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Capítulo 1: TENHA MEDO DE MIM

Um dia você irá implorar pelo privilégio de lamber meus pés. Vai se agachar sobre seus estúpidos e inúteis joelhos e pedir: “Senhor, por favor! Por favor! Deixe-me lamber o cocô que os cachorros doentes deixaram no meio dos seus dedos.” (Estarei de pé e descalço sobre o tal cocô de cachorros doentes — só para deixar tudo mais nojento pra você.) E se eu estiver de bom humor e ainda não estiver farto de suas lágrimas de verme ou de sua estúpida e amassada cara, vou lhe conceder a extraordinária honra de limpar meus pés com a língua. Ainda que você não mereça. Mas isso faz parte do futuro. No momento, estou no sétimo ano. Na verdade, neste exato momento, estou na aula de Inglês do Sr. Moorhead enquanto ele tagarela sobre Fahrenheit 451. Moorhead se considera um professor “descolado” (Veja Imagem 1). Isso significa que ele ainda usa as mesmas roupas que usava na época da faculdade. Para infelicidade de Moorhead, sua vida universitária ficou dez anos e 20 Kg atrás. Suas pernas se parecem com dois balões de 5

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IMAGEM 1: Moorhead se considera um professor “descolado”.

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gás azuis cheios d’água quando ele usa seu jeans apertado. Ele não consegue mais fechar todos os botões da braguilha (Muito descolado, Sr. M!) e usa camisas de flanela xadrez que ficam meio abertas sobre sua barriga rosa-salmão. Ele está ficando careca, mas acha que se deixar o cabelo bagunçado o bastante ninguém vai notar. Ele também anda com um maço de cigarros guardado no bolso da camisa. Isso quer dizer: “Sou professor, mas não sou santo.” Na verdade, isso só faz com que seus peitos caídos pareçam maiores. Também quer dizer: “Eu cheiro mal.”1 Moorhead é um daqueles seres humanos desprezíveis que decidem dar aulas para que sejam idolatrados pelas únicas pessoas ainda mais desprezíveis que eles — alunos. O maior exemplo é Pammy Quattlebaum, uma espertinha puxa-saco que senta na primeira fila e fica balançando a cabeça afi rmativamente sem parar para mostrar a Moorhead que ela não só fez o dever de casa como entende exatamente o que ele está dizendo. Enquanto isso, estou no fundo da sala, desenhando coelhinhos nas folhas do meu fichário. Moorhead é descolado demais para dar aula de pé ou sentado. Para ser diferente, ele se reclina de maneira sexy sobre a mesa, o cotovelo apoiado no dicionário enquanto despeja seu conhecimento sobre nós. “O livro descreve um mundo de cabeça para baixo.” (Pammy concorda.) 1. O que é verdade.

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“Um mundo no qual bombeiros não apagam incêndios — eles os iniciam.” (Pammy concorda novamente, com mais ênfase dessa vez.) “Um mundo no qual a arma mais perigosa que você pode ter”... então ele mostra seu exemplar de Fahrenheit 451... “é um livro.” (Pammy concorda com tanta empolgação que posso ouvir seu cérebro minúsculo chacoalhando, como milho de pipoca estourando.) Simulando um pensamento profundo, Moorhead passa os dedos na penugem de pentelhos que decora sua careca. — O que vocês acham? Livros são perigosos? Teriam eles... poder? Pammy se agita na cadeira, o braço estendido para o céu. Aparentemente ela vai se mijar nas calças se não deixarem que responda a essa pergunta. Mas os olhos de Moorhead se deslocam na minha direção. — O que você acha, Oliver? Pammy olha para mim com cara de nojo. Alguns dos outros alunos da turma dão risadas e não se preocupam em escondê-las. Randy Sparks, o Garoto Mais Ridículo da Escola, para de lamber pasta de amendoim seca dos óculos por um instante e lança um sorriso solidário na minha direção. Moorhead dá um riso forçado, como se tivesse contado uma ótima piada. Eu tenho quase certeza de que só fui

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inscrito nessa aula — que está comprovadamente muito além da minha capacidade de leitura — para que ele pudesse se divertir com alguém (além de Randy, é claro). Fiz com que ele dissesse meu nome mais uma vez antes de responder: — Eu não sei. Desapontado, o rosto de Moorhead se enruga, mas seus olhos brilham de satisfação. — Oliver. Você não fez o dever de casa? Balanço a cabeça com tristeza. Moorhead suspira. Parece que ele está com vontade de chorar. Ou de cair na gargalhada. É como se seu cérebro não conseguisse decidir. Na verdade, li o livro quando tinha 2 anos. E mesmo então eu sabia que aquilo era comida de passarinho vomitada, só servia para idiotas e alunos do sétimo ano. Caso você seja tão sortudo a ponto de se livrar dessa, Fahrenheit 451 é um daqueles livros que contam quanto os livros são incríveis e como as pessoas que escrevem livros são maravilhosas. Escritores adoram escrever livros assim e, por algum motivo, deixamos que eles escapem dessa impunes. É como se alguém produzisse um programa de TV chamado Programas de TV são fantásticos e as pessoas que os fazem são geniais.2 2. Nome provável do próximo projeto de Aaron Sorkin. Ha.

