coincidir com trinta e cinco datas

diferentes, sendo certo que as extremas (22 de março e 25 de abril) são as menos prováveis. O assunto voltou a ser abordado, em 1997, no Conselho Mundial das Igrejas realizado em Alepo (Síria), tendo então sido admitido que “a data da Páscoa passaria a coincidir com o primeiro domingo após a Lua Cheia astronómica posterior ao equinócio de março”. A “Lua Cheia da Páscoa” deste ano de 2016 ocorrerá no dia 23 de março, pelo que o domingo seguinte (27 de março) será “domingo de Páscoa”, circunstância consideravelmente diferente do que acontecerá no próximo ano. A primeira Lua Cheia a seguir ao equinócio de março de 2017 verificar-se-á a 11 de abril e, consequentemente, a Páscoa será comemorada no domingo seguinte, 16 de abril. MÁXIMO FERREIRA Diretor do Centro Ciência Viva de Constância


A Nebulosa do Caranguejo (M1).

O céu de março

J

úpiter já faz parte do céu observável ao princípio das noites do mês de março deste ano e é muito frequente ouvir-se dizer que “é mais bonito do que Saturno”, dado que este, excetuando a “novidade” de se mostrar com uma espécie de “chapéu” (Galileu afirmou que, pelos seus telescópios, pareciam orelhas), não apresenta tantos pormenores e variações de aspeto como Júpiter. De facto, o maior dos planetas do Sistema Solar evidencia – mesmo através de um telescópio não muito grande – como que faixas irregulares mais visíveis na região equatorial e, talvez mais interessante do que isso, as suas quatro luas facilmente observáveis não param de alterar as posições relativas, simulando uma espécie de bailado cósmico. Por o seu deslocamento pela esfera celeste ser extraordinariamente lento, todos os meses Júpiter é ultrapassado pela Lua, acontecimento que ocorrerá no dia 21, segundo dia de primavera. Antes disso, já o nosso satélite natural terá percorrido quase todo o céu, tendo surgido no dia 11 (com a idade de dois dias, ou seja, dois dias depois de Lua Nova), como um

fino crescente projetado sobre estrelas da constelação dos Peixes. Depois, prosseguirá o seu atraso em relação às estrelas, surgindo em cada noite um pouco mais à esquerda, sempre nas proximidades da eclíptica, linha imaginária no céu que corresponde ao plano da órbita da Terra e que no mapa das páginas seguintes se representa a tracejado. No dia 13, a Lua passará a sul do enxame das Plêiades (M45) e o seu brilho é já suficiente para ofuscar aquele grupo de estrelas (popularmente designado por “sete estrelo”), embora ainda seja possível ver as mais brilhantes, apesar de ligeiramente “apagadas”. Dois dias depois (15 de março), será Quarto Crescente e a Lua projetar-se-á (ainda na constelação do Touro) praticamente na direção em que se encontra uma nebulosa que o astrónomo francês Charles Messier observou em 1758 e o motivou a elaborar o seu famoso catálogo de manchas que via no céu e que, aos poucos, se foi confirmando englobarem nebulosas, enxames de estrelas e galáxias. À referida nebulosa, situada na constelação do

Touro e onde Lord Ross, em 1844, viu filamentos que comparou com as “pernas de um caranguejo”, Messier atribuiu o número 1 do seu catálogo, razão por que é conhecida como M1. Na véspera do início da primavera, a Lua estará um pouco à esquerda de outro enxame, o M44, que, em ambientes de céu escuro, os olhos podem alcançar e corresponde ao objeto celeste já referido em registos anteriores ao início da nossa era, não se sabendo quem ali imaginou um Presépio ou uma Colmeia, designações que ainda hoje se lhe atribuem. Depois do aparecimento do telescópio, tornou-se possível perceber que a “pequena nuvem” (como lhe chamou Hiparco, em 130 a.C.) é constituída por centenas de estrelas, das quais Galileu terá contado 36. O céu visível a norte mostra a Ursa Maior bem alta, logo ao princípio das noites, ao passo que a Cassiopeia vai surgindo cada vez mais perto do horizonte, a noroeste. Agora como sempre, o céu é visto como rodando em torno de um ponto “fixo” – o polo – marcado pela Estrela Polar, que “não se move”. Interessante

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Mapa do Céu Como usar

Vire-se para sul e coloque a revista sobre a cabeça, de modo que a seta fique apon­ta­da para norte. Se se voltar em qual­quer das outras direções (norte, este, oeste), pode ro­dar a revista, de modo a facilitar a leitura, desde que mantenha a seta apontada para norte. Os planetas e a Lua estarão sempre perto da eclíptica. O céu representado no mapa (no que se refere às estrelas) corresponde às 20h do dia 5. A alteração que se verifica ao longo do mês, à mesma hora, não é muito importante. No entanto, com o decorrer da noite, as estrelas mais a oeste irão mergulhando no horizonte, enquanto do lado este vão surgindo outras, inicialmente não visíveis.

As fases da Lua

Quarto Minguante Lua Nova Quarto Crescente Lua Cheia Quarto Minguante

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Dia 1 às 23h11 Dia 9 às 01h54 Dia 15 às 17h03 Dia 23 às 12h01 Dia 31 às 15h17


NORTE

Interessante

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Sociedade Digital

Aaron Sartz, herói digital Fez no passado dia 11 de janeiro três anos que Aaron Swartz, então com 26 anos, pôs fim à própria vida no seu apartamento de Brooklyn, Nova Iorque. Nesse dia, o programador, hacker, ativista e empreendedor brilhante converteu-se naquele que é provavelmente o primeiro herói da revolução digital.

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uando se fala de heróis (ou vilões, conforme o ponto de vista) da era da internet, os nomes que imediatamente vêm à baila são os de Julian Assange ou Eduard Snowden. Ambos lutaram, à sua maneira, para proteger os cidadãos do poder abusivo dos estados nesta era de abundância dos mecanismos de vigilância e controlo digital, mas nenhum deles deriva o seu “heroísmo” daquela que é a essência da revolução digital em curso: a liberdade de produção e distribuição de informação. Aaron Swartz é o primeiro mártir dessa revolução, e provavelmente o seu primeiro grande herói. Dois livros editados recentemente ajudam a explicar porquê. Um deles – The Boy Who Could Change the World: The Writings of Aaron Swartz – reúne as ideias expressas em vários locais e circunstâncias pelo próprio Swartz. O outro – The Idealist: Aaron Swartz and the Rise of Free Culture on the Internet – é uma biografia, assinada por Justin Peters, que tem a vantagem de explicar em pormenor e do ponto de vista teórico qual a essência e a razão de ser do ativismo de Aaron Swartz. O documentário The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, realizado por Brian Knappenberger em 2014 (e disponível no YouTube, naturalmente) ouve familiares, amigos e especialistas para obter o mesmo ponto de equilíbrio entre o lado pessoal de Aaron Swartz e a sua militância política e social. Vale a pena ver!

QUEM ERA AARON SWARTZ?

Aaron Swartz era o protótipo do menino-prodígio da era da internet. Programador e hacker, desde cedo revelou uma curiosidade insaciável pelos temas da tecnologia e da programação, andando sempre um ou dois pas-

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sos à frente dos outros jovens da sua idade em termos de percurso académico. Na verdade, quando olhamos para o percurso de vida do jovem Swartz, é impossível não notar o paralelo com muitos outros jovens que hoje dão cartas nas novas empresas de Silicon Valley. A diferença, em Swartz, foi que em determinado momento as suas preocupações políticas e sociais sobrepuseram-se ao seu empreendedorismo e ele tornou-se o ativista que hoje conhecemos. Esteve ligado à fundação do site Reddit, criou a primeira geração do RSS, desenvolveu as licenças Creative Commons e iniciou o movimento que levou à derrota dos projetos SOPA e PIPA, que pretendiam compartimentar e regular a livre circulação da informação na internet. Uma das coisas que irritava particularmente Aaron Swartz era o facto de os trabalhos académicos, cujo valor social e científico é obviamente inestimável, serem mantidos atrás de uma barreira de copyright que ele considerava antiquada e anquilosada. Foi esse sentimento de injustiça que o levou à cave do MIT para, usando as suas credenciais académicas, descarregar milhares de trabalhos da base de dados do JStor. Parece claro que o seu objetivo não era vender esses documentos nem realizar lucro com eles, mas somente colocá-los ao dispor do público em geral (o que aliás tinha sido muito antes expresso num manifesto). No entanto, foi isso que levou à acusação de obtenção ilegal de documentos, entre outras, com penas que, no conjunto, podiam ir até aos 35 anos de prisão e um milhão de dólares em multas. Ou seja, a justiça norte-americana queria fazer de Aaron Swartz um exemplo e foi a perspetiva de isso vir a acontecer que ele não aguentou.

A LIBERDADE DE INFORMAÇÃO

Por detrás da luta de Aaron Swartz estava obviamente a confrontação entre dois mundos muito diferentes: de um lado, as instituições que continuam a regular e controlar os fluxos de informação na sociedade (as editoras e os direitos de autor, por exemplo); do outro, os efeitos desreguladores que as tecnologias de informação e comunicação digitais têm sobre essas instituições. Para perceber a fundo a questão, precisamos olhar para as características especiais da informação e para o efeito que as tecnologias digitais têm sobre elas. Em primeiro lugar, a informação é, ao contrário dos outros, um produto “não rival”, o que significa que a utilização de uma informação por parte de alguém não impede que outra pessoa a use também. Em segundo lugar, é “não exclusiva”, o que significa que, uma vez que alguém tenha uma informação, é muito difícil evitar que outras pessoas não a tenham também. Por outro lado, a informação é aquilo de que são feitas as nossas relações sociais. É através de trocas de informação que nós coordenamos as nossas ações sociais, sejam elas pessoais ou profissionais, económicas ou não econó-


Opinião

A informação quer ser livre

N

micas. Ora, o que a teoria de redes nos diz é que quanto mais extenso for o alcance de uma rede maior a quantidade e a qualidade de recursos que cada indivíduo pode mobilizar nessa rede. Dito de outro modo, quanto mais extensa e ativa for a rede de contactos sociais de uma pessoa, de um grupo ou de uma comunidade, melhor para essa pessoa, esse grupo ou essa comunidade. Ou seja, uma informação não é desvalorizada quando é usada; pelo contrário, ela é mais valorizada cada vez que é usada. De um ponto de vista económico, isto aponta para a informação como um bem público e que portanto deve ser livre.

REVOLUÇÃO DIGITAL

É aqui que acontece o choque: por um lado as novas tecnologias de informação e comunicação que Swartz dominava tão bem potenciam os efeitos socialmente benéficos da informação; por outro lado, enfrentam a resistência de um conjunto vastíssimo de hábitos, rotinas e instituições sociais que vêm do passado mas que já não servem ao futuro, como o copyright. O conceito de copyright (ou “direito de autor”) foi concebido para uma época em que a infor-

Aaron Swartz foi um lutador pela liberdade de informação, por uma internet livre e aberta. Perdeu a vida, mas ganhou a causa.

mação (analógica) viajava em suportes físicos (um papel, uma fita magnética, um vinil). O copyright era então, o direito literal de fazer uma cópia. A partir do momento em que uma informação (qualquer informação) se torna digital, o próprio conceito de cópia deixa de fazer sentido, uma vez que a informação não existe senão como “zeros” e “uns” virtualmente idênticos em todos os computadores que os partilhem. Por isso é que Aaron Swartz esteve ligado à conceção inicial das licenças Creative Commons. Estas licenças foram (e são) uma tentativa de enquadrar social e institucionalmente o problema dos direitos de autor no novo quadro de abundância e dispersão da informação. E, obviamente, são muito mais “abertas” do que o copyright original. Aquilo de que nós precisamos, como sociedade em transição de um paradigma de informação para outro, é precisamente de soluções criativas para estes problemas. Por isso é que Aaron Swartz fazia falta. Por isso é que fazer dele um “exemplo” foi, afinal, um péssimo “exemplo”!

os estudos sobre informação na era digital, esta frase surge muitas vezes como um chavão libertário: “Information wants to be free”. Originalmente, a frase foi proferida por Stewart Brand, fundador do Whole Earth Catalog, numa conferência realizada em 1984, e era ligeiramente mais longa: “Por um lado, a informação quer ser cara, porque tem muito valor. A informação certa no momento certo pode mudar a nossa vida. Por outro lado, a informação quer ser livre, porque o custo de a obter está a ficar cada vez mais baixo. É por isso que temos estas duas ideias a lutarem uma com a outra.” A frase capta a essência do que está em causa. Por um lado, o “valor” da informação levou a que, historicamente, fossem desenvolvidas instituições e procedimentos sociais tendentes à captura desse valor, como o copyright, por exemplo. Porém, as tecnologias digitais reduzem dramaticamente os custos de obter, produzir e disseminar informação e põem em causa essas regras sociais (e económicas) de captura e incorporação do valor da informação. Ou seja, a desmaterialização da informação acaba por sublimar aquelas que são, em termos abstratos, as suas características distintivas, nomeadamente o facto de ser não rival e não exclusiva e de o respetivo uso aumentar o seu valor em vez de o diminuir, entre outras. Foi isso que Aaron Swartz percebeu imediatamente quando citou Jefferson, um dos “pais” dos Estados Unidos: “Ninguém discute seriamente que a propriedade é uma boa ideia, mas é bizarro sugerir que as ideias possam ser propriedade. A natureza quer claramente que as ideias sejam livres. Embora possamos guardar uma ideia para nós, assim que a partilhamos, qualquer pessoa pode tê-la. Quando isso acontece, as pessoas já não podem desfazer-se dela, mesmo que queiram. Tal como o ar, as ideias não podem ser guardadas e armazenadas.” Se fosse vivo hoje, é possível que Jefferson estivesse a fazer o mesmo tipo de percurso que levou Swartz a um confronto tão dramático com as autoridades! JOSÉ MORENO Mestre em Comunicação e Tecnologias de Informação jmoreno@motorpress.pt

Interessante

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Animais Lição de latim. As capacidades cognitivas da espécie Canis lupus familiaris, domesticada na Europa há cerca de 18 mil anos, continuam a espantar os cientistas.

A inteligência canina

Cachorros ESPERTOS

E

stiveram presentes nas grandes façanhas humanas da história: havia cães a bordo das caravelas de Cristóvão Colombo, na conquista do Polo Sul, na primeira viagem de um ser vivo em redor da órbita terrestre (lembra-se da Laika?), e até na operação de captura de Bin Laden. Apesar disso, estes animais não são simples ferramentas ou máquinas de trabalho com vida. De facto, pode ser que ainda não se tenha apercebido, mas, se tem um cão como animal de estimação, está a conviver com um Einstein em potência. Até há bem pouco tempo, não sabíamos muito sobre a inteligência dos Canis lupus familiaris, nem sobre como veem o mundo. Todavia, nos últimos anos, multiplicaram-se os estudos nesse campo e foi possível comprovar que as suas capacidades cognitivas são semelhantes às de uma criança.

MEMÓRIA E APRENDIZAGEM

Na Odisseia, Ulisses regressa à ilha de Ítaca vinte anos depois de ter partido para lutar na guerra de Troia: para que ninguém saiba quem é, disfarça-se de mendigo, mas Argos, o seu velho cão, reconhece-o de imediato. Para além dos mitos ou das criações literárias, o que averiguou a ciência sobre a memória canina? Desde o início do século XX que se sabe que os cães possuem uma capacidade prodigiosa para reter e recuperar informação. Por exemplo, um border collie sobredotado chamado Chaser, da Carolina do Sul, reconhece mais de mil

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objetos pelo nome. Além disso, recorda-se deles meses depois. Efetivamente, as experiências demonstram que eles assimilam vocabulário de uma maneira semelhante à das crianças. Alguns cães conseguem mesmo relacionar rótulos abstratos com objetos concretos. Se ensinar a palavra “bola” a um cão e esconder uma de futebol entre outras coisas, ele irá procurá-la quando disser o nome em voz alta. Porém, se depois a retirar e voltar a exclamar “bola!”, mas desta vez se tratar de uma bola de ténis, deduzirá que se está a referir à mesma categoria e escolhe a opção correta. O psicólogo Paul Bloom, da Universidade de Yale (Estados Unidos), colocou à prova, de forma empírica, essa faculdade de exclusão, misturando livros e brinquedos que os animais não tinham visto antes. Se ordenava “traz um brinquedo”, ele dirigia-se para qualquer dos objetos que servissem para brincar. Depois, quando lhe dizia “traz um não brinquedo”, trazia sempre um livro. Noutras experiências, em vez de lhes falar, mostrava-lhes a réplica de um objeto. Os animais voltavam a acertar em todas as ocasiões. Os cães também conseguem copiar-nos e imitar-nos, algo que muito poucos animais fazem e que é fundamental na aprendizagem social. Embora não o façam de maneira espontânea, como os grandes símios, possuem uma aptidão inata. Numa ocasião, os cientistas condicionaram um grupo de cães a abrir uma porta, empurrando-a. Metade iria receber um prémio por

SHUTTERSTOCK

Múltiplos estudos e experiências confirmam o que os seus donos já suspeitavam: por vezes, só falta aos cães falar. A memória, a empatia e a capacidade para comunicar caninas estão muito acima da média no reino animal.


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Reconhecem os donos até no ecrã da televisão

Traz-me o Pokémon! Estudado por cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha), o border collie Rico era capaz de identificar 200 objetos pelo nome. Morreu em 2008.

ter emulado os seres humanos, enquanto os restantes foram incentivados para o conseguirem através dos seus próprios métodos. Resultado? O grupo de imitadores aprendeu muito mais depressa. Ou seja, os cães não abordam este tipo de problemas através de tentativa e erro: podem resolvê-lo de forma imediata se virem alguém fazê-lo primeiro. A conclusão é que a memória canina é mais parecida com a nossa do que se pensava. De facto, os cães também possuem a modalidade declarativa ou episódica, a capacidade de recuperar conscientemente memórias associadas a factos ou conhecimentos.

COMUNICAÇÃO

Plásticas e flexíveis, as cordas vocais dos cães permitem-lhes emitir sons com significados que tanto os seus congéneres como os seres humanos entendem, pois os latidos variam, consoante o contexto, em amplitude, duração e tom. Assim, fazem-se ouvir para recrutar outros em caso de perigo, e identificam os indivíduos pelos sons que captam, a fim de classificá-los como amigos ou inimigos. Parecem também saber ajustar a sua expressividade à audiência. Isso significa que modificam as vocalizações e os gestos consoante o que vê ou não vê (e ouve ou não ouve) quem os acompanha. Assim, os cães-guia que ajudam as pessoas cegas lambem mais os donos para que possam receber a informação que possuem: as lambidelas são a sua resposta por viver com pessoas que não reagem a sinais visuais. Do mesmo modo, desobedecem às ordens se houver perigo para os donos. Numa determinada experiência, um cão devia escolher entre pedir comida a uma pessoa com os olhos tapados ou a outra que podia ver. O animal dirigia-se sempre à segunda: sabia que podia comunicar com ela se distinguisse os seus olhos. Trata-se de algo que a maior parte dos animais não faz: identificar quem possui a informação desejada. A fim de averiguá-lo com maior precisão, o psicólogo József Topál, da Academia Húngara de Ciências, ocultou vários objetos em caixas, todas fechadas à chave. Depois de escondê-las na presença de um cão chamado Philip, surgia um ser humano que não sabia onde estavam. As reações de Philip foram muito semelhantes às que se obtêm de crianças nas mesmas circunstâncias: apanhava as chaves e conduzia a pessoa até ao sítio onde o objeto estava guardado. Se o voluntário estivesse presente quando Topál fechava as caixas, o cão nada

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fazia para ajudá-lo. Isto é, tinha consciência do que tinha visto, ou não, no passado. Embora os cães não possuam uma linguagem tão complexa como a nossa, a sua inteligência em termos de comunicação é fascinante.

AUTOCONSCIÊNCIA

O teste clássico para determinar se um animal possui perceção de si próprio consiste em confrontá-lo com um espelho. Se pintarmos uma marca na cara de um chimpanzé ou de um elefante sem que ele se tenha apercebido, irá tocar no sinal, ou tentar retirá-lo, ao ver o seu reflexo, pois sabe que se trata da sua própria imagem. O problema de utilizar este tipo de testes com cães é que eles não são tão visuais; por essa razão, nem todos os autores concordam com o mérito do teste. Por exemplo, Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evo-

lutiva na Universidade do Colorado, considera que ele não pode ser aplicado a espécies que apreendem o mundo através do olfato. Se pensarmos que um cão possui 220 milhões de recetores olfativos, e compararmos esse número com os cinco milhões presentes no nariz humano, a ideia não parece descabida. De facto, Bekoff concebeu um teste que promete abrir novos debates entre os especialistas. Em primeiro lugar, o investigador obtém uma amostra de urina de um cão e esconde-a num bosque. Em seguida, passeia a criatura pela zona e examina as suas reações perante a própria micção, a fim de poder compará-las com as que manifesta quando fareja a urina de outros. Assim, o especialista norte-americano conseguiu comprovar que os exemplares não urinavam sobre as próprias marcas, o que parece constituir um indício de possuírem uma certa consciência de si próprios.


O mito das raças

MANUELA HARTLING / REUTERS

G

EMPATIA E EMOÇÕES

Como primatas, os seres humanos possuem a capacidade de se colocarem na pele dos outros, mas não são os únicos animais a fazê-lo. Os cães também são excelentes a identificar-se com a mente alheia. É frequente aproximarem-se, de forma natural, de congéneres que foram vítimas de uma agressão para os consolar, e não fazem caso dos vencedores da briga. Em dois terços das observações feitas pelos especialistas, a parte não envolvida no confronto aproximava-se, efetivamente, de quem se saíra pior. Será que também sentem empatia pelas pessoas? A fim de averiguá-lo, as psicólogas Deborah Custance e Jennifer Mayer, da Faculdade Goldsmiths, da Universidade de Londres, analisaram o comportamento de dezoito exemplares de raças e idades diferentes. O teste consistia em examinar a sua reação perante pes-

soas que simulavam chorar, situadas junto de outras que simplesmente falavam ou cantarolavam algo. Custance e Mayer observaram que os cães mostravam mais preocupação e se aproximavam com maior frequência dos voluntários que fingiam estar tristes. Outro indicador de empatia é o contágio do bocejo. Para se produzir, é necessário possuir uma certa estrutura cerebral e os neurónios-espelho, responsáveis por rirmos, chorarmos ou abrirmos a boca quando vemos os outros fazê-lo. Os cães também obtêm resultados positivos: em experiências realizadas recentemente, 67 por cento dos exemplares estudados bocejavam ao mesmo tempo que os seres humanos. Além disso, não se trata de algo aprendido. O etólogo Brian Hare, da Universidade Duke (Estados Unidos), demonstrou que os cachorros de nove meses fazem-no tão bem como os

ostamos das listas e dos mitos urbanos sobre que raças caninas são mais inteligentes, mas não devemos dar-lhes grande importância: os testes desenvolvidos em laboratório chegam à conclusão de que não há grande diferença entre elas, digam o que disserem. Após realizar diversas experiências, Julie Hecht, psicóloga da Universidade de Nova Iorque, conclui que existem, na realidade, mais divergências cognitivas entre exemplares da mesma raça. Além disso, a seleção reprodutiva foi geralmente levada a cabo em função de características físicas ou de temperamento, sem tomar em consideração o quociente intelectual dos cães. Em 2003, quando se sequenciou o genoma do Canis lupus familiaris, confirmou-se que a espécie descende do lobo. Além disso, foram estabelecidos dois grupos principais com base nas cerca de duzentas raças conhecidas no mundo. Como indica o etólogo Brian Hare, a diferença reside no seu grau de cooperação com os seres humanos, o qual depende da carga genética proveniente dos lobos. Os que possuem maiores laços de parentesco com esses animais selvagens (e que colaboram menos connosco) são o husky siberiano, o galgo afegão, o akita asiático, o malamute do Alasca, o chow chow chinês, o dingo australiano, o cão-cantor da Nova Guiné e o basenji africano, o mais lupino de todos. No segundo grupo, estariam as restantes raças modernas, mas isso não significa que sejam mais espertas; simplesmente, ligam-nos mais.

exemplares adultos, o que significa que já nascem com esse dom. Porém, embora entendam os sinais tanto de conhecidos como de estranhos, isso não significa que lhes seja indiferente a sua proveniência. O apego canino pelos donos é de tal ordem que, noutra série de experiências, se demonstrou que os cães brincavam mais com pessoas desconhecidas na presença dos donos do que no caso de estes se ausentarem. Trata-se de uma confirmação da segurança que os laços entre as duas espécies conferem, tanto a eles como a nós. A empatia canina foi sempre um tema controverso, mas chegou a altura de aceitar que acumulámos cada vez mais provas científicas da sua existência: os nossos animais de estimação são criaturas muito sensíveis e sociáveis. É arrogância pensar que somos os únicos seres vivos do planeta que se emocionam ou se colocam no lugar dos outros. Interessante

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AGE

Docemente. Foi demonstrado que os cães são sensíveis ao tom de voz com que lhes falamos.

INTERPRETAÇÃO DE SINAIS

Desde que nasce, antes mesmo de saber falar, o Homo sapiens comunica com quem o rodeia através de expressões, olhares ou mesmo gestos com a mão ou os dedos. Interpretar tais sinais é fundamental para a nossa sobrevivência: quando se vive em grupo, é preciso reconhecer e prever o que farão os nossos companheiros. Anteciparmo-nos ao comportamento dos restantes pode ajudar-nos a coordenar a nossa conduta na caça ou na fuga, para dar dois exemplos práticos. Não há dúvida de que a gesticulação constitui um tipo de informação social que o torna possível. A fim de testar essa capacidade em símios, um grupo de investigadores dirigido pelo primatólogo escocês Jim Anderson, da Universidade de Stirling (Reino Unido), escondeu comida numa caixa, de forma a não libertar odor, e colocou-a entre outras idênticas. Depois, os investigadores indicaram com gestos aos animais onde se encontrava a recompensa. Anderson e os seus colegas fizeram primeiro a experiência com macacos-capuchinhos, mas estes falharam sucessivas vezes; foram necessárias mais de cem tentativas para acertarem. Em seguida, fizeram o teste a chimpanzés, pensando que estes teriam rapidamente êxito, devido à sua intensa vida social e à sua proximidade evolutiva dos seres humanos. Fracassaram igualmente, exceto no caso dos exem-

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Aproximam-se mais das pessoas que demonstram estar tristes plares que tinham sido criados por pessoas e aprendido, por conseguinte, a entendê-las. Os cientistas pensaram ter conseguido confirmar a existência de uma característica exclusiva da nossa espécie até terem repetido a experiênca com cães: eles, sim, encontravam a comida à primeira tentativa. Compreendem-nos perfeitamente, de forma inata. A linguagem não-verbal também funciona com os seus congéneres. Num ensaio, os cientistas escondiam comida à vista de um cão e, depois, deixavam entrar outro exemplar. O recém-chegado utilizava o olhar do companheiro para adivinhar onde estava a saborosa recompensa. É verdade que o melhor amigo do homem depende muito das mensagens olfativas, como já referimos, mas não deixa de apoiar-se nos sinais visuais e auditivos. De facto, comprovou-se que consegue mesmo reconhecer o dono em ecrãs de televisão ou outros aparelhos eletrónicos. Recentemente, descobriu-se que o tom de voz também é relevante para os cães. Victoria Ratcliffe e David Reby, da Universidade de Sussex (Inglaterra), comprovaram que o

cérebro canino manifestava maior atividade em resposta às entoações positivas do que às negativas, como revela o estudo que publicaram na revista Current Biology. Além disso, reagem, tal como nós, às emoções transmitidas pela voz do falante ou às características sonoras que distinguem o sexo. Quando o estímulo lhes faz sentido e a pessoa atenua ou elimina diretamente as características de género ou entoação, utilizam o hemisfério esquerdo da massa cinzenta. Todavia, se lhes falarem num idioma que não conhecem ou se colocarem os fonemas numa ordem diferente, ativam o lado encefálico direito. “Os nossos resultados sugerem que o processamento dos componentes do discurso no cérebro canino se divide entre ambos os hemisférios, de forma muito semelhante ao que acontece na mente humana”, explica Ratcliffe. A investigação apoia, por conseguinte, a ideia de que os cães não só dão atenção a quem somos e à forma como dizemos as coisas como, também, ao que dizemos. Trata-se de uma boa notícia para quem ama estes animais, pois passamos muito tempo a falar-lhes. P.H.


