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Eu te desafio a me amar/ Organizadora: Diana Blok. Brasília: Instituto de Estudos Socioeconômicos, 2014. Vários autores. 128 páginas. ISBN 978-85-87386-33-5 1. Fotografias – 2. Direitos Humanos – 3. LGBT.


1ª Edição Brasília, 2014 Inesc


EU te desafio a me amar

EQUIPE INESC

prestadores de serviços:

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Concepção, fotografias e vídeo Diana Blok

Conselho Diretor Adriana de Carvalho B. Ramos Barreto Caetano Ernesto Pereira de Araújo Guacira Cesar de Oliveira Márcia Anita Sprandel Sérgio Haddad

Contabilidade LC Mangueira Contabilidade Prestadora Rosa Diná Gomes Ferreira

Curadoria Cinara Barbosa Coordenação geral Iara Pietricovsky Produção Executiva Silvana Meireles Assistentes de Produção Rollo (RJ) Gilmar Santos da Cunha – Conexão G (RJ) Designer gráfico Gabriel Menezes Designer expográfico Gustavo Goes – Domingo Arquitetura

Conselho Fiscal Silvia Ramos de Souza Armando Martinho Bardou Raggio Iliana Alves Canoff Suplente: Kelly Kotlinski Verdade Colegiado de Gestão Iara Pietricovsky de Oliveira José Antonio Moroni Coordenadora da Assessoria Política Nathalie Beghin

Editor de vídeo Carlos Henrique Siqueira

Gerente Financeiro-Administrativo e de Pessoal Maria Lúcia Jaime

Iluminação Dalton Camargos

Assistente do Colegiado de Gestão Ana Paula Felipe

Impressões Pictura Fine Art

Assessores(as) Políticos(as) Alessandra Cardoso Carmela Zigoni Cleomar Souza Manhas Márcia Hora Acioli

Cenotécnicos Afonso Fernandes de Sousa Adriano Nascimento de Andrade Comunicação Gisliene Hesse Renata Noiar

Auxiliares Administrativos Adalberto Vieira dos Santos Eugênia Christina Alves Ferreira Isabela Mara dos Santos da Silva

Revisão Paulo Castro

Estagiária Ana Júlia Barros Farias Zacks

Tradução Globo Traduções Beldan Sezan Diana Blok

Auxiliar de Serviços Gerais Josemar Vieira dos Santos

Conselho de Arte (Artistic Advice) Beldan Sezan Carlos Henrique Siqueiro Carmela Zigoni Cinara Barbosa Gê Orthof Iara Pietricovsky Lisandro Suriel

Vetorizados (para recorte)

Assistentes de Contabilidade Miria Thereza Brandão Consíglio Ricardo Santana da Silva

Assessoria de Comunicação Empresa Vértice Associada Gisliene Hesse – jornalista responsável Informática Leal Tecnologia Thiago Leal 01621751163 (Responsável) Leandro Pereira Rodrigues (Técnico) Apoio ao Inesc ActionAid Kindernothilfe Charles Stewart Mott Foundation Christian Aid Embaixada do Reino dos Países Baixos Fastenopfer Fundação Avina Fundação Ford International Budget Partnership (IBP) Instituto C&A Instituto Heinrich Böll Norwegian Church Aid Oxfam Pão para o Mundo: Serviço Protestante para o Desenvolvimento Institute for Research in Economics and Business Administration (SNF) Unicef World Wide Web Foundation. Inesc – Instituto de Estudos Socioeconômicos SCS, QD 01 Bloco L, 13º Andar, cobertura, Ed. Márcia. Brasília/DF – CEP: 70.307-900. Telefone: +55 (61) 3212-0200; E-mail: inesc@inesc.org.br; Página Eletrônica: www.inesc.org.br. Publicado no Brasil. Conteúdo disponível na Internet.

© Diana Blok, 2014. All rights reserved. No part of the contents of this book may be reproduced in any form, by print, photograph, microfilm, magnetic or digital data carriers or by any other public means, without prior written permission from the author. www.dianablok.com


Transformation, Surpassing time. Running through eyes wind Bringing on movement.  I transcend my feet And try to arrive In the traffic of clouds Roaming.   I start to weave The threads Of crossing Transformation. Blood overflows. Translation: Beldan Sezan


Transformação, Ultrapassagem do tempo. Transcorre nos olhos o vento Que traz o movimento. Transcendo meus pés E busco chegar No trânsito das nuvens Andanças. Começo a tecer Os fios da travessia Transformação. Sangue que transborda. Mariza Veloso


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Diana Blok

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”* Iara Pietricovsky José Antonio Moroni Colegiado de Gestão do Inesc

Em 2011, entramos em contato com o trabalho da fotógrafa Diana Blok. Naquele momento, ela estava fazendo um trabalho para o Festival Panorama, no Rio de Janeiro, dentro do eixo ComPosições Políticas. Sua missão era registrar e discutir as identidades de gênero a partir da população transexual do Rio de Janeiro. Corajosa decisão num contexto cultural, político e social bastante conservador e permeado por intensa violência. Este nosso Brasil varonil! Varonil ou covarde? E, ao entrarmos no universo artístico e fotográfico desta uruguaia/holandesa, percebemos o quanto este tema lhe era caro. Por isso, estar agora concentrando seu olhar para a temática trans fazia parte natural de uma trajetória mais densa de vida e de cosmovisão. Sua visão de mundo tem um refinado senso estético e profunda sensibilidade. Existe um exercício explícito e intenso de alteridade. Por isso, consegue em cada foto, ou filigranas de suas películas, mostrar o belo do outro, mostrar a alma do outro. Sua foto desnuda o fotografado e o humaniza a tal ponto que chega a incomodar, pois não permite passividade ou omissão. A fotógrafa nos convida a ver, reconhecer e ampliar seus valores de aceitação daqueles que são diferentes de mim/nós.

* Verso de Fernando Pessoa

Foi com essa mesma sensibilidade que produziu o seu trabalho na Turquia, com a população LGBT daquele país, desencadeando uma série de exposições, debates


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políticos e a publicação de um belo livro com as narrativas pessoais daqueles que aceitaram expor-se ao seu trabalho. Os resultados estéticos, artísticos e políticos nos estimularam a convidá-la a fazer o mesmo no Brasil. Uma conspiração (ou o destino) dos astros nos levou à Embaixada da Holanda, e por meio de seu embaixador, Kees Rade, e a Chefe de Assuntos Políticos, Imprensa e Cultura, Sara Cohen, que – tendo o tema LGBT como prioridade da política holandesa – nos provocou a enfrentar este debate no Brasil, aqui e agora.

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afirmação do Estado laico, assim como ao direito sexual e reprodutivo das mulheres, ao direito à identidade das pessoas LGBT, das populações negras e indígenas, entre muitos direitos ainda a serem conquistados no Brasil, ou, simplesmente, direitos parados num limbo recheado por violência e invisibilidade.

Aceitamos o desafio. Aliás, este é um debate bastante apropriado, na medida em que enfrentamos, desde o início desta década, uma grande movimentação da direita religiosa fundamentalista, que tem como uma de suas estratégias a ocupação dos espaços que tradicionalmente pertenceram aos grupos que lutam pelo avanço e pela radicalização dos direitos humanos no Brasil.

Infelizmente, o Uruguai não é aqui e seguimos no topo do ranking dos países mais conservadores e violentos do mundo, apesar da fama de felizes liberais. O mundo não conhece o Brasil profundo, a ponto de estranhar manifestações de insatisfação como as que ocorreram em junho de 2013 em várias cidades brasileiras. Mas o Brasil não é a 7ª economia do mundo? Mas não houve a inclusão de milhões de pessoas em políticas de transferência de renda? O que move os brasileiros a esta profunda insatisfação? Uma desigualdade profunda e resistente, padrões patriarcais, homofóbicos, machistas e racistas, que ainda permeiam as relações humanas.

O caso mais notório aconteceu na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, quando um pastor evangélico, homofóbico e racista assumiu a presidência do referido colegiado, em 2013, em decorrência de conjunturas políticas escusas, antiéticas e execráveis, revelando a existência de um lado obscuro do jogo político. Sem dúvida, uma escolha que representou um desserviço para a democracia brasileira e à

É daí que nasce o nosso encontro, da confluência dos ideais de luta do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) pela afirmação dos direitos humanos com a proposta estética e política impressa na fotografia de Diana Blok, nossa hermana uruguaia (país na vanguarda na América Latina), somada ao seu sangue holandês (outra vanguarda no mundo). Uma herança invejável que traz experiências de ponta em termos de afirmação dos direitos humanos.


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Para nós, do Inesc, tudo isso constitui um prazer e uma aprendizagem permanente. Tudo é muito mais profundo e complexo do que parece e há que se ter mente e coração abertos para pretendermos ser os arautos de um novo mundo, mais rico em humanidade, mais sustentável e de fato para todos e todas. Para nossa alegria, outros se somaram a esta batalha: a curadora Cinara Barbosa, o designer e editor das publicações Gabriel Menezes, o editor do filme documental Carlos Henrique Siqueira, o designer expográfico Gustavo Goes, o companheiro de tantas batalhas teatrais Dalton Camargos (na luz), a nossa produtora-executiva Silvana Meireles e a toda a equipe do Inesc, em especial: Carmela Zigoni e Cleomar Manhas, nossas assessoras políticas; Maria Lucia Jaime no setor financeiro; Gisliene Hesse, da comunicação; Márcia Acioli, com sua amorosa pedagogia e Nathalie Beghin, por todo apoio e suporte, que arregaçaram as mangas para esta realização ser linda e útil à nossa causa. Agradecemos ao companheiro eterno Guilherme Reis, que não pestanejou em assumir este projeto como algo fundamental, incorporando o tema na edição do Festival Internacional de Teatro de Brasília, em 2014, apesar de todas as dificuldades implicadas nesta escolha. Trouxe a fotógrafa para a realização do projeto “Adventures in Cross Casting”, em 2013, no qual trabalhou com os temas

Diana Blok

de gênero e identidade sexuais com atores e atrizes de Brasília e do Rio de Janeiro. Agradecemos também aos parceiros do Observatório de Favelas, em especial Raquel Willadino, Alexandre dos Santos Silva e Silvana Bahia; ao amigo e companheiro de muitas lutas pela transformação social e cultural de nosso planeta, Átila Roque, diretor da Anistia Internacional no Brasil; em especial, a Jandira Queirós e Alexandre Ciconello (este último ajudou nos primórdios do projeto quando ainda trabalhava no Inesc, em Brasília); a Nilcéia Freire e Aurélio Viana, da Fundação Ford, pelo apoio irrestrito à proposta, nos intermediando perante o International Institute of Education (IIE), dos EUA. Agradecemos a Nadine Gasman, Representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil, e Joana Chagas e Ana Carolina Querino, que compraram nossa briga imediatamente, assim como Joaquim Molina, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Para outras lindas pessoas que nos apoiaram em diferentes momentos, registramos nossa gratidão, tais como: Rollo, Denise Milfont, Israel Victor e Dyarlei Viana. Agradecemos, ainda, a todos e todas que aceitaram colocar sua face, sua voz e sua alma para a realização deste projeto, que não acaba aqui. É um projeto em movimento.


Apresentação

Por fim, agradecemos a Diana Blok, que largou sua vida na bela Amsterdam, por vários meses, para viver e registrar um pouco deste nosso Brasil, nem tão varonil (para nossa sorte!), e mostrar que somos muito mais ricos e felizes do que o mundo imagina, ainda que nos falte atravessar a feia fronteira dos preconceitos e reconhecer nossas infinitas identidades para que o direito à felicidade seja para todos e todas.

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A espera singular Cinara Barbosa Curadora

As operações interpretativas acerca dos regimes da imagem repercutem em torno de constatações das noções de fixação ou fluidez que sugerem. As imagens, portanto, teriam esse valor de reter o tempo, fixar o instante, capturar a realidade e imortalizar uma existência. Por outro lado, numa concepção da atualidade, consideramse justamente os limites dessa visualidade objetiva e, em contrapartida, a condição da captura como escorregadia, particularizada, o registro como expressivo e a presença do sujeito que sinaliza uma parcela desse dado de real. O trabalho da artista visual Diana Blok se insere entre as questões apontadas sobre o teor da produção das imagens, mas é possível perceber ainda uma acentuação dessa dinâmica. Trata-se de uma linha de atuação que chamarei aqui de trajetória da experiência da espera. A exposição Eu te desafio a me amar é um braço do trabalho de Diana Blok que parte da condição de ‘ativismo visual’ para discutir a identidade sexual no Brasil, a diversidade das relações afetivas e as questões de alteridade. Esta série, realizada nas cidades de Brasília (DF) e Rio de Janeiro (RJ), é uma composição de determinada realidade que vai se construindo à medida que a própria forma de representação se desenvolve pela perspectiva da artista e na prospecção de ser adensada pelo público. É neste sentido que podemos compreender ‘trajetória, experiência e expectação’ como exercício e método de


Apresentação

cumplicidade. A fotografia é essa ferramenta que extrai, joga luz e direciona o olhar para que se possa conhecer e perceber o potencialmente visível. A atenção constante, a espera cativante, a respiração compartilhada são aspectos da relação construída entre a artista e as pessoas retratadas e que, aqui apresentadas, estimulam-nos a perceber quais são os papéis e as responsabilidades assumidos por todos e cada um frente à vida plural. Coube à curadoria atuar no propósito da interlocução. Em uma exposição individual, a ‘curadoria interlocutiva’ tem como função agir para estimular o artista na organização do pensamento daquilo que, de alguma maneira, já está presente ou prescrito e, assim, aclarar as certezas e dirimir empecilhos conceituais, barganhas da seleção e problemáticas da concepção. Assim, sobre as plataformas que estavam de alguma forma latentes na composição do trabalho, indiquei segmentos de narrativas. O conjunto de imagens que abre o trabalho serve da ideia de apresentação da própria artista e pode ser tomado como um princípio da ‘trajetória da experiência da espera’, ou seja, dessa relação de cumplicidade e, ao mesmo tempo, de força da imagem construída. Temos ainda os dípticos ‘desafios’; imagens acerca da mitologia da beleza, mas não a concepção do padrão de belo, e sim o desejo, compatível com qualquer um de nós, no tratamento do embelezamento; as relações de casais e familiares; o bei-

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jo; e os aspectos da vida íntima. Na exposição, o segmento de nossos retratados foi pensado de forma a acentuar a leitura sobre a questão da alteridade e da relevância do entendimento sobre a interação e interdependência social com o outro, como a dizer: “você aí também sou eu; você é o outro; eu sou você”. A exposição é acompanhada de uma série de relatos em vídeo que sinalizam os desafios de existência na relação com o outro, ao mesmo tempo em que apontam para processos de identificação no compartilhamento de aspectos da vida comum da qual fazem parte a família, a intimidade da casa, o cotidiano, o trabalho, o cuidado com a beleza e os desejos de pertencimento. Desta maneira, sobressaem temas sobre a complexidade da mudança de corpo, a diversidade do princípio de gênero, a descoberta do sentimento de estranhamento pela não adequação aos comportamentos tidos como padrões de feminino e de masculino vigentes, a descoberta do desejo, o medo da violência, a hora de contar e a importância da família na luta pelo preconceito. Assim, Diana Blok se permite ser tanto aquela que pergunta, quanto também aquela que comenta: “Um corpo construído, digamos, a diferença entre um corpo construído e um corpo imaginário. Creio que há mais pessoas no mundo que estão vivendo um corpo imaginário e vendo a projeção em vez da construção”. Com isto, podemos compreender também as imagens como marcas da sutileza sensível de saber se colocar como outro.


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Diana Blok

Confissões do ser Diana Blok Brasilia 2014

Depois de concluir o projeto “See Through Us”, na Turquia, nutri em segredo a vontade de continuar este trabalho em algum lugar da América Latina, onde cresci. Explorar o assunto na Turquia me remeteu à minha juventude. Os preconceitos e discriminações com os quais lidei encontravam um forte eco na minha experiência pessoal. Na América Latina, estas experiências viriam a aproximarse ainda mais. Em 2013, encontrei a assessora cultural/política da Embaixada Holandesa, em Brasília, e fui chamada a trabalhar em um projeto semelhante: “See Through Us”, no Brasil. O motivo por trás disso era que a violência contra a população LGBT havia triplicado nos últimos quatro anos, um fato que eu ignorava por completo. Minha impressão dos “brasileiros” era de muita liberalidade física e que eles eram livres no corpo e na mente. Porque o corpo no Brasil é tão exposto, não poderia supor que existisse esse conservadorismo. As mulheres grávidas na Bahia andam nas ruas com as barrigas nuas e os homens se travestem no Carnaval. A bissexualidade parecia uma prática comum. O Brasil é um país imenso, rico e diverso, abrangendo um arco-íris de formas. Infelizmente, muitos parecem estar cegos para enxergar a beleza dessa diversidade. Escolhem por projetar uma visão preconceituosa e sentir que têm o direito de limitar a liberdade do outro com dispositivos legais, tabus e superstições.


