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Ganapati Ecologia - Vegetarianismo - Ética - Espiritualidade

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA - 1500 EXEMPLARES

JULHO/AGOSTO 2012

Animais.

A consciência que o homem não pode mais negar que existe.


Editorial por Simone Nassar. A comprovação pela ciência de que os animais têm consciência demonstra o que no nosso íntimo já sabíamos: nossos irmãos percebem o que acontece em volta deles e têm consciência de sua existência! A partir deste momento necessitamos refletir e repensar nossas relações com eles e com a “casa” que compartilhamos: o planeta Terra. Já passou o tempo em que desculpas do tipo “eles nem sentem...” ou “eles estão aqui para trabalhar para nós, os humanos...” serviam para continuarmos com a matança desmedida e sem piedade dos animais para nos alimentarmos. Já passou o tempo em que a alimentação onívora era a alimentação “certa” ou “normal”. Já passou o tempo de dizer que não comeu nada se não comeu carne na refeição. Já passou o tempo de dizer que o homem deve comer carne todos os dias para gozar de boa saúde. Já passou o tempo...é chegada a hora de tentarmos mudar nossos hábitos alimentares. Gerir nossas vidas com mais responsabilidade, principalmente para com os animais e com o planeta e pensar ser possível viver sem nos alimentarmos com os nossos companheiros de jornada deve ser seriamente considerado por cada habitante da Terra. Com certeza este não é um processo fácil de vivenciar, uma vez que a cultura onívora está imersa na sociedade durante gerações, mas cada indivíduo desenvolve este processo em seu próprio tempo. Que tal iniciar com um dia da semana alimentando-se exclusivamente por dieta vegetariana? A partir desse momento, acreditem, a ética toma conta da nossa consciência. A mesma consciência que os animais e cientistas têm e que hoje os últimos dizem, em uníssono, não conceberem mais alimentação com carne animal, uma vez que seria como se alimentar de um humano. Produzido e Publicado pelo Grupo Ganapati E-mail: grupo.ganapati@gmail.com | Blog: http://grupoganapati.blogspot.com Participam desta edição: Bárbara Bastos, Conceição Cavalcanti, Denise Bacelar, Eustaquio J. Silva, Ioná Ponce de Leon, Igor Calado, Jeanine Japiassu, João Asfora Neto, Sérgio Pires e Simone Nassar. Para contato: (081)9697.6629

“Não é mais possível dizer que não sabíamos”

Cientistas da Universidade de Cambridge, afirmam que animais possuem consciência. “É a primeira vez que um grupo de cientistas se manifesta formalmente quanto à existência da consciência em animais”, diz o neurocientista Philip Low

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Estruturas do cérebro responsáveis pela produção da consciência são análogas em humanos e outros animais, dizem neurocientistas (Thinkstock) 02

m grupo de 13 neurocientistas, incluindo o canadense Philip Low, criador do iBrain, dispositivo que vai ajudar o físico Stephen Hawking a se comunicar usando a mente, assinou uma declaração neste sábado em Cambridge, na Inglaterra, afirmando que alguns animais, como pássaros, macacos, elefantes, golfinhos, polvos, cães e gatos, possuem consciência, assim como os seres humanos. É a primeira vez que um grupo de especialistas da área se reúne para emitir um comunicado formal admitindo que os seres humanos não são os únicos a gozarem de consciência, segundo apontou Low, que também é professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos EUA). O anúncio foi feito durante a Francis Crick Memorial Conference, na Universidade Cambridge, na Inglaterra. Treze especialistas se reuniram para apresentar os últimos resultados científicos em pesquisas que tentam reinterpretar a consciência. Os cientistas pretendem mostrar que ao analisar o sinal cerebral de humanos e outros animais, é possível encontrar semelhanças básicas. “A neurociência está evoluindo rapidamente por causa


do avanço tecnológico e por isso precisamos tirar novas conclusões”, disse Low. “As evidências mostram que os seres humanos não são os únicos a apresentarem estados mentais, sentimentos, ações intencionais e inteligência”, afirmou. “Está na hora de tirarmos novas conclusões usando os novos dados a que a ciência tem acesso.” O físico Stephen Hawking Em comunicado, disse apoiar a iniciativa dos cientistas. Hawking é vítima de uma doença degenerativa que o deixou completamente paralisado ao longo de seus 70 anos de vida.

Entrevistando Philip Low: Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito? Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência. Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos. É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante. Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência? Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica. Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos

tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, nós estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora. Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados. As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegetariano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo. O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles. Philip Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Estados Unidos Fonte : Veja

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O homem não é o único animal que pensa, mas é o único que pensa que não é um animal*. Denise Bacelar

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u, você, sua família, seus amigos, suas amigas, seus/ suas colegas de trabalho, namorado(a) ou conjugue, fazemos parte de uma mesma espécie. Somos todos animais. Mesmo que muitas vozes gritem o contrário: somos anjos caídos, seres racionais (e especiais), uma espécie única e formidável, que somos os guardiões do mundo e de tudo que há nele. Mas você reconhece as vozes que expressam tais ideias? Compreende, de fato, o que elas transmitem? De que forma influenciam no seu comportamento diário e na forma como você se relaciona com o mundo ao seu redor? Para responder a essas perguntas, é preciso conhecer como as coisas vieram a ser da forma como são (e para aquelas pessoas que se interessem em se aprofundar no tema, sugiro a leitura de Ismael: um romance da condição humana de Daniel Quinn). Tudo começou há 4,56 bilhões de anos, quando esse planeta que habitamos passou a existir no Universo. Não somos os primeiros nem os únicos habitantes da Terra, mas vivemos, nos relacionamos e interpretamos a realidade como se fôssemos. Os outros animais, não-humanos, existem há mais de 700 milhões de anos. E todos os seres vivos seguiram, ao longo desse tempo, uma sequência lógica: dos mais simples, das formas mais elementares, às mais complexas e intricadas. O Homo sapiens (espécie à qual pertencem todos os seres humanos) é um dos animais mais recentes, pois está no planeta há aproximadamente 400.000, segundo datações arqueológicas. Podemos negar nossas origens, podemos fingir que somos moldados a partir de matéria distinta de toda a natureza, podemos até entender que somos, de fato, seres superiores e dominadores de todo o resto. No entanto, estaremos apenas nos enganando: somos animais. Somos só mais uma espécie. E nada do que fizermos ou discursarmos vai ser capaz de mudar isso. Estamos sujeitos às mesmas leis da natureza que os demais animais. Conseguimos transformá-la em proporções gigantescas, é verdade, mas isso per se não muda nossa natureza. Muitas pessoas não aceitam tais fatos. Não acreditam ou não querem acreditar. E preferem passar uma vida inteira pensando à sombra de outrem que, muitas vezes, sequer conhecem ou ouviram falar. Assumir posições que defendem que os animais são seres irracionais, inferiores, insensíveis e que não merecem/ podem ser comparados a nós, não só é extremamente perigoso do ponto de vista técnico (científico e ético), mas

