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O diĂĄrio e os sonhos de

frida lieira capĂ­tulo i parte 1

uma obra de LuĂ­sa Resende e Gabriel R. Martins


Vigésimo quinto verão

Fui enganada! Dito me disse uma vez que os homens têm outras mulheres. Eu perguntei para papai se isso era verdade, mas ele respondeu que essa gente fala muito… Hoje, ele trouxe uma criança para nossa casa – seu nome é Nuno. Ele não é filho de minha mãe e em nada se parece comigo. Não vou ser eu a chamá-lo de irmão.


As crianças dos olhos de rubi Não era mais menino quando acordou. Eu o via, sentada sobre o chão de pedra dura ao lado da esteira que lhe servia de cama; ele esfregava as mãos nos olhos para livrá-los do sono. Os cabelos eram carmesins como um poente tardio e pareciam nunca antes terem sido cortados, de tão longos; os mesmos cabelos, uma menina, novíssima, sentada em frente a uma pedra baixa que lhe servia de mesa, contando moedas, possuía. – Bom dia, ela disse ao outro. Já é hora de levantar.  Ele queria, mas rendia-se ao sono com facilidade como um jovem qualquer. Isso era crescer, e eu me lembro da primeira vez em que acordei cedo para cumprir com alguma obrigação; depois disso, nunca mais eu dormiria do mesmo jeito (mas esse sonho não trata de mim).  A criança que contava as moedas, o fazia com certa graça. Era de admirar: nessa idade e saber dessas coisas. Mesmo com o pai e mãe que tive, não aprendi com tanta facilidade e tão cedo. Ela virou-se em minha direção e olhou profundamente em meus olhos. Os seus eram como os cabelos, um vislumbre


breve de um poente esquecido. Seria possível a ela me ver? Não. Era impossível que me visse, porque ninguém podia. Mesmo assim, seu era dura e parecia perceber-me, envergonhou-me sustentá-lo por tanto tempo e tive de fitar o lá fora pela janela. Era manhã e, pelo estado da luz de verão, estávamos um pouco ao norte. Eu não sentia cheiro de nada, mas pela cor vivaz das folhas das árvores posso dizer com segurança que é perto de algum lago ou mesmo do oceano. Mas em qual dos lados de Golariae pode ser esse vilarejo em que moram? Não tenho nem mesmo a certeza de estarmos nessa mesma terra. Apesar das diferenças tantas que eles possuem em relação a mim, parecem ser eles pessoas, então, sim, imagino que continuamos em Golariae. – O que você está olhando, Bur? – finalmente a voz do que se via deitado fez-se ouvir. – Ninguém, ela respondeu. Vamos nos ajeitar logo! Teremos que andar bastante nos próximos dias. Acho que pai disse termos que ir para Tentos.  Eles vão para Tentos, por isso são necessárias as moedas; por isso esses ares de despedida e tédio no fundo do rosto. Espero poder ver o caminho que vocês percorrem, crianças.


Os trabalhos prรณsperos. O que chega junto do canto das cigarras?


Trigésimo segundo inverno

Tornei-me o que desprezo! Ainda não me acostumei com o presente de meu pai: os sonhos me atormentam o espírito e quase sinto-me quebrar quando desperto. Eu tento escondê-lo do Nuno, mas é inevitável que ele perceba – agora é cria minha! Sua inteligência surpreende qualquer expectativa. Ele insiste para partir comigo a Tentos: desejos sem experiência. Também os tive.


