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Nº 5 1 de Agosto 2011 | Terça-feira

EMENTA Almoço Vegetariano Strogonoff Almoço Omnívoro Fusilli c/ Frango Jantar Vegetariano Bolinhas de vegetais c/ Arroz Branco Jantar Omnívoro Feijoada à Transmontana METEOROLOGIA Chuva 210/ 160 Domingo: Céu nublado - 23º/ 16º

ESTAR AQUI PÁRA. LÊ... DEVOLVE.


16 ANOS A IMAGINAR O FUTURO Estar no Andanças é vivenciar uma suspensão festiva do tempo, marcada pelo encontro, pelo prazer da partilha e pela generosa diversidade das danças. Mas não só. 

Desde logo, por razões que se prendem com as novas economias sociais que aqui se concretizam (com economias sociais refiro as actividades do sector cooperativo, das associações sem fins lucrativos e das ONGs, a estrutura democrática dos processos de decisão, encorajando a participação e tendendo à autonomia de gestão face aos poderes públicos. Somem-se-lhe as consequências da agenda política do evento, envolvendo os participantes, disseminando valores e debatendo questões emergentes, e rapidamente se torna evidente como um evento com uma dimensão (quase) massificada pode ser lugar de imaginação de outros lugares, de outras comunidades. E se é verdade que as comunidades são sempre inventadas pela representação que de si fazem, o Andanças constitui-se, ele mesmo, em lugar de imaginação de uma comunidade por vir, ao transformar a vida de uma pequena aldeia da serra na possibilidade de um seu futuro. E não é a imaginação, como disse Arjun Appadurai, a primeira condição para a acção, para o político, para o futuro? A segunda ordem de razões diz respeito, naturalmente, às danças, tradicionais (quando relevam de uma qualquer forma de tradição identitária), ou sociais (quando conformam práticas colectivas de sociabilidade, assente em regimes de convivialidade e definem uma politica de

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movimento de corpos). Umas e outras são o motor do festival, a razão mobilizadora dos milhares de participantes que acorrem ao Andanças. Mas é a própria existência de um festival dedicado às danças tradicionais e sociais, colocando o participante no centro das práticas de dança, único em Portugal (e com poucos congéneres no mundo), que aqui me parece de sublinhar. Apesar de (magramente) financiado pelo (ex) ministério da cultura, a sua existência afirma por si só uma evidente contestação e vontade de ruptura face às práticas de programação instaladas e aos modos de financiamento da cultura. E se as práticas artísticas são ‘maneiras de fazer’ que afectam as ‘maneiras de ser’ e as ‘formas de dar a ver’ (cito livremente Jacques Rancière sobre o político e a partilha do sensível), então colocar no centro do fazer artístico as danças sociais e as danças das tradições não pode deixar de ter consequências no (re)mapeamento do território da dança, nos modos de financiamento e nas formas de ‘dar a ver’. Haverá muitos que o não queiram perceber. Mas o Andanças é dessa evidência que fala, é nessa condição que (se) dança. E é aí que se traçam caminhos de futuro, ao ritmo da imaginação. José Alberto Ferreira

(director artístico do festival escrita na paisagem)


