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vila brás | são leopoldo | maio/2013 | edição 139

enfoque

DIVULGAÇÃO

ida Beleza reconhec

cola Os 24 anos da Essino En de al ip Munic ão Fundamental Joes qu ar M or Belchi Goulart foram comemorados com a escolha daJoão primeira Garotaurso Goulart. O conc a aconteceu no di iu 20 de abril e reun e 41 candidatas, qu s foram analisada s ito es nos qu desenvoltura, , postura, simpatiae roupa adequadaAs venil melhor torcida. m: Érica Campos (categoria Ju ra ia fo or os (categ vencedoras série), Ellen Sant tins - do 7º ano a 8ª 7º ano) e Édina Pinheiro Mar ao 5º o). Mirim - do l - do 1º ao 4º an (categoria Infanti

Várias formas de

Ser Vila Brás Nesta edição temática, conheça diversas personagens que constróem a comunidade


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Ser Vila Brás

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Carta ao leitor O conceito de Ser é utilizado para definir ou distinguir algo ou alguém. Na segunda edição do Enfoque de 2013, a Vila Brás será apresentada a partir de seus moradores. Eles são a Brás. Maio nos reserva duas datas importantes no calendário: dia do trabalho e dia das mães. A Brás é composta por trabalhadores dos mais variados segmentos, nada mais justo que destinarmos nossas páginas para homenageá-los, tendo a oportunidade de mostrar como seus ofícios são essenciais para o crescimento da comunidade. Nesta edição, nossos repórteres procuraram contar histórias de sucesso e até mesmo inusitadas. Você será apresentado ao novo empreendedor Maicon, ao açougueiro que não gosta de comer carne, ao colecionador de carros... Conhecerá a médica, a padeira, a costureira, a artesã e muitas outras mulheres ativas no mercado de trabalho dentro da comunidade. Todas mulheres e mães, como Dona Pierian, de 90 anos, que emociona com sua linda história de vida. Além disso, você vai saber como os jovens encontram na religiosidade uma forma de superar os obstáculos que a vida impõe. Você poderá também conferir três belas histórias de experiências vividas por idosos que viram o crescimento da comunidade. Nas próximas páginas, veja a Vila com outros olhos. Sinta-se representado por cada história aqui contada. Então viva e seja a Brás! Boa leitura! Daiane Dalle Tese Editora-chefe

O Enfoque é um jornal direcionado aos moradores da Vila Brás, em São Leopoldo/RS. A produção é dos alunos das disciplinas de Redação Experimental em Jornal e Fotojornalismo do Curso de Jornalismo da Unisinos. Fale conosco! (51) 3590 8463 / 3590 8466

enfoque

enfoquevilabras@gmail.com Av. Unisinos, 950 - Agexcom/Área 3 - São Leopoldo/RS

Confira quando circulam as edições deste primeiro semestre: 138

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13 de abril

4 de maio

Junho

[REDAÇÃO] Orientação: professor Luiz Antônio Nikão Duarte. Textos: alunos Alessandra Ribeiro Fedeski, Ananda Franco Garcia, Andressa Barros (Editora), Angélica Pinheiro, Camila Capelão Vargas, Cristiane Abreu, Daiane Dalle Tese (Editora-chefe), Dyeison Gomes Martins, Fabrício Romio, Fernanda Gabriela Schmidt, Fernanda Kern (Editora de Fotografia), Gabriel dos Reis, Greice Nichele (Editora), Guilherme Endler, Helena Caliari (Editora), Jorge Leite, Juliana Fogaça de Freitas, Letícia da Silveira, Letícia Rossa, Luís Francisco Caselani, Marcos Reche Ávila, Mariana Staudt, Matheus Kiesling dos Santos (Editor), Maurício Montano Reis Ott (Editor), Nádia Regina Strate, Natália Martins Cunha Silveira, Priscila da Silva, Renata Rocha dos Santos, Rita de Cássia Rodrigues e Yngrid Lessa da Costa. [FOTOGRAFIA] Orientação: professor Flávio Dutra. Fotos: alunos Amanda Moura, Amanda Nunes, Ana Elisa Oliveira, Bárbara Muller, Camila Weber, Cristina Link, Daiane Trein, Diego da Costa, Diogo Rossi, Eduarda Rocha, Fabricia Bogoni, Felipe Gaedke, Izadora Meyer, Jacson Dantas, Jéssica Pedroso, Joana Dias, Jonas Pilz, José Francisco, Luísa Zottis, Michele Mendonça, Midian Almeida, Natália Scholz, Nathalie Abrahão, Rayra Krajewski, Roberto Caloni e Vitor Matte. [ARTE] Projeto gráfico e diagramação realizadas pela equipe de jornalismo da Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico e supervisão técnica: Marcelo Garcia. Diagramação: estagiária Amanda Heredia. Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS Av. Unisinos, 950, Bairro Cristo Rei - São Leopoldo/RS Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: José Ivo Follmann. Pró-reitor Acadêmico: Pedro Gilberto Gomes. Pró-reitor de Administração: João Zani. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente de Bacharelados: Gustavo Fischer. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.

Em busca de boas histórias Fernanda Schmidt (Texto) Diogo Rossi (Foto)

N

ádia Strate nunca teve dúvidas da profissão que queria seguir: ser jornalista. A jovem de 25 anos sempre gostou de conhecer e contar histórias de pessoas. Depois de seis anos cursando Jornalismo e em seu último semestre na universidade, Nádia encontrou na atividade acadêmica de Projeto Experimental em Jornal a oportunidade para conhecer boas histórias e colocar a teoria da sala de aula em prática. O projeto desenvolvido pela disciplina tem como objetivo produzir um jornal impresso para os moradores da Vila Brás, de São Le- Nádia entrevista dona Pierian opoldo, mostrando o que durante saída na Brás acontece e quem são seus habitantes. Já faz oito anos que te descobre um mundo à parte, os alunos saem de manhã cedo recheado de boas histórias e lida Unisinos, em três sábados por ções de vida.”, conta a estudante. Para realizar esse trabalho, semestre. Quando chegam a seu destino, têm o objetivo de des- Nádia acompanha as aulas todas cobrir o que é notícia. “O bacana as sextas, das 19h30 às 22h20. da Brás é que é uma Vila enorme, Nos sábados determinados para quase uma cidade, em que a gen- a saída de campo, a estudante

Estudantes da Unisinos encontram na Brás uma oportunidade para colocar em prática o que aprendem na Universidade busca colocar em prática aquilo que aprendeu. Acompanhada de um fotógrafo, aluno da atividade de Projeto Experimental em Fotografia, no dia 13 de abril, data da última visita, Nádia descobriu um exemplo de vida na história de Dona Pierian. Em mais de uma hora de conversa, entrevista e fotos, a estudante captou todas as informações necessárias para produzir a reportagem, que você confere na página três desta edição. O trabalho desenvolvido pelos estudantes na Vila Brás vai além da edição impressa. Alunos como Gustavo Alencastro, 35 anos, aproveitam a experiência para desenvolver uma produção teórica, como o Trabalho de Conclusão de Curso. Hoje, já graduado, Gustavo conta que estudou jornalismo comunitário para desenvolver a análise do jornal. “O Enfoque é jornalismo comunitário, mas não é feito pelas pessoas que habitam a comunidade, elas são as fontes para as reportagens.”, explica o jornalista.

“A fotografia mudou meu olhar sobre o mundo” Priscila da Silva (Texto) Joana Dias (Foto) Determinação. Não existe palavra mais apropriada para descrever a personagem desta história. Solange Linhares, 38 anos, é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que acreditam que sonhos podem se tornar realidade. Apaixonada por fotografia, a dona de casa conta que sempre quis fotografar, mas nunca teve condições financeiras para fazer cursos especializados. Foi através dos ensinamentos recebidos pelo irmão e fotógrafo, Airton Batista, que ela resolveu criar coragem e registrar tudo o que acontecia ao seu redor. Há pouco mais de dois anos, Solange aprendeu a criar, editar convites e lembrancinhas, além de realizar cobertura fotográfica de eventos na comunidade, como casamentos, cultos e formaturas. Todo o material que produz, incluindo CDs e DVDs, é personalizado. Casada e mãe de dois filhos, ela conta que, se dependesse do marido, funcionário de uma construtora, não trabalharia. “Gosto de ter meu dinheiro para comprar as minhas coisas, sabe?” O valor cobrado pelas fotos e vídeos feitos por Solange não é alto se comparado ao padrão de mercado. Isso faz com que as pessoas tenham acesso ao trabalho que desempenha,

sem perder a oportunidade de registrar datas que, segundo ela, são extremamente importantes. “Eu sou muito feliz, me sinto muito bem registrando momentos únicos na vida das pessoas. Será uma recordação guardada pra sempre por elas.” Solange armazena mais de cinco mil arquivos no computador. Cada um dos seus amigos tem uma pasta devidamente identificada, na qual constam todas as fotos que ela tirou. “Meu marido diz que eu fotografo de tudo, desde pedra até os cachorros da casa”, diz, sorrindo.

Além de fotos, Solange também produz DVDs personalizados

Solange sempre carrega a câmera dentro da bolsa. É quase impossível que algum acontecimento escape dos seus “cliques”. Frequentadora da Assembleia de Deus, ela conta que na igreja sempre acontecem muitas festas, e que, como gosta de registrar tudo o que vê pela frente, tem fotos de praticamente todas as pessoas que conhece. De todos os eventos que já fotografou, Solange conta que existe um especial: “Foi um aniversário de 15 anos, em setembro de 2011. Era uma menina lá da igreja que não tinha condições de fazer uma festa. Por isso, a gente se reuniu e cada um contribuiu da maneira que podia. Daí, a data não passou em branco.” Além das fotos e da filmagem, a aniversariante Cynd Cláudia foi presenteada com um DVD repleto de momentos especiais da festa. O trabalho que a moradora realiza é tão valorizado dentro da comunidade, que ela foi convidada para fotografar a comemoração das Bodas de Prata do casal Vilson Ribeiro Leite e Vera Lúcia da Silva Leite, na Associação dos Moradores da Vila Brás, no dia 13 de abril. Toda orgulhosa, Solange diz: “É uma oportunidade rara para os fotógrafos. Não é qualquer um que tem essa chance, e não é todo mundo que fica tanto tempo casado”.


