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Longevo quando, se é pergunta, é quase perguntar: longevo quanto? E se observarmos como aparecem, neste Longevo quando, coisas como instante e momento, com que força e urgência ressurgem ao longo das páginas termos como arder e agora, veremos que longevidade pode ser questão de intensidade.

longevo quando - gabriel ramos

O que ardeu por segundos, dada a intensidade com que ardeu, perdurou por tempo demais, a despeito da objetividade cronológica. Por outro lado, o que arde e se consome – como o agora – pode parecer pouco diante do vazio do que se extinguiu. Longevo quando? Quanto? Poderia ter sido mais? Deveria ter sido tanto? Neste Longevo quando, tudo é pungente. Na leitura dos poemas breves, que desenham as páginas com formas coloridas pelos jogos com a sonoridade das palavras, somos conduzidos de um verso a outro velozmente. Mas se isso faz pensar em incoerência com o título, reconsidere – aqui, tudo é longevo quando: intenso. Fernando Marques

gabriel ramos


gabriel ramos

longevo quando

Quorum . Vit贸ria 2012


longevo quando Gabriel  T.  Ramos   Vitória,  Espírito  Santo,  Brasil Abril,  2012 Título:  Longevo  Quando 1ª  edição ISBN    978-­‐85-­‐60244-­‐01-­‐0 Quorum

Organização Sâmya  Lievore Revisão Herbert  Farias /ůƵƐƚƌĂĕĆŽĞƉƌŽũĞƚŽŐƌĄĮĐŽ Renato  Pontello

Este conteúdo   é   licenciado   sobre   a   proteção   ƌĞĂƟǀĞ ŽŵŵŽŶƐ ĚĞ ƚƌŝďƵŝĕĆŽ͕ hƐŽ ŶĆŽͲ ĐŽŵĞƌĐŝĂů Ğ ŽŵƉĂƌƟůŚĂŵĞŶƚŽ ƉĞůĂ ŵĞƐŵĂ licença.


dedicado ao tempo de sermos o que nos permitimos ser.


APRESENTAÇÃO E AGRADECIMENTOS Escrever sobre a existência – condição infinitamente única de cada um – exige de mim um pouco de loucura e equilíbrio, o que me torna um errante num caminho ainda novo. Traduz-se aqui por longevo quando meu primeiro ensaio poético sobre esta existência, exprimido na linguagem das letras, que compila poemas autorais feitos entre os anos de 2007 e 2010, cujo título indagativo discorre sobre o tempo que nos é presente. Anteriormente, o livro teve o nome provisório de Eu quase guardo no peito, entretanto vi a necessidade de nome mais amplo, já que nada realmente provém de mim, mas tudo provém de tudo. A palavra longevo me trouxe boas reflexões por ser adjetivo que manifesta o duradouro, de muita idade, o maduro. Traz por si só a tranquilidade, a sabedoria, além de conter o radical longe, palavra pequena que se agiganta no significado que contempla tempo e espaço. Já a palavra quando é questionadora, impositiva e apressada; requer respostas como a selvageria do mundo espera de nós. O título é uma (não) pergunta contraditória como o próprio ser humano: quando se é, ou deve-se ser, longevo? E a minha resposta para isso é a poesia em si, que se torna longeva e infinita depois de colocada no papel. Essa minha maneira de expressar foi descoberta por acaso em um momento no ensino fundamental, quando a professora nos pediu um poema para a sua disciplina e eu nunca houvera escrito algo parecido. Uma amiga escreveu sobre não saber fazer um poema e aquela metalinguagem – que eu nem imaginava existir – fez apaixonar-me desde então pelas palavras. Escrevo desde os 13 anos e nunca mais parei. Tive fotologs, blogs e ainda tenho. Lá expurguei toda a minha vontade, raiva, amor e especialmente: minha reflexão sobre o viver e sobre a palavra. Resumo meu processo criativo de escritor por meio da própria poética da escrita, fazendo-se presente até mesmo no título.