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também demonstra, em muitos casos, uma reprodução sem critérios do que lemos/ouvimos/vemos ou nos foi ensinado. Afirmar que os outros animais não possuem emoções, sentimentos e nem mesmo racionalidade (razão), não é uma ideia original. Pelo contrário... Você acredita mesmo que os outros animais não possuem racionalidade? Ou simplesmente reproduz as ideais do filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.)? Ele acreditava que a escravidão era uma condição normal, natural e que existiam tanto humanos e animais livres quanto escravos. Além disso, Aristóteles idealizou uma Grande Cadeia do Ser, que traz hierarquicamente, segundo seus critérios à época, os seres que tem maior valor ou importância. A cadeia era constituída pelos deuses, no topo, seguidos pelos anjos, homens livres, mulheres, escravos, crianças e, finalmente, os outros animais (as plantas e minerais terminavam a sequência). Eis a origem, portanto, do juízo sobre a inferioridade dos animais não-humanos. Para a sociedade ocidental essa noção foi fortalecida pela tradição judaico-cristã, que não apenas reafirmou a suposta condição do ser humano, mas também concedeu ao mesmo todo o domínio da Terra e dos seres que a habita. Somos criaturas semelhantes a um deus, então é justificável que imponhamos nossas vontades acima de tudo o mais que existe. “Penso, logo existo” era o princípio que regia todo o pensamento do filósofo francês René Descartes (1596-1650). Se os animais não detinham a capacidade de raciocinar, que era concedida apenas a seres possuidores de alma (humanos), então não precisavam ser considerados moralmente. Eram autômatos, como máquinas, que apenas gemiam e se contorciam nas mesas de experimentação, por exemplo, porque foram programados para assim fazêlo. Nada disso tinha um significado do ponto de vista fisiológico – os animais não sentiam dor, apenas agiam como se sentissem. Nesse sentido, ainda nos dias atuais, quantos cartesianos não conhecemos? Quantas pessoas creem inquestionavelmente em Descartes? E talvez o mais curioso: nem sabem de sua existência e de suas teorias? Tal era a força dessas concepções – principalmente da singularidade humana (propagada fortemente pela tradição judaico-cristã) – que apenas no Século XVIII, um botânico chamado Carl Von Linné formulou um sistema para classificar e nomear todos os seres conhecidos até então. Nossas características eram similares demais às dos outros mamíferos, especialmente às dos primatas, e mesmo diante de grande rejeição, Linnaeus nos colocou entre os seres que acreditávamos serem inferiores: éramos animais, tanto quanto os outros existentes. Como forma de rendição, o cientista sueco nos nomeou Homo sapiens, que significa “homem sábio”. Essa parece ter sido a primeira grande queda do ser humano. Posteriormente, o naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809-1882) corroborou a posição do ser humano enquanto animal e, mais que isso, desafiou toda a história da origem humana e


dos demais seres vivos com suas duas obras A Origem das Espécies (1859) e A origem do homem e a seleção sexual (1871). Darwin afirmava que as espécies surgiram a partir de processos evolutivos específicos e que as formas mais simples deram origem às formas mais complexas de vida. E que o processo não termina, não cessa, mas continua acontecendo, intermitentemente. Tais considerações provocaram violenta repercussão, pois a humanidade não admitia provir de outros animais, de primatas, de macacos. Pior: se os processos que dão origem aos seres vivos ainda acontecem, significa que não nunca fomos nem somos a finalidade de tudo que existe. O mundo não existe para nós. Tudo que existe não foi feito para nós. Somos só mais uma espécie biológica. Somos apenas mais uma dentre as inúmeras espécies já conhecidas. Além de tudo isso, Darwin alegava que não existiam diferenças fundamentais entre os animais humanos e não-humanos, pelo menos não em gênero ou tipo. Para Darwin, a diferença se apresenta em grau, idéia ligada à complexidade dos seres vivos e à própria Teoria da Evolução, desenvolvida por ele. Nos tempos atuais, o fundamentalismo religioso continua a censurar tais conclusões, impedindo, até mesmo, que o evolucionismo seja conhecido e divulgado. Por desconhecimento e incompreensão das ideias de Darwin, muitas pessoas afirmam que não somos macacos, que não viemos dos macacos, que sequer viemos de qualquer coisa que não tenha relação com a criatividade divina. Mas por que isso lhes parece tão impossível? Por que parecem ser ideias tão repulsivas? Qual o problema em ser ou parecer com os demais animais, com os macacos? Serão eles tão repugnantes assim? Para algumas populações humanas não: para o povo Ubi os chimpanzés são “seres humanos feios”. O povo Mende, das florestas do alto da Guiné, chamam os chimpanzés de “pessoas diferentes” (numu gbahamisia) e acreditam que humanos e chimpanzés são originados de uma única espécie de habitantes da floresta, “os animais que andam em duas pernas” (huan nasia ta lo a ngoo fele). O povo Baulê nomeou-o de “o amado irmão”; e os Betês, de “homem selvagem” ou “um homem que voltou para a floresta”. O mesmo se pode dizer da palavra orangutan, que na língua malaia quer dizer “pessoa da floresta”. E são só alguns exemplos. São povos que reconhecem as similaridades entre nós e os outros primatas – e não se envergonham disso. Por que deveriam? De que forma ser ou parecer com outros animais nos faz pior? Não seria porque já inferiorizamos tanto os demais animais que assumir que somos iguais seria nossa própria subjugação? Reproduzimos por tanto tempo e de forma tão contundente que os outros animais são inferiores, insensíveis e irracionais que seria incoerente mudar de opinião e considerá-los de outra forma? “Não é mais possível dizer que não sabíamos” foi a frase que deu destaque a uma matéria** com o