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SIE


Paleontologia Os fósseis mais impressionantes

Imobilizados na PEDRA

Nem todos os organismos fossilizados estão imóveis. O fóssil também inclui pegadas, sinais de luta ou indícios de ação, pois a morte surpreende muitas vezes os animais em plena atividade: a caçar, a acasalar, a parir... Pensemos num trilho de pegadas e como revela a forma como uma espécie caminha, corre ou salta. Por vezes, esses atos ficam gravados em pedra e oferecem à ciência uma informação preciosa. Estes são os instantâneos fósseis mais expressivos da paleontologia.

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habitantes do deserto de Gobi. Os nossos dois protagonistas estariam já mortos? Ou talvez moribundos, fatalmente feridos pelos ataques recíprocos? Ou terá acontecido enquanto combatiam? Norell está convencido de que continuavam a lutar. Kenneth Carpenter, outro estudioso do fóssil, defende que o herbívoro, ferido de morte pelos ataques do Velociraptor, se defendeu e conseguiu imobilizá-lo. Quando a duna os enterrou, ambos os corpos já estavam ressequidos. Isso explica a razão pela qual faltam três patas do Protoceratops (os animais necrófagos tiveram tempo de levá-las) e pela qual o Velociraptor tem o pescoço dobrado numa postura de morte típica das grandes aves quando ficam mumificadas.

A GRANDE MÃE

Se nos disserem que um dinossauro chocava os seus ovos como se fosse uma galinha, há 80 milhões de anos, não ficaremos muito surpreendidos. Porém, em 1955, os cientistas ainda estavam a tentar habituar-se à ideia da íntima ligação entre as aves e os gigantes da pré-história. A verdade é que cada vez mais

JOSÉ ANTONIO PEÑAS

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ue um combate entre dinossauros possa ficar fossilizado parece exagerado. Todavia, o paleontólogo Mark Norell, do Museu Norte-Americano de História Natural, e muitos outros especialistas argumentam que é possível. Um dos fósseis mais fascinantes (tesouro nacional da Mongólia) mostra dois esqueletos com 74 milhões de anos, lado a lado e envolvidos de uma forma que não parece acidental. Um Velociraptor, deitado de costas, dirige as suas quatro perigosas patas em direção a um Protoceratops (dinossauro herbívoro), que está ligeiramente acima dele. A sua garra esquerda repousa na enorme cabeça da presa. A célebre garra da pata em forma de foice do Velociraptor está sobre o pescoço do vegetariano, como a querer furar-lhe a jugular ou a carótida. Porém, o Protoceratops, muito mais robusto e pesado, esmaga com o seu corpo a perna direita do predador enquanto lhe morde o braço direito. Aparentemente, partiu-lhe os ossos. O desmoronamento de uma duna sepultou-os bruscamente, como aconteceu a muitos outros


De garras de fora. Não deverá ter sido muitro diferente desta ilustração a cena que ficou gravada na pedra do deserto de Gobi (Mongólia), descoberta em 1971: o enfrentamento mortal entre um Protoceratops e um jovem Velociraptor.

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Mãe extremosa. O fóssil Big Mama, encontrado em Ukhaa Tolgod (Mongólia) é de uma fêmea de dinossauro que morreu a chocar os ovos.

A mãe dinossauro Big Mama morreu a proteger o seu ninho fósseis muito bem preservados começavam a estabelecer esse parentesco com crescente força. Duas gotas acabaram por fazer trasbordar o copo: as impressões de penas e os ins­tan­tâ­neos de comportamentos típicos das aves. O fóssil batizado com o nome de Big Mama causou sensação. Trata-se de uma mamã dinossauro, encontrada na Mongólia, que morreu ipso facto, sepultada por uma duna, enquanto estava sentada num ninho sobre mais de vinte ovos. Dotada de um bico e de uma crista, tratava-se de uma versão maior (cerca de 3 metros de comprimento) do conhecido Oviraptor. O seu nome científico é Citipati osmolskae. De acordo com uma lenda, os citipatis foram dois monges tibetanos decapitados por um ladrão enquanto se encontravam em pleno transe da meditação. A Big Mama não tem a cabeça e parte do esqueleto, mas o que resta é inconfundível: grandes patas com três garras curvas estendem-se dos dois lados do corpo para proteger os ovos. Sabemos, hoje, que esses braços estavam, muito provavelmente, revestidos de penas, como acontece com as asas dos seus parentes próximos, as aves.

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PEGADAS INQUIETANTES

As pegadas fósseis têm grande interesse científico, nomeadamente se forem descobertas misturadas as de carnívoros com as de herbívoros. Em 1938, Roland Bird, do Museu Norte-Americano de História Natural, descobriu perto do rio Paluxy, no Texas, o que parecia ser uma cena de caça: pegadas de uma manada de saurópodes (herbívoros de pescoço comprido), presumivelmente perseguidos por um Acrocanthosaurus, terópode predador que parece correr junto de uma das presas e, a certa altura, saltar para abatê-la. Recentemente, porém, James Farlow, paleontólogo da Universidade Purdue (Estados Unidos), voltou a analisar o caso e crê que as pegadas mostram que os dinossauros estavam em movimento, mas não se pode afirmar que corriam nem que o caçador tivesse lançado um ataque. É possível que perseguisse os herbívoros, mas não podemos sabê-lo, segundo Farlow. Outro tipo de pegadas que intrigam os paleontólogos são as que refletem os saltos da evolução. Descendemos do macaco mas também (e muito antes) do peixe. A trans-

formação de barbatanas em patas produziu-se através das fascinantes transformações sofridas por alguns peixes carnívoros. Os especialistas estudam o processo com recurso a fósseis de transição, como o Panderichthys, que viveu há 380 milhões de anos, e o Tiktaalik (375 M.a.). Esses seres tinham barbatanas. Porém, em 2010, foi descoberto um fóssil revolucionário: antiquíssimos vestígios com 295 M.a. encontrados numa pedreira do sueste da Polónia. Trata-se das pegadas de vários animais com cerca de dois metros de comprimento. Não há barbatanas a arrastar-se, mas marcas de patas em que até se consegue distinguir os dedos. Provam que os primeiros vertebrados quadrúpedes (tetrápodes) começaram a caminhar fora de água quase 20 M.a. antes do que se pensava e que o fizeram, talvez, saindo do mar e aproveitando a maré baixa para se aventurar na praia e devorar animais moribundos ou cadáveres.

ORGIA DE TRILOBITES

As trilobites figuram entre os grandes líderes do registo fóssil e da história da evolução. Já foram descritas mais de 20 mil espécies e extraídos milhões de exemplares de numerosas jazidas nos cinco continentes (Portugal é particularmente rico). A classe Trilobita abrange o grupo mais diversificado de animais extintos,


SPL

Em grupo. Trilobites da espécie Ellipsocephalus hoffi. Estes extintos artrópodes tinham um comportamento gregário.

que sobreviveram nos mares e oceanos do planeta durante quase 300 M.a. Por tudo isto, as fotos fossilizadas com diferentes formas e comportamentos abundam neste grupo de artrópodes ou invertebrados marinhos. Foram encontradas, por exemplo, muitas provas da morte em massa de trilobites devido a catástrofes súbitas produzidas por furacões. Rochas cheias de indivíduos da mesma espécie e tamanho revelam que esses antigos seres podiam ser gregários. Alguns fósseis contêm centenas de exoesqueletos de mudas recentes. Tal como alguns caranguejos modernos, as trilobites juntavam-se em grandes aglomerações para lançar operações delicadas e de risco, mas necessárias para a sua sobrevivência: em concreto, mudar a carapaça e, aproveitando a nudez, acasalar em autênticas orgias. Na costa norte de Portugal, junto do Porto, foram encontrados restos fossilizados que mostram longas cadeias de pequenas trilobites em comboio. Trata-se de filas migratórias, um comportamento social que observamos hoje nos gafanhotos e que tem, aparentemente, mais de 400 milhões de anos de antiguidade.

ACASALAMENTO FATAL

Os paleontólogos descobriram muitos exemplos fossilizados de cópulas entre insetos e ácaros, mas não havia um de animais vertebrados. Por fim, em 2012, foram encontrados

nove pares de tartarugas do Eoceno, com 47 M.a., na jazida alemã de Messel, a sul de Frankfurt. Em tempos, foi um lago tropical formado numa cratera profunda, cujo fundo, sem oxigénio e talvez saturado de substâncias tóxicas, conservou de forma espetacular os corpos de muitos animais. Podemos afirmar que as tartarugas, nove machos e fêmeas da espécie Allaeochelys crassesculpta, estavam a copular? Os machos são 17 por cento mais pequenos e possuem uma cauda mais comprida, enquanto as fêmeas têm na carapaça uma parte móvel com uma espécie de dobradiça, útil para pôr os ovos. Em dois dos fósseis, as caudas estão em posição de acasalamento. Porque terão morrido no ato? As tartarugas aquáticas acasalam na água. Quando a fecundação ocorre, o casal em êxtase afunda-se por alguns momentos. Nesse caso, à medida que desciam até às camadas mais baixas do lago, aumentava a concentração de gases tóxicos, os quais invadiam a corrente sanguínea dos amantes, matando-os em segundos.

A SERPENTE QUE ROUBAVA OVOS

Os amantes dos documentários sobre a natureza recordam certamente aquela serpente africana que consegue engolir um ovo inteiro, maior do que a sua cabeça. Mandíbulas de borracha e grandes goelas são também características de boas, pitões, cobras, víboras... Porém,

as serpentes antigas não dispunham das mesmas capacidades de muitas das suas descendentes modernas. Assim, a Sanajeh indicus, do Cretácico tardio, não tinha um crânio apto para engolir um grande ovo, nem dentes capazes de perfurar uma casca grossa. Talvez pudesse partir os ovos esmagando-os com o corpo, como faz atualmente a Loxocemus bicolor americana, mas precisaria de muita força. Teria sido mais fácil rondar os ninhos alheios, detetar pelo ruído os que tinham ovos prestes a eclodir e esperar tranquilamente pelo nascimento da cria para a devorar. É a estratégia que se pode deduzir de um fóssil encontrado na Índia, em 1984. Contém um ninho de ovos de titanossauro, um grande dinossauro saurópode de pescoço comprido que não protegia os seus ovos. A nidificação contém os restos de uma cria recém-nascida com meio metro de comprimento. Dezassete anos depois, após um novo exame feito ao fóssil, descobriu-se a serpente. Estava enrolada junto do bebé dinossauro, em redor de vestígios do que fora o seu ovo. Tinha cerca de 3,5 m de comprimento. Antes de ter podido devorar o pobre recém-nascido, um monte de sedimentos caiu-lhes em cima e sepultou-os para sempre. Os paleontólogos descobriram restos de Sanajeh indicus noutros ninhos de titanossauro. Interpretam, por conseguinte, que a associação Interessante

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Talvez os jovens dinossauros ajudassem a criar os mais novos não é fortuita e que se trata de etofósseis, isto é, de momentos fossilizados que captam realmente o comportamento dos animais.

BERÇÁRIO COMUNITÁRIO

A província chinesa de Liaoning já proporcionou impressionantes fósseis que mudaram, em poucos anos, a paleontologia, nomeadamente inúmeros restos de dinossauros em diferentes fases evolutivas (desde simples pelinhos a plumagens complexas). Contudo, proporcionou também exemplos fossilizados de comportamentos. Em 2004, foi anunciada a descoberta de um ninho com vinte e quatro crias de dinossauro Psittacosaurus lujiatunensis. A quantidade de miniesqueletos sugere que havia no local filhos de várias mães: um exemplo de um berçário comunitário. As crias já tinham saído dos ovos, mas per-

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maneciam ali juntas até que uma avalancha de detritos vulcânicos as sepultou. Entre elas, havia um esqueleto maior: teria pertencido a uma mãe ou um pai? Em 2014, um novo estudo determinou que esse indivíduo também não chegara à idade adulta. Tratava-se, nesse caso, de um irmão mais velho? Nesta espécie de dinossauros, os jovens nascidos em anos anteriores talvez ajudassem a cuidar das novas crias.

QUEM CAÇA QUEM?

As rochas calcárias de Solnhofen, no sul da Alemanha, preservaram detalhes extraordinários de fósseis do Jurássico, tão emblemáticos como os da ave primitiva Archaeopteryx. Animais de todos os géneros, desde alforrecas a crocodilos, morriam e os seus corpos afundavam-se no fundo de lagoas de água salgada. Algumas presas ficaram literalmente presas

nas goelas do predador para toda a eternidade, preservadas no lodo sem oxigénio. O pterossauro Rhamphorhynchus é um dos mais abundantes na zona. Cinco exemplares desse pequeno réptil voador com cauda em forma de losango surgem junto de um inesperado companheiro, um peixe de mais de meio metro denominado Aspidorhynchus. Porque se teriam transformado em fósseis juntos, com a boca do peixe em contacto com as asas do pterossauro? Segundo os paleontólogos Frey e H. Tisch­ linger, os dentes finos e muito juntos do primeiro ficaram presos na densa rede de fibras da asa do dinossauro, formadas por um tecido muito complexo. Num exemplar de “peixe-morde-um-pterossauro” ainda mais espetacular, o Rhamphorhynchus exibe um peixinho intacto no gasganete e restos de peixe meio digeridos no estômago. Os especialistas sugerem que esses répteis voadores planavam muito perto da superfície da água para pescar, como algumas aves modernas. Nessa altura, eram atacados por baixo pelos Aspidorhyn-

REX

Creche. Restos de um ninho de Psittacosaurus lujiatunensis, um tipo de dinossauro-papagaio.


Arriscado. Fóssil de Chaohusaurus dando à luz três crias, que saíam assomando primeiro a cabeça. O esquema à direita ajuda a compreender a imagem: a preto e azul, a coluna vertebral da mãe e a sua pélvis; a verde, a caixa torácica; a amarelo, a cria a nascer; a laranja, o embrião ainda no ventre da mãe; a vermelho, vestígios da cria já nascida.

1 cm

chus. O pterossauro acabava por se afogar e o peixe, como não conseguia desprender-se, morria de exaustão.

TRÍPTICO DA CADEIA ALIMENTAR

Há 290 milhões de anos, um Triodus, antigo tubarão de água doce, devorou um primitivo anfíbio que comera, imediatamente antes, um peixe. O tubarão, satisfeito e de barriga cheia, morreu sepultado sob um monte de sedimentos. Os sucos gástricos não tinham tido tempo de digerir praticamente nada, de modo que ficou perfeitamente preservado o instantâneo de uma cadeia alimentar com três sequências, cada uma dentro da outra, à semelhança das bonecas russas matrioskas. Este fóssil excecional foi encontrado no sudoeste da Alemanha e descrito em 2007. Os cientistas tiveram o cuidado de esclarecer que os animais não tinham surgido juntos dessa forma por acaso, mas porque cada um devorara o seguinte. Na realidade, o tubarão não comera um anfíbio, mas sim dois: um Archegosaurus em fase larvar e um Cheliderpeton,

que tinha no estômago um peixe da espécie Acanthodes. Os tubarões de água doce já não existem, nem esse tipo de anfíbios ou os primitivos peixes Acanthodes. O tríptico fóssil constitui uma fotografia de enorme valor da ecologia de uma época muito remota e diferente da nossa.

O PARTO DO ICTIOSSAURO

Poucos instantantâneos fósseis podem ser tão dramáticos como os de um parto, mas mostram interessantes alterações na reprodução dos animais extintos. Os ictiossauros (lagartos-peixes) foram répteis marinhos semelhantes aos golfinhos. Não punham ovos, mas pariam as crias dentro de água. Foram encontradas centenas de fêmeas com embriões no seu interior e são conhecidos pelo menos dois partos em diferentes etapas. O primeiro é de um Stenopterygius, um género muito comum que viveu há 180 M.a. (Jurássico). A mãe tem cerca de 3 m. A cria nasce de nádegas, com a cauda primeiro, como os golfinhos. Tem lógica: se a cabeça surgir antes

e o parto se complicar, a cria poderá afogar-se. O segundo é de um Chaohusaurus, o ictios­ sau­ro mais antigo que se conhece (248 M.a.). Com apenas 1 m, de corpo alongado e barbatanas pouco desenvolvidas, nadava ondulando o corpo. A sua estirpe estava há pouco tempo no mar e ainda não adquirira a forma de fuso. No parto pertrificado, é possível observar três crias: uma ainda dentro da mãe, outra fora e a terceira a nascer, de cabeça primeiro. Não parece acidental, pois as três possuem a mesma orientação, mas nascer de cabeça é tão vantajoso num animal terrestre como perigoso no caso de um aquático. Os investigadores deduzem que, antes de se adaptar a viver na água, os antepassados dos ictiossauros davam à luz em terra. Embora fossem répteis, tinham deixado de pôr ovos. Depois, à medida que a evolução modelava um corpo apto para a vida marinha, o parto aquático melhorou. Em algum momento entre o Chaohusaurus e o Stenopterygius, as crias deram a volta. E.C.

Interessante

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Ciência

O que é o presente? GETTY / TRATAMENTO DIGITAL: J. A. PEÑAS

A ilusão do AGORA 36 SUPER


Corrente temporal. Para que uma sucessão de instantes se organize no nosso cérebro como um fluxo que circula do passado para o futuro, estruturamo-los de modo que cada um forma os tijolos com que se constrói o seguinte.

O presente é uma coleção de janelas que permanecem abertas durante apenas três segundos, no contínuo decurso do tempo. Mais do que isso: o agora de que temos consciência é apenas uma miragem construída pelo nosso cérebro. Interessante

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O tempo flui, mas nós estamos sempre no presente

RITMOS IMPLÍCITOS

No seu modelo fisiológico, Meck estabelece uma distinção entre ritmo temporal implícito e explícito. O segundo determina a duração de um estímulo, enquanto o primeiro estabelece quanto tempo separa um evento de outro iminente; o ritmo implícito seria, pois, o modo como o cérebro define o agora. Nestas duas formas de estimativa temporal, regista-se a intervenção de diferentes áreas neuronais: a implícita, que surge, por exemplo, quando vamos efetuar uma atividade motora, implica o cerebelo e o córtex parietal e pré-motor esquerdos; por sua vez, a explícita utiliza habitualmente o córtex pré-frontal direito e a área motora suplementar, uma parte do córtex que contribui para controlar o movimento. Todavia, o nosso sentido implícito do tempo apresenta dois aspetos, aparentemente incompatíveis: por um lado, mostra-nos que existimos de forma permanente no presente; por outro, que o tempo flui continuamente e sem saltos, do passado para o futuro.

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DARREN HOPES / AGE

N

ão é fácil saber o que é o presente. O termo indica uma ação que ocorre no momento em que estamos a falar, algo instantâneo. Por isso, dizemos “estou a comer” e não “como”. Alguns estudiosos acreditaram ter encontrado uma definição para o fenómeno num dos Aforismos do Ioga de Patanjali, escritos entre os séculos IV e III a.C., nos quais se sugere que só através da supressão dos processos mentais podemos experimentar o agora; o simples ato de pensar traz à cabeça experiências passadas, o que nos impede de conhecê-lo. Seja como for, se quisermos saber algo sobre o presente, será necessário entender como apreendemos a passagem dos minutos e das horas. Embora não tenhamos um sistema sensorial específico para o tempo, desenvolvemos algumas estruturas biológicas que nos ajudam a delimitá-lo, como o córtex cerebral, o cerebelo e os gânglios basais. Além disso, temos na parte central do hipotálamo o núcleo supraquiasmático, que controla os ciclos circadianos e do qual dependem os ritmos regulares seguidos pelo nosso organismo. O psicólogo Warren Meck, da Universidade Duke (Estados Unidos), um dos maiores especialistas no assunto, assegura que a nossa capacidade para apreciar o tempo se deve à atividade oscilatória das células do córtex superior do cérebro, cuja frequência é detetada pelo núcleo estriado, outra zona do encéfalo.

Para as crianças, o tempo passa mais devagar, pois estão constantemente a experimentar coisas novas. As rotinas fazem o tempo passar mais depressa.

Como é possível que uma série de agoras se transforme nesse rio de tempo que flui sem interrupção? Segundo Marc Wittmann, do Instituto de Áreas Limítrofes da Psicologia e da Saúde Mental, de Friburgo (Alemanha), há uma hierarquia nesses instantes, dos quais cada um forma os tijolos com os quais se começa a construir o seguinte. De acordo com Wittman, tudo começa com um momento funcional, isto é, a reação do cérebro a um estímulo externo, o qual dura geralmente, quanto muito, uma dezena de milésimos de segundo. Depois, todos os momentos funcionais combinam-se para formar o agora consciente, uma tarefa que leva ao cérebro três segundos. Por último, o nosso órgão pensante constrói essa imagem de que o tempo flui, o que lhe exige apenas meio minuto. O que chamou a atenção de Wittmann foi uma das premissas do ioga, a qual afirma que meditar nos faz estar mais em contacto com o presente. Intrigado com essa ideia, concebeu uma experiência. Wittmann pediu a 38 pessoas

que se dedicavam habitualmente à meditação e a outras 38 que não o faziam que observassem um cubo de Necker, uma estrutura cuja perspetiva parece mudar continuamente devido a uma ilusão ótica. Os voluntários tinham de premir um botão de cada vez que pensassem ver uma alteração. Desse modo, era possível estimar a duração do presente psicológico. Com base nos dados obtidos, Wittmann conseguiu estabelecer que era de quase quatro segundos. Aparentemente, a meditação não favorecia o apego ao presente que apregoava. Contudo, o especialista observou que os que a praticavam conseguiam ver a mesma perspetiva do cubo de Necker durante oito segundos, mais dois do que os que não o faziam: o que a meditação melhora é a capacidade de atenção.

TRABALHO DE SINCRONIZAÇÃO

Como explica o neurocientista David Eagleman, que dirige o Laboratório de Perceção e Ação da Faculdade de Medicina de Baylor (Texas), devemos tomar em consideração, para


Tempos desiguais

A

nossa perceção da passagem do tempo depende da idade: à medida que envelhecemos, parece passar mais depressa. Para o neurocientista David Eagleman, esse fenómeno está sobretudo relacionado com a novidade. Quando somos jovens, experimentamos muitas coisas pela primeira vez: os primeiros aniversários, as primeiras férias, o primeiro beijo... Eagleman assinala que há muito para recordar dessas ocasiões. A lista é tão densa e as memórias ficam tão apertadas que temos a sensação, ao evocá-las, de que devem ter durado muito. “É possível comprová-lo no nosso quotidiano”, indica. “Quando se conduz, pela primeira vez, até um novo local de trabalho, o caminho parece mais longo. Porém, quando já se fez o percurso diversas vezes, parece mais curto, pois o cérebro deixou de armazenar informação.” Contudo, “estas sensações não passam de uma ilusão, uma fantástica construção do nosso cérebro”, explica Eagleman. “Quanto mais recordações tivermos associadas a algo, mais tempo o nosso cérebro pensa que duraram”, diz. Na sua opinião, o que acontece é que o encéfalo conserva as novas experiências de um modo distinto do habitual. Além disso, descobriu-se que utiliza mais energia quando tem de dar forma a uma evocação inédita. Por outras palavras, o acontecimento original suscita abundantes recordações, enquanto coisas rotineiras do nosso quotidiano, posteriores ao episódio inédito, não passam de meros esboços na nossa cabeça.

entender como construímos o presente, que o cérebro processa a informação a uma velocidade diferente da que lhe é proporcionada pelos sentidos. O nosso sistema auditivo, por exemplo, pode distinguir dois sons separados entre si por um milésimo de segundo, mas o visual quase não consegue entender como distintas duas imagens que distem menos de uma dezena de milésimos de segundo. As coisas complicam-se quando procuramos determinar se dois acontecimentos ocorrem de forma simultânea. A nossa mente crê que é isso que aconteceu quando o intervalo entre ambos é inferior a cinco milésimos de segundo, mas detetar a ordem pela qual se produzem os estímulos exige-nos bastante mais tempo: pode chegar aos cinquenta milésimos de segundo. Tal conclusão implica que o nosso cérebro tem de compaginar essas disparidades para poder criar uma imagem unificada do meio circundante. “Para que o cérebro visual possa apreender os diferentes eventos, é preciso esperar pelo menos um décimo de segundo, o tempo

que a informação mais lenta demora a chegar”, explica Eagleman. A tarefa complica-se se tivermos presente que a luz e o som viajam a velocidades distintas, pelo que os nossos sentidos não os captam ao mesmo tempo, mesmo que tenham sido produzidos em simultâneo, como acontece, por exemplo, no caso de um espetáculo de fogo de artifício.

PREVISÕES EM SÉRIE

Como consegue a nossa cabeça lidar com tudo isto? Os neurocientistas pensam que, para consegui-lo, o encéfalo faz continuamente previsões sobre o que irá acontecer. Essa característica foi aproveitada nos primeiros dias da televisão, quando se procurava harmonizar os sinais de vídeo e áudio. Os engenheiros perceberam que o cérebro dos telespetadores sincronizava automaticamente ambos se eles chegassem dentro de um intervalo de um décimo de segundo. Uma equipa de cientistas coordenada por Virginie van Wassenhove, da Unidade de Neu-

roimagem Cognitiva do Centro de Investigação Neurospin, em Gifsur-Yvette (França), desenvolveu um ensaio para lançar um pouco de luz sobre o fenómeno. Os cientistas expuseram um grupo de voluntários a uma série de clarões e bips produzidos uma vez por segundo, mas separados entre si por dois décimos de segundo. Em simultâneo, registaram a sua atividade cerebral. Descobriram, assim, que se produziam duas ondas cerebrais, uma no córtex visual e outra no auditivo, com uma frequência igual de uma vez por segundo. Inicialmente, os sinais acústicos e visuais estavam desfasados; para os voluntários, clarões e sons eram estímulos separados. Todavia, quando começaram a apreendê-los em simultâneo, as suas ondas cerebrais começaram a ajustar-se. Segundo Van Wassenhove, “esse facto reflete a existência de um mecanismo ativo no cérebro que lhe indica como lidar com o tempo”. O estudo sugere que o cérebro inconsciente é que decide o que é o agora. Em 2014, David Melcher, investigador prinInteressante

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KRIS KRÜG

Em fuga. Para o neurocientista David Eagleman, quando a nossa consciência consegue processar a informação necessária para construir o agora, ela já passou à história.

