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Reabilitação e a preservação da memória da Boca do Lixo no bairro de Santa Ifigênia Gabriela Araujo


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Gabriela Araujo Moreira da Silva

REABILITAÇÃO E A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA DA BOCA DO LIXO NO BAIRRO DE SANTA IFIGÊNIA

Trabalho Final de Graduação apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito para obtenção do título de arquiteta e urbanista. Orientadora: Profa. Dra. Nadia Somekh.

São Paulo 2019


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Si o senhor não está lembrado Dá licença de contá Que aqui onde agora está Esse edifício arto Era uma casa velha Um palacete assobradado Foi aqui seu moço Que eu, Mato Grosso e o Joca Construímos nossa maloca Mais, um dia Nós nem pode se alembrar Veio os homi cas ferramenta Que o dono mandô derrubá (Saudosa Maloca, Adoniran Barbosa)


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Agradecimentos

Resumo

Agradeço à professora Nadia Somekh pela orientação e as manhãs de segunda de muito conhecimento. À outros professores que durante a graduação me inspiraram.

A presente monografia, juntamente com a atividade projetual e experimentação do Trabalho Final de Graduação (TFG) teve como primeiro impulso o estudo da cidade, mais especificamente sobre a cidade contemporânea em que vivemos. A partir disso, me veio a vontade de estudar uma área riquíssima da cidade de São Paulo, a Santa Ifigênia, retomando a memória da Boca do Lixo, pólo de um cinema esquecido, e seus processos históricos que condicionaram seu triste estado atual, como a prostituição, o crack e a organização criminosa que domina a área.

Agradeço à toda minha família, em especial a minha mãe Valéria, meu pai Neto e minhas irmãs Isabela e Camila, pela paciência em momentos não tão fáceis e minha ausência frequente. Pela oportunidade de cursar uma boa faculdade e viver longe de casa, agradeço ao meu pai, que me despertou a paixão pela arquitetura, o urbanismo e a construção civil tão nova e fez com que isso se realizasse. Agradeço à todos os meus amigos que me tiraram da frente do computador quando necessário e compreenderam quando não era possível. E agradeço ao Max, pelo apoio e companheirismo, por passar por esse processo comigo, aguentando firme sempre com carinho e bom humor. Muito obrigada.

Palavras-chave: São Paulo; Santa Ifigênia; Boca do Lixo; Cracolândia; prostituição; cinema; cidade contemporânea; sociedade.


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Sumário

Introdução

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1. Transformações urbanas e a cidade contemporânea

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2. Santa Ifigênia: um bairro em transformação

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2.1 Santa Ifigênia

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2.2 Prostituição

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3. Boca do Lixo

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3.1 Cinema Novo e os anos de ouro do cinema no Brasil

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3.2 O cinema da Boca

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4. Cracolândia e o crime organizado

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5. Referências Projetuais: como transformar a área com inclusão

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6. A proposta 105 7. Considerações Finais 139 Referências Bibliográficas

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Introdução

Essa monografia tem como ponto inicial a reflexão sobre a cidade contemporânea em que vivemos hoje, e seus desdobramentos, desde os problemas iniciais da cidade moderna até suas características atuais. Sempre foi uma preocupação minha entender a cidade como ela é, estudando seus processos a fim de tentar achar uma resposta para seus agoniantes problemas, como a falta (será?) de habitação. Dessa forma, escolhi o bairro de Santa Ifigênia, mais especificamente o que passou a ser chamado de Boca do Lixo por diversos motivos: é um bairro que ao mesmo tempo me emociona e me dá medo. Daí surgiu a vontade de estudálo por meio deste ensaio, passando por suas transformações ao longo dos anos, como sua fundação, o tempo de zona cinematográfica, no qual se faziam filmes sem maiores preocupações, abordando também suas questões problemáticas como a prostituição e o crack. É preciso falar de Cracolândia, é preciso falar de moradia. Sobre a questão da moradia, é exposto alguns projetos de requalificação da área, tanto por parte dos órgãos públicos quanto por iniciativas privadas que me fazem questionar sobre a urgência

de se tirar do papel bons projetos que beneficiem a população que lá vive e trabalha. Projetos que proporcionem habitação para diversas faixas de renda, a fim de impedir a gentrificação, garantidas pela ZEIS 3, prevista pelo Plano Diretor Estratégico de São Paulo e o Estatuto da Cidade. Projetos sem muros, uma vez que muros não constroem cidade, não constroem urbanidade. Dessa forma, o trabalho propõe um exemplo do que seria uma quadra aberta, fluida, que possibilite habitação e comércio para diversas faixas de renda, retomando a memória do bairro e do cinema da Boca do Lixo, livre de muros.