neurocientista canadense Phillip Low. Ele, juntamente com outros cientistas da área, escreveu um manifesto atestando que outros animais – mamíferos, aves e polvos, por exemplo – possuem consciência. Estamos no ano de 2012. Outros cientistas, além de Darwin, como Donald Griffin e Marc Hauser, já reconheciam tais fatos. Não são ideais originais, mas mesmo assim são tratadas como se fossem revolucionárias. Não são. E é importante que saibamos disso. Como também é fundamental que saibamos exatamente que concepções sustentamos, a partir do quê e a por meio de quem. Não temos que simplesmente defender posições adversas, mas precisamos ter consciência de que estamos defendendo e propagando conceitos seculares e que, talvez, não possuam mais nenhuma fundamentação nos conhecimentos científicos atuais. Que utilidade terão para nós? Será que estamos indo a algum lugar ou continuamos presos em tempos de outrora, quando vivíamos na escuridão do conhecimento? Mesmo os teístas, mesmo aquelas pessoas que rejeitam serem também animais, já não tem provas o suficiente para admitir que os outros animais também sofrem e sentem/passam pelas mesmas situações que nós? Os outros animais também possuem interesse em continuar vivendo, em manter sua integridade física tanto quanto nós, em desfrutar da liberdade e de toda a extraordinária experiência que é estar vivo(a). Isso nos parece tão ofensivo assim? Somos racionais. Somos conscientes. Somos considerados, equivocadamente, o ápice da evolução e da criação. No entanto, somos incapazes de considerar um fato que está diante de nossos narizes há milhões de anos: somos semelhantes aos outros animais. Não precisamos lhes negar razão, inteligência, emoções, sentimentos, valores para que sejamos melhores, superiores ou únicos. Não há nenhuma consistência nessa decisão. Manter o status quo (que nós mesmos criamos e idealizamos) não é razão para que tratemos os outros animais da forma como o fazemos atualmente. Como fizemos durante séculos, assim como fizemos com outros humanos (crianças, mulheres, negro(a)s, judeus e judias etc). Nossa obsessão em nos diferenciar dos demais animais nos afasta da nossa própria natureza; prejudica, quando não extingue inúmeras espécies; causa problemas ambientais sem precedentes; promove a utilização sem critério e matança indiscriminada de animais, apoiando a violência; impede a reflexão ética e o desenvolvimento de empatia e da própria alteridade, dentre outras consequências. Então, será que já não é hora de nos perguntarmos “Qual é mesmo o nosso pretexto?” * Frase atribuída a Paul Broca (1824-1880), cientista e antropólogo francês. **Fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/nao-e-mais-possiveldizer-que-nao-sabiamos-diz-philip-low Denise Bacelar - Bióloga. Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente na UFPE e colaboradora do Ganapati.

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PRECONCEITO - A Dificuldade de admitir

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ivemos em um país onde a maioria da população é negra, porém ainda presenciamos atos velados de preconceito em todas as áreas da sociedade. O preconceito não se restringe a cor e etnia, podendo também se estender a quem não tem dinheiro, a quem não tem a mesma crença ou descrença, a quem está preso, a quem pensa diferente. E a lista vai longe, com pequenos preconceitos que vão se formando pela dificuldade de repensar as idéias préconcebidas. O antropólogo Kabengele Munanga disse, em entrevista à Estudos Avançados, que “há estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros, aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afrodescendente. Trata-se de uma decisão política”. Ele também citou, em entrevista a uma rádio local, o censo que afirma que mais de 90% da população percebe o preconceito nos outros, mas quase ninguém se julga preconceituoso. Nelson Mandela foi um líder rebelde e, posteriormente, presidente da África do Sul de 1994 a 1999. Principal representante do movimento anti-apartheid, considerado pelo povo um guerreiro na luta pela liberdade, era tido pelo governo sul-africano como um terrorista, e passou 27 anos na cadeia. Este que talvez tenha sido um dos maiores ativistas de todos os tempos, é um ícone da luta contra o preconceito que fere povos inteiros. Foi julgado e preso. Para depois ser presidente. Falar de preconceitos é uma tarefa difícil, pois assim como o invejoso jamais percebe a inveja que o devora, do mesmo modo o preconceituoso jamais se vê assim. Semeia preconceitos pelo mundo a fora sem o saber. O preconceito impede o aprendizado, pois para aprender precisamos ter a mente livre de idéias e filtros já formados. O adulto, portanto, terá maiores dificuldades no aprendizado se não abandonar preconceitos sobre aquilo que está a apreender. Muita gente se considera detentora

Ellen Augusta Valer de Freitas do saber apenas por que tem um diploma, mestrado ou doutorado, e o fato de estar agarrada a idéias até mesmo já ultrapassadas em relação à sua área de estudo torna o aprendizado cada vez mais difícil, pois tudo o que a pessoa lê passa pelo filtro do que já ‘entendeu’ como correto. O especismo é considerado um preconceito contra outras espécies. Esse termo é usado pelos defensores dos direitos animais para designar a discriminação que a espécie humana trava contra os outros animais. Carlos Naconecy, em brilhante artigo, problematiza o especismo que existe dentro da causa animal, e o chama de “ética para vertebrados”, já que na maior parte das vezes se pensa apenas em animais vertebrados, ou como se dizia antigamente de forma preconceituosa, “animais superiores” – desconsiderando outros animais, que da mesma forma merecem consideração e respeito, pois têm seu lugar no mundo e buscam viver bem, como qualquer um de nós. Existem preconceitos pequenos, mas que provocam grandes estragos, como por exemplo, em um dia de feira, alguém se aproximou da banca da Vanguarda Abolicionista e não sabia o que era a palavra ‘vivissecção’, que estava em um banner. Após breve explicação, o sujeito já sacou sua opinião preconceituosa e errada sobre o que acabara de conhecer. Ou seja, a pessoa mal sabe a palavra, mas já tem opinião. E como não sabe do que se trata, é uma opinião falsa, preconceituosa, baseada em falsas premissas. Se ele apenas estivesse aberto a querer entender o termo e ler mais sobre o assunto, talvez sua opinião fosse diferente. Alguns militantes pelos animais também são preconceituosos. É. Dói saber que em nós pode haver um pouco de preconceito mas pode haver e devemos pensar nisso. Se agarram em coisas que leram há milênios e seguem da mesma maneira, criticando os demais por que descobriram coisas novas, que o coloca em choque com suas velhas ideias. É o caso de ativistas que criticam protetores de animais, protetores que detestam veganos, é gente esclarecida consumindo produtos com traços, com elementos de origem animal, produtos testados, mas que seguem na cisma e no ranço de não mudar. Mesmo havendo por aí pesquisas novas e novos produtos com alternativas veganas e que não testam em animais. É problemático tratar com pessoas que não querem mudar. Mas precisamos pensar nisso como elemento que melhora as relações dentro da causa e que ajuda os animais de fato. Para livrar-se de preconceitos é preciso aprender. E para aprender é preciso livrar-se de preconceitos. Parece um círculo vicioso, mas é muito fácil sair dele, aprendendo, ouvindo, lendo mais e deixando o ranço de seguir firme na mesma opinião formada. Quando mais livres de preconceitos estivermos, mais poderemos ajudar os animais, pois o especismo é um tipo de preconceito entre outros que atinge nossa sociedade e provoca sofrimento. Devemos ser contra todo tipo de preconceito e ser militantes nisso de forma ativa. Ellen Augusta Valer de Freitas é ativista pelos direitos animais. É licenciada em Biologia pela Unisinos, RS. Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