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Sempre houve quem acompanhasse de perto este meu trajeto e devo muito a cada companheiro, especialmente ao incentivo à leitura, responsabilidade fiel de minha mãe, Sidirlene, e de minha avó, Adelaide e ao conhecimento e respeito assumido por meu pai, Silvio. Agradeço a minha irmã Carolina, leitora assídua, e me orgulho muito de ela ter enveredado pelo mesmo caminho. Agradeço ainda àqueles que de muito próximo contribuíram para o surgimento deste livro: à Sâmya Lievore, pela ajuda, zelo e carinho incondicionais; ao Leandro Carmelini, pelos aprendizados diários sobre a vida; à Jiulia Caliman, pelas amáveis palavras certas; ao Leonardo Izoton, pelas conversas maravilhosas; ao Rafael Machado, pela fraterna lealdade; à Milena Paixão, pela eterna distância sempre próxima e por ter aceitado fazer parte deste livro; ao Renato Pontello, pelos conselhos e rabiscos magistrais que aqui se apresentam; ao Fernando Marques, pela confiança e sinceridade; à Aline Yasmin, pela grande força e atenção; ao Herbert Farias, pelo carinho e solicitude; à minha madrinha Cláudia Bozi e meu padrinho Fabricio Guedes, pelos amáveis anos de apoio irrestrito. Listo ainda meus bons amigos, de mesmos interesses, leitores e comentaristas eternos: Lis Motta, Thalita Covre, Bárbara Carnielli, Wanisy Roncone, Laíssa Gamaro, Leonardo Almenara, Lorenzo Lube, Camila Dini, Thiara Pelissari, Clara Sampaio, Gisele Gavazza. Agradeço ainda à equipe Poetas no Espaço – desde os de apoio braçal aos de pensamentos positivos – e ao Permear, por ter me feito enxergar mais poesia no mundo; aos amigos do Cemuni III que me mostraram uma outra vida possível. Um agradecimento especial aos professores Clara Miranda e Nelson Lucero por me apresentarem mais poesia e por me fazerem crescer. Por fim, agradeço às pessoas próximas e às que sempre se mostraram interessadas no meu trabalho.

Gabriel Ramos 7


PREFÁCIO

Entra na vida tomando-a instintivamente pelo lado do inexprimível, concebendo-a como matéria de estilo, confundindo-a com a arte na sua significação. ARARIPE JUNIOR

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Palavra, de alguma forma, é matéria. Assemelha-se à água. Pode ser vento, ou blocos de madeira, ou pilha de britas. A palavra se dá às correntezas, assim como ao trabalho árduo do operário – os pregos, as estruturas. Gabriel Ramos entende tudo isso. Arquiteto por formação, sabe levantar seus pés-direitos do tamanho preciso do seu sentimento, e faz surgir uma poesia que é mais que concreta: é poesia-concreto, poesia-ladrilhos, poesia dos dedos pequenos das crianças que caminham com o braço direito erguido pelas calçadas, tocando as casas nesse passar, sentindo as texturas. Chapisco, tinta lisa brilhante, grades. Gabriel é um poeta de dedos empoeirados. Os poemas contidos neste livro, espaço arquitetônico de sonhos, plasmam os cômodos-estados-de-espírito do autor. Gabriel vai construindo, tal Le Corbusier, essa grande Cité Radieuse de forma progressiva, até culminar na última Curva, geniosa e cheia de volúpia como as de Niemeyer ou Gehry, passando por paredes falsas, espaços repletos de ecos, estantes ornadas por objetos impossíveis e torneiras sempre abertas que vertem água em velocidades distintas. Os andares superiores têm sempre essas nuvens rentes ao teto: a incerteza deliciosa dos limites da criação. Ler Gabriel Ramos é entrar num âmbito de identificação instintiva, é experimentar junto com ele os sons e os sumos das palavras, movendo-se entre o etéreo e o mundano, entre vozes masculinas e femininas, dei-xando-se guiar pelos ritmos estabelecidos do mesmo jeito com que se transita por escadas de degraus de tamanhos diferentes – umas vezes ascendendo, outras descendendo ao mais profundo, ao porão onde a existência é mais espessa e a linguagem mais compacta. É comprovar, enfim, as palavras de Oswald de Andrade: Tudo em arte é descoberta e transposição.

