Page 1

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA ARQUITETURA E URBANISMO

PESCA ARTESANAL

TRABALHO E MODO DE VIDA NA BARRA DA LAGOA

ALUNO

GABRIEL GEORGE GROSSKOPF ORIENTADOR

AMÉRICO ISHIDA COORIENTADORA

ADRIANA MARQUES ROSSETTO

FLORIANÓPOLIS 2019


2


GABRIEL GEORGE GROSSKOPF

PESCA ARTESANAL: TRABALHO E MODO DE VIDA NA BARRA DA LAGOA

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Orientador: Américo Ishida Coorientadora: Adriana Marques Rossetto

1a edição

Florianópolis Universidade Federal de Santa Catarina 2019

3 3


IN F O R MAÇ Õ E S Universidade Federal de Santa Catarina Centro Tecnológico Departamento de Arquitetura e Urbanismo Trabalho de Conclusão de Curso Título: “Pesca artesanal: trabalho e modo de vida na Barra da Lagoa” Autor: Gabriel George Grosskopf Matrícula: 14100797 Orientador: Américo Ishida Coorientadora: Adriana Marques Rossetto Florianópolis, julho de 2019

4


AGR A D EC I M E N TO S

Agradeço em primeiro lugar à minha família, que sempre me incentivou a

superar os próprios limites, a ter disciplina e a cumprir com a palavra. Agradeço por sempre investirem em estudo de qualidade e mostrarem a importância de valores fundamentais, como o respeito e a empatia. Também sou grato por ter aprendido com vocês sobre a relevância que a cultura e a natureza têm na vida humana.

Agradeço àqueles que acompanharam esse trabalho de perto, bem como

fizeram parte fundamental da minha trajetória acadêmica. Agradeço em especial ao Fellipy por abrir meus olhos para um universo que existe nas belezas do cotidiano e dos pequenos gestos, pelo companheirismo único e por me acolher, juntamente com sua família, na vida e cultura da ilha.

Agradeço ao curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC, que me acolheu

como aluno e hoje me forma como profissional. Nesse sentido, agradeço a todos os professores que fizeram parte da minha trajetória acadêmica, nos quais me espelho e tenho como referência por valorizarem o conhecimento, a ciência e o aprendizado. Sou especialmente grato aos meus queridos orientadores Américo e Adriana, professores que admiro profundamente e que não pouparam conhecimento para me ajudar a construir este trabalho de conclusão de curso, que é um grande orgulho para mim.

Agradeço também aos colegas de graduação que estiveram presentes em

diversos momentos significativos, em especial Elaine, Alan, Jazmín e Beatriz, pelo convívio, conversas, jogos, jantas, desabafos e risadas.

Agradeço a meus amigos planaltinos que também embarcaram nessa jornada

de estudar e morar longe de casa, em especial Heloise, Camila, Daniele e Johan, que foram e são aquele pedacinho de casa aqui na ilha.

Agradeço respeitosamente aos pescadores e moradores com quem conversei

por terem cedido seu tempo e sua experiência, que contribuíram significativamente para a existência deste trabalho.

Por fim, agradeço à Universidade Federal de Santa Catarina por ter aberto

uma infinidade de portas, tendo sido uma segunda casa durante esses últimos cinco anos. Agradeço ainda por abrir cada vez mais meus olhos e minha mente para a pluralidade da existência, e por sempre estimular o olhar crítico e reflexivo.

Dedico este trabalho aos saberes ancestrais, que por sua essência fundamental

são capazes de superar a voracidade do tempo e da história, reinventando-se a cada dia.

5


6


ÍN D IC E

Introdução Pela continuidade da pesca artesanal....................................................................................................................12 Modalidade artesanal de pesca..............................................................................................................................14 Pesca e agricultura em uma ilha rural......................................................................................................................16 Problemática Das canoas às lanchas.............................................................................................................................................18 Processo de estudo Desenhando paisagens pesqueiras.........................................................................................................................20 Referencial O que tem sido feito?.............................................................................................................................................24 Local de intervenção Barra da Lagoa.......................................................................................................................................................28 Barra da Lagoa: um bairro de origem pesqueira....................................................................................................30 Oportunidade num vazio urbano.............................................................................................................................32 Projeto Implantação da proposta.......................................................................................................................................34 Isométrica do conjunto............................................................................................................................................36 Plantas baixas da área central...............................................................................................................................38 Cortes AA e BB........................................................................................................................................................40 Cortes CC e DD......................................................................................................................................................42 Praça central..........................................................................................................................................................44 Moradias e hortas...................................................................................................................................................46 Moradias.................................................................................................................................................................48 Oficina de barcos e varais de rede........................................................................................................................50 Mercado de pescados e orgânicos........................................................................................................................52 Sede administrativa e Memorial da pesca artesanal.............................................................................................54 Centro comunitário.................................................................................................................................................56 Tratamento de efluentes..........................................................................................................................................58 Sistema estrutural proposto....................................................................................................................................60 Considerações finais...........................................................................................................................................62 Referências...........................................................................................................................................................64

7


Figura 1: Ilustração da proposta mostrando alça aquaviária, mercado de pescados e oficina de embarcações. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

8


Resumo Saberes ancestrais como a construção e o reparo de embarcações, o cerco da tainha com canoa à remo, o entendimento sobre as dinâmicas de ventos e marés, os métodos de manipulação do pescado e a culinária local constituem uma herança cultural que faz da Barra da Lagoa um bairro de origem pesqueira. As orlas da Ilha de Santa Catarina gradativamente vêm sendo transformadas de espaços rurais em balneários de veraneio pela expansão turística, encarecendo o modo de vida e dificultando a permanência de pescadores e agricultores. Nesse processo, questiona-se sobre o futuro não apenas da pesca e dos pescadores, mas da história e cultura locais como partícipes na construção do espaço. Abordando-se a pesca artesanal como modo de vida sustentável e elemento-chave da paisagem cultural da Barra da Lagoa, na costa leste da Ilha de Santa Catarina, assumindo suas transformações frente à contemporaneidade e almejando sua continuidade no futuro, propõe-se ocupar um vazio urbano em localização estratégica com um conjunto que tornaria viável e visível o ciclo da pesca e a produção orgânica. A proposta busca ofertar moradia e equipamentos de suporte para famílias pescadoras e produtoras no intuito de possibilitar sua autonomia, subsistência e segurança alimentar. O projeto prevê centro comunitário, mercado de pescados e orgânicos, oficinas de barcos, moradia acessível, espaços de plantio, tratamento ecológico de esgoto e estratégias para expansão do manguezal remanescente e da restinga, no intuito de costurar natureza e memória e colaborar com uma reflexão sobre o futuro da cultura local e dos espaços de orla. Palavras-chave: pesca artesanal; paisagem cultural; projeto urbano.

Abstract Ancestral knowledge such as the construction and repair of boats, the enclosure of the mullet with paddle boat, the understanding of the dynamics of winds and tides, the methods of fish handling and the local cuisine constitute a cultural heritage that makes Barra da Lagoa a fishery-originated district. The waterfront of Santa Catarina Island have been gradually transformed from rural spaces into summer resorts by the tourist expansion, making the lifestyle more expensive and making it difficult for fishermen and farmers to stay. In this process we questions the future not only of fishing and fishermen but of local history and culture as participants in the construction of space. Approaching artisanal fishery as a sustainable way of living and key element of the cultural landscape of Barra da Lagoa, in the east coast of Santa Catarina Island, assuming its transformations in the face of contemporary times and aiming for its continuity in the future, it is proposed to occupy an urban void in a strategic location with a set of buildings that would make the fishing cycle and organic production viable and visible. The proposal seeks to provide affordable housing and support equipment for fishing and farming families in order to enable their autonomy, subsistence and food security. The project foresees a community center, fish and organics market, boat workshops, housing, planting spaces, ecological wastewater treatment and strategies to expand the remaining mangrove and restinga, in order to sew nature and memory and collaborate with a discussion about the future of local culture and waterside spaces. Key-words: artisanal fishery; cultural landscape; urban design

9


10


Em maio, reparadas as redes velhas ou estragadas e ultimadas as novas, alcatroadas as canoas e pintadas as baleeiras, organizam-se as campanhas e as grandes turmas de camaradas e ajudantes, que entram a povoar os numerosos ranchos das praias, então abertos até os últimos dias de agosto. Por essa ocasião, desde a Ponta Grossa à do Rapa, a oeste e a norte da Ilha, como dobrando daí para leste até Naufragados, um enxame geral de homens e rapazes das freguesias e arraiais nessa área espalhados, agita-se dia e noite, a rir, a parlar e a cantar alegremente, sobre a linha alva dos cômoros ou no alto dos cabeços avançados nas vagas, à espera de que enegreçam o mar azul, ao longe, para dentro do Arvoredo, os primeiros magotes ou mantas de peixe de corso – a tainha, sobretudo – que vem tocada do alto-mar pelas primeiras tempestades de inverno e o consequente regelamento das águas, em busca do costão das ilhotas e do recesso mais ou menos sereno das abras e enseadas. Virgílio Várzea. Santa Catarina - a Ilha (1989), pg. 162

