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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO DEPARTAMENTO DE JORNALISMO

GABRIELA KARINE TEIXEIRA DAMACENO

O PAPEL DO JORNALISTA E DO REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO NA ERA DA POPULARIZAÇÃO DOS MEIOS DE CAPTAÇÃO DE IMAGENS

FLORIANÓPOLIS 2012


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO DEPARTAMENTO DE JORNALISMO

GABRIELA KARINE TEIXEIRA DAMACENO

O PAPEL DO JORNALISTA E DO REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO NA ERA DA POPULARIZAÇÃO DOS MEIOS DE CAPTAÇÃO DE IMAGENS

Ensaio apresentado à disciplina de sociologia da Comunicação, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, ministrada pelo professor Jacques Mick


O PAPEL DO JORNALISTA E DO REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO NA ERA DA POPULARIZAÇÃO DOS MEIOS DE CAPTAÇÃO DE IMAGENS

A mobilidade e a capacidade de ação de um jornalista são hoje manifestamente superiores aquela há alguns anos atrás. Mas também os ‘consumidores’ têm maior capacidade de se furtar ao ‘crivo’ jornalístico no que respeita à obtenção de informação. Aliás, frequentemente os consumidores são, na atualidade, igualmente produtores de informação para a rede. (SOUZA, 2004)


O PAPEL DO JORNALISTA E DO REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO NA ERA DA POPULARIZAÇÃO DOS MEIOS DE CAPTAÇÃO DE IMAGENS

Gabriela Karine Teixeira Damaceno1

RESUMO: Esse trabalho trata sobre o papel do jornalista, do fotojornalista e do

repórter cinematográfico diante da popularização dos meios de captação de imagem, como câmeras fotográficas digitais e aparelhos celulares que fotografam ou filmam, e também facilidade de conexão com a internet. A partir das mudanças tecnológicas e do maior acesso à informação através da rede, esse ensaio procura analisar a função do novo jornalismo perante a mudança de papéis estabelecidos nos últimos anos, além de salientar as fragilidades e vantagens dessas mudanças para o espectador e para o produtor de informações. Ainda, procura-se estabelecer alguns nichos de mercado para esses novos profissionais.

PALAVRAS-CHAVE: repórter cinematográfico – jornalismo – novas mídias – jornalismo cidadão – jornalismo online – imagem – internet

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Gabriela Karine Teixeira Damaceno é graduanda do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.


CONTEÚDO Introdução ...................................................................................... 6

O jornalismo cidadão .................................................................... 8

Profissional versus amador e função do novo jornalismo....... 10

Conclusão .................................................................................... 12

Referências bibliográficas .......................................................... 13


INTRODUÇÃO De acordo com o relatório de controle de acesso do mês de agosto da Agencia Nacional de Telecomunicações (ANATEL), o Brasil possuí mais de 250 mil aparelhos celulares ativos. Considerando a população brasileira de 190 milhões, existe 1,5 aparelhos para cada habitante. Briggs retrata como o mercado das telecomunicações cresceu no último século. “Mais de 90 mil kodaks baratas foram vendidas em cinco anos. Com isso, e de outras maneiras, os estados Unidos estavam estabelecendo um ritmo de evolução de uma sociedade de consumo registrada generosa e brevemente em instantâneos. Como o telefone e o rádio, a câmera foi produzida para uso doméstico e para milhões. O primeiro sistema de telefone móvel foi licenciado nos Estados Unidos em 1983, dez anos após a instalação da faixa cidadão, no rastro da crise do petróleo e a consequente redução do limite de velocidade nas estradas norte americanas. Apesar da fraca recepção, havia um milhão de telefones celulares em uso no país em 1989. A grande explosão de venda veio mais tarde. Assim, em 1996, havia mais de seis milhões de celulares na Grã-Bretanha, e 4,5 milhões de aparelhos, ‘um a cada dois segundos’.” (BIGGS, 2006)

Esse aumento do uso da telefonia móvel e internet vêm transformando a forma com que as pessoas interagem entre si e com o conteúdo jornalístico. Nessa perspectiva, Florianópolis é a cidade brasileira com mais pessoas conectadas à internet, fato esse que fez uma empresa de telecomunicações a instalar o primeiro telefone público com wi-fi do Brasil. Hoje, o cidadão é um componente ativo na produção e divulgação das notícias em tempo real. Nessa dinâmica, o jornalista e o repórter cinematográfico vêm perdendo espaço. O jornalista norte-americano Dan Gilmor em seu livro We the Media – Grassroots Journalism by the people, for the people sobre a função do novo profissional da mídia: “Nós vamos aprender que somos parte de alguma coisa nova, que nossos leitores/ouvintes/espectadores estão se tornando parte do processo. Eu tenho como verdade, por exemplo, que os meus leitores sabem mais do que eu – e esse é um fato na vida jornalística que liberta não que ameaça”.