Milena Paixão

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SUMÁRIO - a palavra

a palavra gota culto vento constatação feliz

- de braços abertos ou da água acontecerá quando azul marinho líquido

- sobre o siso

narciso (o siso) eu contra narciso (o siso)

- de peito aberto

toda vontade nossos as cores segunda feia sede essa ardência de peito aberto sentimento sente às vezes de fronte aberta sentimento foi voar madrugada até breve

- senhora chuva longevo senhora chuva nuvem

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20 21 22 23

24 25

27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40

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- o mistério de um ser quando dois

considerações de uma gestante considerações de um recém-nascido

- repentes e cronicassambas

procurei serpente em cada parte de mim madrugada adentro momento III par de olhos verdes na parede samba seco psicotrama coração em fases quem é demora satisfação fúnebre vida e morte como boiada silêncios parto normal

- arquitetar-se

curva como caber num quadrado

- instante

outdoor tido todo o todo lentidão não-tempo momento conta-gotas seu ar sozinho momento II vida toda minha

47 48 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64

66 67

69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79


a  palavra


a palavra a palavra ida assim pela boca desaba desĂĄgua abre minha lĂ­ngua num instante em poesia falada como numa vasta ilha molhada de tanta saliva


gota quente e densa escorre vagarosa e belamente pelas costas vis dum pobre rapaz que roça os olhos hábeis por suaves e tenras lentes grandes de óculos grandes e inertes tortos e sujos espantosamente opacos através do banho gelado densa e úmida imersa em mares que só fazem dormência em sua pele bruta que lava os olhos com tamanha voracidade qual quando entrou em sua alma a gota da poesia


culto culto quem cultua cultura

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v

e

n

t

o

tudo agora veio e foi e saiu como aquela folha que veio e foi e soltou a poeira deixada na janela como tudo que agora veio e foi e veio sem freio sem guia ou arreio agarrei as pontas de meus dedos arranhados e ainda por cicatrizar Ă borda da janela pra ver a folha que veio e foi como a poeira solta da janela que veio e foi por meus pulmĂľes e agora tusso e s p i r r o como quem vem e vai como quem quer que seja foi e era simplesmente por ser e ter sido como a folha do poema


constatação seria mais fácil eu rapaz de muito ferro e cálcio com o sangue pulsando no lácio a curto tempo e espaço quais as quentes chuvas de março pegar a moça pelo braço e se me perguntar sobre meu traço o porquê da escrita de aço e de todo esse embaraço eu finjo a cara que faço e acabo por dar-lhe um amasso e ponho fim nesse laço que já tarda meu compasso


feliz feliz se faz feito a folha que foi fadada ao fim fino sabor de fruto cítrico que não se molda fruto foi a folha que se findou feito fuligem enfeando a fria sexta-feira a fio enfileirada de fumaça


de braços  abertos  ou   da  água


acontecerá em que lado está o outro o outro lado de lá de que lado sou corpo em meu eu bem cá eu caio canto caibo saio um tanto quanto eu muito em que desabo de tudo que aconteceu acontece assim como acontecerá noutras pétalas de água afim de outra maré a boiar por cima de mim acontece que como já aconteceu não mais acontecerá noutras partes do seu rosto acobertado de mar