OS VOLUNTÁRIOS-MIRINS VOLUNTARIADO Todos os companheiros destas Andanças já devem ter reparado em dois pequeninos voluntários que deambulam de avental e luvas pela área do pratário. Um lava a louça, outro limpa tabuleiros e vende canecas. Ambos sorriem no desempenho das tarefas como se não houvesse amanhã. Mas estão lá. Todas as manhãs! Vieram com os irmãos mais velhos, Helena (21) e João (18), oficialmente voluntários naquela área. Inicialmente, decidiram organizar o trabalho em turnos diferentes para poderem cuidar dos petizes. Em vão. Não há quem consiga tirar os miúdos dali. “Eles adoram ajudar. Depois vêem todos aqui a trabalhar e insistem em fazer parte do grupo. Querem ser como nós”, refere Helena. A família adora acampar. Aproveitaram a oportunidade para vir todos juntos e desfrutar de um “ambiente único, mágico”. Nuno (6) é o mais novo. Está a desenhar quando falo com ele. Animais. “Gosto muito deles”. Cães, gatos, ursos, dinossauros, toda uma fauna animada povoa a sua selva de papel, que transporta sempre consigo. “Adoro pintar e desenhar”. Quando não está a desenhar, está a lavar a louça no pratário. A sua tarefa preferida! “Já em casa lavo sempre”. Seguramente um exemplo para a espécie masculina, incluindo o espécimen que redige estas linhas. “Tenho os meus irmãos à minha beira” é a resposta que dá à minha curiosidade sobre o seu auto-exílio no pratário. Foi o irmão, Rui, que lhe perpetuou o amor pelos animais numa perna, pelos menos durante os próximos dias. “Fez-me uma garra de um tigre com uma burrona”. Aponta para o irmão. Chama-o. “Anda aqui falar. Eu já falei”. Rui (12) acede entusiasmado, enquanto descasca uma laranja. Revela gostar da experiência de convívio com pessoas diferentes. “Para além disso gosto de ajudar no que posso”. Desde cedo habituou-se a ouvir histórias do Andanças, contadas pela irmã. A capacidade descritiva de

Helena deve ser magnífica, pois Rui imaginava o Andanças “tal e qual como ele é”. “Com ou sem mosquetão?”, questiona Rui. Já repetiu a pergunta vezes sem conta. A sua tarefa preferida é vender as sui generis canecas do festival. “Tenho adorado estes miúdos”, afirma o cliente andante. “Trazem um ambiente novo”. Victor Melo

FANDANÇAS O Fandango é uma dança bastante popular na Península Ibérica. Em Portugal, conhecemos a variação ribatejana. Nesta, dois bailarinos do sexo masculino enfrentamse, dançando e sapateando na sua vez. É uma dança entusiasmante, viril, interpretada por campinos (ou homens com as suas vestes), frequentemente ligados às lides taurinas. No País Basco é diferente. O Fandango Basco é dançado na província de La Bur e, ao contrário do que acontece em Portugal onde este estilo de dança é folclórico, no País Basco o fandango é bastante popular mesmo entre os mais jovens. Quem o afirma é Lisou Guerbiny, monitora da oficina no Andanças. É uma dança viva e, simplesmente, “os homens podem ir na rua e começar a bailar”. Apesar de não estar cem por cento familiarizada com o

Fandango Ribatejano, Lisou considera o Basco diferente em termos de passos e mais ritmado, mais “saltado”. Contudo, o “jogo do pé não é tão complexo” na versão basca. A dinâmica também é diferente, pois “no país basco dança-se à volta da praça da aldeia”, num círculo. Não existe contacto directo com o par, mas está longe de ser uma dança individual. Há uma grande dinâmica de grupo e interacção com o par e o contrapar. “Baila-se individualmente as a expressão é colectiva, em roda”. O Fandango Basco não é uma dança isolada, na medida em que dá continuidade a outra, também bastante animada, a Arin Arin. Lisou Guerbiny vai ensinar a variação basca do Fandango hoje, às 15h30, na tenda 5. Bárbara Abraúl JORNALANDANÇAS

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UM LUGAR QUE NÃO É BEM COMO OS OUTROS