Viver perto do presente é uma vantagem evolutiva cipal do Grupo de Perceção Ativa da Universidade de Trento (Itália), demonstrou que o presente se prolonga por dois a três segundos. Para comprová-lo, pegou numa película e cortou algumas cenas em troços mais pequenos. Em alguns casos, duravam milésimos de segundo; noutros, vários segundos. Depois, montou-os de forma aleatória e reconstituiu as cenas. Melcher descobriu que os voluntários que participavam na sua experiência acompanhavam o argumento como se nada se tivesse passado no caso de a duração dos pequenos cortes não ultrapassar os 2,5 segundos; para além desse limite, os espetadores percebiam que se passava algo de estranho. O efeito, segundo Melcher, é semelhante ao que acontece quando se vê um texto no qual se suprimiu ou mudou de lugar algumas letras de cada palavra. Apesar disso, conseguimos lê-la, pois o cérebro preenche as ausências. No entanto, falha quando modificamos sistematicamente, por exemplo, a primeira e última letra de cada palavra. Melcher explica que essa janela de quase três segundos de que dispomos para perceber o agora é consequência de um mecanismo que resolve um problema alucinante: o de o cére-

40 SUPER

bro estar sempre a lidar com informação obsoleta. A janela não pode ser demasiado grande. O facto de o encéfalo trabalhar tudo o mais perto possível do presente é uma nítida vantagem evolutiva. Se vivêssemos, por exemplo, demasiado no passado, correríamos o risco de não nos inteirarmos do que acontece no agora. É por isso, segundo Eagleman, que o cérebro permite aos nossos sistemas de perceção um atraso máximo de um décimo de segundo para poder, depois, construir o presente, que na realidade já decorreu, em pouco mais de dois segundos. “A nossa perceção do mundo está colocada no passado”, diz o especialista.

PERCEÇÃO VARIÁVEL

No nosso encéfalo, há estruturas que utilizam os ciclos de luz e de escuridão para ajustar determinados ritmos biológicos, mas ainda não se esclareceu como registam a passagem dos segundos e dos minutos. Efetivamente, há situações que alteram a nossa perceção do tempo: um estudo feito com estudantes de psicologia demonstrou que estes sobreestimavam a duração de determinado intervalo depois de terem visto fragmentos de filmes de terror. Sylvie Droit-Volet, professora do

Laboratório de Psicologia Social e Cognitiva da Universidade Blaise Pascal (França), indica que tal acontece porque o medo estimula a amígdala cerebral, o que acelera o nosso relógio interno. Segundo Droit-Volet, tratar-se-ia de um mecanismo de defesa ancestral, desenvolvido para podermos decidir sem demora se enfrentamos uma ameaça ou fugimos dela. Um estudo publicado na revista PLoS One por especialistas do Reino Unido e da Irlanda estabeleceu, pelo contrário, que as pessoas deprimidas estimam com maior precisão a duração dos intervalos que se prolongam por três a 65 segundos. Curiosamente, as substâncias estimulantes fazem-nos sobreestimar os períodos de tempo, enquanto os antidepressivos e os anestésicos têm o efeito oposto. Do mesmo modo, a nossa perceção temporal acelera à medida que envelhecemos. Quando se pediu a dois grupos de pessoas, um com indivíduos entre os 19 e os 24 anos, e outro com voluntários dos 60 aos 80, para calcularem a passagem de três minutos, observou-se que os jovens erravam, em média, cerca de três segundos. No segundo caso, o erro era de 40 segundos. A que se deverá isto? Mistério... A verdade é que Einstein já parecia perceber o que acontece no nosso cérebro quando afirmou, referindo-se à relatividade, que “a distinção entre passado, presente e futuro constitui uma ilusão persistente”. M.A.S.


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Desporto Análise de dados no relvado

MARIO GÖTZE Tempo jogado: 39 minutos Distância percorrida: 5447 metros Velocidade máxima: 28 km/h Passes longos: 1 Passes curtos: 15 Passes certos: 81,3% Faltas cometidas: 1 Remates à baliza: 2 Golos marcados: 1

Matemática do GOLO

O desporto mais popular do mundo enfrenta uma alteração radical: treinadores e jogadores trabalham com sensores, câmaras, programas de vanguarda e analistas de dados para quantificar e analisar ao milímetro o rendimento do futebolista e melhorá-lo.

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2014, que ganhou com eficácia, mostrando por vezes uma grande superioridade sobre os adversários, embora seja impossível determinar a influência da utilização da solução tecnológica nas suas vitórias. Funciona como uma plataforma multifuncional que se alimenta do conceito big data aplicado ao futebol: como existe alta tecnologia com capacidade para registar uma enorme quantidade de dados provenientes da prática do jogo, será possível desenvolver programas que possam aglutinar essa informação numérica, classificá-la e interpretá-la.

GANHAR OU PERDER

“Há quinze anos, a utilização da análise de dados no desporto era controversa; agora, é a diferença entre ganhar e perder. Os futebolistas criam milhões de dados com os seus movimentos, algo que nem sequer o melhor treinador pode ver. Ajudamos as equipas a transformar essa massa de números em informação que sirva para que corram melhor, ganhem desafios e não sofram lesões”, explica Sebastian Brunnert, diretor de Soluções da SAP Sports & Entertainment. Como se obtêm os dados? Através de sensores ou peças de vestuário com GPS incorporado usadas pelos futebolistas: camisolas, pulseiras, botas e caneleiras... (embora também se possam colocar noutros atores do jogo, como balizas ou a própria bola). Assim, é possível registar diferentes parâmetros, desde a dis-

GETTY / TRATAMENTO DIGITAL: J.A. PEÑAS

O

futebol é belo porque é simples”, afirmou, uma vez, o treinador sérvio Vujadin Boskov. Boskov, que faleceu em 2014, foi também o autor da célebre frase “futebol é futebol”, que exprimia com precisão a complexa simplicidade deste desporto, tão fácil de entender, aparentemente, que qualquer pessoa se atreve a opinar, e tão fascinante que esconde milhões de variáveis, frequentemente impossíveis de prever. O que o técnico balcânico ignorava quando pronunciou essas palavras é que, um dia, toda essa suposta simplicidade iria ser calibrada ao milímetro. A multinacional alemã SAP, especialista em melhorar os processos informáticos de empresas de todas as dimensões e setores, estuda há anos a incorporação dos seus programas de gestão em vários desportos, incluindo (e sobretudo) o futebol. De facto, os responsáveis da companhia orgulham-se de ter criado o SAP Sports One, segundo eles, a solução informática mais potente destinada ao desporto mais global, um aglutinador de ferramentas à disposição de clubes e seleções para poderem otimizar quase todas as parcelas do seu trabalho: técnicas de treino, formação da equipa, estado físico dos jogadores, e mesmo a relação com os sócios e os adeptos. O SAP Sports One é uma evolução do SAP Match Insights, um programa pioneiro testado pela seleção alemã no Mundial do Brasil de

Campeões. Mario Götze (Alemanha) bate Sergio Romero (Argentina) na final do Mundial do Brasil, em 2014. A seleção alemã usou tecnologia de análise de dados (os da imagem são reais) para melhorar a prestação dos seus jogadores.


MARTÍN DEMICHELIS Tempo jogado: 129 minutos Distância percorrida: 11 165 metros Velocidade máxima: 28,9 km/h Passes longos: 3 Passes curtos: 40 Passes certos: 75% Faltas cometidas: 2 Remates à baliza: 0

SERGIO ROMERO Tempo jogado: 129 minutos Distância percorrida: 4233 metros Defesas: 4 Golos sofridos: 1

Interessante

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Golos (sem penaltis) e assistências

FIVETHIRTYEIGHT

Lionel Messi vs. Cristiano Ronaldo

Quem rende mais? M  essi, embora por pouco. FiveThirtyEight é um portal especializado na análise de estatísticas e dados sobre vários temas, incluindo o desporto. Na última temporada futebolística, fez um estudo exaustivo sobre os números de Messi e Ronaldo em vários aspetos do jogo. Conclusão: o argentino superou o português globalmente, e em aspetos como os golos marcados e as assistências dadas. Parece ter merecido o prémio.

É possível seguir o movimento com intervalos de 0,1 segundos tância percorrida ou a velocidade média ao ritmo cardíaco. Foi a empresa SAP que iniciou a revolução, há um par de anos, ao assinar um acordo de colaboração com o TSG 1899 Hoffen­heim, da primeira divisão alemã. O método consiste na recolha e análise de uma infinidade de parâmetros em tempo real. A informação é mostrada aos técnicos e aos jogadores durante a própria sessão de trabalho, de forma que possam diversificar a dinâmica do treino ou indicar o que poderá revelar-se útil para os próximos desafios. “Os treinadores continuam a ser treinadores, mas, graças a esta tecnologia, têm agora a possibilidade de analisar tudo o que aconteceu durante o treino. Podem mesmo mostrar de imediato aos jogadores algum aspeto importante do jogo, ou enviar-lhes vídeos ou registos para o telemóvel, para serem vistos mais tarde”, indica Brunnert. Graças à sua grande capacidade de análise, o SAP Sports One pode também receber e interpretar informação obtida de plataformas externas, como a da Prozone, a primeira empresa a apostar na análise de dados baseada em vídeo. O seu programa, utilizado por quase todas as equipas que integram a Premier League inglesa, baseia-se na informação registada por oito câmaras distribuídas pelo estádio, que seguem os movimentos de cada jogador em intervalos de apenas 0,1 segundos. A partir desse fluxo constante de dados, o programa elabora instantaneamente estatísticas, algumas básicas, como as distâncias per-

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corridas, outras mais complexas, como a zona por onde se movimentou determinado jogador ou mesmo o conjunto de futebolistas de uma equipa, informação diretamente associada ao jogo coletivo e às transições ofensivas e defensivas, à colocação dos efetivos durante uma jogada da equipa adversária, etc.

RESTRIÇÕES DA FIFA

Todavia, a possibilidade de todo o corpo técnico (incluindo analistas táticos, médicos e o próprio treinador) poder ter acesso a uma grande quantidade de dados do jogo, obtidos enquanto decorre, conduz-nos a um território ainda vedado. A 7 de julho passado, o organismo máximo do futebol mundial, a FIFA, autorizou a incorporação de sistemas de recolha de dados na indumentária dos jogadores durante os desafios oficiais, embora tenha imposto uma série de condições para a sua utilização. Entre todas, destaca-se a proibição de que o material recolhido por estes sensores seja transmitido, em tempo real, à área técnica, zona em que não pode haver qualquer aparelho recetor nem dispositivo técnico. A informação reunida durante os jogos será muito útil para a análise posterior do encontro e a evolução do rendimento individual e coletivo ao longo da temporada, mas nunca para o treinador mudar de tática ou substituir um jogador na sequência de um choque. É à interpretação mais subjetiva do futebol que se destina a plataforma informática Er1c,

desenvolvida pela empresa espanhola 1d3a. Com recurso a uma fonte de vídeo externa, o Er1c permite aos analistas e preparadores tomar notas e criar etiquetas para classificar todos os aspetos que desejem da equipa. O diretor da empresa, Jesus de Pablos, afirma: “Não podemos competir com as companhias que se dedicam ao tracking, como a Nike, a Adidas, a Microsoft ou a Apple, nem com as que gerem grandes bases de dados, como a SAP. A nossa ambição é facilitar a investigação da parte mais subjetiva do futebol.” Um dos impulsionadores do projeto foi o antigo futebolista e treinador espanhol Luis Aragonés (já falecido), que era amigo de Jesus de Pablos: “O Luis dizia que os dados biométricos eram muito bonitos, mas que, mais do que saber se um futebolista tinha corrido dois ou cinco quilómetros, o que lhe interessava era se o jogador estava onde era necessário quando isso lhe era pedido. Se o fizera e, além disso, tinha poupado alguns metros de corrida, melhor para ele.” A empresa começou por criar um programa que servisse de ferramenta e base de dados de jogadas, jogadores e equipas, tudo classificado de acordo com os critérios do pessoal responsável pelo scouting (análise de adversários) e a tática da própria equipa: “É o analista que irá selecionar e classificar as jogadas no vídeo, mas o sistema propõe variantes em função das estatísticas que importa de outros ficheiros”, explica Pablos. “É assim que se começa a criar uma base de dados por jogador, clube, jogos,


Não é só o futebol

EFE

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condições climáticas, árbitro... Imaginemos que vamos defrontar o nosso maior rival daqui a um mês. A equipa de analistas começa por estudá-lo e assinala as principais jogadas. Uma semana antes do desafio, o treinador-adjunto já tem todo o material e pode ver o que quiser: por exemplo, as perdas de bola espontâneas do lado direito da equipa adversária nas últimas seis jornadas. Seria de grande ajuda para uma formação específica do lateral.” O Er1c evoluiu muito, afirma o diretor da empresa: “Os utilizadores já podem importar dados biométricos captados por sensores e GPS. Além de analisar uma jogada, o facto de ter essa informação na frente permite avaliar se o jogador perdeu a bola porque estava em sobreesforço. Talvez sejamos a única plataforma internacional que proporciona, em simultâneo, estatística e análise subjetiva.” A empresa, com sede em Barcelona, disponibiliza a sua tecnologia a várias equipas da primeira e da segunda divisões espanholas, incluindo o próprio Barcelona. Todas tiveram de alterar a estrutura técnica para melhor se ajustarem às novas necessidades associadas à tecnologia, como a torrente de estatísticas que é preciso processar sobre os treinos, os jogos e os adversários, embora ainda não ao mesmo nível da Premier League inglesa, onde estão mais avançados: “Depende muito da entidade, mas, em Inglaterra, chega a haver cinco pessoas para analisar dados numa equipa de segunda, ou 50 num dos grandes clubes”, afirma Sebastian Brunnert.

Há uma área em que nenhum clube tem dúvidas sobre a utilidade da tecnologia: a médica. Tem lógica, pois boa parte do rendimento do ano (no campo desportivo e económico) depende de a enfermaria se encontrar mais ou menos cheia: “Estima-se que, na temporada passada, o custo médio das lesões nas quatro ligas europeias mais importantes foi de mais de onze milhões de euros por cada campeonato. Também se estima que os clubes perdem, todos os anos, entre 10 e 30 por cento dos seus jogadores por causa das lesões. Se se conseguir reduzir significativamente os problemas físicos, os clubes pouparão muito dinheiro”, defende Brunnert.

ANTECIPAR LESÕES

A SAP trabalha numa solução para o problema: o Injury Risk Monitor, que será integrado na plataforma SAP Sports One. O programa obtém dados relevantes sobre um jogador através dos chips integrados na sua indumentária ou outros dispositivos externos. A informação é recolhida durante os treinos, os testes físicos e os jogos, e aplica-se uma fórmula matemática para estimar o risco de o futebolista sofrer uma lesão. Isso ajuda médicos e fisioterapeutas a conhecer os pontos fracos do atleta e a escolher os cuidados necessários. Desempenha também um papel fundamental nas fases de recuperação, pois avalia os ritmos de restabelecimento e proporciona dados de prevenção para evitar que o problema se agrave ou se torne crónico.

futebol é sempre a ponta do icebergue pela sua relevância mediática, mas os sistemas de recolha de dados para otimizar o rendimento estão a chegar a quase todos os desportos e, em alguns casos, até em maior medida. É o caso do râguebi: os técnicos podem receber informação durante os desafios, em tempo real, e utilizá-la para alterar as suas táticas. A multinacional alemã SAP já aplica a sua tecnologia a modalidades como o hóquei sobre gelo, a vela, o golfe, a Fórmula 1, o futebol americano, o basebol, o basquetebol e o ténis, entre outros. Neste último desporto, chegou a acordo com a WTA, a Associação de Ténis Feminino, para proporcionar métodos e equipas de análise de dados que ajudam as atletas a estudar o seu jogo e a aperfeiçoar a estratégia. Uma das novidades da temporada em curso é uma aplicação móvel que os treinadores podem utilizar nos jogos para analisar o rendimento das suas jogadoras.

Alguns receiam que a tecnologia possa aprofundar a brecha entre profissionais e categorias amadoras, mas a realidade desmente essa preocupação: os amadores também utilizam métodos avançados. Segundo Brunnert, muitas coisas são testadas nos juvenis e, quando a tecnologia está madura, passa para as equipas principais. Há também programas específicos, como o Scout7, que oferecem bases de dados com milhares de futebolistas de todo o mundo, classificados pela posição em que jogam, nacionalidade, clube, idade, lesões e outros parâmetros muito úteis para as direções desportivas dos clubes profissionais. Outros programas de análise, como o Er1c, também oferecem esse serviço, com uma opção adaptada às equipas técnicas dos clubes. É muito semelhante ao que os treinadores usam, mas incorpora um módulo independente com uma base de dados sobre jogadores de todo o planeta. É possível ver aí as diversas facetas do futebolista escolhido: a defender, a driblar, a marcar golo, a marcar o avançado rival... Trata-se de ferramentas de grande utilidade, embora o fator humano continue a ser insubstituível. As bases de dados de jogadores, nem que seja pela quantidade de informação que contêm, são importantes quando se trata de avaliar possíveis contratações, e constituem uma boa ajuda, mas não se contrata alguém que não se tenha visto jogar ao vivo umas quantas vezes. D.L.

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Tecnologia A nova era do dinheiro digital

Pague com o TELEMÓVEL

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Outro sistema que não exige uma grande infraestrutura é o dos códigos QR. As cadeias Starbucks e VIPS, por exemplo, permitem pagar o consumo através desses quadrados com padrões bidimensionais de pontos e riscos que surgem no ecrã do telemóvel, graças a uma aplicação que se carrega com o nosso cartão de crédito ou débito. O pagamento direto através de aplicações como o PayPal ou o Square também está a adquirir importância: no último ano, a sua implantação cresceu quase 40 por cento, segundo a consultora Juniper Research. Essas plataformas digitais estão diretamente associadas à conta à ordem e enviam o dinheiro como se se tratasse de uma transferência bancária.

ENTRAM OS PESOS PESADOS

Contudo, os especialistas concordam que a fórmula mais segura e disseminada será o pagamento por NFC (Near Field Communication), uma tecnologia que transmite informação entre dispositivos separados por poucos centímetros. Vários bancos e operadores de telemóveis desenvolveram serviços baseados no NFC, embora com aplicações muito limiISTOCK

A

bra a carteira e conte o número de cartões de crédito e de débito que contém. Segundo dados do Banco Central Europeu (BCE), os portugueses tinham, em 2011, dez milhões de cartões de débito (Multibanco) e 9,3 milhões de cartões de crédito, o que significa que cada português possuía, em média, dois cartões de pagamento ativos. Noutros países onde as transações com dinheiro de plástico são ainda mais frequentes, como os Estados Unidos, o valor sobe para 3,2 per capita. É verdade que ainda pagamos muitos bens e serviços com dinheiro vivo, mas o recurso aos cartões é maioritário. Porém, há outro dado, talvez ainda mais interessante, a tomar em consideração: dentro de poucos anos, é possível que a maior parte do dinheiro de plástico desapareça, e o culpado será também algo que anda connosco na mala ou no bolso. Falamos, claro, do telemóvel. Efetivamente, os ingredientes para poder dar o salto e começar a pagar com o telefone estão sobre a mesa há já algum tempo, embora as iniciativas para impulsionar a medida tenham tido uma receção relativamente tímida. Será este o ano da sua descolagem definitiva? As transações podem ser geridas de diversas formas. Um dos primeiros mecanismos, que se começou a utilizar no início da década passada, funcionava através de SMS: mensagens associadas à conta do utilizador permitiam pagar pequenas despesas, como uma deslocação de táxi, com a possibilidade de incorporar a quantia na fatura do telemóvel.

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Após vários anos de ensaios, os sistemas de pagamento por telemóvel começam, finalmente, a surgir como uma alternativa cómoda e segura às transações com dinheiro e cartões. Descubra as opções disponíveis e como funcionam.


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Rápido e fiável: mostramos-lhe como se efetua uma compra, desde o gesto de tirar o telefone do bolso até ao momento em que o banco lança a despesa na nossa conta.

JOSÉ ANTONIO PEÑAS

Uma transação, passo a passo

BANCO

Transac. cod.

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Ao aproximar o telefone do terminal (o mesmo que se usa agora), abre-se a aplicação de carteira virtual, com a verba a pagar e os diferentes cartões de débito e de crédito disponíveis.

Selecionado o cartão com que se pretende pagar a conta, o telemóvel pede a confirmação da identidade. Alguns sistemas exigem impressão digital, noutros pode usar-se um PIN.

Verificada a identidade, o telefone envia um código único de transação, em vez do número do cartão ou outros dados pessoais, o que aumenta a segurança da operação.

OK

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O banco recebe o código da transação e gere-o como se se tratasse de um pagamento convencional. Alguns serviços incluem programas de desconto ou de fidelização.

O êxito dos sistemas dependerá de a experiência ser agradável tadas. O apoio das companhias Apple, Samsung e Google, que criaram plataformas exclusivas junto de grandes entidades financeiras e emissoras de cartões de crédito, poderá representar o reconhecimento definitivo do processo. O seu funcionamento é muito simples. O empregado regista a compra normalmente. Para pagarmos, aproximamos o telemóvel do terminal de pagamento. Abre-se automaticamente uma aplicação, a carteira digital, que permite escolher o cartão bancário. Feita a escolha, a operação é confirmada através da impressão digital ou introduzindo um código pessoal. O telemóvel envia o código necessário para a transação e o terminal transmite sinal ao banco para efetuar a transferência ou o débito no cartão de crédito.

AUMENTO DA SEGURANÇA

Além da comodidade de não ter de remexer a carteira à procura do dito cartão, este processo oferece uma vantagem importante relativamente às formas tradicionais de pagamento: o nosso dispositivo guarda uma réplica codificada do cartão de crédito ou débito, mas não os seus dados concretos: há apenas um número válido para cada pagamento. Trata-se de um pormenor fundamental, pois evita o risco de poderem intercetar ou duplicar o número do nosso cartão, ou o perigo de alguém com más intenções poder usar um leitor próximo para enganar o telemóvel. Hoje, por cada cem euros gastos com dinheiro de plástico,

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os bancos perdem quase cinco cêntimos em fraudes, número que acaba por se repercutir na nossa carteira, através das comissões cobradas pelo uso dos terminais. Uma espécie de carteira digital permite o acesso aos cartões armazenados no telemóvel. Ali, há espaço para muito mais do que as clássicas modalidades de pagamento por crédito ou débito: alguns sistemas são compatíveis com cartões de fidelização ou de oferta. A vantagem é que não é preciso selecioná-los por separado, pois os pontos acumulados, por exemplo, são acrescentados de forma automática à conta do utilizador.

A DUAS VELOCIDADES

Como afirmou, um dia, o norte-americano William Gibson, o futuro já chegou, só que não se encontra equitativamente distribuído. Este tipo de soluções, que ainda nos podem parecer algo de remoto, já funcionam diariamente no Japão e começam a acelerar nos Estados Unidos, onde as transações movimentaram mais de 3500 milhões de dólares. A Europa vai mais devagar, embora surjam novas iniciativas. O Apple Pay, o serviço da companhia da maçã, foi lançado no Reino Unido. Os utilizadores podem usar o seu iPhone não só para compras em lojas como para pagar os transportes públicos em Londres. A Visa confirmou que os seus cartões europeus serão também suportados pelo formato da Google, o Android Pay, que deverá chegar este ano. No que se refere a Portugal, há vários siste-

mas para efetuar pagamentos com telemóvel, nomeadamente o MB Way, o sistema da Seqr e o Meo Wallet, da PT. Por outro lado, verifica-se um crescente interesse por estas opções após a chegada dos cartões sem contacto: um cartão de débito ou crédito normal mas que inclui um chip de comunicação sem fios (NFC); quando se aproxima de um terminal que suporte esta tecnologia, a transação é automaticamente validada. O mesmo poderá ser feito através do telemóvel. Nos países onde estes serviços já são uma realidade, a reação do público tem sido boa, embora nem sempre estejam isentos de problemas. A Apple, por exemplo, conseguiu que quase 11% dos agregados norte-americanos


Numa loja perto de si

Sorriso único. Jack Ma, presidente da Alibaba, o gigante chinês do comércio eletrónico, apresenta um sistema de identificação facial para garantir a segurança das transações.

REUTERS

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colocassem uma cópia do seu cartão no telemóvel. Contudo, nos primeiros meses, as lojas não estavam preparadas ou não sabiam como esclarecer as dúvidas dos clientes.

AVANÇOS BIOMÉTRICOS

Seja como for, o êxito dependerá, em grande medida, de a experiência se revelar cómoda. Esse tem sido o calcanhar de Aquiles para muitas dos projetos surgidos até agora, porque obrigavam o utilizador a associar-se a um serviço especial ou a formalizar um complicado processo de adesão. Por isso, vários fabricantes começam a optar pelo pulso: o lançamento do Apple Watch abriu um novo canal. Basta aproximar o relógio, equipado com um chip

NFC, de qualquer terminal de um ponto de venda. Embora não tenha leitor de impressões digitais ou de outro tipo de identificação, é relativamente seguro: só pode ser utilizado enquanto permanecer em contacto com a nossa pele e depois de ter sido desbloqueado com um código pessoal. Novos avanços no campo da biometria poderão deixar definitivamente sem trabalho os ciberladrões. A empresa canadiana Bionym criou um sistema que se baseia no nosso ritmo cardíaco, pois os padrões seguidos pelo coração ao bater são tão complexos que cada indivíduo possui o seu próprio ritmo. Um sensor em forma de braçadeira, ou integrado no próprio relógio, poderá ser a solução para facilitar

s utilizadores portugueses já têm à sua disposição algumas das opções mais avançadas de pagamentos através do telemóvel. Explicamos, resumidamente, as duas principais. A SIBS, entidade que gere a rede Multibanco, lançou o serviço MB Way, que permite aos consumidores o acesso a algumas das funcionalidades associadas ao Multibanco, como pagamentos e transferências, a partir de um telemóvel. Para isso, devem dirigir-se a uma caixa Multibanco e associar os seus cartões bancários ao número do telemóvel, escolhendo um PIN com seis dígitos (será este que permitirá os pagamentos). Este método já pode ser utilizado, por exemplo, nas lojas Jumbo e Pão de Açúcar ou na compra de bilhetes através da Rede Expressos. Por outro lado, a Seqr Portugal, empresa do grupo Seamless, um dos principais fornecedores de sistemas de pagamento para telemóveis a nível mundial, oferece um serviço que define como sendo uma carteira móvel gratuita para os consumidores, económica para os lojistas e 50 por cento mais rápida do que os sistemas de pagamento convencionais. Através da aplicação SEQR, o utilizador tem apenas de reconhecer um QRcode quando estiver a pagar e aprovar a compra através de um código PIN. Não é pois necessário andar com a carteira cheia de cartões de pagamento ou de fidelização, já que tudo pode ficar guardado no telefone. O sistema está disponível, por exemplo, na cadeia MacDonald’s, na Starfoods (que inclui a Companhia das Sandes e a Loja das Sopas), na empresa de brinquedos Science4you e nas lojas do Grupo Lanidor.

os pagamentos, pois os terminais saberiam instantaneamente se a pessoa que aproxima o aparelho do sensor é quem diz ser. É o fim das incómodas palavras-passe, cada uma com seu conjunto de critérios... O reconhecimento facial é outra alternativa, muito fácil de desenvolver graças às câmaras na frente dos telemóveis. A Alibaba, a grande companhia chinesa de comércio eletrónico, pegou na possibilidade e fez várias experiências. Os utilizadores podem pagar olhando a câmara com um sorriso. A foto é introduzida nos servidores da empresa e analisada para garantir que é mesmo o utilizador que está a fazer a compra. Tão simples como isto. A.J.L./I.J.