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quando ando a nado e nada ando atĂŠ o pĂŠ pelejando pensando ser quando


azul marinho azul marinho mar azulzinho faz mais sol de tarde dentro da tarde retarde retarde o tempo da gente azul marinho mar azulzinho faço mais soul que popart toda arte retrate retrate o tempo da gente azul marinho mar azulzinho faz mais mal só do que solto todo torto trate trate de arrumar tempo pra gente azul marinho mar azulzinho


líquido de mãos dadas no dar-se eterno do corpo dar-me vou etéreo solto qual um louco torto feito pouco pondo tudo dentro de um todo depois de pronto o sumo ponho de molho limo duro líquido vazio do copo cuja textura pura tomba prum outro


sobre o  siso

narciso (o siso) narciso conscientemente cisalhou seus punhos serenos esperando sabiamente meus poros explodirem quais estrelas que sobem e descem quais segredos que se escondem e crescem assim esperei o soco narcisista o soro na vista o sal sanguíneo conciso descer e cicatrizar incapaz de cisalhar o siso cerrei os olhos e palavrões sussurrei isto saiu e berrei


eu contra narciso (o siso) só não faço explodir essa dor essa dor de rasgar a gengiva só não mato não sinto e não cheiro essa cor essa cor tão viva que se esvai de mim num frenético sentir assim que se vai só não faço porque não posso não sai não posso porque realmente não faço e não sinto fazer não quero fazer doer quero gritar enfim quero colocar esse fim aqui sem querer finalizar em mim

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de  peito  aberto


toda vontade toda tarde arde louca toda sede cede a boca toda pele anda à solta toda mão quer a outra toda vida grita rouca toda vontade grita rouca toda vida quer a outra toda mão anda à solta toda pele cede a boca toda sede arde louca


nossos para destacar-me e engendrar-me em outros eus tantos mins pelos quais percorro através de muitos seus que me faço todo único mas pouco meu prefiro tentar impedir-me de tantas tentativas poucas nulas tantas curvas por que me traço me esculpo me escondo num devir frenético de tantos meus seus nossos vossos corpos tatuados uns sobre os outros confesso gostar de tamanha velocidade grosseria estupidez sensualidade me imagino ser seu por outro meu todo sentimento de ser todo seu


as cores as cores marcam meu peito e saltam de meus pulmões insuflando minha alma de vontades de ter as cores em nós atados de mãos e pés atritados as cores esquecem-se de ser minhas fugas diárias aquecem meus dias de fúria as cores monocromáticas sensuais por sobre minha cama me acordam num dia nublado e cinzento as cores policromáticas e audaciosas querem minha carne agora


segunda feia armar uma forma mesmo que disforme de meus pés caminharem a favor do vento duro que bate bate bate e faz calor eu sei faz calor demais procurei histórias e fatos cacos buracos e farrapos pra eu me encontrar novamente como um traidor que procura a nova dama enquanto a sua o espera nem quero que você saiba mas como um invólucro duro que fica fica fica me envolvi nessa trama armada de uma forma realmente disforme quero ser dor porque a dor marca quero ser a dor boa de doer como eu sinto quando eu lembro que é mais uma segunda-feira feia feia feia e você vai vai e foi

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sede olho o buraco na parede parece verde parece verde fito o retrato da parede parece rede parece rede olho-a encostada na parede parece sede parece sede sede sede sede


essa ardência hoje ardo com uma vontade de passar o mundo queimando amando e sendo amado não pretendo no entanto ser guia ou guiado só esse sentimento que pulsa e expulsa coloridas e invertidas sensações não espero pelas estações não passo de um irrequieto e completo idiota mas prefiro assim sem outra coisa aqui dentro queimando arrancando uma vontade louca de gritar me chama e me ama me espera e me leva me leva contigo antes que tudo que eu diga agora se inverta em outra hora se resuma a ir embora hoje ardo como uma brasa louca rouca fosca boba tola não me importa se queima se dói se rima se mói se luta se chuta se te incomoda me importa a roda todos olhando para mim me chamando de calhorda de outro novo cara que aqui está e é é e está sempre é sempre está


de peito aberto abri meu peito em meio a tanta forma mais abstrata hão de arranhá-lo e destruí-lo coloquei como subserviência o início e como pretexto de sorriso o fim


sentimento nĂŁo sei dizer o que em mim se torna meu dentro de mim fonte do meu ser e da minha explosĂŁo de seres outros eus minha caracterĂ­stica por tanto sentimento


sente a água quente derrama fogo e inunda minha alma molha-me todo espera e para a água quente derrete meu corpo e minha alma salta cria forma num sopro a sorver em febre alta molho meu olho quente não sei se pelo fervor da água ou pela ardência latente não sei se pelo furor da mágoa ou pelo coração dormente olho meu olho molhado qual enchente só sei que minha única arma é aquilo que se sente só sei que o que me cala é agora e sempre

