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18 de outubro de 2006 Universidade de São Paulo - USP Escola de Engenharia de São Carlos – EESC Departamento de Arquitetura e Urbanismo

RELATÓRIO DE INTRODUÇÃO À ARQUITETURA E URBANISMO MODERNOS

Gabriel Nery Prata Nº USP: 5654600 Professores: Cibele Saliba Rizek e Ruy Sardinha Lopes 1º Ano Arquitetura e Urbanismo


CIDADE — CORPO E EXTENSÃO DO PENSAMENTO HUMANO Cidade como corpo; Cidade, um movimento Cidade... A cidade, palco de todas as intervenções do homem, acaba evidenciando os processos sócio-urbanos que ocorrem em seu interior através de sua própria espacialidade. Ela, tal como um corpo, demonstra os sintomas daquilo que sofre, deixando marcas de queimaduras ou cicatrizes de alguns atos do organismo. No caso urbano de hoje, presenciase muito daquilo que se tem origem no passado. Aliás, a cidade é passado. Ela conta sua própria história, daquilo que funcionou e daquilo que não deu certo. Porém a cidade como ela é hoje e como ela era no passado, e todo esse processo de transformação, torna-se um material bastante importante para a construção da cidade contemporânea. Através dos aspectos que a cidade nos mostra ao longo de sua história, retiramos aquilo que é considerado útil e funcional para a concepção de uma nova cidade. A cidade do homem para o homem, a cidade social, enfim, a cidade ideal. Atualmente, vivemos em uma sociedade bastante característica. Em vista de suas desigualdades, suas explorações e sua mercantilização, nota-se tratar de uma sociedade capitalista, na qual todo o movimento e metamorfoses se dão graças ao capital, instrumento de pretensioso poder, que repousa nas mãos da classe dominante, a burguesia. Esta burguesia visa o lucro e suas posses acima de tudo, não se importando com as conseqüências que seus métodos podem causar, desde que não sejam malévolos a seus próprios interesses. A todo esse poder concentrado no mercado financeiro, com seus representantes burgueses, dá-se a estes hegemonia, ou seja, soberania perante as outras classes da sociedade. Através dessa hegemonia, a burguesia produz consensos, a fim de convencer as massas a enxergarem o mundo de maneira diferente, da maneira que a classe dominante quer que se veja. Como o mundo real é, na maioria das vezes, diferente da visão esperada, a esses conjunto de contradições acaba por se construir ideologias burguesas: as coisas se estruturam e se mostram de uma outra maneira. Assim como se deve entender a questão da hegemonia, também deve-se compreender a questão do progresso. A noção que a palavra pressupõe é de conseqüência positiva, entretanto é necessário se perguntar para quem essa conseqüência fora positiva. Podemos dizer que a mecanização fora um progresso na produção industrial, mas não para o bem-estar da população. Muito pelo contrário, esse progresso possibilitou a exploração da classe trabalhadora. E essa classe se baseia pelo pressuposto de que o trabalho dignifica e enobrece o homem — idéia presente ainda hoje, ética capitalista — e que ele é a chance de se adquirir independência e reconhecimento. Essas idéias colocadas como virtudes do trabalho são nada mais que a ética capitalista do deixar ser explorado para benefício não da massa, mas em prol do lucro da burguesia. Que curioso, nota-se aí uma ideologia. A exploração não é algo ruim, mas a chance de ser reconhecido e impor respeito a si próprio e à sociedade a que pertence. Vimos através de Thompson 1 que, com o advento do relógio, da racionalização do tempo, esta abstração, antes regida pelo movimento do sol, é agora regida pelo burguês. Estipulam-se horas de todos os exercícios diários. E com o tempo as máquinas — inclusive os relógios — sofrem um processo de evolução tecnológica. Aperfeiçoam-se instrumentos, desenvolve-se um maquinário útil de produção e usa-se como combustível desse processo todo o vapor. Eis a Revolução industrial. Seria progresso isso? Novamente se pergunta: se foi progresso, para quem foi? E a resposta é simples: para o processo de geração de capital burguês e para a produção industrial, sim; porém, retornando o processo histórico pré-industrial, da acumulação primitiva do capital, viu-se que a consolidação da indústria deveu-se pelo confisco dos bens da Igreja, pela expropriação dos meios de trabalho do artesão e, principalmente, pela expropriação do trabalhador rural — que perdeu suas terras para a criação de ovelhas e que foi para a cidade tornar-se mão-de-obra barata para a indústria, reduzir-se à miséria e à exploração e se juntar à massa do operariado que será submissa ao relógio burguês, à máquina e à produção capitalista. Esse inchamento na população da cidade industrial alimenta o capitalismo e acaba modelando a sociedade urbana e sua espacialidade. Com a vinda dessa população rural, bairros residenciais acabam surgindo aos arredores das indústrias. Estes abrigos não são moradias decentes, uma vez que se tratava de um aumento da densidade populacional de uma cidade que não possuía infra-estrutura para atender às necessidades da população recém-chegada, não possuindo atributos qualitativos necessários para o bem estar do homem, o que tornava a moradia digna objeto de constantes reivindicações por parte do operariado. Aliás, a questão da higiene em relação às moradias e às condições de vivência, importante fator qualitativo, ainda seria discutida pelos sanitaristas posteriormente. No momento, pode-se notar o quão perverso é o sistema capitalista. Ele força a entrada de todos, englobandose tudo, transformando o homem em máquina, instrumento para suas realizações. É tão sórdido tal sistema que promove tamanha desigualdade entre seres de uma mesma espécie, seres humanos. Porém não se deve esquecer que isto é


criação do próprio homem. A idéia do Leviatã — do homem que é o lobo do próprio homem — é mais uma vez lembrada aqui. Não é da natureza um sistema de autodestruição em massa de seres de determinada espécie como o capitalismo. Este sucumbe toda uma espécie ao ponto de se naturalizar perante a mesma. O homem mata um indivíduo da mesma espécie por interesses capitalistas e não-naturais Ao se estabelecer e, por si só consolidar-se, a ética capitalista gera segregação social, desigualdade e pobreza. Divide-se aqueles que trabalham daqueles que não possuem uma ocupação. Aqueles que não se submetem ao assalariamento são classificados como vagabundos, transgressores da ordem e da moral do trabalho. Para que esta segregação e a ética trabalhista se consolide, todo um conjunto de leis jurídicas, morais do trabalho — provenientes do pensamento ideológico burguês e da população contaminada com tal idéia, alienada neste aspecto — e todo um aparato são estruturados de forma a naturalizar o assalariamento. Entretanto, os desempregados não são assim por opção própria, mas porque simplesmente não há emprego para suficiente para todos. Essa desigualdade leva uma parcela da massa estacionada a roubar ou executar serviços ilícitos para adquirirem um capital de subsistência. Isso acaba gerando uma classe perigosa no ambiente urbano. Essa classe perigosa promove o pensamento burguês de sua segurança através da separação evidente proposta pela criação de condomínios fechados para sua classe, fechando-se fisicamente para aquilo que a burguesia como classe dominante criara. E é a cidade, que através de sua configuração urbano-espacial, evidencia tais mudanças, sendo estas marcantes e que sobreviveram ao longo dos sécuOperários ao lado das máquinas no los e que ainda persistem nas cidades atuais: favelas e condomínios interior de uma tecelagem paulistana, no início do séc. XX. fechados. Na cidade, a massa se torna multidão; todos se equivalem ao se cruzarem pelas ruas. A cidade mostra a rotina decorrente do processo de naturalização da exploração e da dominação burguesa. E isto não é evidente apenas nas analises históricas. Cidades-capitais, como São Paulo, evidenciam a questão da naturalização na atualidade: na cidade, os moradores de ruas e a população marginalizada faz parte do quadro natural da cidade, e não como produtos de um processo capitalista horrendo. Naturaliza-se a dominação e a exploração; esta supõe trabalho que supõe uma jornada, um determinado tempo; tempo este que possui uma temporalidade. O resultado disso é o famoso horário de rush. O relógio burguês anuncia o início e término das atividades produtivas aos explorados, melhor dizendo, assalariados — ideologia? —; isso justifica o aumento do fluxo de automóveis e pessoas em determinadas faixas de tempo do dia. O momento em que a cidade perde sua identidade e autonomia se dá devido à intervenção do Estado em sua administração — decorrente do processo histórico da criação dos estados nacionais. A partir de então, a cidade não está mais só; entretanto perde sua autonomia e passa a ser gerida por um Estado. A pertinência à cidade por parte dos cidadãos é substituída agora por uma pertinência ao Estado. De cidadão, membro pertencente a uma estrutura social válida, o homem passa a ser apenas um registro geral de número específico aos olhos do Estado. Este aparece agora como se fosse de todos, entretanto não são todos que governam, mas sim uma pequena parcela, através de seus representantes, ainda que escolhidos pela multidão, porém que atendem apenas aos interesses da burguesia e do direito privado, alimentando o capitalismo e depois o homem. Trata-se de um Estado liberal, no qual se afirma o individualismo possessivo, destacando-se o direito fundamental da propriedade. A república liberal burguesa procura a alternância no poder entre grupos burgueses, criando um mercado de votos e persuasão das massas. Tratando-se, portanto, regida por um poder burguês, a sociedade do século XIX é marcada pela notável desigualdade social, um mal enorme que assola toda a Europa, devido ao capitalismo selvagem. E é aí que se tem um impulso para o desenvolvimento de pensamentos socialistas na época, em meio ao monstro negro do capitalismo e o esfumaçante fantasma das tecnologias industriais. Propunha-se a construção de uma grande área que pudesse abrigar uma parcela da população operária — pelo menos os trabalhadores de determinada indústria que instaurasse esse modelo — em alojamentos e, tal aglomerado de pessoas, estabelecer-se-ia uma unidade, uma comunidade. O local de que se trata, denominado falanstério, proporcionaria aos operários uma vida mais humana em relação àquela que tinham na cidade. Os operários morariam em alojamentos coletivos; seus filhos, ou quaisquer crianças que fossem inseridas no lugar, teriam uma educação de qualidade através da escola que se consolidaria ali. Quando atingissem a idade de trabalho, trabalhariam na fábrica, presente ali também, com os outros moradores. Porém a fábrica estabelecida não visaria o lucro ou a mais valia, mas sim apenas a produção necessária para que aquela comunidade sobrevivesse. Sendo assim, não haveria necessidade de exploração, logo a carga horária de trabalho seria menor, o que