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GANAPATI LITERÁRIO

À Mesa Augusto dos Anjos

Cedo à sofreguidăo do estômago. É a hora De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora, Antegozando a ensanguentada presa, Rodeado pelas moscas repugnantes, Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa!

Como porçőes de carne morta... Ai! Como Os que, como eu, tęm carne, com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!... Como! E pois que a Razăo me năo reprime, Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também.

O LEGADO DE LENNOX

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o dia 11 de julho de 2012, Lennox, alegadamente um pit bull, foi morto pela Prefeitura de Belfast, na Irlanda do Norte. Uma campanha internacional foi instaurada para salvar Lennox e sua morte acabou causando indignação internacional. E não deveria ser diferente. Não é nada mais do que ignorância considerar pit bulls como um tipo de cão feroz. Qualquer pessoa que conheça um pouco sobre pit bulls sabe que eles são gentis e amáveis cães cujo histórico papel tem sido o de cuidar de crianças. Alguns pit bulls são ferozes? Sim, aqueles que se tornam ferozes por causa dos humanos. E pelo que li, a alegação das autoridades de Belfast de que Lennox era feroz, ou de que era “necessário” em qualquer sentido matá-lo, não foi fundamentada com devida evidência. Mas a história de Lennox tem um significado mais profundo. Houve uma sensação de indignação internacional sobre esta questão porque não havia justificativa para matar Lennox. A Prefeitura de Belfast agiu erradamente. O que dizer dos aproximadamente 150 milhões de animais não-humanos – não contando peixes – que serão mortos hoje para nosso consumo? Cada um destes animais é tão inocente e vulnerável como Lennox era. Não há justificativa para o sofrimento e morte que impomos. Nós matamos e comemos animais porque eles têm um gosto bom; nós agimos além do hábito a fim de satisfazer nossos prazeres do palato. Nada mais. Muitos daqueles que protestaram contra a morte de Lennox e se opuseram às ações da Prefeitura de Belfast estão fazendo exatamente o que a prefeitura fez: estão decidindo quem vive e quem morre. A indignação em todo o mundo sobre esta injustiça mostra que muitos de nós temos, sim, uma preocupação moral em relação a não-humanos. Se pudéssemos acender a chama da moral e difundir

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quinta-feira, 12 de maio de 2011 19:58:08

Gary L. Francione esta preocupação moral de modo que todos aqueles que se indignaram com a morte de Lennox se sentissem igualmente indignados pela morte de bilhões de animais mortos anualmente para consumo humano, nós teríamos um movimento de direitos dos animais. O patético movimento “carne feliz”, “consumo compassionado“ que atualmente existe não tem nada a ver com direitos dos animais, tem a ver com o ato de fazer humanos se sentirem melhores ao consumirem nãohumanos. Lennox foi morto injustamente. Isso foi um erro. Aqueles que se opõem ao que aconteceu com Lennox deveriam reconhecer que continuar consumindo animais fará com que não sejamos diferentes das autoridades de Belfast. Se você não é vegano, por favor, torne-se vegano. Eduque outros, de modo criativo e pacífico, sobre como o veganismo é a única resposta racional para o reconhecimento de que animais são moralmente importantes. Se tiver a possibilidade de adotar um cão abandonado de qualquer raça, por favor, faça isso. Se você adotar, considere um pit bull ou um mestiço de pit bull. Eles são cães maravilhosos! Deixemos nossas consciências elevadas sobre justiça, para todos os não-humanos, serem o legado de Lennox. Gary L. Francione é Distinguished Professor de Direito e o Katzenbach Scholar de Direito e Filosofia na Rutgers University, EUA. Autor de 5 livros, Francione desenvolveu a teoria de direitos animais abolicionista. Fonte: ANDA – AGENCIA DE NOTICIAS DE DIREITOS ANIMAIS Tradução: Bethânia Maggi Balielo