Capítulo I A fuga do grande reino Parte 1 – Minha Senhora... Minha Senhora… – era a voz de Dito que eu ouvia. Além dela, eu pude ouvir o relinchar dos cavalos e o baralho de gente lá fora. O antigo ajudante de meu pai sacudia-me em despertar. Chegamos! Assim que abri meus olhos repentinamente, ele se assustou. Nuno também estava presente, e olhava pela pequena janela da carruagem o movimento daquela via. Estávamos parados. – O que foi, Dito? – perguntei. Não veio resposta. A bem da verdade, a pergunta não era para ele: era para mim mesma. Já era outro verão e eu ainda não havia me acostumado com esses sonhos estranhos, apenas os tolerava e tentava entendê-los. Eu me lembrava das palavras de minha mãe, as que ela lançou-me após nos despedirmos de meu pai: – Os presentes são amigos, Frida! Lembre-se bem do rosto de cada um deles.  Um ano havia se passado desde então e o rosto de


cada convidado à despedida de Eleis fora esquecido no baú de minha memória. Poucos foram os que eu esboçara em meu diário. Dito se abriu a porta da carruagem e foi o primeiro a descer. Em seguida, ele enfiou a cabeça pela porta e anunciou que podíamos sair. Eu tomei em mãos o véu da nobreza, presente de minha mãe, e o lancei sobre mim antes de tomar a mão de Nuno, que já estava impaciente a me olhar, para sairmos da carruagem. Quatro faziam guarnição diante do enorme arco de pedra bege que emoldurava o portão de madeira que levava à Sala de Despacho do reino Tentos. Era com o regente que eu gostaria de me encontrar; estávamos naquele reino há quatro luas à espera de um encontro com o rei Arthur, que só concordou encontrar-me quando anunciaram-lhe de que era a filha de Lorna e Eleis quem lhe falaria uma questão urgente. O portão já estava aberto e pude ver uma enorme quantidade de pessoas aglomeradas ali – provavelmente todos nobres – prontos a levar questões diversas ao mandante máximo daquele lugar. Ao nos aproximarmos para entrar, fomos interrogados por um dos guardas: – Quem sois? – perguntou. Dei meu nome em verdade e expliquei-lhe a situação. Eu estava autorizada a entrar; fiz questão de


esclarecer que tanto Dito bem como Nuno entrariam comigo, a revelia de qualquer hierarquia tola que a nobreza tivesse; o guarda negava insistentemente o meu pedido; eu também não cedia. Ele saiu para comunicar a algum superior sobre minha chegada e sobre a implicância. Enquanto esperávamos, fomos encaminhados por outro deles para uma das alas do salão, onde nos sentamos. A espera não seria grande, e servos diversos circulavam entre os presentes oferecendo comida e bebida em abundância. Nuno aceitou alegre uma fruta que lhe foi estendida. – Dito… – chamei. Parece que as coisas aqui vão demorar! Não acho que ela cederão… Acho que você e o Nuno podem voltar para a estalagem enquanto converso com o Rei. Vocês poderão me encontrar diante do portão, antes que o Sol se ponha. – Eu quero ir com você, Frida! – disse-me Nuno. Com um leve cumprimento, Dito lançou um sorriso e convidou o menino pela mão, que a tomou, ainda que embirrado, e os dois se retiraram do lugar a caminhar. Eu os vi desaparecer em meio à gente quando cruzaram o arco da porta e subiram na carruagem. Seria bom que Dito comprasse alguma coisa que pudéssemos levar durante a viagem da volta para casa, eu o devia ter pedido. Olhando os outros nobres que também estavam naquela sala,


soube realmente não ter roupas adequadas para o convívio com eles, pois mesmo que vestida da melhor forma que podia, e enfeitados as orelhas e os dedos das mãos com joias, eu ainda não me parecia com qualquer um deles em elegância. Ainda assim a seriedade do assunto devia transparecer em meus olhos, mesmo que cheios de remela, impedindo que caçoassem de meu jeito diferente. Eu matutava em minha cabeça o sonho que tive enquanto na carruagem até o castelo. (Tomei de dentro da bolsa que eu trazia junto de mim meu diário companheiro e ponta fresca de tinta) Duas crianças chegarão à Tentos nas próximas semanas – alguma das duas poderia ser uma lenda da noite – e eu não estaria lá para recebê-las, guiá-las. Nunca havia encontrado qualquer lenda, e essa era a melhor das chances de fazê-lo. pouco minha mãe contara sobre o dom de meu pai… o que restava era o oco da cabeça: a dúvida. Preocupada, eu me colocava a pensar e rabiscar no papel os detalhes. Em qual vilarejo poderiam estar? E se, enquanto eu estivesse voltando para minha casa, as encontrasse pelo caminho? Talvez viessem do norte. Era assim quase todos os dias desde o dia em que meu pai morreu. Passei eu a ter os sonhos estranhos que ele sempre tivera. Eu os tinha revelado a minha