Apresentação

Não havia modelos no local onde eu cresci. Mas foi apenas quando eu me mudei para Amsterdã em 1975 que eu me senti livre para explorar a minha própria identidade sexual. Paralelo a isso, descobri a fotografia como a minha ferramenta de exploração. Nesse momento eu estava pronta a me integrar completamente ao estilo de vida que buscava e ao ambiente circundante. A fotografia e a aceitação da diversidade sexual/de gênero apareceram juntas. Por meio do autoretrato e ideias cênicas em frente à câmera, comecei a descobrir minha verdadeira identidade. Essas fotografias espelhavam a minha própria psique. Refletindo sobre elas e tornando-as públicas, transformaram-se em chaves que me permitiram abrir portas ao mundo externo. Com o seu reconhecimento e aceitação como arte, podiam comunicar e estar autorizadas a existir. Portanto, eu também podia existir e continuar a explorar. Eu precisava das fotografias e elas precisavam de mim. Elas eram, e continuam a ser, uma testemunha do meu próprio processo de aceitação. Hoje em dia, reconheço esse processo como a minha “saída do armário” visual, que gradativamente fez-se translúcida, e que motivou o nome: “Ativismo Visual”. Foi o meu despertar. Por outro lado, meu intenção de despertar os outros permaneceu latente por muitos anos. Os encontros pessoais, que são elementos formadores deste projeto, abertamente revelam, histórias pessoais e confissões da trajetória de exploração das identidades sexuais. As consequências destes encontros revelam um país que parece ser extremamente conservador, o que contrasta

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com que eu originalmente pensava. Tive muita sorte de poder me deslocar livremente desde Palmares, Santa Cruz, região extremo oeste do Rio de Janeiro, à capital do país, Brasília, e suas comunidades remotas. Essas são as pessoas fora do confessionário, sem portas de madeira de interposição. Sendo uma adolescente de formação judaico-cristã, tinha o hábito de me confessar na igreja. Como não me sentia culpada, costumava inventar os meus pecados, resolvê-los e continuar com a minha vida. O que antes era um padre, agora é um espelho. Eu, como fotógrafa, tomei o seu lugar. A porta do confessionário desapareceu. Eu, a fotógrafa, tomei o seu lugar, refletindo o seu oposto. O biombo de madeira desapareceu. Entrelaçado com minhas próprias experiências ficamos inseparáveis. Como o sono está para noite e a escuridão está para a luz, nunca estamos sós. Sinto-me privilegiada por ter tido a oportunidade de encontrar tantas pessoas bonitas e corajosas no Brasil que saíram desse frágil armário. Agora estão abertas ao que realmente são. Têm uma voz e uma visão. Lutas de isolamento, confusão, solidão, dúvida, rejeição, separação, amor e ódio, tudo isso acompanha o processo de romper com as expectativas da mentalidade limitada de nossa sociedade. Devemos ter a liberdade de permanecer fiéis às nossas próprias individualidades, em cada etapa de nossas vidas. Minha mais genuína gratidão a todos os que depositaram em mim a confiança e pela oportunidade de compreender quem somos nós em um nível mais aprofundado. Obrigada à INESC por seu impecável apoio durante toda a jornada.


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my body is a battlefield my chest, my weapon my flesh, my shield my blood, my fuel my body is a battlefield i have made my heart my home my skin, a wall on my hands, a revolution. i am a metaphor in which words talk less in which eyes scream more my body is a battlefield my breath, a transgression i have made of my experience a windmill pulsating without permission i have made my destiny to all, refusal. i have made wanting into a tiny bird and those who do not want me will fly away my body is a battlefield my flesh, persistence i have made my skin a scar. my soul, resistance


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Meu corpo é um campo de batalha. meu peito, minha arma; minha carne, uma couraça; meu sangue, combustível. meu corpo é um campo de batalha. fiz do coração minha morada; de minha pele, uma muralha. nas mãos, revolução. fiz de mim metaforia. para que as palavras dissessem menos e os olhos gritassem mais. meu corpo é um campo de batalha. minha respiração, transgressão. de minha existência fiz moinho, pulsei sem permissão. de mim mesmo fiz destino. para todos, rejeição. do querer fiz passarinho, os que não me querem passarão. meu corpo é um campo de batalha. minha carne, insistência. de minha pele fiz cicatriz. de minha alma, resistência Marcelo Caetano


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Luana, travesti (Rio de Janeiro)

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Shaw, travesti (Rio de Janeiro)


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Transitiva Desde a adolescência, foi muito forte essa curiosidade e houve um certo investimento na construção da feminilidade. Mas eu mantive também, ao longo do tempo, essa convicção de não ser exatamente uma mulher. E havia nessa questão da feminilidade, um exercício de construção propriamente no qual eu montava e também retirava aqueles artifícios que me aproximavam de uma certa representação da mulher. E eu era mesmo, no corpo físico, muito andrógina e passei a conviver muito proximamente, ainda bastante jovem, com homossexuais. Eu parecia um menino e me montava de mulher, namorava homossexual... (...) Eu tenho predominantemente uma trajetória de envolvimento amoroso com homens. Nessa questão de trabalhar no enfrentamento da homofobia e com questões de travestis e trans ao longo destes anos em que trabalho com isso, as pessoas sempre me apontaram: “mas você é heterossexual, você não é transexual, você não é lésbica”. Foi com os estudos que eu consegui começar a me afirmar como sujeito de

gênero e sexualidade. Essa certa lógica de identidades sexuais não é uma coisa que me contempla muito, porque também afirmar que sou uma mulher heterossexual não responde à minha trajetória biográfica e seria muito simplista simplesmente me afirmar nesse lugar “identitário”. Ao mesmo tempo, não posso me afirmar lésbica, não sou uma travesti, não sou uma transexual, mas o modo como me sinto uma pessoa flexível. Talvez até no meu corpo físico eu tenha certa neutralidade, que me permite construir nas minhas expressões cotidianas, mesmo às vezes, uma masculinidade mais evidente; às vezes, uma feminilidade mais evidente; e eu me reconheço exatamente nessa fluidez, mas no Brasil, em termos de ativismo político, isso ainda é algo bastante invisível ou as pessoas não entendem essa posição propriamente como uma posição de uma expressão de gênero. Tatiana Lionço 37 anos, paranaense, pesquisadora acadêmica, doutora em Psicologia e ativista feminista. Mora em Brasília há 28 anos


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A procura Desde o jardim de infância, eu me reconhecia como menina, vivia como menina, mas eu gostava de coisas de menino. É meio complicado, porque eu pensava que todas as meninas tinham o mesmo corpo, o mesmo jeito que eu, e só depois que eu descobri que eu era diferente do que eu achava e levei um susto. Desde os seis anos de idade, eu me via como menina. Aos 11 anos, eu comecei a ter voz, a falar o que eu sentia, expor, botar para fora. Com 11 anos, eu comecei a me vestir do jeito como eu me via, do jeito como eu me sentia bem. Foi quando começaram os problemas familiares. Eu nasci numa família evangélica, cristã e, de acordo com a religião, existem coisas que não são aceitas. Com 11 anos, eu fui expulsa de casa, morei fora, tive que aprender a viver. Como eu não tinha ajuda, porque eu não sabia o que eu sentia e na minha família não havia ninguém que também sentisse o mesmo que eu, tentei procurar ajuda fora: procurei outras

meninas que eu via que eram iguais a mim e se sentiam iguais a mim. Eu não fui bem recebida nesse local, pois foi mais um local onde eu me senti excluída, tratada com indiferença, eu nem entendi isso. Eu me afastei dessas pessoas, me exclui também de um meio que luta pelo meu direito, direito deles, LGBT, pelo fato de ter sofrido preconceito dentro desse grupo. (...) Elas [travestis] trabalhavam na rua, faziam programas e, às vezes, elas me chamavam até mesmo de andrógina, elas não gostavam muito disso. Havia até uma que era meio engraçada: ela comentou comigo que elas lutam muito para parecerem mulheres e já as outras que são andróginas não precisam disso, porque já nasceram parecidas com mulheres. Dominique 18 anos, cabeleireira (Brasília)


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Múltiplos e fluidos: armários que caminham O adequado é o padrão, essa coisa que é um pouco da minha neurose de adaptação, sempre permeada por uma espécie de insurgência. Eu comecei a ver como isso se dava nos meus desejos. Esse conflito acontecia nos muitos sexos que eu tinha. Como é que havia uma vontade de me adaptar a um desejo padrão, um desejo hétero normalizado em conflito com outros desejos? Então, eu acho que aí comecei a entender que se tratava de uma disputa, sobretudo dentro de você, essa coisa de quem você é: todos os armários de onde você tem de sair e que são tão sofridos. É uma luta política com a qual você está em jogo. Na verdade, “os vários vocês”, todo o campo político das partes mais conservadoras dentro de mim. Existem também as partes menos conservadoras, mais sublevadas. Eu acho que ocorreram muitos começos, sempre um começo, não parou de haver um começo. O esquisito é bom enquanto ele é uma promessa que não sabe o que está prometendo, o fora do espaço, o que está fora de lugar. Então, eu descobri que existe todo um embrião tão estranho, tão complicado, tão delicado de uma solidariedade entre essas pessoas da margem, da esquisitice. Existe uma espécie de potência de “esquizerda”. Eu acho que essa minha atitude passou a ser dessa

potência. Eu lutei muito com todas as questões de identidade. Preferi abandoná-las e pensar mais em termos de confederação. Do travestismo na América Latina, do hermafroditismo original. Eu acho que, na medida em que a gente vai procurando a lucidez, vai destruindo a selvageria, a bebedeira, a entorpecência do sexo. Eu acho que essa maneira de viver que a gente tem, essas instituições, são heteropatriarcais, “cispatriarcais”, são além de transfóbicas, de homofóbicas e de todo o horror ao esquisito. Elas têm também horror ao hermafrodita. O hermafrodita foi extirpado, essa coisa de não poder, a normalização das pessoas em dois gêneros. O gênero enquanto generosidade, o gênero enquanto também proliferação, enquanto aquilo que gera, gera, gera, gera... Eu acho que isso é o que é interessante. Por isso é que a gente falava da pornografia “esquizotrans”, porque a pornografia gera desejo, faz o desejo, semeia o desejo, faz o desejo frutificar. No livro, a gente fala um pouco em implantar um “desejinho”. Isso era uma estratégia política: de repente, colocar uma flor para crescer no meio da Praça dos Três Poderes, que não tem absolutamente nada de verde.

O desejo é uma coisa que tem uma força muito grande. Eu dizia o seguinte um tempo atrás: se houvesse uma organização cujos militantes estivessem movidos pelo desejo que faz uma pessoa transexual viver do jeito que ela vive, a revolução aconteceria amanhã. (...) Na verdade, eu tive menos situações sociais familiares. Consegui ficar no armário. Eu acho que quem consegue ficar no armário recebe vantagens. O armário também é um privilégio: se você consegue ficar no armário na maior parte do tempo, aí você... Os cidadãos são todos armários, são todos “armariozinhos” andando por aí... Todas as coisas, todos os desejos que você já quis, que você simplesmente esconde ou você não deixa transparecer. Hilan Bensusan filósofo, professor e performer (Brasília)


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Rihanny, transexual (Rio)

Luana, travesti (Rio)

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Caixa de boneca No teatro, comecei com 21 para 22 anos, com o meu apelido de infância, que empurrou a minha carreira, porque eu era talentosa, eu era capaz, mas eu não acreditava em mim ainda, porque o universo do teatro era tão distante... As bichas que trabalhavam no teatro estavam lá em cima, e eu, aqui embaixo. Eu, travesti, fazia prostituição, comecei a me “hormonizar” com 13 anos, em 1973. Era proibido tomar hormônio. Aos 17 anos, em 1977, eu já era “hormonizadíssima”, e isso era uma realidade distante, porque eu saí de casa como travesti, prostituta e ladra. Na época, eu também roubava. Eu era marginal. Então, foi complicadíssimo para mim. (...) Aqui tem a Cleópatra, peito de silicone, aqui tudo deformado, um “mingau de araruta”, uma calça aqui, um bustiê, uma confusão no mercado, chama Luana, chama Luana... Ah, mãe, Luana mexeu comigo! Mas é claro! Eu não só mexia como eu te dava de pau, seu veado! Você botar essa araruta de sagu de mingau para fora, você não tem vergonha na cara, não? Isso é um atentado ao pudor, veado feio: vai botar uma roupa e volta aqui para a gente conversar! Foi com muito ódio: se vestiu e voltou, agora sim, tá. É isso aí: travesti é nada mais do que... A missão do travesti é a busca da perfeição, que é impossível. Nós vivemos buscando a perfeição. Chegamos bem perto, tanto que nos transformamos nessas heroínas de revistas em qua-

drinhos. Tem hora que você vê os travestis trabalhando. Você identifica a Tempestade dos X-Men, identifica Madonna, você identifica a Beyoncé. O travesti é uma invenção artística, é a busca, é o feminino no masculino, e elas não são os dois sexos que fazem um terceiro sexo, porque as pessoas não sabem lidar com isso. Veja bem: tem o homem, uma mulher, tem um garoto que ficou lá atrás, eu o adoro, porque foi por causa dele que eu nasci, eu sou exatamente a mulher que eu sempre quis ser e com tendência a melhorar mais. (...) No Gala Gay, a Monique me perguntou: “você mora onde?”. Eu falei: “dentro de uma caixa na Lapa”. “Você não mora na Itália, em Londres, em Paris?”. “Não, eu moro dentro de uma caixa”. “Por quê?”. “Eu sou uma boneca”. Agora, tem que saber lidar, tem que saber lidar com o homem que existe em mim, com a mulher que existe em mim, com a travesti que sou eu, e ainda existe uma gata animal. Antes das pessoas, ainda tenho meus travestis. Eu sou fã de travesti. Aí, eu sou solidária com os negros, sou solidária com os pobres. Voltamos lá atrás na discriminação: a sociedade discrimina tudo, a mulher... Como a mulher sofre ainda mais do que de 40 anos para cá, quando a mulher se emancipou! Luana Rio de Janeiro


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Camila, travesti (Rio)

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Katie, Josie e a mĂŁe Solange

Diana Blok

Josie, gay, prostituta (BrasĂ­lia)


Keity, travesti (BrasĂ­lia)

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Eu te desafio a me amar

Diana Blok

Diego, Palmares de Sta. Cruz (Rio)

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Carmela e Brunna (BrasĂ­lia)

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Tรกbata Rios, transexual (Rio)


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Apaixonar-se Eu acho que, para falar das primeiras experiências, sempre me assustou um pouco essa espécie de pressão em torno da gente para que a gente assuma a sexualidade. Fica mesmo parecendo que a gente fez algo errado, a gente usa isso, a palavra “assumir”, quando há um erro, um problema, um crime, como “assuma o que você fez”. Acredito que, para mim, eu nunca considerei o outro em termos como assumir, mas achei muito legal poder compartilhar com a minha família que eu estava apaixonada e que isso era retribuído, porque na primeira vez em que me apaixonei eu não fui correspondida. Na segunda vez, eu também não fui correspondida. Estive apaixonada por diferentes tipos de pessoas, mas – quando eu me apaixonei e recebi a retribuição desse amor ofertado – eu fiz questão de compartilhar em casa e que o outro era uma mulher. Outras tantas relações eu tive com rapazes interessantes, inteligentes, bonitos, mas foi muito especial eu ter encontrado essa moça. Compartilhei isso com a família e eu acho que, para mim, eu tive um momento de choque que eu acho que é o momento da consciência talvez, não por ela ser mulher, mas principalmente por saber que eu estava apaixonada, paixão mesmo, e depois pensar como isso vai ser apresentado para a família, com tradição cristã. A gente sabe que existe um histórico genocida de minha espécie, e eu quero sobreviver, quero viver o amor que me abraçou.

Para a gente foi muito triste também, por outro lado, perceber que essa contradição fundante da nossa sociedade está presente dentro da casa da gente, porque as nossas mães não compareceram ao nosso casamento, porque é um ato político confessar não só entre amigos e amigas o nosso amor, professar o nosso amor para as pessoas que a gente aprecia no mundo, mas dizer para a sociedade que eu cuido dela, que ela cuida de mim. E, nesse momento tão importante para nós, não contar com a presença das nossas mães, que estranhamente trouxeram essa notícia, cada uma ao seu modo e ao seu tempo, foi muito estranho, porque ambas nos recebem em suas casas com todo o carinho, com todo o amor. A mãe da Poli me recebe sempre muito bem: nós rimos muito juntas, nós nos divertimos juntas, da mesma maneira que a minha mãe com a Poli. Ela cutuca a Poli para mostrar as coisas e ri muito das coisas. Mas não compareceram para celebrar conosco e eu entendo o que é essa força histórica, essa religiosidade muitas vezes cega, porque não percebem o maior ensinamento de todo tipo de fé que conheci: os grandes ícones da fé falam de amor e falam de um amor delicado, gentil, um amor sensível, que recebe pela diferença, vide o perfil dos discípulos do Cristo, porque havia todo tipo de gente ali. Foi muito triste essa ausência delas, mas isso não matou a nossa alegria, a gente celebrou muito com as pessoas que compareceram.