possibilitaria aos trabalhadores passarem horas livres nos espaços de lazer com a família, conversando ou praticando atividades físicas ou intelectuais. O falanstério em sua espacialidade seria organizado de modo que os alojamentos ficassem ao redor do centro, separados deste por uma área verde considerável; no centro, estariam a indústria, a escola — locais de trabalho e aprendizado respectivamente — a biblioteca e outros serviços, além de áreas livres e de lazer. Sempre com áreas verdes entre as construções, tal como os limites que cercariam toda a região do falanstério. Tal lógica social do falanstério fora concretizada em algumas regiões européias e norte-americanas, porém apenas como uma experimentação socialista, que não obteve muito sucesso no mundo antagônico daquilo que se propunha. Contudo pode-se concluir que os falanstérios e familistérios — também falanstérios, porém com a diferença de que a comunidade se estruturava em moradias familiares, preservando a privacidade das famílias, ao contrário da estruturação proposta pelos primeiros, onde os alojamentos seriam casas de descanso apenas, não se preocupando com o conceito de individualidade dos habitantes — estas formas de organização, foram tentativas de se implantar o socialismo em pleno auge da mecanização industrial e Falanstério em New Lanark, EUA. capitalista; uma experiência bastante produtiva e que harmonizaria a relação entre homem e máquina, acabando com a exploração de ambos, promovendo um progresso quanto ao bem-estar e convívio social em comunidade. Porém aqui, o progresso tem conotação positiva no âmbito social, porém negativa na questão da burguesia. Perde-se dinheiro e lucro com tal progresso, entretanto, o que é mais interessante: promover um desenvolvimento social, proporcionar uma vida mais adequada ao ser humano, ou visar o lucro perante a exploração de semelhantes, devorá-los com a feracidade maquinista? O bem-estar do homem deve vir em primeiro plano, pois é ele o grande interventor acima de quaisquer lógicas, pensamentos ou máquinas. Estes são conseqüências do pensamento humano. Tendo em vista todas essas características, pode-se relacionar o conceito de falanstérios com a comunidade de Canudos aqui no Brasil. A comunidade que se auto sustenta, que trabalha para seu próprio desenvolvimento — diferenciando-se apenas na indústria em sua ausência — a ética de tal grupo está relacionada e é, se não idêntica, muito próxima à da organização tratada a pouco. Uma vez consolidada e muito bem estruturada, com tal lógica social facilmente se atingiria o socialismo em contra-ponto ao pressuposto do capitalismo. A partir daí, todos seriam considerados iguais, ainda que houvesse um Estado ou industriais com poderes superiores. Estes últimos elementos se encarregariam de fazer as devidas ligações destas comunidades para as outras — no caso dos falanstérios do século XIX — estabelecendo uma unidade entre elas, ainda que fragmentada em pequenas comunidades, porém muito bem estruturadas — sem aquele caos aparente que as cidades como São Paulo, Londres, Nova Iorque proporcionam. Estabelecida a ligação, desapareceria a concorrência ente indústrias; então os proprietários destas nada mais seriam do que representantes de suas comunidades, atentos à produção sem interesse em mais valia. Tudo isto sendo administrado por um Estado como instrumento de efetivação universal da idéia. O trabalho em prol das sociedades traria a verdadeira lógica do trabalho enobrecendo o homem — aqui tem-se a destruição de uma ideologia burguesa: o trabalho dignifica o homem quando este o executa pensando em seu semelhante, e não em interesses econômicos — fosse nas escolas, nos serviços comuns, como na própria indústria, estabelecer-se-ia a sociedade ideal a partir dessa organização que obteve insucesso em sua resistência em séculos passados. Mas isto seria pensar de maneira utópica demais? Isso tudo, apesar das chances mal-sucedidas, poderia ser reinstituído no futuro, ou agora, procurando estabelecer uma relação simbiótica entre homem, máquina e produção industrial? Esta questão será discutida muitas vezes, sempre mais a fundo, e irá atravessar os séculos propondo-se um conEsboço de um falanstério. junto de soluções.


