Page 1

Geologia

Alternativa subterrânea Estocagem de CO2 é saída para frear aquecimento enquanto a Terra não for movida por energia limpa

O

armazenamento geológico de dióxido de carbono – um dos principais gases responsáveis pelo efeito-estufa associado ao aquecimento global – tem sido cada vez mais apontado como uma solução para deter as mudanças climáticas. Embora a maioria dos especialistas defenda essa alternativa, o armazenamento de CO2 no subsolo ainda suscita polêmica. Interessada em oferecer a seus leitores um panorama sobre o assunto, a CH On-line foi a campo ouvir o que dizem os pesquisadores. “A ideia é capturar CO2 de grandes fontes industriais (refinarias de petróleo, indústrias de cimento, mineradoras, vidrarias, siderúrgicas e outras) antes de sua entrada na atmosfera e armazená-lo muitos metros abaixo do solo, em formações geológicas seguras, onde ficaria preso por longo período, de pelo menos 500 anos”, explica John Bradshaw. Esse geólogo australiano é chefe-executivo do Greenhouse Gas Storage Solutions – subsidiária de uma empresa de consultoria petrolífera – e um dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Cerca de um terço das emissões de CO2 de origem humana vem de combustíveis fósseis usados para gerar eletricidade em indústrias. Se injetado em algumas das maiores fontes desses combustíveis, como camadas de carvão e campos de gás e petróleo, a atmosfera se veria livre de milhões de toneladas de CO2 por ano. “Mas não é possível armaze-

Emissão de dióxido de carbono em uma estação de energia em Londres. Cerca de um terço das emissões de CO2 de origem humana vem de combustíveis fósseis usados para gerar eletricidade em indústrias (foto: Philip Mackenzie)

nar o CO2 que já está no ar. Nessa fase ele está pouco concentrado e provém de inúmeras pequenas fontes espalhadas”, ressalta o geólogo João Marcelo Ketzer, coordenador do Centro de Excelência em Pesquisa sobre Armazenamento de Carbono, que resultou de uma parceria da Petrobras com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A injeção de dióxido de carbono no subsolo não soluciona, portanto, o crescente problema da emissão de CO2 por meios de transporte. “O volume de CO2 que geramos é tão grande que precisamos pensar em diferentes modos de reduzir as emissões”, diz John Bradshaw. Segundo ele, os projetos de sequestro de carbono em curso estocam apenas uma pequena parte do CO2 que deve ser removido da atmosfera para atingirmos os níveis desejados. Assim,

captura e estocagem geológica de CO2 surgem como opção de grande potencial, sobretudo se associadas a outras alternativas, como desenvolvimento de novas fontes de energia renovável e obtenção de maior eficiência energética. Para João Marcelo Ketzer, o armazenamento de CO2 é uma tecnologia de transição, enquanto os combustíveis fósseis não forem substituídos por fontes alternativas de geração de energia. “Temos que mudar nossa realidade de consumo, que hoje é de aproximadamente mil barris de petróleo por segundo.” Os reservatórios São quatro os principais tipos de reservatórios geológicos para armazenamento de CO2: formações geológicas oceânicas, aquíferos salinos (impróprios para uso 1


Geologia

humano), camadas de carvão e reservatórios de gás e petróleo, em operação ou não. O dióxido de carbono é capturado ainda nas fontes de emissão, antes de entrar na atmosfera. Em seguida, o gás é comprimido e transportado em estado líquido para ser armazenado na estrutura geológica adequada.