Ser Mãe

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

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Noventa anos de amor Pierian é um exemplo de esforço e dedicação na criação dos filhos e nos auxílio aos moradores da Vila NÁDIA STRATE (Texto) Felipe Gaedke (Fotos)

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s cabelos grisalhos e a pele enrugada mostram a experiência de Pierian Oliveira. São 90 anos de muita história e, como ela mesma descreve, de luta e persistência. Nascida no Paraná, em janeiro de 1921 e de origem italiana, resolveu acompanhar o marido e se mudar para São Leopoldo. Chegando por aqui, muitos desafios a esperavam, entre eles, o de ter que lutar sozinha para criar os filhos. Com 40 anos, decidiu ter o primeiro filho e logo, um ano e um mês depois, chegou o segundo. “Eu sempre quis ter filhos, era uma vontade que eu tinha. A primeira gravidez foi uma maravilha, estava grávida da primeira filha quando nos mudamos para São Leopoldo, mas na segunda gestação, perdi meu esposo, logo no dia das mães. Foi difícil, sofri muito e por isso, também tive um parto complicado, pois era muita tristeza”. Dessa forma, Pierian teve que lutar sozinha para criar os filhos. Mesmo com a idade avançada, a dona de casa tem uma memória admirável e nos contou muitas de suas

MATHEUS KIESLING (Texto) CAMILA WEBER (Foto) A casa número 135 da Rua dos Hibiscos, antiga Rua 15, na Vila Brás, pode não ser um dos endereços mais conhecidos da comunidade, mas é o lugar onde vive uma mulher que traz uma história de vida com contornos de dramaturgia, repleta de força e superação. Mesmo com baixa escolaridade e vivendo de uma renda que, em muitas das vezes, é insuficiente, Jovilde Dias, de 47 anos, mostra que ser mãe é estar sempre disposta a ultrapassar as mais diferentes adversidades, acolhendo a tudo e a todos de braços bem abertos. Catarinense, enfrentou dificuldades logo após o nascimento de seu primeiro filho, que teve aos 18 anos de idade. Pouco tempo após ganhar a criança, viu terminar seu relacionamento com o pai do menino. Com um bebê para criar, a alternativa que encontrou na época foi mudar-se para São Leopoldo. “Vim para cá mesmo sem conhecer meu segundo marido, pois em Santa Catarina não conseguia assistência médica para a criança”, diz. Quando estava com três anos

andanças pela cidade, principalmente pela Brás, onde vive há mais de 30 anos. Entre essas lembranças, descreveu como foi difícil o começo sem o marido e a luta para criar os filhos. “Eu amamentei os dois no peito, trabalhava e cuidava das crianças ao mesmo tempo, com o auxílio da minha cunhada. Lutei sozinha e até ajudei a construir a minha casa”. O filho, Antônio Jupir de 49 anos, diz sentir muito orgulho da mãe. “Ela sempre foi durona conosco, pois queria o melhor para nós. Ela é mãezona mesmo, cuida dos filhos, dos sete netos e dos quatro bisnetos, bem como, de todas as pessoas do bairro, crianças e adultos. Além disso, ela ajudou na construção de boa parte da Vila”. A neta, Aniele Oliveira de 32 anos, se reveza com a mãe para acompanhar a vó nas atividades diárias. “Ela é lúcida, forte e muito ativa, vive na horta, limpando a casa, passeando. Sem contar que é muito caridosa, se bater na porta dela, ela ajuda. Estamos sempre acompanhando os passos dela, não que precise, mas por segurança”. Pierian conta que vai passar o Dia das Mães com os filhos. “Provavelmente vamos almoçar churrasco

na casa da minha filha, mas se não der, ela vai trazer o meu almoço aqui. A minha vida é muito boa, eu me sinto muito bem”. A “mãezona” do bairro aproveita para acrescen-

De braços bem abertos

tar: “Eu rezo sempre e peço a Deus que dê força para todas as mães que estão lutando pelos filhos. É difícil, trabalhoso, mas por eles, tudo sempre vale a pena”.

Jovilde Dias acredita na família como base para tudo na vida

de idade, Sidiney, seu filho mais velho, foi diagnosticado como deficiente cognitivo, fato que alterou drasticamente a rotina de vida da dona de casa. “Ele não pode ficar sozinho. Procuro fazer o máximo que posso. Dou banho, preparo a comida e lavo as roupas dele todos os dias”, conta. Moradora da Vila Brás há 25 anos, a dona de casa cuida de Sidiney, hoje com 29 anos e de suas duas netas, Nicole, de 8 anos, e Natália, de 6 anos. As meninas são filhas de Scheila, de 23 anos, sua filha mais nova. Além delas, Jovilde ainda encontra tempo para cuidar do pequeno Alex, de pouco menos de um ano, que é filho de uma jovem que trabalha duran-

Mesmo com a idade avançada, Pierian guarda na memória detalhes da sua vida

te toda a semana e tem na dona de casa uma segunda mãe para o menino. Para ter uma renda de cerca de 900 reais mensais, Jovilde se divide entre cuidar do pequeno Alex e a realização de serviços de limpeza em um condomínio na região central da cidade. Além disso, trabalha com artesanato há 25 anos e, recentemente, montou um pequeno brechó dentro da própria casa que, segundo ela, trazem um acréscimo à renda. No entanto, Jovilde salienta que somente com remédios para Sid, como chama seu filho mais velho, gasta em torno de um salário mínimo por mês. Divorciada há cinco anos, acredita na família como seu bem mais precioso. “A gente quer ser mãe presente, viver ao lado dos filhos. Deus me deu o Sid, porque sabia que eu tinha forças para cuidar dele”, expõe. Evangélica e integrante da Igreja Pentecostal Deus e Amor, diz que encontra apoio na religião para seguir em frente e auxiliar a quem esteja precisando de ajuda. “Sou pai, sou mãe, sou tudo. Minha casa está sempre de portas abertas. O pouco que tenho, procuro repartir”, finaliza.


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Ser Estudante

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

A guria que mora na Rua dos Beijos e faz Engenharia Afinal, como é ser estudante residindo na Vila Brás? Yngrid Lessa (Texto) Luísa Zottis (Foto)

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ou estudar Engenharia”. Essa frase ainda é mais comum entre os homens, porém, o público feminino já representa uma parcela significativa entre os estudantes e profissionais do setor. Luana Alvares de Siqueira Fortes é um exemplo. Hoje com 21 anos, está correndo atrás do seu sonho de ser engenheira mecânica. Influenciada pelo namorado que estuda no Centro Tecnológico de Mecânica de Precisão, em São Leopoldo, Luana começou a se dedicar aos estudos para a realização do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem, em 2010. Em fevereiro do ano seguinte, após a realização da prova, veio a boa notícia: Luana Fortes tinha sido pré-selecionada para uma bolsa de 100% pelo Programa Universidade para Todos – ProUni, na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. A partir daí, a vida da jovem, que desde pequena mora na Vila Brás, começaria a mudar. Primeira pessoa da família a estar cursando

uma graduação, Luana se sente realizada na futura profissão que escolheu. “Me descobri na Engenharia e, por incrível que pareça, não acho ruim ter poucas mulheres no meu curso” afirma a guria, que ainda tem em seu quarto diversos ursinhos de pelúcia. Apaixonada por livros e filmes, Luana relata que não faz parte do perfil dos jovens da Vila Brás. Dentre os seus amigos e conhecidos da escola, ela sabe apenas uma pessoa que está cursando ensino superior. “Aqui, a maioria das gurias da minha idade estão grávidas, casadas, com filhos nos braços. Elas começam a ganhar dinheiro, trabalhar e pensam que não precisam mais estudar”, diz. No seu quarto cor de rosa, Luana se sente à vontade para dizer que uma das maiores dificuldades de se estudar na Brás é o barulho na rua. Para ela o domingo é o dia mais conturbado na Vila Brás. “O domingo aqui na Brás é bem complicado de estudar. As pessoas ficam escutando música alta, conversando alto. Daí fica difícil de estudar”, conta. Luana iniciou em junho do ano

passado como estagiária na Coester, empresa especializada em soluções inovadoras em automação e criadora do aeromóvel, que está em implantação entre o Salgado Filho e a estação Aeroporto do Tren-

surb, em Porto Alegre. Estando apenas no quarto semestre de Engenharia Mecânica, Luana já trabalha na área e afirma que ser efetivada lhe deu mais segurança sobre a profissão que vai seguir.

Luana busca crescimento profissional através dos estudos

Objetivos movem o futuro Ananda Garcia (Texto) Daiane Trein (Fotos) A realidade da Vila Brás, estigmatizada pelo tráfico e pela drogadição, ao invés de gerar um empecilho, acaba motivando os jovens da região a buscar um futuro melhor através da educação. Conhecendo alguns estudantes da comunidade, é unânime a vontade de realizar um curso superior, independentemente das dificuldades financeiras e sociais. Algumas vezes, esta vontade é vencida pelo desânimo ou pelas más influências que cruzam o caminho desses jovens. Mesmo assim, uma parcela deles se mantém firme, acreditando que através dos estudos, conquistarão seu espaço na sociedade. Expandir os horizontes Daiana dos Santos, de 15 anos, se divide entre as aulas do 2º ano do Ensino Médio técnico em finanças, o trabalho na loja de roupas da mãe e os poucos momentos de lazer. Demonstra ser uma adolescente pacata, que prefere o lar a agitação.

Daiana já se prepara para fazer o Enem e entrar no curso de Direito Nos finais de semana, colabora em dois salões de beleza da vizinhança, fazendo penteados. Seu passatempo favorito não é a internet, mas livros de literatura. Estudando para prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Daiana tem o sonho de ingressar no curso de Direito na universidade. “Também penso em fazer intercâmbio de inglês, pois além de aprender um novo idioma, sei que isso será muito bom para o meu currículo”, revela.

Enquanto não decide seu futuro, Andrei ajuda no comércio da família Questão de prioridades Ir à escola não é o que Andrei Vitor Blauth, de 15 anos, mais gosta de fazer. O aluno da 7ª série do Ensino Fundamental assume que prefere a internet ou andar de skate ao invés dos estudos. Apesar disso, hoje ajuda no comércio da família e garante que quer entrar na faculdade. “Ainda não pensei qual curso seguir porque falta um bom tempo até eu me formar no colégio. Mas eu

Após terminar o curso técnico, Fabiane quer entrar na faculdade

gosto de matemática”. Andrei revela que a preocupação com uma carreira não está entre as prioridades à maioria dos garotos. “O pessoal gosta de andar de skate e sair, mas sei que um dia vamos dar mais valor para essas coisas”, afirma. Incentivo que vem de casa Fabiane Saraiva, de 17 anos, diz que deve aos pais o estímulo para buscar um futuro melhor.

“Aprendi que através dos estudos e do trabalho poderei conquistar várias coisas na vida”, revela. A jovem cursa o primeiro semestre do técnico em enfermagem e ainda trabalha em uma loja da Vila Brás. O gosto pela área da saúde a faz querer ir mais longe. “Penso em fazer medicina ou enfermagem. Não quero parar de estudar”, conta. No entanto, ela diz que é uma das poucas na comunidade com essa empolgação. “Muitos formam família cedo e acabam interrompendo a escola”, aponta.