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1. Transformações urbanas e a cidade contemporânea

O espaço é um produto material de uma dada formação social. Deve ser considerado uma totalidade cuja essência é social. É uma instância da sociedade que contém as demais instâncias e é contida por elas: a economia está no espaço, assim como o espaço está na economia. O mesmo acontece com o políticoinstitucional e com o cultural-ideológico (SANTOS, 1985, apud SOMEKH, 2014, p. 151).

A ideia do direito à cidade surge em sua maioria das ruas e dos bairros na forma de um grito de socorro por parte dos oprimidos (HARVEY, 2014). Ao estudar sobre a Comuna de Paris, Lefebvre (1965, apud HARVEY, 2014) conclui que os movimentos revolucionários assumem, na maioria das vezes, uma dimensão urbana. Segundo Lefebvre, nossa tarefa é a de imaginar e reconstruir uma nova cidade oposta a existente hoje formada pelo caos do desenfreado capitalismo globalizante e urbanizador. O desenvolvimento desse capitalismo acabou por exterminar a cidade tradicional, vitimada por sua necessidade inesgotante de dispor da acumulação de capital que possibilitasse o financiamento e a expansão do crescimento urbano, interminável e desordenado, independente das

consequências sociais, ambientais ou políticas. Só chegaremos à uma política urbana justa quando aqueles que constroem e mantêm a vida urbana entenderem a responsabilidade do direito inalienável de criar uma cidade que condiz com seus verdadeiros desejos. Na cidade contemporânea, a centralidade tradicional foi destruída. Porém, semelhante à área central da cidade de São Paulo, há uma intenção de restauração que gera efeitos políticos significantes, como, por exemplo, nas praças centrais do Cairo, Madri, Atenas, Barcelona, Madison, Nova York. Lefebvre (1968 apud HARVEY, 2014) tinha clara consciência da dominação e do poder das altas camadas sobre a exploração de classe e do Estado, e, desta forma, o sistema capitalista, de acumulação infinita, assim como seus instrumentos de poder precisa ser combatido e derrubado por meio de um movimento revolucionário de grande amplitude. Para se obter o direito à cidade que é devido, um primeiro e fundamental passo é sua reivindicação. Vivemos em um mundo onde todas as noções de direito são menos importantes do que os direitos de propriedade privada e a taxa de lucro. O direito a


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cidade não é tão somente o direito de usufruir os recursos promovidos pela cidade, mas também o direito de mudar e reinventar a cidade de acordo com nossas necessidades e desejos. Reivindicar o direito à cidade no sentido que aqui proponho equivale a reivindicar algum tipo de poder configurador sobre os processos de urbanização, sobre o modo como nossas cidades são feitas e refeitas, e pressupõe fazê-lo de maneira radical e fundamental (HARVEY, 2014, p. 30).

O capitalismo, como defende Marx, baseia-se na busca de mais-valia, o lucro. Essa mais-valia, é produzida pelo capitalista através de excedentes de produção. Dessa forma, os capitalistas estão produzindo eternamente excedentes de produção exigidos pela urbanização. O capitalismo precisa da urbanização para absorver esse eterno excedente de produção. Para justificar a necessidade do urbanismo pelo sistema capitalista, Harvey (2014) analisa o quadro de Paris do Segundo Império. Em meio a crise de 1848, quando havia excedente de capital e excedente de trabalho, Luís Bonaparte deu um golpe de Estado em 1851, proclamando-se imperador em 1852. O autoritário imperador, vivendo uma grande oposição política dos movimentos políticos alternativos, anunciou um vasto programa de investimentos infraestruturais, a fim de resolver o problema de absorção do capital excedente. Esse programa levou Haussmann, em 1853, a cargo dos projetos e construções das obras públicas de Paris e reconfigurou a infraestrutura