Ellen Oléria Cantora e compositora, casada com Poliana Martin, poeta (Brasília)


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Comprometidos: Eduardo e Glauber [Edu]  A gente sempre teve uma criação muito aberta, muito sincera. Meus pais sempre tiveram amigos gays. No entanto, a gente cresceu no interior de São Paulo, onde existe um tabu muito grande. Obviamente, quando criança, eu sempre fui muito expressivo, muito teatral, como dizia minha mãe. Sempre desenhei, sempre mexi com roupas, sempre gostei de mexer com cabelo, todas essas coisas. As minhas habilidades sempre foram voltadas para esses tipos de coisas mais artísticas e, obviamente, no interior do Brasil, isso é associado com homossexualidade. Na escola, eu ouvia muito “Dudu alegrinho”, “Dudu frufru”, mas isso o meu pai sempre teve o cuidado de dizer: “meu filho, isso não tem nada a ver com homossexualidade”, mas tinha. Eu digo que sempre fui um heterossexual bem-sucedido até os 19 anos. Eu sempre tive namoradas, nunca tinha tido experiências homossexuais até os 19 anos. Sempre fiquei com meninas, namorei meninas. É um processo longo: em dez anos, muita coisa acontece. A gente teve três momentos em nossa relação: o primeiro momento, quando houve a beleza da descoberta, foi realmente... Foi quase cinematográfico! Em nosso primeiro encontro, a gente pegou a mão um do outro, e foi quando a gente admitiu. Eu falei: “Glauber, eu acho que está rolando alguma coisa”. Ele falou: “você tem certeza?”. Eu falei: “tenho”. A gente pegou a mão um do

outro e ficou de mãos dadas toda a madrugada, pensando em como aquilo era difícil. Depois, passou uma semana, a gente... Bom, está na hora de beijar. A gente se beijou, e eu não gostei do beijo por causa da barba. Achei que a barba incomodava. Eu até pensei: “eu acho que eu não gosto disso, não. Beijar meninos, não”. Mas o Glauber se envolveu muito, eu também me envolvi muito, e a gente começou a se encontrar secretamente. Depois, nós desenvolvemos uma relação da qual a gente não conseguiu mais fugir. Todas as nossas descobertas foram dentro do carro ou num apartamento vazio de algum amigo que viajou, e a gente tinha muito medo. Você tem medo de tudo: você tem medo da polícia, você tem medo do vizinho, você tem medo das pessoas que estão na rua, você pode levar um soco porque você gosta de alguém.

outros homens. Eu acho que esse desejo foi muito mais forte do que todos os filtros morais e religiosos que eu tinha do meu passado. Eu me lembro de uma frase da minha avó, a mãe do meu pai, que marcou bastante essa passagem da aceitação da família, porque eu nunca tinha conversado com ela sobre o assunto, nunca tinha contado nada para ela. Nem com meu pai eu nunca tinha conversado sobre isso, da mesma forma que nunca conversei até hoje. Mas ela já sabe e já trata o Eduardo como meu companheiro, mas a gente nunca chegou a ter essa conversa. Um dia, eu estava me despedindo da minha avó, eu estava na casa dela, e ela falou: “Meu filho, volte sempre e, quando voltar, pode trazer ele”. Ela não falou mais nada. Eduardo Ator, fashion designer e maquiador

[Glauber]  Eu já sabia que o meu desejo era por outros homens e não por mulheres. Desde criança eu manifestava isso. Eu trocava carícias com outras crianças do mesmo sexo de maneira bastante infantil, enfim, ficaram marcas desses momentos, eu me lembro disso. Eu comecei a abrir espaço para esse desejo acontecer dentro de mim, e isso foi muito natural. É engraçado porque não foi um processo de sofrimento, porque eu comecei a ter muita vontade de ficar com outros homens, de beijar as bocas de outros homens, de tocar

Glauber Pesquisador de teatro (Brasília)


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Compreender é libertar-se Sim, quando eu era criança, adolescente, na escola, quando eu estava com a família, vivi momentos muito difíceis na infância, na adolescência, no início da fase adulta. Eu passei por um longo processo para me estruturar psicologicamente e para aceitar a minha natureza. Eu acabei introjetando o preconceito social, familiar. Eu mesmo acabei assumindo o preconceito para mim e achava que a homossexualidade era uma coisa errada. Recentemente, ocorreu até essa votação do que eles chamam de “cura gay”. Durante certo período da minha vida, eu até tentei passar por uma cura gay, porque eu achava que isso não fazia parte da natureza. As informações que eu tinha na época não eram das melhores. Eu venho de uma família muito católica, muito religiosa. Com base no que eu tinha aprendido até então, eu achava que não era certo o que eu vivenciava. Eu não conseguia me espelhar em ninguém, não tinha muitas referências. Eu sofri muito! Com o passar do tempo foi que eu fui obrigado, por questão de sobrevivência, a pesquisar, a me

pesquisar, conhecer. Eu fui obrigado a compreender Deus e a religião de outra forma, porque na época eu não cabia dentro da religião que me era oferecida. Eu não tinha muita escolha. Realmente, eu precisei me afastar dos meus laços familiares, precisei procurar mesmo outro contexto para entender a vida de uma outra forma. Isso para mim foi essencial, porque foi uma libertação. Realmente, pude me ver, ver a Deus, ver o mundo de uma outra forma, que me possibilitou sair daquele espaço de conflito interno que eu tinha. Isso foi uma grande libertação. Hoje em dia, consigo perceber a perfeição não só em mim, eu como pessoa, perfeição da alma, do ser gay, do ser homossexual além dos estereótipos, existir, ser uma pessoa integrada dentro do que sou, e tenho uma relação maravilhosa com o Gavin. Hoje em dia, eu sou um ser humano feliz. Antonio Henrique Paiva de Sousa Designer de joias

Gavin Louis Bailarino e yogi. Casados há 17 anos (Brasília)


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Comprometidas: Letícia e Kátia [Letícia]  De qualquer forma, as dificuldades são boas para a gente aprender na vida. Minha avó, que me acolheu, era mãe da minha mãe. A gente jamais conversou sobre isso, mas ela sempre esteve do meu lado, silenciosamente, mas esteve. Foi uma coisa muito bonita, desculpe, tanto que, quando ela morreu, eu fiquei super triste, porque ela foi muito importante. Se ela não tivesse me acolhido naquele momento, talvez eu tivesse ido morar na rua. [Kátia]  Na verdade, eu nunca tive muito forte a distinção de gênero: menina, menino. Eu vivia jogando futebol, bola, bolita no meio da rua, no interior, de shortinho, sem camisa, cabelo curto. Não tinha realmente nenhuma preocupação, e os meus pais não tiveram nunca nenhuma preocupação nessa questão de representar um modelo, a menina, a filhinha bonitinha, simplesmente não havia isso. A primeira vez em que entrei em um bar gay foi com 16 anos. Eu achei muito engraçado e estranho entrar num lugar e ver duas meninas de mãos dadas subindo a escada. Naquela época, eu conheci uma menina cinco anos mais velha. Ela tinha 21 e a gente começou a namorar. Ficamos quase dois

anos juntas naturalmente. Foi minha primeira transa, foi tudo com menina, direto. (...) O advogado que agora, por acaso, trabalha na Secretaria Nacional de Direitos Humanos [Gustavo Bernardes], na época, nos perguntou: “vocês querem recorrer ao STJ [Superior Tribunal de Justiça]?”. A gente falou: “sim”, porque deu uma raiva, aquela coisa de sentir o Estado. Foi a primeira vez em que eu me senti sendo tratada diferente. Passaram-se três anos. Esse processo foi julgado em outubro de 2011, aqui [em Brasília]. Nós tínhamos vindo morar em Brasília recentemente e nós ganhamos a causa no STJ. Naquela época, era muito difícil duas pessoas do mesmo sexo se casarem. Esse nosso processo abriu muito a possibilidade jurídica de se fazer isso, porque na verdade todos os ministros votaram a favor e deram votos muito bonitos. Letícia Jornalista

Kátia Designer (Brasília)


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Lam, transexual, e Daniele (BrasĂ­lia).

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Sérgio e Rafael (Brasília)


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Diana Blok


Cris , Alessandra e Rafael (Rio)

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Eu te desafio a me amar

Paulo Pr贸spero e o filho Paulo (Rio)

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Akila e Gabriel (BrasĂ­lia)

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Eu te desafio a me amar

Ana Carolina e a mĂŁe Ana Maria (BrasĂ­lia)

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Negra, lésbica e anarcofeminista: construindo identidades Eu sempre tive uma combatividade grande, sempre gostei de trabalhar com a possibilidade de construir um mundo melhor, mais justo, mais igualitário. Por isso, me envolvi com os movimentos sociais, principalmente com o movimento feminista, do qual eu faço parte – eu sou anarcofeminista –, e também com o movimento hip hop, que anteriormente era um movimento muito machista. Nós trabalhávamos todas as questões de gênero dentro desse movimento, porque antes só homens podiam cantar, só homens podiam grafitar, só homens podiam produzir para esse movimento. Nós, mulheres, começamos com esta luta. Eu me identifiquei muito com tudo isso: tive toda uma construção política dessa questão e, no auge da juventude, hormônios à flor da pele, me identifiquei muito com as lutas sociais, sejam elas relacionadas a classe, sejam relacionadas a gênero, a identidades culturais. A partir daí, foi a minha mola propulsora dentro desse processo todo. Foi um processo muito doloroso: eu fui construindo a minha identidade também muito calcada na minha base familiar. Existe toda uma história ancestral da cultura negra: os meus avós maternos eram negros e a minha mãe, principalmente, teve toda essa construção de identidade comigo, seja no samba, seja nas lojas (porque nós, muitas vezes, fomos discriminadas por sermos mulheres negras e aquilo me deixava muito inconformada: eu sentia necessidade de procurar uma

profissão em que eu pudesse pautar essas questões). Você não descobre a sua identidade de gênero, você vive isso, porque ela está nos seus poros. Sempre fui muito questionadora em relação aos padrões hegemônicos que nos colocam. Eu fico brincando da seguinte forma: eu adoro tudo o que foge da normalidade, até mesmo porque eu não acredito que essa normalidade exista, pois a nossa identidade é uma construção social. (...) Estamos casadas há 9 anos. Assumi a minha identidade não só de mulher negra, mas de mulher lésbica, muito confrontante a tudo isso, por ser um papel social tão estigmatizado frente a uma sociedade machista, misógina, sexista. Era um combo de várias situações. Fui me construindo dentro do movimento lésbico-feminista e hoje me sinto uma mulher realizada dentro da minha possibilidade. Eu vi que as violências partiam muito mais da sociedade brasileira, dos locais que eu frequentava, principalmente na universidade. A universidade ainda é um local discriminatório, onde existe muita homofobia. Não sei se eu teria conseguido vencer tantas crueldades – que é uma forma muito maquiada e velada que a sociedade nos impõe, seja de uma heterossexualidade compulsória, seja de uma norma ou um padrão. Eu fico até emocionada de falar como foi importante a minha trajetória, porque eu não seria o que sou hoje se não tivesse o apoio da minha família. (...)


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Mãe e filhas É muito importante trazer uma fala das identidades de gênero, seja de uma travesti, uma mulher transexual ou um homem transexual. É algo irrestrito e ela pertence tão somente àquela pessoa. Quem somos nós para querer questionar a orientação sexual de outra pessoa? Porque existe outro universo que tem uma série de possibilidades. Negar isso beira ao fascismo, um fascismo de você querer controlar um corpo que não é o seu. Atualmente, acredito que deveríamos trabalhar com a possibilidade de que as pessoas sejam realmente livres. Existem reforços dos artigos: o feminino, o masculino. Se a construção da sexualidade fosse mais livre, se não houvesse imposição para você ser uma pessoa heterossexual, será que não teríamos mais possibilidades, não teríamos avançado, por exemplo, na luta das trans com todo esse sofrimento? Ela olha no espelho e não se reconhece. Aí, tem de trabalhar com todos esses preconceitos para além dela, para além da condição humana de ela existir? Anna Carolina da Silva Silvério 30 anos, Especialista em Assistência Social (Brasília)

Quando a mãe ama verdadeiramente as suas filhas, ela aceita. Nunca vi problema nisso, porque eu aceitei tranquila. Quando falei com o meu esposo, ele ficou um pouco receoso, e passou a amar. Hoje em dia, posso dizer que tenho duas filhas, porque aumentou mais uma filha na minha vida, que é a Cíntia. Eu a amo e respeito. Se precisar de mim a qualquer hora, a qualquer momento, estou pronta para servir, porque a mãe abraça a causa, a mãe não vê sexo. Só tenho a dizer que amo demais a minha filha. Hoje em dia, não pela posição que ela tem no serviço dela, mas por ela ser minha filha, eu me orgulho de dizer isso para todo mundo. Ana Maria Silva Silvério Psicóloga, mãe de Anna Carolina


Luiza, travesti (Rio)

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Bianca , transexual (BrasĂ­lia)

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Eu te desafio a me amar

Allice Bom Bom, Drag Queen (Brasília)

Luana Alias “Morgana Intersex” (Brasília)

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Carol, transexual (BrasĂ­lia)

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Metade homem, metade mulher Então, eu tentei descobrir o meu corpo em duas partes: superior e inferior. Na primeira parte, se sentir como uma mulher; na segunda, se sentir como um homem. Refletindo sobre isso, era como as pessoas olhavam para mim, não como eu mesmo me olhava. Então, essa questão não foi resolvida para mim. Na verdade, “homem” e “mulher” não são palavras reais para descrever um ser humano no mundo. Desde que eu era criança, as pessoas nunca reconheceram o meu gênero. Na verdade, eu nunca tive uma identidade de gênero para mim mesmo. Ricco Garcia Bailarino (Rio de Janeiro)

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Diana Blok

Junior, Palmares de Sta. Cruz (Rio)

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Alessandra, Palmares de Sta. Cruz (Rio)

Gilmara, Complexo da MarĂŠ (Rio)

Mauro Lima, Palmares de Sta. Cruz (Rio)


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Eu te desafio a me amar

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Marceli, travesti, Comunidade do Borel (Rio)


Carla da Silva, transexual, Comunidade do Borel (Rio)

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Desenho de Carla da Silva, 70 Eu te desafio a me amar Professora na Comunidade do Borel (Rio)

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Jéssica, Complexo da Maré (Rio)

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Otílio, Complexo da Maré (Rio)

Ágatha, travesti, Complexo da Maré (Rio)


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Catarina, Morro dos Prazeres (Rio)

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Felipe, Comunidade do Borel (Rio)


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Ninguém está só Moro na comunidade há 12 anos. Minha naturalidade é do Nordeste, sou da Paraíba. Morava numa aldeia alternativa. A minha história é um pouco complicada porque eu tenho altos e baixos, tenho muitos cacos, muitas pedras, muitos espinhos, mas também tenho muitas flores, muitas rosas. Já estou no Rio de Janeiro há 16 anos. Morei um tempo na [rua] Voluntários da Pátria, em Botafogo. Vim trabalhar aqui na comunidade por um projeto social do governo. Eu me apaixonei pela liberdade e fiquei aqui. Estou até hoje aqui porque eu gosto de liberdade. Sou como uma águia: gosto de voar. Quando vou buscar minha presa, já era: eu sou superextrovertido, sou feliz da vida, eu acho que não tenho que ter ninguém do meu lado para me fazer feliz, porque eu é que tenho que ser feliz.

soas veem a imagem do gay como a de uma pessoa que não tem caráter, pessoa negativa... A gente tem que mudar esse estereótipo, porque não é bem assim. Com o tempo, a minha família se acostumou e, com isso, eu passei essa imagem de que eu não era uma pessoa de outro planeta, que eu era deste planeta, porque está todo mundo junto, estamos juntos nisso. Comecei a dar aula lá numa escolinha como professor. Todo mundo me respeitava. Tive o primeiro namorado aos 14 anos de idade. Ficamos 8 anos juntos. Todo mundo da comunidade sabia disso e respeitava.

Eu me descobri homossexual aos 12 anos de idade. Na minha aldeia, onde eu morava, lá todo mundo era heterossexual. Eu comecei a ler, eu era o cara mais intelectual da área, estudava para caramba, sempre me informando. Então, um dia, falei para o meu pai que eu era gay. Meu pai ficou louco, queria me... Nossa Senhora! Ele perguntou: “o que é gay, ser gay?”. Eu falei: “pai, gay quer dizer que você gosta de uma pessoa do mesmo sexo”. E ele: “o quê?!”.

Estou aqui há 12 anos. Gosto muito desta comunidade. Tenho uma relação muito íntima com as pessoas daqui. Todo mundo me conhece desde criança. Até senhores de idade têm um certo respeito por mim. Todo mundo sabe da minha opção sexual. Eu me casei, vim morar aqui, conheci meu namorado aqui na comunidade. Ele é pagodeiro e, vira e mexe, fazia pagode pela escada. Depois, a gente se separou e, hoje, estou sozinho, estou comigo mesmo, mas ninguém está só: você tem que entender que você está sempre com você mesmo. Isto é que é importante: você se amar. Isso para mim foi a base.