mãe; ela se preocupara em demasia e pediu para que eu guardasse segredo sobre isso, mesmo dos que trabalhavam em nossa casa. Ao passar do tempo em refletir, apareceu novamente na sala o guarda que me conduzira até ali, esse que chamou por meu nome; ao seu lado estava Marquel, um dos duques de maior prestígio entre os nobres de Tentos, a quem eu conhecia de outro tempo. Ainda que conhecidos, como não éramos íntimos, ele lançou-me enormes formalidades: – Cresceste, Frida! Bela como a mãe. O guarda disse teres algo a tratar com o Rei Arthur. Disse-me ainda que parecia importante; virás comigo em companhia, vamos falar ao rei e ao conselho do reinado. Ele havia reparado em meu escrever e rabiscar papel, mas nada perguntou acerca disso. Fiz-lhe os devidos cumprimentos, também excessivamente formais, e me pus ao seu lado a caminhar, dispensado o guarda do portão. Nós, escoltados por soldados demasiados, seguimos castelo adentro, subindo escadas, cruzando corredores e vãos enormes, jardins belíssimos. Senti nos passos a pressa e pude ver suor a escorrer pela testa de Marquel. Parecia-me aquele um dia cheio para a nobreza de Tentos. Por sorte meu assunto com o rei era breve, mesmo que importante. Reparando ainda o nobre em minha companhia, eu


poderia dizer que era quase além do belo. Os cachos de seus cabelos eram de extrema beleza, apesar do chapéu e da capa ridículos que os ofuscavam. Não tinha barba e seu porte denunciava ser ele um daqueles cavaleiros que não se cansam de exercitar a arte da guerra cotidianamente. Nós caminhamos lado a lado durante um tempo, até que ele tomou a frente, pois nos aproximávamos da sala onde o rei se reunia com o conselho do reinado – outros nobres de títulos altos, preocupados com suas terras e os rumos da colheita, pensei – pelo menos foi o que dissera-me marquel. A porta estava fechada e, diante dela, mantinhamse a postos dois Guardas Reais, similares a Marquel em poder e influência. (Eu os conhecia de fama, pois tinham um símbolo único estampado na armadura, quais minha mãe descreveu muito bem para mim durante noites em que eu me negava a dormir) Quando nos viram, eles logo se armaram, seguindo as ordens que lhes foram dadas, desembainhando as espadas. Com dificuldade, o duque que me acompanhava insistia com eles, tentando não se irritar, falando de como era necessária a nossa


entrada, ainda que uma interrupção não planejada – ao que diziam: – São as ordens, Marquel. Não podemos fazer nada!  Eu cheguei realmente a pensar que não conseguiríamos entrar até que o Rei findasse a reunião dentro da sala. Todavia, de repente, o diálogo entre os nobres diante da porta foi interrompido por um enorme estrondo vindo do interior. Tão alto e assustador havia sido ele que Marquel logo incendiou todo seu corpo, tornando-se de puro e belo fogo, fazendo consumirem-se em chamas suas roupas de nobre e caírem fumegantes as peças de ouro e outras joias. Afastei-me dele assustada! Um dos dois guardas à porta, por reflexo, tentou desferir-lhe um golpe, que fez com que a arma se consumisse meio às chamas do corpo de Marquel, incandescido. Tão rápido como um cão fiel ao ouvir o grito de seu dono, Marquel avançou sobre as duas partes da portas ainda em chamas e as abriu, tornadas apenas as mãos de novo carne humana. Havia muita poeira no ar, que logo tomou conta do corredor em que estávamos e pus-me a tossir e a cobrir os olhos graças a isso. Ouviam-se vozes vindas de dentro da sala e


