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© Gabrielle Luize

motín

FERNANDA MAGALHÃES LUTE COMO UMA MENINA

Conheça algumas das mulheres incríveis do judô.

Fotografia, performance e aceitação do corpo.

OCUPAR E RESISTIR

Conheça uma das escolas ocupadas no PR.


temer? só temo o silêncio e gritando eu confesso me enjoa o retrocesso resisto porque é na luta que encontro quem eu sou. Ryane Leão @ondejazzmeucoracao


© Gabrielle Luize


© Gabrielle Luize


Carta das Editoras As diversas formas de opressão e violência sempre existiram em toda a história, do holocausto à escravidão, da luta de classes a violência contra o povo indígena, sempre tivemos sujeitos opressores e formas de violência exercidas contra diversos segmentos da sociedade. Porém, junto essas formas de violência, sempre tivemos figuras decisivas na luta pela paz e pela igualdade, de Pagu a Bertha Lutz, a presença de mulheres fortes sempre foi fundamental para a humanidade como um todo. Atualmente, em pleno século XXI, a sociedade capitalista -ainda que de maneira um pouco mais camuflada- continua tentando nos dividir, nos segregar e nos oprimir, seja imponto padrões de beleza e comportamento, ou pela elaboração de leis que controlam nossas decisões. Por conhecermos e vivermos essa realidade, elaboramos a Motín. Uma revista que, através da arte, pretende usar a própria mídia para quebrar essas imposições e empoderar as mulheres para que possamos, cada vez mais unidas, continuar quebrando todas as barreiras que nos limitam de ser quem somos. Acreditamos que documentando as contribuições das mulheres incríveis que conhecemos –e ainda vamos conhecer durante a nossa jornada- e pondo determinados assuntos em pauta, podemos mostrar que a mulher pode, e deve, cada vez mais, assumir papeis de liderança e destaque em todas as esferas da vida. Por isso contamos com seções diversificadas, desde esportes, política, arte e empoderamento, até eventos e seções destinadas às nossas parceiras. Tudo isso para que possamos construir juntas a revolução que ansiamos todos os dias. Esperamos que gostem do que preparamos pra vocês! Nós amamos.

motín

Gabrielle Luize Farago Sabrina Caldas Vollbrecht EDITORAS Isabelle Neri Vicentini DRT 5460 PROFESSORA E ORIENTADORA Beatriz Feijó, Fernanda Bodnar, Franceline Dresch, Juliana Ribas e Ryane Leão COLABORADORAS DEZEMBRO DE 2016


{SUMĂ RIO} Elas Por Elas........................Pg. 8 Do Outro Lado do Muro.........Pg. 11 Entre Elas............................Pg. 12 Ocupar e Resistir...................Pg. 18


Lute Como Uma Menina.......Pg. 24 Um Basta na Violência à Mulher?..... Pg. 32 Fernanda Magalhães............Pg. 38 Cacheadas...........................Pg. 44 Belas, Recatadas e do Lar......Pg. 50


ELAS POR ELAS

Matéria por Gabrielle Luize.

Enquanto essa revista era criada, pedimos para várias mulheres responderem uma pesquisa rápida sobre machismo e sobre a mídia, de modo geral. Queríamos saber como vocês se sentiam, qual era a opinião de vocês e se estávamos indo na direção certa ao criar a Motín. Foram mais de 150 respostas – de mulheres entre 11 e 71 anos - e nós decidimos colocar algumas delas aqui.

MÍDIA

94,7%

não se sentem representadas

88,2%

A mídia faz com que se sintam:

acham que as revistas mostram um padrão de beleza muito distante da realidade

52% 34,9%

65,8%

fora do padrão

insegura

31,6% irritada

acham que as propagandas usam o corpo da mulher para promover vendas

VOCÊ SE SENTE OPRIMIDA PELOS PADRÕES DE BELEZA? acham que há um padrão de beleza imposto pelas mídias e pela sociedade

98,7% nesse padrão tem que ser/ter:

95,3% 82,4% MAGRA

BEM VESTIDA

72,3% 58,8% DEPILADA

“Sim, por que as revistas mostram uma coisa que eu não sou, eu me sinto feia, vendo como as revista mostram a beleza e como falam “para ser bonita e magra de cabelo liso, e tem que usar tal roupa de tal marca”, você tem que se vestir do jeito q você gosta e que você se sinta bem... E muitas pessoas inclusive se sente mal por não ser o padrão que todo mundo quer e que os homens e a música gostam.”

CABELO LISO

“Sim, a mulher brasileira , em sua maioria, possui curvas e eu não tenho muitas. Acho que os homens valorizam além da conta o corpo da mulher e a mídia também.” 54 anos

13 anos “sinto. já tive problemas de saúde tentando alcançar um padrão de corpo doente e ilusório. eu ainda me encaixo em muitos padrões, mas luto pela autonomia de todas as mulheres sobre seus próprios corpos e desejos.” 21 anos


O QUE É BELEZA PRA VOCÊ?

30,3%

se sentem bonitas

45,4% 7,2% NORMAL

11,2% FEIA

“Acho que beleza tá diretamente relacionado ao bem estar. É muito difícil você trombar uma pessoa que se sente muito bem consigo mesma e achar ela feia. Independente de ser magra, gorda, alta, baixa... Tem alguma coisa nesse tipo de gente que harmoniza tudo e, sinceramente, acho que é bem estar, se aceitar como você é.”

