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Capítulo 3

18h EET*, terça-feira, 13 de abril Departamento de História Universidade de Bucareste Bucareste, Romênia

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rofessor? Lucien Antonesco sorriu para ela de trás da enorme escrivaninha antiga, onde estava sentado, corrigindo alguns trabalhos.

— 

— Sim? — Então é verdade — perguntou Natalia, agarrando-se à primeira pergunta que lhe ocorreu, já que tinha esquecido completamente o que pretendia perguntar assim que os olhos escuros caíram sobre ela — que os restos humanos mais antigos já encontrados estavam na Romênia? Ah, não! Restos humanos? Que repugnante! Como podia perguntar uma coisa tão imbecil? — Os restos humanos mais antigos da Europa — disse o professor Antonesco, corrigindo-a com gentileza. — Os restos humanos mais antigos já encontrados foram descobertos na Etiópia. E têm em torno de 150 mil anos a mais do que os restos encontrados no que consideramos hoje ser a Romênia, na Caverna com Ossos. *Eastern European Time: Horário do Leste Europeu. (N. da T.)

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A garota estava ouvindo apenas parcialmente. Ele era o professor mais sexy ela já vira, e isso incluía os professores-assistentes. No equivalente da Universidade de Bucareste ao Avalieseuprofessor.com, o professor Lucien Antonesco tinha recebido nota máxima na categoria aparência. E isso era justificável, pois ele tinha mais de 1,80m de altura, ombros fortes e largos, cabelo cheio e escuro penteado para trás e uma testa lisa e linda. Como se isso tudo não fosse o bastante, o professor tinha olhos castanhos-escuros que, dependendo da luz, quando ele estava falando e ficava entusiasmado com sua matéria (o que acontecia com frequência, pois era apaixonado por História do Leste Europeu), e omitiam reflexos avermelhados. Com certeza as mensagens nos murais eram exageradas... Principalmente as que sugeriam que ele era aparentado com a família real romena e que era duque ou príncipe ou algo do tipo. Mas desde que tinha começado a frequentar as aulas do professor Antonesco, Natalia podia ver por que ele (e sua a matéria) era tão popular. E por que a fila de garotas e alguns garotos (embora quando mostrasse imagens de arte antiga romena, o professor Antonesco falasse com tanta apreciação das exuberantes curvas femininas que não havia possibilidade de ser gay), nos horários em que ele estava em sua sala, era tão longa. Ele era um orador talentoso, com imponente e envolvente presença... E era muito, muito gostoso. — Então... — disse Natalia hesitante, absorvendo o modo como o blazer de cashmere preto feito sob medida modelava aqueles ombros. Ela se perguntou por que não conseguia ver melhor os olhos dele, seus olhos escuros e brilhantes, e se deu conta de que era porque o professor tinha baixado as persianas da sala. Esperava que ele fosse notar que estava usando uma blusa nova, que mostrava bem o volume dos seios. Ela a tinha comprado numa liquidação da H&M, mas ainda assim a blusa a deixava irresistível. — Seria correto dizer que a Romênia é o berço da civilização da Europa. Isso, Natalia pensou, parecia bastante inteligente. 12

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— Seria uma ideia adorável, sem dúvida — disse o professor Antonesco, pensativo. — Certamente há seres humanos vivendo aqui há mais de dois milênios, e esta terra foi testemunha de muitas invasões sangrentas, dos romanos aos hunos, até que finalmente chegássemos ao que forma a Romênia atual... A Moldávia, a Valáquia e, é claro, a Transilvânia. Mas o berço da civilização... Não sei se podemos dizer isso. — Ele ficava ainda mais bonito quando sorria, se é que isso era possível. — Professor. O sorriso a desarmou. Ela sabia que não era a primeira. O status de solteiro dele era lendário, e a fofoca aumentava sempre que era visto com uma mulher, nunca a mesma, nos restaurantes chiques da cidade. Quantas ele havia convidado para ir ao castelo (ele tinha um castelo!) nos arredores de Sighis*oara ou para o enorme apartamento no bairro mais moderno de Bucareste? Ninguém sabia. Talvez centenas. Talvez nenhuma. Ele não parecia querer se casar e constituir família. Bem, tudo isso mudaria quando ele experimentasse a comida dela. Iliana, na fila para vê-lo a seguir, tinha debochado de Natalia quando ela disse que ia convidá-lo para sua casa. Tão antiquado! Ela disse que Natalia devia simplesmente se oferecer para dormir com ele bem ali, na sala dele, como Iliana ia fazer, e acabar logo com isso. Mas a mãe de Natalia sempre falava que ela fazia o melhor sarmale da família. Uma mordida, dizia a mãe, e qualquer homem seria dela. — Sim? — respondeu o professor Antonesco, uma das grossas sobrancelhas escuras se erguendo. Natalia desejou que ele não tivesse feito aquilo. Só o deixava mais atraente e fez com que ela se sentisse tola pelo que ia fazer. — Você gostaria de ir à minha casa para jantar uma comidinha caseira qualquer dia desses? — perguntou ela, meio depressa demais. O coração batia disparado. Tinha certeza de que ele podia vê-lo pulsando por trás do seio, considerando o quanto a blusa nova era decotada. Alguma coisa na sala pouco iluminada fez um barulho de trinado. 13

