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“Todos

os seres humanos têm direito a um padrão de

vida capaz de assegurar a saúde e bem‑estar de si mesmo e da sua família, inclusive alimentação, ves‑ tuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, ve‑ lhice ou outros casos de perda dos meios de subsis‑ tência fora do seu controle.” Artigo 25 - Declaração Universal dos Direitos Humanos


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Todos os dias, milhares de moradores de rua são marginalizados ou simplesmente ignorados pela sociedade. Só em Porto Alegre, segundo um estudo realizado pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) em parceria com UFRGS, divulgado em 2016, 2.115 pessoas viviam em situação de rua na Capital. Passados dois anos, mesmo sem um estudo oficial, a estimativa é de que esse número já tenha dobrado ou, até mesmo, triplicado. Mas, afinal, o que leva alguém a buscar abrigo nas ruas? São inúmeros os motivos de quem migra. E são justamente eles que dão vida ao projeto A Rua Tem Nomes. É impossível encontrar alguém que desconheça a rejeição. Para alguns, esse é um sentimento definitivo no dia a dia do cotidiano. Talvez seja por isso que moradores de rua sejam considerados seres tão invisíveis pela sociedade. Ou porque olhá-los represente o mesmo que se deparar com a dor, solidão, medo, miséria, culpa ou abandono. Talvez porque eles representem as combinações que todos desejam evitar.

A vida, mesmo que sofrida, não é capaz de apagar os sonhos. Nem mesmo o das pessoas mais vulneráveis, que almejam apenas um pouco de carinho e dignidade. Hoje, quase ninguém parece estar disposto a ajudar o próximo. Mas a empatia que ainda resta em uma pequena parcela da sociedade, pode significar muito para quem só precisa ser ouvido. Fundamentado no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o projeto surge da necessidade de escuta e amplificação às histórias dessas pessoas e aos motivos que as fizeram migrar para as ruas. Preocupado com questões de saúde, alimentação, bem-estar, moradia, atenção médica e social, previstas no artigo, o projeto jornalístico visa conscientizar e sensibilizar a população através das histórias de quem passa despercebido todos os dias. O Fotolivro A Rua Tem Nomes, resgata os olhares, sonhos, anseios e histórias de vida de quem hoje encontra na rua o único lugar possível para viver.


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“Quero ter uma vida boa” Há nove anos vivendo longe de um teto, César Augusto Silva faz parte das mais de quatro mil pessoas em situação de rua em Porto Alegre, de acordo com dados da FASC. O que o levou para esse caminho foram as drogas. Ele conta que antes disso tinha uma vida tranquila. Ainda destaca que não tinha a preocupação de conseguir dinheiro para usar droga. Tudo começou apenas com o baseado, mas a curiosidade fez com que ele experimentasse o crack. “Com trinta anos eu não sabia o que era crack, só ouvia as pessoas falando. Até que conheci e já estou há nove anos tentando sair dessa vida”. César diz que no ápice do vício passava as noites em claro fumando pedra. Nas madrugadas sustentando o hábito, sua outra companhia era o álcool. O homem de 40 anos chegou a frequentar clínicas de reabilitação. Na última vez, passou 21 dias, mas logo que saiu caiu novamente na tentação. “Eu estava proibido de colocar dinheiro no bolso por três semanas. Botei a mão no dinheiro e a primeira coisa que eu pensei foi em tomar uma cerveja. Daí comecei a me perder de novo”.

Emocionado, relata que após chegar ao fundo do poço decidiu lutar contra a droga. Atualmente está longe do vício e diz reconhecer seu ponto fraco. Para evitar cair na tentação, César procura ocupar a cabeça com coisas boas, como os estudos. Ele cursa o ensino fundamental na Escola Municipal de Porto Alegre. “Estou tentando ocupar minha cabeça com isso, que vai me beneficiar depois, daqui uns três quatro anos, até me formar”. Quem o olha não acredita que ele é morador de rua. Apesar da sua situação, preza pela boa aparência e diz que viver nas ruas não é desculpa para ser sujo. Além disso, ele busca uma vida melhor. “As pessoas sempre dizem pra mim que nunca é tarde para aprender o que é bom. Quero no futuro cinseguir fazer curso superior, quem sabe faculdade de Direito”. César se apoia na esperança de ter uma vida digna. Para ele, tudo depende de ter força de vontade para superar obstáculos, de olhar para frente e deixar o passado que o fez sofrer para trás. “Eu quero muito ter uma vida boa, ter minha casa, meu carrinho. Esses são os meus objetivos principais daqui pra frente. Basta eu querer.”


