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O diĂĄrio e os sonhos de

frida lieira capĂ­tulo i parte 2

uma obra de LuĂ­sa Resende e Gabriel R. Martins


Lindas as maçãs nos galhos sem folha alguma. Chegada do outono.


Trigésimo terceiro outono

Hoje é mais um dia triste. Começo a organizar os cadernos de meu pai antes de partir para Tentos. Tantas histórias fantasiosas entre tantas outras vividas: o Décimo Equitato; os homens-animais; o casamento com mamãe… eu não queria deixá-la, mas já faz um ano – não posso lutar por meu pai para sempre. Nuno ainda fica no jardim a esperá-lo voltar. Ele não vai voltar, mas não sei como fazer que ele entenda isso – não agora. Vou levá-lo comigo na viagem: talvez ela apague suas dores.


Capítulo I A fuga do grande reino Parte 2 Depois do grave desentendimento, Alastor e os nobres que compactuaram com ele prepararam caravanas que pudessem partir imediatamente daquele reino. Quem auxiliava no trabalho era Marquel, por ser amigo de Alastor e, nas palavras desse, um nobre ‘não convencional’. Foi ele quem me comunicou, depois que perguntei, o pobre estrangeiro Campalha ter sido levado para as masmorras de Tentos. Eu me encontrara mais uma vez com Dito e Nuno e expliquei toda a situação. O que fora combinado: eu, Alastor, Dito e Nuno, além de mais dois outros, quais eu desconhecia, partiríamos antes que se deitasse o sol sobre o horizonte, numa mesma carruagem. Eu pensava em alguma maneira de salvar Volme; pensava também nos dois jovens carmesins que chegariam a Tentos dentro de alguns dias. A tensão no quarto em que estávamos, onde Alastor encontrava abrigo quando passava por aquele reino, era enorme e, mais o tempo


avançava, maior ficava. O mestre de Ca foi encontrarse num dos cantos da sala para conversar com Marquel, assim que este entrou. Eu olhava pela janela, vendo no pátio mais uma carruagem preparando-se para sair; nobres que eu desconhecia entravam nela e, além deles, quatro guardas de Tentos, que tomavam lugar dentro e fora dela. Uma outra, que nos levaria, era preparada, atados os cavalos e o ferro e junto a ela estavam dois Guardas Reais, vistoriando os trabalhos. – … o quê? – ouvi dizer Alastor, espantado. Dito e Nuno, que divertiam-se com um baralho qualquer na mesa, também pararam para ouvir a exclamação. O velho nos lançou olhar, o que entendi como um convite para ficar a par do que estava acontecendo. Eu me aproximei dele enquanto Marquel lhe falava: – … você pode ficar aqui, sim – dizia. Alastor ficaria? Ao mesmo tempo que me aliviava o peito, também senti grande desconforto. O alívio era por ser o sábio um homem em quem eu talvez pudesse confiar e que poderia ajudar Volme Campalha e talvez os outros que viessem; já o medo, ele era pelo caminho que deveríamos trilhar até finalmente estar sob a segurança dos muros de casa. Talvez eu precisasse lançar muitos encantamentos até lá, já que Alastor não viria conosco e a viagem era perigosa. Também, o que seria de Alastor em Tentos?


Por sorte era ele amigo de Marquel, o que aliviava em meu peito o medo de o atacarem… mas, ainda assim era perigoso. Ao me ver chegar perto, o nobre cessou a fala e desviou os olhos, ao que Alastor o tomou o braço, exigindo que comunicasse o que quer que fosse também a mim. Depois de leve constrangimento, Marquel anunciou: – Estão preparando uma emboscada – disse. Você é muito importante aos olhos do rei, Frida. Perdi a cor dos lábios e dos olhos e senti formigar o nariz. Quão traiçoeiro podia ser um senhor de terras? Alastor não viria em nossa companhia e ainda preparavam uma emboscada para nós. Eu elaborava e reelaborava em minha cabeça formas de, primeiro, sair dos domínios de Tentos, depois, de chegar à terra segura – mas falhava miseravelmente no intento. Durante nosso silêncio e quase lendo minha aflição em palavras, Marquel disse, acanhado: – Tem uma maneira… digo: uma maneira de ela sair do reino sem ser vista. – De nós saírmos, você quis dizer – eu lhe falei enfaticamente, apontando para Dito e para Nuno, de quem eu não me separaria por nada. Tanto Alastor