também de outros guardas que chegavam para ver o que estava acontecendo por ali. – Senhor? – era a voz de Marquel a gritar, vinda da sala, envolvida e opaca graças às partículas de pó. Rei Arthur! – gritou mais alto. Logo vi, saindo do meio de tanta poeira, um jovem a cambalear em minha direção. Ele estava assustado e desnorteado – pelo arfar se percebia – e só lhe pude ver a enorme roupa branca a envolver todo o seu corpo e a cor da pele em fino barro dos braços – o que não era tão comum em Tentos e nos reinados próximos dali. De dentro da sala, a voz do rei soou forte, em ordens precisas a todos: – Eu desejo que não deixem que o estranho escape! – e, assim que ouvi essa voz, algo em meu corpo respondeu ao chamado do rei, mesmo sem que eu quisesse: adiantei-me e tomei pelo braço aquele que cambaleava e o apertei com força, prendendo-o. Ele, ainda que tonto, também segurou-me, com a mão livre, e tentou dizer palavras ininteligíveis – outra língua, certamente. – Eu desejo que descubram quem ele é! – foram as palavras do rei. Em um vislumbre enigmático, estimulada pelas ordens do regente, assisti-me lançada a uma região campestre, como se todo o castelo se tivesse tornado


campo de colheita em alta estação. O que era aquilo? Onde eu estava? Um menino, ao lado de um homem mais velho, ajudava-o a tirar dos pés verdes as espigas de milho. Aquela criança era Volme Campalha, de uma família de pequenos mercadores: o jovem estranho a quem eu segurava o braço e que o rei queria para si preso. Todos esses detalhes me vieram no lance de pouco contemplar, e a dor de poder vêlos era tanta que larguei assim que pude o braço do jovem. Ele cambaleou mais uma vez e caiu. Tal como ele, uma gota de sangue escorreu de meu nariz e foi de encontro ao solo. Marquel, com o corpo nu e ainda chamuscado, veio rápido até nós e segurou o pobre jovem antes que encontrasse o chão como a gota de meu sangue. Vendo-o a segurar Volme, eu disse desesperada: – Não o machuque, eu disse nervosa. Ele é… ele não entende, Marquel. Não deixe que eles o machuquem.  O homem me fitou entre curioso e amedrontado, pois não entendia o porquê de eu estar gritando, ordenando-lhe que me garantisse a segurança daquele estrangeiro. Eu também não entendia o que estava acontecendo – aquilo que eu vira um pouco antes – como o podia ter visto? De qualquer forma, fiz convencer-se o conde de minhas palavras e ele deu-me promessa em aceno. Por hora, eu teria de


acreditar que Marquel manteria aquele jovem em segurança. Pouco depois disso, a uma brisa misteriosa, a poeira começou a ceder e sair pelas janelas; eu cobri meus olhos evitando as partículas e os guardas logo entregaram ao nobre nu uma nova roupa para que se cobrisse. Tão nervosa eu ficara que despi-me de qualquer vergonha que pudesse ter diante da nudez de Marquel. Enquanto ele se vestia, muitos já estavam ao nosso redor naquele largo corredor que levava à sala de reuniões. Pude ver alguns outros reis, denunciados pelas coroas e roupas que lhes calçavam o corpo e pelos guardas poderosos em companhia. Para quê tantos reis reunidos? – É Frida Lieira… – pude ouvir alguns dizerem, fitando-me surpresos. Conheciam-me! O que era um problema, certamente. O Rei de Tentos saiu, finalmente, da sala. Sua voz era forte e fez percorrer por meu corpo um calafrio quando cumprimentou-me, agradecendo pelo serviço que lhe prestei, o de segurar o jovem Volme Campalha. Todos colocaram sua atenção em mim. O rei observava-me a limpar do nariz o sangue que escorrera. – Não era sob essas condições – disse ele – que esperava encontrá-la, Frida. Eu sinto muito por isso. A voz era cínica. Baixei a cabeça, como todos os guardas fizeram, em reverência à presença do