Todo gay, para mim, é homem. Ser macho é uma coisa, ser homem é bem diferente: é você ter caráter, as pes-

Minha mãe me deu uma base de ser humano muito no sentido de eu me encontrar comigo mesmo. Eu tive muito

contato com a natureza: nadei descalço, tomei banho de chuva, tomei banho de riacho, eu caí na terra, eu trabalhei muito com a terra, a terra me deu e eu devolvia tudo para ela. Então, isso para mim me fez ser um ser humano rico. Meu maior sonho é ser rico, ter muito dinheiro, porque na verdade, vamos ser sinceros, o que move o mundo é o dinheiro, infelizmente. É absurda essa percepção das pessoas burras que têm dinheiro, pessoas que querem ser o “máximo”. Ninguém é o máximo. Você caga, mija e morre. Todo mundo é igual merda. Estamos aqui para viver, viver uma experiência nova e diferente. As pessoas que têm a oportunidade de ter uma experiência legal se acham o máximo, mas ninguém se acha um deus, ninguém é o Criador, porque o Criador é o Criador. Você é a cria e tem que respeitar. Carlos Cabeleireiro, Morro Dona Marta (Rio de Janeiro)


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Ele é casado Hoje moro sozinho, mas tenho uma pessoa que comigo é muito bacana. Ele é uma pessoa muito gostosa, só que ele é casado. Em conversa com ele, eu sinto que, às vezes, no fundo, no fundo, ele é casado, bem casado, mas ele na realidade não é tão realizado, porque acho que ele se realiza mesmo é comigo. Parece meio louco, mas é a realidade. Só isso, não tem mais, é mais ou menos por aí, é uma coisa meio estranha, porque não tenho como explicar por que ele se mantém casado e me procura. Às vezes, tem hora que eu me acho um

pouco sozinho, porque a melhor parte mesmo eu não vou ter, os melhores dias não vou poder estar com ele. Em compensação, não tenho que lavar roupa, não tenho que fazer nada, não tenho que cozinhar nada, o melhor mesmo eu acredito que fica comigo, não do ponto de vista financeiro, porque ele não me deu o cartão de crédito dele nem a senha. Jair 42 anos, cabeleireiro, Morro Dona Marta (Rio de Janeiro)


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Não é bagunça Uma coisa que eu sempre soube fazer é me impor, não é porque eu sou gay que eu sou bagunça. Então, sempre me portei: eu sempre tive o comportamento de gay, mas masculino. Ali eu era um soldado do Exército brasileiro, ali eu estava cumprindo o meu papel com o meu País. Eu sempre soube dividir as coisas. Eu não tive problemas no Exército, nunca tive. Preconceito, nunca sofri. Eu tive problemas como todo cidadão comum tem, isso é natural. (...) Eu tinha 18 anos. Eu contei para a minha mãe a minha opção sexual quando estava no Exército, porque eu tinha um namoradinho. Eu lembro: eu fui um bom tempo incubado como todo gay foi, não vem dizer que não. No começo, ele se esconde. Eu acho isso um erro. Quando você se descobre quem você é, você não tem que se esconder por medo da sociedade, porque a sociedade não é nada comparada à sua felicidade, ao seu bem-estar físico e mental. As pessoas têm que ter a consciência de que se você é gay ou se você é lésbica ou se você é bissexual, se você é transgênero, transexual, para mim é tudo a mesma coisa. Gay é gay. Temos os mesmos direitos que um hétero tem,

até porque o dinheiro que o hétero ganha é o mesmo que eu ganho. Eu tinha um namoradinho e falei isso para a minha mãe. É meu amigo, meu colega, a gente jogava futebol e o menino ia sempre à minha casa. Quando eu estava servindo no quartel, ele ia para a minha casa e dormia no meu quarto. Aquilo chamou a atenção da minha mãe, que a nossa amizade era muito... Minha mãe perguntou uma vez para mim: “o José é gay?”. Eu falei: “não, mãe, gay sou eu”. Eu fui seco, objetivo e direto. Tivemos os conflitos, até porque, no começo, a minha mãe não soube entender a situação como todo ser humano, porque o ser humano, na verdade, às vezes, se torna preconceituoso porque não conhece o outro lado e nem se dá a oportunidade de conhecer. Se esses homofóbicos que existem conhecessem realmente o gay... (...) Até uns anos atrás, eu pedi engajamento, mas eu não consegui, porque não abriu vaga. Eu era um excelente soldado. No meu batalhão, eu era um dos melhores. Eu era um exemplo de soldado, sempre bem arrumado, sempre bem trajado. Eu cumpria meus horários, nunca me atrasava, eu

era do rancho. Por eu ser do rancho, eu sempre fui um soldado especial: eu sempre fiz curso de cozinheiro, bolos, doces, salgados... Eu sempre fazia a festa para o pessoal, e o pessoal gostava do meu serviço. Então, eu era o “queridinho”. Fui um soldado exemplar. Eu não me engajei foi por causa da vaga que não surgiu. (...) Quando eu vim para cá para morar, eu vim de uma área de outra facção. Passou uma obra da Linha Amarela, vocês devem saber, aí jogaram todo mundo aqui no Complexo do Alemão, e a minha família veio para cá. Quando cheguei aqui ao Complexo do Alemão há 20 anos, eu me deparei com uma triste realidade, em que o homossexual neste lugar era um X9, um estuprador. O gay era a mesma coisa. Eu vi muitos relatos de violência. Existem pessoas que são hipócritas, falam que nunca passaram por isso, mas eu falo a verdade, falo a verdade: eu presenciei, sim, muitas cenas de violência. Eu vi gay sendo maltratado, eu vi gay sendo espancado, eu vi mesmo, por que eu não vou falar? Luiz Moura Complexo do Alemão (Rio de Janeiro)


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Eu te desafio a me amar Desde os 8 anos, na verdade, que eu sei que eu sinto atração afetiva sexual por mulheres. Desde os 8 anos. Nunca me identifiquei como uma mulher lésbica, porque realmente não fazia sentido, mas sempre me relacionei com mulheres. É uma situação bastante difícil, que me traz bastante desconforto em vários momentos. Nunca sei se eu preciso ou se devo contar para a mulher que eu sou transexual ou se ela já sabe ou, se ela souber, o que ela vai fazer, se ela vai querer estar comigo mesmo sabendo que eu sou transexual. Muitas mulheres lésbicas se interessam por mim, o que para mim é um problema, porque para mim é um apontamento

de que talvez as pessoas não estejam me vendo enquanto homem. Isso me incomoda bastante. Eu acho que eu nunca tive um relacionamento mesmo com uma mulher que fosse exclusivamente heterossexual. Eu simplesmente não sabia mesmo que a transexualidade existia. Dentro da minha linguagem, isso não existia. Não sabia que era uma possibilidade pertencer a outro gênero que não correspondia àquele que disseram que você tinha quando você nasceu. Marcelo Caetano 23 anos, estudante de Ciência Política na UnB, poeta


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Alcione Star, travesti (Rio). In Memoriam

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Roberta Brand達o , transexual (Rio)

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Thalita, travesti, mĂŁe de santo (BrasĂ­lia)

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Elba, travesti (Rio)

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Natal Eu contei no Natal, que é a data preferida para “sair do armário”. Eu tomei umas cervejas e tive uma conversa com a minha mãe e a minha irmã. Eu contei e cheguei a pensar em suicídio em alguns momentos, porque achava: “Nossa, isso não é normal, eu não sou uma pessoa normal”. Aí, quando eu era adolescente, cheguei a pensar em suicídio. Eu pensei: “Antes de tomar qualquer atitude drástica, eu vou contar. Vamos ver como vai ser”. Foi difícil para a minha mãe. A minha irmã me contou depois que teve

um alívio muito grande, porque ela sempre desconfiou, mas se sentia culpada por achar que eu era. E, aos poucos, eu e minha mãe fomos nos reaproximando, a ponto de hoje minha mãe ser militante pelos direitos LGBT. Hoje, ela atende muitas mães que têm dificuldade para entender ou aceitar a orientação sexual dos seus filhos. Ela atende, liga, fala ao telefone, vai às paradas gays. Ela vai para todas as paradas. Ela tem uma camiseta com a seguinte inscrição: “Tenho orgulho do meu filho gay”.

A população LGBT representa uma ameaça à masculinidade; por isso, os pais têm mais dificuldade de aceitar os filhos do que as mães. Justamente por causa dessa ameaça à masculinidade é que ela precisa ser reprimida, precisa ser enfrentada e, muitas vezes, extinta. Matar aquela ameaça é muito triste, porque isso tem a ver com uma sociedade extremamente machista. Gustavo Bernardes, Advogado, Coordenador-geral de Promoção dos Direitos LGBT da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República-SDH (Brasília)


Ludymila, transexual (BrasĂ­lia)

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Rafael Puetter “Rafucko” (Rio)

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Yasmin, travesti (Rio)

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Oxumaré e outros milagres Eu era uma criança que já sofria o problema da pobreza, da miséria, da fome, do trabalho infantil precoce. E, além disso, eu sofria também a violência, porque eu era uma criança diferente. O meu comportamento não me colocava dentro do papel social que se espera de um garoto ou dentro de uma identidade de gênero dos papéis atribuídos a uma identidade de gênero, que é a identidade de gênero ‘masculino’. Eu era um garoto que gostava de coisas de menina. Digamos assim: eu gostava de boneca, eu gostava de desenhar, eu gostava de dançar, de cantar, das coisas que normalmente não são atribuídas aos meninos, mas às meninas. Por isso, eu sofria muitos insultos, muitas injúrias, ofensas, o que a gente chama hoje de bullying, tanto na escola quanto em casa. Desde muito cedo, eu aprendi que o mundo não era simpático, amoroso, acolhedor com pessoas diferentes e diferentes como eu.

Quando entrei na adolescência, eu comecei a ter consciência dos meus desejos como todo adolescente. Eu comecei a sentir desejo, sentir afeto, e eu vi que o meu afeto se dirigia, se orientava para pessoas do mesmo gênero, para os garotos, mais para os garotos do que para as garotas. Aí, eu fui tendo consciência disso, e como eu trabalhava no movimento da Pastoral da Igreja Católica, eu pude ter uma consciência muito cedo dessa orientação sexual e de como essa orientação me tornava alvo de discriminação: aí está o berço da minha consciência política e do meu ativismo. Eu comecei um ativismo LGBT muito novo, ainda muito jovem, ainda na adolescência. Eu ainda não chamava de ativismo LGBT, porque para mim ele não tinha esse nome ainda. Na cidade onde nasci, não havia um movimento gay organizado, mas existiam pessoas homossexuais muito politizadas que eu conheci na igreja, no movimento da Pastoral. (...)

Com mais ou menos 11 anos, eu ingressei no movimento da Pastoral, da Igreja Católica, uma igreja orientada pela Teologia da Libertação. Nesse movimento, eu fui participando de atividades da igreja, da Pastoral da Juventude Estudantil, da Pastoral da Juventude do Meio Popular, e a igreja me deu uma consciência das injustiças sociais, das injustiças do mundo, e essa consciência me levou a ter consciência da injustiça de que eu mesmo era vítima.

Quando eu concluí o meu mestrado, eu decidi estudar um programa de televisão que estava fazendo muito sucesso no Brasil, e no mundo de certa forma, que é o Big Brother. Eu era um cara da comunicação, tinha estudado cultura de massa e me inscrevi nesse programa para fazer uma espécie de etnografia. Eu fui selecionado e, para a minha surpresa, eu venci a edição de que participei e me tornei uma pessoa famosa no Brasil inteiro. Antes, eu era um jornalista de prestígio na


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Bahia, premiado com trabalho social e engajado no ativismo LGBT e pelos direitos humanos. Com a experiência no programa, eu me tornei uma pessoa famosa. Aí, eu tinha um desafio na mão, que era colocar minha vida de novo nos trilhos, porque o programa tirou minha vida dos trilhos, mas – ao mesmo tempo – me deu um legado, o legado da fama, o legado da popularidade, e eu pensei comigo mesmo: “Eu preciso reunir esse legado a uma vida anterior, porque eu não vim ao mundo para ser uma celebridade instantânea nem para viver no ciclo das celebridades. O meu lugar no mundo é um lugar da transformação, mesmo”. Eu sempre tive consciência disso e eu consegui juntar esses dois legados com a candidatura. Eu me candidatei. Eu falei: “Vou aproveitar a popularidade, a história de ativismo” e me tornei o primeiro deputado homossexual assumido da história da República brasileira e que toca essa bandeira dos direitos humanos de minorias. (...) A minha avó, mãe do meu pai, Rosa Ferreira de Miranda, que já morreu, era uma zeladora de santo, a gente chama de rezadeira: ela rezava. A minha mãe teve uma formação católica. Como eu tinha problemas desde muito cedo com meu pai por causa da questão do alcoolismo, minha mãe nos colocou na igreja. A Igreja Católica me deu uma formação muito boa, me deu as primeiras noções de comunismo, não no sentido político da palavra comunismo, mas no sentido

cristão de partilhar, de ter as coisas em comum, de se preocupar com o outro, com a dor do outro. A igreja introjetou em mim uma primeira ‘desidentificação’ comigo. (...) Feita a passagem da vergonha para o orgulho, mesmo tendo saído do armário e celebrado o orgulho de ser gay, algo aqui em mim ainda perdurava dessa culpa que a igreja introjeta. Quando me dei conta disso e me afastei da igreja na minha adolescência, entrei no colégio interno. Eu também me dei conta de que eu não podia viver num deserto de crença, e eu encontrei nas religiões de matriz africana esse lugar onde eu poderia sair do deserto de crença. Nas religiões de matriz africana, o Candomblé em especial, o que a gente chama de religião dos orixás e os Orixás, essas entidades, são forças da natureza que animam a natureza. Os orixás veem as energias da vida, o sexo... A própria sexualidade é considerada um orixá, como a água, como os ventos, como a doença, como a saúde, como a fartura, a velhice, a infância, tudo isso, essas fases da vida, essas manifestações, essas forças da natureza são tidas como entidades divinas, são divinizadas no candomblé. O Candomblé e as religiões de matriz africana de maneira geral são muito tolerantes com a homossexualidade. Há um orixá chamado Oxumaré, que é um orixá que traz em si essas duas energias de feminilidade e masculinidade. O símbolo do Oxumaré


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é o arco-íris, que coincidentemente é o símbolo do movimento LGBT. O Candomblé sempre foi uma religião inclusiva. Não por acaso, muitos pais de santo são homossexuais, embora, claro, essas pessoas também do candomblé tenham uma educação majoritária e hegemonicamente cristã. Então, também dentro dos terreiros, mesmo havendo pais de santo homossexuais, pode haver alguma intolerância, alguma homofobia. Você vê isso bem menos. É mais comum você ver mulheres e homens se submetendo à autoridade de um babalorixá que é homossexual, isso porque o Candomblé é uma religião muito mais inclusiva. Eu acho que, até mesmo por isso, elas sofrem muita perseguição, muita difamação. O fundamentalismo cristão no Brasil, tanto o fundamentalismo cristão católico quanto o fundamentalismo cristão evangélico, ambos concordam na difamação e na perseguição da comunidade LGBT e dos adeptos de religiões de matriz africana. Existe um dado histórico curioso no Brasil: quem viabilizou no texto da Constituição Federal brasileira o dispositivo que garantiu a liberdade de crença foi Jorge Amado, que era um escritor baiano, comunista, ateu, mas que sempre enxergou nas religiões de matriz africana, no Candomblé, uma resistência contra o opressor europeu branco que colonizou nosso País. Jorge Amado sempre viu isso. Por outro lado, também os

terreiros de candomblé na Bahia serviram de abrigo e de esconderijo para muitos comunistas quando o Partido Comunista era clandestino no Brasil. O Estado brasileiro perseguia os comunistas e foram os terreiros de Candomblé que deram abrigo para os comunistas. Quando o Partido Comunista se legalizou, em 1946, Jorge Amado se elegeu deputado constituinte por este partido. Ele pôde colocar uma emenda na Constituição, garantindo a liberdade religiosa. A liberdade religiosa protegeu não só os adeptos do Candomblé e da Umbanda, mas também os evangélicos, que em 1946 eram perseguidos pelos católicos. Hoje, os evangélicos, quero dizer, não todos, mas os fundamentalistas, se valem da liberdade de crença garantida na Constituição para negar o direito à crença a outras religiões, principalmente às religiões de matriz africana, uma ironia do destino. Eu me identifico muito com Jorge Amado porque, como ele, eu também sou escritor, tenho relação com a literatura e também com essa aproximação com as religiões de matriz africana. O único ponto no qual eu não me identifico com Jorge Amado é o ateísmo. Ele era ateu e eu não sou ateu. Embora ateu, Jorge Amado ganhou um título de Obá de Xangô do terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, o terreiro de Mãe Estela. Obá de Xangô quer dizer: os olhos de Xangô ou Ojuobá. Ele era um Ojuobá. Quando perguntaram para ele como era possível ele, um ateu

comunista, ser Obá de Xangô, ele dizia: “eu sou ateu, mas eu vi milagres, milagres do povo”. Jean Wyllys 40 anos, baiano, jornalista, Deputado Federal pelo Rio de Janeiro


