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Capítulo 2

9h30 EST, terça-feira, 13 de abril Trem 6 Nova York, NY

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eena queria estar errada sobre a Srta. Borboleta. Só que Meena nunca errava. Não sobre a morte. Aceitando o inevitável, Meena soltou o poste de metal e deslizou para o assento ao lado da garota. — Então é sua primeira vez na cidade? — perguntou Meena à Srta. Borboleta, embora já soubesse a resposta. A garota, ainda sorrindo, inclinou a cabeça. — Sim. Nova York! — falou com entusiasmo. Ótimo. O inglês dela era basicamente nenhum. A Srta. Borboleta havia tirado um celular da bolsa e estava conferindo algumas fotos. Parou em uma e ergueu o aparelho para que Meena pudesse ver. — Vê? — disse a Srta. Borboleta com orgulho. — Namorado. Meu namorado americano, Gerald. Meena olhou para a foto pixelada. Oh, Deus, ela pensou. Por quê?, Meena se perguntou. Por que hoje? Não havia tempo para isso. Tinha uma reunião. E uma história para escrever. Havia a vaga de redator-chefe, disponível agora que Ned tivera um esgotamento 7

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nervoso na sala de jantar da rede de tevê durante as estatísticas de audiência de primavera. Redator-chefe era o cargo que dava dinheiro em um programa como Insaciável. Meena precisava de dinheiro. E tinha certeza de que a pressão não faria com que ela tivesse um esgotamento nervoso. Não houvera nada do tipo até agora, e tinha coisas demais com que se preocupar além da audiência de Insaciável. Uma voz de mulher foi ouvida nos alto-falantes do metrô, avisando que as portas iam fechar. A próxima parada, ela anunciou, seria a da rua 42, a estação Grand Central. Já tendo perdido sua estação, Meena ficou onde estava. Deus, Meena pensou. Quando minha vida vai deixar de ser uma droga? — Ele parece muito legal — mentiu ela para a Srta. Borboleta sobre Gerald. — Você veio visitá-lo? A Srta. Borboleta assentiu com energia. — Ele me ajuda tirar visto — disse ela. — E... — Ela usou o celular como se fosse uma câmera, tirando fotos de si mesma. — Fotos do rosto — disse Meena. Ela trabalhava no meio artístico. Entendeu exatamente o que a Srta. Borboleta quis dizer. E o coração se apertou ainda mais. — Então você quer ser modelo. Ou atriz? A Srta. Borboleta sorriu e assentiu. — Sim, sim. Atriz. É claro. É claro que esta garota bonita quer ser atriz. Fantástico, pensou Meena com cinismo. Então Gerald também era o empresário dela. Isso explicava bem o boné de beisebol (enfiado na cabeça a ponto de Meena não conseguir ver os olhos dele) e as inúmeras correntes douradas em torno do pescoço, na foto. — Qual é seu nome? — perguntou Meena. A Srta. Borboleta apontou para si mesma, como se estivesse surpresa por Meena querer falar sobre ela e não sobre o ultrafantástico Gerald. — Eu? Sou Yalena. 8

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— Ótimo — disse Meena. Ela abriu a bolsa, remexeu a bagunça e tirou um cartão de visita. Sempre tinha um à mão exatamente para esse tipo de situação, que infelizmente acontecia com muita frequência... Principalmente quando Meena andava de metrô. — Yalena, se você precisar de alguma coisa, de qualquer coisa, quero que me ligue. Meu número de celular é esse aí. Está vendo? — E apontou para o número. — Pode me ligar a qualquer hora. Meu nome é Meena. Se as coisas não derem certo entre você e seu namorado, se ele for mau ou machucar você, seja como for, quero que saiba que pode me ligar. Vou buscá-la onde você estiver. Dia ou noite. E escute... Não mostre este cartão para o seu namorado. É um cartão secreto. Para emergências. Entre amigas. Entendeu? Yalena ficou olhando para ela, sorrindo alegremente. Ela não entendeu. Não entendeu que o número do telefone de Meena podia representar a diferença entre a vida e a morte para ela. Nunca entendiam. O metrô parou na estação da rua 42. Yalena deu um salto. — Grand Central? — perguntou ela, olhando em volta nervosa. — É — disse Meena. — Aqui é a estação Grand Central. — Encontro meu namorado aqui — disse Yalena empolgada, dando um puxão enorme. Ela pegou o cartão de Meena com a outra mão, sorrindo. — Obrigada. Vou ligar. Ela quis dizer que ligaria para tomarem um café a qualquer hora. Mas Meena sabia que Yalena ligaria por um motivo totalmente diferente. Se não perdesse o cartão... Ou se Gerald não o encontrasse e desse um sumiço nele. Logo antes de dar um soco na cara dela. — Lembre-se — repetiu Meena, seguindo-a para fora do vagão. — Não conte para o seu namorado. Esconda o cartão em algum lugar. — Eu vou — disse Yalena, e foi até a escadaria mais próxima, arrastando a mala atrás de si. Yalena era tão pequena, e a mala, tão grande, que mal conseguia arrastá-la. Meena, aceitando o inevitável, pegou a parte de baixo da mala incrivelmente pesada e ajudou-a a subir a escadaria cheia de gente. Então indicou o caminho para Yalena. O namorado ia encontrá-la “debaixo do relógio” na “grande estação”. 9

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Depois, com um suspiro, Meena se virou e foi em direção ao trem que faria o caminho de volta, para que pudesse saltar na esquina da Madison com a rua 53, onde o prédio do trabalho dela ficava. Meena sabia que Yalena não havia entendido uma palavra do que tinha dito. Bem, talvez uma em cinco. E mesmo se tivesse entendido, não haveria razão para contar a verdade à garota. Ela não teria acreditado em Meena mesmo. Do mesmo modo, não havia sentido em segui-la agora, em ver o tal namorado e depois dizer a ele alguma coisa do tipo: “Sei o que você é de verdade e o que faz para ganhar a vida. E vou chamar a polícia.” Porque não se pode chamar a polícia por causa de alguma coisa que alguém vai fazer. Assim como não se pode dizer para uma pessoa que ela vai morrer. Meena tinha aprendido isso da maneira mais difícil. Ela suspirou de novo. Ia ter que correr agora se quisesse pegar o próximo trem... Só rezou para que ele não estivesse muito cheio.

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Insaciável Capítulo 2  

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