Figura 2: Pescadores artesanais consertando rede para pesca da tainha, Barra da Lagoa, 2018. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

11


P EL A C O N T I N U I DA D E DA P E S C A ART E SA N A L

A expansão turística na Ilha de Santa Catarina

materiais e imateriais relacionados à tradição da

a partir da segunda metade do século XX transformou

pesca artesanal, associados ao espaço geográfico em

rapidamente suas orlas rurais e pesqueiras em

que se encontram, constituem uma paisagem cultural

balneários de veraneio, encarecendo o modo de

(DEMANGEON, 1952; SANTOS, 2006; CASTRIOTA, 2013)

vida e dificultando a permanência de populações

na Barra da Lagoa e testemunham no presente sua

pescadoras e agricultoras nas orlas. Casas rurais e

origem pesqueira.

ranchos de pesca foram substituídos por pousadas,

beach clubs e condomínios de alto padrão econômico;

sendo ocupadas pela expansão turística, surge o

as atividades produtoras e de subsistência deram lugar

questionamento sobre o futuro, não apenas da pesca

ao turismo, ao lazer e ao trabalho assalariado (LAGO,

e dos pescadores, mas da história e cultura locais

1996; CLARAMUNT, 2008;

como protagonistas na construção do espaço,

CAMPOS, 2009; IPHAN,

Considerando-se

que

as

orlas

vêm

especialmente no maior núcleo pesqueiro da ilha.

2015). Atualmente a pesca artesanal se apresenta

Desse modo, propõe-se ocupar um vazio urbano

na ilha como um trabalho acessório e uma herança

em localização estratégica com um complexo

cultural, não mais idêntica à época rural dos colonos

que tornaria viável e visível o ciclo da pesca e a

açorianos, mas presente ainda em muitas praias,

produção orgânica. A proposta busca ofertar moradia

adaptada à condição contemporânea (LAGO, 1996).

e equipamentos de suporte para famílias pescadoras

Dentre os principais pontos pesqueiros remanescentes,

e produtoras da Barra no intuito de possibilitar sua

a Barra da Lagoa se mostrou uma complexa

autonomia, subsistência e a segurança alimentar local

construção social à medida em que abriga o maior

(FAO, 2017).

núcleo pesqueiro da ilha e um popular ponto

turístico de veraneio (DISON, 1982; VÁRZEA, 1989;

a tradição estudada na pesca: artesanalmente, pelo

CLARAMUNT, 2008; VAZ, 2008).

desenho manual, desde a observação das atividades

A pesca artesanal faz parte da paisagem da

pesqueiras em campo à proposição dos equipamentos

Barra da Lagoa e se materializa onde a terra encontra

e das espacialidades do projeto. Nesse processo

a água: nos ranchos de embarcações; nas plataformas

manual foi possível experimentar, testar e verificar

de embarque e conserto dos barcos; nas redes secando

proposições para um estudo preliminar de como

ao ar livre. Manifesta-se também de maneira imaterial,

poderia ser esse complexo agrícola-pesqueiro.

em saberes ancestrais: na construção artesanal de

embarcações (BUBNIAK, 2007); no cerco da tainha

tainha, anchova, corvina, camarão, mandioca, milho,

com canoa à remo - patrimônio cultural do estado

feijão, banana - bem como seus derivados, juntamente

catarinense (VÁRZEA, 1989; SANTA CATARINA, 2018)

com a culinária local e a produção artesanal de bens,

- no conhecimento sobre as dinâmicas de ventos e

constituiriam a base econômica dos moradores desse

marés (DEVOS; VEDANA; BARBOSA, 2016; GERBER,

complexo, contando também com o comércio local e

2017); nos métodos de manipulação do pescado;

com o turismo como oportunidade de complemento de

na culinária local. Esse conjunto de elementos

renda.

12

O estudo do projeto foi desenvolvido como

A venda de pescados e produtos orgânicos -


O projeto pretende ofertar: ___aos

pescadores

e

produtores

locais:

uma

oportunidade de moradia e trabalho, almejando-se a subsistência, a autonomia e a sustentabilidade; ___à comunidade da Barra da Lagoa: oportunidades de emprego, incentivo à agricultura urbana, alimentação saudável e fresca e valorização da cultura local; ___à região da Grande Florianópolis: um equipamento urbano que pode ser usufruído e visitado por todos; ___aos turistas: a promoção do respeito pela cultura local e valorização dos saberes tradicionais, esperando estimular uma reflexão crítica sobre seu impacto no espaço habitado; _____à

natureza:

a

expansão

do

manguezal

remanescente e da restinga no trecho de intervenção; a promoção de um modo de vida mais sustentável nos âmbitos sociais e ambientais, buscando valorizar os recursos naturais enquanto fontes de vida, energia e nutrição.

Figura 3: Ilustração em perspectiva isométrica do projeto e seu entorno imediato. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

13


MO DA L IDA D E A RT E SA N AL DE PESCA

A pesca artesanal e de pequena escala é uma

A continuidade da pesca depende da

categoria de trabalho que gera emprego para mais

reprodução das espécies-alvo, que por sua vez

de 90% dos pescadores do mundo, representando a

depende do equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

principal modalidade de captura, segundo dados da

Autores como Jiménez-Badillo (2008), FAO (2017),

Organização das Nações Unidas para Alimentação

Ríos e Gelcich (2017) destacam o reduzido impacto

e Agricultura, FAO (2017). A modalidade artesanal

ambiental da pesca artesanal, mas reforçam a

representa

capturas

necessidade de gestão dos recursos naturais tanto para

destinadas ao consumo humano, desempenhando

a modalidade artesanal quanto para a industrial, haja

papel fundamental na nutrição e segurança alimentar,

vista que ambas interferem no meio natural. Estratégias

além de contribuir com economias locais, regionais

como a priorização da pesca artesanal, limitação da

e até nacionais (FAO, 2017). Além de um meio de

pesca industrial e proteção dos recursos naturais são

sustento, a modalidade artesanal de pesca representa

capazes de garantir maior sustentabilidade à atividade

uma herança cultural e um modo de vida para muitas

pesqueira e, desse modo, promover sua continuidade

comunidades ao redor do mundo (DIEGUES, 1983; FAO,

enquanto atividade econômica e modo de vida.

2017).

mais

de

dois

terços

das

No litoral de Santa Catarina, há o registro

A Organização das Nações Unidas para

de 317 comunidades pesqueiras nos 34 municípios da

Alimentação e Agricultura (FAO, 2017) e a Lei de Pesca

costa (BANNWART, 2014), com mais de 25 mil pessoas

(BRASIL, 2009) estabeleceram definições mais precisas

que obtêm seu principal sustento diretamente da

do conceito de pesca artesanal, tendo como pontos

atividade, segundo dados do Ministério da Pesca

em comum as dimensões reduzidas da embarcação

e Aquicultura. Estão oficialmente registradas 38

e o baixo investimento tecnológico. Os pescadores

colônias de pesca sob o regimento da Federação de

artesanais também são definidos como detentores dos

Pescadores Artesanais de Santa Catarina (FEPESC),

meios de produção de seu trabalho e do saber-fazer,

entidade que representa o setor, de acordo com

o que confere a eles autonomia.

a Lei das Colônias (BRASIL, 2008) e Lei da Pesca

Diegues (1983) e Lago (1996) destacam o papel

(BRASIL, 2009). Três grandes grupos caracterizam os

da identidade cultural no universo dos pescadores

alvos da atividade no estado: moluscos, crustáceos

artesanais, que se identificam como um grupo

e peixes, totalizando 81 espécies-alvo identificadas.

conhecedor das artes da pesca, da fabricação de

Segundo dados coletados pela EPAGRI no ano de 2010

utensílios à captura do pescado. Essa modalidade de

(BANNWART, 2014), as espécies que compõem a maior

pesca é destinada principalmente à subsistência e ao

parte da pesca artesanal catarinense são a anchova

comércio local, diferentemente da pesca industrial

(26%), o camarão-sete-barbas (15%), a corvina (13%)

destinada à exportação em grande escala e ao

e a tainha (8%), e dentre as 22 modalidades de pesca

comércio internacional (DEVOS; VEDANA; BARBOSA,

identificadas as mais recorrentes são as de emalhe, de

2016; FAO, 2017).

arrasto e de cerco.