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às vezes às vezes me sinto embebedado pelas dermes que absorvo esquivando-me da ventura e do estorvo fazendo de cada retalho um atalho cobrindo minha alma açoitada pelas noites quentes de corpos quentes às vezes preciso de outras noites adentro pensando esculpindo meu tormento, como uma verdade que precisa ser escutada como uma saudade que precisa ser calada de corpos quentes densos presos uns aos outros meus olhos rentes fixos respirando próximo a tantos


de fronte aberta defronte o encontro em que me entronco de frente prontamente me desnudo em nu frontal e escondo desbundadamente abund창ncias e coisa e tal


sentimento foi voar a ruir o resto da dor que arranha e rasga o corpo sentimento que se esguia e espera a ruim dor que resta que abre entranha e arde rouca espera o segundo surgir


madrugada o tardar da madrugada que só me amedronta rasgada de tamanha distância que meus olhos têm de tua outra nova ânsia mordida dentro do peito de dor roído por meu fogo dentro de mim agora


até breve por outra fresta rasga o corte e deixa a sorte fazer a festa chama outra nova vida de nova para outra velha ferida ser posta à prova põe o óbvio como questão a falta de tempo como indecisão para tanta pouca vida ser indigesta se extingue a pressa a dor e me diz até breve amor

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senhora  chuva


longevo longe me vou no tempo a caminho de ver a idade ruir perco meus olhos no cĂŠu a se tingir num cinza-tempestade espero quieto a longevidade da chuva cair


senhora chuva chuva surda bate palmas e não a observo retumbante barulho pelo cÊu alvinegro me ergo ao ouvir trovejos e esqueço quando caem as gotas por cima de mim


nuvem chuva crua nua lerda passa a léguas de mim num pé d’água de nada nado nu a imaginar nuvens nas outras nuvens num novelo simétrico qual o tamanho do banho de água ácida caída de cima insaciada de sal no ar azul do cume cru da nuvem nua que vem por trás da lua no mar

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o mistério  de  um  ser   quando  dois


consideraçþes de uma gestante um ser em mim outro


considerações de um recém-nascido espaço por ser para ser outro ser sem espaço de ser


repentes  e   cronicassambas


procurei ora mas agora agorinha eu procurei por ti novamente como sempre como sempre faço em cada esquina cada quina em que esbarro em cada droga cada guimba de cigarro cada nova cada experiência mal sucedida que em seguida ia sempre embora como se eu fosse cuspida como se fizesse uma hora de quando me deixou perdida procurei por ti em meu seio casto em meu ventre farto te procurei alucinada te procurei alienada te procurei na dor do parto até em cama de gato te procurei falante e calada te quis toda em todos os quartos seca ou molhada e só de meias três-quartos mas nada nada me fez te achar hoje não sei mais o que fazer não tenho mais o que comer não tenho mais o que dizer ou crer não tenho mais o que saber o que sofrer hoje tudo é só passado mas acredite ainda ardo só de pensar em você 50


serpente entre em minha alma latente cheire olhe experimente pulse compulsivamente suba qual adolescente que queima rente Ă rima presente pungente espere e sente seja onipotente concomitantemente ao inconsciente carente que despretensiosamente se faz gente e sente olhe invariavelmente atente ao repente que de repente o vertente serĂĄ semente potente possivelmente de outro ente doente seja somente a enchente que preenche meu corpo descrente qual brasa ou aguardente meu lĂ­quido entorpecente que sempre incandescente desce quente e mente