Após a criação do Estado, os cidadãos, como vimos, deixam de intervir diretamente na cidade; existe um órgão entre ambos que efetivará tais intervenções, interagindo com as propriedades públicas e, muitas vezes, até com as privadas. Sendo assim, o Estado começa a pensar na cidade e de que maneira poderá intervir nela. E essas modificações estatais no ambiente são consolidadas através de um conjunto de leis. E são as leis as responsáveis por processos de expropriação, como a do camponês durante a Revolução industrial e como a que veio a ocorrer posteriormente no centro de Paris, século XIX, para a implantação de projetos megalomaníacos do prefeito da região do Sena durante o Segundo Império, Baron Georges-Eugène Haussmann. Para se entender o Plano Haussmann, deve-se analisar a situação da Paris do século XIX: uma cidade industrializada, com uma malha de circulação bastante medieval e problemática, tanto para a circulação das tropas imperiais — para contenção de movimentos revolucionários — quanto para a população, que, por sua vez, já ultrapassada a marca de um milhão de habitantes, devido ao processo industrial era em sua maior parcela provinda do setor industrial. Todo o centro da capital francesa estava tomado por moradias escassas de um operariado explorado — as casas se dispunham de modo estranho, seguindo o crescimento desordenado e irregular da cidade e da população, conseqüentes da mecanização industrial. Precisava-se de melhorias em serviços básicos, como iluminação, esgotos, rede hidráulica, transportes e outros serviços públicos, a fim de atender à grande demanda populacional. Remodelar Paris por uma restauração da ordem. Os resultados são positivos, por enquanto. Reconstrói-se a rede de esgotos, Baron Georges-Eugène melhorias são feitas em relação ao abastecimento de água da cidade, à implantação Haussmann de uma iluminação adequada à cidade — futuramente conhecida por Cidade Luz. Aparentemente, segue-se a lógica do Estado governando para o povo. Entretanto, Haussmann acreditava na necessidade de se criar parques e áreas livres para propor uma circulação do ar e da população, e também abrir largas e enormes ruas e avenidas. Para isso, usou-se de leis que expropriaram a população pobre que viviam nos cortiços de aluguel, construções de elevada densidade que dominavam o centro de Paris. Para o prefeito, arquiteto e grande interventor, os cortiços eram locais em que a higienização precária e a falta de estrutura adequada proporcionavam um mal aproveitamento do espaço. Por isso, baseando-se em idéias higienistas — idéias que serão retomadas por Le Corbusier e A Carta de Atenas posteriormente para o desenvolvimento da cidade ideal contemporânea — que propunha, dentre várias ações, a destruição de tais lugares nos quais não se tinha condições decentes e adequadas ao bem-estar do morador. A circulação, tanto de pessoas como de ar, era quase que totalmente ausente. Devido ao amontoado de construções, a passagem de luz e a iluminação como um todo era difícil e bastante escassa. E o excesso de contingente nessas condições quase subumanas em que viviam tornavam os cortiços e aglomerados grandes focos de doenças, principalmenIntervenção de Haussmann: te daquelas transmitidas por vias respiratórias e que danificavam Boulevard em Paris, vista do Arco do Triuntal sistema do organismo humano, como a famosa tuberculose, grande mal da época. Os higienistas, que vinham circulando com suas idéias desde meados do século XVIII, acreditavam que uma cidade higienizada era fator de condição essencial para se estruturar uma cidade funcional. Preocupar-se com a saúde de seus habitantes seria essencial para o bom funcionamento da cidade, até porque esta é uma extensão do pensamento humano, portanto, ambos deveriam ser necessariamente saudáveis. E realmente. Epidemias que assolam grande parte da população fazem com que a cidade altere seu ritmo negativamente, nos mais diferentes aspectos, destacandose dentre eles o trabalho e a circulação. Tem-se aqui o desenvolvimento de uma vertente do pensamento urbano que relaciona a cidade como um organismo semelhante ao organismo do homem — a cidade como um corpo. Para tanto, os higienistas se preocupam muito com alguns aspectos: • Pavimentação de ruas, para facilitar tanto a circulação como a limpeza com água. Ao pavimentar, impede-se o acúmulo de água parada em contato com a terra do solo ou com camadas em decomposição, evitando a possível criação de focos ou criadouros de vetores que disseminem doenças;


• Drenagem da cidade, similar à pavimentação, entretanto procura auxiliar a natureza neste processo natural que, em uma aglomeração bastante artificial como uma cidade para ela, apresenta bastantes dificuldades. Uma extensão de uma lógica natural; • Circulação de ar, uma vez que não se estabeleça focos de doenças aéreas, além de constituir-se num processo de ventilação de locais diversos e, principalmente, de purificação do ar; • Desinfetação pessoal e pública, duas questões que são levadas muito a sério. Desinfetar para que não haja geração de focos bacterianos ou de microorganismos nocivos ao funcionamento do organismo do homem, para que não se interfira no funcionamento do corpo da cidade, como já foi visto. Além disso, a desinfetação procura estabelecer um bom cheiro aos lugares, evitando-se que estes fiquem com odores insalubres. • Redução da densidade populacional para que se tenha uma distribuição de serviços, luminosidade e circulação mais adequados a toda a população, pois grandes densidades dificultam esses aspectos urbanos. Aqui surge um ponto de ressalva ao se tratar da verticalização das cidades. Em cidades com muitos prédios, a densidade é muito alta, exigindo-se muito de serviços de abastecimento hidráulico e elétrico, e uma maior atenção a ser dada à circulação normal e emergencial — afinal, um incêndio em um edifício sem essas preocupações torna-se difícil de ser controlado e de salvar vidas, como pôde-se presenciar com o atentado terrorista contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, em 2001, capital da burguesia contemporânea, além do que o excesso de pessoas leva a um pânico e desespero que atingem níveis incontroláveis rapidamente, onde desaparece a ordem e se estabelece o caos. Abrindo um breve parênteses, esse complexo de edifícios que representava o símbolo da soberania global norte-americana e também o símbolo do capitalismo supremo, possuía, dentre muitas outras características positivas e negativas, a interessante estrutura de implosão em casos como o acontecido, em que se evitou causar danos maiores ao comprometer os edifícios ao redor, evitando que estes fossem danificados juntamente com as tores gêmeas. Para tantas preocupações a serem consideradas pela cidade, os higienistas procuravam por lugares de divulgação e aprendizagem dessa nova concepção e escolhem locais com grandes conglomerados de pessoas, como escolas, hospitais, prisões, casas de trabalho, tanto para divulgarem, como para experimentarem e instituírem as práticas higiênicas que se propunham, a fim de divulgarem a higiene pessoal e preparar a população para as intervenções que serão feitas no espaço da cidade, a serem revogadas ao Estado para que se tornem Leis, para assim os higienistas intervirem legalmente no ambiente urbano. É neste momento em que ocorrem grandes avanços tecnológicos em pesquisas científicas no ramo químico, com estudos relacionados à desinfetação, vacinações e produtos de limpeza. Pois bem, através dessas idéias e estudos higienistas, Haussmann inicia a reforma parisiense. Pavimenta ruas, reforma o sistema de esgotos quase que em sua totalidade, destrói cortiços para abrir espaços aos novos parques e edificações e, principalmente, às largas avenidas — os boulevards. Com isso, diminui a densidade no centro de Paris. Os edifícios que são construídos próximos a essas áreas de total reconstrução passam a ser homogêneos — retomando aos ideais de homogeneidade da cidade ideal renascentista — edifícios com mesmas fachadas e estrutura interna. Assim como a cidade ideal de Da Vinci propunha a divisão estamental dos edifícios por classes, Haussmann implantara isso na prática, entretanto, ao contrário do renascentista, os edifícios hausmannianos detêm a burguesia no primeiro andar, assim como o comércio no térreo, a classe média no patamar acima da burguesia rica e as camadas mais inferiores nos andares mais altos. Esta segmentação fora definida assim segundo estudos higienistas de circulação de ar e abastecimento hidráulico. Obviamente que Haussmann procurou usar desses estudos para construir os edifícios favorecendo o bem-estar da burguesia, afinal, trata-se de um Estado liberal burguês. Muitos edifícios públicos são reformados, outros que faltavam são construídos. Paris tem sua espacialidade com outro aspecto agora. As grandes avenidas ligadas em determinados pontos — verdadeiramente como máquinas perspécticas como o Arco do Triunfo — constituindo uma malha axial que promove a boa circulação. As áreas verdes tornam-se mais intensas, tal como as áreas livres e de lazer. As únicas construções antigas que ficam de pé nessas áreas são as consideradas pela História as mais importantes. O restante é demolido e reconstrói-se no lugar novos prédios, porém que acabam tendo por base as construções históricas preservadas. Isso faz com que os patrimônios históricos acabem se transformando em monumentos, verdadeiras máquinas perspécticas nos novos espaços, porém isolados da temporalidade da cidade. Nessa situação, a arte começa a separa-se da vida, o ambiente quotidiano começa a ficar mais pobre e a beleza transfere-se para a esfera do entretenimento, do tempo livre. Com todas essas transformações que Paris sofrera, Haussmann acaba tornando-a uma das, senão a cidade mais bela da Europa do século XIX. Paris, a cidade luz — apesar de que a cidade adquire esse status e a edificação completa da intervenções hausmannianas através de uma dívida pública imensa e de empréstimos do capital privado.