14


Figura 4: Pesca conhecida como Arte-Xávega, em Portugal. Fonte: Página da web “Mundo Português”.

Figura 5: Pescadores artesanais na Tanzânia. Fonte: Página da web “Alamy”.

Figura 6: Pescadores artesanais do Rio Tapajós. Fonte: reprodução página da web “Portal G1”, autoria de Sérgio Lobo.

15 Figura 7: Pescadores artesanais em embarcação característica das Filipinas. Fonte: Página da web “Travel Blog”.


P E S C A E AG R I C U LT U R A EM U MA I L HA R U R A L

Santos (2006) argumenta que o ser humano

As comunidades tornaram-se auto-suficientes,

se apropria do espaço geográfico pela técnica, pelo

cultivando e pescando o próprio alimento e fabricando

tempo e pela intencionalidade, que materializam

os meios necessários para o trabalho, como barcos

no espaço objetos técnicos e ações referentes a

de pesca, redes, engenhos, utensílios domésticos,

determinado momento histórico.

Nesse sentido, a

renda e fios para vestuário. O cultivo era na forma

paisagem cultural de um determinado lugar revela,

de policulturas de pequena escala, com significativa

em essência, um modo de vida e um entendimento da

variedade de itens, como mandioca, cana, milho, café

população local sobre o espaço geográfico que ocupa

e feijão (VÁRZEA, 1989).

(DEMANGEON, 1952; UNESCO, 1999; CHOAY, 2001;

SANTOS, 2006).

anchova e tainha capturadas pelo arrasto de praia, era

A pesca artesanal e a agricultura familiar de

dividido entre os participantes do arrasto e levado em

policultura configuram a matriz de ocupação da Ilha de

barcos ao mercado central (figura 10), juntamente com

Santa Catarina, caracterizando uma intencionalidade

alguns produtos agrícolas, para ser comercializado e

humana em um espaço ilhéu (LAGO, 1996; LISBOA, 1997;

possibilitar ao pequeno produtor a compra de bens

VEIGA, 2010; VAZ, 2008; IPHAN, 2015). Os colonos

que não eram produzidos por ele (CASCAES, 1978;

açorianos foram trazidos para a ilha a partir de 1748

DIEGUES, 1983; VÁRZEA, 1989; LAGO, 1996; LISBOA,

e desenvolveram um modo de vida nos moldes das

1997; IPHAN, 2015). Engenhos onde se produzia a

freguesias portuguesas, com economia de subsistência

farinha de mandioca também eram comuns, herança

baseada na agricultura, na pesca e no artesanato,

dos povos indígenas originários, onde desenvolveu-se

mantendo-se assim até o século XX (figuras 8, 9)

posteriormente a cultura da cana de açúcar e café, em

(CASCAES, 1978; DIEGUES, 1983; VÁRZEA, 1989; LAGO,

consonância com a economia brasileira (LAGO, 1996;

1996; VEIGA, 2010; IPHAN, 2015).

CAMPOS, 2009).

Claramunt (2008) aponta que a ocupação da

O pescado sazonal, geralmente corvina,

Várzea (1989) descreve a “faina marinha” nos

ilha pode ser compreendida como uma associação

períodos de pesca, especialmente na safra da tainha,

entre a fundação de freguesias planejadas pela Coroa,

apresentando um universo onde os ranchos e as

como a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, a

“canoas de voga” são protagonistas. As embarcações

Freguesia da Nossa Senhora da Conceição da Lagoa

eram fabricadas de Garapuvu (Schizolobium excelsum)

e a Freguesia da Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão

e Figueira brava (Ficus doliaria); apresentavam

da Ilha, e a formação autônoma de núcleos agrícolas e

bordadura e fundo chato, o que facilitava o acesso

pesqueiros, de crescimento espontâneo, como a Barra

a rios, canais e praias devido ao baixo calado e

da Lagoa, Campeche, Armação e Pântano do Sul. Na

a facilidade de arrastá-las pela terra. Pela noite,

ocupação da ilha também havia terras destinadas

guardavam a canoa e penduravam as redes em varais

a uso comunal, nas quais os pequenos produtores

para secar e verificar danos (VÁRZEA, 1989). Após a

criavam gado, extraíam madeira e também faziam uso

divisão e venda do pescado, a parte que cabia aos

agrícola como forma de complemento à produção de

pescadores era levada para suas casas, onde a família

subsistência (CAMPOS, 1991).

e parentes auxiliavam no preparo e na salga do peixe.

16


Figura 8: Fotografia de casa rural, rancho de pesca e varais de rede na Praia da Lagoinha, datada de 1968. Fonte: Acervo Casa da Memória de Florianópolis.

Figura 9: Fotografia de rancho de pesca na Praia do Campeche, datada de 1982. Fonte: reprodução página da web “Fotos Antigas da Grande Florianópolis”.

Figura 10: Fotografia de venda de pescado no Mercado Municipal de Florianópolis, datada de 1921. Fonte: reprodução página da web “Fotos Antigas de Florianópolis”. 17


DAS C A N OAS ÀS L A N C H AS

Lago (1996), Claramunt (2008) e Campos

Ainda

sobrevivem

na

atualidade

alguns

(2009) salientam que, à medida em que se popularizou

elementos da ilha rural como a pesca artesanal, a

o uso recreativo do mar, a produção do espaço nas

renda de bilro, as festividades (como a Festa do Divino

orlas da ilha passou a seguir os desejos e necessidades

Espírito Santo) e o dialeto típico (CAMPOS, 2009;

dos turistas e novos moradores, priorizando usos como

IPHAN, 2015), que revelam no presente testemunhos da

hospedagem, lazer e comércio. As esparsas casas

história e dos modos de vida ancestrais, representando

rurais e ranchos de pesca de outrora deram lugar a

forças de resistência da cultura local à expansão

avenidas, conjuntos residenciais, condomínios de

urbana e ao impacto do turismo global.

luxo, beach clubs e hotéis de alto padrão econômico.

Canasvieiras, Ponta das Canas, Ingleses e Campeche

ilha como um trabalho acessório e um modo de vida, não

são alguns dos exemplos de antigas comunidades

mais idêntico ao dos colonos açorianos, mas presente

agrícola-pesqueiras que foram transformadas em

ainda em muitas praias da Grande Florianópolis.

balneários turísticos (LAGO, 1996).

Segundo Lago (1996), a sazonalidade da pesca sempre

Quando o valor do solo aumentou pela

exigiu dos pescadores a participação em atividades

elevada procura, a especulação imobiliária exerceu

que complementassem a subsistência e a renda em

pressão sobre ocupações populares e tradicionais. O

períodos entressafra, anteriormente na agricultura e

modo de vida tornou-se caro para muitos pescadores

atualmente em trabalhos assalariados, geralmente

e agricultores, que se viram forçadas a buscar outro

nas áreas de construção civil, administração pública

local de moradia, mais acessível, migrando muitas

e turismo de veraneio (LAGO, 1996; BANNWART, 2014).

vezes para áreas centrais ou continentais e muitos

Portanto, a pesca artesanal representa uma herança

deles se adaptando a trabalhos assalariados (LAGO,

ancestral, e as localidades pesqueiras remanescentes,

1996; DIEGUES, 1997). A expropriação das terras

um patrimônio que se manifesta na paisagem cultural.

comunais, utilizadas pelos camponeses-pescadores para complemento de renda, também contribuíram para esse processo (LISBOA, 1997).

18

Atualmente a pesca artesanal se apresenta na


Figura 11: Fotografia de abrigos de barcos na Praia da Lagoinha, datada de 1968. Fonte: Acervo Casa da Memória de Florianópolis.

Figura 12: Fotografia de barcos, redes de pesca e pescadores na Praia da Lagoinha, datada de 1968. Fonte: Acervo Casa da Memória de Florianópolis.

Figura 13: Fotografia de pescador lançando tarrafa, junto a uma canoa escavada em Garapuvu, sem data. Fonte: Acervo Casa da Memória de Florianópolis.

Figura 14: Fotografia de abrigos de barcos na Praia da Lagoinha, datada de 1968. Fonte: Acervo Casa da Memória de Florianópolis.

Figura 15: Fotografia da Praia da Lagoinha, sem data. Fonte: reprodução página da web “Guia Floripa - praias”, foto de Mario Costa Jr.

Figura 16: Fotografia de praia em Florianópolis durante temporada de verão. Fonte: Daniel Queiroz Fotografia e Multimídia.

Figura 17: Fotografia do área conhecida como “Novo Campeche”. Fonte: reprodução página da web “CDE Via Sul Empreendimentos”.

Figura 18: Fotografia de beach club na praia de Jurerê Internacional. Fonte: reprodução página da web Housemag.