MARAVILHOSA

2,6%

19 anos

HORRÍVEL

“Sentir-se bem consigo mesma, independente dos padrões que querem impor à você. Usar o que você gosta e o que combina com seu jeito de ser, de viver, de pensar.” 32 anos

“Meu próprio marido argumenta que eu devo me portar como mulher na frente de pessoas, sem falar palavrão, sem rir alto, sem dançar de maneira esquisita. Me sinto tolhida e oprimida.”

31 anos

“Para mim, beleza pode ser criada, reproduzida e interpretada de várias maneiras. Cada um cria e aprecia da forma que gosta. E ninguém deveria ter o direito de dizer como você deve reproduzir sua própria beleza ou que tipo de beleza você deve apreciar.” 20 anos

“Sim, me sinto oprimida quanto aos padrões de comportamento impostos às mulheres. Por ser jovem e mulher meu comportamento deve ser por um lado delicado, sensivel e feminina e por outro sensual. Pessoalmente acho que nós mulheres podemos sim ser sensíveis mas também fortes e valentes, sem engolir o escrúpulo dosado por nome tamanho, idade e cor. Também acho que os meninos se aproveitam de nossa imagem para construir e afirmar a deles. Uma imagem de homem, macho, pegador enquanto as mulheres são consideradas putas por fazerem o mesmo.”

VOCÊ SE SENTE OPRIMIDA PELOS PADRÕES DE

16 anos

COMPORTAMENTO?

“Sim! Principalmente em relação à submissão aos homens e àquele pensamento terrível de que mulher tem que ser dona de casa, manjar de cozinhar, limpar coisas, passar roupa... Faço tudo de um jeito desengonçado. Sei que não sou menos mulher por isso, mas às vezes me pego pensando “jesus, que tipo de mulher é você que não sabe fazer um feijão? um macarrão? limpar um banheiro?”. Blergh.”

19 anos

“Totalmente. Espera-se que a mulher seja “Bela,recatada e do lar”.... Sempre assim. Mesmo se você trabalhar fora, “ralar” o dia todo, ajudar a pagar as contas da casa.... Mas TUDO o que acontece em sua casa, desde a educação dos filhos até a limpeza e organização.... é SUA responsabilidade. O pior é que essa opinião vem de uma grande maioria feminina....”

53 anos


y 5 músicas pra se empoderar

por Gabrielle Luize

V Pagu - Rita Lee e Zélia Duncan V Can´t

Hold Us Down - Christina Aguilera

V 100% Feminista - MC Carol e Karol Conka V Bad Reputation - Joan Jett V Respect - Aretha Franklin


por Gabrielle Luize

Uma mulher espalha suas poesias pela rua e enfeita o caminho de tantas pessoas. Uma mulher é exposta e perseguida por pintar uma poesia num muro abandonado qualquer. Uma mulher é exposta e perseguida. Ponto final. Mais uma vez. Mais quantas? Um homem se sente no direito de xingar e expor uma mulher. Mais uma vez. Mais quantas? Se fosse outro homem pixando o muro, em vez dessa mulher, será que o homem que xinga, faria o mesmo? Não vão te calar. Não vão nos calar. Não podem. Será que dói tanto tinta em um muro abandonado? Será que o que dói é a mulher que sai de casa, que faz o que quer? Será que o que dói é a mulher que tem voz? Com tantos abusos, violências, pessoas passando fome, o sucateamento da saúde e da educação, o golpe no nosso país... É logo com um pixo -num amontoado de tijolos em um terreno abandonado qualquer- que o homem vai se doer. E, afinal: porque é que com tanta gente sem casa ainda não tem ninguém do outro lado do muro pixado?


© Gabrielle Luize


Matéria por Gabrielle Luize.

ENTRE ELAS

Uma parceria entre Viver Bem e Clube da Alice que resultou numa conversa sobre autoestima e padrões. E a gente foi lá conferir! No dia 31 de Agosto, uma quarta-feira, lá na redação da Gazeta do Povo, rolou um bate-papo -mediado pelas psicólogas Andressa Roveda e Mariita Bertassoni da Silva- sobre padrões de beleza e autoestima. A reunião foi resultado da parceria do Viver Bem, da Gazeta, com o Clube da Alice -um grupo do Facebook só para mulheres que já conta com mais de 325 mil membros e que gerou rebuliço há algum tempo atrás com questionamentos do tipo “como assim um grupo só para mulheres?”. A conversa do dia 31 reuniu em torno de 30 mulheres (de diferentes idades) e que volte e meia expressavam sua indignação com os preconceitos com a mulher, com o machismo diário, com as limitações que são impostas a elas e com as violências de modo de geral. Houveram diversos relatos de situações absurdas pelas quais as mulheres ainda passam e muito se falou sobre a importância do empoderamento feminino para que as mulheres se vejam livres disso tudo. Depois do bate-papo, a revista conversou com a psicóloga Andressa Roveda, de 37 anos, sobre alguns dos assuntos abordados. A psicóloga Andressa Roveda conversando com as mulheres presentes no bate-papo, na Gazeta do Povo, em Curitiba.