urbana da cidade. A reconstrução de Paris teve como objetivo a absorção de um enorme exército de reserva, isto é, mão de obra, e capital, por meio da urbanização, sendo um instrumento fundamental para a estabilização social. Dessa forma, Paris passou a ser chamada de “Cidade Luz”, símbolo do capitalismo por meio do consumo, turismo, cafés, grandes lojas de departamento, indústria da moda, o que possibilitou a absorção de vastos excedentes por meio de um consumo desenfreado. Como consequência, surge então a Comuna de Paris, um dos mais marcantes episódios revolucionários da história capitalista urbana, criada pela vontade dos desalojados pelas obras de Haussmann de recuperar a Paris de antes. Outro exemplo da forte ligação entre o capitalismo e o urbanismo, e semelhante ao que Haussmann havia feito em Paris, Robert Moses fez depois da Segunda Guerra Mundial em toda a região metropolitana de Nova York. Para absorver a produção de excedentes de capital, Moses reformulou toda a região metropolitana de Nova York por meio da construção de autoestradas, transformações infraestruturais e a suburbanização. A suburbanização, juntamente com a militarização, foi indispensável para ajudar a absorver o excedente capitalista no pós-guerra, e teve como consequência, o esvaziamento do centro das cidades. Esse esvaziamento gerou uma crise urbana na década de 1930, no qual as cidades não mais possuíam uma base econômica sustentável. Dessa forma, o mercado imobiliário era indispensável na absorção


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de uma parte significativa do excedente de capital, que, dessa forma, poderia ser revertido para novas construções. A explosão imobiliária que favorecia os ricos foi vivida por quase todas as cidades do mundo, em meio a desapropriação do campesinato pela industrialização e a comercialização da agricultura. A cidade contemporânea, torna-se, então, uma mercadoria. A qualidade de vida urbana pode ser adquirida apenas por aqueles que têm dinheiro. Plano Haussmann para Paris no século XIX. Fonte: Atlas Histo


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Robert Moses em 1960. Fonte: New York Times

A tendência pós-moderna a estimular a formação de nichos de mercado, tanto nas escolhas de estilo de vida urbano quanto de hábitos de consumo e formas culturais, envolve a experiência urbana contemporânea em uma aura de liberdade de escolha no mercado, desde que você tenha dinheiro e possa se proteger da privatização da redistribuição da riqueza por meio da florescente atividade criminosa e das práticas fraudulentas e predatórias (cuja escalada é onipresente) (HARVEY, 2014, p. 46).

Mesmo as áreas suburbanas, cujo desenvolvimento foi incoerente, encontramos o movimento denominado “novo urbanismo”, o qual é vendido pelos agentes imobiliários como um produto criado no “estilo butique” (HARVEY, 2014, p. 47), a fim de satisfazer os sonhos urbanos. A ética neoliberal do intenso individualismo, transforma-se em um modelo de socialização da personalidade urbana.


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Como consequência dessa conjuntura neoliberal na qual se apresenta uma crescente polarização na distribuição da riqueza e poder, nossas cidades, então, tomam formas espaciais cada vez mais fragmentadas, fortificadas, muradas, onde os espaços públicos são constantemente mantidos sob vigilância. Os direitos da propriedade e seus valores, mesmo para a classes mais baixas, tornam-se uma forma hegemônica de política. Em meio a isso, já é quase impossível encontrar nas cidades os ideais de identidade urbana como a cidadania e a coletividade provenientes do que seria uma política urbana coerente, substituído pelo individualismo neoliberal. A absorção do excedente por meio do urbanismo implica uma constante reestruturação urbana, o chamado “destruição criativa”. A destruição criativa se baseia na destruição do antigo, como áreas ocupadas pelas minorias, cujo potencial é alto, para dar lugar ao novo mundo urbano. Em sua maioria quem sofre são os pobres, desprivilegiados e marginalizados do poder político, sendo necessário a violência e a desapropriação, apresentando, dessa forma, uma dimensão de classe. Como exemplo, os velhos bairros pobres de Paris do século XIX, foram destruídos por Haussmann usando poderes de expropriação seguindo a justificativa de desenvolvimento público, recuperação ambiental e renovação urbana. Dessa forma, e, fazendo uso da violência, Haussmann removeu do centro de Paris elementos da classe trabalhadora e outros indesejáveis, bem como indústrias insalubres.

