Issuu on Google+

farol da vida memórias de um golpe do acaso em um sábado de verão qualquer, a luz da lua cheia ilumina a avenida. o calor (ou o cigarro) incita vidros abertos. o fogo incita olhares atentos. o acaso incita conversas improváveis. a sintonia do universo incita o êxtase. o flash vermelho dita o tom. faz parar. escutar. arriscar. o verde faz respirar. pensar. desistir. e aguardar pela cor quente, novamente. para então seguir. as luzes da cidade já não mais podem a conduzir. quer assumir o comando, fazer propostas, quer agir. gentilmente lhe cede a dianteira e aceita o desafio. é curiosa. mantém uma perseguição desenfreada sem questionar. nada lhe vem a mente, apenas segue sua intuição. é conduzida pelo acaso. se encontram. fazem um brinde para o comemorar. por fora os dois parecem não combinar. dissonância cômica. ela, está pronta para o baile. ele, para um samba qualquer no boteco, em dia de sábado. ela, se equilibra no salto, no medo. ele, mostra os dedos do pé, sem vergonha ou receio. ambos tem os pés no chão. se por fora estão diferentes, por dentro, são parecidos. descobrem muitas coisas em comum: o signo, o samba, londres, 1982, o gosto pela massagem. entre as muitas coincidências, surge a mais bonita delas: uma insatisfação pela noite, e uma exigência sobre o que esperar dela. sabiam que não poderiam parar. o coração bate acelerado. ela observa, desconfia, pega garantias. faz uma aposta. relaxa. combinam no ritmo, nas vontades, no gosto musical. trocam carícias nos pés — o que estava no chão agora está em suas mãos. se conquistam. não existe mais chance de voltar atrás. a energia do universo os conectou como um imã. seus corpos se entrelaçam. tem fogo. tem prazer. atingem o êxtase. satisfeitos por terem seguido sua intuição, resolvem se despedir. era muita gula querer mais daquela noite. ele a hidrata, a veste, assiste sua partida. ela a presenteia com um bem-casado. o medo agora é dele: suplica por garantias, mensagens. nada pode abalar as memórias daquela noite. em um ato falho, ela esquece algo lá. queria deixar alguma marca, na esperança de se fazer lembrar.


Farol da vida