Motín: Hoje em dia você consegue dizer que se sente completamente empoderada? Andressa: Sim, plenamente. Motín: Como você conseguiu isso? É um processo constante? Andressa: É muito auto conhecimento e isso não são 10 seções de terapia que vão resolver sua vida. Você tem que se conhecer, fazer exercícios com frequência... E isso é pra sua vida inteira. Só que isso você também leva para a sua vida inteira. Motín: Você acha que um dia vamos conseguir mudar esses padrões de beleza que foram conversados aqui hoje? Esses preconceitos que estão na sociedade... Acha que isso vai mudar? A curto prazo? Andressa: A civilização existe há mais de 200 mil anos, se a gente for pensar só no nosso calendário são 2016... E as coisas não mudaram. Então, assim, a gente ainda acredita que o jovem possa fazer a diferença. Só que o jovem só faz a diferença no momento em que ele participa e que ele consegue tomar decisão. No momento em que a mulher negra fala assim “eu não vou


mais usar chapinha”. No momento em que o homem que é homossexual, ele fala assim “eu vou sair com o meu namorado e vou dar beijo na boca a hora que eu quiser”. Porque isso é empoderamento. Não só o feminino mas, como a gente falou, de classe, de raça, de sexo, de cultura, de idade... Por que é que uma mulher idosa não pode andar de mini saia? Só porque ela tem ruga? É sinal de experiência, de vivência. Ela viveu. Então a gente precisa, sim, mudar esses padrões. Só que esses padrões começam por nós. A gente precisa fugir dos padrões. Depois, ainda, conversamos com a Marta, de 39 anos, que participou de toda a conversa e contou sua opinião pra gente. Motín: Você concorda que tem um padrão de beleza que é imposto pela sociedade? Marta: Eu acho que sim. Não só um padrão de beleza física como também um padrão de comportamento... Ter sucesso, ser bem sucedida, você ser bonita, você ser correta, você falar baixo, você ser magra, você ser boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, boa profissional. Esses os padrões que eu sinto que são mais impostos, assim. Você tem que ser perfeitinha em tudo aquilo que você fizer. Aí tem um padrão de beleza também. Um padrão que tá nas revistas, né. Ser descolada, ser magra, malhar, ter tempo pra cuidar de si, ter uma boa alimentação, comidas orgânicas... Tudo aquilo que é bem difícil. Motín: Você já passou por alguma situação chata de preconceito ou de alguém exigir

que você use determinado tipo de roupa, que nem você perguntou sobre durante a conversa, ou algo assim? Marta: Na verdade, eu sou uma pessoa que caminho muito dentro do padrão pra não me sentir fora, porque já tem a questão do peso... Então, por exemplo, se além disso eu ainda fosse super ultra moderna ou qualquer coisa assim, não teria como pra mim. Então eu sou careta e dentro do padrão por natureza. Eu respeito muito quem caminha de outra maneira mas eu sou super caretona então, pra mim, esse preconceito não existe porque ah... Eu sempre sei como todo mundo vai estar vestido pra eu ir do mesmo jeito, nunca sou aquela que vem pra fazer diferente. Mas eu respeito e da minha parte não tenho nenhum problema com as pessoas que não são assim. Eu não estabeleço para os demais. Isso é pra mim, como eu acho que devo fazer porque, com algumas coisas, acho que me sinto mais confortável assim. Motín: E tem algo que te incomoda na sociedade? Nesse sentido do machismo... Algo que você queria que fosse diferente. Marta: Acho que essa relação com a mulher, que eu acho que é muito pesada. No sentido do não reconhecimento das coisas e do nível de exigência que a gente tem pra todas as coisas. Eu sinto isso muito forte porque eu sou mãe, sou casada... Então eu sinto isso com muita força. E eu gostaria que as pessoas vissem a mulher de uma outra forma. Com a força que ela tem, com tudo aquilo que ela tem pra contribuir e gostaria que a mulher fosse respeitada e valorizada por tudo que ela tem pra


Š Gabrielle Luize

Amanda MillĂŠo Almeida participando do bate-papo e dando sua opiniĂŁo durante o evento.


contribuir. Porque a mulher tem muito pra contribuir. Na verdade, assim, a mulher é responsável por milhões de coisas na sociedade. Inclusive bem estar de filhos, o bem estar da sua casa, na relação com as pessoas, na comunicação... Então eu realmente gostaria de uma valorização disso. Porque a gente não é valorizada por tudo de bom que a gente tem pra oferecer. Motín: E você acha que isso está mudando? Estamos caminhando pra essa mudança? Marta: Olha, isso depende muito da educação que a gente dá pros filhos da gente, sabe? E aqui mesmo, hoje, a gente viu muita coisa do tipo “olha, você vai até aqui. mas daqui você não consegue passar”, né? Que nem quando ela deu o exemplo da professora com os alunos adolescentes... Foi o que eu falei, assim, não é a professora que não vai usar decote porque eles estão “no auge dos hormônios”... Não. É você quem tem que educar seus filho em casa. Dizer “olha só, não olhe pra sua professora com cara de quem quer pegar ela no banheiro”. Entende? Então não sei como é que isso vai caminhar. Eu realmente acredito que a educação pelo respeito e pelo reconhecimento dos outros, vai de cada um... Mas isso é algo que é muito complexo. Não sei até que ponto isso vai avançar em curto prazo.

© Sabrina Vollbrecht

A psicóloga Mariita Bertassoni da Silva durante a conversa sobre padrões de beleza e autoestima, no dia 31 de Agosto, em Curitiba.

© Gabrielle Luize


Foto de Beatriz Feijó.

25 de Novembro - Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

DENUNCIE. LIGUE 180.


© Gabrielle Luize


OCUPAR E RESISTIR

Matéria por Gabrielle Luize.