A “destruição criativa” é fruto da modernidade e a ruptura com as condições históricas precedentes (HARVEY, 1992). Se faz necessário destruir o que até então existia para dar lugar ao novo. Citado por Harvey (2014), Friedrich Engles (1935), explica a destruição criativa da seguinte forma: o desenvolvimento das grandes cidades modernas atribui à terra de certas áreas, principalmente as proximidades do centro, um valor que aumenta continuamente; por não atender à nova realidade, os edifícios que se localizam nessa região acabam por diminuir esse valor. Como consequência disso, esses edifícios são derrubados e substituídos por outros. Esse caso acontece principalmente com moradia de trabalhadores que tem limites nos gastos com aluguel, acabam sendo desapropriados e no lugar erguem-se comércio e diversos tipos de edifícios públicos. Dessa forma se faz a absorção do capital por meio do redesenvolvimento urbano, no qual é fundamental o processo de deslocamento e desapropriação dos mais fracos. Podemos concluir que a urbanização desempenhou um papel crucial na absorção de excedentes de capital, e que o tem feito em escala geográfica cada vez maior, mas ao preço de processos florescentes de destruição criativa que implicam a desapropriação das massas urbanas de todo e qualquer direito à cidade (HARVEY, 2014, p. 59).

Assim, o direito a cidade se encontra no poder da pequena elite política


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e econômica, que, seguindo suas necessidades e desejos particulares, moldam a cidade como bem entendem.

potencialidade de se criar ou inibir novas formas de relações sociais, criadas por uma lógica de interesses capitalistas.

A política urbana neoliberal, desde meados da década de 80, concluiu que os recursos deveriam ser destinados para pólos empresariais mais dinâmicos, ao invés de serem redistribuídos para regiões menos favorecidos, a fim de que ocorresse o efeito de transbordamento, isto é, regiões mais desenvolvidas acabariam por resolver os problemas das regiões menos desenvolvidas, o que não ocorreu.

A cidade é formada por nossas práticas em seus diversos espaços, mesmo aqueles confinados por cercamentos, controle social e apropriação, tanto pelo poder público-estatal quanto pelo privado. Os espaços públicos e bens públicos, como a saúde, a educação e o saneamento, foram fundamentais para o desenvolvimento do capitalismo. Essa cidade, como espaço para conflitos e lutas de classes dos trabalhadores, tem força para pressionar a administração pública a suprir necessidade de bens públicos como habitação de interesse social, saúde pública, educação, saneamento e água. A rua, então, é palco tanto de movimentos revolucionários quanto como espaço de repressão sangrenta.

Segundo Harvey (2014) mais de 3 milhões de pessoas foram desalojadas em Pequim nos últimos dez anos, o que exemplifica essa ativa economia de desapropriação que avança juntamente com o gigantesco impulso urbanizador que acontece em toda a China. Contrário a isso, a cidade de Chongqin destinou os lucros de mercado de empresas estatais para projetos socialistas tradicionais como por exemplo, a construção de moradias que pudessem ser pagas por trabalhadores menos abastados e infraestruturas de transportes, seguindo políticas de inspiração maoísta. A cidade é o lugar onde pessoas de todos os tipos e classes se misturam ainda que relutante e conflituosamente, para produzir uma vida em comum, embora perpetuamente mutável e transitória (HARVEY, 2014, p.134).

As privatizações, cercamentos, controles espaciais, policiamento e vigilância na vida urbana contemporânea tem como consequências claras a perda da comunalidade e a recente

O meio urbano é criado pelos indivíduos e grupos sociais por meio de suas atividades e lutas diárias, como uma estrutura que abriga a todos. As ruas eram comuns antes do surgimento dos carros, um lugar de socialização popular. Porém, esse espaço público foi transformado (e destruído) para o automóvel, o que estimulou as administrações a criar espaços exclusivos para pedestres, ciclovias, parques para o lazer: o que antes era comum a todos, hoje temos distinção do que é restrito a automóveis e restrito a pedestres. Com o congestionamento do tráfego que tornam as ruas quase inutilizáveis para os motoristas, e ainda mais para pedestres e manifestantes, elas passaram a ser taxadas para que funcionassem com eficiência. Dessa forma, o espaço é facilmente capitalizado: os parques


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urbanos policiados aumentam os preços dos imóveis na região, que mantém perto somente aqueles que podem pagar. Os usos do poder expropriante, por exemplo, para apropriar espaços para finalidades privadas (ao contrário da “utilidade pública”, para a qual essas leis foram originalmente criadas) é um caso clássico de redefinição de “finalidade pública” como patrocínio estatal ao desenvolvimento privado (HARVEY, 2014, p. 165).