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Entrevista com Gary L. Francione Os animais domésticos, tais como as vacas e os porcos, e também os ratos de laboratório não existiriam se nós mesmos não os tivéssemos trazido à existência para nossos fins. Então, isso não significa que podemos tratar esses animais como nossos recursos? Resposta: Não. O fato de sermos, de algum modo, responsáveis pela existência de um ser não nos dá o direito de tratar esse ser como nosso recurso. Se esse fosse o caso, então poderíamos tratar nossos filhos como recursos. Afinal de contas, nossos filhos nem existiriam, se não fosse pelas nossas ações—desde a nossa decisão de conceber até nossa decisão de não abortar. E embora nos seja outorgada uma certa liberdade para decidirmos como tratar nossos filhos, há limites: não podemos tratá-los como tratamos os animais. Não podemos escravizá-los, submetê-los à prostituição ou vender seus órgãos. Não podemos matálos. De fato, há uma norma cultural segundo a qual trazer uma criança à existência cria, nos pais, a obrigação moral de cuidar dela e não explorá-la. Deve-se notar que uma das pretensas justificações para a escravidão humana nos Estados Unidos foi a de que muitos daqueles que eram escravizados não existiriam se não fosse pela instituição da escravidão, em primeiro lugar. Os primeiros escravos trazidos aos Estados Unidos foram forçados a se reproduzir e seus filhos foram considerados propriedade. Embora esse tipo de argumento nos pareça absurdo nos dias de hoje, ele demonstra que não podemos assumir a legitimidade da instituição da propriedade— de humanos ou não humanos—e depois perguntar se é aceitável tratar uma propriedade como propriedade. A resposta já está predeterminada. Em vez disso, devemos primeiro perguntar se a instituição da propriedade de animais (ou de humanos) pode ser justificada moralmente. A instituição da propriedade de animais de estimação viola o direito básico dos animais a não serem considerados coisas? Resposta: Sim. Os animais de estimação, ou pets, são nossa propriedade. Cães, gatos, hamsters, coelhos e outros animais são produzidos em massa, feito pinos em uma fábrica, ou, como é o caso de aves e animais exóticos, são capturados na natureza e transportados por longas distâncias, em viagens durante as quais muitos deles morrem. Os animais de estimação são comercializados exatamente como as outras mercadorias. Embora algumas pessoas possam tratar bem seus companheiros animais, há mais pessoas ainda que tratam os delas mal. Nos Estados Unidos, a maioria dos cachorros não vive sequer dois anos em um lar, e já é largada em um abrigo ou passada para outro dono; mais de 70% das pessoas que adotam animais acabam dando-os para alguém, levando-os para abrigos ou abandonando-os. Todos nós sabemos de casos de horror em que cães ficam presos por correntes curtas durante a maior parte de suas vidas, sozinhos. Nossas cidades estão repletas de gatos e cães de rua que têm vidas deploráveis, passam fome ou frio, sucumbem a doenças, ou são maltratados por humanos. Pessoas que dizem amar seus companheiros animais os mutilam insensatamente, mandando recortar suas orelhas, decepar seus rabos, remover suas unhas para que eles não arranhem os móveis. 08

Pode ser que você trate seu companheiro animal como um membro da sua família e efetivamente lhe atribua valor inerente ou o direito básico de não ser tratado como seu recurso. Mas esse tratamento que você lhe dá significa, na realidade, que você considera que sua propriedade animal tem um valor mais alto do que o valor de mercado; se você mudar de ideia e espancar seu cachorro diariamente com o propósito de discipliná-lo, ou se não alimentar seu gato para que ele fique mais motivado a caçar os ratos no porão da sua loja, ou se matar seu animal porque não quer mais ter despesa com ele, sua decisão será protegida pela lei. Você tem a liberdade de dar o valor que quiser à sua propriedade. Você poderá decidir fazer o polimento do seu carro com frequência, ou poderá deixar a pintura se desgastar. A escolha é sua. Contanto que você dê um mínimo de manutenção ao seu carro para que ele passe na inspeção, qualquer outra decisão que você tomar quanto ao veículo, incluindo a de dá-lo a um ferro-velho, é problema seu. Contanto que você dê um mínimo necessário de comida, água e abrigo ao seu animal de estimação, qualquer outra decisão que você tomar quanto a ele, exceto a de torturá-lo sem qualquer propósito que seja, é problema seu, incluindo a decisão de largá-lo num abrigo (onde muitos animais são ou mortos ou vendidos à pesquisa biomédica) ou de providenciar a morte dele pelas mãos de um veterinário. Há muitos anos adotei um hamster de uma colega de classe na faculdade de Direito. Uma noite o hamster adoeceu e eu liguei para um atendimento veterinário de emergência. O veterinário disse que o preço mínimo de uma consulta de emergência era 50 dólares e me perguntou por que eu estaria querendo gastar isso quando podia comprar um “novo” hamster em qualquer pet shop por uns 3 dólares. De todo modo eu levei o hamster ao veterinário, mas aquele acontecimento foi uma das primeiras vezes em que tomei consciência do status de mercadoria dos animais. Moro com sete companheiros caninos salvos do abandono e os amo muito, então este assunto, para mim, não é brincadeira. Embora eu os considere membros da minha família, eles continuam sendo minha propriedade e, um belo dia, eu poderia resolver providenciar a morte de todos. Por mais que eu goste de morar com cachorros, mesmo se restassem somente um cão e uma cadela no mundo, eu não seria a favor de fazê-los se reproduzir a fim de podermos ter mais “pets” e assim perpetuar sua condição de propriedade. Na verdade, qualquer pessoa que realmente se importe com cachorros deveria visitar uma “fábrica de filhotes”— um lugar onde cachorros são paridos às centenas, ou aos milhares, e tratados como meras mercadorias. As cadelas são forçadas a dar cria repetidas vezes, até ficarem “gastas”, e depois são ou mortas ou vendidas à pesquisa biomédica. É claro que devemos cuidar de todos os animais domésticos que estão vivos no presente momento, mas não deveríamos continuar a trazer mais animais à existência a fim de poder possuí-los como animais de estimação. Gary L. Francione é Distinguished Professor de Direito e o Katzenbach Scholar de Direito e Filosofia na Rutgers University, EUA. Autor de 5 livros, Francione desenvolveu a teoria de direitos animais abolicionista. Fonte: ANDA – Agencia de Noticias de Direitos Animais


Capital Espiritual Leonardo Boff

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o capital material somos forçados a passar ao capital espiritual. O capital material tem limites e se exaure. O espiritual é infinito e inexaurível. Quanto mais se usa, mais cresce e se expande. O capital espiritual é feito de amor, de compaixão, de cuidado, de criatividade, realidades intangíveis e valores infinitos. Este foi parcamente aproveitado por nós. Mas ele pode representar a grande alternativa que supera a crise atual e inaugura um novo patamar civilizatório. A centralidade do capital espiritual reside na vida, na Humanidade e na Terra viva. Busca criar as condições para as liberdades substantivas, como queria o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen (Desenvolvimento como liberdade), que permite às pessoas humanas moldarem sua vida e destino, realizarem sua autonomia e viverem numa sociedade “menos malvada” (Paulo Freire), na qual seja menos difícil o amor, a compaixão, o cuidado para com a nossa Casa Comum, na alegria de viver e na capacidade de transcendência...

Cremos que o grande legado da crise global sob a qual padecemos seja a percepção de que o capital material não satisfaz os anseios fundamentais do ser humano. Este tem fome de quê, além da fome de pão sempre saciável? Tem fome de reconhecimento, de dignidade, de amar e de ser amado, de alegria de viver e de transcendência, fome que irrompe como insaciável e sempre presente em sua existência. Agora poderá surgir um ser humano marcado pelo inexaurível capital espiritual. Agora prevalece o mundo do ser mais que o mundo do ter... Leonardo Boff - teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais. É palestrante e autor de diversos livros.