© Gabrielle Luize

Para contribuir com o já tumultuado cenário político brasileiro, a PEC 241/55 prevê o limite dos gastos públicos em áreas como a saúde e a educação, e a medida provisória (MP 746) da reforma no ensino médio -que torna matérias como educação física, artes, sociologia e filosofia optativas- estão causando revolta em grande parte dos estudantes. Uma das consequencias dessa revolta aparece na forma de ocupações em instituições de ensino espalhadas pelo Brasil -já são mais de 1.100 escolas secundaristas e mais de 80 universidades. Uma das escolas ocupadas é o Colégio Estadual Prof. Isabel Lopes, localizada no bairro Pinheirinho, em Curitiba. A ocupação está sendo realizada por certa de 16 estudantes, cada um com uma função diferente. Toda a organização do ato está sendo protagonizada pelos próprios alunos: horários para dormir e acordar, respeito a lei do silêncio, dormitórios separados, tolerância zero para álcool, tabaco e outras drogas, horário fixo para as refeições e respeito aos colegas são algumas das regras que fazem parte da rotina da ocupação. Os alunos, apesar de não estarem tendo aula formalmente com os professores titulares, se ajudam no estudo entre si, recebem aulas de licenciandos voluntários e oficinas de diferentes temas ministradas por universitários. As meninas desenvolvem um forte e essêncial papel na organização da ocupação. Elas ocupam todo o tipo de função (não tem essa de só mulher lava a louça e só homem lidera) desde a recepção dos visitantes até a logística e a liderança das reuniões. Uma das adolescentes, de forma incisiva, discutia alguns dos problemas relacionados a segurança com os meninos que realizavam a ronda noturna. Os alunos frequentaram uma oficina sobre feminismo onde aprenderam sobre o movimento e a necessidade de combater a violência contra a mulher e toda a forma de machismo. Os secundaristas relataram alguns de seus aprendizados como responsabilidade, asseio, parceria e respeito. Além disso, eles compartilham suas experiências na ocupação no que eles chamam de "Mural do Amor": um quadro de sala de aula cheio de mensagens inspiradoras.


© Gabrielle Luize

p Faixa feita pelos secundaristas e pendurada na entrada do colégio

© Gabrielle Luize

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Horários e regras da ocupa


© Gabrielle Luize

p

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Espaço que a galera organizou pra estudar © Gabrielle Luize

Uma das mensagens escritas no Mural do Amor


© Gabrielle Luize

p © Gabrielle Luize

Hora do almoço na ocupação

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M. comandando uma das reuniões


Da esquerda para a direita: Gabriele Goveia, Silvia Andrade, Natasha Padilha Ferreira, VitĂłria Vesentin e Ana Camargo.

Š Gabrielle Luize


Lute Como Uma Menina

MatĂŠria por Gabrielle Luize.


Natasha Padilha Ferreira e Ana Camargo aquecendo e conversando antes do treino.

© Gabrielle Luize

A Olimpíada foi sediada no Brasil esse ano e pode nos mostrar de perto toda a força e a garra das atletas. Apesar dos casos de preconceito durante o decorrer dos dias do evento -como o machismo ao tratar do caso de Ingrid Oliveira e o preconceito racial que sofreu Rafaela Silva- as mulheres vem se mostrando cada vez mais presentes e mais fortes nos esportes olímpicos. Elas não são o Neymar e nem o Phelps de saia... Elas são Ágatha, Bárbara, Rafaela, Mayra, Poliana, Martine, Kahena e tantas outras.


© Gabrielle Luize Um dos esportes que se destaca pelo desempenho nas Olimpíadas é o judô. Com a medalha de bronze, Ketleyn Quadros se tornou a primeira mulher brasileira a chegar ao pódio olímpico em um esporte individual, em 2008. E, até agora, o Brasil já conta com 5 medalhas olímpicas no judô feminino. A Motín foi até a Sociedade Morgenau, em Curitiba, conhecer algumas atletas incríveis desse esporte... Fica ligada que você ainda pode ouvir o nome delas nas próximas Olímpiadas!

Vitória Vesentin e Silvia Andrade fazendo alongamento.


© Gabrielle Luize

© Gabrielle Luize

Ana Camargo

Gabriele Goveia

IDADE: 17 anos.

IDADE: 18 anos.

PREMIAÇÕES: tem vários títulos sendo os mais importantes... Bi campeã Panamericana, campeã Sulamericana Sub 18, Bi campeã Brasileira, Vice campeã brasileira em 2015, Terceira colocada nos brasileiros sub 21 e sub 23, os três anos consecutivos de seleção brasileira e os vários títulos estaduais e regionais.

COMO COMEÇOU: primos praticavam o esporte, acabou se interessando e começou a praticar aos 9 anos.

COMO COMEÇOU: no colégio, ainda criança, há 12 anos. “Acabei meio que fugindo do balé.” INSPIRAÇÃO NO ESPORTE: “a atleta Mayra Aguiar, mas como pessoa, meu avô é um dos principais que me motivam a estar no tatame todos os dias.” TREINOS: cinco dias na semana, entre dois e três treinos por dia. PRECONCEITO NO ESPORTE? “Sempre tem, sempre acham que só por ser menina, por ser mulher, não vai dar conta de treinar o tanto que a gente treina... Tem gente que acha loucura mas quem tá no esporte sabe que não é bem assim.” /CamargoJudo

TREINOS: normalmente em torno de quatro vezes por semana. PRECONCEITO NO ESPORTE? “Minha mãe queria me tirar do judô porque ela fala que não é coisa de menina mesmo e que tem muito medo de eu me machucar mais. Depois da lesão que eu tive, ela não queria que eu voltasse a treinar.... Eu falei: não, é uma coisa que eu curto, que eu gosto, eu não vou parar. ELa ainda fica meio assim de eu treinar, mas releva.”


