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Capítulo um

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Anna abriu os olhos; as imagens de seu sonho rodopiavam pelo quarto. Levantou­‑se, pisando as roupas largadas no chão. Cruzou a porta, atraves‑ sou o corredor, movia­‑se com passos entorpecidos. Dedos cegos chutaram as taças esquecidas no tapete. Cacos e champanhe espalharam­‑se pela sala, ferindo os pés insensíveis. Precisava se atirar do vigésimo andar. Mer‑ gulhar no asfalto, apagar todas aquelas luzes. Saiu para o terraço. A pele arrepiou­‑se ao contato do vento frio que zunia no topo do edifício. Subiu ao parapeito e se apoiou no calcanhar, o sangue pingando dos cortes, desaparecendo no vazio. Estendeu os braços, imitando o balé mortífero da equilibrista na corda bamba, agarrando­‑se no ar, sorrindo para sua última noite. Lá embaixo, os bares da Rua Augusta fechavam as portas. Apenas um mantinha as caixas de som no volume máximo. A música chegava até Anna, embalando­‑a, fazendo seu corpo oscilar entre a vida e a morte, para trás e para frente, até atingir a inclinação fatal e cair. Cair respondendo ao sonho, e ao chamado de Eva.

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CHICO ANES

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— Ei, cara! Dá para abaixar essa droga de música! — gritou o homem no balcão. Coçava a cicatriz mal curada que subia da narina esquerda à sobrancelha. — Já não basta esse vento gelado entrando sabe-se lá Deus por onde! — Se quiser conforto, vá para casa! — respondeu o garçom, sem dar muita atenção. O chinês ao lado do homem interveio: — Deixe o som para lá! Não me arrume confusão — disse, segurando o braço do companheiro, que ameaçava se levantar para brigar com o garçom. — Deixe o som para lá! — repetiu, e ajeitou o barrete negro sobre os cabelos brancos enlaçados numa trança. — Quanto mais barulho me‑ lhor, assim não nos escutam. — Se aquele filho da mãe falar comigo desse jeito mais uma vez, vou apresentar o imbecil aos próprios testículos. Porcaria de música! O que você estava falando mesmo, velho? — Sonhos. Sobre sonhos. — Hum­‑hum. — O homem pareceu lembrar­‑se. Tirou o maço de cigarros presos na manga da camiseta e acendeu um Lucky Strike. Igno‑ rou a placa de “Proibido Fumar” na parede à frente. — Luckies america‑ nos! — falou alto. — Isto valia fortuna quando eu servia no Iêmen! São os melhores! Simplesmente os melhores! — disse, após longa tragada. Aumentou ainda mais o tom de voz. — Mas conte, velho, qual a im‑ portância desses pesadelos? — Sonhos, meu caro. Sonhos. E não precisa gritar. — Para mim é a mesma coisa; tudo pesadelo. O chinês abriu a garrafa de Jack Daniels, encheu o copo do ex­‑militar. — A mesma coisa? Prazer e terror podem ser a mesma coisa? Não importa. Você, que ganha a vida como mercenário, é bom saber: sonhos vão ser as armas das guerras deste século! O homem soprou uma baforada no garçom que passava.

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O S O N H O D E E VA

— Vamos, imbecil! — desafiou. — Reclame do cigarro com o velho Ivan aqui e se prepare para conhecer cada um dos seus bagos — disse, esperando pela reação. O garçom fingiu que não ouviu. Ivan tragou mais uma vez e continuou: — Ao menos o panaca mudou a música. Suspicious minds é um clássico! Elvis não morreu! — disse, a fumaça agora saindo da boca com as palavras. — Desde quando sonhos são armas? O chinês fez sinal para que falasse mais baixo. — Existem armas bem diferentes dessa aí que deve ter no seu coldre do tornozelo. Me diga: e se eu fosse capaz de me apoderar dos sonhos das pessoas? O que acha que eu faria? Escolher as imagens com as quais so‑ nhará hoje à noite, entrar no seu sonho e mudá­‑lo como bem entendesse. E se eu pudesse fazer isso, hein? O que você diria? — Diria que você faz perguntas demais e nem me lembro da primei‑ ra. Se fosse para responder só à última, diria que você é doido, velho. — Ah! Mas e se por acaso eu não fosse doido coisíssima nenhuma? E se todos os sonhos do mundo fossem meus, hein? O que eu poderia fazer? — Sei lá! — disse. — Poderia ter uma dor de cabeça dos infernos! — gargalhou. Pegou o copo e tomou de um só gole todo o Jack Daniels. O chinês sorriu, tornou a abrir a garrafa e servir Ivan. — Beba, beba. Está me ouvindo? Beba. Enquanto bebe, vou lhe contar. Poderia fazê­‑lo sonhar todas as noites. Isto o espanta? Ouça bem o que vou lhe dizer agora: Imagine­‑se no alto de um edifício, muitos andares, uns vinte, ou trinta, e você empoleirado no parapeito. Sentiria o frio da noite, não é verdade? Olharia as luzes das estrelas, da cidade, dos faróis dos carros passando. Vinte ou trinta andares abaixo. Iria balançar na borda do prédio. Talvez o vento o empurrasse, talvez o pavor, o corpo se desequilibraria, só que você iria se achar capaz de flutuar, voar sobre aquelas luzes. Neste momento, eu o ordenaria a se soltar, levar­‑se pela queda! Você cairia, cairia, até rachar no asfalto essa cara linda. E então? Diz para mim: se eu pudesse fazer isso, hein? Não apenas uma só vez. Todas as noites, sempre o mesmo sonho. Mas todas as noites... — Maluquice, velho! — resmungou. A fumaça do cigarro subia em círculos.