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Outras masculinidades Eu sou um trans homem feminista: eu combato o machismo de todas as formas. O machismo é responsável pela homofobia, pela transfobia, pela misoginia, pela violência contra a mulher. No meu terceiro casamento, a minha mulher engravidou de outro homem, sem a minha participação. Para mim, foi muito difícil enfrentar essa traição, mas o meu lado feminino falou mais alto ao lado da criação, não sei se feminino, porque essa coisa de lado feminino e lado masculino é invenção da sociedade e varia de cultura para cultura. Varia também de época para época. Enfim, eu assenti os chifres, eu assumi a paternidade, contanto que o pai biológico não soubesse da verdade, porque eu queria ser pai por inteiro. Meu filho nasceu, eu fui o primeiro a pegá-lo no colo. Ele está com 26 anos hoje, é formado em engenharia, ele não é transexual, ele não é gay, mas para mim foi um desafio criar um homem nessa cultura patriarcal e machista e fazer dele um homem especial. Ele lavou a louça pela primeira vez com quatro anos de idade. Eu o colocava para fazer o serviço da casa para ele se sentir útil. Eu o ensinei a cozinhar, eu o ensinei a poder chorar, a ser dócil, a ser gentil, a ser tudo de bom que hoje a gente coloca como do mundo feminino e que os homens sofrem como uma castração muito grande porque não podem sentir emoções. Ele é muito emotivo e é claro que ele sofreu também homofobia, pois era chamado de veado na escola, porque não gostava de jo-

gar futebol. Eu não gosto de futebol e um homem na nossa cultura que não gosta de futebol é um rechaçado, é um homem discriminado. Hoje, meu filho é meu grande amigo, meu grande confidente. Nós somos muito unidos. Ele já está casado e também isso é uma forma de mostrar que a minha família não é uma família homoafetiva, é uma família transafetiva, e eu não tive um filho gay e nem um filho trans, assim como os filhos gays cujos pais são héteros. Então, eu também desmistifico essa noção equivocada de que pais trans terão filhos trans. Isso também é outro mito. [...] Aos 14 anos, eu tinha ainda uma identidade feminina. Aos 27, eu faço a cirurgia, mas não humanizada. Hoje é diferente. Hoje se humaniza primeiro para depois se fazer a cirurgia. Eu não fiz todas as cirurgias. Na época, meu médico foi condenado e hoje também não me interessa mais fazer. Eu acho que essa questão cirúrgica é importante para grande parte dos transexuais, mas nem todos os transexuais querem se operar, se “humanizar”. Eu acho também que isso é uma forma de você se fazer inteligível para a sociedade, para a cultura em que você vive; então, eu acho que se a cultura pudesse respeitar as diferenças, as diversas sexualidades que existem, eu não sei se a cirurgia seria importante. Eu sou um trans-homem biônico, “Robocop”, como eles dizem, enfim, eu sou um cara que me faço feliz. Isso

eu acho que suguei do meu pai, essa vitalidade de ver sempre o lado positivo da coisa, porque se eu não me fizer feliz, ninguém vai me fazer. Eu tenho que sempre estar agradecendo, esse é um princípio básico. Eu não sou religioso, mas eu agradeço à vida por poder ter me dado esta oportunidade de estar vivo até agora, eu não sei por quanto tempo, porque eu sou uma cobaia humana. O que a testosterona faz no corpo de uma mulher que entra na menopausa aos 27 anos e passa a não tomar estrogênio, mas a tomar testosterona, quais são as consequências exatas do que isso pode resultar ninguém – nenhum médico, nenhuma medicina – pode responder, porque não há tempo hábil para isso. Eu tenho artrose sistêmica; por isso, fiz todas essas cirurgias. Agora, ela está atacando o meu joelho, mas eu consigo andar, consigo falar e consigo ajudar. Então, está bom demais. João W. Neri Trans-homem, 64 anos, psicólogo, autor do livro “Viagem Solitária: Memórias de Um Transexual 30 Anos Depois”


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A vida em trânsito Em 1973, quando surgi como cantor no Brasil, a primeira vez em que vieram conversar comigo sobre sexualidade, eu fui muito explícito. Quando fui ler [o que eu havia dito], eles falavam: “sobre o amor, ele pensa isso”. Eu não tinha falado sobre o amor, eu tinha falado sobre sexo. Fui muito explícito, muito claro. A própria imprensa não tinha coragem de me transmitir o que eu falava. Eles não tinham coragem de publicar, mas isso mudou muito. (...) Na adolescência, eu comecei a prestar atenção em meninos, mas eu não admitia a possibilidade, porque o que eu conhecia disso... Eu morava em Mato Grosso [do Sul] nos anos 1950. Imagina como era o interior de Mato Grosso [do Sul] nos anos 1950! Campo Grande era a cidade mais preconceituosa que conheci. Eu não admitia nem pensar nessa hipótese, porque havia uma bicha na cidade, e essa pessoa passava pela rua e só faltavam jogar pedra, eles xingavam... Eu disse para mim: “Deus me livre de ser isso. Deus me livre disso”. (...) Essa questão da sexualidade para mim só se resolveu mesmo no quartel. Houve uma boa abertura para isso, porque eu vivi uma paixão platônica, mas era consciente de ambas as partes. Estávamos vivendo uma paixão platônica, porque nós não nos tocávamos, não tínhamos coragem. Depois que vim para Brasília foi que eu me resolvi. Aí, eu já tinha tido essa

abertura no quartel. Se eu me senti apaixonado por uma pessoa do mesmo sexo que eu, por que não realizar isso? Em Brasília, eu realizei. Lá eu realizei tudo. Em Brasília, eu me aproximei das artes. Tudo o que meu pai vetava... Ele não queria filho artista, ele era militar, mas em Brasília eu era dono do meu nariz, maior de idade. Estava ali por minha conta, ganhando o meu dinheiro; então, não tinha que dar satisfação a ninguém da minha vida. Foi onde me aproximei das artes, onde realizei a sexualidade. Era uma coisa que, no começo, as pessoas combatiam em mim, porque eu não tinha problema com mulheres. Eu transava com mulheres, eu gostava, mas eu gostava também com os homens, e eu dizia isso, e as pessoas diziam: “isso não existe”. “Mas como não existe? Eu sou a prova de que existe. Então, eu sou uma quimera, uma invenção, que loucura é essa?”. Os gays, então, diziam para mim – porque o movimento gay começou a ficar irritado comigo – que isso era uma fase, que eu iria chegar a um momento em que eu iria me definir. Eu disse: “tá bom, se chegar essa fase”. A única vez em que o meu pai se referiu a esse assunto da minha sexualidade foi assim: ele veio à minha casa e viu movimento de mulheres por lá. Houve uma hora em que ele me parou num canto e disse: “vem cá! Isso que você está fazendo está errado”. Eu disse: “o que está errado, pai?”. “Você tem que se definir”. “Eu não tenho que


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definir nada, pai. Eu tenho que aproveitar tudo o que a vida me oferece de bom. Eu não tenho que me definir em nada e definir para que, para quem, por quê?”. Foi engraçado ele me dizer isso. Um pai militar jamais diria isso para um filho, e ele, que sempre foi muito repressor, eu jamais imaginei ouvir isso dele. (...) Mas o que a gente pode pensar de uma pessoa que se dá ao trabalho de agredir outra na rua porque evidencia uma sexualidade diferente? Eu acho que uma pessoa que faz isso tem algum problema de ordem sexual, porque eu penso o seguinte: um homem bem resolvido na sua sexualidade, na sua virilidade, não está preocupado com a sexualidade do outro. Eu tenho muitos amigos heterossexuais que não estão preocupados nem com a minha nem com a de ninguém. Eles são bem resolvidos com a deles. Eu fico achando sempre isso: quando uma pessoa exibe essa agressividade, é porque ela tem algum problema, e aquela pessoa ali fez aflorar uma coisa nela, eu diria até desejo. (...) Revelações...? Só me lembro de uma. Revelação mesmo eu só tive uma. A primeira vez em que tomei um ácido lisérgico nos anos 1960. Ali eu entendi o que era um ser humano neste planeta, qual era o valor de um ser humano, qual era o valor de um grão de areia. Eu tive revelações e eu chorava de felicidade. Foi a única vez. E, mais tarde, quando tomei o [chá do

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santo] Daime [ayahuasca], eu tomei o Daime por um ano e meio, mas aí foi uma coisa mais pessoal, particular. Essa primeira coisa que eu tive com o ácido lisérgico foi uma coisa que me colocou em sintonia com o universo. Eu não era sintonizado com o universo. Eu olhava o universo e não entendia o que era isso, para que servia isso. Nesse dia, eu fui sintonizado: é aqui, a frequência é essa, a faixa é essa, veja do que se trata. [...] Um movimento constante do todo da vida, a vida em trânsito, do universo, tudo, e que você faz parte disso. Até então, eu era muito largado no mundo, sozinho. A partir daí, eu vi que eu não sou largado, não: eu faço parte disso tudo, eu tive essa compreensão. É uma coisa que, para mim, é muito boa até hoje, por ter essa consciência, porque me tira desse pensamento medíocre, porque isso deu uma panorâmica no meu pensamento, porque eu não suporto mais viver metido em conceitos e pré-conceitos, tudo pré-estabelecido. Quem estabeleceu? Com que direito pré-estabeleceu uma coisa? E como é que vai dizer como é que o ser humano tem que se comportar, tem que caminhar sobre trilhos? Que trilhos? Não existem trilhos. A vida da gente é assim: você vai e vai experimentando o que lhe interessa e o que não lhe interessa. O que lhe interessar e for bom para você, você continua. O que não lhe interessar, você deixa para lá. A partir disso, eu tive essa liberdade de ver que a vida, para mim, consiste de experiências.

Eu estou fazendo uma experiência, a primeira consciência de tudo, eu estou aqui de passagem, estou aqui de passagem, eu não pertenço a isso aqui, eu faço parte disso, mas eu estou de passagem e muito grato ao planeta Terra por ter me acolhido. (...) É difícil, mas existe uma canção que mais cantei e que, volta e meia, canto ainda, porque quanto mais o tempo passa, mais atual ela fica, que é a Rosa de Hiroshima. É a música que mais me marca, que é exatamente um poema de Vinícius de Morais, um poema antinuclear. A gente não está livre disso, não. Não estamos, mesmo. Agora está em mais mãos. Ney Matogrosso 74 anos, cantor


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Liberdade sexual, liberdade de pensamento. Eu sou menino da floresta: eu remava canoa na Amazônia, desenhava na areia dos igarapés, pegava a vareta e desenhava mulheres com vestido. Isso tudo quando eu era muito criança lá na Amazônia: o desenho, o sonho do vestir, da indumentária, sempre esteve dentro de mim. Como o ar que respiro, eu nasci gay. A minha sexualidade é o ar que respiro, é inegociável, eu sou assim, eu era assim, eu serei assim, nunca houve a possibilidade de eu não ser isso que sou. Vocês podem imaginar o que era a Belém do Pará de 1962, quando eu nasci. E agora já estou contando para vocês: eu, menino com 5, 6 anos, na Belém do Pará de 1967, em uma família extremamente careta, uma gente extremamente dura, de uma vida muito rude, muito doída, e eu não pertencia a eles, eu não pertencia àquele lugar, eu era um menino que sonhava. Eu queria o belo, eu queria liberdade, eu queria ir embora dali rapidamente. Então, eu fui um menino muito sonhador, sonhador da liberdade, seja ela qual

for: a liberdade sexual, a liberdade de pensamento... Eu era um menino que contava as horas e os minutos para escapar daquela gente, daquela prisão, daquela estrutura que não me agradava. Quando chegou aquela madrugada que era a da minha liberdade, quando eu iria partir para encontrar eu mesmo lá longe – porque, na minha cabeça, existia um mundo de liberdade; na minha cabeça, algo morava lá longe, que não era ali, naquela Belém do Pará –, quando eu acordei de madrugada para pegar o ônibus na rodoviária [para o Rio de Janeiro], quando eu desci as escadas, ele [o pai] estava lá embaixo me esperando. Eu tomei um susto, porque, na minha cabeça, ele não fazia parte desta ida à liberdade e, para a minha surpresa, ele estava me levando no carro dele para a rodoviária. Ele, então, me disse: “Tu estás fazendo o que eu deveria ter feito quando eu tinha a tua idade”. Milton Cunha 51 anos, carnavalesco (Rio de Janeiro)


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Militância Eu nunca tive preconceito algum, mas também não tinha proximidade com o assunto da homossexualidade. Então, quando ela falou comigo, eu fiquei assim: “nossa, a minha filha, lésbica! Como é que é isso? Como é que vai ser?”. Mas o que pesou muito na hora em que ela me falou foi imaginar o conflito com o qual ela viveu nestes “anos de armário” com medo da reação da família. Isso me deixou muito, muito triste, com receio mesmo de que a Thaís tivesse sequelas emocionais muito fortes deste tempo de “armário”. Fico imaginando uma criança de 12 anos lidando com isso e não tendo a confiança de contar para a família. Isso, naquele momento, foi um choque para mim. Eu achava que eu tinha uma relação muito verdadeira com as minhas filhas e ali estava vendo que não, que não era assim, porque eu não conhecia a Thaís. Eu vi que o preconceito era muito e falei: “não, eu não posso simplesmente aceitar a minha filha numa situação dessas em que todos os LGBTs vivem, um processo de discriminação, de re-

jeição muitas vezes da própria família. Eu quero trabalhar com isso para tentar ajudar de alguma maneira”. Fiquei sete anos trabalhando numa ONG que lidava com pais que não aceitam seus filhos. Depois, passei para outro grupo e, por fim, há um ano eu e outras mães fundamos o “Famílias Fora do Armário”, que tem o objetivo de justamente tirar as famílias do armário, mostrar para aquelas famílias a importância que tem um apoio para os filhos LGBTs. Desde então, desde que a Thaís “saiu do armário”, tenho trabalhado pela causa e noto, cada vez mais, como é necessário o apoio da família. Nós estamos presenciando um aumento incrível da homofobia neste país. Estamos vendo um avanço do fundamentalismo religioso, que é muito preocupante. A minha proposta, desde que a Thaís “saiu do armário”, é esta e, como eu digo para ela, vou levar isso até o fim. Até o meu último suspiro eu vou lutar pelos direitos de LGBTs. Ângela “Famílias Fora do Armário”, mãe de Thaís Moisés Nogueira


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Orgulho de ser Aqui é um bairro humilde, pequeno, longe da civilização como falam, mas eu amo esse lugar, sou apaixonada, não trocaria pela Zona Sul, Norte... Aqui me encontrei, aqui eu me acho. Meus vizinhos são pessoas ótimas. Venci todo mundo, eles se acostumaram comigo.

aquele amor de infância de ficar apaixonada pelo meu vizinho, que era pai de um amigo. Estava apaixonada pelo pai dele, um amor diferente. Quando eu via um homem e uma mulher se beijarem, eu imaginava ele. Foi assim que eu descobri.

Não vou mentir: foi muito difícil. Eu tenho mais dois irmãos gays mais velhos do que eu. Então, eles não moravam comigo na mesma casa, mas desde novinho eu já vi que eu era diferente. Eu vi essa definição de que eu era mesmo um gay quando eu achei

Muitos gays tiveram um processo muito crítico aqui no bairro. Eu sempre fui muito bem aceito, desde novinho: falando o português claro, desde “bichinha” pequena eu sempre fui aquela “bichinha” que todo mundo sabia que era “bichinha”. Eu sempre

fui atirada, de falar, espalhafatosa, nunca apareceu quem queria falar de mim, me discriminar, não havia como, porque eu venci com meu carisma, minha amizade, meu gostar. Eu venci aquilo tudo. Eu senti vários preconceitos mais perante amigas minhas, mais entre as meninas do que entre os meninos. Ricardo Luiz 33 anos, Jardim Palmares, Morro da Paciência (Rio de Janeiro)


Carmela e Brunna (BrasĂ­lia)

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“Everything is worthwhile if the soul is not small.”1 In 2011, we discover the work of photographer Diana Blok. At the time, she was developing a project for Panorama Festival, in Rio de Janeiro, in it’s branch designated ComPosições Políticas (Political ComPositions). She was offered the task of registering and discussing gender identity, casting light on the transvestite population in Rio de Janeiro. That was a brave step in a cultural, political and social scenario immersed in orthodoxy and extreme violence. Ah, this macho Brazil2 we live in! Is it macho or coward? We stepped into the artistic-photographic oeuvre created by this Uruguayan/Dutch woman and realized how precious this theme actually is. Because of this, she is currently concentrating her attention on the trans theme, which is a natural sequel in her intense life trajectory and cosmology. In Blok’s worldview, a finely chiseled aesthetic sense and profound sensitivity are harbored. There is an explicit exercise and intense pursuit of the otherness. Thus, she manages, in every photo, or in the film’s filigrees, 1  Translated freely from “A vida vale a pena de a alma não é pequena”, by Fernando Pessoa”. 2  Translated from a local widespread expression “Brasil Varonil”, that in Portuguese generates a particular rhyme.

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to show the beauty in the other, the very soul of the other. Her photography denudes the photographed and humanizes him/her to the point of disturbing, insofar as it makes no room for passivity or omission. The photographer invites us to see, recognize and amplify the value of acceptance of those different from me/us. It is this sensitivity, which permeates her work in Turkey concerning the LGBT population of that country. The project composes a series of exhibitions, political debates and a fascinating book portraying the personal accounts of those who accepted to expose themselves to the work and public debate. The aesthetic, artistic and political results urged our invitation for her to realize a similar project in Brazil. A conspiracy (or fate) written in the stars, took us to the Dutch Embassy. Ambassador Kees Rade, and Sara Cohen, head political affairs, public diplomacy and cultural department, which — having the LGBT issue as priority of the country’s public policy — challenged us to unearth this debate in Brazil, here and now. We accepted the challenge. It was a very appropriate timing for this debate, since during the past decade there has been an impressive tour de force of the fundamentalist right wing. Its strategies include invading spaces traditionally occupied by

progressive and radicalizing Human Rights groups in Brazil. The most noticeable case happened in the Brazilian Parliament, at the Human Rights Commission, when a homophobic racist protestant preacher was inaugurated in the presidency of the said commission in 2013 as an outcome of spurious, unethical and execrable conjunctures, even taking into account our awareness that there is a dark side in politics. Needless to say, this was a very ill turn against Brazilian democracy and the affirmation of a secular government, as well as the sexual and reproductive rights of women, the right to LGBT identity and the black and natives’s identities, not to mention countless other rights to be cemented in Brazil or, more straightforwardly, entangled up in a limbo of violence and invisibility. Unfortunately, Uruguay is not here and we continue to rank among the most conservative and violent countries in the world, in spite its fame of merry liberalism. The world is not familiar with the Brazilian reality as it is, to the point being very surprised by public manifestation of dissatisfaction, such as what happened in June 2013 in several Brazilian cities. But isn’t Brazil the world’s 7th economy? But wasn’t it here that millions of people had their income improved by national “income transfer” policies? What creates this level of dissatisfaction? A deep and relentless


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inequality: patriarchal, homophobic, sexist and racist patterns are still deeply rooted in human relationships.

We would like to thank our eternal supporter Guilherme Reis, which has not hesitated to take on the project as something of crucial importance, incorporating the theme in the 2014 Brasília’s International Theater Festival, regardless of all of the underlying obstacles to be overcome. Reis brought the photographer to perform the project “Adventures in Cross Casting”, in 2013, addressing the subjects of gender and sexual identities with actors and actresses of Brasília and Rio de Janeiro.

