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Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade Pensamento Contemporâneo Professor Euler Renato Westphal Ensaio de conclusão de disciplina. A dialética entre a cultura e a barbárie em Walter Benjamin A partir da leitura das teses “Sobre o Conceito de História”

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do pensador Walter

Benjamin (1892 – 1940), com o valioso auxílio da interpretação encontrada no livro “Walter Benjamin: aviso de incêndio”

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de Michel Lowy, este ensaio pretende discorrer

sobre os conceitos de história e história cultural defendidos pelo filósofo alemão. A Tese VII (Anexo I) serve de base para a análise a ser desenvolvida uma vez que, sem desconsiderar a inter-relação com as demais teses, destaca o processo de transmissão dos bens culturais. Para melhor entender a defesa já conclusiva do autor de que “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”, é necessário refletir sobre a proposta de interpretação materialista histórica de Benjamin. O autor vê no materialismo histórico o poder e a oportunidade de ruptura com o Historicismo positivista. Benjamin incita o historiador a utilizar a análise materialista histórica para justamente romper com “a indolência do coração, a acedia, que hesita em apoderar-se da imagem histórica autêntica que lampeja fugaz”. É como se a tarefa do historiador benjaminiano consistisse em capturar um instantâneo desse lampejo e destrinchá-lo minuciosamente. A acedia,

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como esclarece Lowy, “é o sentimento

melancólico da toda poderosa fatalidade, que priva as atividades humanas de qualquer valor”, mantendo o historiador positivista na sua condição de autômato reprodutor do discurso hegemônico. Esse é o mesmo historiador conformista que trabalha sempre sob a óptica do opressor, colocando-se ao lado dos vencedores por conta do que Benjamin chama de identificação afetiva. Essa postura cortesã, cômoda e covarde, é atacada tanto por

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O documento Sobre o conceito de história composto por 18 teses e 2 apêndices foi redigido no começo de 1940. Lowy, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”; São Paulo: Boitempo, 2005. 3 Tema recorrente na obra de Benjamin foi especialmente abordado em Origem do drama barroco alemão de 1925. 2


Benjamin quanto por Nietzsche4; a interseção entre os dois pensadores será abordada mais adiante. Após essa análise reduzida da proposta de leitura histórica a partir do materialismo histórico aplicado de Benjamin, fica mais fácil entender a afirmativa dialética da cultura e barbárie. Com a conivência do historiador positivista as classes dominantes mantêm-se no poder: “os dominantes de turno são os herdeiros de todos que, algum dia, venceram”. Conscientes do poder e da sua influência ou potência afetiva desses marcos no inconsciente coletivo, as classes sociais dominantes apoderam-se dos ícones culturais, seja adaptando edificações pré-existentes, fabricando-os ou destruindo antigos. Pode-se ilustrar essa relação dialética entre a cultura e a barbárie através de ícones edificados como os Arcos de Triunfo e outros monumentos que sintetizam as conquistas através da subjugação da cultura e ícones culturais do derrotado. Esses monumentos, edificações ou mesmo peças de arte, fruto invariavelmente de conquistas bélicas, celebram a conquista pela guerra, a pilhagem e a morte. Na contemporaneidade, essa apropriação e usurpação de grupos sociais poderosos política e economicamente é menos truculenta, no entanto, exemplos desse processo violento são facilmente encontrados em diversos espaços urbanos. Atente-se para o espaço urbano de Joinville e faça-se um esforço para identificar como esse processo pode estar ocorrendo localmente; quais seriam os grupos sociais que se utilizam dessa estratégia de apropriação cultural? Monumentos como a Barca Colon Monumento a Hans Dieter Schmidt

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na Praça Dario Sales, por exemplo, podem ser

produtos de um processo similar ao dessa transmissão de bens e valores culturais. A Barca Colon, que tenta de maneira infeliz e vaga, abarcar diferentes segmentos da cultura local, é também um ícone que escolhe politicamente o que mereceria destaque em termos de bem cultural; já o Monumento a Hans Dieter Schmidt é uma ode a cultura industrial, reproduzindo o discurso da burguesia capitalista-industrial como se este fosse o discurso a ser assimilado e incorporado pela população em geral. 4

F. Nietzsche. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida de 1873. Escultura-monumento, executada por César Dobner, encomendada para a ocasião da celebração dos 150 anos de Joinville durante o governo municipal de Luiz Henrique da Silveira - 2001. Fig. Anexo II 6 Monumento localizado na Praça Dario Salles, executado por Edson Machado - concluído em 1988. Fig. Anexo III. 5