Muitas organizações consideram que vazamentos de dióxido de carbono podem causar sérios impactos, como a acidificação de mares e aquíferos, além da morte de milhares de seres vivos. Mas Ketzer desmistifica a tese de que o CO2 injetado seja tão maléfico Riscos quanto sugere o senso comum. Segundo ele, em todo o mundo Os detratores do armazena- muita gente se banha em gêiseres Segundo o IPCC, de 20% a 40% mento de CO costumam apondas emissões globais de CO2 pro- tar o risco de 2 vazamento do gás (nascentes termais que entram venientes de combustíveis fós- injetado em formações geológi- em erupção e lançam gases), que seis poderiam ser tecnicamente cas como uma de suas principais têm uma concentração de CO2 adaptados para armazenamento desvantagens. No momento, es- muito maior que a de poços e reaté 2050. Até 2100, calcula a or- tão em curso vários estudos para servatórios. “No entanto, nem a ganização, de 220 bilhões a 2,2 avaliar essa hipótese. Como os re- fauna, nem a flora – muito menos trilhões de toneladas de CO2 po- servatórios apresentam riscos es- pessoas – são mortas pelo gás”. derão ser estocados na crosta ter- pecíficos, cada um deles deve ser Mas os impactos podem ser restre, abrangendo de 15% a 55% avaliado detalhadamente. graves dependendo do vazamenda poluição mundial até o fim do to, salienta Eurípedes Vargas Jr. Na opinião de Vargas, riscos de Ele lembra que em 1986 houve século. vazamento, ainda que pequenos, Devido aos altos custos de sempre existem. “São toleráveis um vazamento para a atmosfera, produção, transporte e armazena- os que podem ser remediados decorrente de causas ainda mal mento, a estocagem é, ao menos tão logo identificados”, pondera. conhecidas, de grande quantidade por enquanto, inviável economi- Já João Marcelo Ketzer é otimista de CO2, inicialmente dissolvida na camente. “A captura e a compres- com relação a essa questão. “Se água do lago Nyos, em Camarões, são do CO2 respondem por 60% houver escapamento, será em pe- África. À noite uma nuvem do dos custos; o transporte e a inje- quena quantidade e por um curto gás varreu os vilarejos próximos. ção, 40%”, esclarece Ketzer. Novos período, diferentemente do vaza- Como o CO2 é mais denso que o ar, estudos estão sendo feitos a fim mento de outros gases, conside- ele permaneceu próximo do solo de reduzir esses custos. “É caro, rados perigosos, que ocorre em e matou 1.700 pessoas durante o mas os governos têm que definir grande quantidade em longo es- sono. “Isso mostra o poder letal de um vazamento”, conclui. Mas metas”, considera John Bradshaw. paço de tempo”. “Até agora, foram gastos US$ 1,7 trilhão na guerra do Iraque; com essa quantia, muito poderia ter sido feito em pesquisas nesse campo. A questão é decidir se queremos pagar por nossos atos agora ou depois.” A escolha de reservatórios para acumulação de CO2 deve ser feita com muito critério. “Diversos programas de monitoramento e métodos de remediação para estancar possíveis vazamentos estão sendo estudados”, explica João Marcelo Ketzer. Para Eurípedes Vargas Jr., pesquisador do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio, essa seleção exige um conhecimento detalhado do comportamento do CO2 em cada formação. Esse comportamento 2

depende de propriedades dos materiais geológicos que compõem as formações – como permeabilidade, deformabilidade, resistência, heterogeneidade – e de especificidades dos projetos de injeção.

Visão geral dos diferentes métodos de estocagem de CO 2 em formações geológicas profundas: 1) armazenamento em reservatórios de petróleo e gás vazios; 2) uso de CO 2 para otimizar a extração de petróleo e gás; 3) formações salinas no mar (a) e no continente (b); 4) uso de CO 2 para otimizar a extração de metano ou gás em camadas de carvão (arte: IPCC)


Geologia

Um camponês ao lado de seu rebanho morto pelo incidente no lago Nyos, em Camarões, em 1986 (foto: Crobis)

João Marcelo Ketzer lembra que as condições geológicas dos estoques subterrâneos de CO2 e as do lago Nyos são completamente diferentes. Atuação brasileira Segundo Ketzer, o Brasil, graças às suas bacias sedimentares, tem enorme capacidade de armazenamento geológico, da ordem de 2 trilhões de toneladas de CO2. “Isso equivale a décadas de emissões globais nos níveis atuais”, compara. Com esse potencial, o país tem oportunidade de se tornar um importante ator no processo de mitigação das mudanças climáticas. Ainda neste semestre a Petrobras começará a estocar CO2 nas bacias de Campos, no Rio, e Miranga, na Bahia. Além disso, estuda fixar o gás em florestas de pínus, bambu, eucalipto e em microalgas. A companhia já participa de projetos internacionais