Porém, partindo-se deste último aspecto, tem-se a impressão de que, neste embelezamento parisiense, está implícito algo mais do que uma simples solução de problemas urbanos. O capitalista urbano é um nômade antipatriótico. Tendo em vista o espírito liberalista e burguês, Haussmann promove esse desenvolvimento espacial de Paris não para a própria cidade, mas porque ela é a capital do Estado francês. Aquela Paris para seus habitantes não existe mais; Paris não é mais dos parisienses, mas de todo o Estado nacional da França. Ou seja, o embelezamento de Paris nada mais é do que uma estética e funcionalidade voltadas para uma cidade que atenda aos interesses nacionais liberais, ou seja, aos interesses burgueses. Haussmann utiliza-se de conceitos de cidade ideal, higiene e de toda uma gama de material, que é utilizado para se pensar no urbanismo contemporâneo para se propor uma cidade humanitária, para uma proposta burguesa, não para uma população como um todo, ainda que intervindo na cidade através da ideologia e do pressuposto de que as obras são para o povo. A destruição dos cortiços possuía fortes e coerente razões de se executar, entrePlace Unirii avec lê palais du Parlement dans le fond tanto ocorreu apenas uma mudança do foco da pobreza, que se desloca e se instala na região leste da cidade. O fato de se destruir cortiços para abrir novos canais de circulação tem que ser pensado da maneira mais social possível, como uma forma de reestruturação urbana e melhoria nas condições de vida daquela população expropriada inclusive. E, realmente, deve-se tratar de uma melhoria — e não a melhoria ideológica proposta pelo Estado burguês — ou seja, construir em outro local apropriado moradias de qualidade para aqueles que antes moravam nos cortiços demolidos, de modo que se garanta uma melhoria na qualidade de vida e no bem-estar da população como um todo. Ao se executar os planos de demolição desses locais visando atender interesses capitalistas é uma conseqüência de uma hegemonia que desrespeita as questões sociais que procuram dar a todos condições iguais e adequadas de moradia e de vivência. A CIDADE SE TORNA BELA NÃO PARA A COMUNIDADE, MAS PARA ATRAIR O INTERESSE PRIVADO, PARA MOVIMENTAR A MÁQUINA DO CAPITAL. Tal questão da expropriação dos moradores dos cortiços e da demolição destes para a construção de boulevards com cafés para a requintada burguesia parisiense é objeto de análise crítica da arte do século XIX. Para muitos poetas, especialmente para Baudelaire, essa superposição de classes distintas em um mesmo lugar faz com que ambas freqüentem o mesmo espaço; uma porque passa a freqüentar tal lugar devido a conseqüências de uma nova urbanística voltada para a burguesia; a outra porque dali fora expropriada para tal nova urbanística e dali não tinha para onde ir. Enquanto uma permanece ali por opção e bom-grado, a outra permanece por necessidade. E essa situação gera uma tensão e reflexões a respeito dessas medidas liberais do capitalismo intervindo na espacialidade da cidade, promovendo tal desigualdade social. Uma reflexão também sobre como as pessoas da época em questão vêem isso, o que marca o conflito do eu-lírico do poema de Baudelaire, Família de Olhos, com sua mulher e o conflito psicológico pelo qual ele próprio passa, o qual ele tem que enfrentar. Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar. Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam


uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou. De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança. Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade. Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda. Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?" Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam! E o poema nos leva a pensar também sobre a sociedade em que vivemos, na forma pela qual a vemos e aos problemas decorrentes do capitalismo incrustado na mesma. Assim como a mulher do rapaz no poema de Baudelaire pede para que se chame o gerente para expulsar a família de olhos dali, temos uma análoga situação na Casa São Paulo, onde ocorrem concertos e festas da capital paulista, localizada na estação ferroviária Júlio Prestes, no bairro da Luz. Nos salões da estação destinados para festas e confraternizações para apenas uma determinada parcela seleta de determinada classe com alto poder aquisitivo, quando ocorrem festas, as enormes paredes de vidro — alternativa encontrada pelo arquiteto responsável pela reforma na estação para buscar uma intervenção urbana sem que se afetasse o patrimônio histórico — são cobertas por suntuosas cortinas para que as pessoas que embarcam na estação ao lado do salão não se tornem pessoas de olhos para os convidados da ocasião, de forma que estes não fiquem perturbados com os olhares da massa. A cortina e o maître, objetos diferentes, porém que executam a mesma função. Os boulevards também geram discussão similar de cunho reflexivo pelo fato de propiciar a circulação de pessoas, várias delas, tornando-se objeto de análise da compreensão social da época, evidenciando o tanto de gente Boulevard des Capucines, Moque não mais se conhece na grande cidade que se tornou Paris — mas a net idéia não só se limita à cidade francesa, também se expande pelas outras cidades capitais do mundo. Para vários artistas da época, o cruzamento inevitável com determinadas pessoas se tornava uma oportunidade quase única. Vestidas da mesma maneira, da mesma cor, refletindo a moda preto e cinza que, para Baudelaire representava mais do que a moda urbana do século XIX: ressaltava a expressão política de igualdade universal e de beleza poética, expressão de alma pública que estaria em constante luto causado pela máquina. O fato de dificilmente reencontrar a pessoa vista em um boulevard leva à idéia de individualidade, ainda que no meio de uma multidão. Como as pessoas pouco ou quase não se conhecem, não se importam umas com as outras, procurando apenas se preocuparem com os caminhos que devem seguir em meio aquele emaranhado de transeuntes apressados, procurando


chegar em seus destinos, envoltas em seus pensamentos e em seus passos, não se importando com as outras pessoas que se cruzam com a mesma carga de pensamentos direcionados. Eis aí a multidão individualista, da cidade para além do bem e do mal. Interessante a expressão, uma vez que temos um grande conjunto de pessoas, mas que entretidas em seus próprios universos, passam-se como verdadeiros autistas. A questão da cidade para além do bem e do mal devese pelo fato de que ela é uma fatalidade, resultado de todo um processo histórico. Os fatos que são desencadeados em sua espacialidade não são conseqüências de uma cidade de virtudes ou de vícios; são fatos que se consolidam no momento e que se desmancham no ar. Abrindo um breve parênteses, a cidade já fora vista como virtude — o centro produtivo das atividades humanas mais valiosas: a indústria e a alta cultura — e também como vício — uma cidade que explora o homem, entregue aos vícios da industrialização, que produz homens decadentes enquanto acumula riqueza. Para se chegar nesta conclusão de cidade para além do bem e do mal, levou-se muito tempo. E esta visão da virtude, que repentinamente se transforma em vício e paulatinamente em algo para além do bem e do mal, resume toda a trajetória da visão da cidade européia durante a temporalidade da implantação da máquina no processo industrial até a naturalização do Estado burguês liberal. Essa questão do desconhecido no meio da multidão traz duas concepções interessantes. Uma é que, em se tratando de uma espacialidade bastante ampla e quase total desconhecimento do indivíduo nesse mar, permite que ele pratique atos dos mais diversos que bem entender, sem que os outros se importem. Uma quase privacidade no meio da multidão. Reconhece-se esta idéia ao se assistir uma peça interativa de teatro como as do teatro Oficina, em São Paulo, nas quais o público interage profundamente com os atores e com a história, em que normalmente mostra cenas bastante provocantes e ousadas, criticando o conservadorismo e levando à discussão artística de uma realidade bruta. O espectador, passivo de qualquer momento de interação, que tem a oportunidade de participar de cenas como as mencionadas a pouco — as quais os conservadores diriam se tratar de um conteúdo pejorativo, imoral e sem-vergonha — ao participar, não será comentário na cidade inteira. Não em uma cidade como São Paulo. Se ele beijou homens e mulheres, se despiu na frente de todos, se ajudou a promover o desenvolvimento de uma peça como esta, não será lembrado. As ações realizadas pelo individuo sim, porém o feitor não. Todo este aparato teatral de José Celso, ator, diretor e fundador do Teatro Oficina, não teria chances sequer de ocorrer em uma cidade com menos de 90 mil habitantes. Neste caso, o teatro não seria visto como portal difusor de um novo conceito de arte, sua arte seria vista como uma imoralidade e aqueles que participassem das peças seriam lembrados, bem como o que fizeram, tornando-se ícones de comentários por toda a cidade. A segunda opção concepção a ser tratada, intimamente relacionada com a primeira, é a questão da perda do halo, proposta por Baudelaire. O halo representa a aura de pureza e santidade da arte, o que torna o poeta diferente dos outros homens, santifica-o. O que o poeta da família de olhos propõe é que se perca essa aura que diferencia os homens dos poetas. Ao se livrar da pureza artística e conhecer a apoesia da realidade, do caos da vida moderna, o senso poético amadureceria e cresceria. Para aqueles que consideravam a arte como sagrada e pura, ao assistirem uma peça de teatro como a de José Celso têm seus halos jogados na lama. Contudo, a poética interior daquele que perde o objeto é desenvolvida, principalmente se o indivíduo introduz seu pensamento daquilo que seria imoral como arte. A perda do halo é um ganho para o artista; é a redestinação dos poderes artísticos deste a uma nova espécie de arte que nasce. E este processo de dessantificação da arte se dá através da difusão de conhecimento. O que!? Você, meu caro? Num lugar desses! Você, o bebedor de quintessências! O comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender. - Meu caro, bem conhece o pavor que tenho dos cavalos e dos coches. Agora há pouco, quando atravessava apressado o bulevar, saltando sobre a lama, através desse caos movente em que a morte chega a galope, por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou de minha cabeça para o lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei me-