bem como Marquel se mantiveram em silêncio, e como o silêncio se alongasse, logo os inquiri: – Vamos! – exclamei – diga qual é, Marquel. – Turi… está em Tentos e vai para Cas… – disse, mas antes que terminasse o que parecia ser um nome, Alastor levou a mão até a sua boca cessando a fala. Um brilho iluminava o semblante do velho, que concordou repetindo alegremente: Turi, sim! Turi. Eu, mesmo sem entender, não me objetaria àquilo, pois parecia, pelo ânimo deles, ser realmente a única boa ideia. A boca continuava seca de medo. Depois, Marquel anunciou que trataria de ir até lá, conversar com o tal Turi, esse alguém que nos tiraria da cidade de forma clandestina, pelo “buraco da bosta”, como o chamou Marquel. Pelo que entendo da nobreza, o gesto dele é uma traição de primeira ordem contra Arthur: mas isso era o mundo e, ele mesmo, era um ‘nobre não convencional’, como dissera Alastor! Eu me permiti sorrir por um instante: fugiríamos! Tornaria à casa, onde era seguro, onde o mundo fazia sentido, onde a morte de meu pai não era tornada guerra, mas tristeza apenas. Tudo em Tentos parecia não fazer sentido, desde que cheguei; a jornada até ali só fora fácil por nós passáramos por Ponta Gelada, somando a uma comitiva de nobres que viria até Tentos, com bons guardas e recursos. Pior era


estar acompanhada de quem amo: Dito e Nuno se mostravam cada vez mais como uma pedra difícil de carregar. Sempre evitei revelar que sou filha de Lorna Andi e Eleis Lieira, e, quando finalmente o faço, sou tomada como inimiga, quem sabe até não pudesse estar morta! A verdade é que mesmo que eu conhecesse de Ende à Ponta Gelada, agora, diante dessas situações, tão novas a meus olhos e dotes, nada eu parecia conhecer desses lugares e de sua gente. Eu pensava isso quando Marquel nos deixou. Tratei logo de cessar pensamentos e preparar junto a Alastor os farnéis que levaríamos eu, Nuno e Dito; os outros dois companheiros seriam convocados e se uniram a nós, ficando a par da situação toda. Alastor nos disse ter de levar pouca coisa para o caso de termos de correr, e que, se tivéssemos qualquer que fosse a preciosidade consigo, que as deixássemos com ele. Depois de hesitar um pouco, decidi por deixar o que eu carregava de valioso: meu diário; a ponta para tinta, um presente de meu pai ao meu décimo quinto inverno; e pedras brilhantes de uma coleção particular. Sabendo Alastor onde ficava a casa de meu pai, onde eu fazia morada desde sua morte, não havia motivo para duvidar de sua lealdade e amizade: se quisesse algo de valioso que nos fosse


pertence, iria até nossa casa e o buscaria – teria de enfrentar minha mãe no entento – ainda assim, era possível. Depois de organizadas as provisões para a fuga, ele me convidou para conversar em particular. Dito e Nuno foram conhecer melhor a Carlos e Camilo, os dois jovens, filhos de nobres do condado de Chá, que fugiriam conosco por terem um tio recém inimizado com o Rei. Enquanto eles estavam na cama a se conhecer, eu e Alastor encontramos lugar fora do quarto, no corredor, diante da porta. Os guardas que nos seguravam foram dispensados pelo velho com palavras frias e fortes. Amaciou o tom, antes que dissesse a mim: – Eu tenho um… é… não é bem um amigo, Frida, seria mais um conhecido meu. – disse Alastor, procurando as palavras certas. Seu nome é Malaquife! – Malaquife? – perguntei espantada, no mesmo instante em que ouvi o nome. Mas… ele… ele não é apenas uma história? – não, não era. Foi então que Alastor explicou sobre Malaquife. Ele realmente existia e era quem mais precisava saber sobre a morte de Eleis, já que não aparecera para a despedida. Oh, tolice! As tantas negações de minha mãe, de Dito, de Sílvia a falar sobre as histórias de meu pai eram simplesmente por serem verdade? É