Havia de certeza muitas possibilidades de lugares para o Andanças. Cenários tão ou mais verdes. Tão ou mais bucólicos. Tão ou mais perto da terra. Aconteceu assim. Aconteceu ser aqui. Uma moldura feita de montanhas. E céu desimpedido à noite. Um lugar onde se consegue ver bem as estrelas. Por não haver perturbação. Não há prédios nem luzes que brilhem mais do que as que estão acima de nós. O contexto do Andanças prolonga o carácter etéreo do que acontece durante estes dias. Por ser suficientemente feérico. Um lugar quase de fadas. Um lugar quase de duendes. Ou de todas as criaturas que o nosso imaginário possa conceber como sendo mágicas e luminosas. O cenário ideal para um festival de dança, portanto. À volta, há mais. Há mais lugares com água corrente e fresca e árvores. Lugares para respirar. Para suspender. Para fechar os olhos e ver melhor. O Lenteiro do rio, em São Pedro do Sul é uma possibilidade para essas coisas todas. Fresco, com risos soltos de crianças. Sombras de árvores. Erva muito verde. Ou a praia fluvial de Pouves, onde há um rio com água limpa como não se achava possível. Como se isso fosse uma coisa de um tempo irrecuperável. Não é. Existe mesmo. A uns quilómetros daqui, pouco antes de se chegar a São Pedro do Sul. Depois há água que cura de males. Água quente, vinda do fundo da terra. Nas Termas.

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E continuamos a ver rio e verde. E há esplanadas onde nos podemos demorar. Em contemplação silenciosa do que a memória quiser conservar. Em Vouzela, tem-se a sensação de se parar um bocadinho. Com um pretexto doce, que sabe a Pastéis de Vouzela. Um doce de ovos macio, num embrulho delicado como papel de seda. Como se durante o tempo que demoramos a comer um pastel, pudéssemos perceber a que sabe a fragilidade. Uma experiência indelével, a de comer um pastel de Vouzela. Mais ainda, quando se desce pela Rua da Ponte, em direcção à fonte. Sempre a água, a conduzir-nos. Sempre guiado pela água, este relato. Mas é mesmo importante falar da fonte junto ao Rio Zela. É que dizem que se um par de namorados beber daquela água, nunca mais se separa. Ficam unidos pela água. Um laço frágil como a água. São sempre frágeis, os laços que unem as pessoas. Melhor assim, porque é isso que faz com que os queiramos conservar. Ou fazer coisas para que não se quebrem ou deixem de existir. E então, ainda bem que sim. Que o Andanças acontece aqui. Há muito tempo, já. Um laço de há muito tempo. Belo e simultaneamente frágil. Como o laço que liga o amor que beber da água da fonte de Vouzela. Marisa Queirós Araújo


AMNISTIA INTERNACIONAL AO IMPROVISO Com certeza que já ouviste as mais variadas definições do Andanças. Já deves ter ouvido falar muitas vezes nestas duas palavras: Voluntariado e Improviso. As mais variadas e engraçadas situações vão acontecendo durante o festival. Uma delas aconteceu ontem e vale apenas ser contada porque é na base da boa vontade que confirmamos aqui. No segmento “À conversa com…” a decorrer todos os dias no Salão às 12h15, ontem estaria Magnus Murray para falar cobre as cheias no Paquistão sob o ponto de vista de uma ONG e como estas estão a afectar a população e o ambiente. Recebi uma chamada do Magus a pedir desculpa por não conseguir chegar a tempo. Quando me preparei para comunicar o cancelamento da actividade, uma espectadora entrou em conversa comigo para propor que no próximo festival falarmos sobre a Amnistia Internacional e divulgar as suas actividades tanto a nível nacional como internacional.

Numa conversa de menos de um minuto surgiu este diálogo – “Tens a informação contigo?”, “Por acaso tenho ali o computador”. Ora claro, voluntariado e Improviso! Acabou a Tânia Alves por nos alertar sobre vários assuntos problemáticos a assolar o mundo cuja informação nem sempre chega a nós. A Amnistia Internacional serve exactamente para nos alertar sobre o que se vai passando por baixo das muitas mesas mundiais. O Andanças serve para passar estas mensagens. Obrigado Tânia, que mais tarde fiquei a saber que também é nossa voluntária. Boas Pausas. Nota: Magnus Murray conversará sobre o tema referido no Domingo das 16h às 17h. Tiago Peres