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Em Fahrenheit 451, livros são ilegais (porque eles têm tanto poder) e o trabalho de um bombeiro é queimar, em imensas fogueiras, todos os livros que encontra. Isso deveria deixar você pirado.3 Moorhead anda até minha solitária mesa e pousa sua solidária mão no meu ombro. — É uma pena que você não tenha lido esse, amigão. Porque é um dos melhores livros escritos no século passado. Seus dedos peludos repousam em meu ombro como lagartas. Decido não mordê-los. Um dos melhores livros do século? Fahrenheit 451 não estaria nem entre as melhores gaiolas de passarinho do último século. E além do mais — mesmo se fosse “um dos melhores livros”... Isso lá é coisa para ficar se gabando? Não parece meio sem graça e datado quando comparado ao livro que, realmente, é o melhor? Não vale a pena ser bom em alguma coisa se você não for simplesmente o melhor. Se não, em algum momento, vai acabar esbarrando em alguém que pode derrotá-lo. É por isso que eu não tento jogar futebol, cantar no coral da escola ou dançar, ainda que eu tenha algum tipo de talento para cada uma dessas coisas. Em vez disso, me concentro no que sou bom: ser um gênio. 3. Planejo um dia fazer a festa Fahrenheit 451. Para entrar você precisa levar um exemplar de Fahrenheit 451. Então montamos uma imensa fogueira e... bem, tire suas próprias conclusões.

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Sou o maior gênio do universo. Sou o maior gênio na história do universo. Para completar, sou constantemente, incondicionalmente, inenarravelmente mau. Isso faz de mim a maior força maligna já criada. E o coitado do Sr. Moorhead acha que sou o garoto mais idiota de sua turma de inglês. O sinal toca. Moorhead me lança um último olhar de piedade, depois se vira para o quadro. — Leiam o capítulo seguinte para amanhã, pessoal. E lembrem-se: as indicações para o Conselho Estudantil devem ser feitas durante a próxima aula. Ele sorri para Jack Chapman, que abaixa a bela cabeça de forma modesta e, tímido, alisa o cabelo macio e ondulado com a mão. Jack vai se afastando, mas tem o apoio da multidão; vários tapinhas nas costas e incentivos: Você tem o meu voto, Jack. Fico remexendo meus livros para ver o que acontece em seguida. É hora do almoço. Como sempre, Moorhead alcança seu maço no bolso da camisa e tira um cigarro. Ele faz isso assim que termina a aula, ainda que ele não possa fumar na sala. Pela lei, ele precisa estar a no mínimo dez metros das instalações da escola antes de fumar seu palitinho mortal. Mas ele sempre pega um logo que a aula termina.

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Ele olha para o cigarro com desejo... Depois com surpresa. Ele segura o cigarro bem perto de seus olhos cansados de meia-idade. Tem uma mensagem escrita de forma clara no pequeno cilindro: SUA DIETA NÃO ESTÁ DANDO CERTO. Moorhead encara o cigarro por um momento, em seguida desvia o olhar; ele parece desconfiado e furioso. Mas eu e Pammy somos as únicas pessoas que ele vê. Ela também tem um olhar perdido, mas por outros motivos.4 Pammy lança um sorriso afetado para Moorhead, mas ele a ignora. Eu, um quase retardado, cantarolo uma música para mim mesmo enquanto procuro pelo meu lápis embaixo da mesa. As únicas palavras da canção são: “Três, por favor. Posso ver trêêês belas fotos...” Antes de se apressar para deixar a sala, Moorhead lança um olhar de desdém na minha direção. Mas a expressão de terror no rosto dele naquele único e inesperado momento de surpresa é realmente algo bonito demais de se ver. Três fotografias coloridas deste momento já estarão à minha espera quando eu chegar no meu armário.

4. Ela quer que ele leia um poema que ela escreveu sobre emissões de carbono. Um lixo. Um verso para exemplificar: Créditos de carbono são a resposta / Para o câncer que ameaça o planeta.

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Eu sou um gênio de maldade inenarrável e quero ser o seu presidente de turma, de Josh Lieb