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Documento

As teorias dos Big Bangs Que tudo começou com uma grande explosão parecia ser uma ideia inquestionável, mas a moderna astrofísica adianta, agora, alternativas exóticas, com universos múltiplos e ciclos eternos de expansão, contração e regresso ao início.

T

udo indica que, durante a sua primeira infância, o universo era extraordinariamente denso e quente, e que foi arrefecendo enquanto crescia. A radiação cósmica de fundo de micro-ondas, uma espécie de foto do cosmos quando ele tinha apenas 380 mil anos, revela duas características: que é tridimensionalmente plano (o que coincide com a geometria euclidiana), e que possui uma temperatura homogénea. Este último dado é difícil de explicar, pois implica que zonas separadas por longas distâncias troquem informação entre si. A que se deve o equilíbrio térmico existente entre pontos tão distantes e teoricamente sem possibilidade de terem tido contacto físico? Para que tais atributos pudessem encaixar no modelo do Big Bang, o físico norte-americano Alan Guth, do MIT, propôs, em 1980, a teoria da inflação. Guth defende que, durante uma brevíssima fração do primeiro segundo de vida, o universo multiplicou 1026 vezes o seu tamanho. Ou seja, deu um imenso esticão mal nasceu, e isso a uma velocidade muito superior à da luz. Como o que se teria inflacionado era o espaço-tempo (e não as partículas), não contradiz a teoria da relatividade. O inflatão seria o campo hipotético com a energia necessária para produzir a repulsão gravitacional. O estranho cenário, que parecia resolver

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todos os problemas de uma assentada, continua a ser a tese apoiada por boa parte da comunidade científica. Atualmente, trabalha-se num modelo de inflação eterna, um campo do qual surgiriam infinitos universos com diferentes características e condições iniciais: planos, curvos, que se expandem para sempre ou se contraem de imediato. Tal como explicou o próprio Guth, “partindo deste pressuposto, tudo o que possa acontecer acontecerá: de facto, fá-lo-á um número infinito de vezes”.

TODOS OS NÚMEROS

Por outro lado, isso poderia explicar por que motivo a carga do protão ou a massa do eletrão possuem valores tão surpreendentemente apropriados para a química e a vida poderem prosperar; o nosso mundo é improvável, pois saem todos os números do Euromilhões: há sempre prémio. Os partidários do cosmos inflacionário afirmam que a expansão ultra-acelerada deve ter deixado uma marca no espaço-tempo, uma onda gravitacional que teria polarizado a radiação de fundo de micro-ondas. O sinal, extraordi­ nariamente ténue, seria o primeiro dado real desse instante, 10–36 segundos após o Big Bang. Contudo, cientistas como Paul Steinhardt duvidam de que ele possa alguma vez ser descoberto. Steinhardt considera que o modelo


YURI SMITYUK/ITAR-TASS PHOTO/CORBIS

ENIGMAS DA CIÊNCIA: UNIVERSO

Escutar o cosmos. O radiotelescópio russo Galenki RT-70 faz parte do Centro Leste de Comunicações do Espaço Profundo. Este tipo de observatórios tenta captar ondas de rádio emitidas por objetos muito distantes, incluindo a pista de moléculas orgânicas de origem extraterrestre.

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ARCHIVE COLLECTION

Documento

Paul Steinhardt afirma que todos os adeptos da teoria da inflação sabem que ela não pode estar correta.

Uma alternativa à relatividade

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físico Paul Steinhardt, nascido em 1952, foi o primeiro a postular a existência de quasicristais, estruturas sólidas com um tipo especial de simetria. Entusiástico apoiante de Alan Guth nos primórdios da teoria inflacionária, acabaria depois por se converter num dos seus principais críticos, como explica em seguida. O que significa a ideia da singularidade no início do cosmos? A teoria da relatividade falha no que diz respeito ao próprio momento inicial, isto é, o Big Bang. Se uma teoria inclui equações com singularidades e soluções que explodem, isso significa que está incompleta. Sabemos que algo está errado na ideia de Einstein, porque se chega a um ponto em que a densidade, a temperatura e a curvatura do universo proporcionam valores infinitos. Assim, não se devia tentar esticar mais esse modelo, mas sim substituí-lo por outro melhor. Além disso, a relatividade não incorpora a física quântica, e seria muito importante que o fizesse. Quando a temperatura e a densidade são muito elevadas, os efeitos quânticos são mais relevantes. Porém, ainda não sabemos como formular uma teoria quântica da gravitação. Atual-

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mente, estuda-se um par de conjeturas. Será o Big Bang realmente o início do espaço e do tempo? Trata-se de um ressalto que se produz após um período de contração que se seguiu a uma expansão? Penso que ambas as possibilidades são admissíveis. Quais os problemas criados pela teoria inflacionária? Porque é tão crítico? O meu ponto de vista é que não apresenta nenhuma previsão clara. A conjetura conduz a um beco sem saída; não a uma singularidade, como a relatividade, mas ao multiverso. A inflação foi introduzida para explicar por que razão o cosmos é plano, entre outras propriedades. Inicialmente, pensávamos que a ideia funcionava, mas depois descobrimos que, ao incluir os efeitos quânticos, a expansão acelerada não acabava. Assim, haveria zonas que se inflacionariam, chegada a sua vez, e de cujo interior nasceriam universos diferentes, cada qual com as suas propriedades. A possibilidade de se produzir um universo tão plano como o nosso é infinitamente pequena, praticamente igual a zero. De facto, há maiores probabilidades de se criar um cosmos sem inflação do que com ela. Todos os especialistas que trabalharam no

modelo concebido por Guth conhecem estes problemas, mas não os expõem em livros ou em artigos. A maioria prefere não exprimir as suas dúvidas em voz alta, pois acha que conseguirá, a qualquer momento, resolver todas as incoerências e voltar a colocar a ideia no local proeminente que ocupava quando foi apresentada pela primeira vez. No caso de virem a encontrar-se ondas gravitacionais, isso significará que houve inflação? Implicaria indiretamente que existem outros universos? Eu diria que não. Imaginemos que observamos ondas gravitacionais primordiais ao captar a polarização (denominada de modo-B) que essas perturbações do espaço-tempo produziriam no fundo de radiação de micro-ondas. Não significaria que a inflação é verdadeira, ou que exista o multiverso ou o Big Bang. Creio que outras hipóteses poderiam explicar muito melhor esses fenómenos. Neste preciso momento, estou a trabalhar num artigo em que proponho um universo que se expande, se contrai e ressalta. Esse modelo cosmológico não produz múltiplos universos, mas cria os restantes efeitos pretendidos.


SPL

ENIGMAS DA CIÊNCIA: UNIVERSO Histórias intermináveis

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s cenários de partos múltiplos ilustrados à esquerda resultam de levar as hipóteses cosmológicas mais aceites às últimas consequências. Multiverso – O modelo da eterna inflação, em cima, postula que estão constantemente a nascer universos, com todas as características físicas possíveis, em pequenas zonas ou bolsas cósmicas. Grande ressalto – Segundo a teoria das cordas, ilustrada em baixo, poderiam existir estruturas com muitas dimensões, as branas, que colidem (A), se afastam umas das outras (B) e voltam a aproximar-se(C), criando um ciclo infinito de big bangs.

C

A

B

inflacionário é belo, mas tão elástico que pode explicar qualquer fenómeno ou dado empírico, de modo que se torna, na prática, incontrastável. Se forem captados sinais, o físico dá por assente que não serão ondas gravitacionais, como já aconteceu com o falso positivo anunciado pela equipa do BICEP2, em 2014. Há outras interrogações. Se aplicarmos a teoria da relatividade geral (a que é utilizada para estudar a evolução do cosmos) ao mesmo instante inicial, a densidade e a temperatura tornam-se infinitas. Como assinala o físico alemão Martin Bojowald no livro Antes do Big Bang, “um momento em que uma equação matemática dá como resultado ‘infinito’ não é o princípio (ou o fim) dos tempos: é, simplesmente, um momento em que a teoria

mostra as suas limitações”. Talvez um dia se consiga obter, com o desenvolvimento de uma nova física que junte a relatividade e a física quântica, informação sobre o que ocorreu mesmo antes da grande explosão.

REBOBINAR O COSMOS

A teoria gravitacional de anéis é uma das candidatas a conseguir tal unificação. As suas equações permitem que a singularidade inicial desapareça e que o tempo se estenda até ao instante que precedeu o Big Bang. Se pudéssemos rebobinar o filme da existência do cosmos, chegaríamos a um ponto em que o ecrã não ficaria negro, mas produzir-se-ia um grande ressalto (big bounce). O universo estaria a palpitar, a expandir-se e a contrair-se eternamente.

Um resultado semelhante foi obtido pelo já referido Paul Steinhardt e pelo seu colaborador Neil Turok, do Instituto Perimeter, de Ontário (Canadá). Para criar o seu modelo cósmico, partiram da teoria das cordas. Como explica Turok, “todos os pormenores das leis da física são determinados pela estrutura do universo; em concreto, pela disposição das dimensões suplementares do espaço, minúsculas e aglomeradas”. De acordo com esta tese, a realidade seria composta por branas, objetos formados por cordas com um grande número de dimensões. Essas branas estariam em movimento, e seria a sua colisão que deu origem ao universo: “Teria sido um acontecimento muito violento, que criou uma grande quantidade de calor e radiação de partículas... precisamente como um big bang.” A singularidade desaparece, espaço e tempo expandem-se eternamente. Se estiverem certos, então o cosmos também seria cíclico: nasceria, expandir-se-ia e, por fim, voltaria a contrair-se até ressaltar de novo. “Todo o universo poderia ter existido sempre, com séries de explosões a estender-se para trás, até ao infinito, e até ao infinito futuro.” Em vez de ser um acontecimento extraordinário e inexplicável, o Big Bang produzir-se-ia periodicamente, tal como acontece com o dia e a noite. Tanto na proposta baseada na teoria gravitacional de anéis como na que tem por fundamento a teoria das cordas, pretende-se evitar a portagem da inflação e das suas (ocasionalmente extravagantes) implicações. Os seus defensores procuram, agora, experiências ou observações que permitam ancorá-las em terra firme. R.C.

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INSTITUTO DE FÍSICA MAX PLANCK

Documento

Um puzzle incompleto Embora tenham reconstituído a história das partículas que formam a realidade visível, os físicos ainda têm trabalho por fazer. Sobretudo, conseguir finalmente saber de que diabo é feita (ou se existe) a esquiva matéria escura. 54 SUPER


ENIGMAS DA CIÊNCIA: MATÉRIA Sensível. A experiência CRESST, no Laboratório Nacional de Gran Sasso (Itália), foi concebida para detetar partículas de matéria escura mais leves do que as que se procuravam até agora.

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ARCHIVE COLLECTION

Documento Para Pavel Kroupa, o campo de investigação da cosmologia está desvirtuado e é anticientífico.

Observações combinadas dos telescópios Hubble e Spitzer permitiram identificar Tanya, a galáxia mais antiga e distante que conhecemos. Formou-se apenas 400 milhões de anos após o Big Bang.

Matéria escura? Não existe...

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astrofísico Pavel Kroupa, nascido em 1963, de origem checa e nacionalidade australiana, dirige o grupo de investigação de Populações e Dinâmica Estelar da Universidade de Bona (Alemanha). Quando começou a estudar o problema da matéria escura, há cinco anos, apercebeu-se de que ela talvez nem sequer existisse. Que observações excluiriam a hipótese da matéria escura? Entre 90 e 95 por cento das galáxias têm forma de disco. Quando se calcula a velocidade do gás e das estrelas que se encontram longe dos centros galácticos, obtém-se sempre, basicamente, o mesmo valor, algo inexplicável pela teoria em voga. Em contrapartida, se aplicarmos a hipótese da dinâmica newtoniana modificada (MOND), uma lei alternativa de gravitação, a trajetória de rotação encaixa. Outro dos principais problemas reside no alinhamento das galáxias-satélite, ou anãs, em redor de grandes estruturas galácticas. Segundo a tese do halo de matéria escura, elas deviam estar distribuídas esfericamente, em todas as direções. Porém, as observações da Via Láctea e de Andrómeda não o corroboram. Contudo, talvez o argumento mais importante seja o proporcionado pela fricção dinâmica. Imaginemos uma ga-

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láxia como a Via Láctea, com um raio de 30 a 45 mil anos-luz de estrelas e gás. Segundo o modelo aceite, estaria rodeada por um enorme halo de matéria escura, de 450 mil anos-luz. Se uma galáxia anã, com o seu próprio halo, atravessar o círculo da maior, as suas partículas de matéria escura deslocar-se-iam, retirando-lhe energia. Não é isso que observamos. Quando comecei a estudar o assunto, apercebi-me de que a MOND oferece uma explicação satisfatória. A matéria escura, simplesmente, não existe. Nesse caso, porque é que a grande maioria dos cientistas rejeita essa solução? A priori, eu não estava a favor da matéria escura ou da teoria MOND. Não estava a favor nem contra. Em contrapartida, grande parte dos especialistas reagiu contra a MOND de maneira totalmente anticientífica: não só se negam a percebê-la como a rejeitam por completo. Isso demonstra que o campo da investigação cosmológica está desvirtuado, com cientistas que só trabalham para impor as suas opiniões, sem ligar aos factos. Por exemplo, é habitual a afirmação de que o Cúmulo Bala ou 1E 0657-56 (formado por dois cúmulos galácticos em colisão) prova a existência da matéria escura, quando se trata de uma dedução totalmente falsa.

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s cientistas sabem o que aconteceu no universo desde que este tinha apenas 10–35 segundos de idade. Nessa altura, a temperatura atingia os 1028 graus: era como se alguém tivesse tido a brilhante ideia de instalar uma sauna no inferno. Nessas condições, os fotões (transmissores da radiação eletromagnética) podiam transformar-se noutro tipo de partículas muito massivas, numa correlação entre energia e massa que é descrita na célebre equação de Einstein: E=mc2. Porém, mal nasciam, colidiam entre si e convertiam-se em fotões. Depois, a temperatura desceu a pique, o que permitiu que os quarks entrassem em cena. Caracterizados por se juntarem em trios, trata-se das partículas que formam dois velhos conhecidos: os protões e os neutrões. A realidade edificou-se sobre ambos. Transcorrera apenas um segundo na vida do universo. Nesse período de tempo, surgiram e caíram impérios. Enormes quantidades de partículas pereceram mais depressa do que os protagonistas de Guerra dos Tronos. Ninguém podia imaginar que, precisamente nesse momento, se produzisse uma encarniçada batalha: os eletrões, com carga negativa, colidiam com os seus gémeos de carga positiva, os positrões. Após o impacto, ambos desapareciam, emitindo um fotão. Porém, como


NASA / ESA

ENIGMAS DA CIÊNCIA: MATÉRIA

explica o divulgador britânico Marcus Chown, “devido a um ligeiro e (até hoje) misterioso desequilíbrio nas leis da física, havia 10 000 milhões + 1 eletrões por cada 10 000 milhões de positrões; depois da orgia da aniquilação, o universo ficou com um superavit de matéria”. Esse desfasamento continua a ser um dos mistérios da física atual.

PRIMEIROS NÚCLEOS ATÓMICOS

O cosmos continuou a crescer. Com menos energia, as partículas, que tinham ido cada uma à sua vida, travaram o seu ritmo frenético. Quando protões e neutrões conseguiram aproximar-se, ficaram unidos pela força nuclear forte, e surgiram os primeiros núcleos atómicos. Foi um acontecimento muito benéfico para os neutrões: em liberdade, metade desintegra-se a cada quinze minutos, um suicídio em massa que cessa no momento em que passam a constituir o núcleo de um átomo. Isto explica o facto de haver mais protões do que neutrões. Com um segundo de vida, o universo era um magma com uma temperatura ainda elevada, na ordem dos dez mil milhões de graus, o que provocava colisões e combinações. Assim, quando um neutrão e um protão se uniam, surgia o deutério, um isótopo do hidrogénio. Depois, quando se somava a esse núcleo outro neutrão e outro protão, aparecia o hélio.

Durante os primeiros compassos do cosmos, foram também criados, excecionalmente, átomos de lítio e de berílio. Os eletrões possuíam tanta energia que nenhum núcleo conseguia apanhá-los. Não havia átomos neutros, apenas iões, com carga elétrica. Os fotões eram absorvidos pelos eletrões e, depois, novamente emitidos. O conjunto formava um plasma impenetrável para a radiação: por isso, não nos chegou qualquer luz daquela época. Durante os primeiros 380 mil anos, a temperatura caiu para os 3000 Kelvin. Quando os eletrões deixaram de ser ultraenergéticos, permaneceram aprisionados pelos núcleos atómicos, num momento conhecido por “recombinação”. Nessa altura, surgiu a matéria neutra e o universo tornou-se transparente.

SEMENTES DE ESTRELAS

As pequenas diferenças térmicas que se registam na radiação de fundo de micro-ondas (o débil eco do Big Bang) constituíram as sementes das primeiras estrelas. Quando esses astros primordiais explodiram na forma de supernovas, disseminaram pelo espaço todos os elementos da tabela periódica, surgidos da fusão dos núcleos de hidrogénio e hélio, ainda esmagadoramente maioritários no cosmos. É esta a história de tudo o que forma a reali-

dade visível e palpável que nos rodeia. Todavia, os cientistas estão praticamente convencidos de que constitui apenas uma pequena parte da matéria universal. As galáxias e os cúmulos galácticos, por exemplo, giram a tamanha velocidade que se desmembrariam se fossem apenas feitos da matéria luminosa captada pelos instrumentos de observação. Deve existir algo indetetável, que não emite radiação. Há anos que centenas de grupos de investigadores perseguem a partícula que possa explicar aquilo a que chamaram “matéria escura”. Todavia, poderão apanhar uma desilusão se o físico israelita Mordehai Milgrom tiver razão. Segundo este autor, a massa que falta não é essa, e tudo não passa de uma ilusão matemática. Ao modificar as teorias dinâmicas de Newton e Einstein, Milgrom propôs, nos anos 80, a teoria da dinâmica newtoniana modificada (MOND, na sigla inglesa). Segundo esta hipótese, a força gravitacional seria mais intensa a grandes distâncias do que preveem os modelos convencionais. Através dos seus cálculos, consegue explicar as elevadas velocidades rotacionais de galáxias e cúmulos sem recorrer à matéria escura. Milgrom assegura que, apesar da rejeição e das críticas iniciais, as suas ideias continuam vivas e estão “lentamente a ganhar terreno”. R.C.

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Um deserto animado 58 SUPER

A vida surgiu de uma sรณ vez ou houve passos em falso? ร‰ um fenรณmeno autรณctone da Terra ou pode produzir-se em qualquer outro lugar do cosmos?


ENIGMAS DA CIÊNCIA: VIDA Momento de paz. Este poderia ser o cenário em que se começou a cozinhar a vida terrestre, há uns 4000 milhões de anos. Nessa altura, o bombardeamento de meteoritos acalmou e as crateras dos vulcões e dos impactos encheram-se de água.

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s fósseis dos organismos vivos mais antigos que se conhecem foram encontrados no noroeste da Austrália e têm 3400 milhões de anos. Embora cientistas como o paleobiólogo Martin Brasier, recentemente falecido, tenham sugerido que tais estruturas poderiam ter sido formadas por simples processos físicos, é convicção generalizada que são obra de cianobactérias, um tipo de micróbios fotossin-

téticos que aproveitam a energia do Sol para obter hidrogénio da água, libertando oxigénio na atmosfera. Essa atividade metabólica teria transformado o nosso planeta. Como explica o bioquímico Nick Lane, do University College London, “o tipo de química que é necessária para dar origem à vida requer a ausência de oxigénio”, algo que caracterizou a atmosfera terrestre até ao aparecimento dos primeiros micróbios. Desde então, a possibili-

dade de outro ser orgânico poder emergir de um meio abiótico, inerte, ficou reduzida a zero. Todos os seres vivos que existem utilizam o mesmo alfabeto genético, baseado em apenas quatro “letras”: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). Esse livro de instruções não só consegue codificar a informação e determinar o metabolismo da célula como, também, transmitir essa informação à descendência. Repete sempre o mesmo trajeto: Interessante

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Documento Chandra Wickramasinghe acredita que há cada vez mais provas em favor da teoria da panspermia.

Biosfera cósmica

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os anos 70, o astrónomo Fred Hoyle (1915–2001) e o matemático Chandra Wickramasinghe (nascido em 1939) lançaram a tese de que foram os cometas que distribuíram a vida pelo cosmos. Desde então, Wickramasinghe, natural do Sri Lanka e professor na Universidade de Buckingham (Inglaterra), tem insistido na controversa ideia, conhecida por “panspermia”. Que provas existem para defender que a vida provém do espaço? Em primeiro lugar, também não há provas de que tenha começado no nosso planeta. As primeiras bactérias teriam surgido a partir do momento em que podiam sobreviver, há cerca de 4000 milhões de anos. Aconteceu em finais do chamado éon Hadiano, quando a Terra sofreu um episódio de terríveis impactos de cometas. É provável que esses corpos celestes trouxessem água para a Terra, e também transportassem vida. Exclui, então, a ideia de que os primeiros organismos surgiram de um meio inerte? O aparecimento de células autorreplicantes simples a partir de uma sopa pré-biótica (através do ARN ou de qualquer outra rota proposta) implica tremendas improbabilidades. Se nos afastarmos do pequeníssimo volume que os oceanos primordiais da Terra ocupavam e considerarmos um cenário muito mais vasto, colmatamos a brecha do sumamente improvável. É essa a razão para invocar que a vida constitui

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um fenómeno cósmico: teria tido origem uma única vez na história do universo, e a panspermia ter-se-ia encarregado do resto. Por outro lado, a Terra é um campo aberto, e as células e o seu material genético podem mover-se com facilidade uma vez estabelecidas, entrando e saindo do planeta. Por exemplo, se um cometa ou um asteroide atingir a Terra, uma pequena fração dos materiais expulsos pode alcançar os sistemas planetários circundantes. Recentemente, estimou-se que o número de exoplanetas presentes na nossa galáxia pode ultrapassar os 140 mil milhões! Isso significa que a distância entre mundos extrassolares potencialmente habitáveis é de apenas alguns anos-luz. Estamos a falar de uma magnitude muito pequena do ponto de vista da astronomia, e que pode ser facilmente ultrapassada por processos panspérmicos. Crê que a sua tese possui agora mais fundamento do que quando a propôs, há quarenta anos? Sim. É apoiada pela descoberta de que uma importante fração do carbono existente no universo se encontra na forma de moléculas biologicamente relevantes. Além disso, estudos recentes indicam que os cometas são compostos de um material semelhante. Por último, a deteção de células bacterianas em amostras de poeira de cometas obtida na alta estratosfera deveria convencer-nos de que fazemos parte de uma única biosfera interligada.

o ácido ribonucleico (ARN) extrai e transporta as diretrizes contidas no ácido desoxirribonucleico (ADN) até aos ribossomas, organitos que as processam para fabricar proteínas.

TETRAVÔ COMUM

Esta coincidência indica que todas as células partilham um único tetravô, batizado com o nome de LUCA (sigla inglesa de “último antepassado comum universal”), um organismo hipotético do qual não existem restos fósseis. Até agora, pensava-se que essa criatura primordial teria surgido há 3700 milhões de anos, mas uma nova descoberta poderá atrasar o seu nascimento. Trata-se de cristais de zircão, com uma antiguidade de 4100 milhões de anos, dotados de certos vestígios orgânicos de provável origem origem biológica. Seja qual for a data em que surgiu, LUCA parece um ente demasiado complexo e per-


ENIGMAS DA CIÊNCIA: VIDA Nos limites da sobrevivência O estudo dos extremófilos (micróbios que prosperam em condições hostis) pode ajudar-nos a compreender como surgiram os primeiros organismos vivos. Na foto, busca de bactérias numa fonte termal da Nova Zelândia.

giam aminoácidos, os componentes básicos da vida. A experiência fazia crer que estamos perante um fenómeno suscetível de produzir-se de forma relativamente simples: é apenas preciso esperar que as peças encaixem. Contudo, Nick Lane considera que há três pontos fracos na experiência de Miller: “Em primeiro lugar, os geólogos não pensam que a atmosfera da Terra pudesse conter os gases (metano, hidrogénio e amoníaco) que ele utilizou. Além disso, o ponto de partida implica que as primeiras células teriam de ser heterótrofas, isto é, consumiam moléculas orgânicas da própria sopa pré-biológica. Porém, ao observar a árvore da vida, deduz-se que os organismos primordiais eram entes autótrofos: produziam o seu próprio alimento. Por último, a hipótese tem falta de uma força que transforme uma massa desorganizada num ser vivo.” Lane prefere situar a origem nas fumarolas hidrotermais alcalinas, fontes que surgem de fendas nos leitos oceânicos: “Ali, há uma concentração relativamente elevada de hidrogénio, catalisadores naturais que aumentam a velocidade das reações químicas, um constante abastecimento de reagentes e uma força motriz termodinâmica”, explica. O bioquímico britânico acrescenta que todas as células “retiram a sua energia do carbono de uma forma muito específica, com cargas elétricas na sua membrana, criando um campo elétrico intenso à sua volta”. Ora, dá-se a circunstância de também se produzir um gradiente elétrico nas fumarolas, o que poderia ser funda­mental para o aparecimento do primeiro ser vivo.

HIPÓTESE RADICAL

feito para poder ser o primeiro ser vivo. Antes, deve ter havido uma série de passos intermédios para desenvolver os ciclos e processos metabólicos e replicativos necessários. Nesse caso, qual o ponto de partida e o trajeto seguido pela bioquímica até chegar a LUCA? Segundo Daniel Dennett, professor catedrático de filosofia da Universidade Tufts (Boston, Estados Unidos) é um erro frequente pensar que “os passos que permitem saltar do meio inorgânico para a célula descrevem uma linha reta”. Dennett considera que, nesse lapso de tempo, podem ter-se produzido “gambitos, como no xadrez”, com erros aparentes que proporcionariam, em última instância, uma vantagem decisiva. Um exemplo desse tipo de subterfúgio estaria relacionado com a ideia de que os preâmbulos da vida se basearam no ARN, em vez do ADN, por o primeiro ser uma molécula mais maleável e com

capacidade para desempenhar, simultaneamente, papéis metabólicos e replicativos. Outro equívoco consiste em pensar que a simplicidade e a eficiência se registaram desde o início. O Chemoton concebido pelo bioquímico húngaro Tibor Ganti (modelo abstrato de organismo que reúne os processos mais elementares para subsistir) teria de ser, forçosamente, o resultado final de um longo percurso. Portanto, nas suas origens, a vida talvez tenha adotado formas monstruosamente grandes e ineficazes.