claro que eu não acreditaria… ainda assim, mentiram para mim. O que daquilo tudo seria real? – Além disso – completou Alastor – acho que ele pode ajudá-la; pois é mais sábio e mais velho do que eu em idade. – ele abriu sua bolsa e procurou dentro dela alguma coisa, qual sacou: a ponta de tinta que me foi presenteada por Eleis. É melhor que você fique com isso! Só digo para ter cautela. Segundo as palavras do senhor dos ventos, Malaquife estaria em algum lugar no Sul, provavelmente próximo à Ende e aos vilarejos no entorno. Apesar de minha insistência para mais informações, Alastor não me rendeu mais do que isso, e – também – pela janela, vimos desaparecer no horizonte a luz do sol, fazendo o céu rosar: nosso tempo estava acabando. Então, convocamos aqueles do quarto; pegamos nossas coisas e descemos para o pátio, onde pacientemente esperamos até que Marquel surgisse pela portão. Além dele, haviam guardas do reino e também os dois Guardas Reais, quais continuavam por ali. Marquel veio primeiro a Alastor: cumprimentou-o e disse aos ouvidos do sábio palavras que ninguém que não fossem eles pudessem ouvir. O velho pôs seus olhos sobre mim, singelo era o olhar. Em seguida, o duque aproximou-se e disse


em meu ouvido estar Turi esperando nos baixios do reinado, onde os servos faziam moradas e festas, ao portão do leste, por onde passaria nossa carruagem. Vendo o movimento suspeito, os dois guardas que pareciam mais influentes vieram ao nosso encontro: – Nós assumimos daqui, Marquel – disse um deles. Dispensando os serviços gerais, eles deram ordens para que começássemos a subir no carro. Foram encontrar-se com Alastor para conversar e, depois de poucos palavras, sabiam já que o sábio não nos acompanharia, e se felicitaram com isso, dando risadas. Reparei na armadura deles iluminada: sobre o peito de um pude ver um símbolo que conhecia, a noite; o do outro não se assemelhava com nada que eu guardasse na memória, e não estava com meu diário para consultá-lo. Meu olhos saíram da armadura e encontraram os do velho amigo de meu pai, depois os de Marquel. Ambos tinham ao rosto um semblante tenebroso, como se tudo fosse mal. Fiquei aflita com tanto; fui até o nobre quando não nos estavam olhando os dois guardas e perguntei-lhe: – O que foi, Marquel? – eu disse. Tivemos problemas com o Turi? – ao que ele olhou-me desolado, antes de responder, certificando-se para não ser ouvido: – Com Turi está tudo em ordem… mas… estes são Boris e Tristão, Frida – ele disse. Eu conhecia de nome


o primeiro deles, mas não entendi o motivo da preocupação até que Marquel cochichasse: – estão entre os homens mais poderosos de Tentos. Nem sei as especialidades deles para ajudá-la… sinto muito. Seriam eles a nos escoltar para fora de Tentos? Sim. A mão gelada, escondida por baixo da luva de Boris, fez com que todo o meu corpo se arrepiasse quando ele segurou-me o braço. – Vamos, logo! Não nos foi autorizada uma despedida adequada para com Alastor, o que fez com que eu ficasse ainda mais nervosa com a situação. Outros Guardas Reais – inteirando, ao todo, seis deles – ocuparam-se da companhia de Alastor, que apenas baixou os olhos e balançou a cabeça: estava impedido de agir (talvez seria executada quando partíssemos). Nós entramos na carruagem e encontramos lugar. Um dos dois guardas – Tristão – também entrou, sentando-se ao lado de Dito, apoiando a espada no colo – o outro, imagino, alocou-se junto ao guia da carruagem, para caso de alguém conseguir escapar durante nossa execução no interior do carro. Partíamos – eu soube pelo nosso mover e pelo estalo do chicote. Ficavam para trás Alastor e Marquel e também nossas esperanças. Nós cruzamos em silêncio o Pátio dos Nobres, os jardins, diante das


casas mais ricas: eu a pensar. Rumávamos em lentidão e a tensão crescia: não havia plano que eu pudesse seguir para me livrar daquele homem dentro do carro. Olhei para fora buscando auxílio, mas deime de frente ao breu da noite, contemplando apenas a pouca luz daqueles que acendiam as tochas a clarear os caminhos. Eu coloquei Nuno em meu colo; o pobre menino, bem como eu, suava, observando o cavaleiro em nossa frente a passar a luva metálica sobre a lâmina afiada, tudo ao brilho de uma pequena lamparina pendurada ao teto do carro. Fitei os outros que nos acompanhavam ali dentro: Dito, coitado, estava mais branco do que de costume, fazendo ver as veias a pulsarem aflitas. Camilo deixava os cabelos esconderem seu rosto, provavelmente pálido como o de nós todos; Carlos parecia balbuciar palavras – uma oração muda – para seus deuses ou deus, com toda certeza, pedindo auxílio. Estavam contando com algum evento do acaso que pudesse nos ajudar. Lancei os olhos mais