nos desagradável perder minhas insígnias do que quebrar os ossos. E depois pensei cá comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você, como pode ver! - Deveria ao menos dar parte do desaparecimento dessa auréola, comunicar o ocorrido ao comissário. - Ah, não. Me sinto bem. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me aborrece. Depois, penso com alegria que algum poeta medíocre vai achá-la e com ela, imprudentemente, se cobrir. Fazer alguém feliz, que prazer! E principalmente um felizardo que me faça rir! Pense em X ou em Z! Hein? Como vai ser engraçado! Assim como se tem os poemas de Baudelaire e de outros contemporâneos seus no campo literário, a expressão das contradições da modernização na modernidade também se dá no campo da pintura, destacando-se como obra de grande importância o quadro de Manet, O velho músico. O quadro pode ser descrito como uma composição de “tipos” da sociedade contemporânea: crianças indigentes, boêmios, ciganos, talvez um boneco de ventríloquo (de roupas mais claras) do popular Théàter des Funambules, um violinista ambulante, um trapeiro ou um burguês empobrecido (a personagem do bebedor de absinto) e, na extrema direita, o judeu errante (tema de muitos cartazes, livros e canções populares, e um motivo especial de Courbet). Nesse quadro, o pintor caracteriza o lumpenproletariat, tipos deslocados de suas raízes, devido à movimentação e dinamismo causados pela sociedade capitalista. O burguês Le vieux musicien (O velho músico), Maempobrecido que ressalta a mobilidade social do Estado liberal net burguês, o boneco de ventríloquo que talvez remeta a uma dominação evidente. São retratados também camponeses e operários vítimas de expropriações pelo Estado — as massas desagregadas que são levadas embora de uma cidade elegante como Paris — a instabilidade do emprego na indústria, que gera parcelas da população que passam a tentar ganhar a vida nas ruas sob outros métodos, destacando-se músicos de rua e artistas circenses. Enfim, uma população flutuante — presentes ainda hoje como resposta de uma falta de emprego nas grandes cidades — e muitas vezes vulneráveis às ideologias burguesas; pessoas que remetem a um tema moderno que Baudelaire acredita, e realmente se confirma, adequado para a arte da vida moderna. Trata-se de uma arte mais implícita e especulativa, menos convencional, procurando criticar a modernidade — e toda a sociedade gerada em prol de ideais capitalistas — nas entrelinhas, através de ferramentas propriamente modernas, como a introspecção e as atenções voltadas para o indivíduo, o próprio eu. Estes tipos de arte propõem aos seus receptores, os observadores, que repensem seus valores através da indução de uma nova sensibilidade. No século seguinte, esta característica será uma das mais importantes dos movimentos e vanguardas artísticas. E a proposta de uma nova sensibilidade no mundo artístico, da perda do halo, tende a ser transportada também para a arquitetura e urbanismo, para a aceitação da cidade universal humana. Toda esta diacronia de idéias e de influências artísticas possibilitaram, assim sendo, a construção de um conceito de organização urbanística adequada ao ser humano, buscando novas maneiras de se estruturar uma cidade para se viver, levando em consideração as transformações que esta sofrera ao longo da história, analisando-se os aspectos possivelmente reaproveitáveis em uma nova concepção. Em 1922, o planejamento urbano torna-se obrigatório por lei, fazendo com que o Estado busque novas tendências políticas culturais. Isto expande o mercado de trabalho para arquitetos e urbanistas, entretanto trabalhar para o Estado significava graus variáveis à liberdade de criação, uma vez que o arquiteto se limitaria à verba destinada para projetos urbanísticos. Procurou-se levantar, através de um congresso que reuniu vários arquitetos e urbanistas reconhecidos do século XIX, chamado de Congresso Internacional de Arquitetura Moderna — CIAM —, todas as questões e características de cidades contemporâneas e de processos históricos urbanos que serviriam de base para a construção de uma nova idéia de cidade para o homem. Ao documento que continha todas essas informações reunidas coube o nome de Carta


de Atenas — nota-se a conotação clássica do nome; uma retomada de uma visão estritamente antropocêntrica. Propunha-se um modelo universal de cidade que funcionasse adequadamente para o conjunto de sua população, levando em consideração os avanços técnicos, exigindo alternativas políticas bastante precisas, ainda que utópicas em 1933. Algumas das soluções propostas já eram realidades em algumas cidades dos Estados Unidos, como o zoneamento funcional, o planejamento regional e conjuntos habitacionais providos de eficiente equipamento coletivo. Partindo de soluções inteligentes e bem-sucedidas já existentes e de toda a historicidade das cidades, buscavam desenvolver a carta magma para a consolidação de uma cidade abstrata. Partindo do pressuposto de que a cidade deve ser homogênea, portanto negar a segregação social, considerase a Arquitetura uma engenharia social, capaz de eliminar injustiças sociais através da técnica e pela instrução adequada de autoridades. Considerava-se que, para a cidade universal ser concretizada, o Estado deveria estar voltado ao bem comum, não atendendo aos interesses privados sem antes atender aos interesses da sociedade. Este urbanismo proposto, um urbanismo racionalista, não tinha caráter revolucionário no sentido de ir contra o capitalismo, mas de explicitar o caráter interventor do Estado, que deveria submeter a sociedade civil às suas determinações e leis, utilizando de competências científicas e tecnológicas para promover o bem-estar da mesma de maneira geral. Primeiramente, estabelece-se que a geografia é o elemento constitutivo essencial para a elaboração do urbanismo. O homem possui constantes biológicas e psicológicas que devem ser transpostas para o espaço geográfico. Tem-se aqui um determinismo geográfico: através da geografia do lugar, definem-se áreas de influência para a cidade, tanto sociais — como lugares que proporcionam condições excelentes para a construção de residenciais — quanto econômicos — aproveitando-se os recursos econômicos que a natureza em determinados pontos da área em análise pode oferecer. Essa sede pela busca da cidade perfeita, feita para o homem, conciliando todas as éticas de forma harmônica, a divisão adequada da geografia e a idéia dos zoneamentos é uma discussão tão instigante e intuitiva a ponto de se desenvolveram softwares que simulam construções de cidades. Estes jogos — o característico Sim City e suas expansões — apesar de se apresentarem como instrumentos de lazer, procuram exigir do jogador que encontre uma lógica para solucionar os problemas da cidade virtual, dentro de um orçamento urbano pré-determinado por todo o processo de desenvolvimento da mesma. Propõe-se, então, o desafio de se estabelecer uma urbanística que seria a ideal para tal cidade, ainda que virtual. Entretanto, expandindo a idéia para o mundo real, o desafio se torna muito mais complexo, pois o urbanista é posto sob pressão dos mais diversos interesses públicos, privados, financeiros e sociais que se possa ser acometido. E não é apenas instituir um bloco em determinado lugar que ele causará interferências positivas na população. Deve-se pensar de que maneira a edificação irá interferir na vida das pessoas, como ela transmitirá o espírito da sua época e todo um aparato especulativo a respeito de intervenções urbanas ou ambientais. Tal como a definição do jogo, Sim City é um simulador. Porém a realidade é muito mais complexa do que um software que tenta compreendê-la e reproduzi-la fielmente. Para cada motivo que a cidade ia sendo criada, ela ia possuindo características que condiziam aos mesmos. Ou seja, são razoes que presidem o desenvolvimento das cidades; entretanto tais razões sempre estão submetidas a mudanças contínuas, o que leva a concluir que a cidade é movimento; ela está em constantes transformações. É isso o que ocorreu no século XIX com a era das máquinas. A cidade se modificou de forma a atender aos interesses industriais, ocasionando perturbações no comportamento urbano em sua distribuição e ocupação irregulares pela terra, ou seja, empreendimentos de concentração de massa mal-estruturados em favor às velocidades mecânicas. O emprego da máquina, além de sucumbir o mundo artesanal, causou um ritmo furioso que desorganizou as condições de vida da população, afastando-as das necessidades fundamentais. Estas seriam as chaves do urbanismo, segundo a Carta de Atenas, e que deveriam ser usadas para o urbanismo funcional e lógico que proporcionaria o bemestar do homem. Estas chaves são produtos de um grau de abstração bastante elevado do pensamento do que é a cidade para quem a habita. São eles: habitar, trabalhar, recrear e circular. Ou seja, o urbanista deve se preocupar com a moradia dos indivíduos, em primeiro lugar, com o local de trabalho deles, com as áreas comunitárias e de recreação, descanso e passatempo, e com os meios de circulação que ligam estas áreas umas as outras de maneira saudável, harmônica e eficiente. Ao longo da história dos últimos séculos, nota-se que a habitação não se preocupou muito em atender às necessidade do homem, mas funcionava como um armário para guardar as ferramentas que operavam as máquinas. Dentre os principais problemas que esta habitação proporcionou, senão o principal que desencadeou os demais, foi a alta densidade populacional. Como se viu na cidade do século XIX, o amontoado de gente levava à insuficiência de superfície habitável por pessoa, uma mediocridade de aberturas para o exterior, uma luminosidade mal-planejada, vestustez e fácil propagação de doenças e até insuficiência de instalações sanitárias. Isso tudo construído em um lugar não-propício a moradias. Eram habitações podres para os pobres, onde o mal estar e as doenças tinham temporalidades permanentes. Para a nova concepção urbanística, este tipo de moradia era o pior que se poderia abrigar pessoas.