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VOAR SOBRE RODAS Voar. Um círculo riscado a giz sobre alcatrão delimita o que se faz palco. Um grande eixo replica todos os eixos das rodas que o atravessam, dançantes, circulando em movimento num espectáculo de rua partilhado por intérpretes com paralisia cerebral, técnicos e performers. Tudo sobre rodas, a andar de rodas e em roda de vermelho, como as roupas que vestem os que rodam, como as flores que espalham pelo recinto e a história entre um homem e uma mulher, que dançam a roda circular do mundo. A velocidade das rodas em movimento surpreenderam o público, como surpreendeu o final festivo, despoletando grande adesão da assistência emocionada, que se juntou aos performers e à dança no centro do círculo. Este projecto sem fins lucrativos pretende uma reflexão da arte associada à pessoa com necessidades especiais, como meio integrador e de desenvolvimento de competências, e parece que o consegue com grande sucesso. António Barata, director técnico da CiM, conta-nos como surgiu este projecto que já circulou meio mundo, integrado em estruturas normais de festivais de dança e performance. Zaida Pugliese tem paralisia cerebral mas um sorriso contagiante. Vem de uma estrutura familiar problemática. Como é habitual, começou por fazer fisioterapia, mas apesar de todos os benefícios que esta traz, considera esta prática aborrecida e foi com a dança e a improvisação que

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se abriu a um novo mundo, descobrindo-se a si mesma e aos outros. Hoje, está mais solta, extrovertida e feliz. Sente e vive a mudança a cada dia - pela dança. “Foi muito bom! É muito bom quando vemos as coisas a realizarem-se de acordo com o planeado.” diz-nos no final do espectáculo José Marques, um dos intérpretes, adolescente, sentado sobre rodas. Sara Correia A CiM, Companhia Integrada Multidisciplinar, nasceu em 2007, mas foi em 2008 que criou o “Sobre Rodas”, através de uma parceria entre as associações APCL – Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, Associação Vo’Arte e o CRPCCG – Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian. A CiM procura a diversidade de caminhos, transformando as limitações em acção, ou seja, aquilo que cada um tem de melhor para dar.


ONTEM JORNALANDANÇAS

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O SÍTIO DO ORÁCULO AMARELO

Uma visita à feira do Andanças é uma jornada no tempo. Caminhamos de mãos dadas com o presente, relembramos o passado, contam-nos o futuro. Começo pelo futuro. Despertou-me a atenção a fila de pessoas que aguardavam, pacientemente sentadas na erva seca junto a uma tenda amarela, onde permanecia um ancião de longas barbas brancas e pernas cruzadas. Uma delas conta-me que ouviu as sábias palavras dele há quatro anos. Na altura, discordou de quase tudo. Mas as circunstâncias validariam todas as previsões e fizeram-na ansiar por um reencontro, que está prestes a acontecer. Ouço mais histórias. A estupefacção está presente em todas elas. O bichinho da curiosidade transforma o meu âmago num trampolim. Sento-me e aguardo. Estava longe, muito longe de imaginar que ia sair dali estupefacto. Os cabelos cinzentos precipitam-se sobre o seu rosto enrugado como uma cascata, que culmina nas suas barbas, turbulentas e selvagens, como espuma de queda de água. Fala num inglês temperado com sotaque oriental, de um modo pausado. O olhar é algo intenso, mas paradoxalmente tranquilizador. Nasceu Michael, na Alemanha, mas há 11 anos - desde uma viagem ao Nepal - que usa o nome Shanti Baba. “Qual o valor de um nome? Nenhum. O melhor é nem ter nome”, diz, sorridente, antes de complementar: “Somos muito mais do que isso”. Shanti, que faz 51 anos dentro de cinco dias, começou a sua viagem espiritual aos 22. Viajou muito pelo Nepal e pela Índia. Numa aldeia perdida perto de Katmandu, fizeram-lhe uma leitura da mão. Nesse preciso momento foi atingido por um forte dejà vú. Todo aquele processo lhe parecia estranhamente familiar, sem que o soubesse explicar. Comprou um baralho de cartas Tarot e começou a fazer leituras sem ler um único livro sobre o assunto. De forma completamente autodidacta, intuitiva. Primeiro treinava com as irmãs. A exactidão do exercício deu-lhe a confiança para passar ao grande público. Desde então, tem percorrido mundo a fazer as suas leituras. Rússia, Índia, Suécia, Grécia, Espanha, Portugal. O que o move é um desígnio íntimo, imaterial. “Estou longe de ser um homem rico. Faço leituras muito baratas. O que me interessa é partilhar o dom que