Ser Professor

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

5 DIVULGAÇÃO / ESCOLA JOÃO GOULART

Um desafio do tamanho da Educação

Educadores não medem esforços para transformar as perspectivas de vida dos alunos do projeto Seguindo em Frente

Professores recorrem ao vínculo afetivo em sala de aula para transformar a realidade dos alunos CRISTIANE ABREU (Texto)

E

xiste algo em comum entre os professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental João Belchior Marques Goulart. Quase todos parecem gostar da mesma palavra: desafio. O colégio é um dos maiores do município, com 1.380 alunos divididos pelos turnos da manhã, tarde e noite. “Na época em que vim trabalhar aqui a João Goulart era a pior escola de São Leopoldo”, revela a professora Juliana Fogaça Garbin, 39 anos. Há casos de alunos em situação de extrema vulnerabilidade social e que, por causa disso, deixam a educação de lado. A estrutura física da instituição de ensino está em crescimento, mas ainda existem problemas que dificultam o funcionamento da escola, como a falta de

computadores com internet. “Faltam muitas coisas na comunidade: lazer, segurança, moradia, informação, etc. Então imagine o quanto é desafiador ajudá-los, podemos modificar perspectivas de vida e isso é muito gratificante. Dou aula na Brás por opção”, afirma a professora Renata Garcia Marques, 32 anos. Para modificar perspectivas é necessário, antes, enxergar o aluno e tudo o que o cerca. O diretor Cláudio Celso Hatje, 53 anos, assumiu o compromisso de olhar para ver. “Quando entrei na direção, eu sentia a necessidade de fazer uma espécie de EJA (Educação para Jovens Adultos) durante o dia para contemplar os alunos multirrepetentes. Eu sabia que eles tinham um grande potencial, mas por vários motivos acabavam repetindo de ano”. E assim foram se delineando as primei-

Engajamento familiar é importante

ras linhas do que seria uma ideia de sucesso, copiada, inclusive, por outras escolas do município. Denominado “Seguindo em Frente”, o projeto atende os alunos multirrepetentes, jovens de 14 a 16 anos, que estão na 6ª e 7ª série. Entre os motivos para a repetência estão baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem, pouca persistência e problemas familiares. Sendo muito mais velhos do que o restante da turma, esses alunos muitas vezes apresentavam má conduta em sala de aula, dificultando o andamento da turma. A estratégia foi reunir em dois grupos os alunos desmotivados que ficavam deslocados no meio dos colegas bem menores do que eles. A professora Juliana ressalta que a “receita” foi apostar no estímulo da autoestima, ser incansável nas explicações e

metodologias de ensino e, sobretudo, investir na afetividade e no vínculo afetivo com o aluno. A colega Renata comemora os resultados positivos: “Os problemas estão sendo superados! Tenho 60 alunos, dos quais já me orgulho, pois agora eles têm uma nova proposta de vida. Trabalhamos juntos, em parceria! Eles não se sentem mais excluídos, inferiorizados, ao contrário, vejo claramente a vontade que eles têm de vencer, recuperar o tempo perdido, sentir-se valorizado pela escola e pela família”. A estudante Katrine Siqueira é um exemplo. Aos 14 anos, ela ainda estava na quinta série (quando poderia estar na oitava). A aluna confessa que não gostou da ideia inicialmente, mas resolveu assistir uma aula e acabou ficando porque,

segundo ela, as professoras são muito “parceiras”. “O projeto veio em ótima hora. Eu não repeti por não gostava de estudar, mas porque minha família mudava muito de cidade. Eu tinha pânico de matemática, mas agora eu vou para a aula sem medo. Não tem uma dúvida que não seja esclarecida”. Graças ao projeto no final deste ano Katrine terá recuperado o atraso em relação aos colegas da mesma idade, concluindo a 6ª, 7ª e 8ª série e ingressando no ensino médio aos 15 anos. Ao todo, os alunos recebem aulas de nove disciplinas (matemática, português, religião, artes, ciências, história, geografia, inglês e educação física) ministradas pelas professoras Karen Bender Gallas, Cristiane Raquel Farias, Renata Garcia Marques e Juliana Fogaça Garbin.

O diretor Cláudio percebeu que tanto quanto valorizar a afetividade era importante estimular a participação efetiva dos pais na vida escolar dos alunos. Então ele sugeriu, durante reunião pedagógica, que a professora Delonir Hoffmann, 33 anos, fizesse visitas domiciliares às famílias de alunos da turma do segundo ano que apresentavam dificuldade de aprendizagem, problemas disci-

plinares e excesso de faltas. “Dessa forma, estreitamos os vínculos. Nessas visitas a gente entende o porquê dos problemas, é possível ver com outros olhos a realidade em que eles vivem. Às vezes o aluno não tem nem uma mesa para fazer o tema de casa”. Durante as andanças pelo bairro, Delonir tenta desconstruir a ideia de que o professor é inatingível ou inacessível e busca a aproximação com os pais

dos alunos. “Olho no olho da mãe e digo: ‘eu quero que o teu filho venha para a escola, se a gente se ajudar as coisas vão começar a fluir’”. Delonir acredita que ser professor na Vila Brás é sinônimo de ser afetivo e ter disponibilidade para entender as diferentes realidades nas quais os estudantes vivem. “É um grande desafio. Eu aprendo demais com eles. É uma lição de vida por dia”.


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Ser Costureira

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

A mulher empreendedora na Brás Formada há mais de 30 anos, Benvinda dedica parte do seu tempo na confecção de roupas RENATA GOMES (Texto) MATHEUS D’AVILA (Fotos)

A

o andar pelas ruas da Vila Brás é possível perceber a forte participação das mulheres em posições de trabalho. Muitas delas buscam sua renda de forma autônoma, em salões de beleza, lojas, brechós, venda de produtos por revistas de catálogo ou ainda no oficio de costureiras. É o caso da Dona Benvinda Dolores dos Santos, 60 anos, que exerce seu trabalho de costureira no bairro. Aprendeu a vocação ainda aos 20 anos, com sua mãe, porém sentiu a necessidade de tornar o oficio uma profissão. Em Lagoa Vermelha, no nordeste do Estado, decidiu fazer um curso de corte e costura e assim se tornou uma costureira profissional. Dona Benvinda mora na Vila Brás há 24 anos, mas a maioria de seu público vem de fora do bairro. Por ter residido em outros lugares de São Leopoldo, como Feitoria, Campina e Centro, conquistou clientes fixas que comparecem frequentemente à sua casa em busca de serviços. Diferente de muitas profissionais da área, Benvinda se restringe e opta por fazer apenas peças novas. Suas clientes levam revistas, modelos e até mesmo fotos de internet com as roupas que desejam. Ela se limita à produção por

Benvinda dos Santos pratica o ofício há 40 anos e diz nunca ter pensado fazer outra atividade

acreditar que reformas não trazem lucro e muitas vezes dá muito trabalho. E como tem muitas clientes fixas, ela prefere manter o padrão de produção. Apesar de manter essa proposta, a costureira procura não se aproveitar dos preços, já que conquistou sua clientela assim. “Graças a Deus não me falta trabalho, tenho muitas clientes que me acompanham há anos”. Mesmo nunca tendo passando por dificuldades, sentiu que o salário do marido não seria suficiente. A renda de seu ofício de costureira proporcionou a criação de suas filhas, que hoje já são casadas. “Não dá lá um dinheirão, mas quebra o galho. Controlando direitinho, dá certo”. Dona Benvinda tem um sentimento de felicidade por não ser uma mulher acomodada, que depende do marido. Se sente feliz em ser costureira, em ter sua profissão. Ela comenta que muitas vezes quando está estressada por algum motivo, senta-se em frente à sua máquina e começa a costurar alguma coisa. Assim ela esquece seus problemas, relaxa como alguém que tem amor pelo que faz. “Faço porque gosto e porque preciso. Eu fico feliz em conseguir viver sem ser só com o dinheiro do meu marido. Pago minhas contas, faço minhas compras e vivo bem com isso.”

Reparos ganham vida pelas mãos de Marisa NATÁLIA SILVEIRA (Texto) MATHEUS D’AVILA (Fotos) Uma vida entre tecidos, máquinas, agulhas, botões e linhas. É assim que é possível definir a rotina de Marisa Silveira Soares, 60 anos. O gosto pela costura vem desde cedo, pois ela aprendeu a costurar aos 12 anos. O primeiro trabalho foi o enxoval dos sobrinhos e futuramen-

te dos seus filhos, mas ao contrário do que pode se pensar, Marisa não aprendeu o serviço com ninguém da sua família, como era o costume. “Aprendi por conta própria, por minha vontade. Nunca fiz nenhum curso e nem tinha o costume de comprar revistas para copiar os moldes. Aprendi na prática”, afirma. Há 22 anos ela exerce a atividade na Vila Brás e garante que

trabalho é o que não falta, pois cumpre expediente de segunda a sábado. Faz um ano que ela está localizada em uma sala na Rua Leopoldo Wasun, mas anteriormente atendia em sua própria casa. A mudança aconteceu devido à demanda de trabalho que foi aumentando e pela visibilidade que o novo ponto traz. Sobre a clientela, ela afirma que a maioria procura por refor-

mas, como modificar o tamanho da peça, colocar um zíper, fazer bainha em uma calça. “Hoje em dia o pessoal tem uma condição financeira mais baixa, então a grande maioria procura por reformas, pois sai bem mais em conta. E todo mundo vai procurar o mais barato né. Existem outras costureiras aqui na Brás, mas o meu preço é o mais baixo”. Realização pessoal, profissio-

nal e financeira, tudo isso veio com a sua profissão. “Gosto das minhas clientes, gosto de lidar com o público, e não posso reclamar da minha condição financeira”. O marido de Dona Marisa está doente, impossibilitado de trabalhar e é com suas costuras e reformas que ela traz o sustento para a família. “Graças a Deus, ninguém passa necessidade lá em casa”.