MENOS PROZAC, MAIS AMOR!

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Conceição Cavalcanti

a solidez nos traga felicidade, paz e o tão almejado amor. ara o filósofo francês Luc Ferry a felicidade não Confessar nossos segredos, nem pensar! Para quem? Pois existe. O que podemos almejar é a serenidade.A até aquele melhor amigo só está esperando o momento certo busca por um estado de felicidade plena para usar o que sabe e assim ascender na vida. Em tempos não faz sentido na condição existencial que vivemos. A onde inteligência se confunde com esperteza, ética não perda de pessoas queridas, crises afetivas, separações, passa de uma prática de enfeite dos discursos marqueteiros, medo da violência, da solidão, do outro, enfim o viver nos coloca diante de coisas boas e ruins e confiança é questão de sorte, respeito é “Só se atinge a essas oscilações entre alegrias e tristezas passado e o amor é cafona, almejar ser feliz serenidade vencendo fazem de nós eternos aprendizes do viver é insensatez. Vivemos a experiência de um o medo. É o medo que e equilibristas em uma corda bamba. Ele mundo diluído, efêmero e fragmentado. Um nos torna egoístas e afirma que é o medo que nos torna egoístas mundo de amores vazios, de frases de efeito, nos paralisa, que nos e nos paralisa, que nos impede de sorrir celebridades, corpos perfeitos, músculos impede de sorrir e e de pensar de forma inteligente, com de mais e alma de menos. A velocidade liberdade. Somos contraditórios, ansiamos da internet, as mensagens acessadas em de pensar de forma por amigos, encontros, cumplicidade, e ao segundos, a comunicação de uma era onde inteligente, com mesmo tempo, criamos barreiras quase todas as fronteiras são testadas e vencidas, liberdade. Os filósofos intransponíveis quando pressentimos que onde não há limites para especulações, gregos costumavam existe a possibilidade de compromisso devaneios, exposições e muito menos para dizer que o sábio é e envolvimento. Afinal, de que temos uma tecnologia que desafia as dimensões aquele que consegue medo? Você já se perguntou quais são humanas do existir. Que tal reconhecer vencer o medo”. os seus maiores medos e como lida com nossa fragilidade, nossa humanidade, nossos Luc Ferry eles? Robert Happé, pensador e escritor desejos e necessidades de amor, aconchego, holandês afirma em seu livro “Consciência é a Resposta” do olhar do outro, do abraço e por fim, de cuidar e ser que o contrário do amor não é o ódio, mas, o medo. Por cuidado. De cuidar da nossa casa interna e planetária. medo não nos entregamos ao prazer, ao amor, às amizades. Olhar ao nosso redor e perceber mais do que a felicidade Sempre estamos preparados para o pior. Decidimos morar do Prozac , precisamos mesmo da serenidade surgida de juntos por já haver cogitada uma possível separação, casar uma consciência lúcida com atitude amorosa diante daquilo exige garantias. Mas, numa sociedade que se desmancha e se que somos e que são todos os outros. Precisamos dessa desfaz a cada segundo como ter garantias? Escolhemos ficar serenidade que se apresenta com coragem e nos permite ao invés de estar porque o ficar nos dá a sensação de que não colocar no lugar do nosso medo, o amor. há nada para perder. Queremos proteção, segurança e para Conceição Cavalcanti - Educadora, jornalista isso construímos armaduras sólidas na esperança de que e colaboradora do Ganapati 09


A BUSCA Extraído do livro Idéias em Perspectiva de Paul Brunton A busca do Eu Superior nada mais é que o estágio final da longa procura da felicidade pelo ser humano. O ponto central dessa busca é a abertura interior do coração do ego para o Eu Superior. É para aqueles que sentem falta na vida de alguma coisa grande à qual possam se dedicar; que não conseguem descansar satisfeitos ocupando-se apenas de ganhar seu pão com manteiga ou de gastar o tempo em prazeres. Que causa, que missão pode ser maior do que cumprir o propósito superior da vida sobre a terra? Estamos aqui empenhados numa missão sagrada. Temos de encontrar o que os teólogos chamam de alma, o que os filósofos chamam de Eu Superior. É algo que está ao mesmo tempo à mão, e contudo bem distante, pois é a fonte secreta da nossa corrente-de-vida, da nossa individualidade e da nossa consciência. Mas porque nossa energia-de-vida está continuamente se escoando através dos sentidos, porque nossa individualidade está continuamente identificada com o corpo, e porque nossa consciência nunca se contempla a si mesma, o eu superior necessariamente se esquiva de nós por completo. Quando esse vago anseio por algo que a vida mundana não pode satisfazer torna-se insurportável, pode ser um sinal de que o aspirante está pronto para essa busca.

O SER HUMANO MINGUOU

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ser humano minguou. Sucumbiu à cobiça. Foi perdendo humanidade nas esquinas, ações, nãoações, avenidas. Foi-se desesperando em mentiras. O ser humano vestiu tantas máscaras que perdeu (de vez) o rosto. O ser humano não fala mais, apenas repete grunhidos e ruídos de ganância e perversidade. O ser humano minguou e faz mal a outros seres vivos. É nocivo, parasita, insano, não consegue viver entre ninguém, nem entre os da mesma espécie. O ser humano iludiuse e pensou ser divino, aéreo, supremo. Comandou várias guerras por nada, por dinheiro, por poder, por ultraje. O ser humano eclipsou. Não tem mais tanta arte e definha em caráter. Ética? Moral? Não sabe mais nem o sentido das palavras que cunhou. O ser humano escorregou por seus próprios ardis. O ser humano perdeu-se no caminho, conforme ele mesmo se pronunciou e previu. O ser humano perdeu as asas que jamais tivera. O ser humano criou a destruição. O ser humano, por extrema vida de levar vantagem, está deserto em si mesmo. O ser humano boceja e, como um glutão, se refestela num banquete de assassínios e sequelas. Ah, o ser humano adoece e não tem mais nem vida. O ser humano contrai mundo e o ser humano converte tudo em escuridão. Tem incômodo à harmonia, à natureza, e apedreja o viver junto a outrem. O ser humano desencadeia terríveis vozes de morte e fantasmagorias. Sobretudo o ser humano é ávida caça e caçador de si mesmo. O ser humano inventa histórias e as conta como signos dogmáticos da eternidade. O ser humano ignora vidas e, mitologicamente, reverbera e reinventa seu mundo. O ser humano incorpora toda a sua forma daninha para justificar sobrenaturalmente seu domínio sobre uma terra que jamais o pertenceu e este tomou de seus pares e outras