“Quero ficar onde estou” Claudio Vargas Vissoto, 68 anos, sempre foi uma pessoa alegre e transparente. Trabalhou de 1967 a 1991 como técnico em Contabilidade na Varig Sul, em Porto Alegre. Durante esse período, nunca teve um motivo para reclamar da vida. Com esse emprego, conquistou tudo o que sempre desejou. Tinha uma casa e uma esposa, com quem pretendia construir família. De repente, os sonhos desmoronaram. A empresa onde Cláudio trabalhava faliu. Depois de 24 anos trabalhando, ele se viu desempregado. Com a rescisão, resolveu aproveitar a vida e tentar recuperar todos aqueles dias que antes tinham sido dedicados totalmente à Varig. O dinheiro subiu à cabeça. Eram caras comemorações e gastos enormes para manter o vício no álcool. Um dia, Cláudio ficou sem nada. Absolutamente nada. Sem um centavo no bolso, a vida foi do céu ao inferno. Perdeu tudo aquilo que havia conquistado. Perdeu a esposa. Perdeu a casa. Perdeu também o chão para seguir a vida. Em meio ao caos, Cláudio encontrou abrigo no apartamento da irmã, que morava na zona norte da capital. Quando tudo parecia melhorar, ele foi surpreendido com a notícia de que ela tinha sido diagnos-

ticada com câncer de mama. Foram anos de dedicação e luta conjunta por um resultado positivo, de alento ao coração. “Insuficientes à vontade de Deus”, como descreve. Com o falecimento da irmã, Claudio viu o mundo desabar mais uma vez. Sem saber o que fazer e para onde ir, procurou abrigo em Tramandaí, na casa da irmã mais velha. De 2006 a 2013, foi no Litoral Gaúcho que Cláudio conseguiu retomar o brilho no olhar e a alegria de viver. Mas não por muito tempo. As lembranças faziam Cláudio encontrar refúgio no álcool. Sem emprego e sem dinheiro para alimentar o vício, ele era capaz de tudo. “Lá eu tinha outra irmã que me ajudava, mas eu não quis ficar naquela vida. Comecei a beber de novo, incomodei, aprontei e tive que vir embora”, lembra. Sem muitos detalhes desse período, ele conta que quando voltou para Porto Alegre, retornou ao apartamento da irmã que o acolheu logo no momento em que tinha perdido tudo. “Eu fui residir no apartamento da minha irmã que faleceu de câncer. O apartamento já foi a leilão e tudo, porque já faz mais de 10 anos que não se paga condomínio. Foi a leilão, mas ninguém comprou, ninguém mexeu e eu já tô há quase três anos lá”, diz.


Sem emprego desde 1991, Cláudio sobrevivia da ajuda, tanto material como emocional, dos amigos e vizinhos. Hoje recebe o valor de R$ 954,00 da Lei Orgânica da Assistência Social. O Benefício Assistência de Prestação Continuada (BPC) da Lei Orgânica da Assistência Social, usualmente conhecimento como LOAS, é o benefício previdenciário que garante o pagamento de um salário mínimo mensal ao idoso acima de 65 anos ou às pessoas com deficiência que não possuam condições de suprir sua própria subsistência. Esse é o caso do sr. Cláudio que, apesar de ter um teto, não têm, muitas vezes, o mínimo para se manter ou ter uma alimentação digna. Quem pensa que a vida dele melhorou por conta do benefício, se engana. As despesas para manter um apartamento vão muito além de um salário-mínimo. Tanto é verdade que Cláudio precisou ir atrás de um empréstimo para conseguir equilibrar as contas, mas acabou se arrependendo. A financeira onde ele realizou o empréstimo havia prometido descontar do seu benefício LOAS apenas R$ 30,00 mensais, mas hoje já ultrapassa R$530,00 por mês. Assim, pouco sobra para que ele consiga se manter com o minimo de dignidade.

“Se eu ainda não me tornei um morador de rua, foi por muito pouco. Eu estou no apartamento da minha irmã até que alguém compre pelo leilão. Depois disso, meu destino será as ruas”, prevê Cláudio. Com uma renda de, aproximadamente, R$ 424,00 para pagar água, luz e as demais despesas, ele frequenta todo tipo de almoço solidário destinado às pessoas em situação de rua. “Durante a semana, eu me alimento no Bandejão por R$1,00. Mas tem o POP, que oferece comida gratuita e, às vezes, o Centro Espírita da Getúlio Vargas. Nos finais de semana, meu destino são os almoços gratuitos promovidos nos viadutos da cidade”. Sem aposentadoria por ter perdido a carteira profissional e não ter registro no Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, Claudio leva uma vida de incertezas, enquanto o apartamento não vai a leilão novamente e ele não tem a ordem de despejo decretada. Hoje o maior medo que Cláudio enfrenta é o de se tornar mais uma das milhares de pessoas que vivem em situação de rua em Porto Alegre. Mais uma das que sofrem e, muitas vezes, acabam morrendo, sem sequer receber algumtipodeassistênciadopoderpúblicoU . madasmilharesdepessoasnegligenciadas.