PONTOS FRACOS NA TEORIA

Uma das ideias mais persistentes tem sido a de pensar que o primeiro ser surgiu numa espécie de sopa de elementos químicos. O cientista californiano Stanley Miller reproduziu, em 1953, as condições da Terra primitiva num tubo de ensaio e observou a forma como sur-

Existe outra possibilidade mais radical: se não há indícios do processo que conduziu a LUCA, isso talvez se deva ao facto de ele não se ter produzido na Terra, mas em qualquer outro lugar do universo. A teoria da panspermia, defendida por Chandra Wickramasinghe (e por outros cientistas antes dele), afirma que a vida se dispersou pela Terra a bordo de meteoritos ou cometas, e que havia um tráfego constante de organismos pela galáxia. A conjetura foi utilizada para explicar, por exemplo, um fenómeno tão singular como o que ocorreu em 2001: durante dois meses, uma chuva vermelha que parecia feita de gotas de sangue caiu sobre o estado indiano de Kerala. Segundo alguns cientistas, poderia conter micróbios extraterrestres que viajavam na cauda de algum cometa. Antes, em 1984, surgiu a sensacional notícia de que tinham sido encontrados fósseis de micro-organismos no meteorito ALH84001, que se separou de Marte há 4000 milhões de anos. Contudo, nenhuma destas notícias convenceu a maioria dos especialistas. R.C.

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Tudo é subjetivo Filósofos e neurocientistas abordam o problema da consciência partindo de posições opostas: enquanto uns consideram que se trata de uma simples ilusão fabricada pelo cérebro, outros defendem que existe mesmo, embora não esteja localizada num lugar concreto.

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ENIGMAS DA CIÊNCIA: CONSCIÊNCIA

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Os especialistas não conseguiram localizar o centro de operações do nosso mundo interior. Talvez ele dependa de uma complexa interligação neuronal que implique boa parte do órgão pensante.

té há poucas décadas, falar de consciência era uma ocupação própria de charlatães. A ciência é objetiva, com um discurso na terceira pessoa, enquanto a consciência se conjuga, por definição, na primeira pessoa: trata-se do conhecimento de nós próprios, de pura sujetividade. Uma ciência da consciência parecia, pois, uma contradição. Contudo, havia indícios que a vinculavam ao cérebro e convidavam a aprofundar o mistério; era apenas necessário que alguém suficientemente respeitado se atrevesse a ultrapassar todos os preconceitos. Francis Crick (1916–2004), biólogo e físico, com o Prémio Nobel debaixo do braço pela descoberta da dupla hélice do ADN, ousou dar esse passo decisivo e acabar com o ostracismo científico que rodeava a apaixonante questão. Basicamente, o problema que Crick enfrentava era o seguinte: como poderá um sistema físico criar estados conscientes? É aquilo que o filósofo australiano David Chalmers classificou como “o problema difícil”. O (aparentemente) fácil residia em explicar como o cérebro guarda e trata a informação. Crick expôs a base em que assentava o seu plano de investigação nos seguintes termos: “Os nossos prazeres e os nossos desgostos, as nossas recordações e as nossas ambições, o nosso sentido de iden-

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JOHN SEARLE

John Searle acha que acabaremos por descobrir o que gera a consciência.

Semelhante à digestão

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ohn Searle, nascido em Denver (Colorado), em 1932, é uma lenda viva da filosofia e dá aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley desde há 56 anos. É escandaloso que, num tema como o da consciência, não haja sequer acordo sobre a sua existência... Filósofos como Daniel Dennett estão presos na ideia de que reconhecer a sua existência implicaria assumir alguma forma de misticismo e a imortalidade da alma. Eu digo que se trata de um fenómeno biológico, localizado no cérebro, tal como a digestão é feita no estômago. Por sua vez, Dennett compara-o a um programa de computador. Os astrónomos ultrapassam as suas disputas com dados. Seria possível resolver assim a questão? Seria preciso ultrapassar 2000 anos de convicções erróneas, algo que não se consegue de um dia para o outro. A loucura de uma posição como a de Dennet será rapidamente esquecida. Durante séculos, foi-nos dito que a consciência não podia fazer parte no nosso mundo físico.

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No entanto, é isso que acontece. Conceções erróneas podem conduzir a investigações inúteis? Com as atuais tecnologias, podemos assinalar o lugar no cérebro onde um indivíduo deixou de ver um pato e vê um coelho, mas eu defino a consciência como uma característica global. Embora alguns cientistas explorem essa via, como Rodolfo Llinás e Wolf Singer, o problema é que as técnicas de investigação localizada são muito melhores. Há dois processos comuns: o estudo de um único neurónio para observar como é ativado sob determinadas condições, e a ressonância magnética funcional, que mostra a atividade de uma zona do cérebro quando se executa uma ação. Ambos focam pontos concretos, e não o conjunto. O linguista Noam Chomsky afirmou que nunca conseguiremos entender o que é a consciência... Sabemos que ela é criada pelo cérebro, através de processos neurobiológicos. Não há razão para não chegarmos a compreender como surge.

Máquinas de pensar Alguns teóricos equiparam o pensamento humano ao processamento de dados dos computadores.

tidade pessoal e de livre arbítrio, resultam apenas, na realidade, do comportamento de vastos conjuntos de neurónios e das moléculas que lhes estão associadas.” Faltava apenas estabelecer o processo que conduzia da massa cinzenta à mente consciente. Os estados subjetivos caracterizam-se por serem privados (só eu apreendo o que captam os meus sentidos) e incomunicáveis, pois não é possível ter acesso ao que os outros sentem. A fim de ultrapassar esse obstáculo, Crick e o seu colaborador, o neurocientista norte-americano Christof Koch, procuraram localizar os neurónios que se ativavam de cada vez que uma pessoa experimentava uma sensação.

OSCILAÇÕES EM SINTONIA

Embora não tivessem encontrado uma região encarregada de processar todos os dados de que temos consciência, constataram que os sinais elétricos emitidos por diferentes células nervosas pareciam oscilar em sintonia. Em 1990, os dois cientistas sugeriram que tais sincronizações davam origem à consciência. Contudo,


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ENIGMAS DA CIÊNCIA: CONSCIÊNCIA

continuava a não haver uma explicação para o modo como produziam os nossos esquivos e imateriais estados de autoconhecimento. Outra via de investigação começava a surgir à medida que aumentava a potência dos computadores. O filósofo norte-americano Daniel Dennett é um dos principais defensores do que constitui mais do que uma mera metáfora entre cérebro e computação, tal como expõe no livro Doces Sonhos: “A simples existência dos computadores é uma prova cuja influência é inegável: existem mecanismos (mecanismos racionais e totalmente misteriosos que funcionam de acordo com princípios físicos tão conhecidos que fazem parte da nossa rotina) responsáveis por muitas das competências que se costumava atribuir exclusivamente à mente.” Se um conjunto de transístores consegue emular o pensamento humano para realizar operações, executar processos ou armazenar dados, porque não considerar que são equivalentes aos neurónios? Esta hipótese implica, em última instância, considerar que não há, na realidade, qualquer

mistério por resolver. A consciência não seria mais do que uma ilusão da atividade bioquímica: o problema difícil ficaria assim resolvido com a dissolução dos estados mentais. Segundo Dennett, não só os robôs podem ter consciência (embora uma máquina com tais características fosse demasiado dispendiosa), como nós próprios somos robôs.

PROPRIEDADES MÁGICAS

Michael Graziano, neurocientista da Universidade de Princeton (Estados Unidos), tomou a sério a proposta de Dennett e desenvolveu a sua própria teoria. Segundo ele, o cérebro cria um modelo para controlar o processo de atenção (ou seja, a seleção de estímulos em função da sua importância) e atribui-lhe propriedades quase mágicas, aquilo que designamos por “estados mentais”. Seria comparável à função de um ventríloquo quando nos pretende fazer crer que um boneco possui personalidade. Além disso, o modelo também permite prever o que acontece no cérebro dos outros. Como explica

Graziano, “não há impressões subjetivas, apenas informação num dispositivo que processa dados”. Nem todos estão de acordo. O filósofo John Searle, por exemplo, defende há décadas que a consciência existe, efetivamente, e que se trata de um produto biológico nascido da atividade neuronal, embora não se reduza a ela. A fim de denunciar os excessos e as pretensões da inteligência artificial, propôs a seguinte experiência mental: um homem fechado num quarto recebe determinados símbolos em chinês e, depois de os analisar de acordo com uma série de regras, produz em resposta outra série de sinais. Apesar de não saber o que fez, poderão fazer sentido. É essa a tarefa desempenhada por um computador, mas não equivale a entender significados, argumenta Searle. A compreensão está apenas ao alcance de seres conscientes: os computadores limitam-se a emular e imitar. Contudo, a hipótese leva-nos de volta ao início: de que forma é que um sistema físico pode criar esses estados subjetivos? R.C.

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Psicologia Mercado. A forma de escolher parceiro não é alheia ao sistema económico em que vivemos. Numa sociedade de consumo, procuramos, comparamos e escolhemos. Se o produto não satisfizer, trocamo-lo...

Que procuramos num parceiro?

Dez mitos CONJUGAIS A

té há algumas décadas, dava-se por assente que o ideal das mulheres era um homem forte e másculo que pudesse protegê-las dos perigos e lhes proporcionasse filhos e segurança económica. Por sua vez, eles procuravam uma mulher bonita e submissa, excelente dona de casa e a quem podiam confiar a prole. Com a emancipação da mulher, estas ideias foram pulverizadas. Agora, são muitos e mais complexos os fatores que intervêm na escolha do par ideal, uma das decisões mais importantes que tomamos na vida, mas que é feita muitas vezes de forma superficial e com base em preconceitos que acabam por dinamitar a relação (em Portugal, mais de 70 por cento dos casamentos acabam em divórcio, segundo números da base de dados Pordata, quando no início deste século a proporção era de apenas 30%). Psicólogos evolutivos e outros especialistas procuram averiguar os fatores que nos influenciam na escolha da pessoa com quem desejamos passar os nossos dias, e têm surgido surpresas como as que lhe revelamos a seguir.

INTELIGÊNCIA FEMININA

Em 2012, os psicólogos evolutivos Cari D. Goetz, Judith A. Easton e David M. Buss efetuaram um estudo sobre as características que os homens consideravam, em teoria, tornar as mulheres mais propensas a ceder aos seus desejos sexuais. Descobriram que eles se sentiam mais atraídos pelas imagens de mulheres

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que pareciam ser imaturas, promíscuas, bebedoras, temerárias, pouco inteligentes e jovens. Todos estes traços faziam-nas parecer mais acessíveis e sexualmente atraentes aos olhos masculinos. Algumas mulheres têm consciência desses preconceitos dos homens e aproveitam-se disso. Todos recordamos as personagens interpretadas por Marilyn Monroe, protótipos da loura tonta e sexualmente irresistível que se fazia de parva e usava o seu engenho oculto para conseguir o que queria. Tais cânones de atração já não se usam, como demonstra um trabalho dirigido por Matthew Hornsey, professor de psicologia na Universidade de Queensland (Austrália). A investigação, baseada em testes e dinâmicas de grupo, mostrou que, ao contrário do que se pensava, os homens se sentem mais atraídos pelas mulheres inconformistas. Elas também partilham esse interesse por parceiros com inquietações. Há uma nuance que merece destaque: elas tendem a sobrevalorizar o gosto deles pelas mulheres conformistas, pelo que, por vezes, adotam esse papel para se tornarem mais desejáveis. Outros estudos vieram confirmar o que todos sabemos: para relações em que não se pretende que haja empatia ou qualquer compromisso, é mais provável que os homens optem por mulheres aparentemente pouco inteligentes. Quando, pelo contrário, andam à procura de uma relação séria, a maior parte dos homens mostra-se disposta a subir a parada em termos de exigências intelectuais.

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A escolha da pessoa com quem tencionamos viver envolve uma série de fatores (genéticos, psicológicos, culturais) que a tornam uma das mais difíceis da nossa existência. Em que nos baseamos para decidir?


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A emancipação feminina alterou todos os estereótipos Alguns estudos indicam que as mulheres que estão a ovular preferem companheiros corpulentos com traços faciais muito acentuados. De facto, muitos modelos publicitários correspondem a essa imagem. Contudo, não se trata do cânone mais desejado por elas em todas as etapas da vida. Embora tais características transmitam a sensação de que quem as possui tem bons genes, estão também associadas à infidelidade. Por isso, tanto adolescentes como mulheres na menopausa gostam de homens mais femininos. Segundo uma investigação publicada na revista Journal of Sexual Medicine, o mesmo se passa com as grávidas, que desejariam um companheiro assim para poder cuidar do bebé. Por outro lado, um trabalho do Departamento de Psicologia da Universidade de Stirling (Reino Unido) analisou as preferências faciais femininas em função dos efeitos hormonais. Após o parto, as mulheres sofrem uma quebra significativa dos níveis de estrogénios e de testosterona. Essas hormonas afetam de forma importante os conceitos de atração sexual, e explicam a preferência por características menos viris. O lugar em que se vive e as condições de saúde são também fundamentais quando se trata de escolher o parceiro. Lisa DeBruine, do Instituto de Neurociência e Psicologia da Universidade de Glasgow (Escócia), estudou as preferências das mulheres de diferentes regiões do planeta em termos de rostos masculinos. Ela e os seus colaboradores descobriram que as mulheres mais sensíveis aos sinais de pouca saúde tinham maior apreço por feições mais viris. O trabalho determinou que as mulheres de zonas do mundo onde existe maior risco de contrair doenças são as que sentem maior atração por esse protótipo mais masculino. DeBruine considera que uma boa herança genética é importante para essas mulheres porque elas procuram uma descendência saudável e com um sistema imunológico forte.

MEMÓRIAS PATERNAS

Diz-se que muitas mulheres preferem homens mais velhos do que elas, nomeadamente se o pai era mais idoso quando eram crianças. Segundo o psicólogo britânico Anthony Little, também procuram companheiros com semelhanças físicas com o pai, tanto na cor dos olhos e do cabelo como na forma do rosto, tendência que se acentua se a relação paterno-filial foi boa. Um estudo dirigido por

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O MACHO ALFA

Tamás Bereczkei, da Universidade de Pécs (Hungria), analisou 312 adultos de cinquenta familias e chegou à conclusão de que tanto homens como mulheres tendem a procurar parceiros com rostos semelhantes aos do progenitor do sexo oposto.

mulher tem maior presença, elas valorizam mais nos possíveis companheiros aspetos como o seu poder de atração, o caráter e as qualidades de pai responsável do que o tamanho da conta bancária.

ESTATUTO ECONÓMICO

O sociólogo Sabino Kornrich, da Universidade de Washington, publicou, em 2013, um estudo no qual sugere que os casais que dividem as tarefas de modo mais tradicional têm relações sexuais com maior frequência do que aqueles com uma distribuição igualitária dos trabalhos domésticos. Aparentemente, não seria bom para a líbido ver o homem a lavar pratos, pôr a roupa na máquina, preparar refeições ou engomar. É preciso dizer que o estudo foi feito nos anos 80 e 90 e que os padrões de comportamento se alteraram entretanto. Hoje, a partilha de responsabilidades por ambos os membros do casal tornou-se uma necessidade para a maioria. Uma investigação do sociólogo Daniel L. Carlson analisou o assunto com base nessa nova realidade. Os resultados indicam que não existem diferenças significativas na frequência e na satisfação proporcionada pelas relações sexuais entre casais igualitários e os que mantêm papéis convencionais.

É muito comum pensar que a atração física é essencial para um homem se comprometer numa relação a longo prazo, e que as mulheres dão mais valor a aspetos como a saúde e a ambição do parceiro. Contudo, uma experiência dirigida por Paul W. Eastwick, da Universidade do Texas em Austin, desmente essa ideia. East­ wick e os seus colaboradores criaram um teste de encontros rápidos com doze participantes, o qual demonstrou que ambos os sexos sobrepunham um aspeto desejável a qualquer outra coisa, seguido pela personalidade e pelas perspetivas económicas. Segundo outro estudo, coordenado por Steve Stewart-Williams, psicólogo na Universidade de Swansea (Reino Unido), as preferências e prioridades de ambos os sexos são definidas pelo tipo de relação que procuram. Quando a finalidade é um affaire de uma noite ou um romance passageiro, elas são mesmo mais exigentes do que eles no que diz respeito à atração sexual. A realidade é que cada vez mais mulheres possuem rendimentos semelhantes ou superiores aos dos homens, pelo que já não consideram assim tão importante que o parceiro tenha dinheiro. Esse facto foi corroborado por dois estudos, da Universidade Politécnica de Hong Kong e da Universidade de Dundee (Escócia). Os resultados de ambos os trabalhos demonstram que, nas sociedades em que a

TAREFAS DOMÉSTICAS

CORPO IDEAL

Muitas curvas, ancas largas e peito proeminente, cintura de vespa e grandes olhos. É esse o ideal de beleza feminina que perdurou durante muitas décadas, apesar de o mundo da moda ditar, atualmente, uma excessiva magreza. O cânone, que continua bem presente, pode ser reduzido a uma fórmula numérica: 90-60-90, medidas que a maior parte das


Novos papéis. O cliché do homem poderoso rodeado de beldades já não tem muito a ver com a realidade das novas gerações.

de um semestre. Inicialmente, as opiniões dos alunos coincidiam bastante sobre quais eram mais atraentes e quais poderiam revelar-se desejáveis como parceiros amorosos ou como bons colegas. Contudo, no fim do semestre, as primeiras impressões de muitos dos estudantes tinham-se modificado. A razão foi que os participantes se foram conhecendo melhor e, à medida que o faziam, iam alterando as suas ideias sobre o poder de atração dos colegas. O trabalho demonstra que as perceções podem mudar radicalmente quando iniciamos uma relação e nos abrimos com outra pessoa.

MULHERES DIFÍCEIS

mortais só consegue alcançar em sonhos. Contudo, as mulheres com uma cintura mais larga poderão beneficiar de certas vantagens face às de proporções mais estilizadas. É o que se deduz de um estudo realizado pela antropóloga Elizabeth Cashdan, da Universidade do Utah. Segundo os resultados obtidos, essas mulheres robustas possuem níveis mais elevados de testosterona e cortisol, o que poderá favorecê-las quando competem com as de cintura de vespa em situações de necessidade e poucos recursos. Curiosamente, uma análise às alterações sócio-económicas entre os anos 1960 e 2000 indicava que as modelos escolhidas pela revista Playboy tinham medidas mais volumosas durante os anos de recessão. Por outro lado, Urszula Marcinkowska, bióloga evolucionista da Universidade Jaguelónica de Cracóvia (Polónia), defende que as mulheres com características mais femininas são consideradas menos dominantes e, por conseguinte, menos capazes de competir numa situação de escassos recursos vitais. É a conclusão que se extrai do seu estudo, desenvolvido em 28 países, sobre as preferências dos homens por mulheres com aspeto mais ou menos feminino. Nas zonas menos desenvolvidas, onde a prioridade é a simples sobrevivência, os homens tinham tendência para escolher companheiras com características físicas um pouco mais másculas.

SEXO OCASIONAL

O género com maior tendência para manter relações sexuais sem compromisso tem sido o masculino, em grande parte por razões sociais, pois era muito mais arriscado para uma mulher fazê-lo. Todavia, elas gozam cada vez mais de independência económica e são donas do pró-

prio corpo. Essa reviravolta rumo à igualdade faz muitas mulheres entregarem-se sem problemas ao sexo ocasional ou fortuito. No entanto, há estudos a defender que o homem é mais promíscuo por natureza. Segundo um trabalho desenvolvido pela investigadora Lisa DeBruine em 2014, a familiaridade pode revelar-se atraente para as mulheres, e os homens desejam mais parceiras sexuais do que elas, o que é um indício do seu gosto pela novidade. Na experiência, mostrou-se aos participantes (83 mulheres e 63 homens), por duas vezes, os rostos das mesmas pessoas. Em ambas as ocasiões, pediam-lhes para avaliarem o seu poder de atração. Na segunda vez, as opiniões masculinas sobre a atração das mulheres sofreram uma significativa descida, o que demonstra o seu interesse pelo que é novo. Por sua vez, elas mostraram maior preferência pelas caras já conhecidas. Porém, tal tendência tem uma compensação: alguns psicólogos afirmam que calculamos, durante a adolescência, o nosso valor como possíveis parceiros, e é nessa altura que muitos homens se apercebem de que a promiscuidade não é uma opção tão desejável como se poderia pensar. Isso, aliado ao facto de que as mulheres são cada vez mais seletivas nas suas escolhas, e que as incertas circunstâncias laborais levam a partilhar a vida com alguém, fez a promiscuidade deixar de ser tão interessante como era há algum tempo.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Em 2014, Paul W. Eastwick e Lucy L. Hunt, da Universidade do Texas em Austin, estudaram a forma como 129 estudantes daquela instituição viam os seus colegas do sexo oposto. Para isso, ouviram as suas opiniões no início e no final

Entre as mulheres, é opinião generalizada de que não se pode facilitar demasiado a vida aos homens se se pretender que continuem interessados. Tal técnica pode funcionar em histórias que se sabe de antemão serem passageiras, mas não parece a melhor opção quando se pretende uma relação estável, pois pode criar desconfiança e até mal-estar mesmo antes de se iniciar a relação. Segundo um trabalho com 129 casais desenvolvido por Mónica Guzmán e Paula Contreras, da Escola de Psicologia da Universidade Católica do Norte, no Chile, as pessoas estáveis nos seus afetos e comportamentos proporcionam aos seus parceiros níveis mais elevados de satisfação. Significativamente, esses indivíduos eram os que tinham tido uma boa relação com os pais durante a infância. Do mesmo modo, um estudo com 133 casais heterossexuais dirigido por José L. Martínez-Álvarez, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca (Espanha), mostra que o vínculo afetivo e a qualidade da relação com os progenitores exerce um efeito decisivo sobre a futura personalidade dos filhos.

COMPROMISSO FIRME

Um estudo recente dos psicólogos Anthony Little, Lisa DeBruine e Benedict Jones mostra que as mulheres tendem a procurar companheiros mais dispostos a ter filhos e a criar laços familiares. Porém, isso é contestado por alguns especialistas. O desejo feminino de compromisso depende de muitos fatores, incluindo a religião e a situação económica do país em que se vive. O psicólogo Michael Price e a sua equipa da Universidade Brunel (Londres) descobriram uma relação, em ambos os sexos, entre a independência económica e a aceitação da promiscuidade. Os investigadores afirmam que a redução das diferenças e a emancipação da mulher tornam mais igualitários os comportamentos. Esse facto ajuda a explicar que as atuais britânicas tenham, em média, oito parceiros sexuais ao longo da vida, quase o dobro do que acontecia há apenas uma geração. R.G.

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História O mais quente da guerra fria

Um mundo DIVIDIDO

Finda a Segunda Guerra Mundial, teve início um conflito que dividiria o mundo em dois blocos. A importância do confronto aumenta à medida que os seus segredos são revelados.

E

ntre ruínas e rostos famélicos, mas com toda a alegria possível, os europeus celebravam, em maio de 1945, o termo da Segunda Guerra Mundial, embora o fim definitivo das hostilidades só chegasse a 15 de agosto, data da rendição do Japão. O conflito fora brutal e muita coisa fazia lembrar o Apocalipse: cidades e países devastados, património com séculos de antiguidade destruído e o apavorante número de setenta milhões de mortos. Contudo, mesmo no descalabro, perduravam divergências cujas faíscas não tinham cessado. Começava outra guerra silenciosa, que iria durar muitos mais anos e que também causaria, dissimuladamente, milhões de vítimas. Mais cedo ou mais tarde, teria de se produzir esse confronto entre o capitalismo norte-americano e o comunismo soviético. A liderar a causa, os Estados Unidos, transformados em absoluta superpotência, lançaram-se numa espiral desenfreada de estratégias secretas, manipulações e guerras inventadas para extirpar esse mal demoníaco que se expandira na Rússia e na China. O bloco comunista respondia com táticas semelhantes, mas quase sempre na defensiva. Decorreram, assim, décadas, com focos de destruição em diferentes zonas do planeta, aparentemente sem ligação, mas sabemos agora que o pano de fundo era sempre o mesmo. A verdade é que ainda resta muito por saber de um conflito que, na realidade, ainda não terminou, apesar da proclamação oficial do fim da guerra fria feita por Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov na cimeira realizada em

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Malta, em dezembro de 1989, após a queda do Muro de Berlim. Essas faíscas que iriam incendiar o conflito tinham passado quase despercebidas quando as potências vencedoras da guerra mundial se reuniram para reorganizar o mundo, nas célebres conferências de Yalta e Potsdam. Ainda se estava em 1945 e, em seguida, Winston Churchill, esse perito em charutos e frases aparatosas, saiu-se com a ideia da “cortina de ferro”. Era o começo de várias décadas de um confronto mudo para dominar o mundo, cheio de espiões e muitas vítimas propiciatórias.

GUERRA POR PROCURAÇÃO

Norte-americanos e soviéticos não se enfrentam diretamente, mas fazem-no nos bastidores, em guerras, guerrilhas e golpes de estado que beneficiam um ou outro, sejam quais forem as consequências. Em ideias e burocracias, confrontam-se sem dissimulação. São mais agressivos os gringos (que saíram praticamente ilesos da guerra) do que os soviéticos, com toda a sua imensa pátria devastada e o peso atroz dos 27 milhões de vítimas do confronto bélico. Assim, os Estados Unidos aderem à Doutrina Truman, na qual o referido presidente proclama a necessidade de combater o comunismo. Antes, porém, é preciso compor a face do capitalismo europeu, tão macerada pela demolidora contenda, e arquiteta-se o Plano Marshall, que dá os seus primeiros passos rumo à reconstrução na Grécia e na Turquia, em 1947. Um maná para tantos civis que tinham visto as suas vidas destroçadas sem saber muito bem porquê, e deveras conveniente para as

Linha entre dois mundos Uma mulher consegue, em 1955, passar da parte oriental de Berlim para a ocidental, enquanto os guardas dos dois lados se enfrentam. A divisão da capital alemã era marcada por um risco no chão.


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Controlo apertado. Cargueiro russo parte de Cuba sob vigilância norte-americana, durante a crise dos mísseis (1962).

