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Sem experiência

TRABALHO ­  A escassez  de  mão  de  obra  qualificada faz  com que a experiência prévia  em  um  serviço  seja  um  diferencial,  mas  não  um  fator  decisivo. Comprometimento,  pontualidade  e  vontade  de  aprender  são  essenciais  para conseguir emprego.

Gabriel Galli

A  maior  dificuldade  para  o  dono  de  um  restaurante  popular  no  centro  de  Porto Alegre,  Vitor  Zanuzo,  48,  é  achar  pessoas  que  possam  "pegar  junto  no  trabalho"  e  ser responsáveis.  "A  maioria  dos  que  aparecem  por  aqui  querem só uma função para ficar sete  ou  oito meses e receber um seguro desemprego. Muitos começam a faltar do nada", salienta. Já  a  sócia  em  uma   clínica  de  podologia,  Janete  Azambuja,  48,  há  sete  meses exibe  um  cartaz  na  porta  do  estabelecimento  procurando  manicures  com  experiência. Com  a  dificuldade  em  conseguir  profissionais  qualificados,  já  chegou  a   abrir   mão  do requisito.  "Acabo  valorizando  mais  a  qualidade  do  serviço.  Pode  ser  uma   pessoa  que nunca trabalhou formalmente, mas se tem um curso e faz bem, para gente já serve". O  presidente  da  Fundação  Gaúcha  de  Trabalho  e  Ação  Social  (FGTAS),  Heitor Gularte,  dá  uma  explicação  bem  simples:  "O  mercado  está  aquecido  e quem tem  mais qualificação   é  disputado pelas  empresas. É  uma lei básica de oferta  e  damanda. Quem quer  os  melhores,  tem  que  pagar  mais".  Segundo  ele,  Porto  Alegre possui  cerca  de 25 mil  vagas  abertas   esperando  profissionais  para  ocupá­las.  "Estamos  chegando  a  uma situação de quase pleno emprego", pondera. Como  auxiliar  de  cozinha,  o  empregado  recém  contratado  recebe  em  média  um salário  base  da  categoria  (cerca  de R$  750), além  de  alimentação  e  vale­transporte.  Já para  manicure,  o  trabalho  é feito  como  profissional  autônomo  e  o  trabalhador  possui seu próprio  alvará.  A   renda,  neste  caso,  depende  do  número  de  atendimentos.  Na  clínica


administrada  por  Janete,  a  manicure  ganha  70%  do  valor pago  pelo cliente  se trabalhar com material próprio ou 50% se optar por utilizar os da empresa. Nesta função existe  uma flexibilidade maior de horários de trabalho. A  concorrência  faz com que mudança  de  emprego  seja constante  e  as empresas que  pagam  menos  acabam  perdendo  seus  profissionais.  No  caso  de  Janete,  que  já perdeu  várias   funcionárias  por que outro  estabelecimento pagava  melhor,  alguns reais  a mais  no  preço  do  serviço  já fazem  a  diferença para quem está  trabalhando.  "Cobramos R$  15  para  fazer as unhas  da  mão. No  salão  aqui perto  cobram  R$ 18. Para quem paga uma  passagem  de  Gravataí  para  Porto  Alegre,  por  exemplo,  que é cara,  essa  diferença vale  a  pena",  afirma. Ela  ainda  salienta  que  apesar disso, é importante  para  a  manicure perceber  que nesta  profissão é necessário formar clientela e que, para isso, é importante se fixar em alguma empresa. Mesmo  sem conseguir funcionários para trabalhar, Janete não pensa em  aumentar o  preço  do  serviço.  Vitor  tem  uma  visão  diferente  e  diz   que  poderia  aumentar  se encontrasse  profissionais  com  um perfil  mais  pró­ativo  e responsável. “Tenho que pensar que se uma cozinheira falta,  por  exemplo,  a  auxiliar  de cozinha tem que estar pronta para preparar  10  ou  12  quilos  de  arroz.  Não  é  qualquer  um  que  consegue  fazer  isso.  Se  eu achar  alguém   com  essa  capacidade,  pego  na  hora  para  trabalhar”,  afirma.  Para  ele,  a pessoa deve mostrar que quer crescer dentro da empresa para ganhar melhor.

● Qualificação aumenta chances

Para quem ainda  não conseguiu o  primeiro emprego, um bom curso na área pode abrir  portas.  Dentre  os  cursos  gratuitos,  os que  mais  se  destacam  são  os  do Programa Nacional  de  Ensino  Técnico  e  Emprego  (PRONATEC),  que   são  voltados  a  quem  está desempregado  ou  possui  alguma  vulnerabilidade  social,  como  pessoas  que vivem  com deficiência  física  ou  fazem  parte  de  comunidades indígenas  e  quilombolas. O  programa ainda  oferece   material  didático  e  bolsa  para  cobrir  gastos  com  vale­transporte  e alimentação. Entre  os cursos  oferecidos em Porto Alegre estão os de auxiliar de cozinha,


garçom, auxiliar de impressão, inglês e espanhol.

● Preconceito

Alguns  empregadores  não  selecionam  pessoas  mais  velhas  dependendo  do ambiente em que elas trabalharão. “A minha cozinha é toda cheia  de lajotas, por exemplo. Se uma pessoa  idosa cair  ali  isso me traria muitos problemas”, salienta o proprietário do restaurante, Vitor Zanuzzo, 48. Já  ter  filhos  é  algo  levado  em  conta  na  empresa,  mas,  na  situação  atual  de escassez  de  profissionais,  não  é  mais  definitivo.  “Antes  eu  ficava  com  um  pé  atrás quando  via  alguém  com  filhos  por  que  a  possibilidade  de a criança  ter  algum problema que faça com que o funcionário falte é grande. Hoje já não dá mais pra escolher", afirma. No  caso  da  sócia  de  uma  clínica de  podologia, Janete Azambuja, 48, a situação é inversa:  o fato de ter filho ou ser mais velha é um diferencial. "Prefiro pessoas que tenham filhos  por  que  precisam  levar o dinheiro pra casa  para sustentar  a  família. Elas  precisam ser mais responsáveis e tem muito mais comprometimento", expõe.

BOX 1 Como conseguir um emprego sem experiência

● Procure cursos de qualificação que possam abrir portas. ● Escolha  uma  profissão  que  você  goste  e   tenha  estímulo  para  aprender mais. ● Demonstre  vontade  de  aprender  quando  for  se  candidar  a  uma  vaga  de trabalho. ● Monte  um  currículo  que  saliente  suas  habilidades  e  características pessoais.

Fonte: FGTAS


BOX 2 Anote aí Cursos  gratuitos  do  PRONATEC  que  pagam  alimentação  e  passagem  para  os alunos.  Mais  informações  no  site  pronatec.mec.gov.br  ou  direto  no  FGTAS  (Rua Borges de Medeiros, 521).

BOX 3 Para manter o emprego que conseguiu Depois que  o  mais  difícil passou, alguns cuidados são necessários para manter o emprego.

● Seja  pontual   e  evite  faltar  no  trabalho  e  tenha  em  mente  que você,  muitas vezes, poderá fazer parte de uma equipe que dependerá de você. ● Esteja disponível para novas tarefas ou desafios no âmbiente de trabalho. ● Aproveite  as  oportunidades  de  demonstrar  suas  habilidades  e conhecimentos. ● Tenha uma boa relação com seus colegas de trabalho. ● Conheça bem a empresa. ● Seja  pró­ativo  e  não  espere  ser  solicitado  para  tomar  a  frente  das situações. ● Invista  em  qualificação,  principalmente  na que você note que faz falta dentro da empresa.


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