© Gabrielle Luize

© Sabrina Vollbrecht

Natasha Padilha Ferreira

Silvia Andrade

IDADE: 17 anos.

IDADE: 16 anos.

PREMIAÇÕES: tem mais de 100 medalhas sendo as principais... 3 de campeã brasileira, 4 de campeã sul-americana, 2 do Pan Americano, “e a principal pra mim a de 3º lugar no circuito mundial.”

PREMIAÇÕES: Tem mais ou menos 80 medalhas. De Paranaense, Seletiva Paranaense, Copa Paraná, Regional, Sul Brasileiro e Brasileiro.

COMO COMEÇOU: há 11 anos. INSPIRAÇÃO NO ESPORTE: Ryoko Tani. “Uma japonesa que era do mesmo peso que eu sou hoje.” TREINOS: em média de 7 treinos por semana mais musculação e crossfit. PRECONCEITO NO ESPORTE? “No meu caso, como eu sou pequena... As pessoas falam ‘nossa, mas você é tão pequena!’, risos. Mas geralmente as pessoas acham legal, na verdade.”

/natasha.padilhaferreira

COMO COMEÇOU: aos 9 anos. INSPIRAÇÃO NO ESPORTE: “Tenho uma inspiração em vários judocas, mas a Rafaela Silvia, não só por ter sido campeã olímpica, mas ela é uma inspiração...” TREINOS: em torno de seis treinos por semana e jiu-jitsu. PRECONCEITO NO ESPORTE? “Os amigos do colégio falam ‘ah, você anda igual um menino’ e coisas desse tipo... Mas não é nada que vai abalar a gente.”

Silvia Andrade


y 5 documentários incríveis

por Gabrielle Luize

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What Happened, Miss Simone? (2015)

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Brave Miss World (2013)

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Doméstica (2012)

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Girl Rising (2013)

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Hot Girls Wanted (2015)


/IncicloColetorMenstrual


Barcos Ă  deriva na regiĂŁo de Mariscal, Bombinhas - SC.


Um Basta na Violência à Mulher? Luta feminina contra a violência no litoral catarinense vem tomando forma.

Matéria e fotos por Beatriz Feijó.


Sendo uma região extremamente conserva- apoio e a encaminhava a delegacia para dora e simples, o litoral catarinense (cito às a realização do B.O. Todo processo contaregiões de bombas e Mariscal) é cenário de va com a presença de Katia que, neste novo casos frequentes de violência e abuso a mu- modelo de atendimento, passava segurança lher. para a vítima que anteriormente sentia-se Katia Rosane da Vara de 45 anos foi pio- humilhada durante o processo. neira nas ações de contenção à violência a Dulce Nanci de Freitas Victorero de 74 mulher no local. Até então não havia nada anos, foi uma vítima da violência. Abusada e além de uma delegacia para vítimas e o resul- agredida física e verbalmente durante anos, tado nunca foi eficaz. Em busca de soluções resolveu ir à delegacia prestar queixa confundou-se o Conselho municipal da mulher, da tra o marido. Chegando lá sentiu-se extrequal Katia foi coordenadora. mamente humilhada “foi uma situação consSendo refúgio de dezenas de mulheres em trangedora, tinha conhecidos, vizinhos meus situações de risco, Katia recebia ligações de lá, e o delegado gritava,”. Dulce diz que Jovens e senhoras que a procuravam em vez sempre foi desta maneira, desde pequena de ligar para a polícia, resultado da confian- presenciava a agressão de seu pai com sua ça adquirida entre as vítimas. madrasta, “eu assistia meu pai bater na miApesar de todo empenho, Katia não con- nha madrasta e isso faz muito tempo.” diz seguia abraçar todos os casos, sendo de ex- ela. “Com meu marido, a agressão cometrema importância sua parçou verbal e foi se tornando ceria com o delegado Paulo “ELE SEMPRE FOI maior, ele sempre foi ditador. de Souza, que intermediava Quando me via voltando pra DITADOR, ME VIA as ações do conselho com casa depois do trabalho, já a delegacia. Paulo ajudava VOLTANDO PRA tarde da noite, me chamava nas ocorrências da delegaprostituta. Batia à porta CASA DEPOIS DO de cia, mas nem sempre o resule saia correndo. Quando eu tado era satisfatório. Muitas TRABALHO, QUE chegava lá não tinha ninmulheres retiravam a queixa ele sempre saia corACABAVA TARDE DA guém, de agressão ou, se isso não rendo, na verdade queria acontecesse, o agressor pame fazer de louca. Acho que NOITE, E ME gava a fiança e logo volele queria se ver livre de mim CHAMAVA DE tava a cometer os mesmos pois eu não queria sexo. Ele delitos. Para Paulo “mulher me humilhava, tentando me PROSTITUTA.” não foi feita pra ser saco de deixar pra baixo. Eu me tranpancada “ e a lei deveria sofrer alguns ajus- cava dentro de casa”. tes para impedir a reincidência de casos, ele Outras vítimas também procuraram Katia no ressalta “Em minha opinião o homem preso em conselho, como Sílvia Helena Kuhnen de 48 flagrante não deveria ter o direito a pagar a anos. Sílvia foi deixada na rua, com 3 filhos fiança, devendo ficar em custódia até a audi- e sem dinheiro algum. Seu marido, não aceiência, garantindo a segurança da mulher. No tando a separação, passou a casa onde momento de sua saída deveria ser obrigado ambos moraram e construíram para o nome a participar de grupos específicos que lhe de familiares dele, fazendo com que Sílvia mostrassem o lado do agredido e os cons- fosse despejada. Sílvia aguentou firme. Antes cientizassem da vulnerabilidade da vítima”. de ser deixada na rua, ela sofria diversos tiSegundo análise do delegado, é importante pos de agressão dentro de casa, “ Em 2005 salientar que a educação começa na infân- quis me separar pois já não aguentava mais cia, “devemos ensinar as crianças, elas são o as brigas, a violência, as drogas...ele não nosso futuro. Elas reproduzem o comportamen- aceitou a separação e sem eu saber pasto de seus pais, por isso, deve-se ensinar a sou a casa pro nome de familiares dele, a elas o respeito as mulheres”. casa que NÓS tínhamos construído. Quando A mulher agredida, na maioria das vezes, eu descobri foi um baque. Chegamos a nos procurava o conselho que a auxiliava, dava reconciliar mas ficou insuportável, empurra-