Morris Childs passou 35 anos como espião no Kremlin grandes empresas, incluindo as muitas que não tinham torcido o nariz ao nazismo. Os soviéticos reagem ao ímpeto invasivo com o Comecon, que zelará pela segurança e impermeabilidade dos países na órbita do Kremlin. É nessa altura que ocorre ao financeiro norte-americano Bernard Baruch o termo “guerra fria”. Corria o ano de 1947 e a coisa era tão séria que levou à criação, nesse mesmo ano, da CIA, instituição que definiria um estilo próprio de controlo obscuro e meios questionáveis. O caudal de episódios não cessa: ora é o bloqueio soviético a Berlim, ultrapassado por uma ponte aérea que incluía o lançamento de caramelos para as crianças da cidade; ora a atitude de Tito, à frente da desaparecida Jugoslávia, que se demarca e inventa sabiamente a organização dos países não-alinhados; ora é a NATO e a divisão da Alemanha em RFA e RDA, ora é o triunfo de Mao Zedong na China... Nessa altura, a Doutrina Truman já não é suficiente e é preciso cercear qualquer surto que cheire a comunista. Onde? Por todo o planeta, agora que já estamos nos anos 50 e o processo de descolonização faz não haver tempo a perder.

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A guerra fria mostra a sua verdadeira temperatura na guerra da Coreia, e continuará a fazê-lo a partir de então, apesar dos arrazoados antiarmamentistas de Dwight Eisenhower e Nikita Kruschev, na repressão da revolta antissoviética na Hungria, na ostentação nuclear norte-americana na guerra do Sinai, ou no grande estrondo mediático que rodeou a crise dos mísseis em Cuba, com um John F. Kennedy a armar-se em salvador do mundo.

PARAÍSO PARA A ESPIONAGEM

Tanto conflito de meias tintas constituía um paraíso para a espionagem, cuja realidade não se assemelhava muito à de James Bond, embora seja verdade que as peripécias de alguns agentes fossem deveras cinematográficas. Trata-se, sem dúvida, dos espiões mais conspícuos da história, e sabemos agora que as suas aventuras já tinham tido início antes da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 30, já exerciam a profissão os chamados “cinco de Cambridge”, universitários britânicos de boas famílias que, imbuídos do fervor socialista da época, passavam informação aos soviéticos sem abandonar

a sua existência abastada e não isenta de atrativos: álcool, amantes, agentes duplos, luxos... Não foram apanhados, como também não o seriam os muitos antigos nazis a soldo da CIA, que chegaram mesmo a ser treinados no Maryland para uma possível invasão da URSS. Nenhum alcançou a eficiência de CG 5824-S, sigla para designar Morris Childs, considerado o número 1 dos espiões norte-americanos, pois enviou, durante 35 anos, informação das profundezas do Kremlin, onde era bem recebido por ser considerado um verdadeiro comunista e por ter nascido na Ucrânia. Por sua vez, os soviéticos também tiveram a sua estrela: o cientista austríaco Engelbert Broda, conhecido pelo nome de código Eric, que trabalhou em Inglaterra e passou segredos nucleares a Moscovo. O trabalho do agente infiltrado tornou-se conhecido quando foram revelados documentos tanto do KGB como do serviço de inteligência britânico, o MI5. Nos Estados Unidos, o período anticomunista de “caça às bruxas” organizado pelo senador McCarthy fazia vítimas: o caso mais célebre foi o do casal de judeus Julius e Ethel Rosenberg, acusado de fornecer informações à União Soviética sobre a bomba atómica. Foram julgados e condenados à morte: a sua execução, em 1953, causou controvérsia em todo o mundo, já que não havia provas suficientes do


AQUILE

AGE

Um conflito global CRONOLOGIA

NATO

1946 Churchill proclama a existência da Cortina de Ferro

Outros aliados dos Estados Unidos

Pacto de Varsóvia

Guerrilhas anticomunistas Países socialistas alinhados com a URSS

Guerrilhas comunistas

Outros países socialistas ou aliados da URSS

Países não alinhados 1991 Desmantelamento da URSS.

1947–1951 Plano Marshall. Truman lança a ajuda económica dos Estados Unidos à reconstrução europeia.

1986 Cimeira entre Reagan e Gorbachev na Islândia.

1950–1953 Guerra da Coreia (Coreia do Sul e Estados Unidos contra Coreia do Norte, URSS e China).

1979 A URSS invade o Afeganistão.

1981–1983 Lei marcial na Polónia.

1977–78 Guerra de Ogaden (Somália e Etiópia).

1950–1991 Corrida armamentista.

1973 Golpe de estado no Chile. A CIA intervém para derrubar Allende e dar o poder a Pinochet.

1957–1975 Corrida espacial. Sputnik contra o projeto Apollo.

1959–1975 Guerra do Vietname.

1962 1961 Construção Crise dos mísseis do Muro de Berlim. em Cuba

1967 Guerra dos Seis Dias (Egito e Israel).

1968 Primavera de Praga.

1972 Nixon visita a China.

1972 Campeonato Mundial de xadrez: Fischer contra Spassky, na Islândia.

AGE

1956 Invasão da Hungria pela URSS.

seu envolvimento, nomeadamente no caso de Ethel. Na opinião pública mundial, o casal converteu-se num símbolo: representou um exemplo da injustiça e da perseguição capitalista, para a esquerda, e da ameaça comunista, para a direita. Por sua vez, na URSS, o piloto norte-americano Francis Gary Powers, cujo avião foi abatido quando sobrevoava território soviético, seria condenado, em 1960, a dez anos de trabalhos forçados. Prisão perpétua foi a sentença dada ao “maior traidor dos Estados Unidos”, Aldrich Ames, que declarou ter agido apenas por dinheiro após décadas a passar informações a Moscovo.

O IMPÉRIO DAS ARMAS

O trabalho destes estranhos heróis abrangia qualquer assunto, mas predominavam as questões militares. Era o império das armas, que proporcionavam domínio e lucros chorudos quando eram vendidas a países arrastados para a trama do confronto. Sabe-se, agora, que a corrida aos armamentos ressoava apenas na esfera ocidental, como bravata ou como pretexto, e que os russos, limitados pelo descalabro económico da guerra, seguiam na peugada consoante as possibilidades. O que não impediu que o investimento soviético na indústria bélica fosse excessivo e, a posteriori, viesse

Tensão. Avião norte-americano lança alimentos sobre Berlim, durante o bloqueio de 1948.

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AGE

Explosão nuclear no atol de Bikini, nas ilhas Marshall. Entre 1946 e 1958, os norte-americanos testaram ali mais de 20 bombas atómicas e de hidrogénio.

As missões mais sujas

A

nos depois do conflito que manteve o mundo em constante tensão, os governos envolvidos revelaram finalmente alguns dos documentos classificados relativos a operações secretas. Os pormenores são arrepiantes. Projeto Manhattan. Este plano secreto juntou os Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá, durante a Segunda Guerra Mundial, para criar a bomba atómica. Dirigido por Robert Oppenheimer, desenvolveu-se sobretudo no Distrito de Engenharia de Manhattan, um centro de investigação no Novo México. Projeto Venona. Os serviços secretos dos Estados Unidos intercetaram e decifraram pelo menos 3000 mensagens secretas soviéticas entre 1943 e 1980. Algumas descreviam armas sofisticadas que, reproduzidas pelos ilustradores da CIA, pregaram valentes sustos. Claro que nenhuma das mais de mil armas desenhadas chegou a ser criada, e é muito possível que se tratasse, em muitos casos, de um logro deliberado dos soviéticos. Operação Paperclip. Era preciso aproveitar os cientistas da Alemanha nazi que tinham participado no projeto Armas Maravilhosas do Terceiro Reich, que abrangia armas, foguetões e experiências médicas. A fim de os levar para os Estados Unidos, inocentados de qualquer responsabilidade no horror nazi, foi montada a operação Paperclip, a partir de 1945. CIA contra PCI. A agência norte-americana fez tudo para impedir o triunfo quase certo do Partido Comunista Italiano nas eleições de 1948. O agente James encarre-

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gou-se do caso à custa de injetar dinheiro nos partidos anticomunistas, no Vaticano e mesmo na Máfia. A inflamada campanha da direita conseguiu a vitória do Partido Democrata-Cristão. Pescadores ou espiões? A paranoia nacional sobre uma possível invasão soviética do Alasca levou John Edgar Hoover, fundador da CIA, a estabelecer uma rede de espiões entre os pescadores do território. Um total de 89 pessoas foram treinadas para essa missão entre 1951 e 1959. Operação MK-Ultra. Tornou-se conhecida por acaso em todo o seu horror, pois consistia em experiências desenvolvidas pela CIA em seres humanos, incluindo cidadãos norte-americanos, para testar drogas e métodos de tortura e interrogatório. Decorreu entre 1953 e 1974, frequentemente na Área 51, no deserto do Nevada, zona mantida em grande segredo pela CIA para promover ainda não se sabe que projetos. KGB contra os rebeldes. O serviço secreto soviético interveio no esmagamento da rebelião húngara de 1956 e na primavera de Praga de 1968. Era o verdadeiro poder por detrás de outros partidos comunistas, e fez o que pôde para deter o movimento polaco Solidariedade, nos anos 80. Projeto Iceworm. Em 1959, os Estados Unidos construíram uma base subterrânea na Gronelândia, destinada ao armazenamento de mísseis nucleares. Só foi dada a conhecer em 2012. Caso da Indonésia. Mais de um milhão de militantes comunistas e outros civis foram assassinados por ordem do general Suharto entre 1965 e 1967, sob a égide da CIA.

a agravar uma situação económica que acabaria por favorecer a derrocada da URSS. Assim, uns e outros dedicaram-se a melhorar tanques, aviões, submarinos, mísseis... Um segredo aberto da guerra fria foi a bomba de hidrogénio, desenvolvida pelos Estados Unidos e testada nas ilhas Marshall em 1952. A tecnologia seria aperfeiçoada durante a escalada armamentista promovida por Reagan e That­ cher nos anos 80, período em que foram desenvolvidos o bombardeiro Rockwell B-1 Lancer, o míssil ironicamente denominado Peacemaker (“fazedor de paz”) e a Iniciativa de Defesa Estratégica (alcunhada de “Guerra das Estrelas”). Este projeto norte-americano pretendia estabelecer uma série de satélites em órbita para intercetar, com as armas que incorporavam, qualquer míssil inimigo. Conhecemos agora esse plano, assim como os que a URSS engendrou em resposta: o foguete Energiya, o vaivém Buran e a própria estação espacial Mir, que nasceu como projeto científico-militar. Agora, conhecemos também melhor o A-12, avião de espionagem encomendado pela CIA, utilizado na Coreia e no Vietname e, ao que


Afirmação nacional. Uma das tarefas dos astronautas que visitaram a Lua foi deixar no local uma bandeira dos Estados Unidos.

A corrida espacial foi consequência da guerra fria parece, recentemente ressuscitado na Síria. Foram também revelados pormenores sobre as armas biológicas e o seu incessante desenvolvimento, apesar das aparentes boas intenções manifestadas nos acordos entre ambos os blocos.

CHEGA O APAZIGUAMENTO

Em contrapartida, no âmbito do espaço sideral, ainda há muitas pessoas convencidas de que o passeio lunar de Armstrong e Aldrin constituiu uma farsa, uma montagem. Os soviéticos tinham-se adiantado com o Sputnik, Laika e Gagarin, e a NASA e os seus Apolos tinham de recuperar o atraso. A corrida espacial e os seus excessos terminariam por falta de fundos e de resultados meritórios (e passíveis de exploração). Ficaram os bem-sucedidos aparelhos que foram surgindo pelo meio de todos esses projetos de investigação: micro-ondas e cadeia de montagem, em 1946; computador

e transístor, em 1947; velcro, holografia e Polaroid, em 1948; cartão de crédito e fotocopiadora, em 1950; submarinos nucleares, em 1953; fibra ótica, em 1955; laser, em 1960... Chegados aos anos 60, Nixon e Brejnev já falavam em apaziguamento e iniciaram a chamada Détente (“desanuviamento”); pelo menos, era o que diziam, mas não foi isso que se viu, a partir de 1968, em Praga, em Paris, nas universidades norte-americanas, na América Latina e em tantas ex-colónias de todo o planeta: nada de paz. Também não viria nos anos 70, quando foram assinados os acordos de Salt, pois teria início, em 1978, a chamada “segunda guerra fria”, quando os soviéticos invadiram o Afeganistão. Perante isso, Reagan e Thatcher invocaram a necessidade do rearmamento “contra o império do mal”. O bloco capitalista, embebido de autoestima, parecia estar pronto para tudo, quando, subitamente,

o mundo soviético se desmorona como um castelo de cartas, por obra de Gorbachov. Terminou tudo após a assinatura do acordo de Malta, em 1989? Só aparentemente. A geografia deslocou-se muito com a confusão que foi a dissolução da URSS,. Porém, desaparecido o inimigo comunista, o sistema triunfante precisava de outro adversário que mantivesse a proveitosa dinâmica de conflito. Reviravolta na história, e eis que surge o terrorismo islâmico, já anteriormente despertado pelos alemães para obter trunfos no colonialismo oitocentista e encorajado por Reagan, na década de 80, como antídoto, dizem alguns, contra qualquer surto esquerdista. Contudo, esse inimigo comum não parece ter aproximado os antigos blocos, como demonstram os acontecimentos na Ucrânia, onde Putin já deixou claro que a Rússia capitalista, mais do que um amigo, é um rival. A verdade é que aguerra fria há muito deixara de ser ideológica e não passava, como todos os conflitos bélicos da história, de uma mera roda-viva de interesses económicos. M.M.

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Flash Esta imagem aérea lembra-nos que uma parte substancial do litoral português, sobretudo nas zonas mais humanizadas, se encontra artificializada por esporões, obras aderentes, paredões e infraestruturas portuárias. Serão estas fortificações suficientes para deter o avanço do gigantesco Golias que invade as casas das pessoas sem ser convidado? Há quem pense que sim, mas o adágio popular “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” alerta-nos para uma catástrofe iminente. Essa é também a opinião dos especialistas que anteveem o

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agravamento da erosão costeira em Portugal. Uma das principais causas para o avanço do mar parece ser o défice de sedimentos trazidos pelos rios. Por isso, a primeira coisa a fazer é, em alguns troços, providenciar a alimentação artificial por areia da nossa costa. Todavia, a médio e longo prazo terá de se considerar também a relocalização de certas infraestruturas e habitações localizadas em zonas de grande perigo, uma vez que será impossível deter o mar devorador, que continuará a pôr em causa a segurança de pessoas e bens. Foto: Jorge Nunes.


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Desporto Estreia lusa em Estocolmo 1912

Seis heróis do OLIMPO

Património espiritual. A máscara permite esquecer os estatutos e as hierarquias sociais. O carnaval de Lazarim atrai milhares de visitantes.

A primeira saga olímpica portuguesa começou com António Stromp e terminou, em tragédia, com Francisco Lázaro. No ano em que os Jogos chegam à lusofonia, recordamos a aventura que colocou a língua de Camões na maior competição mundial.

F

oi há 104 anos. Em Estocolmo, num início de tarde abrasador, António Stromp colocava Portugal na história dos Jogos Olímpicos da era moderna, sendo o primeiro atleta português a participar na competição. Tinha 18 anos e era um dos seis heróis que o país levou às olimpíadas de 1912. Em ano de Jogos Olímpicos no Brasil, os primeiros num país de língua oficial portuguesa, vale a pena lembrar esses nossos primeiros seis heróis: de António Stromp a Francisco Lázaro, um grupo de homens que colocou Portugal entre os olímpicos. Sem medalhas, terminando em tragédia, como cúmulo de uma aventura que se tornou uma verdadeira lição, estes homens entraram, inevitavelmente, para a história do desporto português. Até 1912, a língua portuguesa ainda não se falara nos Jogos Olímpicos (o Brasil só entraria em 1920). Percebe-se porquê: em finais do século XIX, o desporto era, em Portugal, algo muito insípido, e o início das Olimpíadas da era moderna, em 1896, em Atenas, foi ignorado no nosso país. Quando, em 1899, surge a ideia da criação da Sociedade Promotora da Educação Physica Nacional (SPEPN), algo começa finalmente a brotar. A esgrima e o tiro são então desportos praticados por uma classe abastada, dir-se-ia nobre, e o rei D. Carlos afirmara-se como um atirador de prestígio internacional. No seu livro Espadas e Floretes, José Vilarinho conta que dois esgrimistas inscreveram-se, em 1900, para o Torneio Internacional de Espada de Paris: Sebastião

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Herédia e António Martins desconheciam que, de facto, estavam a inscrever-se para os Jogos Olímpicos de 1900, os segundos da era moderna. Porém, era falso alarme. “Foi pena que nem um nem outro dos portugueses tivesse comparecido”, escreveu-se nos jornais da época. Algo começou a mudar quando, em 1905, Pierre de Coubertin contactou o rei D. Carlos, pedindo-lhe que nomeasse alguém que representasse os interesses de Portugal junto do Comité Olímpico Internacional. Foi nomeado D. António Lancastre, médico da Casa Real e secretário da Assistência Nacional dos Tuberculosos. Mesmo assim, Portugal falhou os Jogos de 1908. Em fevereiro desse ano, acontecera o regicídio, sendo D. Carlos e o príncipe herdeiro assassinados no Terreiro do Paço. Só no ano seguinte foi, finalmente, fundada a referida Sociedade Promotora da Educação Física Nacional (SPEFN), assim como a Liga Sportiva para os Trabalhos Atléticos. Pouco a pouco, cresce um movimento desportivo, notado pela realização dos Primeiros Jogos Olympicos Nacionaes (1910), pela publicação do n.º 1 da revista Os Sports Illustrados (11 de junho de 1910) ou pelo convite do governo para que a SPEFN elaborasse um projeto de reforma do ensino ginástico.

VIAGEM ÉPICA

Até que, em dezembro de 1911, surge o convite da Suécia, para a participação de Portugal nos Jogos Olímpicos. Inicia-se então uma grande aventura: o país não estava preparado

e, segundo contava o jornalista Sequeira Andrade em 2004, o convite, “dirigido ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi por esta entidade endossado à Direção-Geral de Instrução Pública que, com igual atrapalhação, por sua vez o despachou para o Governo Civil de Lisboa, que por sua vez atonitamente notificou os diferentes clubes da capital por meio de estafetas policiais...”. Era necessária a constituição de um Comité Olímpico, o que viria a ser concretizado em abril de 1912. Foi longa a epopeia até os seis heróis nacionais chegarem a Estocolmo. Primeiro que tudo, faltava dinheiro: o governo não quis subsidiar a deslocação, apesar da forte pressão dos jornais; realizou-se um sarau no Coliseu dos Recreios, para angariação de verbas, mas a sala ficou praticamente deserta, porque nesse mesmo dia iniciou-se uma greve dos trabalhadores dos elétricos. Assim, devido às limitações financeiras, do lote previamente escolhido foram dispensados quatro atletas (César de Melo, Matias de Carvalho, Correia Leal e Sebastião


A caminho da morte Dos seis atletas enviados por Portugal a Estocolmo, apenas cinco regressaram vivos. Portugal estreou-se em tragédia nos Jogos Olímpicos. Nunca mais a maratona se correu ao princípio da tarde.

Herédia) e escolhidos seis (António Stromp, Fernando Correia, António Pereira, Armando Cortesão, Joaquim Vital e Francisco Lázaro). A viagem foi rocambolesca e durou uma semana: embarcados no paquete Asturias, da Mala Real Inglesa, a 26 de junho, os portugueses levaram três dias a chegar a Southampton; daí, seguiram de comboio para Londres, onde apanharam novo comboio que os levou a Harwich. Numa embarcação a vapor, atravessaram o mar do Norte, até Esbjerg, na Dinamarca. Com diversas mudanças de trans­portes pelo meio, atravessaram o país e chegaram a Cope­nhaga a 1 de julho. Depois, atravessaram o estreito de Øresund e chegaram finalmente de comboio a Estocolmo, no dia 2!

ANTÓNIO STROMP, O ECLÉTICO

Poucos dias depois, entravam em competição. A 6 de julho de 1912, na cerimónia de abertura, Francisco Lázaro foi o porta-bandeira (o vermelho e o verde já substituíam o azul da monarquia) e Joaquim Vital empunhava o

letreiro. A música de fundo ainda era o Hino da Carta, e não A Portuguesa. Após hora e meia de cerimónia, ao sol, António Stromp tornou-se o primeiro atleta português a entrar em competição numa olimpíada: às 13h30, correu a série 5 dos 100 metros. Foi terceiro, e não se qualificou para a eliminatória seguinte, mas a história estava feita: a partir de então, Portugal nunca mais falhou a participação nos Jogos, e é atualmente o 18.º país com mais presenças. Quanto a Stromp, ainda voltou a competir, nos 200 metros, a 10 de julho, voltando a ser terceiro. Não se fica por aqui a história deste primeiro herói. Stromp era um fenómeno. Nascido a 13 de junho de 1894, era um dos sete filhos de Francisco dos Reis Stromp, prestigiado médico

da altura (diretor-geral dos Hospitais Civis e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa). António era o quarto descendente, e com os seus irmãos Francisco e José foi um dos 19 fundadores do Sporting Clube de Portugal, em 1906 (tinha então 12 anos...). António foi um atleta precoce: com apenas 15 anos, jogou na primeira equipa de futebol do Sporting, como extremo-direito (fez parte da equipa leonina campeã de Lisboa em 1914/15, e ainda hoje é considerado um dos melhores extremos direitos da história do futebol português), e foi escolhido para todas as seleções de Lisboa até 1916, fazendo parte de uma célebre deslocação ao Brasil, em 1913 (brilhou de tal forma que foi convidado a ficar lá, mas recusou...). Era, sobretudo, de um ecletismo notável: campeão de Portugal nos 100 e nos 200 metros e no salto com vara, e recordista nacional em três especialidades, foi o primeiro a vencer uma corrida no Stadium de Lisboa (que antecedeu o Estádio de Alvalade), em 1914, e ainda se evidenciou no ténis e na esgrima. Interessante

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Um dos atletas confessou: “Meti-me com meninas”

Confusões revolucionárias Na cerimónia de abertura, Francisco Lázaro transportou a bandeira da República, mas ainda se ouviu o hino monárquico, em vez de A Portuguesa.

Infelizmente, a sua carreira desportiva viu-se abruptamente interrompida por uma doença terrível na altura, a sifílis: António fez o seu último jogo de futebol a 1 de abril de 1916, a que se seguiram cinco anos de calvário, até à morte, em 6 de julho de 1921, com 27 anos. Por coincidência, no dia da sua morte assinalavam-se exatamente nove anos desde a estreia nos Jogos Olímpicos! O seu nome foi dado, em 1926, à rua que hoje, no Lumiar, conduz ao estádio do Sporting.

CORTESÃO, O CARTÓGRAFO

Pouco mais de uma hora depois de António Stromp, entrou em competição, no mesmo dia 6 de julho de 1912, o segundo atleta português, Armando Cortesão. Na série 2 dos 800 metros, Cortesão foi segundo classificado e qualificou-se para as meias-finais, que correria no dia seguinte. Não conseguiu o apuramento para a final, devido a uma distensão muscular que o obrigou a desistir; a 12, ainda foi terceiro na série 1 dos 400 metros. Com estes resultados, Cortesão talvez tenha sido o português que mais chamou a atenção. Conta-se que impressionou os norte-americanos, que recearam ter ali um inesperado concorrente e estudaram a sua passada. Os seus resultados foram bons e poderiam ter sido melhores, explicou mais tarde o próprio, ao jornalista Romeu Correia: “Meti-me com meninas, deitei-me tarde. Sei lá que disparates cometi!” Natural de São João do Campo (Coimbra), onde nasceu a 31 de janeiro de 1891 (um dos seus quatro irmãos foi o historiador Jaime Cortesão), Armando Zuzarte Cortesão começou, no desporto, como praticante de remo na Associação Naval de Lisboa. Quando derrotou, numa prova de mil metros, o famoso Matias de Carvalho, percebeu-se que, afinal, a corrida talvez fosse a sua modalidade natural. Assim foi, embora tivesse ainda praticado também ténis, esgrima e boxe. Além de ter sido um dos nossos pioneiros olímpicos, notabilizou-se como grande historiador da cartografia, com vasta obra publicada, não só no plano historiográfico mas também nos

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domínios da agronomia, da ciência, da cultura, das relações internacionais e dos assuntos coloniais. Quando participou nos Jogos Olímpicos, como atleta do CIF (Clube Internacional de Futebol), formava-se em Lisboa como engenheiro agrónomo, no Instituto Superior Técnico. Após o curso, integrou missões às Américas, às Índias Ocidentais, à Guiné, ao Senegal e a São Tomé, onde integrou uma missão geodésica liderada por Gago Coutinho. Ocupou vários cargos na administração colonial portuguesa e foi comissário-geral de Portugal na Exposição Internacional de Antuérpia, em 1930. Foi diretor da Agência Geral das Colónias e agraciado com o grau de grande oficial da Ordem Militar de Cristo. Em 1932, exilou-se em Espanha, França e Inglaterra, onde trabalhou na Unesco. Regressou a Portugal em 1952, para a Universidade de Coimbra, onde foi distinguido com o título de doutor honoris causa. Em 1961, Américo Tomás atribui-lhe a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Recebeu, em 1972, o Prémio Nacional de Cultura. Da vasta obra publicada, salienta-se a organização dos

seis volumes de Portugaliae Monumenta Cartographica, em colaboração com Teixeira da Mota. Faleceu em Lisboa, em 1977.

JOAQUIM VITAL, O JORNALISTA

Só dois dias depois de Stromp e Cortesão as cores portuguesas voltaram ao palco dos Jogos de Estocolmo. O lutador Joaquim Vital entrou em prova na categoria de –75 kg, a 8 de julho, às 14 horas. Defrontou o italiano Zavirre Carcereri e perdeu; depois, venceu o embate com o francês Adrien Barrier. Voltaria a competir no dia 10, para ser eliminado pelo finlandês Alppo Asiakainen. Acabou como 20.º classificado, mas nunca serão esquecidos os protestos dos portugueses face aos critérios da arbitragem, sobretudo no embate com o finlandês. “Vital garantiu-me, e com ele alguns espetadores, que não tinha sido derrotado regularmente”, contou Fernando Correia, num texto publicado em Os Sports Illustrados, de 20 de julho de 1912. Na especialidade de meios-médios, Joaquim Vital foi um atleta de destaque na luta greco-romana em Portugal, chegando a campeão


Lusofonia em 2004

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nacional. Nos Jogos de 1912, além de atleta, foi também treinador e massagista. Nesta última função, ficou para a história um episódio quase anedótico, que revela bem o amadorismo da representação nacional, assim descrito no livro Os 6 de Estocolmo, de Francisco Pinheiro e Rita Nunes: “O massagista improvisado era Joaquim Vital, que ao ver os restantes atletas, das outras equipas, a levarem massagens, decidiu tentar comprar numa farmácia sueca as chamadas ‘emborcagens’ (mistura de vários líquidos, alguns de cariz alcoólico e anestesiante). O farmacêutico sueco, por inépcia ou falta de comunicação, já que Vital dominava mal o francês e não falava inglês, vendeu-lhe um frasco com um líquido transparente e incolor. Depois de um treino, Armando Cortesão foi o primeiro a ser massajado por Vital com esse líquido, perante o olhar estupefacto de um grupo de suecos, que ao ver o frasco avisou os atletas portugueses que se tratava de um remédio para os dentes.” Profissionalmente, Vital era empregado comercial, e simultaneamente preenchia a sua vocação de jornalista com colaborações na

secção desportiva d’O Século e em Os Sports Illustrados, a mais destacada publicação da área, na altura. Aliás, Os Sports Illustrados beneficiaram da presença em Estocolmo de Vital, que fez uma excelente cobertura da presença nacional e foi o último dos portugueses a falar com Francisco Lázaro, à passagem do 25.º quilómetro da maratona.