O sol, a vegetação e o espaço são os elementos mais importantes para o ser vivo e constituem na matériaprima do urbanismo. A vegetação purifica o ar; a luminosidade dá vida e proporciona o crescimento de qualquer uma, além de agradar os ambientes com sua luz natural; e o espaço constitui uma ordem mais psicofisiológica, uma questão de sintonia entre espírito e espacialidade, já que viver amontoado com outras pessoas é uma experiência que eleva facilmente a irritabilidade e o estresse dos indivíduos. Quanto mais as cidades crescem, menos se preocupa com estas questões naturais, essenciais, ocasionando o aumento da transmissão de doenças, falta de higiene e irritabilidade dos indivíduos. Os subúrbios como sendo o esgoto social da cidade e não sendo tratados de maneira correta seus espaços constituintes, bem como a ligação deles com o restante da cidade, , constituiu-se em um dos elementos urbanísticos mais preocupantes da estrutura citadina. Para que essa área não continue sendo considerada um mal urbano, a administração deve se apropriar da gestão do solo ao redor da cidade construída, para garantir o crescimento harmonioso, sem se esquecer das novas áreas a serem construídas. O urbanista deve se colocar no lugar dessa sociedade para pensar em um lugar adequado para qualquer tipo de habitação. Independente do nível capitalista, todos os homens são iguais, portanto têm o direito de uma habitação de qualidade em lugares onde ele esteja em contato harmonioso com a natureza, e não à naturalização de espaços de acordo com a classe social. Tais questões, então, seriam resolvidas — e se resolvem — através de leis por um Estado mais humano. Deve-se reverter a situação conturbada que se tornou com a mecanização. Como conclusões chegadas pela Carta, as moradias devem estar localizadas nas melhores áreas da região, nas melhores áreas habitáveis, próximas de vegetação, paisagens agradáveis, luz e espaços abundantes e psicofisiológicos bem-estruturados. Tal qual a idéia dos higienistas para propor uma cidade funcional, é necessária uma higienização das áreas, para evitar que a cidade se torne um corpo doente e tal higiene deve ser administrada tanto por órgãos públicos como pela própria população. A densidade deve ser controlada para proporcionar suficiência de espaço habitável, em contraponto à cidade industrial do século XIX. No caso de edifícios de apartamentos, alturas pré-determinadas para sua melhor funcionalidade, levando em consideração uma certa distância entre eles — também com a utilização de áreas verdes — a fim de garantir uma boa iluminação e circulação de ar adequadas, garantindo assim satisfação e felicidade aos moradores de maneira eqüitativa. Para o pensamento urbanista que se desenvolve, a habitação é a função primordial da cidade — durante o século XIX, a habitação era necessária para a indústria, agora tende a ser necessária para o próprio homem. É a principal unidade do desenvolvimento da cidade, pois é nela que o interventor mor do espaço residirá. Por isso que essa estrutura bastante vulnerável merece uma extrema preocupação. Entretanto, além da moradia, é necessário todo um aparato espacial público que permite se tornar extensão da moradia. Trata-se de creches, escolas, bibliotecas, centros desportivos, estruturas públicas que possuem a finalidade de garantir um crescimento físico, intelectual e moral saudáveis aos habitantes de todas as idades. Dentro deste aparato é necessária a presença de áreas de lazer, destinadas a acolher a juventude e suas atividades coletivas e propiciar um espaço público favorável às distrações da sociedade. Procurando também interagir diretamente com a natureza, tais espaços devem estar ao alcance de todos, influenciar na vida das pessoas e não ser objeto apenas de embelezamento da cidade, proibido às multidões, como as cidades-jardins de hoje. Propõe-se a extinção de quintais e jardins privados: toda e qualquer forma de distração ao ar livre deve ser socializada. Além disso, uma porcentagem de terra próxima às moradias será destinada ao cultivo de pequenas hortas — canteiros produtivos. Os espaços livres são uma vertente do pensamento urbanístico que compõe uma extensão do pensamento da condição de vida física, moral e social de qualidade da população e também do pensamento higienista da promoção da circulação de ar intensa. Todo homem precisa se sentir bem nos ambientes, sejam estes internos ou externos. Em relação aos espaços livres urbanos, estes variariam entre três espacialidades de liberdade diferentes: uma de liberdade cotidiana, outra de liberdade semanal e a outra, anual. As áreas próximas às moradias, que seriam úteis para proporcionar lazer e descanso no final de cada dia, depois do trabalho ou da escola, teriam uma liberdade cotidiana. Os espaços de liberdade semanal estariam localizados um pouco mais distantes das moradias — fora do ambiente urbano, porém ainda dentro da região da cidade — para um lazer aos finais de semana e feriados. E espaços muito distantes da cidade seriam usados como áreas de liberdade anual, para se passarem as férias, estendendo-se às diversas áreas do país e às outras cidades também. Engloba-se, assim, as regiões, não se preocupando somente com uma cidade e sua própria região, mas procurando intervir no espaço nacional como um todo.

Uma destinação fecunda das horas livres forjar uma saúde e coração para os habitantes das cidades.