“Quero dar a volta por cima” Com um chapéu de palha, barba e cabelos longos, Otávio de Figueiredo Batista, um “maluco beleza” de 38 anos parou na Capital gaúcha pegando uma carona com um e outro. Foi criado na Fronteira do Uruguai com a mãe e o pai, e mais sete irmãos. Ele descreve a infância “boa, com tudo que uma criança poderia ter”. Aos 11 anos de idade teve o primeiro contato com drogas, experimentou maconha. Aos 12, cheirou cocaína. Aos 14, passou a se injetar. E há 28 anos ele convive com o vício nas drogas. “Eu não tenho orgulho de falar que sou usuário de drogas, tenho vergonha. Eu não quero isso pra minha vida. Infelizmente, tô metido até a cabeça nessa porra aí, mas eu quero um dia poder dar a volta por cima”. Um eterno apaixonado, ele relembra do grande amor, Maria Natalía. Viveu 11 meses intensos com a moça após deixar um relacionamento de dez anos. Percorreram por diversas praias de Santa Catarina e Uruguai. “Aqueles 11 meses que eu vivi com a Natalía foram como se fosse 11 anos. Eu tenho certeza que ela é minha maior recordação”. Natalía foi morar na Espanha, disse que esperaria por ele por dez anos e Otávio jamais desistiu de reencontrar a amada. “Tenho tempo ainda para

alguma porta se abrir e eu poder ir para a Espanha e viver o resto da minha vida lá”. Ao sair de Santa Catarina, por onde ficou anos, chegou em Porto Alegre sem destino algum. Na sinaleira da Avenida João Pessoa com a Ipiranga, foi onde conseguiu alguns trocados para alimentar o vício. Passou duas noites no Albergue Dias da Cruz e nunca mais voltou em decorrência das dificuldades de horários para ter acesso ao local. Otávio não teve a oportunidade de ter filhos e isso pesa muito, pois ainda habita em seu coração o desejo de ser pai, de ter um filho pra chamar de seu. “Acho que a droga cortou isso aí. Não me tirou a vida, mas tirou a vida que eu poderia botar no mundo. Sempre quis pegar meu bebezinho. Era meu sonho ter meu filho”. Como um “aquariano sentimental”, tem coração de bondade imensa. Vagando pelas ruas e cantarolando músicas poéticas, anseia por uma transformação na vida, mas a falta de apoio o impede de conseguir. “Se eu ganhasse um pai e uma mãe de novo e me levassem para dentro de casa e dissessem: nós vamos te cuidar, vamos ficar contigo. Seremos teus amigos, vamos te ajudar”, diz com um vazio no olhar demonstrando falta que o acolhimento fraternal faz.


“Quero sair das ruas” Luana, 25 anos, vive na rua há cerca de sete anos. Tomou como escolha o desconhecido porque não tinha paz e liberdade dentro de sua própria casa. “Eram muitas as divergências em casa, então resolvi sair”. Sem ter para onde ir, seguiu o caminho das ruas. Aos poucos foi se adaptando a realidade dura de viver. Como não ter a certeza de quando terá um prato de comida, um lugar seguro para dormir, roupas limpas e proteção contra a violência. É o medo, a insegurança e a fome que vem acompanhando Luana desde que saiu de casa. O medo de chegar no ponto escolhido para dormir e não encontrar suas coisas. O medo das abordagens da polícia. E o pior de todos: o medo de

não ter nem mesmo uma simples refeição para matar a fome daquele dia. Mesmo a fome sendo a pior das dificuldades que Luana sente, ela se recusa criar o hábito de pedir comida ou dinheiro pelas ruas, só quando necessário. Quanto aos lanches e sopas distribuídos por voluntários nos viadutos de Porto Alegre, não costuma frequentar. “Vou só de vez em quando”. Por ser uma menina jovem e parecer ter saúde física, muitas vezes é questionada do porquê não tentar conseguir um emprego para sair dessa situação. No início ela até que obteve algumas oportunidades que rendiam dinheiro para as refeições, mas atualmente não se encontra com saúde mental para conseguir qualquer trabalho que a tire das ruas.