uma vez para Tristão, seríssimo, a lustrar a lâmina com a mão. Sabendo nada vir ao nosso auxílio, resolvi assumir a ofensiva: – Nós não poderíamos ir mais rápido? – perguntei. – O quê? – perguntou Tristão, incrédulo de eu ser capaz de dizer qualquer coisa naquela situação. – Digo, se já é noite, vocês poderiam nos matar aqui. Todos colocaram seus olhos em mim e a respiração deles cessou, como se perguntando: o que diabos você está fazendo? Eu me mantinha firme na pose e usei uma parte de minha roupa para limpar o suor da testa da forma mais elegante e natural que eu podia. Tristão fitou os outros rostos dentro do carro, ainda a me contemplarem; depois, abriu a pequena cortina com uma das mãos, revelando a via onde estávamos. Sorriu. – Nós ainda estamos na zona dos servos – ele disse. Tenha só um pouco mais de paciência! Quando passarmos pelo portão tudo vai se ajeitar, querida! – Não vamos passar pelo portão – eu disse. Ele olhoume curioso e desafiador. E, assim, tendo toda a atenção dele, eu gritei: – Ficaremos bem aqui! Dito! Ao ouvir minhas palavras, meu servo lançou-se sobre ele tentando segurar-lhe a espada. Como o


espaço era pouco, eles se debatiam sobre o banco acolchoado, Tristão a gritar palavras aladas contra o meu servo, que não lhe podia largar por nem um minuto sequer. Nuno começou a gritar e os outros dois estavam assustados demais para que pudessem agir. Eu senti que o movimento da carroça cessara. Isso era bom! Agora precisávamos sair dali! Então segurei o braço de Tristão, respirei fundo e lancei um encantamento poderoso, que fez a luz da lamparina cintilar fortemente: – Ubi manus tua gladium tenebit corpus tuus lutum fuerit.  Quando terminei as palavras, Dito saltou para trás, dando com a cabeça no teto da carruagem e caindo sobre o banco, tonteado. O Guarda Real conseguiu se erguer e quis pegar sua lâmina! Néscio! assim que a sua luva encontrou o aço do gládio, a mão de dele começou a transformar-se: ela escurecia e amolecia diante de nossos olhos, ao que ele se espantava mais que todos. Com muito medo, os dois jovens observavam aquilo acontecer, bem como Nuno. Só Dito e eu, cúmplices, entendíamos o que se passava. – O que você fez? – Tristão gritou para mim, começando a chorar. Sangue escorreu de meu nariz e senti o seco envolver toda minha boca e embolar minha garganta:


depois de um encantamento, eu não poderia pronunciar palavra alguma, condição para minha especialidade. Isso não me impediu de sorrir, vendo a cena mudar ao nosso favor! Camilo tomou a espada do nobre em mãos e a apontou para o pescoço de Tristão, ele que se metamorfoseava em brejo e barro. O jovem armado arrancou de meu rosto o sorriso, pois apontou a espada para mim quando eu quis me mover, o que fez com que eu me assustasse e abraçasse Nuno. Dito também foi ameaçado com a lâmina e obrigado e espremer-se junto a nós. – Mate-os! – gritou Carlos para o outro. São monstros! Mate-os agora! Mas Camilo apenas pegou a mão de Carlos e abriu a porta da carruagem com um chute tremendo; Tristão começou a gritar desesperado, pois seu corpo completava a transformação – todo o braço; os pés; a perna, a outra – até que perdesse a consciência, quando a lama atingiu a barriga em forma e barro cobriu sua boca. Um odor fétido era sentido por todos nós, porque a lama na qual ele se tornara carregava também aquela olência horrível, de morte. Assistimos perturbados, eu e Dito, aos dois jovens nobres saírem do carro, deixando-nos ali como reféns. Dito gritava ofensas baixas aos dois, enquanto eles se afastavam correndo e chorando.