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Eustaquio J. Silva espécies. O ser humano desconsidera até mesmo que nada temos. O ser humano é dobrado e dobra todos os dias. Ávido por luxo e fama esfola e mata outros animais. Rejeita sua animalidade, mas é tão brutal e mesquinho. É um sínolo de lixo e visão de ignorância. O ser humano, ah o ser humano! Ele (nós não temos) não tem limites! Não tem cultura que apazigue sua sede e fome de poder! Sua vida é um golpe de inveja mal sucedido. O ser humano é distúrbio e ensina a ser desânimo a tudo que vê. Açoita e mata indefesos. Quer e consegue ser desleal. O ser humano é uma horda de pseudo valentões que se comprazem com a dor alheia. Uma trupe do desengano e do engodo prontas a vender e lucrar com tudo que veem. O ser humano é terreno vazio. O ser humano é terreno esvaziado por si mesmo. O ser humano desordena a tudo que toca. Produz seu próprio mal e dele e com ele se cobre e vela. A soma de todos os seus tesouros resumem-se a seu ardil infindável. E, como cantava alguma vez certo homem: vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações! E o que nos resta? E o que nos sobra? Ver pelo que fazemos aquilo que descosemos no mundo. Ver, sobretudo pelo que deixamos de fazer, o que poderíamos construir e tornar melhor. Mas com tanta intenção de dolo não tem quem viva melhor. Não tem. O ser humano minguou. Eustáquio J. Silva - Bacharel em Filosofia. Revisor e coordenador de textos da Editora Bayroniana.


A FESTA DA INDIFERENÇA

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esta de conclusão de curso de meu primo. Finalmente, o tão esperado diploma: símbolo da vitória diante de inúmeras adversidades. E o patriarca da família decidiu que a comemoração seria numa churrascaria... Criticar a escolha do local? Impossível. Deixar de congratular uma pessoa tão querida? Idem. E lá fui eu para o que costumo chamar de crematório... Não sem antes dar um jeito de fazer uma refeição vegetariana como de hábito. Na entrada do restaurante, imagens de bois com olhos tristes e dulcíssimos adornando (?) o local. No interior do ambiente, a mesma coisa. E sentamos numa mesa ao lado de uma parede com uma espécie de quadroescultura de uma vaca nelore de olhar desolado que não me permitia entrar no clima da comemoração. Era só olhar para o lado, imaginar a sua desgraça e perceber o tamanho da indiferença de todas as pessoas que lotavam a churrascaria. Entre uma conversa e outra, um garçon passava com um espeto e dizia: “Javali, senhor”? Como se “javali” fosse um adjetivo e não o corpo de um ser senciente que, quando em vida, podia sentir dor, satisfação e ter noção sobre isso. Vários outros adjetivos passaram: coração, lombinho, maminha, cupim, bife de chorizo, linguicinha... Ao meu redor, todos riam, bebiam e comiam na inocência da ignorância (verdadeira ou por opção), que tira toda a responsabilidade das costas de cada ser humano que paga por um prato de carne, financiando e sustentando essa

Ioná Ponce de Leon indústria macabra e vergonhosa a qual mantém, por meio de lindas propagandas, a crença de que a vida humana necessita do sacrifício animal para se manter neste planeta. Assim, a divulgação de um presunto é feita por um franguinho bem animado. Galinhas “felizes” estampam as embalagens de aves resfriadas, porcos sorridentes numa travessa em brasas apresentam a logomarca de alguns estabelecimentos e tudo fica tão bonitinho que as pessoas terminam por ter diante de si uma interface “amigável” entre elas e os abatedouros. “Vitelinha, senhora?”. “Eu não como bicho, moço”. O rapaz ficou meio tonto e sem saber o que dizer. Saiu de fininho e foi para a mesa ao lado que se refestelava com os cadáveres em seus pratos. Uma olhada na vaca da parede, um suspiro, uma lágrima que teimava descer em meio à alegria da festa de meu primo. E, vendo tudo aquilo, meu coração entristecido diante de tanta indiferença pedia insistentemente a minha alma: “Ore pelos seus irmãos do reino animal, vítimas de todo o tipo de miséria cometida pelos tais seres racionais, sensíveis e inteligentes. Peça perdão. Peça a Deus redenção aos que sofrem. E também a Ele piedade para as consequências advindas e vindouras de tanta insanidade”. Iona Ponce de Leon - Relações Públicas e colaboradora do Ganapati

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ganapati no cinema - O HOMEM URSO (Werner herzog) Igor Calado

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m Outubro de 2003, Timothy Treadwell e sua namorada Amie Huguenard foram mortos por um urso no Parque Nacional de Katmai, no Alasca, Estados Unidos. Foi o décimo terceiro (e último) verão que Timothy passou em companhia dos perigosos ursos pardos, numa famosa jornada que atraiu atenção da mídia americana. Ex-ator com problemas de drogas, álcool e depressão, Timothy foi “salvo” quando descobriu os temidos ursos pardos e tomou para si a missão de protegê-los, vivendo parte do ano entre eles e divulgando nos Estados Unidos a importância de preserválos. Sua biografia e seu trabalho entusiástico e controverso deram origem ao documentário O Homem Urso, dirigido por Werner Herzog. O trabalho de Timothy já havia sido mostrado pela Discovery Channel e, após sua morte (a única registrada por ataque de urso nos 85 anos do parque), a grande atenção da mídia motivou a emissora a fazer uma nova peça sobre o ambientalista. Em 2004 o projeto já estava sendo gestado quando o cineasta Werner Herzog, responsável por clássicos como Fitzcarraldo (1982) e Aguirre – A Cólera dos Deuses (1972), o descobriu e pediu para dirigi-lo. Longe do formato de um documentário tradicional sobre natureza selvagem e preservação, O Homem Urso é uma viagem pelo personagem (um julgamento?) de Timothy Treadwell e um profundo questionamento sobre a relação entre os humanos e a natureza. Os 100 minutos de filme fluem com delicadeza graças à habilidade narrativa de Herzog, que também narra em Inglês, sem esconder o sotaque alemão e sem deixar de se posicionar enquanto comentador da trama. Como um personagem do filme, o diretor aparece em quadro, interroga, analisa, concorda e discorda, alternando material original filmado por Treadwell (que ele exibe com crueza impudica) com entrevistas produzidas com outros coadjuvantes da história – o delegado responsável pelo caso de sua morte, a ex-namorada, a amiga Jewel Palovak, os pais, o amigo da faculdade, um aviador, um especialista nos ursos do Alasca, e outros. Dos vários momentos interessantes do filme, pontuo duas curtas entrevistas: numa, um aviador do Alasca – onde ursos são vistos como inimigos – demonstra raiva em