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— Perdoe-me — disse o professor Antonesco. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó caro e tirou um celular fino... O mais moderno, é claro. — Achei que tinha desligado. Natalia ficou ali parada, imaginando se devia dizer alguma coisa sobre o sarmale ou talvez abrir mais um botão da blusa, como Iliana teria feito... ... mas hesitou quando viu a expressão do professor Antonesco mudar quando o olhar conferiu o visor e identificou a chamada. — Lamento muito. É uma ligação importante. Preciso atender. Podemos voltar a falar sobre o assunto alguma outra hora? Natalia sentiu as bochechas ficarem vermelhas. E só porque ele estava olhando para ela... E mesmo assim, nem uma vez o olhar do professor desceu além do seu pescoço. — É claro — disse ela, envergonhada. — E, por favor, diga aos outros que infelizmente terei que terminar meu horário de atendimento mais cedo esta noite. É uma emergência familiar — falou o professor Antonesco enquanto aceitava a ligação. Emergência familiar. Ele tinha família? — Eu aviso — disse a garota, satisfeita. Ele confiava nela! Isso colocaria Iliana em seu devido lugar! — Obrigado — agradeceu o professor com polidez enquanto ela saía da sala escura e decorada com opulência, toda com mobília forrada de couro e cheia de manuscritos que eram muitos séculos mais velhos do que ela. Até o escritório do professor Antonesco era diferente daqueles dos outros professores, que eram tão vazios e sem graça quanto uma sede do partido comunista soviético. Ela abriu a porta, passou por ela e se virou para fechá-la... Mas não antes de ouvi-lo dizer, num tom de voz que nunca o tinha ouvido usar antes, e em inglês: — O quê? Quando? — E depois: — Não de novo. Natalia se virou e viu no rosto dele um olhar que fez seu coração revirar no peito. 14

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Mas não do modo alegre como acontecia quando ela o observava passar pelo corredor em direção ao auditório. Agora ela ficou com medo. Morrendo de medo. Porque aqueles belos olhos dele tinham ficado vermelhos... Da mesma cor que a água ficava quando ela se cortava sem querer enquanto raspava a perna. Só que isso não era um fio de água corrente. Eram os olhos de um homem. Os olhos dele. E eles ficaram da cor de sangue. O olhar dele a penetrava como se pudesse enxergar pela blusa, através do sutiã e chegar aos lugares mais íntimos do seu coração. — Saia — disse Antonesco numa voz que ela juraria mais tarde, quando fosse contar à mãe, que nem parecia humana. Natalia se virou, abriu a porta e correu por ela, passando com o rosto pálido como a morte pelos outros alunos que esperavam para ver o professor. — É, obviamente foi tudo bem — zombou Iliana. Mas quando Iliana tentou abrir a porta da sala do professor Antonesco, percebeu que estava trancada. Ela bateu várias vezes e, por fim, colocou as mãos em concha contra o vidro fosco e tentou enxergar lá dentro. — As luzes estão apagadas. Não consigo vê-lo lá dentro. Acho... Acho que ele foi embora. Mas como o professor podia ter saído de uma sala trancada se não havia outra passagem?

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Insaciável Capítulo 3  

Se ainda não leu o capítulo 1 e 2 não clique aqui. Volte para Library e veja os anteriores. ;) Mas se vc já leu, vá em frente e divirta-se!

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