em cada parte de mim porque me contorço me retorço destroço meu traço porque me estrago me estraçalho e caio do rodapé ao cabeçalho rodopiando sem atalho de cabeça partindo o raio ou o raio que a parta eu que estou farto de tanta falta de contorção estou um caco me falta coração me sobra coração sou braço e sou mão sou pé e sou chão mas me faltam partes me faltam sãos que olhem e molhem meus prantos aos quatro cantos pois sou todo sopro arredio sou todo arrepio solto sou pedaço de inteiro sou um inteiro pedaço despedaçado e colocado em cada parte de mim


madrugada adentro madrugada adentro eu mais dentro calada calo vento madrugo tento rebento arrebentar-me pôr à prova a ferida fera urgida ardida sangrada uma nova loucura sentida e sentar-me mas me sinto banida da surdina do segredo guardado de dentro tão cedo pra fora do ledo engano mundo mundano mas eu mais dentro molhada de medo sigo ardendo ou queimando tanto faz quem diz ou faça com faca com cor amor ou nada madrugada corroendo de fora pra dentro me sinto gelada num prato frio de feijão sem liga mas dura a noite sem sorte sem ritmo sem sal nem bebida insensata constatação de estar dentro e fora no calor e frio da madrugada que gela pulmão a sais em calor dum ontem hoje já quase agora ou talvez quem vá saber nunca mais


momento III como tocar se sempre tremo quando dorme como dormir se sempre me toca quando tremo como tremer se sempre durmo quando me toca


par de olhos verdes na parede o olho olha a parede em foco monocular o molho ocular olha a parede sem foco melhor focar os รณculos na parede que molhar na parede sem รณculo focado olho a parede focada em monรณculo parece folheada de olhos molhados molha parecendo folha molhada olha parecendo molhos de folha foca na parede olhada por molho ocular olha como parece folha de molho olho como parece que olho melhor melhora que parece รณculo รณculo molhado pelo molho na parede olho o olho monocular parece parede molhada sem foco parece que o foco foi para a parede molhada que olho olho

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samba seco (vou) multiplicar-te os olhos mil escapulir-te da mão viril esperar por toda a vida a fio sem mesmo a certeza do fim (vou) especular-te ao furor carmim metrificar-te à medida assim caminhar pelas tuas pernas cruas galgar numa ou duas danças nuas evidenciar cada cicatriz da lua que insiste em esvair-se de ti


psicotrama lusco-fuscos me assustam de luz sem foco opacos azuis cometas quentes quais sóis em dias nus em corpo de chama fazendo jus ao que ama cidade-luz você é uns quase outros outros qual um que anos-luz puseram a dois a cama de iluminada trama à luz de sombras insanas suspeitas silhuetas quais seus seios de proveta ao som do sossego ao silêncio feito a dedo você é o que sabe como luz


coração em fases meu coração é meu coração já será meu coração acelerado bate pouco bate por não bater sente pouco sente muito por não sentir meu coração ainda é meu coração ainda será meu coração mudo acelera mudo por emudecer acelera emudecendo emudece sentindo por não acelerar meu coração ainda era meu coração será meu coração não me cora de emoção me ancora na solidão sólida couraça meu coração sem emoção meu coração sem cor minha cor sem ação meu coração era meu coração seria meu coração bate bate por viver não vive por bater vive batendo às pressas pra eu sentir pressa pra eu sentir meu coração bater meu coração é meu coração já era


quem é vê aquela sentada sobre seus ossos longos vem sentida olhos como se fosse vendada corpo como quem é vendida sem histórias fabulosas de menina sabida ou de mulher safada olhos negros contrastando à língua mal vivida amarelada traz sua sombra recolhida recostada assombrosa na noite destruída destilada pela chuva com suas pernas grossas mal vestida intocada pela vida não generosa fora esculpida fora culpada sua mão de labuta traída trabalhada sobre a coluna distraída destroçada mal amada e ao ocaso sem vida com tenro buço de fada de frida com nariz de mulher flagrada frígida sem a dor constante da ferida da espada sob a penumbra tênue da lua alada e aludida contra o vento foi perdoada e perdida leva o fardo aturdida saturada esperando o sol brilhar intenso contida e com nada urge ao rubro beijo do amor noutra sem saída ensaiada corre o mundo mundano sem ser querida sem ser quietada vacila o passo encontra o fim desaparecida desacreditada e segue como o vento vai vida volta nada