mos pra mais 3 anos aquela situação. Dava quebra demais, já sai até escoltada de casa pela polícia. Meus filhos assistiam aquilo tudo. Ele dizia que se eu tomasse a casa dele, ele me mataria. Em 2008 tomei uma atitude e com muita luta sai de casa. Fui no conselho da mulher e pedi ajuda.” . Sílvia diz que assim como Dulce também sofria humilhações dentro da delegacia “fiz B.Os, a gente já se sente mal com a situação e ainda vai na delegacia e eles tiram sarro, fiquei marcada na delegacia , quando estamos fragilizadas já é difícil, ainda entrar numa delegacia cheia de homem mal encarado fica pior”. Com a chegada do conselho houve mudanças, assistência e mais segurança para a mulher, porém, não foi a solução final. Até hoje, mesmo com o conselho, muitas mulheres sofrem todos os dias.

Silvia, 48 anos, se emociona ao lembrar dos apertos que passou. “Já sai até escoltada pela polícia de casa, meus filhos assistiam aquilo tudo, fui no conselho da mulher, pedi ajuda, ele dizia que se eu tomasse a casa dele, ele me mataria”.


“Ele batia à porta, e saia correndo, e quando eu chegava na porta e olhava não tinha ninguém, ele sempre saiu correndo, ele queria me fazer de louca” ressalva Dulce.


Dulce demonstra nas mãos, o incomodo que é tocar no assunto da violência vivida.


MatĂŠria por Gabrielle Luize.


© Sabrina Vollbrecht


© Gabrielle Luize


A fotógrafa e performista Fernanda Magalhães usa seu o corpo para, a partir de seus trabalhos, por em pauta os padrões de beleza impostos pela mídia, pela cultura e pela sociedade, de uma maneira geral. A Motín foi até Londrina, no Paraná, conhecer a Fernanda e conversar sobre sua vida e seu trabalho. O resultado foi uma entrevista de mais de 3 horas e a gente separou algumas partes pra vocês lerem e se inspirarem. Motín: A gente escuta falar sobre o seu trabalho que você “rejeita a rejeição”... Você acha que essa é a ideia central do seu trabalho? Fernanda: Essa frase até, que o meu trabalho rejeita a rejeição é de um curador, o Paulo Herkenhoff, ele falou para mim isso. E acho que é bastante acertadada essa análise dele porque, claro, o que eu estou fazendo o tempo inteiro é falando contra essas exclusões, o preconceito... Desde o início foi sempre esse o meu foco. O trabalho começa a partir da minha própria experiência, do meu corpo com o mundo, todo o preconceito, exclusão... Você ser fora do padrão. Uma coisa que me fez sofrer bastante. Ao mesmo tempo, eu sempre me indignei e não quis me submeter a essa lógica de que ‘ah, porque eu sou gordinha não vou fazer isso ou aquilo’. Várias pessoas que eu conheço deixavam de sair, tinham vergonha do seu corpo. E eu falava que não, eu vou seguir minha vida. Foi o que eu sempre fiz. Mas ainda sim eu sofri, claro, porque não é fácil você estar num lugar que as pessoas não te aceitam. Claro que muitas pessoas estão sempre te criticando... São coisas que na maioria das vezes eu nem ouço mas eu imagino e algumas vezes, algumas pessoas, me relatam. Mas é raro porque as pessoas, de alguma forma, têm medo de magoar. São situações em que percebo muito mais de uma forma sutil. Um olhar, uma forma de me destratar... Por isso que o preconceito é tão difícil de falar sobre. É muito sutil como o outro te exclui. Hoje em dia, com as redes, o Facebook principalmente, as pessoas se encorajam de falar ali porque elas acham que estão protegidas por um certo anonimato. Faz parte do nosso dia-a-dia e acho que hoje também muito estimulado pela mídia essa coisa do julgar o outro. Então isso é o que me levou ao trabalho. Viver essa experiência de um corpo de uma menina gordinha, eu era simplesmente arredondada, mas eu era uma menina