Nesse panorama, a imagem feita por uma testemunha com uma filmadora de celular de baixa resolução e sem nenhuma técnica de enquadramento e movimento de câmera, em sua maioria, vale muito mais do que uma imagem tardia feita por uma equipe especializada, mas que não estava no momento da ação. No livro Jornalismo em tempo real – o fetiche pela velocidade, a autora sintetiza bem essa dicotomia do jornalista e do jornalismo, de maneira geral. “...a velocidade é consumida como fetiche, pois ‘chegar na frente’ torna-se mais importante do que “dizer a verdade”: a estrutura industrial da empresa jornalística está montada para atender essa lógica.” (MORETZSOHN, 2002) Trazendo essa frase para o dia-a-dia do repórter cinematográfico e do fotojornalismo, podemos citar como exemplo, a cobertura feita pelas grandes emissoras de televisão brasileira sobre o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril de 2011. As únicas imagens feitas dentro da escola logo após os tiros e do assassino foram de câmeras de celulares e de vigilância. Depois do ataque, os repórteres cinematográficos fizeram imagens do desespero dos parentes e do interior da escola, cerca de uma hora depois do ocorrido. Ou seja, nesse caso era preferível utilizar imagens de baixa qualidade, mas que mostravam o que realmente aconteceu dentro da escola. Esse acontecimento nos leva a refletir sobre as novas atribuições dos jornalistas e repórteres cinematográficos na nova perspectiva de congruência de mídias e de imediatismo da notícia. Ainda

nesse

panorama,

a

atuação

do

cidadão

tem

crescido.

O

leitor/telespectador deixou de ter uma atitude passiva em relação ao que ele quer ver. “Blogueiros e ações de jornalismo cidadão começam a se impor na função de confrontar governos e corporações, sem contar a lentidão demonstrada pela maioria das empresas de comunicação em incorporar a internet não como vitrine de informação para o material off-line, mas como meio principal de atuação.” (SPYER, 2007) Hoje todo mundo acaba sendo um pouco repórter ou cinegrafista quando tem uma filmadora na mão. O site Youtube e alguns portais das próprias emissoras na internet possibilitam a postagem desses vídeos. O que tem colocado à prova a necessidade do jornalismo profissional.


O JORNALISMO CIDADÃO Grande parte das emissoras de televisão brasileira já adotou em seus portais na internet a ferramenta de envio e postagem de materiais feitos por cidadãos. Mas como explicado por Spyer, o jornalismo cidadão ou colaborativo não á algo tão recente assim. “O conceito de jornalismo colaborativo não é novo. Em fevereiro de 2000 estreou na Coréia do Sul o jornal online OhmyNews (www.ohmynews.com) , cujo slogan é “Todo Cidadão é um repórter”. Foi o primeiro veículo de notícias do mundo a promover um estilo open source de produção de notícias.” (SPYER, 2007) Com a popularização da internet é possível que o cidadão não seja apenas receptor de informação, mas que ele aja também de forma ativa na produção desses conteúdos. Assim a disseminação de conteúdo se dispersa cada vez mais. Girard chama esse movimento de ‘crise de controle’: É importante destacar como essas novas tecnologias de comunicação atenderam às novas exigências da produção simbólica desterritorializada e como alteraram as próprias condições em que se daria essa experiência. Para Beninger (1986), essa desterritorialização gerada pelas novas condições de produção e circulação e consumo de massa, produziu o que se poderia chamar de ‘crise de controle’. (GIRALDI JR, 2007) A rede de informação torna-se muito mais dinâmica trazendo novos personagens. O telejornal SPTV, da rede Globo em São Paulo, adota pela segunda vez o quadro ‘Parceiro do SP’, no qual uma dupla de bairros préselecionados da região metropolitana de São Paulo recebe equipamento, treinamento para manuseio da câmera e um salário para reportar os problemas da sua comunidade. Normalmente, os bairros selecionados são da periferia da cidade e as pessoas escolhidas são jovens. Os ‘parceiros’ são responsáveis por mostrar o que há de bom e os problemas de onde vivem. Essa iniciativa tem como objetivo trazer esse jornalismo cidadão mais próximo do telejornal convencional. Na internet, a atuação de pessoas comuns é ainda mais marcante. Blogueiros, internautas, ou simplesmente uma pessoa com olhar mais crítico são capazes de lançar informações na rede, seja por meio de seus blogs ou pelas redes