mandante, dobrando-se sobre os joelhos. A mão enluvada de Arthur repousava sobre a espada reluzente enquanto a outra estava pensa; ao olhálo, senti medo, não por mim, mas por todo aquele povo do reino, incapaz de negar-se a atender-lhe os desejos. A enorme coroa na cabeça do rei de Tentos era um destaque, pois fazia parecer com que mesmo os outros reis presentes ali fossem menos influentes que aquele. O olhar de Arthur era severo e sempre cintilava em um brilho avesso, que parecia roubar a luz de nossos próprios olhos, inábeis de sustentar o olhar daquele. Era melhor que eu dissesse o que tinha para dizer e partisse junto aos meus o mais rápido possível. A habilidade do rei, mais que poderosa, era uma ameaça a qualquer um! – Enfim… – ele disse. Agora que a situação está controlada, continuemos a nossa discussão aqui, cavalheiros – claramente todos se sentiram incomodados com a postura assumida pelo regente de Tentos. Eu também o ficara, mas estava feliz por não ser mais o centro das atenções. Isso, no entanto, durou pouco, pois, subitamente, Arthur lançou-me as palavras diante dos outros: – Comecemos por você, Frida Lieira. O que tinha a dizer a mim? – ele perguntou. Eu não queria responder, tampouco permanecer ali. Fitei os presentes, olhos nos olhos – alguns cheguei a reconhecer. Não


responderia nada ao rei que não fosse em particular! Foi o que pensei. – Eu desejo que diga a verdade, Frida! – Arthur exigiu, e, tal como a pedra cede a força da água que cai da ribanceira, respondi, inconformada e sem poder negar: – Eleis está morto. Dito isso, esperei alguma coisa da parte dele – coisa que não veio. Arthur não se surpreendeu com aquilo, como se já soubesse do fato; os outros reis, por sua vez, tornaram-se eufóricos e logo mandaram os guardas trazerem mensageiros e escrivães para espalhar as notícias para suas terras. Arthur observava a cena calado e limitou-se a um suspiro profundo enquanto olhava para Marquel, que segurava o corpo desmaiado de Volme Campalha. Havia no olhar dele certa curiosidade. – Bom, acho que lá se vai a última lenda... Ou eu deveria dizer a única delas? Quando viesse a tona, a morte de meu pai era algo que mudaria tudo. Tudo o quê? Por isso minha mãe ordenara que todos que soubessem disso esperassem pelo menos um ano antes de a divulgarem aos conhecidos. Ela sabia também que aqueles mais próximos a Eleis precisavam de tempo para se organizar, afinal, sobre cada um deles, recairia o


martírio da sabedoria, do lugar que antes ocupava meu pai – o homem que soubera de todas as coisas. – Eu tenho tantas perguntas a fazer sobre isso… – o rei disse quase num sussurro. Ele colocou no rosto um sorriso desafiador e mais uma vez olhou-me olhos nos olhos, dizendo: – acho que a mais adequada para o momento é... eu desejo saber onde está o caderno de viagens que ele escreveu durante os anos de trabalho! Assim que ouvi as palavras, senti como se mais uma vez meu corpo independesse de mim para agir; lancei a mão dentro da bolsa a procurar papel e tinta, quais saquei rapidamente. Meu diário. Eu não entregaria a ele, não é? Eu não o queria; mesmo assim, atirei-me ao chão contra minha vontade e comecei a procurar nas páginas de meu texto qualquer coisa que revelasse ao rei o lugar de minha casa. De repente, um homem abaixou-se diante de mim e segurou minha mão a passar as páginas freneticamente – em seguida, espetou-me no braço com uma agulha. Senti arderem os músculos, mas pareceu-me que recuperei o domínio sobre eles. – Paremos por aqui, Arthur – ele disse, e os guardas lançaram mão sobre as espadas, a fim de desembainha-las e enfrentar o infrator. Marquel era o único dos nobres do rei a não se mover, talvez por ainda estar vigiando Volme Campalha. O homem estranho soltou a minha mão qual segurava e pediu desculpas, que recebi sem