normal, talvez alguns quilos acima do peso, mas enfim... E aí já sofri toda aquela carga que vai te pesando. Chega uma hora que aquilo, de alguma forma, estoura... Em geral na forma de distúrbios alimentares. Então teve uma hora da minha vida que eu engordei muito. Eu tive que lidar com aquilo. Num primeiro momento eu fui em médicos, fiz mil dietas, tomei remédios... E depois de um processo longo onde fui tentando emagrecer, eu fui para o Rio de Janeiro e por fim eu fui num médico que falou para mim ‘Isso que você está fazendo é muito pior para você. Tente ficar no corpo que é o seu e viver com isso’ aí, naquele momento, eu tive essa decisão de parar com aquela maluquice. E eu fui fazer um curso de fotografia em Niterói com o Pedro Vasquez, e ele deu um exercício para gente que era um autorretrato e aí eu fiz um primeiro autorretrato no meu quarto, no Rio, Autorretrato no Rio de Janeiro chama essa primeira série. E aí eu decidi fazer uma segunda série e foi um conflito de olhar para aquelas fotos, eu nua naquela situação que eu estava com o meu corpo e não gostar daquilo que eu via e aí eu resolvi cortar esse material, cortar fora o que eu não estava gostando. Foi minha primeira reação. E só quando eu pus o trabalho na parede e as pessoas vieram na exposição foi que as minhas fichas começaram a cair do que era tudo isso que eu estava questionando com esse trabalho. Só que logo no início do meu trabalho de representação da mulher gorda, eu entendi que eu estava falando de mim, mas que eu não estava falando só de mim. Que eu estava falando das mulheres gordas e eu estava falando das mulheres de uma forma geral e chegou uma hora que eu fui entendendo, na verdade, que o meu trabalho estava falando de uma diversidade, desse corpo que é o fora do padrão, não é só das mulheres gordas. Ele nasce nas mulheres gordas, mas, obviamente que eu vou abrirpara todas as outras exclusões e diversida-


des... Então o meu trabalho é um trabalho que vai falar desse preconceito realmente e, ao mesmo tempo, ele tem uma postura política muito forte. Motín: Você acredita que a fotografia e a arte de modo geral têm um papel fundamental nessa luta contra o preconceito? Fernanda: Eu acho que a arte é uma potência enorme. Uma das formas simbólicas de expressão muito poderosas que realmente muda o mundo. Um bom trabalho, às vezes, muda o mundo por muitos séculos. E a fotografia, claro, como uma das artes, tem toda essa potência. Agora, ao mesmo tempo, a fotografia é um dos meios onde também se constrói esse discurso da moda, da aparência... Então a fotografia também é uma linguagem que pode ser usada como qualquer outra. Então, claro que ao mesmo tempo que é uma potência incrível de mudar o mundo, também as artes e a fotografia podem ser muito usadas para coisas negativas. A arte tem sim uma potência incrível mas precisa ser bem usada. A gente tem que ter cuidado, muito cuidado com o que a gente consome e com o que a gente produz. Um cuidado respeito, sabe? Ter respeito com a linguagem e observar aquilo que você consome. Motín: Poderia falar um pouco sobre seu livro, o Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance? Fernanda: O trabalho era uma continuidade desses meus trabalhos das mulheres gordas. Tinha a ver com esse projeto que eu vinha desenvolvendo. E aí, com um mês de mestrado eu acabei descobrindo que eu estava com câncer então foi um período difícil. E, nesse momento, primeiro que você muda e depois que seu trabalho também muda. E o que aconteceu foi que eu percebi que você precisa do outro para se reconstruir. Isso foi a principal coisa para fazer meu trabalho mudar, essa coisa da presença do outro. Naquele momento vocêprecisa do outro para tudo... Desde o outro pra te dar banho até do outro que te ama pra você ter força pra lutar e viver. Então naquele trabalho que eu tinha proposto que era um

trabalho para eu fazer sozinha, aí foi a ideia de expandir o trabalho e chamar o outro para participar. Então, por isso, Corpo Re-construção é esse corpo que se reconstrói. Ação Ritual Performance porque aí a Ação é a coisa da performance em si, de ser uma ação que acontece no próprio momento, sem ser uma coisa exatamente planejada. Aí Ritual porque tem essa coisa de ser ritualística e isso envolve o outro. E Performance a própria ação da performance em si. Motín: Você consegue dizer que hoje você se aceita mais, se sente mais livre? Fernanda: O que eu me sinto hoje é plena. Claro que vou ter momentos que são difíceis, momentos de insegurança, de medo... Porque eu sou ser humano. E as violências às vezes pegam a gente um pouco de rasteira. Mas eu me sinto mais plena, dona de mim, das minhas atitudes. E talvez o que me deixa mais feliz é saber que eu tenho um trabalho que é exatamente como eu gostaria que fosse. Sem ter que me servir a um sistema. O meu trabalho não é um trabalho que cabe nesse lugar do grande sistema. Ele tem a ver como uma coisa mais íntegra, que tem a ver com aquilo que eu penso, uma questão ética mesmo. Então, sim, eu me sinto hoje muito livre. Livre em todos os sentidos. Inclusive de fazer o trabalho que eu quero. Que necessariamente não está se curvando ao mercado. Não é o caminho mais fácil, às vezes eu sofro um pouco porque você tem que ficar lutando, sempre estar em alerta. Mas é um lugar que me agrada. É o meu lugar no mundo. Então eu acho que nesse sentido, sim, eu me sinto muito livre. Porque eu faço aquilo que eu quero e por mais que tenham as críticas, as pessoas me respeitam. Eu me sinto dona do meu caminho. Mesmo que os caminhos não sejam os mais fáceis, eu sei que eles são escolhas. E isso me dá uma sensação de liberdade incrível. Quando você faz escolhas, você tem um custo. Mas a escolha é maravilhosa porque você pode ser o que você é. Sou, sou gorda. Com orgulho. Eu falo sempre. Sou gorda com orgulho. Isso não é uma ofensa. Eu prefiro do que falem ‘ah, você é redondinha’. Isso sim é a violência. Então é essa coisa de você não ser hipócrita. Eu acho que isso é uma liberdade incrível.


© Sabrina Vollbrecht


MatĂŠria por Gabrielle Luize.