Ao se tratar e se dispor a discutir a questão do patrimônio cultural e sua relação com a sociedade – entendendo ser esse o propósito desse mestrado – deve-se atentar para essas questões e principalmente sobre o conceito de patrimônio utilizado para essa abordagem. Promover a discussão acerca dos ícones, consolidados ou não, e o processo histórico que os produziu, o discurso e classe que representam, é a tarefa daquele que se coloca o desafio de discutir o patrimônio cultural em qualquer nível e localidade. Retomando a questão da interseção entre os pensadores Nietzsche e Benjamin acerca do conceito de história e do perfil do historiador, tendo em vista que o primeiro nitidamente influenciou o segundo, destacam-se termos e passagens similares que ilustram isso. Enquanto Benjamin na Tese VII propõe “escovar a história a contrapelo”, Nietzsche, na Segunda consideração intempestiva, despreza os historiadores que “nadam e se afogam no rio do futuro”, que praticam “a admiração nua do sucesso” e “a idolatria do factual”. Na leitura de Lowy, essa interseção se diferenciaria somente no que concerne o destinatário da crítica e, portanto também aquele capaz ou mesmo responsável por promover essa mudança: o indivíduo rebelde, o “herói” para Nietzsche e o resgate da memória coletiva, a “corvéia sem nome”, para Benjamin. Em consonância com a crítica de Nietzsche e Benjamin ao conceito formal de história, bem como com a proposta de mudança da postura do historiador clássico, defendase uma história cultural que “deve ser integrada à história da luta de classes” 7. Seria na leitura histórica do ponto de vista do oprimido que estariam escondidos, como conclui Lowy, “os momentos subversivos escondidos na herança cultural”. Ainda, destacado no livro de Lowy acerca das Teses, mas nas palavras de outro pensador, nosso contemporâneo e latino, Eduardo Galeano, que durante o debate do V centenário da colonização iberolusitana nas Américas conclamou em seu discurso à “celebração dos vencidos e não dos vencedores”, e à “salvaguarda de algumas de nossas mais antigas tradições”, como o modo de vida comunitário. Porque é “em suas mais antigas fontes” que a América pode buscar e encontrar “suas forças mais jovens”: “O passado diz coisas que interessam ao futuro”.8

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W. Benjamin, Gesammelte Schriften. Vol. I, 3, p. 1240. E. Galeano, “El tigre azul y nuestra tierra prometida” em Nosostros decimos no (México, Siglo XXI, 1991). [ed. bras.: Nós dizemos não, Rio de Janeiro, Revan, 1992.] 8


ANEXO I - TESE VII “Considerai a escuridão e o frio intenso Neste vale, onde ressoam lamentos.” Brecht, A ópera dos três vinténs. Ao historiador que quiser reviver uma época, Fustel de Coulanges recomenda banir de sua cabeça tudo o que saiba do curso ulterior da história. Não se poderia caracterizar melhor o procedimento com o qual o materialismo histórico rompeu. É um procedimento de identificação afetiva. Sua origem é a indolência do coração, a acedia, que hesita em apoderar-se da imagem histórica autêntica que lampeja fugaz. Para os teólogos da Idade Média ela contava como o fundamento originário da tristeza. Flaubert, que bem a conhecera, escreve: “Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage.” [“Poucas pessoas serão capazes de imaginar como foi preciso estar triste para ressuscitar Cartago.”]A natureza dessa tristeza tornasse mais nítida quando se levanta a questão de saber com quem, afinal, propriamente o historiador do Historicismo se identifica afetivamente? A resposta é, inegavelmente: com o vencedor. Ora, os dominantes de turno são herdeiros de todos os que, algum dia, venceram. A identificação afetiva com o vencedor ocorre, portanto, sempre, em proveito dos vencedores de turno. Isso diz o suficiente para o materialismo histórico. Todo aquele que, até hoje, obteve a vitória, marcha junto no cortejo de triunfo que conduz os dominantes de hoje [a marcharem] por cima dos que, hoje, jazem por terra. A presa, como de costume, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. Eles terão de contar, no materialismo histórico, com um observador distanciado, pois o que ele, com seu olhar, abarca como bens culturais atesta, sem exceção, uma proveniência que ele não pode considerar sem horror. Sua existência não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas, também, à corvéia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo.


ANEXOS II e III Barca Colon: escultura-monumento, executada por César Dobner, encomendada para a ocasião da celebração dos 150 anos de Joinville durante o governo municipal de Luiz Henrique da Silveira – 2001.

Monumento localizado na Praça Dario Salles, executado por Edson Machado – concluído em 1988.

Detalhe da placa: “Construímos nossas empresas, queremo-las cada vez maiores e mais prósperas, mas devemos desejar que a nossa prosperidade liberte nossos colaboradores da pobreza, do medo, da ignorância, auxiliando-os em sua felicidade e bem estar. Não os escravizemos às máquinas, pois estas não foram inventadas para frustração dos homens senão para estimulá-los; descansar-lhes os músculos; poupar-lhes as energias, humanizá-los e enriquecerlhes a vida.” Hans Dieter Schmidt

ensaio: 01/n  

ensaio sobre a dialética entre a cultura e a barbárie em Walter Benjamin

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