cerimônias. Seu nome era Alastor, conhecido em toda Golaria por ser o Guia de Ca – o próprio Vento em divindade – e um dos membros do antigo Conselho da Magia do Norte. Seu rosto era familiar aos meus olhos e, em um lampejo, lembrei-me de que ele esteve também presente para a despedida de meu pai! Tinha um porte relativamente magro, com marcas claras de uma idade sábia anunciada, revelada principalmente nas cicatrizes dos braços e do rosto. – Peço perdão por minha forma rude, Minha Senhora. Frida, não é?! – a voz serena mais encantava que enganava, mas eu não me renderia à doçura e mansidão de um velho poderoso, pois todos ali me pareceram suspeitos depois de ser eu enfeitiçada sucessivamente pelas palavras do próprio rei. Eu não percebera que eu tinha aos olhos lágrimas tristes. Só as vi quando pingaram sobre o papel, fazendo borrar o que eu havia escrito. As palavras de minha mãe me vieram à memória: os presentes são amigos, Frida. Um amigo, então? Alastor pôs-se a olhar, primeiro em meus olhos e em seguida a encarar todos que ali se faziam presente. Coçou a garganta e ergueu-se. Anunciou com tom forte: – A senhora Frida Lieira está em minha companhia: quem quer que lhe queira o mal, será alvo também da fúria de um homem sereno que aos Ventos governa – olhei-o sem


entender, antes que acrescentasse: – também protegerei aqueles que lhe são caros: seja quem for!  Começou diante disso uma confusão, pois, de seus lugares, o guardas enfim levantaram suas espadas e fizeram que avançariam contra Alastor. Eu não o havia pedido auxílio, mas entendia a sua decisão de me proteger: quão tola eu fui em pensar que o Rei de Tentos seria digno de saber sobre meu pai! Depois de tanto tempo, eu continuava sendo jovem. Pensava eu ser ele boa gente... e, ainda que poderosa eu fosse que talvez não precisasse do auxílio daquele senhor, aquela investida surpresa por parte do rei foi perigosa e quase me vi entregando a ele a localização de minha casa, onde estava guardada a coleção de cadernos de meu pai. Ao perceber o movimento dos guardas, Alastor atirou ao ar sua capa, revelando os músculos fortes que envolviam seus ossos – janelas fechadas em um instante se abriram; vento abundante corria pelo corredor, furioso. – Arhtur, disse um dos outros reis, qual também segurava o cabo de sua espada e olhava desconfiado para aqueles que o rodeavam. Nós não falávamos sobre aliados e inimigos em uma possível futura guerra? Guerra? O comentário pareceu incomodar os outros reis e os nobres mais a quem eu desconhecia. Logo começaram a tomar partido, indo encontrar lugar ou ao lado de Arthur, o senhor daquela casa, ou


ao lado de Alastor e do rei que havia se aproximado de nós. Foi ele quem me ajudou a me levantar, lançando palavras de consolo sobre a perda de meu pai e também sobre aquela situação desagradável. Alastor entregou-me o diário e a ponta de tinta. Os guardei. – Parece que nós já terminamos, Régis – anunciou o rei de Tentos, deixando a raiva subir-lhe pelo pescoço. Desapareçam daqui! Se estiverem em Tentos ou em minhas terras até o fim deste dia, estarão mortos, sem chance de se redimirem! Foi impossível que eu trouxesse Volme Campalha para nossa companhia, por mais forte que eu desejasse. Eu poderia ter mencionado que ele estava comigo a Alastor, mas não queria ter mais esse problema. Volme teria que esperar... agora, os problemas eram outros e não pareciam haver respostas para minhas tantas perguntas. Senti a mão de Alastor tocar meu ombro: nós devíamos partir, sem demora.

Continua...


O diário e os sonhos de Frida Lieira © Gabriel Reis Martins (1995 -)

TEXTO E REVISÃO DIAGRAMAÇÃO E CAPA

Luísa Maria de Resende Gabriel Reis Martins

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A Fuga do Grande Reino [Capítulo 1:1]  

Capítulo 1:1 de "O diário e os sonhos de Frida Lieira", série quinzenal de literatura fantástica, voltada ao público juvenil.

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