19


D E S ENH A N D O PA I SAG E N S P E S Q U EI R AS

Buscou-se realizar um mapeamento

prévio e aproximado da atividade pesqueira nas orlas da Ilha de Santa Catarina na atualidade, tomando-se como base conversas com moradores locais, visitas exploratórias e vivências. Várzea (1989) e Lago (1996) descrevem atividades pesqueiras e extrativistas em toda a orla da ilha, especialmente nas localidades de Saco dos Limões, Costeira do Pirajubaé, Caiacanga-açu, Pântano do Sul, Armação, Lagoa da Conceição, Barra da Lagoa, Campeche, Canasvieiras, Ingleses, Praia das Aranhas, Rapa (que pode abranger a Praia da Lagoinha do Norte e a praia Brava), Ponta das Canas, Ponta Grossa, Cacupé e Ribeirão. Na elaboração do mapeamento, verificouse que muitos dos pontos mencionados por Várzea (1989) e Lago (1996) ainda apresentam manifestações da pesca artesanal, mas com diferenças significativas entre eles em função dos distintos processos de ocupação e urbanização das orlas da ilha. Figura 19. Elaborado pelo autor.

Buscando-se compreender a relação entre o espaço costeiro e as atividades pesqueiras na ilha,

foram realizadas visitas exploratórias a tradicionais pontos pesqueiros mencionados por Várzea (1989) e Lago (1996) que permanecem referências da pesca artesanal na atualidade: Campeche, Armação, Pântano do Sul e Barra da Lagoa. As visitas iniciaram no inverno de 2018, durante a safra da tainha, registrando-se em desenhos de observação e fotografias as vivências e percepções sobre aspectos materiais e imateriais do modo de vida pesqueiro. Conversando com a população local foi possível ter contato com o modo de vida e o cotidiano, numa tentativa de melhor compreender as dinâmicas sociais das localidades visitadas. O objetivo desse estudo exploratório era tentar responder perguntas como: quais são os espaços de referência da pesca artesanal? Como os pescadores e não-pescadores se relacionam com esses espaços? O que essas espacialidades representam para o bairro? 20


Figura 20: Grupo musical no Rancho do “Seu Deca”, no Campeche. Figura 21: Praia da Armação, no sul da Ilha de Santa Catarina. Fonte: Fonte: autor. autor.

Figura 22: Abertura da safra da tainha de 2018 no Rancho do “Seu Figura 23: Pescadores consertando rede na Ponta da Armação. Fonte: Deca”, no Campeche. Fonte: autor. autor.

Figura 24: Pescador consertando tarrafa no molhe da Barra da Lagoa. Figura 25: Oficina de barcos na Praia da Armação. Fonte: autor. Fonte: autor.

Figura 26: Canoa da pesca da tainha na Barra da Lagoa. Fonte: autor.

Figura 27: Praia do Pântano do Sul. Fonte: autor.

21


D E S ENH A N D O PA I SAG E N S P E S Q U EI R AS

Figura 28: Ilustração do entardecer na Praia da Armação, conhecido núcleo pesqueiro artesanal da Ilha de Santa Catarina. Elaborado pelo autor.

Figura 29: Ilustração de pescadores consertando uma rede de pesca na Ponta da Armação e conversando sobre os acontecimentos da semana. Elaborado pelo autor.

Figura 30: Ilustração externa do rancho do “Seu Deca”, no Campeche. Elaborado pelo autor.

Figura 31: Ilustração de pescadores consertando embarcações na Oficina de Barcos da Praia da Armação. Elaborado pelo autor.

22


Figura 32: Ilustração do interior do rancho do “Seu Deca”, no Campeche, construção feita em peças de madeira e com áreas hidráulicas em alvenaria. O rancho foi transformado em um espaço cultural, com fotografias de pescadores conhecidos da praia, e conta com oratório e cozinha. Elaborado pelo autor.

O rancho do “Seu Deca”, na praia do

Campeche, segue o partido geral dos tradicionais ranchos de pesca: é composto por um longo volume térreo feito de peças de madeira e revestido com tábuas, com treliças de madeira que sustentam a cobertura. Nesse espaço amplo ficam guardadas as canoas e todos os utensílios de trabalho. No fundo da construção, um volume distinto de alvenaria conforma uma cozinha e um pequeno oratório, indicando que o rancho representa também um espaço de permanência, convívio e representação simbólica. Nas visitas tornou-se evidente que o rancho de pesca é a materialização de um modo de vida próximo ao mar e que mescla identidades pessoais com o ofício de pescador.

Figura 33: Ilustração externa do rancho do “Seu Deca”, no Campeche. Elaborado pelo autor.

23


O Q U E TE M S I D O F E I TO?

Ocupações

tradicionais,

como

núcleos

Dentre iniciativas populares em núcleos

sua

pesqueiros, destaca-se a formação de cooperativas de

continuidade ameaçada frente à expansão urbana,

pesca, entidades capazes de proporcionar garantias

ao desenvolvimento tecnológico e à especulação

e certa segurança econômica para pescadores

imobiliária. Em algumas situações, torna-se necessário

artesanais associados. As Cooperativas de pesca

adotar mecanismos e estratégias capazes de estimular,

do litoral de São Paulo, como as de São Sebastião,

em conjunto, a permanência e a continuidade dessas

Cananeia, Vila Velha e Bacia de Campos são alguns

ocupações, que trazem consigo relevância social,

exemplos de êxito.

cultural e econômica. Três estratégias principais podem

ser elencadas: de caráter legislativo; de iniciativa

demonstrar que algumas intervenções no espaço podem

popular; de intervenção no espaço.

valorizar atividades produtoras e pesqueiras, além de

promover ocupações com menor impacto ambiental.

pesqueiros

artesaians,

frequentemente

têm

Na esfera legislativa, a certificação de

Tratando-se do papel de projetistas, busca-se

produtos locais e/ou orgânicos em políticas de ativos

Embora

territoriais pode estimular a realização de feiras de

tradicionais, propostas de moradia do BedZED, de Bill

bairro e mercados locais em um esforço de valorizar

Dunster Architects em Londres, Inglaterra, 2002 (figura

os circuitos curtos de produção e venda. No âmbito

34), da Christie Walk Eco-village, do grupo Ecopolis

da pesca, as cotas de captura, as licenças anuais

Architects em Adelaide, Austrália (figuras 35 e 36) e da

de pesca, o seguro-defeso e os períodos de captura

Housing Hope - Twin Lakes Landing, da parceria entre

por modalidade atuam, em conjunto, como maneiras

Designs Northwest Architects + HKP Architects, em

de proteger o ecossistema marinho, valorizar a pesca

Marysville, WA (figura 37) destacam-se pela geração

artesanal e frear o impacto da pesca industrial

de energia, aproveitamento da iluminação natural e

(JIMÉNEZ-BADILLO, 2008; FAO, 2017; RÍOS; GELCICH,

uso de espaços abertos para cultivo de hortaliças em

2017).

pequena escala, buscando a eficiência energética e a

Políticas de permanência e de uso da terra

também são fundamentais na proteção de ocupações tradicionais à medida em que buscam reduzir o impacto da expansão urbana e especulação imobiliária nesses espaços. No Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador (2008), por exemplo, foi criada uma categoria de ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) específica para assentamentos de populações quilombolas e/ou de culturas tradicionais vinculadas à pesca e ao extrativismo como maneira de garantir às comunidades permanência e autonomia em seus espaços de atuação (ROLNIK; SANTORO, 2013). 24

não

sejam

destinados

a

comunidades

difusão da agricultura urbana (FARR, 2013).


Figura 34: Moradia BedZED. Fonte: Bill Dunster Architects - pรกgina da web.

Figuras 35 (esq.) e 36 (dir.): Christie Walk Eco-village. Fonte: Ecopolis Architects - pรกgina da web.

25 Figura 37: Housing Hope - Twin Lakes Landing. Fonte: HKP Architects - pรกgina da web.


O Q U E TE M S I D O F E I TO?

Na América Latina, intervenções no Equador,

O Estaleiro Escola, construido em 2006, foi

no Chile e no Brasil têm proposto sistemas e estuturas

uma iniciativa do governo do Maranhão no intuito de

de apoio a populações tradicionais e/ou de baixa

promover a continuidade da construção artesanal

renda. Destaca-se o projeto de infraestrutura urbana

de barcos e ofertar cursos profissionalizantes à

e pesqueira de Puerto Hualtaco, projeto do Ministerio

comunidade de Tamancão, em São Luís. A proposta

de Desarrollo Urbano y Vivienda de Ecuador (figura

buscou integrar saberes tradicionais às demandas

38) e a Comuna (figura 39) - projeto de Natura Futura

da contemporaneidade, buscando oferecer novas

Arquitectura em parceria com Frontera Sur - ambos em

possibilidades de renda à população local.