Caheadas é o projeto de três fotógrafas: Fernanda Bodnar, Franceline Dresch e Juliana Ribas. Através das fotografias, as meninas tentam pôr em discussão o preconceito e promover a aceitação do cabelo cacheado. “Cabelo duro, feio, vassoura, ruim e que não presta. Chapinha, química, alisamento, transição e big chop, é muita coisa não? A história e a bagagem que esse cabelo trás, não acrescenta nada? Dentro de um mundo onde muitos dizem que preconceito não existe mais, e que cabelo cada um tem o seu, sem problema algum, poucas pessoas ainda aceitam os caracóis dos outros e os seus. O restante, acha uma maneira fácil de esconder a sua raiz ou de criticar quem a tem. Alisar é mais fácil do que ficar horas arrumando o cacho. Prendê-lo em um coque é bem mais prático do que os definir. Dentro de cada cacho existem milhões de histórias, tanto pessoais como ancestrais. Valorizar e contar essas histórias é o nosso objetivo. Mostrando que cada cacheado tem orgulho de ser o que é.” - texto do projeto Cacheadas. Meu cabelo, minha essência. Conversamos com a Fran, uma das fotógrafas, e ela contou que a ideia do projeto veio por precisarem produzir um trabalho autoral para a faculdade. “No começo pensamos em falar sobre salões de beleza especialistas em cachos, porém as questões da autoestima e de retratos minimalistas falaram mais alto e resolvemos quebrar tabus, onde a mídia diz para usar cabelo tal, de tal forma.” O objetivo das meninas era mostrar mulheres de cabelo cacheado fazendo elas se sentirem lindas do jeito que são. Além disso, a Fran contou que elas já passaram por situações de preconceito com os seus cabelos muitas vezes. “Desde a maneira inapropriada como salões de beleza dão ênfase à questão do cabelo cacheado, muitos profissionais não sabem técnicas de corte, que é uma forma completamente diferente, pois o cabelo molhado tem um comprimento e seco outro. Já saímos de salões com formato de poodle na cabeça, foi bizarro. Ouvimos comentários do tipo “nossa deve ser difícil de cuidar não é mesmo” ou “ deixe liso que dá menos trabalho”. As pessoas não se dão conta que cabelo liso ou cacheado dá trabalho da mesma forma, só que com cuidados distintos.” Sobre a experiência de fotografar esse projeto, a fotógrafa conta que foi “surreal, único e inesquecível”. “Compartilhamos histórias de meninas que aprenderam a lidar com o próprio cabelo, parecidas com as nossas histórias, pois duas fotografas do projeto tem cabelo cacheado e uma história com ele. Havia algumas meninas que passaram pela fase da transição capilar, tiveram o cabelo quase raspado para tirar as impurezas de produtos usados, como aquela famosa química para alisar, e começaram do zero, buscando se assumir.” A Fran contou que conhecer cada mulher que participou, foi maravilhoso e que, agora, elas estão estudando a possibilidade de tornar o projeto mais extenso e montar um livro ou uma exposição.


7 :

/cacheadasminhaessencia @cacheadasminhaessencia

Uma das cacheadas do projeto: Gabriella Clemente.


A cacheada Patricia Branco.


A cacheada Kimberly CorrĂŞa.


© Gabrielle Luize


Belas, Recatadas e do Lar

MatĂŠria por Gabrielle Luize.


Em um mundo onde só existimos aos outros se estivermos dentro dos padrões, é essencial por em pauta o padrão de beleza imposto pela mídia e incentivar, cada vez mais, o empoderamento feminino das mais diversas formas. O ensaio fotográfico pode ser, muitas vezes, um incentivo à mulher para se ver de outra forma, se empoderar. Muitas vezes nós, mulheres, nos olhamos no espelho e não gostamos do que vemos e muitas, ao sermos fotografadas e vermos o resultado das fotos, começamos a nos aceitar e nos sentimos lindas e empoderadas. É normal que a maior parte das mulheres não se sinta bem com o próprio corpo, a sociedade diz que nunca é suficiente o modo como nos apresentamos, não fomos criadas para nos amar. Se estamos gordas, precisamos emagrecer. Se estamos magras, precisamos dar uma encorpada. Se temos peito pequeno, é bom por silicone. Se o peito é muito grande, logo nos é sugerida uma redução. Se temos cabelo crespo, devíamos alisar… Aprender a “domar os cachos”. Se o cabelo é liso também não é bom, afinal, é muito escorrido. E, se você, por sorte -ou azar- estiver dentro do padrão, continue. Afinal, envelhecer, não pode! E também procure não demonstrar que está preocupada em se encaixar. Preocupação não é atraente. Em resumo, todas as mulheres, em maior ou menor grau, infelizmente, passam por transtornos e preocupações relacionados a se encaixar no padrão vigente de beleza. Padrões de beleza são nocivos. É um processo constante, empoderador e extremamente necessário romper com eles. É libertador para nós, mulheres, aceitar nosso corpo. Nos permitir usar uma regata, um shorts, um biquíni e até, inclusive, fazer uma foto nua, por que não? Se sentir linda e feliz em um mundo cheio de odiadores de corpos felizes é, sim, um ato revolucionário.


© Gabrielle Luize


© Gabrielle Luize


© Gabrielle Luize


© Gabrielle Luize


© Gabrielle Luize


y 5 filmes pra ver com as amigas

por Gabrielle Luize

a Frida (2002) a Histรณrias Cruzadas (2011) a As Sufragistas (2015) a Carol (2015) a Volver (2006)


É O SEU OLHAR



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