É significativo o impacto nos centros urbanos onde crescem o número de condomínios fechados luxuosos, onde a população de baixa renda é abandonada na miséria urbana e luta para construir algum tipo aceitável de urbanidade. Segundo Harvey (2014), esses impactos só podem ser contidos e revertidos através da socialização e distribuição

Ville Radieuse de Le Corbusier, de 1924. Fonte: Archdaily Brasil


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Plano de Le Corbusier para São Paulo em 1929. Fonte: Pietro Maria Bardi

da produção excedente, e a criação de um novo comum de riqueza ao alcance de todos, isto é, novos espaços públicos acessíveis à toda população. A questão, portanto, é mudar tudo isso e descobrir maneiras criativas de usar os poderes do trabalho para o bem comum, e manter o valor produzido sob o controle dos trabalhadores que o produziram (HARVEY, 2014, p. 168).

O capital, defende Harvey (2014), tem meios de extrair excedentes de diferentes locais, se beneficiando de diferentes culturas e significados estéticos, se apropriando e explorando de sua criatividade para seu próprio enriquecimento, produzindo por meio deles, alienação e ressentimento entre os produtores de cultura. Assim, populações inteiras tem suas histórias e culturas exploradas pela


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mercantilização. As infraestruturas urbanas e a vida na cidade são organizadas pelo poder político a fim de manter os cidadãos rebeldes sob controle. A exemplo disso, os bulevares em Paris foram projetados por Haussmann como meio de controle militar das populações insatisfeitas. As características físicas do espaço urbano são, portanto, importantes nas ações políticas. No sentido marxista formal, a luta anticapitalista baseia-se na abolição da relação de classe entre capital e trabalho, que permite a produção e a apropriação da mais-valia pelo capital. Nesse cenário, as lutas urbanas tendem a ser ignoradas pela tradição marxista, uma vez que são interpretadas como algo relacionado a questões de reprodução e não de produção, relacionado a direitos e cidadania, não sobre classes. Contrário a isso, Harvey (2014) alega que a dinâmica de exploração de classe não se restringe tão somente ao local de trabalho. Devemos levar em consideração todo um conjunto de economias da expropriação e mercados imobiliários organizados por comerciantes, proprietários de terras e financistas que acarretam efeitos sentidos no local onde se vive, nas cidades, e não somente nas fábricas, dinâmicas estas fundamentais para acumulação de capital e o poder de classes. As práticas de acumulação por desapropriação, apropriação de rendas, pela extorsão de dinheiro e vantagens, encontram-se no âmago de muitos dos descontentamentos que se relacionam às qualidades da vida cotidiana para a massa da população. Os movimentos sociais urbanos costumam mobilizar-se

em torno dessas questões, que decorrem do modo como a perpetuação do poder de classe se organiza em torno do estilo de vida e do trabalho. Portanto, os movimentos sociais urbanos sempre têm um conteúdo de classe mesmo quando são primariamente articulados em termos de direito, cidadania e labuta da reprodução social (HARVEY, 2014, p. 231).

O valor recebido pelos trabalhadores em forma de salário é recuperado pelo capitalista por meio de aluguéis altos. A urbanização também é um produto na qual milhares de trabalhadores participam de sua produção que acaba por gerar maisvalia ao capitalista, e, assim, da mesma forma que Marx restringiu a duração da jornada de trabalho como um primeiro passo de uma trajetória revolucionária, deveríamos reivindicar o direito de todos os cidadãos de viver dignamente como um passo revolucionário mais abrangente da luta de classes. A Comuna de Paris reivindicou seu direito a uma cidade que haviam ajudado a erguer, desta forma, o direito a cidade também deveria ser parte da luta anticapitalista (HARVEY, 201, p. 244). Todos aqueles cujo trabalho está envolvido em produzir e reproduzir a cidade têm um direito coletivo não apenas àquilo que produzem, mas também de decidir que tipo de urbanismo deve ser produzido, onde e como (HARVEY, 2014, p. 245).