Huaquillas, El Oro, no Equador. Também se destacam

o Mercado Fluvial de Valdívia (figura 40), no Chile, o

Infantis para a escola rural de Canuanã, parceria

Conjunto Vila da Barca (figura 41), as Moradas infantis

entre Marcelo Rosenbaum e o escritório Aleph Zero,

de Canuanã (figura 43) e o Estaleiro Escola (figura

realizada em 2017. O conjunto foi construído com

42), no Brasil.

materiais regionais, com destaque para a estrutura de

O projeto de melhoria da infraestrutura de

madeira e para o uso do solocimento numa tentativa

Puerto Hualtaco iniciou em 2009 e teve como objetivos

de se criar espacialidades às quais as crianças do

valorizar as atividades pesqueiras e o potencial turístico

local estivessem familiarizadas.

associado às orlas e ao consumo de frutos do mar

(CRUZ, 2014). A Comuna, por sua vez, buscou mesclar

urbana, destaca-se a Eco-machine para tratamento

moradia e espaços de trabalho para uma família que

ecológico de efluentes, desenvolvido por John Todd

realiza a reciclagem de resíduos sólidos em Huaquillas,

Ecological Design (TODD; BROWN; WELLS, 2003). O

ao mesmo tempo que oferece suporte a atividades

equipamento é um sistema que trata o esgoto em uma

comunitárias (SANTIBAÑEZ, 2018). No Chile, país de

série de etapas, com destaque para wetlands e tanques

tradição pesqueira, destaca-se o Mercado Fluvial de

com agentes filtrantes naturais. A edificação que

Valdívia, onde é possível comprar pescados frescos e

abriga os tanques é geralmente aberta à comunidade

onde o trabalho do pescador e de quem manipula o

como

peixe é evidenciado.

podendo realizar o tratamento de água para reuso em

No Brasil, o projeto de moradias para uma ZEIS

edificações públicas adjacentes. Pode-se citar como

de pescadores artesanais em Belém (PA) resultou na

exemplo o The Omega Center for Sustainable Living

construção do Conjunto Vila da Barca, em 2006, numa

(figuras 44 e 45) e City of South Burlington Municipal

tentativa de manter a interação espacial e a morfologia

Eco-machine.

do conjunto arquitetônico pré-existente, oferecendo moradias de maior durabilidade à população do local (MCIDADES, 2009).

26

Destaca-se também a proposta de Moradas

Tratando-se de projetos de infraestrutura

um

equipamento

urbano

e

paisagístico,


Figura 38: Puerto Hualtaco, Huaquillas, Equador. Fonte: El Telégrafo.

Figura 39: La Comuna. Fonte: Portal Arch Figura 40: Mercado Fluvial de Valdívia, Chile. Daily. Fonte: Página da web Depositphotos.

Figura 41: Conjunto Vila da Barca, Belém, Pará. Figura 42: Estaleiro Escola, São Luís, Maranhão. Fonte: Página da web Skyscrapercity. Fonte: Página da web “Blog do Bóis”.

Figura 43: Moradas infantis Canuanã. Fonte: Página da web - Portal ArchDaily.

27 Figura 44: The Omega Center for Sustainable Living. Figura 45: Eco-machine. Fonte: Página da web - Living Future Institute. Fonte: Página da web - Living Future Institute.


N

Figura 46. Elaborado pelo autor.

Figura 47: Ortofoto (2016) da Barra da Lagoa. Fonte: Geoprocessamento Corporativo de Florianópolis.

BARRA DA LAGOA

A Barra da Lagoa é um bairro do município de

Atualmente a pesca artesanal se apresenta

Florianópolis localizado na costa leste da Ilha de Santa

na ilha como um trabalho acessório e uma herança

Catarina. É delimitado a leste pelo Oceano Atlântico;

cultural, não mais idêntica à época rural dos colonos

ao sul pelo Morro da Galheta; a oeste pela Lagoa

açorianos, mas presente ainda em muitas praias,

da Conceição; ao norte pelo Parque Estadual do Rio

adaptada à condição contemporânea (LAGO, 1996).

Vermelho.

Dentre os principais pontos pesqueiros remanescentes,

O principal elemento do bairro é o Canal da

a Barra da Lagoa se mostrou uma complexa

Barra, uma ligação que conecta o mar e a Lagoa da

construção social à medida em que abriga o maior

Conceição e que já sofreu ampliações a pedido dos

núcleo pesqueiro da ilha e um popular ponto

pescadores locais. Pelo canal transitam barcos de

turístico de veraneio (DISON, 1982; VÁRZEA, 1989;

pesca, lanchas, barcos turísticos, botes e bateiras,

CLARAMUNT, 2008; VAZ, 2008).

representando no meio aquático as diversas culturas e

esferas sociais presentes no bairro.

28


PARQUE ESTADUAL DO RIO VERMELHO

MAPA DA BARRA DA LAGOA: MASSAS DE VEGETAÇÃO, LIMITES AQUÁTICOS, VIAS E EDIFICAÇÕES

Figura 48. Elaborado pelo autor.

29


BARRA DA LAGOA U M B A I R R O D E ORIGE M PE SQUE IRA

A pesca artesanal faz parte da paisagem da

Esse conjunto de elementos materiais -

Barra da Lagoa e se materializa onde a terra encontra

construções e equipamentos - e imateriais - técnicas

a água: nos ranchos de embarcações; nas plataformas

e saberes da população local - relacionados à

de embarque e conserto dos barcos (figuras 50, 51

tradição da pesca artesanal, associados ao espaço

e 52); nas redes secando ao ar livre (figuras 49, 51,

geográfico em que se encontram, constituem uma

52, 55). Manifesta-se também de maneira imaterial,

paisagem cultural (DEMANGEON, 1952; SANTOS, 2006;

em saberes ancestrais: na construção artesanal de

CASTRIOTA, 2013) na Barra da Lagoa, que testemunha

embarcações (BUBNIAK, 2007) (figura 54); no cerco

no presente sua origem pesqueira. A ação humana é

da tainha com canoa à remo - patrimônio cultural do

influenciada pelo espaço, e ao mesmo tempo também

estado catarinense (VÁRZEA, 1989; SANTA CATARINA,

o transforma numa relação dialética (figuras 55, 56,

2018) - no conhecimento sobre as dinâmicas de

57).

ventos e marés (DEVOS; VEDANA; BARBOSA, 2016; GERBER, 2017); nos métodos de manipulação do pescado; na culinária local.

Figura 50: Barco sobre trilhos, Barra da Lagoa, 2019. Fonte: autor.

Figura 49: Conserto de rede, Barra da Figura 51: Espacialidades pesqueiras no Canal Figura 52: Plataformas de trabalho e embarcações no Canal da Barra da 30 da Barra da Lagoa, 2019. Fonte: autor. Lagoa, 2019. Fonte: autor. Lagoa, 2018. Fonte: autor.


Figura 55: Pescadores à espera da tainha no molhe da Barra da Lagoa, 2018. Aquarela sobre papel.Elaborado pelo autor.

Figura 56: Pescadores artesanais consertando rede para pesca da tainha, Barra da Lagoa, 2018. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

Figura 53: Atividades da pesca junto à moradia na Barra da Lagoa, 2019. Fonte: autor.

Figura 54: Estaleiro de produção artesanal de barcos na Barra da Lagoa, 2019. Fonte: autor.

Figura 57: Chegada de embarcação com pescado no Canal da Barra da Lagoa, 2018. 31 Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.


B

A

C D

N

Figura 58: Localização do vazio urbano em relação à Barra da Lagoa. Elaborado pelo autor.

Na área central da Barra da Lagoa há um

as proximidades do lote são servidas por transporte

terreno ocioso (figuras 58 e 59) de grandes dimensões

público, além de contar com comércio local como

(aproximadamente 80 m²), chamado aqui de “vazio

mercados, lanchonetes, restaurantes, etc. As linhas

urbano” em consonância com o termo que descreve

tracejadas representam vias locais que dão acesso

lotes que não estão cumprindo com a função social da

ao terreno. Percebe-se com isso que o lote conta com

propriedade, prevista no Estatudo da Cidade (2001).

diversos pontos de conexão com diferentes partes do

Esse vazio está localizado em local estratégico: entre

bairro.

as principais vias da Barra e o canal, próximo a uma

série de equipamentos comunitários como o Conselho

com o canal há um manguezal remanescente numa

Comunitário da Barra da Lagoa (A), a Escola de

estreita faixa de vegetação de orla (figura 60), que

Ensino Médio Pref. Acácio Garibaldi Santiago (B), a

atualmente se encontra separado do lote por uma

creche Prof.a Elisabete Nunes Anderle (C, figura 65),

cerca (figura 61). Essa interação entre o lote e o

atualmente em ampliação, e um estaleiro que produz

manguezal não representa a relação ideal entre o

barcos artesanalmente (D, figura 66).

terreno e a vegetação de orla, sendo que uma situação

As principais vias do bairro estão representadas

desejável seria haver uma transição mais gradual entre

na cor laranja, e os pontos amarelos representam

os diferentes tipos de vegetação no intuito de proteger

pontos de ônibus. Torna-se evidente, portanto, que

as dinâmicas existentes da fauna local.