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— Será? Será que não trazemos para nossas vidas os ecos de nossos sonhos? — Não estou entendendo droga nenhuma do que está falando. — Ivan coçou a cicatriz, riscada como se alguém lhe tivesse enfiado a ponta de uma tesoura aberta no buraco da narina, enterrado até que o aço vazas‑ se na sobrancelha e cortado num único golpe. Tomou outro gole do uís‑ que e bateu o copo sobre o balcão. — Janis Joplin! — gritou. — Agora esta espelunca fez algo para os meus ouvidos! O chinês pegou o drinque de Ivan, girou­‑o em movimentos lentos e levou o nariz até a borda do copo. — O cheiro é bom. Se tivesse bebido a mesma quantidade que você, também não entenderia nada do que foi dito. — Devolveu o copo ao bal‑ cão. — Vou tentar ser mais claro: se você sonhasse sempre a mesma coisa, não acabaria por confundir ilusão com realidade? Pular do edifício, sonho após sonho, inúmeras vezes. Uma bela noite não sairia da cama e saltaria para a morte? Não? Continuaria me chamando de louco? Mas é o que acontece todo o dia! Ivan balançou a cabeça e riu. O velho continuou: — Pode ter certeza: agora mesmo, deve ter alguém numa parte do mundo fazendo exatamente isso... Saltando para a morte! Não acredita? Diga­‑me, por que você acha que está bebendo uísque e não chá? Ivan resmungou outra vez a respeito de tantas perguntas, só que desta vez, não zombou: — Porque eu quero, ora bolas! — Ah! Porque quer... É mesmo? Tem certeza? Mas, vamos, beba. Beba logo. Não viemos aqui para conversar sobre sonhos. O dinheiro já foi depositado. Está mais rico agora. Ivan distendeu o canto da boca. — A grana é boa, é verdade, porém faço o meu trabalho por vício, en‑ tende? Vício, tipo heroína. Ou profissionalismo, se quiser chamar assim. E faço também para não ficar tendo ideias malucas de pular de edifícios. O chinês trincou os dentes, as sobrancelhas brancas se fecharam, cain‑ do sobre os olhos.

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— Não me interessam as suas motivações. O mais importante: onde escondeu o menino? — Você é estranho mesmo, velho. Fique tranquilo, o pirralho está... Ivan parou a frase na metade. Saltou como se uma granada tivesse explodido debaixo da cadeira. — Caramba! O que aconteceu lá fora? — Que diabos de barulho foi esse? — o garçom gritou do fundo do bar. O apito estridente do alarme de algum veículo havia disparado. As pessoas se acotovelavam na porta a fim de ver o que tinha acontecido. Apenas o chinês e Ivan continuaram no balcão, trocando olhares, até que uma mulher entrou gritando: — Ah, meu Deus! Ela caiu do prédio! Bem na minha frente! Tem sangue em mim! — Raspava a mão pelo vestido e andava às cegas, esbar‑ rando nas mesas, derrubando cadeiras. — Tem sangue na rua toda! Ivan levantou­‑se e chamou: — Ande, velho. Quero ver isso. Parece impossível, mas acho que sei quem está lá fora, com as tripas espalhadas pelo asfalto. Tornou a olhar para o chinês, que permaneceu sentado e manteve o sorriso enquanto anunciava: — Não disse? Acontece todo dia... •  iii  •

Anna, em pé sobre o parapeito do terraço, oscilara para a frente e para trás, embalada pelo som distante que sussurrava: and we can’t build our dreams, on suspicious minds (e não podemos construir nossos sonhos com mentes desconfiadas). Olhara o brilho das estrelas incontáveis, a claridade das centenas de janelas insones, os faróis dos carros abaixo, as pupilas radian‑ tes de Eva. Olhara a imensidão de luzes noturnas e, inclinando­‑se em di‑ reção à voz abissal de Joplin, abrindo ainda mais os braços, tentara, num único salto, abraçar todas elas.

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O sonho de Eca  

LiVRO pela Novo Conceito,O sonho de Eva

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