Nós não esperamos! Juntei a pequena bolsa que tinha como bagagem e nós descemos logo que os dois desapareceram, Dito primeiro, pondo-se a olhar se encontrava o outro dos Guardas Reais, que, felizmente, não estava ali. Naquele lugar do reino, entre casebres assustadores e pouca luz, eu sentia vertigem: como encontraríamos o tal Turi? Uma multidão chegava para olhar o que se passava, fazendo roda no entorno da carruagem, qual logo começou a ser tocada pelos estranhos. A voz de Boris fez com que todos se assustassem e corressem, procurando abrigo. Aproveitando a confusão, peguei Nuno no colo e também colocamosnos a correr desesperados. Eu sabia relativamente qual era a direção do portão leste, só precisava continuar seguindo aquela via, rumo à parte mais baixa. Dito gritava para nos apressarmos enquanto corríamos, mas com o menino ao colo era difícil. Ele pôs-se a chorar mais uma vez, assustado com tudo aquilo, mas eu nada podia dizer para que ele se acalmasse. Correndo, nós nos vimos diante do mistério: ocorreu que as luzes das tochas, chamas, casebres etc, elas que já eram francas, apagaram-se, transformando o caminho em um breu terrível, no qual eu tropeçava e trombava em outros desesperados


constantemente. Mesmo quando procurei auxílio das luzes no céu noturno, elas não podiam ser vista, como se sob o véu da noite estivesse… outro véu. Em um dos tropeços, cai ao chão, e, junto de mim, o pobre Nuno, que eu temia perder meio ao caos formado. Por que eu o tinha trazido até ali? Não mais se dava para saber se estávamos perto do portão ou não – nosso destino. Os gritos da multidão não cessavam, e era preciso falar bem próximo ao ouvido para que se escutasse (não fazia diferença pois eu não podia falar). Fitei o céu, escuro todo ele pelo véu do nada, só então percebi o quanto eu estava cansada; tive sono, mas não me renderia a ele. Levantei-me ao som da voz de Dito, o qual nos procurava no escuro. – Aqui, Dito! – Nuno gritava – aqui! Os olhos pareciam incapazes de se acostumar com aquela escuridão, mas, de repente, vi um leve brilho balançando em nossa direção; o barulho das pessoas ia findando diante da luz e pude ouvir um assobio que acompanhava aquilo que parecia ser a própria esperança. Mesmo o choro e desespero de Nuno cessaram ao ouvir e ver aquilo que vinha. O brilho ergueu-se e iluminou o rosto sinistro de seu portador,


que sorriu, fazendo desaparecer o assobio, quando nos viu ali, adiante: – Encontrei vocês, oras. Nuno não conseguiu conter o grito quando percebeu ser a voz e semblante de Boris; pior, o cavaleiro tinha o rosto sujo de sangue. De quem? Parecia não haver nada que eu pudesse fazer. Dito, finalmente, depois de Nuno gritar, encontrara-nos e nos ajudou a levantar – ele reclamava furiosamente daquela escuridão, como se não percebesse a presença do Guarda Real, tão próximo a nós três. Mas, além da do guarda e da de Dito, mais uma voz podia ser ouvida, uma que nos chamava no breu. Ela vinha de minha direita, mas era inútil que eu olhasse, procurando seu dono. – Venham por aqui! – dizia – venham! Dito fez com que minha mão encontrasse a de Nuno, qual eu apertei com força. Eu senti, então, um abraço caloroso vindo de meu acompanhante, que falou ao meu ouvido: – Vá, Frida! – e, antes que eu o segurasse e insistisse em absurdos para arrastá-lo conosco, Dito continuou seu dizer: – eu prometi para seu pai que protegeria a criança. Mas agora será com você, Frida! Aquelas palavras foram um baque tão forte que senti formigarem os lábios. Como? Proteger a


criança? Não devia pensar nisso agora! Eu arrastei Nuno em direção da voz que chamou antes, pensando nas palavras de Dito, que ecoavam em minha cabeça em vertigem. Atrás de nós, eu ouvia barulhos de quebra, de aço, certamente uma batalha, e de gritos mil: – você não vai passar; saia da frente; no escuro eu me torno mais forte – mas isso era apenas ruído, ruído, ruído. Perdida em pensamentos, mal percebi quando fui ao chão, ao bater com o rosto em uma parede, por não conseguí-la ver. Eu perdera Nuno ao cair e ele chorava, chamando por mim sem parar. De repente ele cessou o chamado e perguntou: – Frida? – ao que uma voz feminina respondeu: – Não sou Frida, menino! Mas sou amiga de Marquel, e, por hora, isso basta! A sorte estava nos sorrindo! Eu fui ajudada a me levantar e podia ver, ainda que tonta, um brilho claro e reluzente a iluminar as paredes e o chão. Ele vinha da mão de uma mulher, com mais menos minha idade, que o tinha por meio de uma estranha fagulha. O brilho fazia-me lembrar das chuvas tempestuosas e dos trovões que cortam o céus, mas isso seria história para outro momento. Eu apalpei minha barriga, sentido o volume da bolsa que tinha em si a ponta e um punhado de