32

Nos limites do terreno que estão em contato


Figura 59: Localização do vazio urbano em relação à Barra da Lagoa. Fonte: Geoprocessamento Corporativo de Florianópolis.

Figura 60: Vegetação de orla/manguezal remanescente no Canal da Barra Fonte: autor.

Figura 61: Vista do vazio urbano e do manguezal cercado nas proximidades do Conselho Comunitário (A). Fonte: autor.

Figura 62: Vista do terreno a partir da Rua Altamiro Barcelos Dutra. Fonte: autor.

Figura 63: Edificação existente e ampliação da Creche Prof.a Elisabete Nunes Anderle (C). Fonte: autor.

Figura 64: Vista do estaleiro de produção artesanal de barcos (D). Fonte: autor.

33


B

A

C

D

IMPL ANTAÇÃO N 10 20

30

m

Figura 65: Implantação da proposta em relação ao entorno imediato, na Barra da Lagoa, com as vias principais destacadas em preto e as edificações comunitárias próximas existentes em cor laranja: Conselho Comunitário (A), E.E.M. Pref. Acácio Garibaldi Santiago (B); Creche Prof.a Elisabete Nunes Anderle (C) e rancho de produção artesanal de barcos (D). Elaborado pelo autor sobre base do Geoprocessamento Corporativo de Florianópolis

Considerando-se

que

as

orlas

vêm

o bairro diretamente ao Canal da Barra. Conexões

sendo ocupadas pela expansão turística, surge o

transversais

questionamento sobre o futuro, não apenas da pesca

áreas do entorno, buscando-se a proximidade com

e dos pescadores, mas da história e cultura locais

equipamentos existentes como o Conselho Comunitário

como protagonistas na construção do espaço,

(A), a Escola de Ensino Médio Pref. Acácio Garibaldi

especialmente no maior núcleo pesqueiro da ilha.

Santiago (B), a Creche Prof.aª Elisabete Nunes Anderle

Desse modo, propõe-se ocupar um vazio urbano em

(C), e o estaleiro (D). As conexões conformam quadras

localização estratégica com um conjunto que tornaria

habitacionais com espaços livres destinados ao cultivo

viável e visível o ciclo da pesca e a produção

de legumes, hortaliças e frutas.

orgânica. A proposta busca ofertar moradia e

equipamentos de suporte para famílias pescadoras

adjacente ao Canal que poderia funcionar como

e produtoras da Barra no intuito de possibilitar sua

principal espaço de trabalho dos pescadores, dando

autonomia, subsistência e a segurança alimentar local

acesso às oficinas e ao mercado de pescados,

(FAO, 2017).

liberando a orla do canal para a recuperação da

Assumindo-se a permanência e o acesso

às orlas como as premissas fundamentais para a viabilidade das atividades pesqueiras, foi proposto um eixo longitudinal ao terreno e uma praça com os principais equipamentos comunitários do conjunto - sede administrativa, centro comunitário, mercado de pescados, oficina de embarcações - conectando

34

foram

pensadas

para

costurar

as

Propõe-se a abertura de uma alça aquática

restinga e manguezal remanescentes, necessários à proteção das orlas. O complexo produziria sua própria energia, com a instalação de painéis fotovoltaicos na cobertura das edificações, e realizaria o tratamento de esgoto local com o uso de tanques anaeróbicos, agentes filtrantes naturais e wetlands (áreas alagadas) construidas.


Figura 66: Esquema ilustrativo do vazio urbano e do manguezal existente. Elaborado pelo autor.

Figura 67: Esquema ilustrativo com os principais eixos de conexão da proposta (em vermelho, linha cheia - bairro > Canal da Barra; em laranja, linha tracejada - conexões internas do bairro. Elaborado pelo autor.

Figura 68: Esquema ilustrativo com a proposta de abertura da alça aquática, bem como demonstrando o manguezal remanescente (verde cheio) e o aumento da área de proteção (verde hachurado) destinada à expansão do manguezal e da restinga. Elaborado pelo autor.

Figura 69: Esquema ilustrativo da proposta com as edificações comuitárias (cor vermelha) e as habitacionais (cor rosa), bem como as áreas verdes comunitárias (verde claro) e as áreas alagáveis e/ou de proteção (verde escuro). Elaborado pelo autor.

35


B 3

A 15 4 4

5

1

4

4

8 2

11 9

10 1

A - Conselho Comunitário B - Escola de Ensino Médio Pref. Acácio Garibaldi Santiago C - Creche Prof.aª Elisabete Nunes Anderle D - Estaleiro de barcos artesanais 1 - Trapiches 2 - Área de proteção: manguezal e restinga 3 - Praça esportiva 4 - Moradias 5 - Hortas 6 - Espaços de limpeza e seleção de alimentos 7 - Sede administrativa e memorial da pesca artesanal 8 - Centro Comunitário 9 - Varais de redes 10 - Oficina de barcos / Ranchos comunitários 11 - Mercado de pescados e orgânicos 12 - Praça central 13 - Venda de produtos locais 14 - Praça elevada 15 - Reservatórios d’água 16 - Mirante 17 - Centro ecumênico 18 - Estação de tratamento de efluentes

36

2

1


6 15 4 4

4 5 4

4 4

5

7 4

4

8

5

14 18

12 15 13

15

16

4 4

17 4 5

10

C 4

10

15 D

Figura 70: Ilustração em perspectiva isométrica do projeto e seu entorno imediato, contando com a numeração dos equipamentos propostos. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

37


B

A

P L AN TA BAIX A TÉRREO

C

D

D

C

N

13 5

m

38 B

A

Figura 71: Planta baixa do pavimento térreo. Elaborado pelo autor.


B

A

P L AN TA BAIX A SU P E R IO R

C

D

D

C

N

13 5

m

B

A

Figura 72: Planta baixa do pavimento 39 superior. Elaborado pelo autor.


C ORTE A A Figura 73

RAMPA DE ACESSO

1 2

5

PONTOS DE VENDA

PR A ÇA

m

C ORTE BB Figura 74

A DM I NI S TRAÇÃO

1 2

40

BANHEIROS

5

m

LEITURA

CU RSOS

REUNIÕES

BANHEIROS

EVEN TOS / CONVÍ VI O


CEN TR AL

MERCADO DE PESCADOS

CÂMARA FRIA

CANAL PROPOSTO

MANGUEZAL E RESTI NGA ( A PP)

VARAIS DE TARRAFA

OFICINA D E BA R COS

41


C ORTE C C Figura 75

R ES ER VAT Ó R IO / M I R A N T E

1

2

5

C OMÉ RC IO / ALIME NTAÇ ÃO

C E NT RO ECUMÊNICO

m

C ORTE DD Figura 76

C ORTE DD

CE NTRO C O M U NIT Á R IO

1

42

2

5

C OMÉ RC IO LOCAL ( PONT OS D E VE NDA) / ALIMENTAÇÃO

m


O / MERCA DO

Figura 72: Elaborado pelo autor.

BANHE IROS

RE SE RVAT ÓRI O / MIR ANTE

Figura 73: Elaborado pelo autor.

43


N

44

1 3

5

m


PRAÇA CENTRAL

A praça é o coração do complexo, delimitada

pelos principais equipamentos públicos - centro comunitário, sede administrativa, pontos de comércio, mercado de pescados e espaço religioso. Conta com um grande espaço livre central para a realização de feiras, festividades e eventos comunitários, além de espaços de permanência sombreados junto aos equipamentos. Espécies da restinga colaboram na definição das espacialidades

da

praça,

conformando

áreas

sombreadas e de estar e áreas abertas ensolaradas, além de contribuir para a manutenção das dinâmicas da flora e fauna locais. Parte da praça central é elevada e conta com lanchonetes e bares. O reservatório de água das edificações comunitárias também funciona como mirante e marco visual.