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sinto que tenho”. Shanti conta que as pessoas nem sempre ficam radiantes ao ouvir as suas palavras. Por vezes a apreensão acompanha-as. No entanto as mensagens, todas elas, clareiam caminhos que acabam sempre por se revelar positivos na viagem de vida dos ouvintes. “Elas funcionam, de alguma forma, funcionam sempre. É o que todos me dizem depois. E dizem-me sempre com felicidade nos rostos”. Pega-me na mão. E começa a falar. E peça a peça vai despindo o agasalhado cepticismo inicial que eu envergava. Esperava o típico: um conjunto de informações abstractas, que pudessem tocar um nervo sensível onde eu próprio estabeleceria uma associação. Mas Shanti foi tudo menos típico. Tudo menos abstracto. Não me disse o que eu queria ouvir. Disse-me o que eu precisava de ouvir. Como? Não sei. Em boa verdade, não posso dizer que me tenha sentido desconfortável na terra de ninguém dessas duas palavrinhas. Nem posso dizer que tenha perdido o meu sentido e objectividade jornalística, mas durante aquelas duas dezenas de minutos, eles viajaram por algures. E regressaram felizes e revigorados. Eles sabem o quão esplêndida é a libertação da grilheta da obrigação de ter de conseguir explicar sempre tudo. Victor Melo

Shanti adora o Andanças, já o acompanha desde 2004. Mas é visível a tristeza no seu olhar quando partilha a mágoa que sente pela localização das tendas da feira. A seu ver, esta devia estar montada no local do ano transacto, no lado direito da entrada no recinto, entre as árvores, com muito mais espaço e conforto para vendedores e visitantes. “Sinto-me triste por ver aquele espaço vazio, que ganhava tanto com a beleza da cor das tendas e das pessoas que as habitam e visitam”. Fica a sugestão. Igualmente profética? O futuro dirá.


STRAIGHT FROM THE HEART Ao percorrer as exíguas vias de palha que serpenteiam pela feira, respira-se um pouco de tudo. Como o exotismo do incenso no ar, condimentado pelo som sempre intemporal de Hotel California e por um cheiro inebriante a arroz basmati, cuja origem tento em vão descortinar. E encontrase. Também um pouco de tudo. Sandálias medievais, chapéus de elfo, vestidos de Verão com cores de mil jardins, massagens indianas, tatuagens, rastas, reiki, didjiridus. Um mundo de diversidade e engenho artesanal. Sandra Portela é uma dessas artesãs. A sua banca está repleta de brincos, colares, pregadeiras. Tudo construído a partir de um pedaço de chapa comprado numa loja de ferragens e trabalhado ao entardecer, num pequeno atelier montado numa cave, algures em Aveiro. Professora de Artes como profissão, tem

neste trabalho mais do que um hobbie, uma paixão… e até uma terapia de relaxamento. “Sabe-me muito bem, após um dia de aulas, enfiar-me no meu cantinho e dar azo à criatividade”, refere. Já a paixão, essa está bem patente no seu slogan: “Arte Nox, artesanato com coração”. O coração é o tema de quase todos os seus artigos. É inspirado no Coração de Viana, que se tornou particularmente especial para a jovem artesã a partir de um antigo colar de uma avó, que como todas as antiguidades, tem memória e uma história para contar. Sandra opta por guardar a história para ela, mas partilha-a tacitamente, em toda a sua criação. Por estas e por outras andanças. Victor Melo