PEREIRA, O HOMEM FORTE

O quarto atleta português a entrar em competição foi António Pereira, em luta greco-romana (–60 kg). A 9 de julho de 1912, às 9h30, defrontou o finlandês Lauri Haapanen e perdeu, algo pouco habitual para este “super-homem” português, cuja especialidade, porém, não era a luta, mas o halterofilismo.

m competição olímpica, o português só começou a ouvir-se, efetivamente, em 1912, com a participação dos seis heróis referidos neste trabalho. Embora a comunidade dos países de língua oficial portuguesa seja vasta, e populosa, por diversas razões só muito tarde esses países chegaram às olimpíadas, até porque a maior parte deles apenas se tornou independente em 1975. O Brasil, o maior país lusófono, participou pela primeira vez oito anos depois de Portugal, nos Jogos de Antuérpia, em 1920. A partir daí, tornou-se uma das potências da competição: participou sempre, à exceção de 1928, quando uma crise das bolsas impediu o envio de atletas. Logo em 1920, conquistou uma medalha (Guilherme Paraense, ouro no tiro), totalizando atualmente 108 medalhas (23 de ouro, 30 de prata e 55 de bronze), de um total de 2683 atletas enviados aos Jogos! O Brasil será também o primeiro país de língua portuguesa a receber a competição de verão (refira-se que o Brasil regista também sete participações nos Jogos de inverno...). Portugal e Brasil estiveram, pois, juntos na competição a partir de 1920, mas só receberiam a companhia de outros países de língua oficial portuguesa... 60 anos depois! Uma situação que tem, claro, a ver com a tardia independência das colónias de África, só consumada após o 25 de Abril de 1974. Assim, os Jogos de 1980, em Moscovo, já registaram as participações de Angola e Moçambique. Em 1996, em Atlanta, juntaram-se ao grupo a Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Finalmente, Timor-Leste entrou em 2004, em Atenas, Jogos que juntaram, pela primeira vez, todos os países de língua oficial portuguesa. É uma forte comunidade, já com muitas participações e um bom lote de medalhas: 108 do Brasil, 23 de Portugal (quatro de ouro, oito de prata, onze de bronze) e duas de Moçambique (uma de ouro e uma de bronze, ambas pela atleta Maria Mutola, na prova de 800 metros).

Pereira chegou a Estocolmo com um curioso percurso: nascido em Pragança, no concelho do Cadaval, a 4 de abril de 1888, cresceu numa quinta em Lisboa. Uma vida, a do campo, que ele sempre relacionou com a sua força física. “Fui um pequeno Tarzan, de manhã à noite: corria, trepava às árvores, comia fruta, matava a sede e banhava-me nas águas do tanque. Creio que este viver selvagem e livre foi benéfico para o futuro de atleta que eu viria a ser”, contou numa entrevista, em 1972, ao jornalista e escritor Romeu Correia, transcrita no livro Portugueses na V Olimpíada (Editorial Notícias, 1988). Interessante

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O primeiro esgrimista nacional foi afastado de forma pouco clara Médico no COI

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em só de atletas se faz a história dos Jogos Olímpicos. Alguns anos antes de 1912, um outro português levava, pela primeira vez, a presença nacional ao movimento liderado pelo barão de Coubertin. Falamos de D. António de Lancastre, médico da Casa Real e, à altura (junho de 1906), secretário da Assistência Nacional dos Tuberculosos. Descendente dos condes de Lancastre e dos condes de Caria, D. António (1857– –1941) é muitas vezes apontado como último médico da Casa Real. Clínico assistente do rei D. Carlos, foi por este nomeado para representante de Portugal no Comité Olímpico Internacional, em 1906. O barão de Coubertin queria desenvolver o movimento, para o qual arrastava dezenas de personalidades: príncipes, cientistas, generais, professores, autoridades políticas e sociais... Assim, convidou o monarca português a fazer a nomeação, diz-se que numa das frequentes presenças de D. Carlos em Paris. A presença de D. António Lancastre no COI durou até 1911: em fevereiro deste ano, exilado em Paris, pediu a demissão, alegando a mudança política em Portugal, que entretanto, após o regicídio, declarara a República. Seria substituído, em 1912, por outro exilado na capital francesa, também monárquico, o conde de Penha Garcia. Este último, mais ligado às coisas do desporto, seria ainda nomeado presidente de honra da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional, e distinguido, em abril de 1912, como presidente de honra do primeiro Comité Olímpico Nacional. Como João Sequeira Andrade escreveu em 2010, num texto para o Fórum Olímpico de Portugal, “não houve nem há qualquer notícia da interferência direta ou indireta das citadas personalidades na atividade olímpica de Portugal”. Nem, adianta, quando se tornaram necessárias múltiplas diligências na sequência da morte trágica de Francisco Lázaro.

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A verdade é que desde cedo mostrou capacidades físicas para ser um atleta notável. Começou por destacar-se no halterofilismo, no Ateneu Comercial de Lisboa, e bateu vários records nacionais, vencendo diversos campeonatos. Em 1910, apurou-se para o Europeu, em Budapeste, onde só não disputou a final por alegados erros dos juízes. Certo é que entre 1911 e 1914 ganhou todas as provas em que participou. A ida a Estocolmo constituiu uma espécie de intervalo neste percurso pelo levantamento de pesos: em 1912, especializou-se na luta greco-romana, cuja prática iniciara há quatro anos. Campeão nacional de levíssimos, ganhou o passaporte para os Jogos, onde porém não foi feliz. Ainda conseguiu uma vitória sobre o britânico McEnzie, mas na terceira ronda voltou a perder, face ao sueco Andersson. Terminou no 19.º lugar. Em 1914, interrompeu a atividade desportiva, por motivos profissionais, mas retomou-a em 1924, apenas como halterofilista: apurou-se para as Olimpíadas de 1924, mas uma distensão muscular impediu-o de se classificar. Voltou aos Jogos em 1928, em Amesterdão, para ser 11.º entre 21 concorrentes. Abandonou após estes Jogos, com 40 anos, após muitos triunfos e sucessos, o maior dos quais terá sido o record do mundo de levíssimos, em 1925. Também praticou futebol, remo e ciclismo. Foi ainda treinador no Lisboa Ginásio, na Guilherme Cossoul e na Sport Conimbricense. Foi condecorado com a medalha de Mérito Desportivo. Profissionalmente, foi topógrafo-desenhador (trabalhou na elaboração das plantas de Lisboa e do concelho de Cascais), diretor da Empresa Mineira de Porto de Mós e da Fábrica de Cimentos da Maceira, chefe na Empresa Nacional de Máquinas e diretor de empreitadas de equipamentos eletromecânicos. Faleceu em 1978, com quase 90 anos.

CORREIA, O DIPLOMATA

Fernando Correia, esgrimista, chefe da comitiva, cofundador do COP, foi o quinto atleta português a competir nuns Jogos Olímpicos. Às nove da manhã de 11 de julho de 1912, defrontou, na categoria de espada, um representante finlandês, mas acabou por ser desqualificado. Uma situação polémica, que ele descreveu depois, em 27 de julho desse ano, em Os Sports Illustrados: “Sobre o torneio individual em que entrei, à nota oficial do Comité devo acrescentar que fui forçado a desfazer a barrage, como conse-

quência não só de me terem anulado uma vitória que tinha sobre um atirador que o júri desclassificara, como por outros atiradores terem melhorado na sua posição de inferioridade em que estavam para comigo porque lhes anularam a derrota, que tinham sofrido do atirador desclassificado. Fui apurado para as meias-finais, eram 11 horas da manhã. Às duas horas da tarde, o júri da minha série, que já me tinha prejudicado colocando-me em barrage, tendo sido ouvido pelo júri internacional, a propósito do protesto que o atirador desclassificado lhe apresentara, propôs a minha exclusão. O júri internacional aceitou-a! Que fazer perante isto? Só tenho pena de nesse júri internacional o nosso país não ter voz.” O incidente é também relatado, com outros pormenores, no livro Espadas e Floretes, de José Vilarinho: “Quando lhe faltava assaltar apenas com Tvorsky, este abordou o português perguntando-lhe a sua classificação. Correia respondeu que dependia do resultado do assalto entre ambos. Durante o assalto, Tvorsky descobriu-se de tal maneira que o português ficou indeciso em tocá-lo, só o fazendo por imposição do tempo e do júri. Este, no final, chamou os dois atiradores perguntando-lhes se tinha havido alguma combinação.” O resto, sabe-se pelas explicações de Correia: Tvorsky desqualificado, assaltos anulados, uma vitória a menos para o português, que teve de ir a uma barrage; venceu dois assaltos, apurou-se, mas um novo protesto de Tvorsky levou o caso para o júri internacional de apelo, que decidiu excluir também o representante português. Nascido em 1880, Correia era um dos desportistas de referência da sua geração (campeão nacional de espada), mas nesta primeira participação olímpica ficou, assim, pela primeira eliminatória; voltou a participar nos Jogos de 1920, em Antuérpia, onde foi semifinalista. Conta-se, sobre ele, que era um homem capaz de conciliar vontades e postura política, e por essa razão este empregado superior do Montepio Geral foi diretor em vários clubes lisboetas, membro do Comité Olímpico Português e nomeado chefe da comitiva que viajou para


Erro trágico. Francisco Lázaro terá sido vítima dos cuidados que tomara para se proteger do calor intenso daquela tarde.

Estocolmo. No desempenho deste papel, mereceu diversos elogios, nomeadamente do embaixador português na Suécia, António Feijó. Na capital sueca, Correia fez vários contactos importantes, como por exemplo com o barão Pierre de Coubertin, e foi ele quem tratou do funeral de Francisco Lázaro e da viagem de regresso a Portugal.

FRANCISCO LÁZARO, O CARPINTEIRO

Estava-se mais ou menos a meio do programa dos Jogos de 1912 quando se disputou a maratona. Até então, a participação portuguesa era relativamente dececionante, mas faltava entrar o atleta no qual mais esperanças se depositavam: Francisco Lázaro. Em Portugal, acreditava-se convictamente na capacidade do seu melhor atleta. Nesse mesmo ano, Lázaro vencera a maratona de Lisboa com um tempo muito promissor, que o colocava como favorito à conquista olímpica. A sua história justifica a lenda: nascido num bairro pobre de Benfica, a 22 de setembro de 1889, começou por se sentir atraído pelo futebol, no Grupo Sport de Benfica. Deu nas vistas nas corridas a pé em 1908, e em 1911 passou a representar o Sport Lisboa e Benfica; no ano seguinte, transitou para o Lisboa Sporting Clube. Lázaro aprendera o ofício de carpinteiro, especializando-se em carroçarias de automóveis. O seu treino habitual era muito simples: ao sair do Bairro Alto (onde trabalhava), corria até São Sebastião da Pedreira e depois até Benfica, perseguindo os elétricos. Casou pouco antes de embarcar para Estocolmo, deixando a mulher grávida de uma menina. Como já se percebeu, era o mais humilde dos seis. Muitas vezes, teve de ser ajudado em questões de etiqueta ou de trajes a envergar. No dia da corrida, 14 de julho, estava bem disposto e até surpreendeu os colegas, atrasando-se na apresentação na pista: foram dar com ele a ensebar o corpo. Pretendia, dessa forma, evitar o forte calor que se fazia sentir (a prova iniciou-se às 13h48, com 32 graus à sombra!). A utilização de substâncias como o sebo era, então, habitual em provas longas de

natação em alto mar, mas não viria a ter o mesmo efeito na maratona. Aos 30 quilómetros, o atleta português sucumbiu e teve de ser levado para o hospital, inconsciente, com convulsões em todo o corpo, estado de delírio e febre superior a 41 ºC. Apesar de todos os esforços dos médicos suecos, acabaria por falecer às 6h20 do dia 15 de julho. O campeão português entrou, assim, para a lenda. Foi o primeiro atleta a morrer nuns Jogos Olímpicos da era mosderna, e logo na primeira participação nacional. Devido a este caso, os médicos recomendaram que a maratona passasse a ser disputada nas horas mais frescas do dia e não no pico do calor. A sua morte foi alvo de grandes discussões: houve quem referisse o facto de não ter protegido a cabeça, mas sabe-se que a meio da prova já levava um lenço branco na cabeça. Ataque cardíaco, má preparação e abuso de estricnina foram outras causas equacionadas, mas a razão mais forte para o sucedido parece mesmo ter sido, segundo a maior parte dos estudos, a utilização do sebo no corpo, que causou um aquecimento exagerado e impediu a normal transpiração do atleta. A odisseia de Lázaro não terminou naquela manhã de 15 de julho. No dia 16, realizou-se um funeral provisório, após o que o corpo ficou depositado numa igreja católica sueca, até o dia da trasladação para Portugal, dois meses depois! Na Suécia, ao saber-se que o atleta deixara mulher e uma filha pequena, surgiu a ideia de uma subscrição para ajudar a família, ideia que o príncipe Gustavo Adolfo transformou num festival desportivo no Estádio Olímpico, que na altura gerou uma receita de cerca de 40 mil coroas (aproximadamente 70 mil euros). O dinheiro foi aplicado num fundo, recebendo a família os dividendos anualmente; o a verba foi entregue, na totalidade, em 1930, quando a filha de Lázaro atingiu a maioridade. Sabe-se que na década de 70 esta vivia em Moçambique e ainda trocava correspondência com a família real sueca. Dois meses após o fatídico dia, o navio de

Índio injustiçado

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m que cenário desportivo participou Portugal pela primeira vez? Os Jogos Olímpicos eram então uma prova da afirmação internacional de um país, e a Suécia fez questão de organizar a melhor competição até então disputada. Estiveram presentes 28 países, dos quais cinco estreantes: Portugal, Egito, Islândia, Japão e Sérvia. Participaram 2407 atletas (2359 homens e 48 mulheres), em 14 modalidades e 102 eventos diferentes. A Suécia foi o país com mais medalhas (65), mas foi um norte-americano a grande figura da competição: Jim Thorpe, atleta de origem indígena, ganhou as provas do pentatlo e do decatlo, de tal forma que o rei Gustavo V o considerou “o melhor atleta do mundo”. Porém, posteriormente detetou-se que Thorpe tinha jogado basebol profissional em 1910, pelo que as medalhas lhe foram retiradas: não era um atleta amador. A injustiça seria emendada demasiado tarde, em 1983, já depois da morte de Thorpe (1953), quando o COI decidiu devolver-lhe as medalhas. Na verdade, o profissionalismo não se confirmara: Thorpe apenas recebera 15 euros por mês, aos 20 anos, durante umas férias em que jogara basebol, e apenas a título de subsídio de alimentação...

guerra sueco Vendysset transportou o corpo de Lázaro para Lisboa. A 23 de setembro, fez-se o desembarque da urna, e a viúva recebeu do comandante do navio uma lata de terra, apanhada no local onde o atleta desfalecera, e uma fotografia da igreja onde o corpo estivera depositado. No dia 24, realizou-se finalmente o funeral, para o cemitério de Benfica, perante centenas de pessoas e vários discursos comoventes. Terminara, enfim, a primeira odisseia olímpica do desporto português. Com tristeza, porém com muito heroísmo. Nada, jamais, seria igual. J.S.

Interessante

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Antropologia Rituais ancestrais dos solstícios

Por detrás da MÁSCARA Quando se fala em máscaras, pensa-se de imediato no Carnaval. Porém, estas usam-se desde tempos imemoriais com outros propósitos que não apenas a folia carnavalesca. São ritos milenares, em que as máscaras e os mascarados carregam valores simbólicos e asseguram a identidade coletiva.

FOTOS: JORGE NUNES

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o Nordeste Transmontano, por alturas do Natal, do Ano Novo e dos Reis, acontecem curiosos festejos, protagonizados por mascarados (conhecidos na região por “caretos”), com chocalhos presos nos trajes tradicionais feitos de mantas. Mesmo com frio e chuva, são, geralmente, festas com muita cor, barulho e euforia, fazendo lembrar um Entrudo antecipado. Em Salsas, por exemplo, uma pequena aldeia localizada 27 quilómetros a sul de Bragança, a ação dos mascarados é protagonizada por rapazes. Todas as noites, entre o Ano Novo e os Reis, saem à rua e invadem as casas à procura de fumeiro e das raparigas, que pretendem “castigar”. Gozando de uma liberdade quase sem limites, dão largas à sua imaginação e executam o rito das chocalhadas: agitam as ancas, batendo violentamente com o molho de chocalhos contra o corpo das suas vítimas. Na noite de Reis, os caretos vão de porta em porta, acompanhados pelas crianças e pelos jovens da povoação, recolhendo esmolas: dinheiro, chouriços, carne fumada e produtos da terra. Terminado o peditório, o povo reúne-se para o grande momento de convívio: come-se, bebe-se e dança-se animadamente. Afinal, é tempo de frio e é preciso aquecer os corpos e alegrar os espíritos. A festa termina com o ritual do fogo, em que se queima um careto gigante, simbolizando o ano velho.

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Estas confraternizações comunitárias, com tropelias, gritarias e chocalhadas, não se passam apenas em Salsas, mas acontecem em muitas outras aldeias brigantinas, como Aveleda, Baçal, Bemposta, Bruçó, Constantim, Grijó de Parada, Ousilhão, Parada de Infanções, Rebordainhos, Rebordãos, Rio de Onor, Tó, Torre de D. Chama, Vale do Porco, Varge e Vila Chã da Braciosa. Segundo um estudo levado a cabo por António Pinelo Tiza, em 2013, há 26 festas tradicionais com mascarados só no distrito de Bragança, das quais vinte decorrem entre o Natal e os Reis, quatro no Carnaval e duas no dia seguinte (quarta-feira de Cinzas). Há quem pense que estes festejos são apenas folclore, modas recentes que servem para atrair turistas e para dar algum ânimo à depauperada economia de lugarejos recônditos e quase esquecidos do “Portugal profundo”. Será mesmo assim?

ORIGENS MILENARES

As máscaras e os mascarados percebem-se no Entrudo, mas qual o seu significado numa altura em que se comemora o nascimento de Jesus ou a visita dos Reis Magos? Por estranho que pareça, não são esses eventos cristãos que justificam a sua existência, mas os rituais pagãos do solstício de inverno, muito anteriores ao cristianismo. Estamos perante manifestações culturais antiquíssimas, cuja origem será, com cer-

Património espiritual. A máscara permite esquecer e subverter os estatutos e as hierarquias sociais. O carnaval de Lazarim atrai milhares de visitantes.


Interessante

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Ritual original

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Expressão identitária. Mascarados típicos da festa de Vila Boa de Ousilhão (à esquerda), que passou de Santo Estêvão para o carnaval, e da Festa dos Rapazes de Varge (à direita).

Muitas destas tradições têm raízes na herança celta teza, pré-romana: “Alguns destes elementos rituais poderão ter a sua génese na tradição celta e zoela”, defende António Tiza. Os celtas povoaram o seu mundo de magia e de deuses: viviam num universo mágico em que toda a natureza era habitada por divindades, desde as árvores (como os carvalhos) aos animais e aos cursos de água. Também atribuíam grande simbolismo aos solstícios, tanto de verão (este ano, acontecerá a 20 de junho, às 22h34, sendo o dia mais longo do ano), como de inverno (ocorrerá a 21 de dezembro, às 10h44, sendo o dia mais curto do ano), pois consideravam o Sol como sinal de vida e de fecundidade. “Eram panteístas e adoravam o Sol, que sempre foi considerado o símbolo mais perfeito do espírito para a generalidade dos povos antigos”, explica o historiador e filósofo Paulo Alexandre Loução. Assim, não é de estranhar que lhe prestassem culto e celebrassem as colheitas, fazendo festas em honra do deus Lug (o Deus do Sol celta, cujo atributo é uma lança mágica, representada pelo fogo, também conhecido como “Lugh”, que significa “cintilante”). Sendo rituais solsticiais tão antigos, é incrível que tenham perdurado até aos nossos dias, sobretudo, por causa da cristianização, que não os via com bons olhos. A sua longevidade poderá

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explicar-se com o facto de os romanos também festejarem estes momentos críticos do ciclo agrário com ritos em honra do Sol. “Anteriormente ao cristianismo, celebrava-se exatamente no dia 25 de dezembro o nascimento do Sol Invencível: o deus-Sol que revigora e se levanta no solstício de Inverno”, recorda Moisés Espírito Santo, sociólogo das religiões. As festas romanas das Calendas de Janeiro eram celebrações agrárias, as Bacanais, em honra de Baco, deus do vinho que também presidia à plantação e frutificação. Além disso, nas últimas semanas de dezembro, os romanos festejavam ainda as Saturnais e a Juvenália. As Saturnais decorriam entre os dias 17 e 23 e eram dedicadas a Saturno, o divino agricultor e deus da abundância. Durante esses dias, era comum a inversão dos papéis sociais, como, por exemplo, entre ricos e pobres: era habitual que os senhores da casa servissem à mesa os seus servos, que tinham licença para se embebedar e injuriar os amos. Além disso, realizava-se um banquete público, que dava azo à mais absoluta permissividade e libertinagem. Ninguém estava a salvo das brincadeiras: caricaturavam-se as leis e os cargos públicos e ofereciam-se presentes mordazes. As Juvenálias tinham lugar a 24 de dezembro e eram festas licenciosas e transgressoras pro-

á um festejo com máscaras e mascarados que quebra a tradição e acontece no início do estio, sinalizando o solstício de verão: quando o calendário marca o dia 24 de junho, as gentes de Sobrado (Valongo) saem à rua para comemorar o S. João através de um ritual único em Portugal, designado pelos autóctones por “Bugiada” (a literatura, em geral, também lhe chama “Mouriscada”). Trata-se de uma representação cuja origem permanece desconhecida, mas que nos remete para a época da reconquista cristã e para os confrontos entre “mouros”, denominados localmente por “mourisqueiros”, e cristãos, a que o povo chama “bugios”. Na Bugiada, participam, todos os anos, centenas de figurantes, nascidos e criados na terra (é uma festa profundamente enraizada na consciência popular), que revivem uma disputa antiga entre cristãos e mouros pela posse de uma imagem de S. João. Segundo reza a lenda, num determinado dia, a filha do rei árabe caiu enferma, e o pai, conhecendo os milagres de S. João, pediu ao rei dos cristãos a imagem do santo milagreiro. Este acedeu ao pedido e fez o empréstimo. Porém, como a imagem não foi restituída, originou-se uma violenta batalha entre os dois exércitos, acabando com a vitória dos cristãos. Embora seja uma lenda, é verdade que houve árabes na região. Segundo A Villa de Vallongo, de Joaquim Reis (1903), por volta do ano 716, “o emir Abd-el-Azim, com um grande exército de mouros, tinha tomado e saqueado a cidade [Porto], matando todos os seus habitantes e ficando senhor dela durante 104 anos, até 820, quando D. Afonso I de Leão, o Católico, a resgatou, expulsando os terríveis e ferozes infiéis”. Em 824, Abd-el-Raman, califa de Córdova, tentou reconquistá-la, mas o conde Hermenegildo, governador do Porto, saiu-lhe ao encontro e infligiu-lhe uma severa derrota. No ano seguinte, Almansor, que se intitulava o “terror dos cristãos”, desforrou-se: reuniu um grande exército, tomou a cidade e destruiu-a, tendo ficado totalmente desabitada durante 157 anos. Finalmente, em 982, D. Raimundo III, com o auxílio de cruzados normandos e franceses, reconquistou a cidade, empurrando os infiéis para as serras de Valongo e para os montes de Sobrado. “Retemperadas as forças, os árabes fizeram frente aos cristãos, que se gladiaram ferozmente. Este combate foi um dos mais terríveis que por estes lugares tiveram os mouros com os cristãos”, escreveu Joaquim Reis. Portanto, houve batalhas entre cristãos e mouros na região de Sobrado. Porque terão permanecido, durante mais de mil anos,


A Bugiada envolve dezenas de bugios (à esquerda) e centenas de mourisqueiros.

no imaginário popular? Estamos, sem dúvida, perante uma contenda que opõe dois grupos portadores de valores culturais antagónicos. Segundo Maria Cristina Araújo, antropóloga e autora da dissertação Bugios e Mourisqueiros – O Outro Lado do Espelho, existe claramente uma leitura simbólica que tanto é espacial (Norte/Sul), como teológica (Deus/Alá), religiosa (cristianismo/islamismo), moral (bem/ mal), histórica (vencedores/vencidos), cultural (ocidental/berbere) e identitária (eu/outro). Todavia, a lenda e o confronto histórico-cultural parecem ser apenas o mote para a festa, que inclui também um inusitado desfile carnavalesco (recorde-se que o carnaval, em todos os outros lugares do país, decorreu uns três ou quatro meses antes), no qual não faltam as representações satíricas e burlescas e as máscaras e os mascarados. Logo bem cedo, assiste-se aos preparativos para ataviar e caracterizar os participantes (crianças, jovens, adultos e idosos) na trupe dos bugios (outrora, mandava a tradição que fossem apenas homens casados) e cerca de 30 a 40 rapazes solteiros na trupe dos mourisqueiros. Todos os bugios se apresentam mascarados (antigamente, usavam máscaras de cortiça) e vestidos a rigor, com trajes ricamente confecionados em veludos e sedas em que abundam cores garridas, como o vermelho, o verde e o amarelo. O chapéu é de aba larga, forrado a vermelho, decorado com espelhos redondos e encimado por uma explosão de plumas e serpentinas coloridas. Os calções de gibão de veludo possuem dois grandes guizos (a que se juntam mais quatro, na capa colorida de veludo) e são rematados por um folho de renda

branca, recordando a vestimenta da nobreza do século XVII. Amiúde, transportam castanholas e objetos como cornos, cobras de pano ou borracha, ramos de flores e de trigo, bonecas ou peluches. Como se imagina pela indumentária e pela máscara (recorde-se que esta dilui os estatutos e hierarquias sociais, permitindo, momentaneamente, uma espécie de liberdade silenciosa, sendo um adereço indispensável ao exercício de tropelias e de atos socialmente inaceitáveis), os bugios são muito desordeiros, barulhentos e, muitas vezes, de comportamento e linguagem “lasciva”, desatando numa correria louca, saltando e serpenteando pela multidão, que se afasta rapidamente. Esta conduta contrasta com a dos mourisqueiros, que não usam máscara e se regem pela distinção, pela elegância das suas danças e pelo silêncio austero. Os mourisqueiros usam uma farda muito sóbria. Ostentam uma barretina cilíndrica da cor da farda, feita de cartão, com quatro espelhos retangulares em lados opostos e encimada por duas plumas. O destaque vai para a espada de cavalaria que seguram verticalmente, na mão direita, onde está amarrado um lenço branco. Porém, os mais emblemáticos são, sem dúvida, os chefes dos respetivos grupos, como o Velho, que lidera os bugios. Este usa um longo manto de veludo vermelho, atado à cinta com um cordão dourado, fazendo lembrar vestes litúrgicas. A barretina cilíndrica é idêntica à dos mourisqueiros e apresenta “dragonas” douradas nos ombros, que lhe conferem um estatuto superior. O mais interessante é, no entanto, a máscara, que difere de todas as outras: é confecionada artesanalmente em cera e pintada à

mão, e encontra-se rematada por uma chita alva, que representa a barba branca do idoso (curiosamente, desta máscara não sobressai uma fisionomia vetusta, mas um rosto jovem, que começa por ter feições alegres, durante a manhã, e feições tristes, à medida que o dia avança). “A Bugiada é um verdadeiro fenómeno cultural sincrético, que o povo de Sobrado criou, adaptou e conservou”, afirma Maria Cristina Araújo, enquanto nos guia pelas ruas apinhadas de gente: como é natural, pela sua singularidade, esta festa não envolve apenas os autóctones, mas atrai forasteiros curiosos de todos os cantos do país, tendo-se tornado uma autêntica atração turística. Porém, onde a maioria dos participantes e visitantes vê apenas diversão, o olhar antropológico descortina uma associação de diversos rituais que interessa desvendar. Existe o rito de expulsão dos males que afligem a comunidade, exemplificado na própria lenda da Bugiada (a doença da princesa árabe e toda a situação que se gerou em torno desse acontecimento). Daí, lembra a antropóloga, “o barulho produzido pelos bugios e pelos seus objetos (castanholas e guizos), que visa afastar o mal da comunidade, repondo a marcha normal da vida”. Verifica-se também o rito da fertilidade. Este momento solsticial está imbuído de um caráter mágico, visto ser a época ideal para agradecer aos deuses e às forças da natureza a existência humana, vegetal e animal. Além disso, recorda Maria Cristina Araújo, “esta data traduz-se numa atmosfera de folia, erotismo e liberdade licenciosa, que permite a exteriorização dos desejos primários e de sensualidades”. Basta olhar para os bugios para ver que neles tudo evoca fertilidade: o seu estilo irreverente, o serpenteado da sua dança, os sons que produzem, o colorido das suas vestimentas, o assédio que fazem às raparigas, os objetos que carregam (desde cornos, passando por bonecas e raminhos de trigo). Ou para os mourisqueiros, que transportam as suas espadas em posição ereta, conotando, simbolicamente, verdadeiros falos humanos, que traduzem o vigor sexual atribuído aos jovens e marcam este grupo como potencial promotor da fertilidade. Também ocorre o ritual da iniciação e de passagem, tanto do indivíduo (do estado juvenil ao adulto), como de toda a comunidade (uma passagem física, social e cultural). Muito mais haveria para dizer sobre a Bugiada, mas o melhor é o leitor ir a Sobrado no próximo dia 24 de junho e descobrir com os seus próprios olhos os segredos de uma festa singular. Interessante

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Chocalheiros Em Podence, os caretos vestem fatos felpudos e coloridos e escondem a cara com máscaras de latão pintadas.