Figura 78: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

45


N

46

1

2

5

m


Figura 79: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

MO R A D IAS E HO RTAS

Costurando a praça central e os equipamentos

se canteiros comunitários destinados ao cultivo de

às pré-existências do bairro, propõe-se quadras

alimentos, tais como mandioca, feijão, alface, abóbora,

habitacionais com unidades de morar e hortas de

milho, e frutas como pitanga e banana, por exemplo.

cultivo, sendo as moradias ofertadas por aluguel social

As varandas e sacadas oferecem oportunidades para

e destinadas a famílias pescadoras e produtoras. Os

atividades como o conserto de tarrafas, limpeza de

conjuntos são formados por blocos de dois pavimentos

pescado, seleção de alimentos colhidos e produção

unidos em fita, considerando-se que cada pavimento

de artesanato.

de cada bloco constitui uma unidade de morar de aproximadamente 63 m², incluindo áreas de varanda e circulação. Contando com 90 blocos de dois pavimentos, o conjunto teria, portanto, 180 unidades de morar. Junto a cada quadra habitacional, tem47


MO R A D IAS Planta Baixa - TĂŠrreo Escala 1/100 m

Figura 80. Elaborado pelo autor.

Corte AA Escala 1/100 m

Figura 81. Elaborado pelo autor.

48


Esquema moradias

63 m²

(considerando circulação e varandas)

48 m²

(apenas cômodos)

63 m²

x 90 = 180 unidades

(considerando circulação e varandas)

48 m²

(apenas cômodos)

Figura 82. Elaborado pelo autor.

Corte BB Escala 1/100 m

Figura 83. Elaborado pelo autor.

49


N

50

1

2

5

m


Figura 84: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

O F IC INA D E B A R C O S E VARAIS DE RE DE

As saídas ao mar muitas vezes danificam os

barcos e demais instrumentos de trabalho, havendo a necessidade constante de pequenos consertos. Imaginase uma oficina de barcos comunitária, que seria uma cobertura, em estrutura de madeira, sob a qual os barcos podem ser estabilizados sobre trilhos e reparados. Seria possível também dar continuidade aos saberes de produção artesanal de barcos. Junto à oficina haveria varais para secagem e reparo das tarrafas, atividade que demanda um espaço significativo pois algumas redes, como a de arrasto da tainha, possuem grandes dimensões.

51


MER C A D O D E PE S CADOS E ORGÂN IC OS

Figura 85: Ilustração da proposta. Marcador e lápis sobre papel. Elaborado pelo autor.

Figura 86: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

52


N

1

2

5

m

Entre a praça central e o canal proposto,

e limpeza do pescado. Pratos típicos da culinária local

os pescadores e produtores podem vender seus

podem ser feitos e provados no local, que também

produtos diretamente aos consumidores no mercado

conta com bancos, mesas e espaços de permanência.

de pescados e orgânicos. Um morador da Barra ou

Os peixes e frutos do mar que não fossem vendidos ou

um turista poderia comprar anchova, corvina, tainha

fossem capturados em grande quantidade podem ser

e camarão frescos, limpos e preparados pela própria

congelados e armazenados em câmaras frias para que

comunidade local. Uma grande cobertura em estrutura

peixarias e mercados possam comprá-los, evitando-se

de madeira delimita o mercado, onde bancadas de

o desperdício.

trabalho tornam visíveis os processos de manipulação

Figura 87: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

53


N

54

1

2

5

m


Figura 88: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

S ED E A DM I N I S T R AT I VA E M E M ORIAL DA P E S CA A RT E SA N A L

Junto ao Centro Comunitário, propõe-se uma

sobre espécies da flora e fauna locais - espécies de

sede administrativa voltada à gestão da comunidade

restinga e manguezal; espécies aquáticas marinhas e

pesqueira da Barra da Lagoa, atuando como entidade

do canal, dentre outras informações relevantes para

representativa vinculada à Colônia Z-11 capaz de

a difusão do conhecimento sobre a cultura pesqueira.

organizar reuniões, assembleias e eventos, bem como

Na sede também haveria sala de leitura e cursos de

fiscalizar o funcionamento das atividades pesqueiras

artesanato.

locais e a interferência no meio natural. Um painel de concreto abrigaria um memorial sobre a história da pesca artesanal na Barra da Lagoa, contando com imagens históricas, relatos de moradores e informativos

55


N

56

1

2

5

m


Figura 89: Ilustração da proposta. Aquarela sobre papel. Elaborado pelo autor.

C ENTR O C O M U N I TÁ R I O

Junto à praça central, o centro comunitário

dos pescadores pretende ser uma reinterpretação dos ranchos de pesca enquanto espaços de festejo e convívio. Imagina-se um equipamento que pode ser aproveitado pelos moradores do complexo pesqueiro no cotidiano, bem como para eventos maiores como a Festa da Tainha, festas juninas, eventos beneficentes, aniversários de personalidades locais conhecidas, casamentos e festividades da população local. O centro poderia abrigar as antigas canoas bordadas de um pau só usadas na pesca artesanal da tainha na Barra, atualmente levadas até o bairro Rio Vermelho nas épocas entressafra.

57


N

1

2

5

m

Figura 90: Ilustração esquemática do funcionamento de uma Eco-machine. re papel. Elaborado por John Todd Ecological Design.

58


TR ATA M E N TO D E E F L U E N T E S

Propõe-se um sistema de tratamento de efluentes e reuso

de água para as edificações comunitárias, utilizando-se plantas e microorganismos filtrantes naturais como os principais agentes do processo. O sistema é similar ao modelo conhecido como Ecomachine (TODD; BROWN; WELLS, 2003), desenvolvido por John Todd Ecological Design, e possui três etapas básicas: primeiramente em tanque anaeróbico, seguido de tanques aeróbicos com agentes filtrantes e finalmente wetlands construidas. Os tanques ficam abrigados e geridos em edificação específica, que pode ser visitada por escolas e comunidade e tornar visível um processo natural de filtragem.

59


SIS TEMA E S T R U T U R A L PROPOSTO

Figura 91: Corte de proposta estrutural para pontos de venda e praรงa elevada. Elaborado pelo autor.

1

2

m

1

Figura 92: Corte e detalhes da proposta estrutural. Elaborado pelo autor.

60

2

m


VI GA- VAG ÃO D E M ADE I R A

VI GA V I E R E N DE E L D E M ADE I R A

PI L AR C O M P O S TO D E M ADE I R A

B AS E DE C O N C R E TO

Figura 93: Ilustração em perspectiva isométrica da proposta estrutural. Elaborado pelo autor.

61


C O NS ID E R AÇ Õ E S F I N A IS

A imagem ao lado mostra a venda de pescados no Mercado

Público de Florianópolis na década de 1920, quando o mar ainda chegava próximo ao centro histórico. Apesar dessa fotografia mostrar o passado, ela traz à tona uma reflexão sobre o presente e uma discussão sobre o futuro. Ela nos faz esboçar uma pergunta: - Nós, enquanto projetistas e idealizadores do espaço, estamos olhando de maneira atenta e honesta para a herança cultural das nossas cidades? Compreendendo a cultura e a natureza como pilares da vida humana, como estamos abordando esses aspectos em nossas propostas? Como queremos as cidades do amanhã?

62


Figura 10: Fotografia de venda de pescado no Mercado Municipal de Florianópolis, datada de 1921. Fonte: reprodução página da web “Fotos Antigas de Florianópolis”.

63


R EF ER ÊN CI AS BANNWART, Janaina P. (Elab.) (2014). A pesca artesanal marinha em Santa Catarina. Florianópolis: Epagri, Boletim Didático, 113, 56p.

CASTRIOTA, Leonardo. Paisagem cultural: novas perspectivas para o patrimônio. Arquitextos. Vitruvius. nov. 2013.

BINFARÉ, Ricardo Wabner. Guia ilustrado da flora da restinga de Santa Catarina. Dissertação (mestrado). Orientador: Alexandre Siminski. Coorientador: Daniel de Barcellos Falkenberg. Florianópolis: UFSC, Centro de Ciências Biológicas, Programa de Pós-graduação em Perícias Criminais Ambientais, 2016.

CHOAY, Françoise (2001). A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade / Editora Unesp.

BRASIL (2001). Estatuto da Cidade. Lei N° 10.257, de 10 de julho de 2001. Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em 5 de janeiro de 2019. _____. (2008). Lei Nº 11.699, de 13 de junho de 2008. Dispõe sobre as Colônias, Federações e Confederação Nacional dos Pescadores, regulamentando o parágrafo único do art. 8° da Constituição Federal e revoga dispositivo do Decreto-Lei no 221, de 28 de fevereiro de 1967. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11699.htm>. Acesso em 5 de novembro de 2018. _____. (2009). Lei Nº 11.959, de 29 de junho de 2009. Dispõe sobre a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca, regula as atividades pesqueiras, revoga a Lei no 7.679, de 23 de novembro de 1988, e dispositivos do DecretoLei no 221, de 28 de fevereiro de 1967, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11959. htm>. Acesso em 5 de novembro de 2018. BUBNIAK, Fábio. Espaço para um patrimônio intangível: a arte de construir barcos. Trabalho de Conclusão de Curso. Florianópolis: UFSC, Centro Tecnológico, Departamento de Arquitetura e Urbanismo, 2007. CAMPOS, Nazareno J. de. (1991). Terras comunais na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC. _____. (2009). Açorianos no litoral catarinense: da invisibilidade à mercantilização da cultura. In: Arquipélago - História, 2ª série, vol. XIII, p. 177-201. Universidade dos Açores. CASCAES, Franklin (1978). A pesca da tainha da Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Museu de Antropologia, UFSC. _____. O fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 2000.