ouro. Estava tudo ali! Segurei a mão de Nuno e, com a outra, deixei-me conduzir pela estranha. Ela nos encaminhou passo a passo por entre os corredores e a gente, que olhava assustada aquele brilho na mão dela – o único possível – acompanhada de uma criança e de uma mulher com o nariz a sangrar. Éramos guiados por aquela região baixa e suja da cidade de Tentos, e, após algum tempo andando, a mulher nos levou para dentro de uma espécie de taverna, deixada também ao escuro, mas ainda com o povo a beber, esbravejar e brigar normalmente. Onde estava Dito? Onde está Dito, eu queria perguntar. Não sabia se ele… não sabia se o servo de meu pai estava vivo a essa altura. Eu precisava seguir em frente; talvez ele sobrevivesse: se fosse preso, eu o tiraria da masmorra quando possível, assim pensei. Mas, como a voz me era negada pela minha habilidade, não pude conversar com ninguém, nem mesmo acalentar Nuno. A mulher estranha cortou meus pensamentos assim que lançou palavras aos meus ouvidos: – Já estamos todos aqui? – Camilo?... – outro alguém perguntou. Não! Falta o Camilo! Era a voz de Carlos que ouvíamos, aquele desgraçado! Ira descomunal subiu por meus pés:


avancei furiosa contra o jovem naquele breu, acertando-lhe e lançando-lhe ao chão, fazendo com que gritasse. Eu subi sobre ele, apertando-lhe o pescoço; sentia ele se debater, tentando tirarme de sobre seu corpo, ao que o povo da taverna ria, divertindo-se com os barulhos que fazíamos, misturado a tantos outros. Foi a mulher da mão que brilha quem nos interrompeu, ao perceber que o jovem a quem eu enforcava estava já desmaiado, mais por fraqueza que por falta de ar. Acendeu-se uma tocha que iluminou o rosto de Carlos. – Você quase matou o desgraçado, garota! – anunciou ela. Garota? Éramos semelhantes em idade: ela ousava ainda achar-me juvenil? Em seguida, disse: – Eu me chamo Turi! Quem são vocês? – e nem esperou que respondéssemos. São a tal Frida, não é?! Os pacotes do Alastor, certo? Vocês são importantes, esse aí no chão não é… se for inteligente, vai acostumar-se com a vida como servo por aqui! Turi era uma mulher! Isso alegrou-me profundamente, tanto que não a escutei perguntar se estávamos prontos para partir (de qualquer forma, eu não poderia respondê-la caso a tivesse ouvido). Como eu não podia falar, ela entendeu, com tamanha


arrogância, que estávamos de acordo. Mesmo que eu não estivesse, a situação não era passível de escolhas. Assim, ela nos levou furtivamente para a rua, vigiando se havia alguém. Turi parecia, pela forma como falava com todos que cruzavam nosso caminho, uma pessoa muito influente por ali: era constantemente cumprimentada e elogiada com sorrisos. O número de pessoas na região era cada vez menor, e eu soube, pelo tipo de gente que passamos a contemplar, que nos dirigíamos até um lugar perigoso, dominada, com toda certeza, por bandidos. Entramos em uma espécie de barracão abandonado por um buraco que exigia que nos abaixássemos. Fomos até o fundo, em um dos velhos quartos, onde dois dois homens mal encarados e enormes estavam sentados a cochichar; eles se ergueram tomando em mãos lâminas afiadas e deformadas. – Estamos partindo, rapazes – anunciou Turi. Antes que Boris nos encontre! A batalha acabou faz um tempo. – Quem são esses aí, Turi? – perguntou um deles. – Assassinos, agiotas, nobres recalcados… vocês conhecem a história! Abram o buraco! Eu realmente fiquei tão impressionada com a liberdade dela naquele lugar e com aquela gente, que não percebera quando finalmente às tochas foram devolvidos o calor e o brilho, tornando possível que se