As atuais festas de inverno continuam a envolver inversões tagonizadas pelos jovens, que o filósofo Séneca chegou a condenar duramente pelos seus excessos. Ainda hoje há hábitos excessivos em festas similares, como a tradição de pôr a fumar crianças de tenra idade. Acontece pelos Reis, em Vale Salgueiro (Mirandela): por mais bizarro e chocante que possa parecer, os idosos da aldeia contam que sempre foi assim, e ninguém sabe dizer quando nem como começou esta estranha tradição. Os antiquíssimos mitos celtas e as tradições romanas sobreviveram porque conseguiram adotar formas mais aceitáveis pelo cristianismo: mantiveram-se as datas e os locais de culto, mas houve uma fusão das personagens mitológicas com as dos santos e dos ritos pagãos com os cristãos (muitos transformaram-se em lendas populares para escaparem à censura teológica). Segundo o historiador António Rodrigues Mourinho, diretor do Museu da Terra de Miranda, estas festas pagãs foram cristianizadas desde muito cedo, porque no seu ritual havia desbragamentos e cheiro a dionisíacas, lupercais e bacanais. O período medieval veio consagrar a convivência mais pacífica entre as festas pagãs e cris-

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tãs, com o enquadramento das primeiras em benefício das segundas. Por exemplo, as refeições comunitárias, celebradas no âmbito da festa de Santo Estêvão em várias localidades de Bragança, terão a sua origem na ação das confrarias medievais, que já então as organizavam como uma oportunidade de suprir as carências alimentares dos mais pobres. Segundo os antropólogos, as festividades romanas ainda persistem entre nós e correspondem às atuais festas dos Rapazes ou de Santo Estêvão (protomártir do cristianismo e patrono dos rapazes, por ele próprio ser um santo jovem), que decorrem, durante o ciclo de inverno, em muitas aldeias do distrito de Bragança. De certo modo, ainda constituem ritos de passagem da idade infantil à juvenil (daí participarem exclusivamente jovens), com provas de resistência física, disciplina rigorosa e pagamento de multas por quaisquer atos lesivos do bem-estar da comunidade. As festas de inverno, na atualidade, continuam a envolver inversões da ordem social e cósmica, anomalias, críticas e representações das vivências dos grupos. Portanto, podemos dizer que o inverno ainda é mágico no Nordeste Trans-

montano: mesmo que seja de uma forma não assumida, ainda se celebram o Natal pagão e o deus-Sol, através das fogueiras e das mascaradas.

RITOS DE INVERNO

Os mascarados dos ritos de inverno transmontano, que decorrem, tradicionalmente, entre o dia 31 de outubro (Festa da Cabra e do Canhoto, em Cidões: atendendo à data, não se trata de uma festa solsticial, mas das colheitas) e a quarta-feira de Cinzas (Dia da Morte e dos Diabos, em Vinhais), são, sem dúvida, as personagens principais das festividades, em torno das quais se desenrola toda a ação festiva. Eles prosseguem funções aparentemente antagónicas, mas que, amiúde, se tocam, se misturam e se confundem: a ordem e o caos, a harmonia e a entropia, o profano e o sagrado. Neste contexto, “as máscaras surgem como adereços indispensáveis ao exercício de atos mágicos, socialmente aceites como elementos essenciais das vestes paramentais dos protagonistas”, lembra António Tiza. Recorde-se que as antigas sociedades secretas masculinas usavam-nas nos seus ritos de iniciação e os povos arcaicos nos seus rituais profiláticos e propiciatórios, de passagem e de puberdade, de ligação entre humanos e divindades e entre os vivos e os mortos. A metamorfose a que os homens das másca-


Património ibérico

A

s tradições festivas cujos rituais envolvem o uso de máscaras ou disfarces faciais não são um exclusivo nacional: também existem em Espanha, nomeadamente nas regiões limítrofes do Nordeste Transmontano. Partilhamos a mesma origem, estamos unidos por milénios de história comum e as populações raianas nunca deixaram de comunicar entre si, mesmo que isso fosse feito à margem das leis (um bom exemplo é o contrabando, que sempre caracterizou os povos raianos). Um trabalho de doutoramento levado a cabo por António Pinelo Tiza, em 2013, contabilizou 26 festas com mascarados no distrito de Bragança, das quais seis coincidem com o período do Carnaval, e 19 na província contígua de Zamora, quatro das quais carnavalescas. A visita aos lugarejos onde ainda se mantém a tradição secular dos mascarados, tanto brigantinos como zamorenses, é uma experiência inolvidável. Se não tiver essa possibilidade ou se quiser alargar os seus horizontes acerca do tema, existe um local de visita obrigatória: o Museu Ibérico da Máscara e do Traje, localizado nas imediações do castelo de Bragança. Aquando da sua inauguração, em 2007, António Jorge Nunes, presidente da edilidade, lembrava: “As festas de inverno, associadas às máscaras, incluem rituais milenares transmitidos de geração em geração, assegurando o diálogo entre o presente e o passado.” Assim, precisam de ser estudados, preservados e divulgados. O espaço museológico, que teve por base uma parceria de cooperação transfronteiriça entre o município brigantino e a Diputación de Zamora, nasceu exatamente com o propósito de ajudar a promover a identidade e a cultura do povo da região raiana, nomeadamente no que se refere aos rituais ancestrais do solstício de inverno. É constituído por três andares: o primeiro dedicado às festas de inverno portuguesas, o segundo às espanholas e o terceiro aos artesãos e ao Carnaval tradicional, que ainda acontece de ambos os lados da fronteira. Quer isto dizer que, num único local, e em menos de uma hora, o visitante pode vislumbrar o que acontece em inúmeras festividades de Bragança: Festa dos Rapazes (Varge e Aveleda), Festa dos Reis (Baçal, Rebordainhos, Rio de Onor e Salsas), Festas de Santo Estêvão (Grijó de Parada, Ousilhão, Parada de Infanções, Rebordãos, Torre de D. Chama), Festas do Menino (Tó e Vila Chã da Braciosa), Festas dos Belhos (Bruçó e Vale do Porco), Festas das Morcelas ou da Mocidade (Constantim) e do Chocalheiro (Bemposta). Além disso, fica com uma ideia do que se passa em Za-

O Museu Ibérico da Máscara e do Traje pretende promover a identidade e a cultura raianas, nomeadamente no que se refere aos rituais ancestrais ligados ao solstício de inverno.

mora: El Pajarico y el Caballico (Villarino Tras la Sierra), La Filandorra (Ferreras de Arriba), El Tafarrón (Pozuelo de Tábara), El Carnaval e Los Demonios (Villanueva de Valrojo), La Obisparra (Pobladura de Aliste e Sarracín de Aliste), Los Carochos (Riofrio de Aliste), El Zangarrón (Montamarta e Sanzoles) e Los Cencerrones (Abejera). Finalmente, no último piso, fica a conhecer as máscaras, os trajes e os acessórios tradicionais dos carnavais autóctones, como o de Almeida de Sayago e de Vilanueva de Valrojo, em Espanha, e de Lazarim, Podence e Vinhais, em Portugal. De modo a espicaçar a curiosidade do leitor, mas sem nos alongarmos em pormenores, levantamos um pouco o véu sobre duas das festividades que o museu imortaliza: a Festa do Menino, em Vila Chã da Braciosa (Miranda do Douro), e a de El Pajarico y el Caballico, em Villarino Tras la Sierra (Zamora). Em Vila Chã da Braciosa, a ação dos mascarados desenrola-se no primeiro dia do ano, sendo por isso conhecida como “Festa de Ano Novo” ou “Festa do Menino”, uma vez que, segundo a tradição cristã, corresponde à data em que Jesus foi apresentado ao Templo (e sujeito ao rito da circuncisão). Além disso, também é conhecida como “Festa da Velha”, pelos esconjuros dos males do passado, de tudo o que é velho e que é necessário deitar fora, e pelas saudações aos moradores, com votos de prosperidade, expressos na música e nas danças, protagonizadas pelos “gaiteiros”, pela “velha”, pelo “bailador” e pela “bailadeira”. A personagem da “velha” é representada por um jovem mascarado (a “bailadeira” também corresponde a um rapaz travestido), que carrega um colar de bugalhos de onde pende uma cruz visigótica de cortiça queimada. Nas mãos, castanholas estalam ao

som da música, incitando à dança, enquanto uma bolsa de pano carregada a tiracolo se vai enchendo de oferendas. A ronda por todas as casas da aldeia e o peditório começam bem cedo e terminam com a missa solene, na qual participam todos os atores e músicos. Finda a cerimónia litúrgica, os celebrantes do rito profano tomam parte num almoço coletivo, oferecido pelo mordomo. A ronda matinal foi longa, extenuante e rentável, não apenas em termos materiais, mas simbólicos: levaram a cada casa da povoação a celebração da divindade, pela qual se espera um grande benefício para a comunidade. Em Villarino Tras la Sierra, a apenas quatro quilómetros da localidade portuguesa de Vale de Frades, a festividade realiza-se apenas no dia 26 de dezembro (dedicado ao culto de Santo Estêvão). O ritual começa de manhã, ao findar da missa, e estende-se pela tarde e noite. Envolve várias personagens: o Parajico (“passarinho”), que, segundo a tradição, será desempenhado pelo último jovem a fazer a transição de criança a rapaz; os Caballicos (cavalinhos), protagonistas que surgem sobre cavalos de madeira, pintados em vermelho e preto, com compridas caudas de pano arrastadas pelo chão (estas servem para molhar, salpicar e sujar as pessoas com quem se cruzam); e os Zamarrones, que se distinguem pelas suas vestimentas tradicionais: roupas de bombazina castanha, polainas, botas de couro, chocalhos presos à cinta e máscaras de cortiça. Todo o povo participa na festa, que culmina, ao anoitecer, à volta de uma fogueira comunitária, na qual se assam carnes e se distribuem pelos vizinhos e forasteiros, sem qualquer distinção. Interessante

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De localidade para localidade, mudam os trajes e as máscaras ras se submetem tem como finalidade torná-los seres superiores, transcendentes, misteriosos e proféticos. Como sacerdotes, lembram os mortos, impõem aos outros o respeito pela ordem e protagonizam os rituais dos peditórios em benefício dos santos e das almas dos defuntos. Como diabos, instituem a desordem e o caos na comunidade, criticam o povo, atuam à margem das normas sociais e morais e tomam para si as liberdades próprias de quem está acima de tudo e de todos. Olhemos, por exemplo, para a Festa dos Rapazes de Varge, que decorre nos dias de Natal e de Santo Estêvão. Os caretos (jovens solteiros), devidamente paramentados, encarnam o papel de profetas e denunciam os atos reprováveis de alguns membros, famílias ou grupos sociais das suas comunidades. Esses rituais de crítica social, conhecidos por “loas”, são momentos solenes, quase litúrgicos, mas de cariz pagão, que se seguem à liturgia da missa solene de Natal. As loas consistem na declamação de quadras satíricas que visam denunciar vizinhos e autoridades da terra. No final de cada quadra mordaz, os caretos aplaudem com gritos, saltos e chocalhos ensurdecedores. Diz quem sabe que se trata de um ritual com função expurgatória, que visa a expulsão dos males da comunidade.

FUNÇÕES PROFILÁTICAS

As funções purificadoras e profiláticas não se ficam por aqui: manifestam-se, igualmente, em muitas outras atitudes libertárias dos caretos, que assumem o papel de diabos e instituem o caos no grupo e na multidão que se reúne para assistir: soltam os característicos gritos “hi! hu! hu!”, saltam, dão cambalhotas, rebolam pelo chão e, com os seus grossos e compridos varapaus, lançam palha às pessoas. Segundo o antropólogo Aurélio Lopes, é o momento da “subversão solsticial”, a ocasião “do caos por excelência, em que proliferam desordens e irreverências, transgressões e transversões, bem como o desencadear de excessos”. Estas atitudes e comportamentos manter-se-ão ao longo dos dois dias de festa, em orgias, excessos na comida e na bebida, atitudes grotescas e invasão de espaços privados com o intuito de recolher peças de fumeiro. Embora a Festa dos Rapazes de Varge, bem como de outras aldeias brigantinas, seja um momento de expiação comunitária, boa-disposição e folia, convém não esquecer que também serve para demonstrar a capacidade organizativa e maturidade dos jovens solteiros, constituindo, em pleno século XXI, um singular rito

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pubertário de passagem da adolescência para a idade adulta: neste contexto, os jovens como que deixam de pertencer ao seu grupo familiar para passarem a integrar o grupo festeiro, por dois dias e a tempo inteiro. Embora cada localidade tenha as suas especificidades, tanto ao nível das máscaras (de latão, madeira ou cortiça), como dos trajes, rituais e acessórios (varas, bastões, tridentes, chocalhos, etc.), todas as festas de inverno se enquadram no mesmo objetivo comum: a destruição do velho para que se crie de novo, ou seja, o caos que dá origem à ordem, necessária ao bom andamento da vida comunitária. Para os jovens, é ainda a oportunidade de viverem alguns dias bem diferentes do quotidiano, tornando-se personagens principais de uma ação que vai dar continuidade à tradição e perpetuar a memória coletiva das povoações. Afinal, o que haverá de mais fascinante para um adolescente que se queira afirmar no seio da sua comunidade do que o estatuto de superioridade que lhe permite controlar toda a vida local e desempenhar ritos sagrados, mesmo que seja por artes diabólicas?

CARNAVAIS AUTÓCTONES

Quando se fala em Carnaval, a maioria das pessoas pensa de imediato em escolas de

samba e em espampanantes corsos carnavalescos, que podem ser muito atrativos para os olhos e para os ouvidos e excelentes chamarizes turísticos, mas nada têm a ver com a nossa identidade cultural. Segundo os especialistas, se quisermos ver festividades carnavalescas autênticas, teremos de ir ao Nordeste Transmontano ou à Beira Alta: por exemplo, a Freixo de Espada à Cinta, Podence, Santulhão e Vila Boa de Ousilhão (Bragança) ou Lazarim (Lamego). Convém não esquecer que a origem do Carnaval remonta às antigas festas da natureza pré-romanas e às Saturnais e Lupercais, celebradas pelos romanos em honra de Pã, o deus dos rebanhos. Estas últimas eram festividades agro-pastoris que aconteciam a 15 de fevereiro, quando os sacerdotes, despidos, tapando apenas as partes genitais, percorriam as ruas, batendo com um chicote em quantos encontravam, principalmente nas mulheres, que julgavam fecundar com estas pancadas. António Tiza advoga que “os mascarados que saem à rua no período do Carnaval assumem, ainda que simbolicamente, estas mesmas funções, embora, aos olhos do povo, representem o diabo e eles próprios se assumam como tal nos gestos e atitudes que tomam”. Assim, defende o investigador, “a licenciosidade consentida aos caretos e os ritos expurgatórios constituem hoje


Caráter anual. Os mascarados de Lazarim exibem fantásticas máscaras carnavalescas de madeira de amieiro, esculpidas por artesãos da própria aldeia, que as renovam todos os anos, pondo à prova a sua criatividade.

a principal marca do Carnaval no Nordeste Transmontano”. Olhemos, por exemplo para o ritual do “julgamento do Entrudo”, que acontece em Santulhão (Vimioso) e implica um cortejo de figurantes e de foliões acompanhantes, transportados em máquinas agrícolas devidamente ornamentadas. O ponto alto da festa é o Auto Popular, em que o Entrudo e a sua família são acusados de malfeitorias e de serem responsáveis por todos os males que afetaram a comunidade durante o inverno. Assim, são condenados e queimados, purificando a povoação e dando origem a um novo ciclo produtivo. Em Podence, uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, os caretos vestem fatos felpudos e coloridos, feitos de lã, que lhes cobrem o corpo todo, incluindo a cabeça. Escondem a cara com máscaras de latão, pintadas de várias cores, sobretudo de vermelho. No peito, carregam duas grossas correias de couro, de onde pende um volumoso molho de chocalhos. Paramentados desta forma, nada, ou quase nada, os detém nas suas correrias desenfreadas pelas ruas da povoação, perseguindo as moçoilas para as chocalhar, num apelo à fertilidade da natureza: encostam-se às mulheres consideradas fecundantes e executam uma dança quase erótica (agitam as ancas, fazendo

bater o molho de chocalhos contra o corpo das suas vítimas). Porém, as violentas chocalhadas não se destinam apenas às jovens: dirigem-se igualmente a outros membros da comunidade que mereçam ser castigados, constituindo, nesse caso, uma função expurgatória.

ENTRUDO EM DEZEMBRO

Constata-se que, afinal, o verdadeiro Carnaval não é muito diferente do que se passa nas festas solsticiais e dos Rapazes (entre o Natal e os Reis), uma vez que, na verdade, o Entrudo encerra o ciclo festivo do inverno. Por exemplo, em Vila Boa de Ousilhão (Vinhais), a festa de Santo Estêvão perdeu-se em meados do século passado e os “máscaros”, como lhe chamam na região, passaram a sair à rua no dia de Carnaval, concretizando uma transferência temporal dos seus rituais do solstício de inverno para o início da primavera. Nesta aldeia, os mascarados vestem uma indumentária constituída por um fato (calças, casaco e gorro) com franjas, polainas, chocalhos e campainhas suspensos de correias de couro a tiracolo e cruzadas no peito e nas costas, e exibem máscaras de madeira. Quer chova, quer faça sol, percorrem a povoação atormentando os transeuntes, castigando-os com bastonadas e chocalhadas e fazendo tropelias.

Também neste caso, o ato de bater (e chocalhar) simboliza o sacrifício necessário à purificação da comunidade e à expulsão dos seus males. Embora a simbologia dos rituais seja sempre a mesma, os mascarados de Lazarim, nas imediações de Lamego, aparecem com outra roupagem e, sobretudo, com outra cara: exibem fantásticas máscaras carnavalescas de madeira de amieiro, esculpidas por artesãos da própria aldeia, que se encarregam de as renovar todos os anos, pondo à prova a sua mestria e criatividade. Assim, não admira que, além de serem usadas nas festividades carnavalescas, também surjam em exposições, coleções privadas, espetáculos e documentários. Numa altura em que o calendário agrícola assinala o tempo de fecundação da terra, com início da primavera, e o cristão permite os últimos excessos antes da abstinência própria da Quaresma, em Lazarim (tal como por todo o país) vive-se um ambiente de transgressão e exageros, que não inclui apenas máscaras carrancudas de madeira, mas envolve provocações entre comadres e compadres, acentuando a rivalidade milenar entre mulheres e homens. O ponto alto dos festejos ocorre quando o povo se reúne para a leitura pública dos testamentos: a moça inicia a leitura do Testamento do Compadre e de imediato surgem as críticas aos rapazes da vila, com a sagacidade de quem aguardou o ano inteiro para dizer umas verdades. Depois, invertem-se os papéis e é o moço que toma a palavra. Como seria de esperar, o Testamento da Comadre afina pela mesma bitola: é uma mordaz crítica social pautada pelos excessos da linguagem. Finda a leitura dos testamentos, segue-se o cortejo dos mascarados pelas ruas da aldeia e a queima dos compadres (bonecos representativos de personagens de ambos os sexos). Expurgados dos males pretéritos e resolvidos os conflitos com vista ao fortalecimento de laços e à coesão da comunidade, segue-se o convívio, com comida (feijoada e caldo da farinha) e bebida em abundância, distribuída gratuitamente, como convém num dia festivo. Pela sua especificidade, o carnaval de Lazarim, tal como os do Nordeste Transmontano, costuma atrair muitos visitantes, bem como uma romaria de órgãos de comunicação social estrangeiros, de estudiosos dos costumes “autênticos”, de curiosos do grotesco e do exótico, de intelectuais e artistas. Isto acontece porque as máscaras e os mascarados, ligados a rituais seculares, significam muito mais do que aquilo que parece à primeira vista. Assim, não basta assistir aos festejos, é essencial perceber o que se esconde por detrás das máscaras. J.N.

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JUAN MANUEL CASTRO PRIETO

Fotografia Visto para imagens arrebatadoras

Rabanadas de REALIDADE Todos os anos, o festival Visa pour l’Image converte a cidade francesa de Perpignan na capital do fotojornalismo mundial. A última edição (27.ª) tornou a reunir as imagens mais poderosas dos melhores profissionais de todo o planeta.

Andes mágicos. O fotógrafo espanhol Juan Manuel Castro Prieto foi pela primeira vez ao Peru em 1990 e ficou viciado naquela terra rica em lugares únicos, como o caminho para Maras, uma pequena aldeia situada no sul do país, a 3300 metros de altitude.

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NANCY BOROWICK

Adeus à vida. Laurel não sabia que aquela refeição cozinhada pelo seu filho Matthew seria a última. A sua filha, Nancy Borowick, documentou a doença (cancro da mama) desde o diagnóstico até ao fim. Mais tarde, faria o mesmo com a neoplasia do pai.

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ROMAIN LAURENDEAU / HANS LUCAS

Teimoso. Em Argel, a capital da Argélia, criam-se carneiros de combate que podem dar muito dinheiro a ganhar aos seus donos. Esta foto ganhou o Prémio Camille Lepage.

ALEJANDRO CEGARRA

ANASTASIA RUDENKO

O certame inclui exposições e atribui prémios em 11 categorias

Jogos florais. Uma menina internada num hospital neuropsiquiátrico da cidade de Elatma, 300 quilómetros a leste de Moscovo, adorna-se com uma flor colhida no jardim. A imagem foi galardoada com o Prémio Canon para Mulher Fotojornalista.

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Fiéis. Manifestantes protestam contra os partidos da oposição junto ao parlamento da Venezuela, em Caracas. A foto integra a série O Peso da Herança de Hugo Chávez, com a qual Alejando Cegarra ilustra a difícil situação do seu país.

Cidades invisíveis. À entrada da Zona de Exclusão de Chernobyl, um parque homenageia as localidades evacuadas na sequência do acidente na central nuclear soviética, em 1986. Cada letreiro exibe o nome de uma dessas localidades.


GIULIO PISCITELLI

GERD LUDWIG

Para Itália? Canal da Sicília, no Mediterrâneo. Um ocupante de uma embarcação com uma centena de emigrantes provenientes de Tunes faz sinais a um pesqueiro egípcio, para que lhe indique a direção da costa italiana.

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Nova peste 6 de outubro de 2014. Começam as tarefas quotidianas na zona de alto risco da Unidade de Tratamento do Ébola em Sergeant Kollie Town, no oeste da Libéria.

ANDRÉS KUDACKI

As fotos expostas abarcam todos os tipos de temas Na rua. Carmen Martínez Ayuso, de 85 anos, chora no dia em que a despejam da sua casa de Madrid, devido às dívidas do filho. O autor destas duas imagens, Andrés Kudacki, recebeu o Prémio ANI.

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ANDRÉS KUDACKI

Deusa viva. Os habitantes de Katmandu (Nepal) veneram meninas como kumaris, capazes de ler o futuro, curar enfermos e conceder desejos. Unika Vajracharya, de seis anos, é uma delas.

STEPHANIE SINCLAIR

DIANA ZEYNEB ALHINDAWI

DANIEL BEREHULAK

Vítima do terror Uma psicóloga tenta libertar do medo uma mulher violada na República Democrática do Congo, no primeiro dia do julgamento dos seus atacantes. A foto ganhou o Prémio Visa d’Or, do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

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Marcas & Produtos

Agarrar o momento

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Regresso à essência

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Diretor Carlos Madeira (cmadeira@motorpress.pt) Coordenador Filipe Moreira (fmoreira@motorpress.pt) Colaboraram nesta edição Francisco Mota, José Moreno, Máximo Ferreira e Paulo A ­ fonso (colunistas), Alfredo Redinha, Ángel Jiménez de Luis, Daniel Losa, Ernesto Cármena, Isabel Joyce, Joaquim Semiano, Jorge Nunes, Miguel Ángel Sabadell, Miguel Mañueco, Pablo Herreros, Raquel Graña e Roger Corcho. Assinaturas e edições atrasadas http://www.assinerevistas.com Sara Tomás (assinaturas@motorpress.pt) Tel.: 21 415 45 50 – Fax: 21 415 45 01

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A TERRA EXPLORADA AO LIMITE JÁ À VENDA

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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