“Quero voltar a trabalhar” O que tirou seu Luiz de casa foram as brigas familiares. O senhorzinho de 61 anos conta que, após desentendimentos com os pais e irmãos, foi colocado para fora de casa. A motivação das brigas, em grande parte, era o vício que ele tem com álcool. Colocado para fora do lar, por três anos viveu nas ruas de Porto Alegre. “Eu dormia em frente à prefeitura, no antigo estádio do Grêmio, ali pela Medianeira... e também por vários lugares da cidade”, conta. A vida nas ruas para ele não era fácil. Luiz relata que vivia com medo de possíveis maldades enquanto dormia. “Tinha que se cuidar do perigo, das maldades e crueldades, assim como a gente acha que está tranquilo, uma surpresa pode

acontecer uma crueldade com a gente. Pode chegar alguém com gasolina e colocar fogo.” Foi na época do inverno que a família decidiu acolhê-lo novamente em casa. O frio rigoroso estava causando muitas doenças e, principalmente para quem vive nas ruas, era o grande vilão. Para que o senhorzinho não fosse uma vítima, os parentes decidiram que ele poderia retornar ao lar. O que ainda o acompanha é o vício do álcool. Para sustenta-lo, aproveita dia de jogos e eventos no estádio Beira-Rio para catar latinha. Nos outros dias cuida e lava carros pela cidade. Há alguns anos atrás, ele não se recorda exatamente quando, trabalhava entregando jornal. E este é um de seus maiores sonhos: voltar ao emprego.


“Quero ter um lar” Marli Pires Pereira, uma senhora muito simpática, de cabelos brancos e lhar triste. Olhando de longe e conversando cara a cara, é uma mulher como outra qualquer. Porém, ao iniciar a conversa com Marli, é fácil perceber que ela é diferente. Em situação de rua, ela tem um olhar muito triste, perdido e sem esperança. Assim como eu e você, dona Marli tinha tudo que um ser humano necessita para viver. Casa, comida, família, dinheiro e roupa lavada. Quando, de repente, sem saber o porquê, parou de receber a aposentadoria e viu sua vida virar do avesso. Sem renda, mãe solteira, se viu obrigada então, a vender o pouco que tinha de bens, para poder manter seu lar. Até chegar ao ponto de ter que vender a casa para ela e a filha terem o que comer. Quando caiu a ficha da situação que estava, sem um único centavo no bolso, a primeira reação foi mandar a filha morar com parentes e conseguir qualquer trabalho que tivesse oportunidade, para sair do “buraco”. Mas o fim que conseguiu não foi um final“feliz”. Desde então, vive na rua. Há sete anos exatamente. Atualmente, ela é casada. Conheceu seu

companheiro no início de sua nova vida, e já estão juntos há seis anos e meio. Não tendo um local fixo para se abrigarem, o casal fica nas imediações do viaduto da Borges de Medeiros, onde tentam fazer da rua uma espécie de “lar”. Marli não se considera muito fã de albergues, mesmo eles oferecendo uma estrutura melhor que as ruas, viadutos e calçadas. Ela só chega a procurar esses abrigos, quando realmente sente necessidade de banho e roupas novas, o mesmo acontece com seu companheiro e colegas. Mesmo com a violência, a insegurança e a instabilidade das ruas, o que ainda mais faz dona Marli sofrer, é a fome. Muitas vezes por falta de comida ela e os companheiros de rua passam madrugadas tomando água para suprir a falta da comida e enganar o estômago.Mas é uma sensação que não dura muito tempo, porque logo vem a vontade de urinar, fazendo com que a fome volte. A senhorinha comenta que se recusa passar fome. Não se importa de pedir dinheiro quando há necessidade. Inclusive, mesmo com quase nada, ainda costuma dividir o pouco que ganha e conquista nas ruas com os colegas que são muito necessitados, assim como ela.


“Quero ser livre” Quem passa pela Praça Isabel, a Católica, em frente ao Tribunal de Justiça, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre, com certeza já deve ter percebido algo diferente. Ali, em meio ao vai e vem de carros e a pressa de um cotidiano agitado da capital, está Loreni Alves da Silva. Natural de uma reserva indígena de Miraguaí, interior de Tenente Portela (RS), Loreni perdeu os pais muito cedo. Quando tinha apenas 5 anos de idade, perdeu o pai. Um ano depois, a mãe, Clair Alves da Silva. Ao sair para caçar na mata, Clair foi picada por uma cobra. Morte repentina que deixou órfão o filho de 6 anos de idade. Durante um ano ficou sozinho vagando pela mata. Um dia, resolveu sair para caminhar. Foi longe e acabou se perdendo. Desde então não conseguiu achar o caminho de volta. Acabou parando em uma cidadezinha, onde conviveu durante um período com pessoas que conheceu. No entanto, ali ficou por pouco tempo e foi viver nas ruas. Morar na rua nunca foi uma tarefa fácil. Mas Loreni já parecia estar acostumado com as peças que a vida - tão cedo - já havia lhe pregado. Com uma história um tanto confusa, o índio conta que conheceu um