sociais. Podemos tomar como exemplo, a garota Isabela Faber, de 13 anos, que começou a escrever em uma página na rede social Facebook intitulada de Diário de Classe os problemas de sua escola. Desde julho desse ano, a estudante começou a postar fotos ou vídeos feitos com o seu celular o que acontecia dentro dos muros da escola, desde uma fechadura quebrada até a merenda servida. A internet abre a possibilidade das pessoas serem ‘agentes de informação’ dentro do seu bairro ou da sua comunidade. Golzio constata bem esse panorama: “De fato, as facilidades resultantes das plataformas digitais como blogs,vlogs ,flogs, podcasts ,sites,portais proporcionam uma relação mais direta e com menor poder de inteferência de grandes empresas no produto informativo de profissionais que usam a tecnologia em rede.” (GOLZIO, 2009) E, segundo Moraes os jovens tem papel fundamental em toda essa mudança entre a relação de poder com as grandes empresas de comunicação. “Diante da distância e da prevenção com que grande parte dos adultos sente e resiste a essa nova cultura – que desvaloriza e torna obsoletos muitos de seus saberes e destrezas-, os jovens experimental uma empatia cognitiva feita de uma grande facilidade na relação com as tecnologias audiovisuais e informáticas e de uma cumplicidade expressiva: com seus relatos e imagens, suas sonoridades, fragmentações e velocidades, nos quais encontram seu idioma e seu ritmo.” (MORAES, 2010) Dentro dessa perspectiva, questiona-se o papel do jornalismo e do jornalista como profissional da informação e do conhecimento. A resposta mais comum entre os especialistas e estudiosos nessa área é que o jornalismo retorna no ponto em que começou: o de filtro e seleção do que realmente é relevante e é notícia para a sociedade. O jornalismo não perde a sua função, apenas se reinventar, se dinamiza.


PROFISSIONAL VERSUS AMADOR E A FUNÇÃO DO NOVO JORNALISMO Quando se discute qual é o papel do jornalismo perante a convergência de mídias e a dinamização dos processos devido à internet, a maioria dos autores reforça a ideia que por ser uma profissão de raiz empírica, o novo jornalismo se transformará e o profissional assumirá outras funções. “A tecnologia está retirando poder de jornalistas, de editores, do estabelecimento e da elite da mídia. Agora as pessoas estão assumindo o controle.” (SPYER, 2007) Nessa perspectiva, o jornalista contemporâneo deve aceitar que o domínio das novas mídias é fundamental para a sua sobrevivência no mercado de trabalho tão competitivo e dinâmico. “O maior desafio da atualidade, no campo jornalístico brasileiro, é reconhecer o declive do modelo de jornalista liberal no momento de profundas transformações nos modos de acesso, nos suportes, na produção de informações calcadas no contexto das novas mídias ou as mídias digitais.” (GOLZIO, 2009) Mas o que o jornalista tem para oferecer? Quais são as vantagens do jornalista na competição entre o profissional e o amador? Muitos autores consideram que a capacidade de selecionar, filtrar e analisar os fatos de forma imparcial e da verdade. Assim, o jornalista utiliza ferramentas para uma apuração mais profunda, fugindo da superficialidade dos conteúdos veiculados na internet. “Na rede das redes não existe um controle centralizado; pelo contrário, opera-se numa ‘anarquia cooperativa’ (Baran, 1995:34). Assim, dois dos maiores problemas que se colocam à internet são a falta de controle da informação, que traz falta de credibilidade, e a falta de segurança para as trocas dessas informações. Por exemplo, os saberes profissionais específicos (Ericson, Baranek e Chan, 1987) estão entre os fatores estruturais da cultura profissional: 1. Capacidade de recolher e processar informação, de verificar os fatos, compreender respostas, de fazer perguntas, de contatar as fontes (saber de procedimento. 2. Domínio das técnicas de redação jornalística (saber de narração. 3. Capacidade de reconhecer o que é notícia (saber de reconhecimento). Talvez aos jornalistas do future continue a estar reservado papel que afinal sempre foi seu: de seletores