COMPOSTAR É VIVER! Já reparaste nas plantações e estufas junto à cantina do Andanças? Uma vez por ano, quando o festival invade à aldeia, uma troca extraordinária acontece entre estes dois espaços. As plantações dão à cantina tomates, couves, alfaces… E a cantina devolve os restos de comida, que transformados em composto, vão fazer viver os tomates, couves e alfaces dos próximos festivais. “Transformar comida em comida para as plantas” – bela explicação para a compostagem nos dá Joaquim Pinho, da Carvagrícola, a empresa de agricultura biológica e ervas aromáticas sediada mesmo junto ao recinto do Andanças. “Com os desperdícios de comida que vamos buscar todos os dias à cantina temos um composto muito rico e variado. Vai dar ao solo Azoto, Fósforo e Potássio, mas também Cálcio, Magnésio, Ferro…”, explica o “Engenheiro Quim”, que dinamizou esta manhã um workshop sobre a compostagem. Segundo a sua “receita”, os restos de comida são ainda misturados com estrume, vindo de pequenos produtores vizinhos, engaço (restos dos cachos de uvas), legumes que se estragam, ervas daninhas, folhas caídas das árvores... Tudo numa enorme pirâmide. Durante seis meses, num processo

em que a temperatura chega a subir a 70 graus, seres minúsculos decompõem tudinho, até fazerem esse produto mágico parecido a terra, muito rico para as plantas. Assim, evitam-se adubos químicos, que envenenam os solos. “No fim tenho toneladas e toneladas de composto. Sem ele estava feito!” A Caravagrícola, membro da CoopRaízes Cooperativa de Produtores das Terras de São Pedro do Sul, vende depois os seus legumes orgânicos nos mercados locais e em cabazes entregues ao domicílio. Se o Engenheiro Quim o faz de forma industrial, qualquer pessoa pode fazer compostagem em casa, para o seu quintal ou os seus vasos. Podem-se fazer ou comprar pequenos compostores domésticos, muito fáceis de usar: vão-se deitando os vários resíduos por cima, em camadas, e retirase o composto por baixo. Uma bela forma de aproveitar os resíduos orgânicos – cerca de metade do “lixo” que produzimos em casa. Garante Joaquim, “aqui em Carvalhais as pessoas têm quintais, toda a gente o faz!” Francisco Pedro JORNALANDANÇAS

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EXTRAVANCA!

Juntar o tradicional ao contemporâneo. É este o conceito do grupo Extravanca!, que traz ao Andanças o melhor da música e dança tradicional algarvia. Setembro de 2010, Algarve. A PédeXumbo organizou o evento Arraiais do Mundo em colaboração com a Câmara Municipal de Tavira. Neste âmbito, houve uma residência artística que juntou dois músicos de características singulares. Pascal Seixas, fundador do grupo Dites 34 que alia a música tradicional francesa a outras sonoridades como Jazz e Músicas do Mundo; e João Frade, um dos mais conceituados músicos algarvios e acordeonista campeão pelo mundo fora (já ganhou mais de vinte concursos). Os dois músicos pegaram em tradicionais temas da região mais a Sul de Portugal e misturaram-nos com as suas próprias influências – Jazz e Música do Mundo. Sophie Coquelin (PédeXumbo) garante que “este ano vai ser feito um upload da residência”. A associação trabalha não só a música mas também a dança, pelo que “este ano pedimos a dois bailarinos de dança contemporânea para verem mais em profundidade as danças, as coreografias, que era o que nos faltava em 2010.” António Tavares, coreógrafo de origem cabo-verdiana, juntou-se a Inês Melo, estudante de dança contemporânea na Escola Superior de Dança, para trabalharem o reportório algarvio. António Tavares e Inês Melo vão juntar o tradicional à formação deles, em dança contemporânea, e ainda com “outras linguagens”. Desengane-se quem pensa que as danças algarvias se limitam aos famosos corridinhos. O repertório inclui diferentes bailes de roda, bailes mandados. Mas é a dança