Para sustentar a casa e cuidar do marido com câncer, Maria Soares fez de seu hobby sua profissão


Ser Artesã / Padeira

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

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Arte como terapia e renda

Residente há poucos dias na Vila Brás, Dilair fala de seu trabalho e suas expectativas GREICE NICHELE (Texto) FABRÍCIA BOGONI (Fotos)

D

ilair Motta Cardoso, 42 anos, é uma artesã de mão cheia. Ela e o marido, José Manoel, 48 anos, tecem tapetes e Dila – como é chamada – completa o trabalho com suas pinturas. Residente há pouco tempo na Vila Brás, ela migrou de Torres para São Leopoldo, primeiramente, para ficar mais próxima da filha Fernanda, 21 anos, que reside no bairro Chácara dos Leões com o marido. “E também porque a concorrência lá era muito grande”, completa. É claro que as mudanças são sempre difíceis. Dila comenta que em Torres, a vida era um pouco mais tranquila. “Lá, a gente podia deixar a casa aberta. Aqui, o pessoal que já mora há mais tempo, diz que a gente não deve facilitar...” Mesmo assim, as expectativas são favoráveis

em relação ao novo lar. Somente na primeira semana em que esteve na Brás, ela já vendeu aproximadamente cinco conjuntos de tapetes e tem mais três encomendas. Profissional credenciada (Dilair possui carteirinha de artesã), ela começou tecendo tapetes junto com uma amiga há cerca de cinco anos. Pela mesma época decidiu fazer um curso de pintura, para então unir as duas atividades. Hoje, o marido, a filha e o enteado Gabriel, 13 anos, ajudam com o tear e ela dedica a maior parte de seu tempo à pintura. “Sempre gostei de artesanato, sempre tive um fascínio. Vejo os desenhos e imagens nas ruas e fico pensando em como aquilo poderia ficar numa pintura. Até já trabalhei em outras coisas, em padaria, mas gosto mais do artesanato mesmo”, conta ela. A artesã revela que pretende fazer outros cursos na área. Entretan-

to, os custos são muito altos. “Procurei me informar, mas por aqui, um curso de uma tarde custa cento e poucos reais”, conta. Mesmo assim, Dila tem planos de fazer mais trabalhos artesanais e expandir a atividade em família. “Quero começar a fazer mantas para sofá também. Mas focar somente nos tapetes e mantas. Se tiver uma aceitação boa, pode ser que meu genro também venha trabalhar junto”, explica. Feliz com sua atividade, ela conta que quando trabalhou em uma padaria, por conta do choque térmico do forno quente e do contato com produtos frios, sua tendinite piorou muito. “Eu já tenho tendinite, e mexer com o forno quente e os produtos gelados da padaria deixava minha mão e meu braço muito inchados.” E completa, sorrindo, “trabalhar em casa, para mim, é muito melhor. É uma terapia!”.

O gosto pela atividade manual fez com que Dila se profissionalizasse em tapeçaria

Elas também colocam a mão na massa LETÍCIA SILVEIRA (Texto) Jéssica Pedroso (Fotos) Uma profissão normalmente relacionada ao sexo masculino, surpreende por ser exercida por duas mulheres na Vila. Preparar a massa, amassar, deixar ”descansar” para crescer, acordar cedo, colocar o pão no forno e esperar os clientes. Essas atividades fazem parte da rotina de inúmeros padeiros espalhados por aí. Relacionar essa profissão às mulheres não é muito comum. É aí que a Vila Brás surpreende. É possível encontrar algumas padarias ao percorrer a Avenida Leopoldo Wasun. Dentre elas está a Doce Mel, fundada há um ano e meio pelo casal Eliza de Moura e Cleberson Ricardo Porto. Ter uma padaria era o sonho de Eliza, que já tinha conhecimentos como confeiteira. O diferencial do estabelecimento é que ele fica aberto até às 22 horas, horário que a maioria dos outros comércios já está fechado. Segundo Eliza, é o horário em que

“Vovó sentada” traz sentimento de nostalgia aos moradores da Vila Brás

Cleberson e Eliza preparam os pães para os clientes ela mais vende. Exatamente por isso, os proprietários se preocuparam em disponibilizar alimentos que acompanham o consumo do pão, como por exemplo, salsicha, catchup e mostarda para o cachorro quente. Além disso,

vendem alimentos que acompanham o café da manhã. Em outro estabelecimento, o mercado e padaria Irmãos do Sul, a padeira é Renata dos Santos. Recém-chegada na Vila Brás, a jovem de 26 anos veio de Itaqui com o

objetivo de alcançar a estabilidade financeira. Ela herdou a profissão do avô, que é mestre de padeiros em sua cidade. De acordo com Jonatas Lima, filho do proprietário do local, as receitas de Renata fazem sucesso com os moradores. Ele diz

que as receitas trazidas do interior pela padeira, como as cucas e a “vovó sentada” – um pão com um formato diferente conhecido pelos mais antigos – remetem aos moradores mais velhos a lembrança de suas cidades de origem.


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Ser Reciclador / Catador

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Em situações precárias, juntos trabalham por um futuro melhor

Necessidade transformada em esperança Família tira o sustento da reciclagem de lixo

JORGE LEITE (Texto) Nathalie Abrahão (Fotos)

“S

er reciclador na Vila Brás é manter o local limpo, é fazer o bem para comunidade”. Essas são palavras da Maria de Fátima de Camargo, mãe, avó e moradora da Vila Brás, que usa a reciclagem do lixo para ajudar no sustento da família. Ela conta que sempre trabalhou com os mutirões organizados pela prefeitura em troca de cestas básicas. A reciclagem surgiu de um sonho que teve. “Durante um período de muitas dificuldades sonhei que ganhava dinheiro reciclando. Resolvi tentar e deu certo”. Ela começou sozinha o recolhimento de materiais recicláveis, mas

logo ganhou o apoio dos moradores. Os mais próximos também foram essenciais em seu começo. “Meus amigos tiveram muita paciência comigo. Me passavam as listas de materiais, assim, aos poucos fui aprendendo a identificar todos tipos, como plásticos leitosos, PVC, PET e alumínio” explicou Maria. Com o tempo, seu filho Valter Antônio de Camargo, 34 anos, começou a ajudá-la nesse trabalho. Ele conta que precisou trabalhar muito cedo para ajudar a família a se sustentar. Parou de estudar na 6ª série e nunca mais teve oportunidade de retomar os estudos. Trabalhou com carteira assinada em construções civis por muito tempo, mas teve que parar, pois precisava cuidar de sua mulher Raquel

Madaelna, 27, que sofre de epilepsia. Desde então trabalha com reciclagem e ainda faz alguns bicos. “Sempre que surge uma oportunidade, eu faço. Limpo pátios, jardins, coleto podas de árvores, entulhos, restos de construções, entre outras coisas”. Do lixo reciclado, mãe e filho tiram em torno de R$600 por mês, sustento da família composta por sete membros. “O dinheiro dá apenas para necessidades básicas da casa, muito do que temos foram doações” completa Valter. Entre tantas dificuldades, o reciclador, lamenta a falta de apoio à categoria por parte da prefeitura. Geralmente não encontra dificuldades com os moradores, mas ainda sofre preconceitos por parte de alguns, que

confundem o lixo espalhado pelos cachorros de rua com o seu trabalho. Mãe e filho concordam ao dizer que o papel do reciclador está muito além do trabalho, é uma forma de consciência e preservação. “Tirando o material da rua, evitamos que ele seja jogado em valas e esgotos. Sabemos o quanto esses materiais demoram para se decompor” completa Valter. Na busca de otimizar o trabalho, Valter procurou o auxílio de cooperativas de reciclagem. Não obteve sucesso. Hoje o único pedido da família é conseguir uma prensa para poder armazenar o material e aproveitar melhor o espaço, que já não é grande. Para contatar Valter, basta entrar em contato pelo telefone (51) 80277392.

Valter sente falta do apoio da prefeitura

Ser recicladora é fazer bem para a comunidade

Ajuda ao mundo e ao orçamento Marcos Reche Ávila (Texto) Ana de Oliveira (Fotos)

Tânia e suas memórias construidas graças ao trabalho

Laranjinha, além de catador, é envolvido com questões sociais

Fabiano coleta materiais recicláveis na Praça do Imigrante

Existem catadores de material reciclado que possuem objetivos diferentes com seu trabalho. Tânia Regina Castro de Oliveira, 43 anos, começou a catar material reciclado há 17 anos, com um carrinho de mão. Há pouco tempo comprou um carreto, à prestação, e ainda não terminou de pagar. Tem 13 filhos, todos sustentados, em algum momento, pelo trabalho da mãe. “As pessoas dizem que não tem serviço. Tem! Tá aí o carreto”, aponta. A catadora revela que mobiliou a casa e ganhou muitas roupas pelo trabalho que faz. Seus filhos pedem para que pare, por causa da sua idade e do desgaste. Tânia responde a eles que tudo saiu do carreto. Para exemplificar, mostra um álbum de fotografias com os filhos e suas memórias construídas graças ao trabalho. Fabiano Rodrigues, 30 anos, começou catando latinhas há

tanto tempo que nem recorda quando. Atualmente coleta todo tipo de material reciclável. Sustenta sua família, com o suficiente para sobreviver. O ambiente que escolheu para o trabalho fica em Novo Hamburgo, a região da Praça do Imigrante. Leva o material recolhido, para um ferro velho localizado na Vila Brás. Bruno Garcia, o Laranjinha, 52 anos, começou na atividade em 1993. Ajudou a fundar a Associação dos Carroceiros (como eram chamados) de São Leopoldo. Buscou apoio da União de Proteção do Ambiente Natural (Upan) e ajudou a fundar a Cooperesíduos (Cooperativa de Resíduos de São Leopoldo). Teve de ser aposentado após ficar cego. Voltou a ser catador, junto com sua mulher, Vera. “Veio a outra parte, que é a parte da ‘Nice’, a ‘Nicissidade’ de complementar o orçamento”, brinca. Garcia lembra da responsabilidade de não espalhar o lixo enquanto recolhe os resíduos,

e, faz graça com falta de consciência de quem não tem esse cuidado: “Porque nós sabemos o seguinte: tem muita gente que faz na vida pública o que deveria fazer na ‘privada’”. Laranjinha lamenta que colegas da cooperativa onde trabalhou não a levaram a sério. Descontente, propõe uma reflexão metafórica sobre o motivo, como um moinho de reciclagem de garrafas “pet” pertencente a 20 catadores. O quilo deste tipo de plástico lavado vale 4,5 dólares. Imaginando que fossem produzidos de quatro a cinco toneladas por mês neste moinho, os resultados que teriam os catadores seriam positivos. “Tem que ter espaço, as pessoas tem que conseguir sobreviver para chegar a isto. Tem que ter maquinário”, explica. O município monta galpões e, segundo Laranjinha, a direção ganha muito e os catadores pouco. “Não há uma divisão justa. Nosso país ainda é um país de cada um por si e Deus por todos”.


Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Ser Doméstica / Diretor de rádio

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A rotina de limpar para viver Alterações na lei nacional da categoria defendem 44 horas de trabalho semanais e benefícios como auxílio-creche Letícia Rossa (Texto) AMANDA MOURA (Fotos)

I

vanir Batista, de 54 anos, e Alzira Scheer, de 52, provavelmente nem se conhecem. A Vila Brás é seu palco de moradia. O espaço de trabalho das mulheres, porém, está além das fronteiras do bairro. O que as une é a palavra-chave inserida em suas profissões: limpeza. Enquanto Ivanir é auxiliar do setor de faxina de uma empresa, Alzira é diarista em uma residência e escritório de um casal do Vale dos Sinos. Os pares de mãos destas mulheres, que hoje limpam casas e empreendimentos, são os mesmos que cuidam com afeto de filhos e netos. Estes, por sua vez, aprendem desde cedo a importância da profissão dessas mulheres. “Sempre quis passar valores bons para os meus filhos. Às vezes imaginei que minhas filhas fossem ter algum preconceito com o meu trabalho, mas na verdade elas se mostram orgulhosas”, relata Alzira. De segunda à sexta-feira, a diarista desperta junto com o nascer do sol para dar início à sua rotina. Ao seu lado está a bicicleta que a acompanha em todas as idas e voltas do expediente. “Sou muito feliz por ser diarista. Minha felicidade é ainda maior porque nunca sofri nenhum tipo de preconceito por causa da profissão”, garante. “Precisamos passar por cima do que é ruim”

Legislação

Ivanir Batista: a rotina diária começa com o nascer do sol

O que a doméstica deve saber

A lei que rege a forma de trabalho de empregados domésticos brasileiros conteve alguns de seus termos alterados no início do mês de abril. Com as mudanças, a jornada do empregado (seja ele doméstico, caseiro, motorista, jardineiro ou babá) não pode ser superior a 44 horas semanais. Os trabalhadores também passam a ter direito a uma carga horária diária que não supere oito horas – caso o período esteja acima do estabelecido, o pagamento de horas extras deve ser, no mínimo, 50% maior do que o da hora normal. A advogada trabalhista Daiane Maciel da Rosa esclarece que, no Brasil, estas mudanças não se encaixam nas categorias de diaristas e trabalhadores autônomos. “Nosso país é referência para a Organização Internacional do Trabalho no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores domésticos, sendo este um avanço que merece ser comemorado e aplicado”, assegura. A indenização no caso de despedida injusta, seguro-desemprego, fundo de garantia, adicional noturno, salário família, auxílio-creche e seguro contra acidentes de trabalho também são normas vigentes na nova lei nacional.

Alzira Scheer: profissão traz sustento e orgulho à família

As palavras da auxiliar de limpeza Ivanir exemplificam seu modo de pensar a profissão. Para ela, trabalhar em uma concessionária de veículos em Novo Hamburgo é motivo de felicidade. “Já vi preconceito com várias pessoas de todos os tipos, mas sempre ignorei. Estou satisfeita e isso é o que importa”, assegura. A carência de reconhecimento com profissionais deste setor é outro aspecto apontado por Ivanir. Os direitos empregatícios da moradora da Brás, porém, estão todos em dia. Este também é o caso da diarista Alzira. “Minha carteira sempre foi assinada e recebo todos os benefícios desde que trabalho com meus atuais patrões”, declara.

As vozes que auxiliam a comunidade CAMILA CAPELÃO (Texto) MIDIAN ALMEIDA (Foto) Poderia ser em qualquer outro bairro da cidade, inclusive no Itapema, onde morava Irani José na época em que montou sua rádio. Escolheu a Vila Brás, e agora é diretor da rádio comunitária que conta com uma programação com mais de 15 atrações, todas feitas por voluntários. Como os locutores não recebem para trabalhar, os programas mudam de tempos em tempos. Os ritmos que mais tocam são os gauchescos e sertanejos, no entanto, tocar música não é a função principal de rádio Entre Rios, que está há sete anos no ar. “Tinha certeza de que na Vila Brás poderíamos fazer a diferença, quando cheguei aqui a violência era muito maior. Com o passar do tempo a Vila foi crescendo e se modificando, nosso trabalho também. Nosso foco é ajudar as pessoas, ajudar a comunidade”, diz Irani sobre o trabalho que classifica comunitário.

A rádio está provisoriamente em outro espaço, na esquina da rua 11. A antiga sede passará por reformas para facilitar o acesso, a fim de continuar o serviço e receber mais visitas. “A escada que tínhamos dificultava o acesso dos cegos e cadeirantes. Nossa vontade é que todos possam participar da rádio que é para a comunidade”, diz Irani. Os locutores Luis Carlos Gomes e Marco Antônio lembram junto com Irani algumas das histórias da rádio: “Já fizemos casamentos! Ouvintes se conheceram através de um programa, trocaram contatos e agora estão nos preparativos do casamento”, diz Luis Carlos. “Ajudamos também uma família em que mãe e filho não se viam há mais de 30 anos, não se reconheciam mais. Foi através de um anúncio na rádio que ajudamos a se encontrarem. Fui inclusive junto com a família fazer o reencontro”, diz Irani. “A rádio é de todos, há espaço para o entretenimento, para o comercio e também para pedir

ajuda dos vizinhos. Quando anunciamos, logo tem retorno, isso é muito bonito”, diz Marco Antônio. A estrutura da rádio também

conta com ajuda da comunidade, parte dos móveis que utilizam são doações. O nome Entre Rios veio de uma rádio do Paraná, estado

em que Irani nasceu, “Sonhava em abrir uma rádio e dizia que teria o mesmo nome, pois era minha inspiração, ouvi durante muito tempo”. Apesar de ainda não ser regularizada pelo Ministério das Comunicações, Irani não desiste de continuar trabalhando e ajudando a comunidade que, segundo ele, é o motivo do funcionamento. “Precisei de força de vontade para abrir a rádio e continuo com essa mesma força. Muitos dizem que no dia em que for regularizada nosso trabalho vai mudar, mas quero continuar ajudando a comunidade”, diz o diretor.

Entre Rios está provisoriamente em outra sede, mas o trabalho continua o mesmo


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Ser Policial / Açougueiro

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Todos apontam falta de segurança O vácuo que abre espaço para a criminalidade Dyeison Martins (Texto) Michele Mendonça (Foto)

Q

ualquer um que pergunte para um morador de São Leopoldo sobre a Vila Brás irá ouvir falar sobre a falta de segurança na região. No local, porém, existe já uma resignação com o fato. Os moradores já se adaptaram a isso. Costumam alegar que “só encontra confusão quem procura”, numa vã tentativa de se distanciar do problema. Só que a realidade uma hora encontra a todos. O problema é que o bairro é perigoso. Pior ainda, existe um sério descomprometimento do poder público. Salvo eventuais operações policiais, que são para combater o crime organizado – enraizado na Brás –, pouco é feito pela localidade. Os delitos de pequena monta (assaltos, venda de pequenas quantidades de drogas e arruaças em geral) seguem sem solução. Para isso, seria preciso que policiais andassem nas ruas, que sua presença desencorajasse os pretensos bandidos e evitasse as transgressões em andamento. Seria preciso, pois, uma unidade policial no local. Houve, alguns anos atrás, um posto da Brigada Militar dispo-

nível para a região. Porém, por motivos não muito claros, ele foi fechado. Boatos entre os moradores alegam que foi por motivo de corrupção. Os policiais teriam se associado ao crime organizado da região. Policiais são um tema tão raro na região que é praticamente impossível encontrar um. Havia, até uns anos atrás, um policial civil morando na região. Porém ele já saiu da comunidade. Sobrou apenas o seu Antônio Albery Dias, de 58 anos. Policial militar aposentado, ele passou 30 anos na corporação, servindo na região do Vale dos Sinos, especialmente São Leopoldo. Albery é um homem engajado na política da comunidade, que, segundo o próprio, esteve prestes a concorrer a vereador para representar a Vila Brás na Câmara Municipal. Sua opinião, portanto vai além de apenas um técnico da segurança pública. Segundo ele, a situação da região piorou de maneira alarmante nos últimos quatro anos. O que antes era um incômodo apenas para aqueles que “procuravam problemas”, hoje se tornou um sério problema social. Para a situação retornar ao controle, urge o poder público

aumentar o policiamento na região, para tentar dar alguma estabilidade ao local. Pensamento esse que é compartilhado por Kleber da Silveira, presidente da Associação dos Moradores da Vila Brás, que procura, de alguma forma, usar a in-

fluência de seu cargo para tentar trazer o ponto de volta. Porém, para tal, seria preciso um interesse do poder público para que acontecesse. Até o fechamento da edição, não foi possível contato com o comando da Brigada Militar.

Seu Albery vê com preocupação o aumento da violência

Seu churrasco passa por eles CHICO CASELANI (Texto) ROBERTO CALONI (Fotos) A cultura do churrasco é tão apreciada na Vila Brás quanto em todo o Rio Grande do Sul. A maioria dos mercados do bairro apresenta balcões com os mais diversos tipos de carne. E para atender a comunidade, se torna fundamental o papel do açougueiro. Responsável pelo armazenamento, limpeza e corte desses alimentos, ele acorda cedo de segunda a domingo para arrumar os produtos e recepcionar seus clientes. Para Celso Luis dos Santos, 46 anos, que já trabalha há mais de duas décadas na profissão, a relação com o cliente é o mais importante. “Mantemos um contato direto com as pessoas. Isso é legal no nosso trabalho, nós criamos amizades, o que torna o ambiente bastante familiar”, argumenta Celso. Os açougueiros concordam que a clientela aumenta nos finais de semana, com a compra de costelas e ripas para churrascos com a família. Celso, que começou a trabalhar na área a convite de um amigo, define como o melhor horário para as vendas o período de final da manhã. “As pessoas já compram pensando no almoço”, explica.

Edenir: carisma a serviço do atendimento Já o açougueiro Edenir de Castro, 31 anos, garante que, além de entender de sabores, cor e consistência de cada pedaço, é preciso ter carisma e sempre se preocupar com a procedência de seus alimentos. Morador de Novo Hamburgo, ele se dirige à cidade vizinha, São Leopoldo, todos os dias, trabalhando das 8 horas até o início da noite. “Para trabalhar com isso tem que gostar da pro-

Celso: amizade com os clientes é essencial

fissão. Aprendi sobre o corte e a limpeza das carnes com meu irmão. Mas o mais importante é saber que o cliente tem que ser bem atendido, para que ele volte com mais frequência”, comenta. Casa de ferreiro, espeto de pau Com o tempo, os açougueiros ganham a confiança de seus clien-

Alex Sandro: “Não gosto muito de carne”

tes, que passam a pedir sugestões sobre que carne levar. No caso de Alex Sandro Alves de Andrades, 21 anos, as dicas não vêm do sabor das peças, mas de sua experiência na profissão. Sobrinho do dono do Mercado e Açougue Müller, Alex Sandro trabalha há seis anos no local, mas conta que evita comer carne. “Desde criança eu nunca gostei muito do sabor da carne, seja ela qual for. Só como

carne moída”, explica. No entanto, Alex garante que não titubeia quando alguém lhe pede ajuda. “Eu posso até não gostar, mas eu sei quando a carne é boa e irá agradar o cliente”, salienta. Buscando preço ou qualidade, os moradores da Vila Brás podem encontrar em seu próprio bairro os mais diversos cortes de carnes bovina, suína e frango para seu churrasco de domingo.


Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Ser Lavador / Colecionador 11

Limpeza de veículos ganha espaço no bairro Eles chegam empoeirados e têm que sair brilhando, limpos e com cheiro de novo Daiane Dalle Tese (Texto) Amanda Nunes (Fotos)

S

eja com auxílio de máquinas automáticas ou realizada manualmente, expressa ou mais completa, a limpeza interna e externa de veículos de passeio e utilitários nos grandes centros urbanos ou em estabelecimentos de pequenos bairros é serviço valorizado e até indispensável para atender um determinado segmento da clientela.