casal de baianos, com quem viveu durante um tempo, em Salvador, na Bahia. “Eles trabalhavam com artesanato e eu também fazia uns trabalhos quando meu pai e minha mãe eram vivos, que aprendi com eles. Eu apresentei meu trabalho pra eles e eles apresentaram os deles pra mim. Me convidaram para ficar junto e eu fiquei. Quatro anos depois, eles vieram para Porto Alegre no Fórum Mundial e eu vim junto”, relembra. Próximo ao Parque Harmonia, eles permaneceram juntos ao longo de duas semanas, até que Loreni conheceu uma gaúcha que o convidou para dar uma volta. Ele aceitou o convite. Quando se deu por conta de voltar para junto do casal, era tarde demais. “Eles já tinham ido embora”. Loreni estava, mais uma vez, sozinho. A partir daquele ano de 1985, ele fixou morada em Porto Alegre. Desde então, viveu por praças, viadutos, terminais de ônibus e calçadas comerciais da capital gaúcha. Em 2016, cansado de estar diretamente exposto às ruas, Loreni criou, sob duas rodas, uma casa. Em um espaço improvisado em cima de um carrinho — com pouco mais de 1,90m de comprimento e 1,80 de largura — o morador de rua, hoje com 47 anos, vive tranquilamente no local. Na varanda,


em frente à porta de entrada, além do tanque para lavar as poucas peças roupas, há um espaço especial para a cadelinha Diana, sua companheira há mais de três anos. No lado de dentro, o único cômodo é dividido entre quarto e cozinha. Logo na entrada da casa no canto superior direito, é possível notar a imagem de São Jorge. Ainda no mesmo lado, são encontradas frutas, verduras, temperos, panelas e uma pia para lavar as louças. No canto esquerdo, fica localizada uma pequena cama de solteiro, onde Loreni descansa após uma longa jornada de trabalho recolhendo sucatas e fazendo artesanatos. Na Praça onde mora, Loreni expõe seu trabalho. Os artesanatos feitos das mais diversas formas chamam a atenção de quem por ali passa. Ele produz de tudo: de helicópteros a bonecos representativos. Tudo a partir da sucata. “É um passatempo que eu tenho. É melhor ficar fazendo isso e ocupando a mente do que ficar pensando besteira”, diz . O andarilho todo final de ano produz enfeites de Natal. “Todo ano faço guirlandas e enfeites com a su-

cata. Eu deixo tudo exposto aqui na frente, as pessoas olham e se gostam, levam”. O homem que hoje tem pouco, um dia já perdeu tudo. Mais de uma vez. A vida de Loreni desde sempre deu sinais de seus altos e baixos. Ele passou fome, passou frio, sofreu preconceito. Mas nem isso fez com que ele desanimasse ou desistisse de seguir. Na praça onde mora, não há quem não conheça Loreni. Apesar das dificuldades de viver na rua, ele recebe a ajuda de quem transita diariamente pela região. Para o andarilho, qualquer apoio é bem-vindo. Seja um prato de comida, um pedaço de papelão, uma palavra amiga ou um minuto de atenção para apreciar ou comprar seus artesanatos. Embora Loreni faça parte dos 6% da população de rua adulta de Porto Alegre não alfabetizada, ele garante que sabe precificar seus produtos e lidar com as vendas dos artesanatos. A pele maltratada, as mãos machucadas, as linhas de expressão no rosto e o olhar encabulado — meio desconfiado — representam um mosaico humano: o mosaico de uma vida nas ruas há mais de 40 anos.


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grade do Sul Reitor Irmão Evilázio Teixeira Escola de Comunicação Artes e Design - Famecos Decana Profª Cristiane Mafacioli Carvalho Curso de Jornalismo Coorndenador Prof. Fábian Chelkanoff Thier Disciplina de Produção em Jornal Professores Elson Sempé Pedroso, Fábian Chelkanoff Thier e Juan Domingues Bruna Faraco, Gabriela Porto Alegre, Janinne Portugal e Ritieli Moura


Profile for Gabriela Porto A Dos Santos

A Rua Tem Nomes  

A Rua Tem Nomes é um fotolivro destinado a contar histórias de moradores de rua de Porto Alegre.

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