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estravanca, uma luta coreografada, que está na origem do nome do projecto. Sophie Coquelin informa que esta dança “acontecia sempre no final dos bailes da serra, quando os homens lutavam uns contra os outros pelas mulheres. A ideia era fazer rasteiras, cada um tentava fazer cair os outros rapazes.” O espectáculo dos Extravanca! é um concerto, uma performance e um baile. Uma apresentação do grupo pode ser vista hoje, às 22h30, no Palco Alto. Contudo, o grupo ainda é, de acordo com Sophie, um “work in progress”. A sua estreia será no dia 3 de Setembro, nos Arraiais do Mundo deste ano, em Tavira. Bárbara Abraúl

Elementos dos Extravanca! João Frade: acordeão, cajon Guy Giuliano: acordeão, concertina, palmas Pascal Seixas: contrabaixo, voz, palmas Simon Valmort: bateria, percussões Anthony Jambon: guitarras Romain Cuoq: saxofone soprano, palmas


SER VOLUNTÁRIO

Ser voluntário no Andanças é o concretizar de um sonho de criança de qualquer um, menos EU... Porque na verdade o meu único grande sonho é jogar no Benfica. Infelizmente o talento para o desporto não me assiste, no entanto nas danças sou eu que não assisto o talento, o que não nos impede de gostarmos e respeitarmo-nos mutuamente. Vir ao Andanças é talvez a única oportunidade para alguém mais familiarizado com as ciências exactas, particularmente e especificamente EU, de sentir-se também um pouco artista, não na medida que domina uma determinada arte, mas pelo facto que contempla e tem contacto com um rol delas. Saio cada vez do Andanças com aquela “sensação” de que sou um cidadão activo, com uma vincada consciência social e ambiental, que vive sustentavelmente e em harmonia com os outros e o meio. Não me é nada difícil agir assim durante o Andanças, no entanto nas restantes 51 semanas do ano, marcar a DIFERENÇA não me assiste tão regularmente, admito-o. Ser o Voluntário no Andanças é o privilégio de viver o festival de uma forma mais integrada e intensa. Existe porém muita gente que não compreende esta opção, sendo regularmente abordado com a seguinte questão: Porque fazes voluntariado, gostas de trabalhar para aquecer? Às quais eu esboço um sorriso e respondo citando o célebre filósofo francês do sec. XVIII, Gérard de Rachel, “Le Benevolat est une façon d’étre dans la vie, c’est la liaisson entre ce que je suis et ce que je peux affrir aux autres.” Vasco Zeferina (controlo de entradas)

PORQUE PARTICIPEI NA COZINHA SOLAR DE ONTEM Há dois anos, no Andanças, tive o primeiro contacto com o tema da cozinha solar. É um conceito muito interessante pois permite aproveitar uma energia que de outra forma seria desperdiçada e permite ajudar na redução na nossa pegada ecológica. Já tive a oportunidade de fazer o meu primeiro forno solar, confesso que só há menos de um mês. Fiz a minha primeira tentativa de jantar e confesso que não correu muito bem, mas percebi porque é que correu mal. Neste Andanças, foi-nos proposto o desafio de fazer uma pausa para um almoço solar. Por caprichos do sol e do tipo de confecção, o almoço foi adiado para o jantar! Estava excelente: o menu consistia em sopa de legumes e vários legumes cozidos: batata, couve lombarda, brócolos, beterraba – o melhor da refeição, tudo cozinhado com pouco ou sem sal e sem azeite. Os legumes, que sabiam realmente a legumes, eram maioritariamente da horta aqui ao lado integrados na iniciativa km zero. O tema da cozinha solar está amplamente difundido na Internet. Basta fazer uma pesquisa e somos confrontados com vários tipos de fornos solares e de como os construir. No Andanças temos tido também workshops de construção