64

CHING, Francis D. k.; ONOUYE, Barry S.; ZUBERBUHLER, Douglas. Sistemas estruturais ilustrados: padrões, sistemas e projeto. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2010. CLARAMUNT, Maria Cristina. (2008). Configuração urbana e identidade espacial: estudo de localidades praianas na Ilha de Santa Catarina. Dissertação de mestrado. UFSC. Programa de Pós-graduação em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade (PGAUCidade). DEMANGEON, Albert. Uma definição da Geografia Humana. Transcrito do livro Problèmes de Géogrephie Humaine (Paris, Librairie Armand Colin, 1952), p. 25-34. Tradução de Jaci Silva Fonseca, 2010. Disponível em: <http://quimerasgeograficas.blogspot. com/2010/09/classicos-da-geografia-albertdemangeon.html>. Acesso em 14 de junho de 2019. DEVOS, Rafael V.; VEDANA, Viviane; BARBOSA, Gabriel C. (2016). Paisagens como panoramas e ritmos audiovisuais: percepção ambiental na pesca da tainha. Gesto, Imagem e Som, São Paulo, v.1, n.1, p. 41 - 58. DIEGUES, Antonio C. S. (1983). Pescadores, camponeses e trabalhadores do mar. São Paulo: Ática. _____. As ilhas e arquipélagos tropicais brasileiros: práticas sociais e simbólicas. DIEGUES, Antonio C. S. (org.) Ilhas e sociedades insulares. Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras. Pró-reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. São Paulo: 1997. DISON, Márcio. (1982). A pesca artesanal na Ilha de Santa Catarina: Ingleses e Barra da Lagoa. TCC (Graduação). UFSC. Centro de Comunicação e Expressão. Jornalismo. FARR, Douglas. Urbanismo sustentável: desenho urbano com a natureza. Tradução: Alexandre Salvaterra – Porto Alegre: Bookman, 2013. FAO (2017). Diretrizes voluntárias para garantir a pesca de pequena escala sustentável no contexto da segurança alimentar e da erradicação da pobreza. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Rome, Italy.


FEPESC. Histórico da Federação dos Pescadores do Estado de Santa Catarina. Página da web. Disponível em: <https://fepesc.wixsite.com/fepesc/ institucional>. Acesso em 22 de outubro de 2018. FLORIANÓPOLIS. Lei Complementar nº 482 de 17 de janeiro de 2014. Institui o Plano Diretor de Urbanismo do Município de Florianópolis que dispõe sobre a Política de Desenvolvimento Urbano, o Plano de Uso e Ocupação, os Instrumentos Urbanísticos e o Sistema de Gestão. Florianópolis: Prefeitura Municipal de Florianópolis, 2014. _____. Lei Nº 10.394, de 20 de junho de 2018. Declara a maricultura familiar, a pesca artesanal e o extrativismo do berbigão, como atividades de interesse social e econômico e estabelece as condições para seu desenvolvimento sustentável no município de Florianópolis, e dá outras providências. Florianópolis: Câmara Municipal. GERBER, Rose Mary. Mulheres e o mar: pescadoras embarcadas no litoral de Santa Catarina, sul do Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 2015. IPHAN. As freguesias luso-brasileiras na região da Grande Florianópolis. Dossiê. Florianópolis, 2015. JIMÉNEZ-BADILLO, Lourdes. Management challenges of small-scale fishing communities in a protected reef system of Veracruz, Gulf of Mexico. Fisheries Management and Ecology, 15, 2008, p. 19-26. LAGO, Mara. (1996). Modos de vida e identidade: sujeitos no processo de urbanização da Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC. LISBOA, Armando de Melo. Construindo uma identidade insular em um mundo que se globaliza: o jeito manezinho de ser. DIEGUES, Antonio C. S. (org.) Ilhas e sociedades insulares. Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras. Pró-reitoria de Pesquisa da USP. São Paulo: 1997. MARICATO, Ermínia (2002). As ideias fora do lugar e o lugar fora das ideias: planejamento urbano no Brasil. In: A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. 3ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, p.121188.

RÍOS B., Mónica; GELCICH, Stefan. Los derechos de pesca en Chile: asimetrías entre armadores artesanales e industriales. 2017. SANTA CATARINA. Lei Nº 17.565, de 6 de agosto de 2018. Consolida as Leis que dispõem sobre o Patrimônio Cultural do Estado de Santa Catarina. Florianópolis: ALESC. Disponível em: <http://leis.alesc.sc.gov.br/ html/2018/17565_2018_lei.html>. Acesso em 21 de outubro de 2018. SANTOS, Milton (2006). A natureza do espaço: Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da USP. SEMEANDO cultura no jardim - LabUrb UFSC. Projeto de extensão - nº2015/0593: Os jardins domésticos e as plantas medicinais e aromáticas na paisagem cultural de Santa Catarina. Florianópolis: UFSC, Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Laboratório de Urbanismo, 2016. Vídeo (23 min.). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zIpHAsLR2YA>. Acesso em 6 de julho de 2019. TODD, John; BROWN, Erica J. G.; WELLS, Erik. (2003). Ecological design applied. Ecological Engineering, v. 20, p. 421-440. UNESCO. (1999). The operational guidelines for the implementation of the world heritage convention. Disponível em: <https://whc.unesco.org/en/ guidelines/>. Acesso em 18 de maio de 2019. VÁRZEA, Virgílio (1989). Santa Catarina - a ilha. VAZ, Marcelo Cabral (2008). Lagoa da Conceição: a metamorfose de uma paisagem. Dissertação (Mestrado). UFSC. Centro Tecnológico. Programa de Pós Graduação em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade - PGAU. VEIGA, Eliane Veras da (2010). Florianópolis: memória urbana. Terceira edição. Florianópolis: Fundação Franklin Cascaes.

MCIDADES (2009). Guia para regulamentação e implementação de Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS em Vazios Urbanos. Brasília: Ministério das Cidades, Secretaria Nacional de Habitação. Capacidades - Programa Nacional de Capacitação das Cidades. MMA (2004). Agenda 21 brasileira : ações prioritárias. Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional. 2. ed. Brasília : Ministério do Meio Ambiente.

65


Saberes ancestrais como a construção e o reparo de embarcações, o cerco da tainha com canoa à remo, o entendimento sobre as dinâmicas de ventos e marés, os métodos de manipulação do pescado e a culinária local constituem uma herança cultural que faz da Barra da Lagoa um bairro de origem pesqueira. As orlas da Ilha de Santa Catarina gradativamente vêm sendo transformadas de espaços rurais em balneários de veraneio pela expansão turística, encarecendo o modo de vida e dificultando a permanência de pescadores e agricultores. Nesse processo, questiona-se sobre o futuro não apenas da pesca e dos pescadores, mas da história e cultura locais como partícipes na construção do espaço. Abordando-se a pesca artesanal como modo de vida sustentável e elemento-chave da paisagem cultural da Barra da Lagoa, na costa leste da Ilha de Santa Catarina, assumindo suas transformações frente à contemporaneidade e almejando sua continuidade no futuro, propõe-se ocupar um vazio urbano em localização estratégica com um conjunto que tornaria viável e visível o ciclo da pesca e a produção orgânica. A proposta busca ofertar moradia e equipamentos de suporte para famílias pescadoras e produtoras no intuito de possibilitar sua autonomia, subsistência e segurança alimentar. O projeto prevê centro comunitário, mercado de pescados e orgânicos, oficinas de barcos, moradia acessível, espaços de plantio, tratamento ecológico de esgoto e estratégias para expansão do manguezal remanescente e da restinga, no intuito de costurar natureza e memória e colaborar com uma reflexão sobre o futuro da cultura local e dos espaços de orla.

66

Profile for Gabriel George Grosskopf

Pesca artesanal: trabalho e modo de vida na Barra da Lagoa  

Abordando-se a pesca artesanal como modo de vida sustentável e elemento-chave da paisagem cultural da Barra da Lagoa, na costa leste da Ilha...

Pesca artesanal: trabalho e modo de vida na Barra da Lagoa  

Abordando-se a pesca artesanal como modo de vida sustentável e elemento-chave da paisagem cultural da Barra da Lagoa, na costa leste da Ilha...

Advertisement