Trata-se da necessidade de saúde pública e do pensamento humano através dos espaços. Para tanto, o estudo da geografia da região deve ser relevado, para determinar com lógica e pensamento urbanos as melhores áreas para a construção de bairros com suas moradias e todas as extensões necessárias delas, respeitando sempre os princípios naturais que são essenciais à vida do ser vivo, e não só o individuo, como também a paisagem, preservando elementos naturais existentes em uma região. Propõe-se também a destruição de cortiços, focos e criadouros de doenças para a sociedade, construindo no lugar parques ou áreas livres, ou até mesmo novos edifícios de moradias. Não se esquecendo de providenciar moradia de qualidade para os que antes moravam nessas construções decadentes, ao contrário do que foi feito durante a reforma parisiense por Haussmann, em que apenas maquiou-se o problema, contornando-o, mas não o resolvendo. Nesta nova concepção urbana, o trabalho deve, por excelência, deixar de ter um caráter exploratório, a fim de que a população trabalhe o necessário para se sentir útil e poder ter horas livres de lazer para passarem nesses locais de área livre com a família e com a comunidade. Nota-se aqui uma questão mais social que intervém no trabalho. Aqui se confirma que este urbanismo funcionalista procura explicitar o poder do Estado perante o capitalismo ou qualquer ética de trabalho, intervindo para que o homem tenha direitos dentro e fora da cidade — o homem volta a pertencer à cidade, e não mais à indústria ou ao capital. Porém, devem-se preservar também os elementos naturais existentes em uma região levando-os em consideração, afinal, a cidade abstrata procura proporcionar um desenvolvimento sustentável entre organização humana e natureza. Procura-se a solução dos problemas da urbanística moderna através dos zoneamentos, como já fora dito. E isto é um ponto positivo que se retira da mecanização, que acaba separando de maneira não muito nítida a antiga indústria artesanal da moradia. Associando tal idéia, propõe-se a divisão da cidade em zonas residenciais — que incluem as moradias e suas extensões —, comerciais — comércio e administrações públicas e privadas — e industriais — concentrando-se as indústrias em geral. Ao contrário do que nos mostra a história, o comércio teria suas zonas próximas, mas nem tanto, das zonas de residências, com uma considerável área verde separando-as, bem como as zonas industriais — que seriam consolidadas próximas de locais por onde se escoam a matéria-prima e a produção. Todas estas zonas deveriam estar ligadas de maneira simples com centro de negócios e administração públicos da cidade, com extrema boa comunicação. Tem-se aqui, então, que resolver a próxima questão, ou objeto restante da abstração urbana: a circulação. Se a moradia deve ser o essencial centro das atenções de uma cidade, a circulação é essencial para que se efetive o total funcionalismo da cidade. Para um habitante chegar até seu local de trabalho, ao comércio e às zonas de lazer, é necessário um bom sistema de circulação. Entretanto este sistema, uma necessidade humana, o mais fácil de ser lembrado, requer um alto nível de pensamento lógico para não se tornar um verdadeiro problema, devido a sua complexidade, podendo vir a ser tornar irritante e atrapalhar a si mesmo e a toda a logicidade urbana. Mais uma vez, une-se o urbanismo à geografia para se estudar e analisar a topografia da região, motivo histórico e determinante presente na circulação de cidades atuais. As vias principais são filhas da geografia local e a malha secundária é fruto do crescimento da cidade. Porém a cidade é movimento, e hoje temos problemas relacionados à circulação, como o fato de ruas antes usadas para a circulação de pessoas agora usadas para o tráfego de automóveis, ou a questão da malha inadequada que dificulta os tráfegos, promovendo muitas paradas, tanto para automóveis — com vias sempre se cruzando, levando ao excessivo número de esquinas sem uma periodicidade adequada ao tráfego —, quanto para pedestres — que, além de pararem constantemente o fluxo automobilístico, permanecem em altos riscos de vida quando próximos a tais vias. Como soluções encontradas, propõe-se que, para cada tipo de circulaCorpo como cidade, cidade ção, uma via apropriada. Vias de pedestres devem ser diferentes das de autocomo corpo. móveis, que se diferenciam, por sua vez, segundo a densidade do tráfego e à Neurônios ligados de maneipotência das máquinas. Essas vias não devem interferir no fluxo umas das oura lógica entre si, tal como as tras, para não atrapalhar a funcionalidade de todo o sistema. Para isso, deve-se zonas da cidade devem esdar uma destinação precisa a cada via urbana de circulação, caracterizando-as e tar relacionadas. dimensionando-as de acordo com suas funções e usuários — motorizados ou não, coletivos ou não, de carga ou de distribuição — criando escoadouros alternativos de fluxos e regularizando os mesmos. Para vias rodoviárias principais, que exigem uma maior velocidade e menos interrupções, propõe-se um modelo que varie o nível das vias — através de túneis, pontes e viadutos — e sistemas de intersecção similares aos trevos


das rodovias de hoje. Para vias ferroviárias, apenas uma atenção especial para que evite transpor a cidade, cortando-a, segregando-a — a estrada de ferro não deve passar por dentro do perímetro urbano, uma vez que separa zonas inteiras, pois trata-se de uma via que não se pode atravessar tão facilmente como uma rua, por ser muito perigosa. Ela acaba impedindo a interação entre as zonas urbanas. Para as vias de tráfego intenso, intensas áreas verdes para equilibrar a poluição e a renovação do ar. Em relação às vias de pedestres, utilizar-se-ia passagens que ligariam pontos necessários diretamente, usufruindo da engenharia estrutural — ferramenta moderna de construção — para a produção de passarelas, galerias e outras estruturas que possibilitem um trajeto alternativo, minimizando caminhos para os passantes e mantendo-os longe dos perigos das vias de locomoção mecânica. Deve-se ficar atento também à questão dos patrimônios históricos. Assim como a cidade deve atender às necessidade humanas, não deve destruir a sua história, negando-a, pois assim acaba negando, também, o próprio homem e, conseqüentemente, a si mesma e aos ideais antropocentristas de sua construção. Propõe-se a preservação de patrimônios históricos, porém escolhendo com responsabilidade e sabedoria aquilo que deve ser preservado — uma cultura anterior ou obras de interesse geral que devem ser preservadas, priorizando o homem perante sua própria historia. Entretanto, se o patrimônio histórico não puder ser removido de maneira alguma, para que não se decaia a qualidade da circulação, em último caso, que se desvie esta do patrimônio em questão, ou que se desloquem os centros a serem intercomunicados. Nessa nova cidade, o processo de construção de edifícios do passado, assim como o ecletismo, são negados. Ao contrário do que Haussmann fez em Paris — deixou alguns edifícios históricos como monumentos e reconstruiu os edifícios ao redor usando de certo ecletismo, para criar um diálogo entre as edificações — a cidade universal será construída com as máquinas e tecnologias de construção modernas, e não construir com métodos que não condizem ao pensamento contemporâneo. Afinal, para a prosperidade, deve-se deixar para a história marcas de nossa contemporaneidade e pensamento de época através das construções. Afinal, a cidade é a extensão espacial do pensamento racional humano. Com todos esses pontos estudados, chega-se a conclusões estabelecidas na Carta de Atenas. O maquinismo instituiu um aos e a desordem nas cidades que até então presidia uma certa harmonia. Com a era mecânica, faltou-se ordem na organização urbana. Hoje, elas são movidas pelos interesses privados e não se importam mais com a população de modo geral. A cidade não abriga bem o homem. São Paulo é uma cidade máquina afetada pelo capitalismo. Aliás, é uma cidade quase que capitalista em sua totalidade. Dividida, entretanto em zonas, propondo uma funcionalidade coerente, possui um sistema de circulação humana inteligente — as galerias, que aproveitam os espaços das bases de prédios gigantescos. Entretanto, seu crescimento anormal, conseqüência de intervenção capitalista, torna todas as suas características uma desordem, promovendo desigualdade social através de uma segregação espacial. A força econômica e o interesse privado fazem com que o controle administrativo enfraqueça suas tendências sociais e solidárias, permitindo que o capitalismo impere nas cidades, fazendo-as crescerem hoje sem controle e precisão, levando-as ao caos social. A cidade é uma criação humana e deve, acima de tudo, abrigar seu criador. Sua medida deve ser a medida deste, tanto em sua espacialidade quanto ao seu ritmo natural. Deve-se estruturar uma urbanística da melhor maneira possível, com a moradia sempre no foco, trabalho e espaços públicos de qualidade para todos, agradando desde o indivíduo até ao conjunto simultaneamente, interligando-se as áreas de atuaçao humanas com um excelente sistema de circulação. Para todas essas intervenções, é necessário um Estado justo, não-corruptível e decentemente administrativo, voltado para a administração do bem comum, atendendo primeiro às necessidades humanas, não permitindo que o capital intervenha na cidade conforme seus próprios interesses e faça a mesma crescer de maneira estranha e desordenada. Pois só através do Estado com tais características é que a cidade universal tratado aqui poderá ser efetivada e consolidada. Uma nova legislação será feita e a Arquitetura encontrará espaço para se responsabilizar pelo bem-estar e beleza estética da cidade, efetivando seu caráter de expressão do espírito de uma época. Relacionar a geografia e os recursos naturais da região com a economia e a estruturação da cidade, de maneira que supra as necessidades sociológicas e espirituais da população, é um programa a ser seguido e adotado por especialistas para tornar realidade a cidade funcional, vinda do espaço abstrato de idéias básicas de habitar, trabalhar, recrear e circular, tornando-a funcional, pensada para o homem. Pode-se estabelecer um paralelo com a idéia passada pela cidade máquina de Matrix. Segundo o filme, os homens desenvolveram toda sua tecnologia mecânica e digital a ponto de que elas conquistassem autonomia e que dominarem a espécie de seus criadores. Analogamente, o homem desenvolveu tecnologia suficiente para começar expropriando camponeses e forçando a todos entrarem no mundo mecanicista. As máquinas, a serviço da produção e lucro industrial, passaram a explorar o homem. Assim como a Matrix cria um mundo virtual, a máquina perspéctica burguesa