Muitos microempresários do ramo estão tentando conquistar seu espaço no mercado. Na Vila Brás não é diferente. Maicon Robson da Silva, 27 anos, queria ser um empreendedor, ter seu próprio negócio e deixar de ser empregado. Após trabalhar durante dez anos como lavador em uma empresa de veículos de Novo Hamburgo, Silva poupou e conseguiu abrir, no primeiro dia de abril deste ano sua lavagem automotiva. “Quando se é dono, a dedicação e empenho no trabalho são maiores”, conta. Por R$ 20 é possível realizar uma limpeza automotiva de qualidade na Lavagem do Amaral. O nome do estabelecimento que está localizado na Rua 17 da Brás, surgiu do apelido que Silva ganhou dos amigos: “Quando jogava futebol nos fins de semana, me achavam parecido com o ex-jogador do Grêmio, Amaral. E o apelido pegou. As pessoas já me conhecem assim, nada mais justo que

Os carros da Brás ganham tratamento especial no posto de limpeza automotiva montado por Maicon o nome da lavagem seja esse”, explica. Silva fez do pátio da sua casa seu negócio. Decidiu assim, juntar moradia com trabalho, para evitar o pagamento de aluguel por um espaço privado. Antes de virar patrão, Silva colocou na ponta do lápis despesas com materiais, equipamentos, água e luz, além do tempo para gerir bem o negócio. Sua maior dificuldade no início era a conta de água, que chegava com valor

elevado. Agora que possui poço artesiano em sua residência, seu problema foi resolvido. Para que não haja aumento de gastos, ele não conta com funcionários. Sua esposa Laura da Silva o auxilia de modo a garantir a única fonte de renda da casa, onde moram com a filha pequena de três anos. Lava aqui, passa pano lá, esfrega ali, joga água, retira a espuma... Assim é a rotina básica de um lavador de carros. São quase

50 minutos dedicados a limpeza de cada carro. Na lavagem de Silva, o preço é tabelado e se baseia pelo material e trabalho realizado. Em média, são atendidos de 20 a 25 carros nos finais de semana, dias que o proprietário considera mais lucrativos. Silva sabe que se não oferecer o serviço esperado pela clientela, não obtém a renda desejável, por isso, trata com simpatia e humildade cada cliente atendido.

Paixão que tem história Fabrício Romio (Texto) JONAS PILZ (Foto) Enquanto muitas pessoas veem em um carro apenas uma tonelada de metal e pneus, utilizado estritamente para se locomover, tem gente que mantém verdadeira paixão por seus carros, principalmente quando eles possuem anos de história. Desde o mais tradicional e elegante Puma, até o confiável Fuscão 81, quem tem um carro antigo é unânime em comentar que possuí orgulho de suas relíquias. Manter um carro antigo não é simples, nem barato. Como muitas peças pararam de ser fabricadas, são difíceis de serem encontradas. Na maioria das vezes é preciso se deslocar para outras cidades, ou procurar nos famosos encontros de carros antigos. Na Brás, Rogério dos Santos, dono de um VW Fusca, 81, com mais de 240 mil quilômetros rodados, conta que já gastou mais de R$ 6mil para arrumar o carro. O resultado salta aos olhos. O Fusca customizado é o xodó de Rogério, que arrumou toda a lataria, trocou as rodas, acertou

Rogério dos Santos e seu Fusca 1981, com mais de 240 mil km rodados e cerca de R$ 6 mil investidos o motor e o expõe no sábado de manhã para quem quiser ver. Ele recebeu o veículo como pagamento de uma dívida há mais de oito anos, e decidiu reformá-lo.

“Já me ofereceram até outros carros na troca, mas o meu objetivo é ficar com ele. Só vendo o Fusca se me oferecerem uns R$ 9mil. Ele é o meu xodó”, comenta Rogério.

Dono de cinco carros antigos, Cid*, conta que começou sua coleção por achar os veículos exóticos e raros. “Era um sonho de criança, que realizei quando

adulto”, comenta. Há 17 anos, comprou seu primeiro Puma e até agora não parou. Com veículos que variam dos anos do ano de 73 até 82, o seu carro preferido é mesmo o da Volkswagen. Para ele, os carros antigos são como mulheres mimadas, custam muito para manter. “Já me pediram R$ 10 mil só por uma peça, os preços para reforma são muito altos pela raridade em encontrar peças.” Porém todo o trabalho compensa. Ele conta a sensação de ter algo diferente e não esconde o orgulho de que todos que veem seus carros param para olhar. O brio de sua coleção é um Puma GT Tubarão que comprou há sete anos e, aos poucos, está reformando. Ele mesmo põe a mão na massa para deixar os veículos como novos. O motor é arrumado por um mecânico em sua própria residência. A pintura é por conta de José da Silva, conhecido como Uga, que, para Cid, é o melhor do Rio Grande do Sul. * O nome foi alterado por solicitação da fonte.


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Ser Músico

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Artistas passam por dificuldades Talentos locais sofrem com desvalorização e baixo retorno financeiro GUILHERME ENDLER (Texto) Bárbara Müller (Fotos)

S

er músico não é fácil. Além de dominar a técnica necessária para tocar um instrumento ou cantar, é preciso paciência para conseguir um espaço no mercado. Na Vila Brás, diversos artistas procuram meios para unir a paixão pela música com o retorno financeiro. Um exemplo é João Nunes da Luz, conhecido na comunidade como João Gaúcho, que dedicou 18 dos seus 60 anos de vida à música gauchesca. Inspirado em nomes como Gildo de Freitas, o cantor costumava se apresentar em cidades da Região Metropolitana, e chegou a participar de programas da rádio Progresso, em Novo Hamburgo. Hoje, João canta em lanchonetes e restaurantes da Brás. “Agora estou meio parado, mas sempre foi uma brincadeira, nunca deu para viver da música. O meu sustento vem mesmo da construção civil”, conta. Já Valmir Antônio da Silva, o Tuca, conseguiu ir além. Baterista desde a adolescência, o músico de 56 anos já integrou diversas bandas e tem no currículo shows em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Uruguai. Atualmente participa do conjunto Estúdio, que anima festas e bailes da Grande Porto Alegre com músicas próprias e covers.

Apesar dos anos de experiência, Tuca, que também trabalha como porteiro de prédio, considera a música um hobby. “Como tenho minha própria bateria, posso treinar as músicas que toco com a banda em casa mesmo. Mas tive que comprá-la como dinheiro do emprego, os shows pagam muito pouco”, explica. Ivan e Roni Pens vivem uma situação parecida. Os irmãos são donos e integrantes do grupo Garotos Show, o conjunto local que conseguiu maior popularidade nos últimos anos, mas passam dificuldades para manter o projeto. A banda, que existe há 17 anos e ficou conhecida por abrir shows de grandes nomes do sertanejo, sofre com a desvalorização dos artistas da região. Lira, mãe dos músicos, conta que os filhos pensam em acabar com a banda, pois não é possível cobrir os custos das viagens e ainda pagar os outros integrantes – que são funcionários dos donos do grupo– somente com a renda dos shows. ”Meus filhos têm carteira de músico profissional e nem assim são valorizados. As casas de shows pagam muito mais para artistas de fora do estado, que às vezes não são músicos formados. O Sindicato dos Músicos deveria tomar alguma providência para ajudar o pessoal daqui”, exclama Lira.

Apesar do gosto pela música e do profissionalismo, o sustento dos artistas vem de empregos fixos

Um bairro, vários estilos Juliana Fogaça (Texto) Saimon Bianchini (Fotos) A Vila Brás pode ser considerada outro centro dentro de São Leopoldo. E não é apenas pelos bares, mercados e bazares que se encontra nas ruas da comunidade. Assim como o centro, que disponibiliza os mesmos estabelecimentos e é possível encontrar muitos músicos tocando ao vivo, na Vila Brás também se encontra músicos de idades, estilos e lugares diferentes. Um desses artistas que compartilha suas canções com os moradores da Vila Brás é Leonir Neto Antunes, de 59 anos. Há oito anos como músico profissional, ele segue a linha tradicionalista. Morando há 32 anos na Região Metropolitana de Porto Alegre, Antunes saiu de São Miguel das Missões porque, segundo ele, era muito difícil ser músico. “A dificuldade maior é comprar um instrumento. É muito caro”, diz Leonir, mais conhecido como “Gaúcho Missioneiro”. Antunes começou tocando em casamentos e demais festas onde era solicitado e segue fazendo eventos até hoje. “Quando chamam, eu vou”, diz. Há seis meses,

Adão Oliveira sonha com um futuro promissor para as pequenas artistas gravou seu primeiro CD. Com dez faixas, o Gaúcho Missioneiro deixa bem claro que, além de tocar e cantar, ainda compõe. “Todas as músicas do CD foram compostas por mim. Só gravo as músicas que escrevo”, ressalta o tradicionalista, que desde muito cedo gosta de música. Com a sua gaita, voz e letras vai, sempre que é convidado, até

a rádio da comunidade para participar dos gaitaços. “É muito bom. Me sinto realizado”, revela. Além disso, ele conta que é muito bem recebido pela comunidade. Leonir mora no bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, mas sempre vem tocar na Vila Brás. Com história e estilo completamente diferentes, Sara e Brena, as meninas cantoras, sonham em

Gaúcho Missioneiro compõe suas próprias músicas

seguir na música. Sara Nogueira de Oliveira, de 10 anos, e Brena Mitieli, de 11, são cantoras na igreja onde frequentam. Acostumadas com o ambiente desde muito pequenas, o gosto pelo louvor fez com que as duas acabassem participando ativamente dos cultos. “Nos sentimos bem, alegres e com Deus quando cantamos”, dizem as meninas.

Esse sentimento de bem estar e o gosto pela música faz com que as duas sonhem com um futuro promissor. O avô das meninas, Adão de Oliveira, de 53 anos, gosta muito de ver as netas participando da igreja. “É um orgulho”, diz ele, com brilho nos olhos. Para o futuro, o comerciante deseja ver as jovens cantoras gravando um CD.


Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Ser Empresário / Político 13

Como prosperar no ramo A trajetória de quem é dono do próprio negócio Alessandra Fedeski (Texto) José Francisco (Fotos)

Cônsul vê na família a continuidade do negócio

E

m princípio parece fácil iniciar o próprio negócio. Um salão de beleza, um restaurante ou uma loja podem ser abertos por qualquer um que estiver interessado e, logicamente, possuir condições para isso. Mas com o passar do tempo, a realidade aparece: longas horas de trabalho, incertezas na segurança, clientes devedores, funcionários desonestos. Esse é o lado menos prazeroso de ser o próprio patrão. O lado bom é o relacionamento com a comunidade, a organização da própria rotina e a certeza de estar fazendo aquilo que se gosta. Assim vivem dois empresários da Vila Brás: Jonas Cônsul, 51 anos, proprietário da Agropecuária Cônsul e Aldemir Vieira, 43 anos, dono do Centro Comercial Vieira, local que contém um supermercado, um restaurante/ pizzaria e um amplo espaço de peças alugadas por outros comerciários. Um empresário da Vila Brás preci-

Para Vieira, o bom atendimento é fundamental

sa, necessariamente, manter um bom relacionamento com a sua clientela. Seja explicando minimamente qual a ração mais adequada e o período de vacinas dos animais, ou ainda dispensando atenção e carinho para quem faz compras em um supermercado, o tratamento individual para cada cliente é reconhecido. Essas são algumas das razões pelas quais os empresários Jonas Cônsul e Aldemir Vieira têm seus negócios consolidados, a freguesia garantida e um gosto pela atividade que exercem. Ambos revelam que não largariam as suas atividades para trabalhar em uma empresa privada. “Eu vivo há 22 anos para o meu negócio e tenho uma relação tão boa com os meus funcionários que acabo nem me sentindo patrão deles”, destaca Aldemir Vieira. Para ele, o único arrependimento foi o abandono dos estudos. Coisa que não aconteceu com Jonas Cônsul, que decidiu voltar ao ensino médio para melhorar seu negócio. “As pessoas pensam que para

abrir uma agropecuária basta ter dinheiro, mas é preciso muito mais. Busco oferecer meus serviços da melhor maneira possível, de acordo com a lei e buscando sempre melhorar”, declara Jonas. Assim eles se desenvolvem cada vez mais. Mesmo com o estresse que eventualmente surge, como um cliente inconveniente ou um funcionário que não se mostra tão leal quanto parece, mas sempre com a certeza de que o relacionamento humano é o que os faz prosperar. “Eu sou amigo de verdade das pessoas e faço isso porque gosto”, afirma Vieira, que hoje tem 20 funcionários e uma família que ajuda nos negócios. “Eu não trocaria a agropecuária por um emprego fixo”, destaca Cônsul, que escolheu a Vila Brás como local para a primeira filial da sua empresa há sete anos e hoje, com a mulher trabalhando na matriz em Novo Hamburgo, uma filha de 11 anos que quer ser veterinária e um filho chegando, vê na família a continuidade do seu negócio.

O centro comercial Vieira tem espaço para novos empreendedores

A diversidade de produtos permite uma orientação adequada a cada cliente

Comunidade ganha representante na Câmara Andressa Barros (Texto) Marcus Von Groll (Foto)

Pastor Perci acredita em trabalhos sociais para livrar os jovens das drogas

Eleito em 2012 pelo Partido Social Liberal (PSL) com 1.901 votos, o pastor Perci Pereira, 51 anos, conquistou 956 votos somente na Vila Brás. Natural de Anchieta, no estado de Santa Catarina, mora no bairro há 32 anos. Casado com Maria Belli Pereira e pai de três filhos, “todos nascidos e criados na Brás”, destaca, também é pastor presidente da igreja A Glória de Deus em São Leopoldo. Hoje, o vereador trabalha em alguns projetos importantes para a comunidade, como a ampliação e criação de creches em parceria com o orçamento participativo. Para o ginásio de esportes e lazer, onde é possível jogar futebol, o parlamentar pleiteia a cria-

ção de uma pista de skate também. Segundo ele, essas propostas, além de trazer benefícios para as mães da comunidade, visam também combater o uso de drogas. “É uma ação preventiva às drogas, tirando o jovem da rua e incentivando ele ao esporte”, conta. Perci procura fazer trabalhos sociais e espirituais, pois “onde há fé, há esperança e onde há esperança, há amor”. O pastor acredita que esses trabalhos têm resultados positivos. “Antes a Vila Brás era vista com outros olhos, havia criminalidade, drogas e prostituição. Hoje as fábricas buscam trabalhadores daqui. As coisas mudaram”, comenta. Ele ainda está em busca de parcerias para montar um clube de mães, com curso de informática e aulas de artesanato. “Amo a Brás. É a vila do meu coração”, finaliza.


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Ser Religioso

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

A devoção que une crenças Independentemente da opção religiosa, comunidade encontra apoio para as dificuldades Mariana Staudt (Texto) Natália Scholz (Fotos)

Adriano, da Assembleia de Deus, e Thereza, da Igreja Católica, pregam o amor de Cristo na Brás

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Vila Brás é conhecida por seu grande número de igrejas – ao todo, são 24. Mesmo com a diversidade de crenças, o objetivo de todas é um só, o de propagar o caminho da fé. As histórias de Thereza Almeida Mencina e Adriano de Oliveira também são contrastantes no que diz respeito às suas relações com os fieis, fazendo com que cada morador veja a religião de um jeito e tenha experiências diferentes. Vinda de uma família tradicionalmente cristã, Thereza é colaboradora na Igreja Católica Cristo Operário da Vila Brás há 16 anos, ajudando desde a limpeza do local até na hora da comunhão e sente-se realizada por isso. “Ajudamos quem tem necessidades, sem fazer distinção de ninguém. A fé é tudo na vida”, afirma.

A poucas quadras dali, fica localizada a Assembleia de Deus Ministério União, que divide o espaço com a casa e a estofaria do pastor Adriano de Oliveira, de 35 anos. Ele, que já foi morador de rua em São Paulo e viajou para vários lugares, concilia a atividade religiosa com a profissão de estofador há 20 anos. “Não vivo com salário da igreja. Nunca ninguém vai poder falar que faço isso por dinheiro, faço por amor”, conta. A igreja traz uma grande preocupação com jovens, oferecendo diversas oficinas e eventos para a comunidade.“É gratificante ver jovens que saem do caminho das drogas, a partir do apoio carismático. Eu vejo o futuro neles. Muitos jovens recuperados, hoje trabalham. Conheço casais que brigavam muito e encontraram aqui um lugar para desabafar. O que faz diferença é o amor”, diz.

Jovens encontram apoio em Deus Helena Caliari (Texto) Amanda Nunes (Fotos) A Igreja Evangélica Assembleia de Deus (IEAD) – Ministério da União, situada na Rua Leopoldo Wasun, é o lugar de encontro de vários jovens na Vila Brás. “A nossa igreja é o lugar onde os ‘rejeitados’ do bairro são acolhidos com amor. Aqui todo mundo é bem-vindo”, diz o pastor Adriano de Oliveira.

A fé mudou definitivamente a história do casal Aline Dutra e Gilmar Miranda

A dona de casa Aline Dutra Padilha, 20 anos, conheceu Gilmar Eliseu Miranda, 23 anos, em um baile e logo começaram um relacionamento. “No início, ele bebia demais e usava tudo quanto é tipo de droga, até depois de começarmos o namoro”, diz ao lado do filho do casal, Guilherme Padilha Miranda, de um ano e meio. Segundo Aline, o que levou Gilmar a largar o vício foi o sofrimento que ela e a mãe do rapaz passaram a enfrentar. Ao procurar auxílio na igreja de Adriano, Gilmar abandonou ambos os vícios. “Hoje, ele é um ótimo pai de família. Foi um milagre ter tomado a iniciativa de passar a ir aos cultos”, relata.

O ajudante de motorista Douglas Oliveira Leão, 20 anos, teve uma história similar à de Gilmar e Aline. “Bebia demais, usava drogas, não parava em casa”, explica. A prisão por ferir o próprio irmão em uma briga foi o estopim para que rumasse outros caminhos na vida. “Desde que entrei na igreja passei a prestar mais atenção à minha esposa e ao meu filho”, destaca. Douglas é casado há quatro anos com Jeniffer Costa, 18 anos, e a dedicação que dá à mulher e ao filho, Dereck Leandro Masser Leão, de um ano e oito meses, é um reflexo da nova vida que leva: de paz com a família, o irmão e com ele próprio.

Bruna e Vinícius: frequentadores assíduos dos cultos adventistas

A fé como estilo de vida GABRIEL REIS (Texto) CAMILA WEBER (Foto)

Douglas Leão viu sua vida mudar ao seguir o caminho da religiosidade

A Vila Brás abriga dois irmãos, de pais diferentes e etnias completamente distintas. Ela, Bruna da Luz Rafo, de 16 anos, é filha de um descendente marroquino. Já o seu irmão, Vinícius da Silva, de 14 anos, tem os traços típicos de um italiano, apesar de sua timidez disfarçar o fato. Os irmãos são frequentadores assíduos dos cultos religiosos da Igreja Adventista do 7º Dia, que fica localizada na principal via da Vila Brás, a extensa avenida Leopoldo Wasun. Segundo Vinícius, a religião tem um papel fundamental na sua vida. “Depois que come-

çamos a frequentar a Igreja Adventista, descobrimos que podemos ter uma vida mais digna e distante de eventuais problemas, como o uso de drogas, por exemplo”, explica. Vinícius foi levado pelo irmão mais velho, Diego da Silva, com apenas oito anos. “A rotina na igreja é silenciosa e serve como momentos de reflexão e busca pela.”, diz Bruna. Os irmãos se dizem felizes com a rotina de leituras e estudos constantes da Bíblia. “Não fomos forçados a nada, foi uma escolha e uma decisão muito particular. Vivemos nossas vidas sob os cuidados de Deus e é Ele que nos conduz diariamente”, finaliza Vinícius.


Ser Idoso 15

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Maio de 2013

Testemunha do crescimento da Vila Jurandir Alves de Mello trocou o Interior pela Grande Porto Alegre em busca de oportunidades e melhores condições de saúde RENATA SANTOS (Texto) CRISTINA LINK (Fotos)

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Rua Dona Margarida, na Vila Brás, possui um morador especial. Aos 78 anos, Jurandir Alves de Mello é só lembrança. Os cabelos grisalhos e os passos lentos contrastam com a voz firme que relembra com cuidado todos os detalhes de uma história de vida. Jurandir saiu de Espumoso aos 30 anos de idade, fugindo das precárias condições de trabalho no campo, onde desde jovem ajudou o pai na plantação de mandiocas, e em busca de solução para os problemas de saúde da esposa. Junto com a família, primeiro foi em direção a Salto do Jacuí, onde morou por 18 anos, dos quais, 12 trabalhando no setor de topografia da CEEE. Na época chegava a ficar cerca de 30 dias viajando para realizar as medições do nível das águas da barragem do Jacuí, função essa que ele recorda com muito orgulho e saudade. Com a esposa doente, Jurandir decidiu trocar Salto do Jacuí e seguir rumo à Grande Porto Alegre, pois era preciso estar mais próximo dos recursos médicos de que ela necessitava. Há exatos 22 anos, o aposentado chegava à Vila Brás e trazia consigo a esperança de uma vida melhor. Em frente a sua residência e mergulhado em memórias, por segundos, Jurandir deixa os olhos se perderem no horizonte, aponta para o fim da rua

e conta que acompanhou o desenvolvimento da Brás. “Aqui na volta da minha casa, existia um matagal imenso. Nessa rua tinha poucas casas. Hoje, a Brás se tornou uma cidade”, comenta. Foi na Brás que encontrou espaço para terminar de criar os filhos e cuidar da mulher, falecida há três anos. Pai, avô e bisavô, o aposentado é muito conhecido onde mora, mas não pelo seu nome, e sim pelo apelido carinhoso de “Pai Veio”. É em casa mesmo, sob a sombra de uma árvore, que Jurandir reúne diariamente os amigos e vizinhos para um jogo de canastra. “Não jogamos por dinheiro, às vezes vale até um refrigerante, aqui a gente se reúne todos os dias, é um lazer pra todos nós”, ressalta ele. Os vizinhos estão sempre batendo à sua porta, porque Jurandir afia facas e serrotes, uma prática que aprendeu sozinho. Filho mais velho de uma família de cinco irmãos, cultiva os costumes gaúchos e não por acaso se veste a caráter, com bota, bombacha e chapéu. Desde que se tornou viúvo, mora sozinho e logo pela manhã cedo prepara o chimarrão, seu companheiro inseparável. O almoço e os afazeres domésticos são com ele mesmo. Bem humorado, não dispensa um feijão temperado e um churrasco no final de semana. O segredo do bom humor e da jovialidade para ele é simples: o passado e as experiências na vida lhe serviram como base para viver uma velhice com harmonia e felicidade.