Our meeting begins here. A confluence of INESC’s (Institute of Socioeconomic Studies) beliefs, defending Human Rights based on aesthetic proposition and politics also engraved in the Diana Blok’s photography came together. Our Uruguayan ‘sister’ comes from the most avant-garde country in Latin America, not to mention her Dutch blood, yet another country which is in the forefront: an enviable heritage which We would like to thank our partbrings forth high-quality experiences ners in the Observatório de Favelas relating to the affirmation of human “Favelas’s Observatory” especially rights. For INESC, it brings us a genu- Raquel Willadino, Alexandre dos ine pleasure and continuous learning. Santos Silva and Silvana Bahia; our Things are more profound and intri- friend and ally in many battles for the cate than they seem. If we intend to social and cultural transform of our be the ‘messenger’ of a better world, planet, Átila Roque, which is direcwe must keep our minds and hearts tor of the Amnesty International in open for a more humane, sustainable Brazil; kind thanks to Jandira Queirós society for each and every one. and Alexandre Ciconello (the latter helps us in the start of the project, On this unique adventure counted when he worked at INESC, in Brasília); with a talented team: curator Cinara Nilcéia Freire and Aurélio Viana, of Barbosa, Gabriel Menezes, graphic Ford Foundation, for the unrestricted designer, Carlos Henrique Siqueira, support to our proposal, being our editor of the documentary, Gustavo mediating contact with the InternaGoes, the exhibit’s designer, Dalton tional Institute of Education (IIE) in Camargos, light designer, which has the USA. been a coworker in so many theater efforts, Silvana Meireles, executive In UN Women in Brazil, we would like producer, and the entire team of to thank Nadine Gasman, Ana CaroINESC, especially: Carmela Zigoni lina Querino and Joana Chagas, who and Cleomar Manhas, our political joined in our fight forthwith, as well advisors; Maria Lucia Jaime, in the as Joaquim Molina, representative finance division; Gisliene Hesse, in of PAHO (Pan American Health Orcommunication; Nathalie Beghin and ganization). We would like to also acher strong support and Márcia Acioli, knowledge these wonderful people with her amorous pedagogy, which who helped us in crucial moments: hit the ground running to make this Rollo, Denise Milfont, Israel Victor accomplishment smooth and useful and Dyarlei Viana. We thank everyone who has faced the challenge to to our cause.

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expose themselves, voice and soul, to make this project a reality. Granted, it does not end here. It has just been set in motion. Last but not least, we thank Diana Blok, who put her life in charming Amsterdam on hold for months in a row to live and register a bit of Brazil, luckily not so macho, showing us how rich and fortunate we are, although the country has been until now neglectful to cross the ugly frontier of prejudice and recognize the limitless possibilities of identity, so that the right to happiness is ensured to each and every person. Iara Pietricovsky José Antonio Moroni

THE UNIQUE WAITING Interpretative efforts focusing on the imagery systems revolve around findings about the ensuing notions of fixity and fluidity. Images, therefore, would entail the value of harboring time, putting the moment on hold, capturing reality and immortalizing existence. On the other hand, in a conception of the now, the very boundaries of this objective visibility are taken into consideration and, in turn, the condition of capturing is seen as slippery, particular, the expressive registration and the presence of the subject ushering in this piece of factual reality. The work of the visual artist Diana Blok, she relates to these issues regarding the content of image production, and even accentuates its dynamics. It is a work trend I to refer to


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as the “trajectory of the experience of waiting.” The exhibit ‘I challenge you to love me’ is a branch of Diana Blok’s work which takes the form of ‘visual activism’ to discuss sexual identity in Brazil, the diversity of affective relationships and issues regarding otherness. This series, staged in the cities of Brasília, the capital of Brazil, and Rio de Janeiro, stand as a composition of a given reality that is built concomitantly with its manner of representation, from the artist’s perspective, and the proposition to be foraged by the public. In this sense, we may comprehend ‘trajectory, experience and expectation’ as an exercise and a method of complicity. Photography is the tool which draws, casts light and directs the eye, so that one can be cognizant and acquainted with the potentially visible. The unremitting attention, the captivating wait, and the shared breathing are aspects of the relationship built between the artist and the persons portrayed and that, once presented, stir our perception on the roles and responsibilities undertaken by each of us before a multihued life. The curatorship was therefore charged with the task to articulate. In a solo show, the ‘articulatory curatorship’ plays the role to incentive the artists to organize their thoughts over what somehow is already present or prescribed and, therefore, clear up uncertainties and settle conceptual hindrances, bargains of selection and conceptual problems. Therefore, I pointed to segments of narratives on the platforms which were latent in the composition of the work.

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The set of images opening the work serve the purpose to introduce the artist and may be regarded as the principle of the ‘trajectory of the experience of waiting’, to wit, the relationship of complicity and, meanwhile, the force of the image concocted. We also have the diptych ‘challenges’; images about the mythology of beauty, but not the conception of the beauty standards, rather, the desire, existing in each of us, in the embellishment treatment; the relationships among couples and relatives; the kiss; and aspects of the intimate life. In the exhibit, the segment of the characters portrayed was conceived to accentuate the reading about otherness and the relevance of understanding the interaction and social interdependence with the other, such as to maintain: “you are me; you are the other; I am you”. The exhibit is followed by a series of accounts on video which draw our consciousness to the challenges of existence in the relationship with the other, meanwhile pointing to the identification in sharing the aspects of common life which encompass family, intimacy, work, beauty care and the longing to belong. On account of that, the following themes emerge: the intricate nature of changing the body, the diversity of the gender principle, the discovery of the feeling of awkwardness owing to not fitting in the female and male behavioral patterns expected, the first contacts with one’s own desire, the fear of violence, the time of telling and the importance of the family in the fight against prejudice. With this, Diana Blok allows herself to simultaneously be the one who won-

ders and comments: “what is the difference between a constructed body and an imaginary body. It seems like there are more and more people living in an imaginary body and embodying the projection as opposed to the the construction». Thus, we can also understand the images as marks of a sensible subtleness, of knowing how to be in another person’s place. Cinara Barbosa Curator

Confessions of being After completing the project ‘See Through Us’ in Turkey, I secretly hoped that a continuation of this work would open somewhere in Latin America where I grew up. Exploring the subject in Turkey reminded me of my youth. The preconceptions and prejudices I came across there were very close to my own personal experience. Those of Latin America, however, would prove to come even closer. In 2013 I met with a cultural, political advisor of the Dutch Embassy in Brasilia and was asked to work on a similar project: ‘See Through Us’ in Brazil. The reason behind being that violence against LGBTT has tripled in the past 4 years, a fact of which I was totally ignorant. My impression of ‘the Brazilian’ was of a physically very liberal being, free in body and in mind. Because the body in Brazil was so exposed, I never thought such con-


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servatism existed. Pregnant women in Bahia walk the streets with bare bellies, and men cross-dress during carnival. Bisexuality seemed to be common practice.

Today I recognize this process as a visual ‘coming out’ which slowly became transparent, therefore the term: ‘Visual Activism’. It woke me up. Yet my conscious intention to awaken others lay dormant for many years.

Brazil is an immense country, rich and varied, encompassing myriad forms of diversity. Unfortunately, so many are blind to the beauty of such diversity. They chose, rather, to project a prejudiced view and feel they have the right to put limits on the freedom of the other by way of laws, taboos and superstitions. There were no role models where I lived when I was growing up. It was only when I moved to Amsterdam in 1975 that I felt liberated and free to explore my own sexual identity. Parallel to this, I discovered photography as my tool of exploration. Only then was I able to begin to fully integrate who I was with my lifestyle and surroundings. Photography and the acceptance of sexual diversity and gender came together. Through self-portraiture and staging ideas in front of the camera, I began to discover my true identity. These photographs mirrored my own psyche. By reflecting upon them and sharing them, they became keys through which I gained permission to open up to the outside world. Since they were recognized and accepted as art, they could communicate, and were allowed to exist. Therefore, I too could exist and continue to explore. I needed the photographs and they needed me. They were, and remain, a witness to my own process of gaining acceptance.

The personal encounters of which this project is made up openly reveal confessional, personal stories along the exploratory path of sexual identity. The consequences encountered, again reveal an extremely conservative country, again in contrast to what I originally thought. I have been fortunate enough to pass through open doors from Palmares, Santa Cruz in the extreme west of Rio de Janeiro to the capital Brasilia and its remote communities. To meet people outside of the confessional box, with no wooden panels in between. As a young Catholic/Jewish adolescent, I used to have to confess in church. Since I did not feel guilty, I would invent my sins, get a quick resolution and get on with my life. What was once the priest is now a mirror. I, the photographer, have taken his place reflecting the opposite side. The wooden panel has disappeared. Interwoven with my own personal experiences we are inseparable. As sleep is to night and dark to light, we are never alone. I feel very privileged to have been given the opportunity to meet with so many beautiful & courageous people in Brazil who have dealt with coming out of this fragile closet. They now stand openly for what they are. They have a voice and a vision. Struggles of isolation, confusion, loneliness, doubt, rejection, separation, love and hate, all accompany the process

Diana Blok

of breaking free of societies’ narrow-minded expectations. We must have the freedom to remain true to our unique individuality, at every stage of our lives. My heartfelt gratitude to all of you for the trust and opportunity you have given me in understanding who we are at a deeper level. Thank you INESC for your impeccable support throughout the journey. Diana Blok Brasilia 2014


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Testimonials ______

Black, lesbian and anarcho-feminist: constructing identities I always have a strong feeling of combativity and like to work on the possibility of building a better, fairer and more egalitarian world. Because of this I engaged in social movements, chiefly the feminist movement, where I participate — I am an anarcho-feminist —, and am also involved with the hip-hop movement, which was very sexist in the past. We addressed all of the gender issues within this movement… previously only men could sing, only they produce street-art, and be part of this movement. We women began to fight this. I felt very close to all of this and I developed a thorough political construction around this matter and, in the prime of my youth, boiling hormones, I identified a lot with social struggles, be them related to class, gender or cultural identities. From this point on, it was a triggering agent in the entire process. As a matter of fact, it was a very painful process: I built my identity based on my own family references. My ancestral background is the history of black culture: my maternal grandparents were black, and my mother was especially active in building my identity with me; be it with samba, or in shops where we were often discriminated as black women. I was a non-conformist; I felt the need to look for an occupation, which could cope with these issues.

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You do not discover your gender identity, you live this, it is on your skin. I have always questioned the hegemonic standards imposed upon us. I often say teasingly that I love everything which departs from normality, and actually love it, simply because I do not believe it exists! Our identity is a social construct.  (...) We are in a relationship for 9 years now. I assumed my identity not only as a black woman, but as a lesbian, both very confronting to the establishment, since it is a social role which is strongly stigmatized in our sexist, misogynist and sexist society. It was a combination of situations. I was building my own identity inside the lesbian/feminist movement and now I feel an accomplished human being within my own possibilities. I saw that violence came more from the Brazilian society than from the places I used to circulate, mainly the university. University is still a judgmental space where there is a significant amount of homophobia. I do not know if I would have been able to beat all the cruelty - disguised and imposed by the society, be it for a compulsory heterosexuality or for its framing norm or pattern. I feel deeply moved when I speak of how important it has been in my trajectory to have had my family’s support. I would not be who I am today. It is very important that voices around gender identities are heard, be they from a transvestite, a transsexual woman or a transsexual man. It is something boundless and often incomprehensible, which actually belongs to that particular person only. Who are we to point fingers and question the sexual orientation of the

other? There is a grand universe with a series of possibilities. Denying this is flirting with Fascism, which pursues controlling a body which is not yours. Currently, I believe that we should adopt the principle that people should be truly free. The grammatical articles in Portuguese reinforce the difference between female and male. If the construction of sexuality were freer, if there were no imposition for you to be heterosexual, would we have more possibilities, would we not we have advanced in the trans struggle with all of its suffering? She looks at the mirror and fails to recognize herself. Then, she has to deal with all of these prejudices, which are beyond herself, beyond the human condition of her being, is this freedom? Anna Carolina da Silva Silvério 30 years old, Social Work Specialist (Brasília).

Mother and daughters When a mother truly loves her child, she accepts her. I have never seen a problem in this, I accepted easily. When I spoke to my husband, he was a little fearful. But, after some time, he began to love her more. Currently, I proudly say I have two daughters, because I was lucky to have earned one more daughter in my life, Cíntia. I love them and respect them. If they need me at any time, I will be there to help, because mothers embrace the cause, mothers see no sex. I only have to say that I love my daughters infinitely, not only for the position they have achieved their work, but for


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I challenge you to love me

them to be my daughters, I am proud of telling this to everyone.

mother. It was my friend, my pal, we used to play soccer and he was always at my place. When I was stationed at the barracks, he would go to my place and sleep in my bedroom. That called my mother’s attention, the fact that our friendship was too... My mother once asked to me: “is José gay?” I replied: “No, momma, I am gay.” I was raw, straightforward and emotionless. We had conflicts because, at the beginning, my mother did not know how to grasp the situation, as any human being, given that, actually, there is a human tendency to be discriminatory for not knowing the other side of things, and not giving yourself the opportunity to know. If homophobic people really knew what it is like to be gay...

Ana Maria Silva Silvério Psychologist, mother of Anna Carolina (Brasilia)

No messing around Commanding respect is something I always knew to do, it is not that because I am gay that I will be messed around with. So, I have always behaved properly: I always had a ‘gay’ behavior, but always male as well. Back then, I was a soldier of the Brazilian army, and I was serving my country. I always knew how to have each thing in its right place at the right time. I had no issues, problems in the Army, I never did. I have never encountered prejudice. I had problems as everyone had, this is natural. I was 18 years old. I told my mother about my sexual orientation when I was in the Army, because I had a boyfriend. I remember that I had been in the closet for a significant time, as every gay is, no reason to hide this. At first, one hides. I think this is a mistake. When you find out who you really are, you have no reason to hide for fear of society’s reaction. It means nothing compared to your own happiness, your physical and mental well-being. People should be aware that, if you are gay, lesbian or bisexual, if you are transgender, transsexual, it is all the same. Gay is gay. We have the same rights as any heterosexual person, the money a heterosexual earns, is the same money, that I earned. I had a boyfriend and I told it to my

Up until some years ago, I tried enlisting again, but I didn’t make it because there was no vacancy open. I was an excellent soldier. In my battalion, I was one of the best. I was a role model soldier, always neat and proper in uniform. I kept schedules, was never late and came from the countryside. Because I was a farmers child, I was a special soldier…I took cooking lessons, made pastries, salty treats, and so on.. I was made sure it was always a party for the colleagues, and they liked my services. I was the ‘sweetheart’. I was an exemplary soldier. When I came to live here, I actually came from another area. A project had been approved for the Linha Amarela Roadway, as you may know, and everybody was placed in Complexo do Alemão, as was my family. When we arrived in Complexo do Alemão 20 years ago, I came across a sad reality, in which homosexuals were known to be informers and rapists. Being gay

Diana Blok

was equal to that. I saw many violent confrontations and encounters. There are hypocrites which say they have never been through this, but I tell you the truth: I witnessed many horrific scenes. I saw gays being mistreated, beaten up, I really did, why should I not to tell about it? Luiz Antonio Moura Complexo do Alemão (Rio de Janeiro).

THE DOLL BOX In the theater, when I was about 21 or 22 years old, with a child’s surname which permeated my career, as I was talented and capable, but I did not believe in myself. Since the universe of theater was so out of hand... the gay crowd working in the theater was up high, and I was down low. I was a transvestite, prostituted myself, and started “doing hormones” at the age of 13, in 1973. Taking hormones was not allowed. At 17 years old, in 1977, I was already doing hormone replacement, which was a removed reality, since I left home as a transvestite, prostitute and thief. At the time, I also stole. I was a marginal, so it was rather complicated. (…) Here is me/we Cleopatra, silicone breasts, here all deformed, “ratatouille,” a pair of jeans here, a pink top, a mess in the market, called Luana, that’s me Luana... Oh, mother, Luana messed with me! Of course! Not only I messed with you, I beat you up, queer! You expose this mélange, aren’t you ashamed? This is an indecent exposure, ugly creature that you are: go put on some decent clothes before we talk! That Luana full of pain and self-hatred


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slowly disappeared, made peace with herself and came back. Now she is here, now I am here, integrated. That’s it: a transvestite is nothing more than... The transvestite’s mission is to seek perfection, which is impossible. We live searching perfection. We get close to it. So much so that we transform into one of these comic book heroines. Sometimes you see the transvestites working. You can spot X-Men’s Storm, you can see Madonna or Beyoncé. Transvestites are an artistic invention, it is the pursuit of the female in the male, not the two genders which make up the third gender, because people do not know how to deal with it. Look: there is a man, a woman, a boy who was left behind, I love him now, it was because of him that I was born, I am exactly the woman that I always wanted to be and tend to improve even more. At The Gay Gala Ball, Monique asked me: “Where do you live?” I said: “I live inside a box at Lapa”. “Don’t you live in Italy, London, Paris?” “No, I live inside a box”. “Why?” “Because I am a doll.” Now, I need to know how to handle the man inside of me, the woman in me, the transvestite that I am, and also the wild cat. Before any other people, I have my transvestites. I am a fan of transvestites. After them, I am solidary with the blacks, and with the poor. We have gone in retrograde when referring to discrimination: society discriminates against everything… woman... Why do women still suffer , for more than 40 years, if she emancipated? Luana Muniz (Rio de Janeiro).