cria ideologias para serem acreditadas pelas massas, alienando estas, e, tal como as máquinas do filme usam os seres humanos que estão dentro do sistema como baterias que as alimentam, o capitalismo explora operários, comerciantes e industriais, para que eles possam girar as engrenagens do grande e complexo sistema. A cidade universal propõe o contrário da realidade da Matrix e da máquina capitalista. A cidade máquina alimenta o homem e supre suas necessidades. Uma cidade menos máquina no sentido da exploração industrial, mais humana, mais máquina, só que agora, como uma máquina capaz de satisfazer o homem e suas necessidades sociais, físicas, morais, intelectuais e psicofisiológicas. O maquinismo, independente da finalidade para que fora e é usado na história do homem, faz parte do pensamento humano, e deve-se incluí-lo na cidade universal, porém como um papel emancipador, e não exploratório, pois essa é a única razão pela qual teria que se ter desenvolvido tanto a tecnologia. As conclusões as quais se chegaram e que estão escritas na Carta de Atenas não têm caráter revolucionário anti-capitalista. Entretanto, a partir do momento em que se exige a intervenção de um Estado submetendo os interesses capitalistas e subordinando-os aos interesses individuais e coletivos da cidade, gera um conflito entre Estado e capital. Tem-se então o caráter de contenção capitalista por parte do Estado, mas não pela arquitetura ou pela urbanística. Por isso a necessidade de um Estado poderoso, implacavelmente incorruptível, voltado para as questões sociais do bem comum. Mas para vencer o capitalismo, todas as cidades deveriam adotar a mesma idéia de Estado dominante, para que o capital não viesse a ter uma área de domínio. Seria este, talvez, o início de uma sociedade socialista com o capital sendo domesticado pelo Estado? E se tal idéia se desenvolvesse um pouco mais, ter-se-ia o momento da total independência de capital para a vida, sendo que o trabalho na indústria visaria às necessidades do povo, e não à mais valia e o lucro do industrial? Novamente, segue-se a pergunta impactante:

Seria utópico pensar assim?

demais

É lógico pensar que a nova cidade universal proposta a que se chegam as conclusões da Carta de Atenas são megalomaníacas. Trata-se de uma abstração em escala urbana de uma cidade com capacidade de habitar e satisfazer a todas as necessidades humanas. É de espaço de que se necessita e não de construções geminadas que dificultam a circulação de modo geral.

Estrutura pensada ao se analisar as propostas da Carta de Atenas. Cidade dividida em zonas ligadas de maneira lógica e funcional (abstraindo-se a geografia da região). Legenda: Hexágono azul escuro central — Centro do poder administrativo público; Retângulos azuis — Zonas comerciais; Retângulos verdes escuros — Zonas residenciais; Círculos amarelos — Zonas industriais; Retângulos verdes claros — Zonas de liberdade semanal. Todas essas zonas separadas umas das outras por áreas de vegetação e ligadas por um sistema de circulação de qualidade, com vias características para cada função.

Tendo em vista toda essa gama de informações, cabem aos futuros arquitetos e urbanistas algumas questões. É-se capaz de intervir na cidade atual e, a partir disso, torna-la um lugar para abrigar e habitar os cidadãos de acordo com as conclusões apresentadas? Deve-se enxergar a cidade como um objeto científico, como Cerdà, partindo de uma abstração bastante acentuada, como visto na Carta, ou puramente estético, baseando-se na arte como forma organizativa do espaço urbano, como propõe Sitte? Trata-se de um duelo um tanto complexo. A cidade como arte, a cidade como lógica; algo similar aos lados esquerdo e direito do cérebro humano. Talvez esteja nesse duelo de idéias contrapostas a razão natural puramente humana: a busca pela conciliação ente belo e racional. Há lógica


naquilo que é belo? E há beleza naquilo que é lógico? Assim como o homem procura manter uma harmonia entre suas metades do cérebro, a mesma sintonia deve ser estabelecida no exterior da mente humana. Então a cidade, como sendo extensão do pensamento humano, deve ser bela e racional ao mesmo tempo? Em se tratando de sua funcionalidade, acredito que se deva seguir uma lógica, a lógica natural. Estabelecendo-se a ordem pela lógica funcional da cidade, pode-se começar a intervir nela a arte. E a arte urbana torna-se incumbência de um corpo de arquitetos que deverá expor nos edifícios o espírito de sua época. A Arquitetura e o Urbanismo como cientistas e artistas sócio-espaciais. Deste modo, haveria lógica na arte. E o fato de se pensar uma cidade como unidade e abrigo essencial do homem, faz dessa lógica e raciocínio uma arte: a arte de se pensar em toda uma cidade funcional e concretizar tal pensamento humano.

O jogador de xadrez analisa o jogo com toda sua racionalidade e lógica, porém preocupado com a estética da disposição das peças no tabuleiro, atento para que a beleza da combinação de casas e peças não interfira em sua lógica e acabe permitindo ao adversário oferecer-lhe um xeque-mate.


BIBLIOGRAFIA Textos de • BENÉVOLO, L., A cidade na história da Europa — Introdução e capítulo 6 A cidade industrial. Lisboa, Editora Presença. 1995; • BENÉVOLO, L., As origens da urbanística moderna, Lisboa, Editora Presença, 1981; • BERMAN, Marshall., Tudo o que é sólido se desmancha no ar (Capítulo 3: Baudelaire: O modernismo nas ruas, pág. 127 a 165) — Cia. das Letras, São Paulo, 1986; • BRESCIANI, Maria Stella Martins, O apogeu da cidade medieval São Paulo: Martins Fontes, 1992; • BRESCIANI, Maria Stella Martins, Londres e Paris no século XIX: O espetáculo da pobreza. Coleção Tudo é História, São Paulo, Brasiliense, 1989. • CORBIN, Alain, Saberes e Odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX. (Capítulo 2 Purificar o espaço público), São Paulo, Cia. das Letras, 1987. • FRACINA, F. (et alli), Modernidade e Modernismo: A pintura francesa no século XIX. São Paulo, CosacNaify Edições, 1998. • LE CORBUSIER, a Carta de Atenas. São Paulo, Hucitec: Editora da Universidade de São Paulo, 1989. • PERROT, Michelle, Os excluídos da História. (Capítulo IV: Os operários, a moradia e a cidade no século XIX), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. • SCHORSKE, Carl, A cidade segundo o pensamento europeu — de Voltaire a Spangler. Em Espaço e debates, ano IX, n.27, p.47 a 57, São Paulo, 1989.

ICONOGRAFIA Fotos ilustrativas • www.google.com


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