de fornos solares. Esta é a parte fácil! O difícil é começar a utilizar de forma sistemática. É preciso saber o que cozinhar e por quanto tempo. O tempo depende do tipo de forno, da orientação e do sol. É preciso errar, perceber o erro e fazer melhor da vez seguinte. É preciso mudar os hábitos pois este tipo de cozinha requer a antecipação do tempo de preparação da refeição. É também necessário fazer compromissos do que cozinhar em função da previsão meteorológica e/ou do tempo disponível, de manhã para a hora do almoço ou de manha para a noite. O que nos faz falta é uma espécie de “livro de receitas solares” com alguns tempos de execução indicativos para os fornos solares mais comuns, que nos indiquem o tipo de alimentos que se podem misturar devido aos seus diferentes tipos de cozedura, quais os que resultam melhor e outras dicas que nos ajudem a conseguir ter sucesso. Este é o desafio que deixo para o Andanças do próximo ano: um workshop de culinária solar. Da minha parte vou investigar e experimentar e prometo divulgar os resultados na Internet. Frederico Barata JORNALANDANÇAS

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GLOBAL

GOVERNO AUMENTA SUBSÍDIO A CASAIS DESEMPREGADOS E CRIA MERCADO SOCIAL DE ARRENDAMENTO Pedro Mota Soares apresentou esta manhã o Programa de Emergência Social (PES) proposto pelo novo governo. O Ministro da Solidariedade e Segurança Social referiu que o programa começará ainda este ano e vigorará até Dezembro de 2014, num investimento total de 400 milhões de euros no primeiro ano.

GOVERNO QUER AGRAVAR PENAS PARA FRAUDE FISCAL O Governo prometeu para Outubro a apresentação de um plano de combate à fraude e evasão fiscal que prevê a criação de uma moldura penal mais exigente para crimes de fraude fiscal agravada.

DIC A

Os mercados accionistas europeus abriram a sessão de hoje com fortes quedas, na senda do mini-crash de ontem e ambiente de pânico vendedor que se instalou nas bolsas mundiais.

CAIXA RECICLADA Farto de não saber como arrumar o carregador do telemóvel? Cansada de ver pulseiras perdidas sem destino? Experimenta fazer uma caixa ecológica! Só precisas de uma garrafa de plástico (de preferência de 1,5l). Divides a garrafa a meio e aproveitas a parte de baixo. Fazes vários cortes laterais de maneira a ficar como na imagem e vais ver como quase automaticamente a caixa de fecha e se abre! Uma óptima e útil ideia para reciclar.

Fonte: Publico.pt Ionline

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Colaboradores Mafalda Duarte, Ágata Melquíades, Sandra Santos, Victor Melo, Bárbara Abraúl, Francisco Pedro, Ana Mateus, Daniel Azevedo, Manuel Galrinho, Maria do Carmo Galrinho e Sara Correia | Colaboradores do Centro de Promoção Social de Carvalhais Marisa Araújo | Design Ana Mateus e Daniel Azevedo | Fotografia Manuel Galrinho e Maria do Carmo Galrinho | Fotografia da Capa Manuel Galrinho | Edição e Impressão Centro de Promoção Social de Carvalhais | Tiragem 18 exemplares A4 + 3 exemplares A5

JORNAL DISPONÍVEL EM PDF EM WWW.ANDANCAS.NET

Andanças 2011 jornal #5  

Jornal #5 do andanças 2011

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