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I challenge you to love me Honestly, since I’m eight years old, I know I feel sexually and affectively attracted towards women. I have never identified myself as a lesbian woman, as this really did not make sense, but I always had relationships with women. It is a rather difficult situation, which brings me discomfort on many occasions. I never know if I need to tell the woman that I am a transsexual or if she already knows… or, if she knows it, what she is going to do, if she will still wants to be with me, even if she knows that I am a transsexual. Many lesbian women get interested in me, which feels problematic to me since it shows me that they do not see me as a man. I think that I have never had a real relationship with a woman that was strictly heterosexual.

friends. However, we grew up in the outback of the State of São Paulo, where there is a strong taboo. Obviously, when I was a kid, I was very outgoing, very theatrical, as my mother used to say. I was always drawing, designed clothes, liked to do play hair -styling, and all of that. My skills were always related to this type of more artistic ventures and, surely, in the countryside of Brazil, this is associated with homosexuality. At school, I heard a lot ‘gayish Dudu,’ ‘fru-fru Dudu,’ [Dudu is a nickname for Eduardo] but then my father was always careful to explain: ‘my son, this has nothing to do with homosexuality,’ but it had. I say this because I had always been a successful heterosexual until 19 years old. I always had girlfriends, and I had never had homosexual experiences until that age. I had always made out with girls, I dated girls. (…)

It is a long process: in ten years, many things happen. We have had three I simply did not know that transsexmajor moments in our relationship: uality existed. This did not exist in the first moment, when there was the my language or surrounding. I didn’t beauty of discovery, it was really... Alknow of this possibility, to belong into most cinematic! In our first meeting, another gender, which did not match we held hands, and that was when the one you were told you had when we admitted. I said: “Glauber, I think you were born. there is something going on.” He said: “Are you sure?” I said: “Yes, I do.” We Marcelo Caetano remained holding hands all through 23 years old, student of Political Science at UnB the night, thinking of how complex and (Universidade de Brasília), poet. difficult it was to feel this way. After this, one week went by, we... Well, this is time to kiss. We kissed and I did not Committed: Edu like the kiss because of the beard. I thought that it was itchy and botherand glauber some. And then I thought: “ I did not like that. Kissing boys, no.” But Glaub[Edu]  We were always in an er was really into it, and so was I, so we open-minded environment while started to see one another secretly. growing up, which was rather straightWe developed a relationship we could forward. My parents always had gay not run away from.


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All of our discoveries were inside a car or in an empty apartment belonging to a friend on a trip, we were very afraid. Afraid of everything: afraid of the cops, afraid of your neighbor, afraid of the people on the streets, you can actually just be punched because you like someone. [Glauber]  I always knew that I desired other men and not women. I expressed this since childhood. I caressed other same-sex children in a very childish manner. There are marks of these days and I remember them. I started to open up to this desire to manifest inside of me in a very natural way. It is funny because it was not a painful process, as I started to feel like making out with other men, kiss other men on the mouth, touch other men. I think that this desire was stronger than all of the moral and religious attachments that I had from the past. I remember a sentence that my paternal grandmother said which left a strong and tender mark on me around the acceptance of my family, as to who I was. I have actually never talked to her about this. I never even talked to my father about it; since it is something I never shared with him up until now. But my grandmother knows now and treats Eduardo as my partner, even though we never had a conversation about it. One day, I was saying goodbye to my grandmother, I was at her place, and she said: “My son, come back whenever you want and, when you come back, bring him with you.” That was it. Eduardo Designer and makeup artist

Glauber Theater researcher (Brasília)

I challenge you to love me

Gender as generosity The pattern or that which is adequate, is a part of my adaptation neurosis, always permeated by a sort of insurgency. I started to observe how this manifested in my desires. This conflict would happen with my diverse genders. How could there be a will to conform to a standard desire, a normalized straight desire in conflict with the multiple other desires? Then, I think I started to understand it was a type of dispute, mainly inside of the self, this ‘composition’ of which we are made of: all the closets that should be opened which are a source of pain. It is a political struggle with which you are at stake. As a matter of fact, ‘the multiple me’s, are the political field of the conservative forces within me. There are also less conservative forces, but subdued. I think that there were many beginnings, always a beginning, beginnings never ceased to happen. The ‘strange’ is positive while it is still a promise beyond being classified. I also discovered that there is an embryo, a place of fertilization which is very strange… complicated, delicate of sympathetic among marginal, queer individuals. There is a sort of power in the “esquizerda” (queer,strange leftist). But this train of thought of mine is no longer there. I struggle now with all matters concerning identity. I preferred to abandon them and think of more in terms of a confederation of identities. Diana: you were mentioning, something we talked about concerning the different origins of man/woman as one...

Diana Blok

From the ‘transvestism’ in Latin America, from the original hermaphroditism, I think that, insofar as we pursue lucidity, we destroy savagery, drunkenness and numbness of sex and sensuality. In our way of life, institutions are hetero-patriarchal, “cis-patriarchal”, they are alienated from transphobia, homophobia and horrified by strangeness of any kind. Hermaphrodites also terrify them. Hermaphrodites were uprooted, this issue of not being allowed, the normalization of people in binary genders… Gender as generosity, gender as proliferation, as something that generates, generates, generates, generates... I think that this is the interesting matter. This is the reason why we spoke of ‘schizo-trans’ pornography, since porn generates the desire, sows desire, it makes desire manifest. In the book, we refer to implementing a ‘tiny desire.’ This was a political strategy: a sudden planting of a flower to grow amidst Praça dos Três Poderes (Square of the Three Powers), where green is absolutely nonexistent. Desire is an entity with a very powerful force. As I said a while ago: if any organization whose activists were moved by the desire that makes a transsexual person live as he/she lives, the revolution would start tomorrow. Actually, I had few family social situations. I managed to be in the closet. I think that those who remain in the closet have certain benefits. The closet is also a privilege: if you manage to be in the closet most of the time, you will become a citizen of the closet, there are plenty of ‘small closets’ walking around... everything


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and all desires which have been hidden in the closet simply exist. Hilan Bensusan

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acter. People see the gay image as of a person without character, who is negative... We have to change this stereotype, it is not that way.

Philosopher, professor and performer (Brasília)

Nobody is alone I lived in an alternative village. My history is a little complicated because I have highs and lows, I have had plenty of shards, many stones and thorns, but also many flowers, many roses. For the past 16 years, I have been living in Rio de Janeiro. I lived on the street Voluntários da Pátria in the neighborhood of Botafogo for some time, then came to work here in this neighborhood on a government social project, I fell in love with the freedom and stayed. I am here up until today because I like freedom. I am like an eagle: I like to fly. When I am searching my prey, it’s like this: I am a super-outgoing, happy as a clam, I think I do not have to have somebody by my side to be happy, because what I am the one who needs to be happy. I discovered myself as a homosexual when I was 12 years old. In the village where I lived, everyone was heterosexual. I started to read, I was the most intellectual person in the area, I studied a lot and was always up-todate. Then, one day, I told my father that I was gay. My father went crazy, he wanted to... Oh Virgin Mary! He asked: “What is gay, being gay?”. I replied: “Dad, gay means liking a person of the same sex.” He said: “What??” Every gay, to me, is a man. Being a macho is one thing, being a man is quite another: it entails having char-

As time passed, my family got used to it, and I conveyed the image that I was not a person of another planet, because I feel everyone is together, we are together in this. I started to teach at a small school. Everyone respected me. I met my first boyfriend at age 14. We were together for 8 years. Everybody in the community knew it and respected me. I am here for 12 years now. I like this neighborhood a lot. I have a quite close relationship with people here. Everybody knows me since I was a child. Even the elderly people have a certain respect for me. Everybody knows my sexual orientation. I fell in love and came to live with him. He was a known in the neighborhood as a samba musician who once in a while, played the samba on the stone stairways of the favela. Eventually we broke up and, currently, I am alone, but nobody is alone: you have to understand you are always with yourself. This is the important thing: you have to love yourself. That is my foundation. My mother gave me a strong base as a human being in the sense of being there as a support to finding myself. I had contact with nature: I swam barefoot, took rain showers, bathed in a stream, rolled in the sand, played with the earth…the earth gave to me and I returned everything to it. Thus, this made me a rich human. My biggest dream is to be rich; to have money, as, in practice (let us be honest), it moves the world, unfortunately. This

perception of dumb people who have money and think they are a ‘must’ is totally absurd. Nobody is everything. You shit, pee and die. We are all the same. We are here to live; living is a new and interesting experience. People who have the opportunity to have a great life experience think they are the ‘everything’ but nobody is God, nobody is the Creator, because the Creator is the Creator. We are the creatures and need to respect that. Carlos Hair stylist, Morro Dona Marta, (Rio de Janeiro)

Understanding is liberating Yes, when I was a child, a teenager, at school, living with my family, I lived very difficult moments during my childhood, teenage years and beginning of adulthood. It took me a long time to become psychologically structured and to accept my nature. I actually wound up taking in the social and family prejudice within. I internalized the prejudice myself and believed that homosexuality was something wrong. During a certain period of my life, I even tried subjecting myself to a ‘gay cure’, since I thought that to be gay was not natural. The information I had at the time was not of the best kind. I come from a very Catholic family, quite religious. Based on what I had learned until then, I found that what I lived was not right. There was no role model available, I had no references. I suffered a lot! As time passed, I was forced, for survival purposes, to research, to research within my-


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I challenge you to love me

self, to know who I was. Because of this I came to comprehend God and religion from another perspective, since I did not fit into the pattern of religion which was presented to me at the time. I did not have many choices. In fact, I needed to separate from my family bonds, I needed to search for another context to understand life in another manner. This was essential. In fact it was liberation. I could then see myself, I could see God, I could see the world in another context, which now allows me to see beyond my inner internal conflict. This was a major liberation. Nowadays, I can see perfection not only in me, as a person, but also perfection of soul, of being gay, of being homosexual beyond stereotypes, existing, being an integrated person, and I have a wonderful relationship with Gavin. Nowadays, I am a happy human being.

I was young, I felt and understood I was different. I realized I was really gay when I innocently fell in love, with my little friend’s father who was our neighbors… a different kind of love. Whenever I saw a man and a woman kissing, I imagined him. This was how I found it out. Many gays underwent a very difficult process here in the neighborhood. I have always been very well accepted since a young child, clearly speaking, I was a ‘little fairy’, the ‘little princess’ everyone knew that was a ‘ little queer.’ I have always been outrageous, talkative, playful, easy to love, so it never happened that people had negative things to say about me, discriminate me. There was no other way but to win with my charisma, friendship, my way of being. I have beaten all of the odds. I felt more prejudice from my girlfriends, than from other boys.

Antonio Henrique Paiva de Sousa Jewelry designer. He is married for 17 years with Gavin Louis, dancer and yogi (Brasília).

Pride of being This is small low-income neighborhood, far from civilization, as people say, but I love this place, I am fond of it, I would not exchange it for anything in the South or North Zones... I discovered myself here; here is where I found myself. My neighbors are great people. I have won all their hearts so everyone has gotten used to having me around. I am not going to lie to you: it was very difficult. I have two gay brothers who are older than myself. They lived with me in the same house, but since

Ricardo Luiz 33 years old, Jardim Palmares, Morro da Paciência (Rio de Janeiro)

He is married Nowadays, I live alone, but I do have one person who is very special to me. He is delicious, but he’s married. Talking to him, I feel that sometimes, very deep inside, even though he is married and has a good marriage, in reality, he does not feel so fulfilled. Rather, his fulfillment is with me. It is kind of crazy, but it is true. This is it, there is nothing more to it, it is more or less like this, it’s a bit strange thing because I have no way to explain why he continues to be married and still comes to me. Sometimes I feel lonely,

Diana Blok

realizing that the best part of him I will not have, the best days, those I will not have with him. Then again, I do not have to do the laundry, I do not have to cook, I don’t have to do anything. The best thing is that I believe he is with me with me not because I want his money. He does not have to give me his credit card nor the password. Jair 42 years old, hair stylist, Morro Dona Marta (Rio de Janeiro)

The pursuit Since kindergarten, I saw myself as a girl, I live as a girl, but I like boy’s stuff too. It is kind of complicated, since I thought that all girls would have the same body, the same manner of being as I did, but only afterwards I discovered that I was different than I thought, I was in awe. Since I was six years old, I saw myself as a girl. At the age of 11, I started to have a say… to speak what I felt, expose, speak my mind. It was then that I started dressing in ways that felt good. That was when my family issues started to happen. I was born into an Evangelic Christian family and, in accordance with the religion, there are things which are not accepted. That year, 11 years old, I was expelled from home, went to live with a friend’s family for a while and had to learn how to survive. As I had no help, because I did not know what I felt and, in my family, there was nobody which could feel the same as I did, thus: I tried to pursue this outside. I looked for other girls which looked like me and felt like me. I was


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not well received in their circle either, True Love so again yet another place where I felt excluded and treated with coldness, As to, how to label my first experiindifference. I did not understand this. ences, I always felt a little afraid I excluded myself from these people, with this sort of pressure, to have to I also avoided an environment of peo- ‘assume’ our sexuality. It feels like ple who would help fight for my rights, we did something wrong. We use the their rights, LGBT organizations, be- word ‘assuming’ here when there is a cause of the fact that I was prejudiced mistake, a problem, a crime, like ‘asin these groups. sume what you did.’ As for me, I never considered other people’s choices in They [transvestites] worked on the terms of ‘assuming’, but I did find it street, made plans and sometimes very special to share with my family would ask me along and even I looked that I was in love and that this love different, they called me androgy- was reciprocal. The first time I fell in nous, but did not like it. There was one love it was not the case. of them who liked to joke around: she told me they struggled very hard to I have been in love with different types look like women and I already looked of people, but never found the quality so feminine. People like me were born of love that I have now, so I wanted looking like women. to share this at home and tell them about it, especially that this person Dominique is a woman. 18 years old, hair stylist, born in Bahia (Brasilia)

Half Man, Half Woman I tried to discover and explore my body with parts: upper and lower. In the first part, feeling like a woman; in the second, feeling like a man. Reflecting about it, this was how other people looked at me, and not like I looked at myself. Thus, I never resolved this issue. In fact, “man” and “woman” are not real words to describe a human being in the world. Since I was a child, people never recognized my gender. Actually, I never had a gender identity of myself. Ricco Garcia Contemporary dancer (Rio de Janeiro).

we appreciate in the world, telling society that I will take care of her and that she will take care of me. On this very important moment, not having our mothers present was so disappointing. In our daily lives both our mothers receive us in their homes in a most tender, loving way. Poli’s mother always gives a warm reception, with open arms, we laugh a lot together, have fun, in the same way as my mother does with Poli. I do not understand what this historical force is, this blind religiousness which fails to understand the most important teaching of each and every faith that I know: the greatest icons of faith all speak of love and of a delicate, kind and sensitive love, which encompasses all differences, given the profile of the disciples of Christ, because there were a great diversity of beings there. It was sad not to have them, but this did not win over our joy: we celebrated with many people who did attend.

The many other relationships I had with interesting, smart and handsome guys were fine, but finding this woman was a great exception. I shared this with my family and I was shocked myself when I became conscious about Now I am going to present this person to a traditional Christian family. We know that there is a genocide history of my species, and I want to survive, I want to live the love that embraces me. [...]

Other masculinities

On the other hand, for us, it was very sad to realize that the contradiction, which permeates the foundation of our society, is also present inside our own home. To our amazement our mothers were not present in our wedding ceremony. Our marriage is a political act, to acknowledge our love not only among our friends but to prove our love to all the people

I am a feminist trans man: I combat sexists in all possible ways. Sexism is responsible for homophobia, transphobia, misogyny, and violence against woman. In my third marriage, my wife was pregnant of another man, without my participation. To me, it was very hard to deal with betrayal, but my feminine side spoke louder. I do not know if it is feminine,

Ellen Oléria Singer and composer, married to Poliana Martin, poet (Brasília)


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this thing about feminine and masculine sides is an invention of society and changes according to culture. It changes through time. Therefore, I accepted the betrayal and assumed the paternity, as long as the biological father did not know the truth, because I wanted to be a full father. My son was born, I was the first to take him in my arms. He is 26 years old now, has a BA in Engineering. He is not a transsexual, he is not gay, but to me it was a challenge to raise a man in this patriarchal and sexist culture and make of him a special man. He did the dishes for the first time when he was four years old. I used to make him perform house cleaning so that he could feel useful. I taught him how to cook, I taught him he could cry, be gentle and sweet, to be everything which is good and which we attribute to the female world today, and that men are subject to a great castration because they cannot feel emotions. He is very emotional and surely he suffered from homophobia, as he was called a sissy at school simply because he did not like to play soccer. Neither do I like soccer; a man in our culture who does not like soccer is rejected, and discriminated. [...] Today, my son is my great friend, my confidant. We are very close. He is already married and this happens to be a way to show that my family is not a homo-affective family, it is a trans-affective family, and I have not a gay son or a transsexual son, as well as the gay sons whose parents are straight. So, I also clear up the myth that trans parents have trans sons. This is another myth.  [...]

old, I had a surgery, but had not transitioned. Today, it is different. We first have the transitioning step, the surgery afterwards. I have not been subject to all of the surgeries. At the time, my doctor was sentenced and now I have no interest in doing it anymore. I think that this surgical matter is important for most of the transsexuals, but not all of them want be operated and make the transition. I also think that this is a way for you to be understandable for society, for the culture in which you live. If the culture could respect differences, the several sexualities, I doubt if surgery would be so important.