e hierarquizadores de informação e análise dos acontecimentos e das problemáticas relevantes da atualidade, por que informação e conhecimento são coisas distintas.” (SOUZA, 2004) Em relação à linguagem da fotografia utilizada nos produtos jornalísticos, a imagem de qualidade é fundamental que a informação seja repassada de forma completa. Ou seja, a fotografia vem para dar à notícia um elemento a mais, dentro da máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”. A imagem vem para registrar o momento certificando a veracidade de uma informação, como por exemplo a morte do ditador líbio, Muamar Kadafi, dia 20 de outubro de 2011. Enquanto a foto dele morto não fosse divulgada, sua morte para os espectadores seria mais um boato, como aconteceu diversas vezes. “Hoje, todavia, fica bastante claro que a linguagem cria, mais do que reflete a realidade. Em outras palavras, não é apenas designativa, mas principalmente produtora da realidade.” (MORAES, 2010)


CONCLUSÃO Nesse

cenário

de

congruência

de

mídias

jornalista/fotojornalista/repórter-cinematográfico

assume

e

meios,

o

outros papéis no

contexto da comunicação contemporânea. Filtrar e selecionar o que é relevante são mais do que nunca a função do jornalismo. Por vezes, o amador que estava no lugar certo na hora certa conseguirá melhores e mais dramáticas imagens sobre alguma notícia, mas caberá ao profissional da comunicação editar e colocar o que mais for importante em destaque. “Teremos efetivamente, um aparato técnico multimediático, e até hipermediático, capaz de reunir num só dispositivo planetário a imprensa, o telefone, o rádio, a TV, o vídeo, e o cinema. A sociedade de massa terá, então, chegado ao seu requinte máximo: cada indivíduo poderá ser sujeito (ator e autor) da sua própria mídia, servindo e servindo-se virtualmente. Estaremos na era da comunicação on demand. Mas nem tudo será passividade. Ao contrário do conducionismo das massas – essa característica básica que fundamentou a análise sobre os meios de comunicação de massa do século XX-, é possível que as novas tecnologias consolidem os processos participativos não só de natureza comercial, mas também cultural, educativa e cívica” (MARTINS, 2002) Dessa forma, o fotojornalista e o repórter cinematográfico assumem outros papéis, sendo eles convergidos para as diversas mídias, tendo o seu campo de trabalho mantido. O repórter cinematográfico, por vezes, vem perdendo espaço no jornalismo hard news, porém o mercado de produções mais elaboradas e que necessitam de imagens de boa qualidade pode absorver esses profissionais. Conforme a sociedade se modificando, o profissional que lida com a comunicação, de forma geral, também deve se moldar às novas perspectivas e mercados. Não será o fim das imagens feitas por profissionais no jornalismo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES, R. (1984). A camara clara: nota sobre a fotografia; tradução de Julio Castanõn Guimarães. Rio de Janeiro: Nova fronteira. BIGGS, A. (2006). Uma história social da mídia de Gutenberg à internet; tradução Maria Carmelita Páda Dias. Rio de Janeiro : Zahar. GIRALDI JR, L. (2007). Questões de Sociologia e Comunicação. São Paulo: Annablume. GOLZIO, D. G. (2009). A formação dos jornalistas diante dos novos suportes midiáticos e do fim da obrigatoriedade do diploma. Revista do Programa de Pósgraduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba . LIMA, V. A. (2004). Comunicação e televisão: desafio da pós-globalização. São Paulo: Hacker. MARTINS, L. (2002). Teorias da comunicação no século XX. Brasília: Casa das Musas. MORAES, D. d. (2010). Por uma outra comunicação – Mídia, mundialização cultural e poder. MORETZSOHN, S. (2002). Jornalismo em tempo real: o fetiche da velocidade. Rio de Janeiro: Revan. SOUZA, J. P. (2004). Elementos da Teoria e Pesquisa da Comunicação e da Mídia. Letras Contemporâneas. SPYER, J. (2007). Conectado. Rio de Janeiro : Zahar.


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