demora sou agora mais um com pressa peço agora um pouco de demora mas não cesso sem pesar penso ser só o que pareço sem seguir o alvoroço ouço mudo o mundo rodar sem o peso de um colosso não mais me reconheço quando estou neste lugar sem tempo de tentar caber dentro da teia do tempo que mato ao ver o trem passar de passagem pelo mato salto ao atravessar a rua sua silhueta sem eixo quase que só cabe no meu peito perdido por tanta sobra de falta de hora agora sou mais um com pressa mas passa logo não demora

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satisfação fúnebre o meu tato abre nova fresta pra eu escolher o meu alvo apontando o medo na minha testa antes mesmo de estar a salvo o corpo que eu toco não me toca procuro meus meios de detê-lo quase cinco horas e não volta só me resta agora desespero vejo ao meu redor mas não enxergo uma outra forma de sorrir já sei que me deixa ficar cego sinto que é a hora de partir


vida e morte como boiada quatro pelos quatro cantos em que ando espelho parlas espalho pelos meandros escuto espadas cortando palhas e as empilhando em meu fim de três em três três como refém ridículo tresloucado tal qual um roedor corroído e rastejado recolho minha rês reorganizada de três em três ao prever o que virá depois dois vistas doídas e dormentes sei que serão endiabrados dias de enchente pois ponho meus dois olhos durante o devir dos bois um a um um um nascimento num sótão no sertão nalgum lugar qual ninhada de falcão tão longe em canto nenhum tão só em solidão


silĂŞncios silencie cada sopro exaurido de dentro de si sentencie cada suor expelido por cima de mim espere fique saia segure meus ombros ao compasso da valsa sem abrir os olhos tontos em dose alta escute sinta vĂĄ


parto normal parto do princípio de que todas as coisas são equidistantes incalculavelmente estanques e sedimentares parto em princípio pelos caminhos bastantes invariavelmente sufocantes e subliminares parto do ponto de partida do ponto sem nó amarrado e dado parto sem contrapartida mesmo que me julgue o contrário mesmo que se julgue o que parte enfim parto por poder partir perpetuando toda a imagem partida toda a partida a partir do todo suponhamos que partamos sem o propósito de partir proponhamos que partamos sem supor parto então do substantivo verbalizado e deliciosamente partido parto do verbo substantivado e simbolicamente parecido parto sem delongas partirei por dizer que ando a partir do quanto queiram que eu ande partirei a dizer que mando partir tudo quanto me queira me faça andar parto a pé parto a nado parto pretensiosamente sem pretensão parto normalmente sem direção parto sem pôr os pés nas mãos parto por partir parto antes que todos os sins virem nãos


arquitetar-­‐se


curva curva por solidificar curva mal consolidada sinto a curva por sobre a outra por sรณbria curva se curvando desenhando rabiscando traรงo pelo que rascunhada inibida debochada acha que por ser curva hรก que se curvar e ir


como caber num quadrado como caber num quadrado em que não cabe uma cama nem cabeceira um quadro pendurado porta ou geladeira como caber num quadrado em que não entra nem um quarto de gente mesa fogão ar-condicionado copa cabide pasta de dente como caber num quadrado um pé que não sobe a escada nem uma mão para jogar o dado o marido o sogro ou a namorada como caber num quadrado um quarto de visita ou de empregada que não tem laje nem telhado cuja única saída sem nada dá num porão fechado como caber num quadrado a forma do homem que não tem reta nem é angulado que se abriga já não é de ontem que ama e é amado tem pressa sede fome lê jornal e come sentado como caber o que não se enquadra nem com esquadro nem mesmo com outro quadrado


instante


outdoor eu precisava não precisar tanto quando vi você passar sorrindo por mim sem me ver pensando em sorrir para você para você me ver passando quando eu precisava tanto precisar


tido alguma coisa foi e disse voltar feito um oi um olá algo se perdeu quando se quis mudar se quis refazer desfazer se colocar onde não deveria haver mas sim onde devia estar trazer o que foi não é o mesmo que ter pelo fato de ter ido e não mais ser