nesse sentido, como o CCP2 (CO2 1990, quando a ideia ganhou creCapture Project), que envolve as dibilidade. principais empresas de petróleo e O primeiro projeto de estoenergia do mundo. cagem de CO2 em larga escala no Apesar disso, as pesquisas mundo foi iniciado em 1996 pela mais importantes na área não são Statoil, gigante petrolífera noruebrasileiras. Quando se analisa o guesa, e suas parceiras, no campo mercado mundial de sequestro de de gás de Sleipner, no mar do Norcarbono, nota-se um crescimento te. A estocagem, em uma formação exponencial da participação de salina situada a 250 km da costa da países asiáticos, que ultrapassa- Noruega, é de um milhão de toram a América Latina como princi- neladas de CO2 por ano. A British pais atores internacionais, respon- Petroleum, poderosa empresa de dendo hoje por mais do dobro de petróleo britânica, estima que as projetos em desenvolvimento. reservas no mar do Norte podem estocar todo o CO2 produzido em Passado, presente e futuro 50 anos pelos processos de geração energética da Europa. Segundo A injeção de CO2 em forma- John Bradshaw, seriam necessários ções geológicas subterrâneas foi 3.500 Sleipners para solucionar o inicialmente feita no Texas, Esta- problema das emissões do mundo dos Unidos, no começo da década inteiro. de 1970, para facilitar a extração De acordo com a Agência Interde petróleo, já que o dióxido de nacional de Energia, existem cerca carbono deixa o petróleo mais fluido e leve. Mas pouca pesqui- de 150 projetos de estocagem de sa foi feita até o começo dos anos CO2 em andamento no mundo. Os 3


Geologia

Duto que transporta CO 2 de Beulah, nos Estados Unidos, até a unidade de produção de petróleo de Weyburn, no Canadá. O projeto de armazenamento desenvolvido ali injeta diariamente 5 mil toneladas de CO2 em um poço petrolífero (foto: IEA Weyburn CO 2 Storage and Monitoring Project)

cientistas estimam que, em média, um único projeto poderia remover um milhão de toneladas de CO2 da atmosfera a cada ano – o equivalente a emissões liberadas por 100 mil carros de passeio no mesmo período. Nos Estados Unidos, as gigantes General Electric e ExxonMobil – segunda e quinta companhias mais importantes do mundo, respectivamente, segundo relatório de 2008 da revista norte-americana Forbes – estão entre os diversos patrocinadores de um projeto de energia e mudanças climáticas da Universidade de Stanford (EUA), que estuda mecanismos de armazenamento e monitoramento de CO2. Na Alemanha, os primeiros trabalhos visando armazenagem de CO2 tiveram início no fosso de teste em Ketzin, em Berlim. O objetivo do Centro Nacional de Pesquisas em Geociências daquele país é estocar 60 mil toneladas de dióxido de carbono até o final do projeto. A quantidade de gás que os pesquisadores esperam aprisionar no subsolo em dois anos corresponde à que a população da cidade de Potsdam – com aproxima4

damente 145 mil habitantes – expira no mesmo período. No Canadá, o projeto Weyburn injeta 5 mil toneladas de CO2 diariamente em um poço petrolífero, com dupla vantagem: o gás injetado facilita a extração de petróleo e, ao mesmo tempo, estoca em profundidade o dióxido de carbono de uma planta de gaseificação de carvão localizada no estado de Dakota do Norte, nos Estados Unidos, que é levado por um gasoduto. Outro projeto importante é o de Salah, na Argélia, comandado por grandes empresas do ramo, como Sonatrach, British Petroleum e Statoil, que estão injetando CO2 a 1.800 metros abaixo da superfície terrestre. É evidente o surgimento em todo o mundo de novas formas de absorção e armazenamento de carbono como alternativas para atenuar os problemas causados pelas mudanças climáticas. Embora hoje essas tecnologias ainda sejam economicamente inviáveis, deverão em futuro próximo ajudar a solucionar, ao menos em parte, as graves consequências do aquecimento global.

[Luan Galani] Alternativa subterrânea  

Estocagem de CO2 é saída para frear aquecimento enquanto a Terra não for movida por energia limpa

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you