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Hoje sou um anjo decaído. Já fui Anjinho, deixei de te amar só pra poder amar mais um instante depois. Quero tudo ter, tudo quero. Mas minha matemática anda fraca, confesso que nunca fui muito bom nisso. As equações de que disponho não me levam a qualquer resultado, nem por aproximação, que me levem pra mais perto de ti. Resto. Parece que não há denominador comum entre nós, nem por convenção. A distância, hoje ao quadrado, não é o fator responsável pelo afastamento. O desvio padrão não é salvação. De que adianta somar se não há o que dividir? Subtraído, despossuído, desposado, me sinto. Minha vaidade denuncia minha carência. Não há o que, quem, maquiar. A onipresença que acredito possuir onde meus amados se encontram, anda capenga. Sei o que cada um de nós tem, talvez até o que nos falta. O ímpeto de dizê-lo, no entanto parece que morreu seco na garganta. Sede tenho, de ti, de qualquer um que possa me acariciar, de alguém capaz de me fazer sentir acolhido e bem-amado. Não acredito no fisiologismo da minha necessidade, ela transcende a vã matéria, de uma boa transa ou cafuné, apesar deste ser bem-vindo no momento nas longas e já incorporadas madeixas deste anjo decaído. Às vezes me preservo, noutras suicido em pensar em ti. A esperança, sempre imortal nas artes, se esvai perante o poder do tempo. Não o tempo do relógio, o da alma. As engrenagens já estão meio enferrujadas. Nossos ponteiros não se encontram nem ao meio-dia. E mesmo que abominemos a relatividade do tempo, já que ele nada representa no mundo espiritual, nosso timing não é mais dos melhores. Não estou cá nem lá. Nem aí, muito menos aqui. Não sou dos que se prendem às responsabilidades, por maiores que elas andem. Talvez seja moleque, irresponsável, mas acredito em redenção, por pernas próprias de preferência. Orgulho ainda guardo, meu único guarda-costas, sempre me acompanha. Mas nem este, por maior que seja, é hoje capaz de salvaguardar-me. Orgulho-me de minha espontaneidade, mesmo quando me calo. O maior dos calos na alma de um indivíduo nasce daquilo que ele não disse. Do silêncio.


Insucessos, alguns pequenos, mas incomodam não? A vida parece repleta deles, mas quem nunca errou, who hasn´t ever been fool to think e acreditou em algo que não era verdadeiro? Não querendo me confessar, mas já o fazendo, I have... Nem tudo são flores, nem espinhos. Seja minha ou não, és flor. Desabrochemos num ensolarado dia, mas sem que pétalas caiam, ou lágrimas escorram. Se as que cá despejo inutilmente em solo ingrato, forem as mesmas que farão com que nosso amor germine, choro então. Há esperança, este discreto admirador se despede e morre em ti em beijo, Gabriel.

carta 02  

carta pessoal universal

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