Na maturidade, encontram descanso no bairro

Vivendo a melhor idade na Brás

RITA RODRIGUES (Texto) Rayra Krajewski (Fotos)

ANGÉLICA DIAS (Texto) DIEGO DA COSTA (Fotos) Numerosos no bairro, os idosos da Brás têm muita energia e disposição. A maioria deles tem dificuldade de encontrar um entretenimento saudável e adequado às suas condições. Muitos passam o tempo em casa, como é o caso de Alípio Becker, de 65 anos, que mora com a esposa, Cenilda, de 59 anos. Becker teve um AVC (acidente vascular cerebral) no ano passado e sofre do mal de Parkinson, o que limita suas idas e vindas. Para ele, um dos piores problemas são as crianças “arteiras” do bairro. Outro morador acostumado ao lar é José Luis Godoi, de 77 anos. Aposentado há 17, Godoi se mudou há pouco para a Vila Brás e ainda não conhece muitas pessoas nem muitas opções de lazer. Ele diz estar gostando muito do bairro e valoriza as amizades. “Quem tem amizade tem tudo e devagar vamos conhecendo todo mundo”, comenta.

Alvício, José e Alípio: poucas opções de lazer

Carteado Os jogos de canastra na casa de Jurandir Alves de Mello, de 78 anos, são a principal atração entre os moradores de faixa etária mais avançada. “Aqui a gente se diverte, escuta um Teixeirinha, conta piada, bebe umas Pepsi e ri de montão”, relata Mello. Alvício da Rosa, de 77 anos, amigo de Jurandir, frequenta o carteado desde o início dos encontros, que antes aconteciam

Morador tem 78 anos e está há 22 na Brás

no bar do Jairo. “Mas lá a música era muito alta e tinha muita gurizada se drogando. Aqui é mais tranquilo”, revela. Durante a semana a casa de seu Jurandir é tomada pelos companheiros de idade. Aos fins de semana até os mais jovens se juntam à diversão. Edemar José Unzer, de 43 anos, é um deles. “Eu venho quase todo fim de semana pra cá, só não venho quando a mulher não deixa”, brinca Unzer.

Ao se aposentarem, as pessoas querem descanso. Tranquilidade e boa vizinhança é o que os moradores mais velhos encontram na Brás. “Moro no local por que gosto”. Assim Elduíno Pich, de 71 anos, explica porquê optou pelo bairro. Veio de Santa Rosa há 20 anos, hoje conhece muita gente. As amizades, entre outras coisas, o fazem gostar do lugar onde mora com a mulher e a filha. No início precisava caminhar muito e enfrentar o barro para pegar um ônibus. Hoje há asfalto e

calçamento na maioria das ruas. Pich lamenta a falta de lazer no local, há anos luta por uma cancha de bocha. Vai até um bairro próximo para praticar o esporte. Eva de Oliveira, de 74 anos, veio de São Miguel do Oeste (SC) há 12 anos com o marido e filho. Encontraram na Brás melhores empregos, tranquilidade, bons vizinhos e amigos. Por isso ela adora o local. A falta de médicos no posto de saúde é a maior reclamação. Elduíno diz que precisa ir até o hospital municipal, pois são poucos horários de atendimento e não abre aos finais de semana.

Elduíno Pich se diverte com seus amigos jogando bocha

Amizade e a boa vizinhança fazem com que Eva seja feliz


Ser Líder Comunitário

VIla Brás - São Leopoldo/RS Maio de 2013 enfoque

As propostas e desafios do novo presidente O Enfoque Vila Brás entrevistou Kleber da Silveira para descobrir quais as prioridades da nova diretoria da Associação de Moradores FERNANDA KERN (Texto) Bárbara Müller (Foto)

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esde 16 de março, Kleber da Silveira, 38 anos, adicionou mais um ingrediente à “salada de frutas” que ele afirma ser. Na data, o funcionário público no Serviço Municipal de Água e Esgotos de São Leopoldo (SEMAE) e assessor do vereador Chico da Agafarma (PP), passou, também, a ocupar o cargo de presidente da Associação de Moradores da Vila Brás. O novo presidente morou a vida toda na Brás. É lá, também, que vivem seu filho, Bruno, 12 anos, e sua mãe, Regina da Silveira da Rocha, que está na vila há mais de meio século. Seu envolvimento com a comunidade começou há muitos anos, mas há sete ele realiza trabalhos sociais junto com o vereador que apoia. “Quando tu entras na política, existem duas opções: fazer isso só para pegar o salário no final de mês ou se dedicar a usar o poder que tu adquiriu para ajudar quem conseguires. Se eu só tirasse esse dinheiro no fim do mês, não ia ter graça”, explica. “Sendo presidente ou não, faria o trabalho para a comunidade que eu já fazia antes”, completa. Kleber espera ter um mandato com grande participação de todos. “Para fazer tudo o que queremos, precisamos de parceiros que também pensem, em primeiro lugar, no melhor para a comunidade. Quem quiser ajudar, pode se sentir bem-vindo”, ressalta. “A asso-

ciação não é minha, nem de ninguém. Ela é da Brás. Todos têm o direito de passar ideias, sugestões e reclamações.” Outra expectativa é atender antigas demandas. “A associação não pode abrir só para festas”, exemplifica. Como inspiração, Kleber tem a frase de um autor desconhecido que está pintada na parede da associação: “um dia compareceremos diante do grande trono, para prestar conta do desempenho, com o talento a nós confiado”. “Quando tu fazes um trabalho sério, as coisas boas vêm ao natural”, enfatiza. Kleber conversou com a equipe do Enfoque Vila Brás sobre os principais problemas apontados pela comunidade e as expectativas para este novo mandato. Enfoque - Qual a importância da Brás para ti? Kleber – Não tenho palavras para descrever a importância da Brás pra mim. Eu nasci e me criei aqui, ela é muito importante para a minha vida. E – O que a Brás tem de melhor? K – As pessoas. Isso é o que faz a vila ser o que ela é. E – Qual o principal ponto que deve melhorar? K – A saúde, porque sem saúde tu não trabalhas, tu não te desenvolves. E – Qual o lugar que tu mais gosta

de ficar? K – A Lancheria do Jairo, que é onde normalmente está meu grupo de amigos. Jantamos lá umas duas ou três vezes por semana. E – Qual o lugar que mais precisa de atenção? K – É difícil, porque infelizmente ainda tem muita coisa para melhorar. Mas as ruas que costeiam as valas realmente precisam de um cuidado especial. Quem mora por lá sofre com o mau cheiro, os mosquitos e a ameaça de dengue. Muitos só tem a casa, porque ao redor é esgoto. E – Qual a principal mudança ocorrida na Brás nestes teus 38 anos como morador? K – Mudou muito. Costumo brincar que nasci no meio do banhado e hoje isso aqui é quase uma cidade. Mas acho que a cultura se destaca. Hoje a gente tem muito mais acesso à informação, aos projetos sociais... E – O que tu esperas para a tua gestão? K – Eu pretendo fazer um ótimo trabalho junto com o grupo que me apoia. Queremos trabalhar pensando na comunidade. Entre quase 18 mil moradores, pouco mais de 500 participaram da eleição. Isto é muito pouco. Pretendemos envolver todos, para estimular a participação de cada vez mais pessoas nas atividades da associação.

Ideias apresentadas à população Saúde – Agendamos uma reunião com o prefeito para tentar amenizar o problema. Vamos batalhar por um posto 24 horas aqui. A unidade poderia ser referência para esta região da cidade. Se tivéssemos pelo menos um posto que ficasse mais próximo e fechasse mais tarde, acredito que conseguiríamos desafogar nosso Hospital Municipal. A praça – Nossa ideia é reformular. Queremos um guarda para zelar pela conservação do espaço para que a praça tenha horário de funcionamento. Saio para trabalhar de manhã cedo e fico triste ao ver os moradores, muitos deles de mais idade, caminhando na rua, quando existe um local específico para isso, que não pode ser usado por falta de conservação. Também estamos tentando implantar uma academia popular para a comunidade poder se exercitar de forma gratuita. Segurança – Queremos trabalhar pensando no futuro, investindo em projetos sociais para diminuir a criminalidade e a violência. Atualmente, temos vários projetos aqui na Brás, mas a associação realiza apenas aulas de Karatê. Nossa sede poderia ser utilizada de uma forma muito melhor. Por exemplo, estamos em contato com a prefeitura para conseguirmos monitores, que possam dar oficinas e ocupar o espaço da biblioteca e dos computadores.

Ruas mal conservadas / alagamentos – Trabalho no SEMAE, o que faz com que eu atue em dois momentos: posso ouvir e encaminhar as demandas da população, mas também vou trabalhar para auxiliar o problema. Algumas semanas atrás, estivemos aqui na vila realizando uma limpeza nas bocas de lobo, algo que não acontecia há muito tempo. Vamos tentar resolver os problemas desta área da melhor maneira possível. Iluminação pública – A associação está se colocando a disposição para centralizar esse tipo de demanda. Quem tiver problemas com iluminação, pode entrar em contato conosco, que vamos encaminhar isso e cobrar reparo rápido. Na próxima semana, a diretoria vai se dividir em dois grupos para verificar rua por rua onde estão os problemas atuais para encaminhá-los todos de uma vez. Associação – Temos como meta fazer uma “geral” da Associação. Nossa sede precisa de reformas com urgência. Pretendemos realizar melhorias estruturais e pintar todo o prédio. Já ganhamos de um empresário o material para realizar a adaptação dos banheiros. A capela também está na nossa lista de prioridades e deve passar por adequação o quanto antes.


Enfoque 139  
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