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todo o todo todo dia tem pressa toda festa tem presente todo dente tem sorriso todo liso escorrega todo mega foi super todo crescer vai diminuir todo ruim também é bom todo batom borra um pouco todo louco sabe tudo todo mudo enxerga mais todo demais exagerou todo trovejou relampejou todo feijão pede arroz todo depois veio antes todo instante é eterno todo terno será do amante todo calmante atordoa todo ecoa tudo


lentid達o correr quando se tem pressa me torna devagar quando estou longe ou perto demais faz t達o pouco ser muito do tamanho das minhas lentes


não-tempo ontem corrido se foi tempo hoje vivo tempo amanhã quiçá depois quanto tempo será todo o tempo


momento como um alvoroço pessoas bonitas se examinando tateando procurando à luz marcas cores frutos


conta-gotas espero por mais um dia quente sempre quente interminavelmente nos dias frios em que me aqueรงo e me esqueรงo de poder contar quantos dias quentes vou viver ou de quando ser febril ao arder do azul anil pelo dia frio o dia a fio conta-gotas

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seu ar como se viver fosse mais do que crescer multiplicar e ser esperar dar a forma e insistir tentar sentir a verdade dos dedos se esvair veja como vejo o ar transpor o ar como se tentar estivesse perto de conseguir continuar e ver querer poder assim e tentar insistir ter Ă mĂŁo e das tristezas se esquivar seja como sou ao ar repor o ar


sozinho vai só acalmando teu peito sozinho não que a solidão seja má mas ela cabe direitinho num dia de pensamentos leves olhos fechados e café frio delicadamente passando pelos dedos sem nem notar que só está


momento II traduz em tudo o que impede de ser e por tanto seguir vai-se feito a Ăşltima coisa bonita que foi impetuosamente dita e se tanto portanto ou porventura acabasse numa certeza nĂŁo mais ĂŠbria


vida toda minha hoje vou dormir pensando numa coisa que nunca pensei em toda a minha vida sei que ela Ê o que sempre sonhei pensar só que nem imaginei que essa coisa pensaria algum dia vou dormir antes que imagine e me esqueça de pensar essa coisa que nunca pensei em toda a minha vida


. Este livro foi diagramado com as fontes Myriad Pro e Minion Pro. O papel do miolo é pólen soft 80 g/m² e da capa é supremo 250 g/m².


Gabriel Ramos nasceu em Vitória em julho de 1988. É graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Espírito Santo e escritor. Em agosto de 2009, publicou o primeiro poema, Ó de bonito, por meio da coletânea de poesias Fruta no Ponto. Em abril de 2010, venceu o edital de literatura da lei Rubem Braga, da Secretaria Municipal de Cultura de Vitória, com o livro de poesias longevo quando. Em maio de 2011, coorganizou a semana Poetas no Espaço: espaço palavra criação, que consistiu numa série de instalações artísticas, oficinas literárias, imersivas e multimídias, além de debates e saraus com poesia e música, realizada no Centro de Artes da Ufes. Em novembro, foi colaborador da Revista Nós#4 com o texto “A poética da pixação”.

hoje vou dormir pensando numa coisa que nunca pensei em toda a minha vida sei que ela é o que sempre sonhei pensar só que nem imaginei que essa coisa pensaria algum dia vou dormir antes que imagine e me esqueça de pensar essa coisa que nunca pensei em toda a minha vida

apoio

foto: Sâmya Lievore

longevo quando  

longevo quando é meu primeiro livro de poesias, com textos compilados de 2007 a 2010, vencedor da Lei Rubem Braga, de Vitória, em 2011. Com...

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