At the age of 14, I still had a feminine identity. When I was 27 years

I am a bionic trans-man, a “Robocop”, as they say, I am a guy who is happy with himself. I think I learned from my father, this vitality to always see the positive side of things, because if I am not happy with myself, nobody will be. I am not religious, but I thank life for giving me the opportunity to be alive until now. I don’t know for how long, since I am a human experiment. What testosterone does to a woman’s body that enters puberty at age 27 and starts, not take estrogen, but testosterone…nobody, no doctor knows. I suffer from systemic arthritis and have been subject to all kinds of surgeries. Now, I also have knee problems, but I can walk, I can speak and I can help others. That is good enough. João W. Neri Transsexual man, 64 years old, psychologist, author of ‘Solitary Journey: Memoirs of a Transsexual 30 Years After’ (Rio de Janeiro)

Diana Blok

Oxumaré and other miracles I was a child who had to face poverty, misery, hunger and child labor. Besides this, I was also victim of violence because I was different. My behavior didn’t fit in any expected male identified gender role. I was a boy who liked girlie stuff. Let me put it this way: I liked dolls, I liked to draw, dance, sing, things that traditionally are not done by boys, but girls. On account of this, I suffered many insults, injuries and offenses, which we now refer to as bullying, both at school and home. Since very early age, I learned that the world was not sweet, loving and welcoming to people who were different, like me.  [...] When I was about 11 years old, I started to participate in the Catholic Church movement, in a church linked to Liberation Theology. In this movement, I was engaged in activities of the church, the Juvenile Pastoral Students (Pastoral da Juventude Estudantil), the Popular Pastoral Youth (Pastoral da Juventude do Meio Popular), and the church helped me build an awareness around social inequalities, the unequal distribution of worldly goods, and it was this awareness which led me to understand the injustices of which I myself was victim. [...] During my teenage years, I started to be aware of my desires. I started to feel desire, affection. I saw that my affections were driven and oriented toward same-sex people, to boys. I started to develop awareness around this, and since I worked in the Catholic Pastoral Church movement, I be-


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came aware at an early age how my sexual orientation made me a target of discrimination: this was the beginning of my political consciousness and activism. I became active in LGBT activism very young, still during my teenage years. I still don’t refer to it as LGBT activism, because I did not know it by this name as of yet. In the city where I grew up, there was no organized gay movement, but there were many homosexuals who were strongly politically and aware in the church, within the Pastoral movement. [...] When I finished the Master Program, I decided to study a TV show, which was very successful in Brazil and all over the world, which is ‘Big Brother’. I was a communications person, I studied mass culture and send in a application to the show intending to perform a sort of ethnography, but… I was selected and to my amazement, I became the winner, thus nationally famous. Before that, I was a wellknown journalist in Bahia; I had been bestowed with awards regarding my social work and engagement with LGBT activism and struggle for the human rights. Via this television experience, I became famous. Then, I really had a challenge at hand which was to put my life back on track, since the show had diverted it off- track, – in the meantime – I had achieved a legacy; the legacy of fame, the legacy of popularity, and I pondered: “I need to get this legacy in harmony with my past since I was born into the world neither to be an instant celebrity, nor to live in the sphere of celebrities. I needed to make another choice. My place in the world is a place of transformation. I have always been aware of this and I managed to match these

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two legacies by deciding to run for office. I said to myself: “I am going to benefit from the popularity, my history with activism and actually became the first homosexual ‘out of the closet’ representative in parliament within the Brazilian Republic, waving the flag for minorities and human rights.  [...] My paternal grandmother, Rosa Ferreira de Miranda, who already passed away, was a Candomblé priestess (zeladora de santo), which we call rezadeira (she who prays): she preached and prayed. My mother had a catholic background. Since I had problems at very early with my father due to alcoholism [...], my mother took us to church. The Catholic Church gave me a very solid foundation, the first notions of communism, not in the political sense of the word communism, but in the Christian sense of sharing, of having things in common, of caring for the other, of being with the other’s pain. [...] The church imposed upon me my first loss of identification with myself. […] After I crossed the bridge from shame to pride, even after getting out of the closet and celebrating the pride of being gay, something inside lingered on, which was the guilt imposed by the church. Realizing this, I knew that I could not live in a desert of belief systems. I found a place in the African religions where I could escape that desert. In African religions, especially Candomblé, what we experience the orisha’s religion and the orishas, as entities, forces of nature which animate them. Orishas are energies of life, sex... Sexuality itself is considered an orisha, like water, wind, disease, health, abundance, old age, child-

hood, all of these life phases, these manifestations, these forces of nature, are divine entities, honored in Candomblé. Candomblé and other African religions are amazingly tolerant of homosexuality. There is an orisha called Oxumaré, a spirit who encompasses both female and male energies. Oxumaré’s symbol is the rainbow, which coincidently is the symbol of the LGBT movement. Candomblé has always been an inclusive religion. Needless to say many pais-de-santo (male priests) are homosexuals, although, for sure, most followers of Candomblé have a Christian hegemonic education. And yet, inside the terreiros (sacred ground), even if there are homosexual preachers, there may be intolerance and homophobia although it is much less. It is common to see women and men subject to the authority of a babalorixá (male priest) who is homosexual, because Candomblé is a rather inclusive religion. I believe that, as a consequence of this, they undergo significant persecution. Christian fundamentalism in Brazil, both the Catholic Christian fundamentalist and the protestant Christian fundamentalist, both slander and pursue LGBT individuals and the followers of African religions.  [...] There is an intriguing historical fact in Brazil: the person who facilitated in the wording of the Brazilian Federal Constitution of 1988, the provision which ensured the freedom of beliefs was Jorge Amado, who was a novelist from Bahia, communist, atheist, but who always saw in the Afro-Brazilian religions, in Candomblé, a resistance against the European white culture which colonized the country. Jorge Amado has always seen this. On the other hand, the Candomblé’s place of


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worship in Bahia also served as a shel- Life in movement allow. In Brasília I was on my own and ter and hiding place for many commuwas there by myself, earning my own nists when the Communist Party was In 1973, when I was first widely known money. So, I had no one to report to clandestine in Brazil. The Brazilian as a singer in Brazil, I was straightfor- about my life. It was in Brasília that I State pursued the communists and ward the first time someone asked me made my way into the artistic world, the Candomblé sheltered the com- about my sexuality. Later on, while where I could live my sexuality. It was munists. When the Communist Party reading the publication of this inter- something that, in the beginning peowas admitted by law, in 1946, Jorge view I read what the journalist wrote: ple would criticize, because I have no Amado was elected representative “About love, he thinks like that….” I did problem with women. I used to get and member of the constitutional con- not talk about love but about sex. It laid by women, I liked it, but I also vention for this party. He included a was very explicit and clear. The very liked to do with men, and I used to constitutional amendment ensuring press did not have the courage to con- say that too, and people would say: religious freedom. Freedom of reli- vey what I said. They were not coura- “This is not possible”. “But how come gion became protected not only for geous enough to publish my words… it is not possible? I am here to testify the followers of Candomblé and Um- but that has changed a lot.  [...] that it is true. So, I am a cocktail, a banda, but for Evangelists, which were mix of all worlds, what madness is pursued by Catholics in 1946. During my teenage years, I started this?”. Then, gays used to tell me that to pay attention to boys, but I could this was a phase, which would define Currently, the fundamentalists not entertain this thought, because of itself eventually. I said: “ok, if I get amongst the Evangelists point to the what I had witnessed. I lived in Mato to this phase.” The only time that my freedom of religion rights provided Grosso do Sul in the 1950s. Imagine father referred to my sexuality was for under the Constitution to deny the how it was in the countryside of Mato like this: he came to my place and right to believe and participate in oth- Grosso do Sul in the 1950s! The capi- saw there were women there. Someer religions, principally the African tal, Campo Grande, was the most dis- time, he cussed me and said: “Come religions. It’s an irony of fate. I identify criminatory city ever. I did not want to on! What you are doing is wrong.” I with Jorge Amado because I am also admit to this reality, because there said: “What is wrong, dad?”. “You have a writer. I am connected to literature was a gay guy in town, and when he to define yourself.” “I do not have to and have a close relationship with walked down the street, people al- define anything, dad. I have to beneAfro-Brazilian religions. The single most threw stones at him, called him fit from all the good things life gives point of discord with Jorge Amado names... I told myself: “God forbid me. I do not have to define myself at is his atheism. He was an atheist and that I am this. God forbid.”  [...] all, for what, for whom and why?” It was an interesting he said this… my I am not. Although an atheist, Jorge Amado was conferred the title of Obá This issue around sexuality was only military father who had always been de Xangô by the sacred ground of Ilê resolved when I was in the army. the repressor would never say this Axé Opô Afonjá, the ground of Mãe Es- There was a good way out of this since to his son; I never imagined I would tela (female priestess). Obá de Xangô I had a platonic infatuation, which we hear that.  [...] means: the eyes of Xangô or Ojuobá. were both aware of. We were living He was an Ojuobá. When someone an infatuation, neither of us had the But what can we make of it, if a person asked to him how it was possible that courage. attacks other person on the street he, an atheist and communist to be if he/she shows a different sexual Obá de Xangô, he said: “I am an atheist, After I came to Brasília, I made up my orientation? I believe that a person but I witnessed miracles, miracles of mind. I had already had this opening who acts like that has a sexual probthe people.” at the barracks. If I fell in love with lem: a man who is comfortable with a same-sex person, why couldn’t I his own sexuality is not concerned Jean Wyllys put it into practice? In Brasília, I got about the sexuality of others. I have 40 years old, born in the State of Bahia, journalist, close to the arts and did everything many heterosexual friends who are Federal Representative (Rio de Janeiro) my father, a military officer would not not concerned about my sexuality


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or anybody else’s sexuality for that matter. They figured out their own sexual preferences well. I believe in this: when a person is aggressive, he/ she has a problem, and that person is rejecting something within himself. I even dare say that it arouses a desire in them.  [...] Revelations...? I remember only one. I have had only one revelation, the first time I did lysergic acid in the 1960s. There I understood what it is to be a human being on this planet, what the value of human being is, the value of a grain of sand. Realizing this I cried with happiness. It was a one off experience. Later on, when I took ayahuasca, the Santo Daime’s ceremonial tea for one and a half year I also had special insights, but the first experience with the lysergic acid was something that showed me the harmony and interconnection existent in the universe. I then realized I was not in tune with the universe until that day. A constant movement of the totality of life, life on the move within the universe. Until then, I felt alone in the world, but from that moment on, I realized I was part of the totality. This allowed me to detach from mediocre thought, allowed my thoughts to see with a panoramic vision. Since I detest being framed in concepts and pre-conceptions I questioned everything, which is pre-established. Why should anybody dictate how everyone should behave? There is not only one road. Our life is like this: you live and experience what is interesting to you…also the uninteresting things. You keep what interests you and is good for you and let go of the other. From then on, was able to see that life consists of experiences. I am performing an experiment, the primordial consciousness

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of everything, I am only passing by, I do not belong here, I am in transit and very grateful to planet Earth for welcoming me.  [...] It is hard choice, but there is a song which I sang most and that, now and then, I still sing, because the more time passes, the more current it becomes, which is Rosa de Hiroshima (Rose of Hiroshima). It is a song that left an imprint, exactly like a poem of Vinícius de Morais, an antinuclear poem. We are not free from this, just that now the power is in more hands. Ney Matogrosso 74 years old, singer (Rio de Janeiro)

Transitive

started to affirm myself as a subject dealing with gender and sexuality. The logic behind sexual identities is not something that fits me. Affirming that I am a heterosexual woman does not answer my biographic trajectory and would be too simplistic to place myself in this ‘identity’ pattern. Even though I cannot affirm myself as a lesbian, a transvestite, a transsexual, I do feel flexible, I would say, has a kind of... Maybe even my physical body has some neutrality, which allows me to come up with certain physical manners and expressions. At times, an evident masculinity arises, then a more conspicuous femininity shows up, and I catch myself in this very fluid essence. In Brazil however, although we do have political activism, this quality is something which seems to remain invisible, people fail to see it as an expression of gender as it is.

Since my teenage years, I had a strong curiosity I invested quite some time in the construction of my femininity. Tatiana Lionço I had the conviction that I was not ex- 37 years old, born in the State of Paraná, academic actly a woman. Femininity harbored researcher, PhD in Psychology and feminist activist (Brasilia) an exercise of construction in which I assembled and also removed the artifices, which brought me closer to a representation of a woman. I was Militancy myself, in my physical body, quite androgynous, and I began to live very I have never suffered from prejuclose to homosexuals at a very early dice, but I had never been close to age. I actually looked like a boy and the subject of homosexuality either. dressed like a woman, I dated homo- Then, when she told me, I was like: “Wow, my daughter, a lesbian! How sexuals... [...] is it possible? How is it going to I mostly have a trajectory of love af- be?” But something else had a lot of fairs with men. In the combat against weight at the same time, which was homophobia and dealing with the is- to imagine the conflict and suffering sues of transvestites and trans along she lived inside herself during those the years with which I work, people ‘closet years’ fearing the family’s always told me: “But you are straight, reaction. That made me very sad. I you are not a transsexual, you are kept on wondering how a twelve-year not a lesbian.” With these studies, I old kid could deal with this pain if


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she could not feel the trust to tell her family. That was even more shocking to me. I thought I had a real relationship with my daughter and I woke up to know that I didn’t, I did not know Thaís.  [...]

ing myself sometimes, thinking, “Wow, this is not normal, I am not a normal person.” but I also thought that before taking this dramatic step, I needed to tell them. It was hard for my mother. My sister told me afterwards that my mother was very relieved, because she always suspected it, but she felt guilty for it. Little by little, my mother and I became close again, to the point that she is currently an LGBT activist. Nowadays, she helps many mothers who have difficulty understanding or accepting the sexual orientation of their kids. She even joins the Gay Pride walks, and wears a T-shirt with the words: “I am proud of my gay child.”

I saw the existing prejudice and said: “No, I cannot simply accept that my daughter lives in a situation like that, common to all of the LGBTs, a discriminatory rejection process which often exists in the heart of the very family. I wanted to work with this, to assist others in some way.” [...] I worked for seven years at an NGO who dealt with fathers who did not accept their children. Last year, together with other mother, we founded ‘Famílias Fora do Armário’ (Families Out of the Closet), targeted at helping families out of the closet, to help parents release the burden of their LGBT children. Since Thaís ‘was out of the closet,’ I have been working for the cause and notice more and more how important the family is. We are witnessing an impressive increase in homophobia in this country. The rise of the religious fundamentalism is a matter of great concern. My mind is set, until my last breath I will fight for the rights of LGBT. Ângela ‘Famílias Fora do Armário,’ mother of Thaís Moisés Nogueira.

Christmas I told them on Christmas Eve, which seems to be the number one date to ‘get out of the closet.’ I drank some beers and had a conversation with my mother and sister. I had thought of kill-

The LGBT population represents a threat to masculinity; fathers have more difficulty than mothers. Because of this threat to masculinity it is repressed and needs to be faced, addressed and actually extinguished. To have to eliminate this threat is sad, it shows us that we are living in a rather sexist society. Gustavo Bernardes Lawyer, general coordinator of the Promotion of LGBT Rights of the Human Rights Office of the Presidency of the Republic (SDH).

Commitment: Letícia and Kátia [Letícia]  Difficulties are good for learning. It was my grandmother, who accepted me. We never talked about it, but she was always by my side, in silence, but she was there. It was a beautiful relationship. When she died, I was deeply sad. Had she not taken me in at the time, I would have been homeless.

Diana Blok

[Kátia]  In fact, I have never felt a strong difference of gender: as boy or girl. I played soccer, marbles on the street, in the countryside, in shorts, topless, short hair. I had no concern at all, and my parents never pressured me with the issue of representing the role model of ‘ the cute little daughter”, there was none of that. The first time I entered a gay bar I was 16. It was funny and strange to enter a place and see two girls holding hands and going upstairs. At that time, I met a girl who was five years older. She was 21, we started dating. We went steady for two years with no major concerns. It was my first time, all with this girl. The lawyer who now works at the National Human Rights Office [Gustavo Bernardes] asked us: “Do you want to appeal to STJ [Superior Court of Justice]?”. We said: “Yes,” since we were angry at not having the protection of governmental law for marriage. It was the first time that I was treated with respect, we were in good hands. Three years went by. The case was tried by the Supreme Court in October 2011, here in Brasília and won. At the time, it was difficult for same-sex people to access complete marital rights. This case opened a lot of judicial doors for many couples with the same wish as ours. Letícia Journalist and Kátia is designer (Brasília).


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Sexual freedom, freedom of thought. I am a kid of the forest: I used to row in the Amazon Forest, draw on the sand of the igarapés (Amazon streams); I used to pick a stick and sketch women in exotic gowns. This happened when I was a boy in the Amazon region: the drawings, dreams of dressing up, the costumes, were always inside of me. I was born gay. My sexuality is the air that I breathe; it is definite, not negotiable. I am like that, I was like that, and I will always be like that. Can you imagine that I was born in the city of Belém, in the State of Pará, in 1962? I was raised in very traditional family, of tough people, a very simple life, and I did not belong to it, to that place, I was a dreamer. I wanted beauty, freedom; I wanted to get out of there quickly. I counted the hours and minutes to escape from that place, that prison, that framework which so displeased me. One day when I woke up late at night to catch the bus to Rio de Janeiro. As I walked down the stairs, my father was waiting at the bottom of the staircase. He startled me because in my mind he was not part of my journey towards freedom. To my great surprise, he was driving me to the bus station. Then, he said: “You are doing exactly what I should have done at your age.” Milton Cunha 51 years old, carnival organizer (Rio de Janeiro).

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Eu te desafio a me amar – Diana Blok  

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