visse mais uma vez o mundo, as estrelas e os homens. Os grandalhões sorriram e, então, enquanto um deles foi para fora, talvez vigiar, o outro começou a erguer várias tábuas do chão, revelando um pequeno buraco por onde passava apenas uma pessoa por vez. Era um antigo alçapão: eu o soube pelas dobradiças velhas presas à beirada. Turi estendeu-me um lenço, ordenando que eu limpasse aquele sangue todo. Passamos um por um pelo buraco, que dava em uma adega. Turi escolheu uma garrafa qualquer e me lançou um piscar de olho, estalando a língua e sorrindo. Depois, empurrou um armário gigante – fiquei impressionada com a força daquela mulher, que não precisou de muito para fazer o móvel escorregar pelo piso de pedra. Ele escondia uma escada, por onde escorria algo vindo de um tubo. Senti um tremendo fedor vindo daquele lugar, mas o aperto de Nuno em meu braço convencia-me de que era a coisa certa. Nós descemos degrau por degrau, apoiados na parede para que não escorregássemos. A descida parecia não ter fim e não sei ao certo por quanto tempo nós fizemos aquilo de descer; sei apenas que quando encontramos enfim o fim da linha era ele um córrego subterrâneo, que impressionou Nuno, quem


durante a parte das escadas não parou de reclamar de dores nos pés. Lá em baixo havia um homem suspeito, que coçava as mãos de uma forma estranha. Ele nos recebeu com um sorriso sem dentes, ao que Turi disse: – Hoje não temos moedas, Érique! O sorriso cedeu, até que Turi ergueu a garrafa de bebida para o homem, que felicitado lançou-se sobre uma embarcação atada a beirada de onde estávamos. Olhei para o córrego subterrâneo – a água tão apodrecida – que eu não imaginava existir sob um reinado tão poderoso. Turi pegou do chão um pequeno barril e fez uma piada sobre pesca para Érique, que ria mudamente. O barco de madeira atracado em um píer improvisado não passava segurança alguma, mas o fato de eu estar ali viva e com Nuno era o suficiente para que eu subisse nele. O barqueiro convidou-nos estendendo a mão.  Subimos. Turi colocou o barril sobre o piso e saiu mais uma vez à terra; Érique acenou com a cabeça para ela, qual soltou a corda do pau e pulou na embarcação, fazendo-a começar a deslizar sobre o espelho d’água suja. O barqueiro pegou do chão um remo enorme, que entrou na água até alcançar limite. Aconcheguei Nuno como pude em meu colo e comecei a fazer carinho em sua cabeça; ele reclamou


de dores e só então percebi os inúmeros cortes e machucados pelo corpo do pequeno. Também eu pude sentir em mim dores demasiadas. O menino me pediu que cantasse, mas não pude por faltar a voz. Ao ouvir o pedido, Turi olhou para mim, como se me culpasse por não cantar, coçou a garganta e começou ela um canto. O garoto não demorou muito a adormecer e olhei para nossa ajudante agradecida. O tempo corria com as águas e, rendida pelo tédio, pelo cheiro e pelo cansaço de tudo que se passou, também eu recostei-me, num dos beirais da embarcação, fechei meus olhos e pensei pela última vez em Dito e em suas palavras: – agora será com você, Frida. Proteger Nuno… de quem? Do quê? Eu precisava voltar para casa; precisava descobrir mais sobre isso; quem era Dito… era este o seu nome? Eu nunca o saberia, não mais. Onde estava minha mãe? Ela sabia? Provavelmente… o cansaço… Saberia Malaquife sobre tudo isso? Ele estava ao sul… Onde? Procurá-lo ou ir para casa? Tantas perguntas, resposta alguma… Adormeci.

Continua...


O diário e os sonhos de Frida Lieira © Gabriel Reis Martins (1995 -)

TEXTO E REVISÃO DIAGRAMAÇÃO E CAPA

Luísa Maria de Resende Gabriel Reis Martins

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A Fuga do Grande Reino [Capítulo 1:2]  

Capítulo 1:2 de "O diário e os sonhos de Frida Lieira", série quinzenal de literatura fantástica, voltada ao público juvenil.

A Fuga do Grande Reino [Capítulo 1:2]  

Capítulo 1:2 de "O diário e os sonhos de Frida Lieira", série quinzenal de literatura fantástica, voltada ao público juvenil.

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