relação ao aventureiro e vaticina: “ele teve o que merecia”. Noutra um nativo-americano diz que Timonthy cruzou a linha que separa ursos e humanos e que, para sua cultura, isso era desrespeitoso. Sabemos desde o começo, e somos lembrados disto ao longo de todo o documentário, que a história de Timothy termina com sua morte trágica. Quando chegamos ao dia final/fatal, reconstruído pedado a pedaço, Timothy Treadwell se tornou tudo, menos um herói – na melhor das hipóteses, um desastrado digno de pena. Em sua obra, Herzog tem a seu lado uma arma implacável: o acesso irrestrito às filmagens privadas e não editadas de Timothy, cedidas a ele por Jewel Palovak, que ele usa em abundância. Mas diante de um quadro tão desolador de um ser humano, me resulta difícil não conceder um mínimo de compaixão na forma do benefício da dúvida. O Timothy de Herzog não é distante do personagem-tipo querido ao cineasta em suas ficções: um protagonista turbulento, com aventuras grandiosas e perigosas e certo grau de insanidade. Torna-se natural perguntar: foi o protetor de ursos vítima da idealização negativa do documentarista? Ou Herzog apenas encontrou mais um caso real de seus interesses digno transposição às telas? Aguirre, Fitzcarraldo e Cobra Verde foram todos personagens históricos cuja história foi recontada pelo diretor com liberdade e imaginação. Outros olhares sobre Timothy estão disponíveis: a Discovery lançou em 2008 uma série de 10 episódios intitulada The Grizzly Man Diaries e Timothy também aparece em outros programas especiais; há os livros The Grizzly Maze (Nick Jans) e Among Grizzlies (do próprio Treadwell); o site da fundação de Timothy, Grizzly People, também confirma que a produtora de Leonardo DiCaprio pretende levar novamente sua história ao cinema, com o ator hollywoodiano no papel principal. Ao cabo e ao final, o documentário deixa a sensação de ter destruído um grande sonho de coabitação pacífica e amorosa entre os animais humanos e outras espécies, reduzindo os desejos de Timonthy Treadwell a devaneios de um ser humano com sérios problemas de adaptação. Segundo Herzog, Treadwell era deslocado na sociedade humana e via na sociedade dos ursos uma simplicidade reconfortante; enquanto que, para ele, os olhos dos ursos mostravam apenas a “indiferença da natureza”. Nenhuma moral habita a natureza. Segundo Herzog: “Creio que o denominador comum do universo não é a harmonia mas o caos, a hostilidade e o assassinato”. Igor Calado -Membro e colaborador do Ganapati

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EVENTOS REALIZADOS - SVb/GANAPATI Bárbara Bastos

Palestra sobre vegetarianismo e direitos animais na Livraria Cultura

Conscientização e lanches veganos nas feiras de adoção de cães e gatos

A convite da Brala – Associação para Lutar pelos Animais, a coordenadora do Grupo SVB-Mandacaru, Bárbara Bastos, realizou uma palestra no auditório da Livraria Cultura no dia 12 de julho, com o tema Vegetarianismo – Pelos Animais, Pelas Pessoas, Pelo Planeta. Foram apresentados conceitos como especismo, veganismo e direitos animais, além dos principais impactos ambientais e para a saúde humana decorrentes do consumo de produtos de origem animal. Algumas dicas sobre alimentação foram discutidas, mostrando como viabilizar de forma simples a adesão a uma dieta vegetariana no dia-a-dia. Antes da palestra aconteceu uma degustação de lanches sem nenhum ingrediente de origem animal, incluindo coxinhas, rissoles e sanduíches de pastas de tofu, todos aprovados pelo público presente, que agregava pessoas com diversas opções alimentares. Para saber mais sobre o trabalho da Brala acesse: http://www.brala.org.br/

O Grupo Mandacaru-SVB e o Grupo Ganapati estiveram novamente presentes nas feiras de adoção de cães e gatos do Projeto Adote um Vira-Lata de junho e julho, e na última com a novidade de lanches veganos (sem nada de origem animal) para vender, além do trabalho de divulgação do vegetarianismo e direitos animais. A feira acontece no 1º sábado de cada mês no Parque de Exposições do Cordeiro. Em julho participamos também da feira de adoção de cães e gatos organizada pelas protetoras Poli Ramires e Roberta Ferreira, no Colégio Souza Leão, em Candeias, realizando o mesmo trabalho. Saiba mais em http://adoteumvira-lata.blogspot.com.br/ Bárbara Bastos é professora da UFPE e Coordenadora do Grupo Mandacaru-SVB em Recife

Filie-se! Ajude a Sociedade Vegetariana Brasileira a trabalhar para que o vegetarianismo seja reconhecido como uma opção alimentar benéfica para a saúde humana, dos animais e do Planeta. www.svb.org.br/filiacao

Ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, apoia a Segunda Sem Carne A Campanha Segunda Sem Carne ganhou recentemente mais um apoio de peso: a Ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Com os dizeres “Apoio a Segunda Sem Carne, uma ação simples que ajuda a refletir sobre nossa alimentação”, a Ministra selou seu apoio e posou para a foto com a camiseta símbolo da campanha. Já são várias celebridades, autoridades, instituições e até mesmo prefeituras, como as de São Paulo, Curitiba e Niterói que declaram seu apoio à ideia lançada no Brasil pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) em usar a segunda-feira como o dia oficial para refletirmos os impactos que o hábito de comer carne provoca na saúde das pessoas, dos animais e do planeta. Milhares de pessoas já aderiram e outras tantas afirmam ter mudado seus hábitos alimentares após terem compreendido o convite da Segunda Sem Carne: Descubra Novos Sabores.

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Ganapati Julho - Agosto - 2012