Dessa forma, deve-se interromper a produção das formas de destruição criativa nas cidades, destruição essa que facilita a acumulação do capital pelos capitalistas, buscando colocar em prática


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Construção de Brasília em 1956. Fonte: Marcel Gauthero

o direito a cidade que se refere ao direito da população de reconstruir e recriar a cidade que erradique a pobreza e a desigualdade social. O trabalho, contrário as tradições marxistas, não mais deve ser relacionado somente à indústria, mas também ao trabalho de produção e reprodução da vida urbana. Essa destruição criativa de Haussmann e a influência de outros urbanistas europeus como Ebenezer Howard, foram fortemente influentes no urbanismo paulistano desde início do século XX. Outra influência que marca o primeiro


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Código de Obras da cidade de São Paulo foi o Building Code do zoneamento de Nova York, e assim, nos anos 1920, com o aparecimento dos primeiros arranhacéus na cidade, temos o início do processo de modificação urbana da cidade de São Paulo (SOMEKH, 2014, p. 18). A legislação que limitava os coeficientes de aproveitamento do solo acabava por frear seu adensamento, e logo, podemos perceber que São Paulo é claramente vertical, mas pouco densa. O Estado, ao reduzir os coeficientes de aproveitamento, produz uma escassez artificial de terras, o que acaba por valoriza-las e como consequência, favorece os proprietários fundiários, a classe dominante, mesmo que de maneira improdutiva. Segundo Somekh (2014, p. 23), o urbanismo moderno ou modernista não se desenvolveu de forma eficiente na cidade de São Paulo, que acabou se limitando a um urbanismo modernizador. O urbanismo modernista do período entreguerras, marcado pela produção de moradias em massa e as questões sociais, não se validou significativamente em São Paulo. Notamos aqui a ação do Estado como agente produtor do espaço urbano: a forte influência do zoneamento alemão e norte-americano com a formulação do Código de Obras, e a formulação do Plano de Avenidas de 1920. A verticalização, segundo Somekh (2014, p. 29) a multiplicação efetiva do solo urbano foi possibilitada pelo advento do elevador, que possibilitaria o aproveitamento intensivo da terra urbana, adensando-a. Em São Paulo,

a verticalização tem seu início em 1920, com a Lei nº 2.332, quando se regulamenta o uso do elevador, elemento primordial no processo, nas alturas e usos dos edifícios. Até 1957, a verticalização era restringida pelo estabelecimento de alturas máximas, o que não oferecia garantias quanto ao seu comprimento. Foi a partir deste ano, com a Lei nº 5.621 de Anhaia Mello que a limitação passou a ser feita pelo coeficiente de aproveitamento de quatro vezes a área do terreno para qualquer edificação na área urbana (SOMEKH, 2014, p. 29). A questão da habitação em São Paulo passa a receber mais atenção com a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Sistema Financeiro da Habitação (SFH), e, em 1967, com a Lei nº 4.380, a população, principalmente de baixa renda, consegue adquirir a casa própria por meio dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Em 1988, com a Lei nº 10.209, o empreendedor imobiliário passa a poder comprar exceções ao zoneamento em troca de construções de moradias populares. Somekh (2014, p. 41) citando Gottdiener (1993), relaciona os problemas atuais da sociedade aos problemas de natureza espacial: Para os marxistas, a cidade é o resultado da concentração da força de trabalho e do capital. Suas transformações sócioespaciais são reguladas pela lógica da acumulação do capital. O resultado desse processo é o desenvolvimento desigual e a disseminação de injustiças sociais, distribuídos tanto espacial quanto


22 demograficamente (GOTTDIENER, 1993, apud SOMEKH, 2014, p. 42).

Em discordância com a abordagem marxista que apresenta limitações ao posicionar a cidade apenas como consequência de processos econômicos e políticos, devemos considerar a teoria de Lefebvre (1974), para quem o espaço é moldado não somente por fatores econômicos, mas também políticos e culturais. O urbanismo nasce da necessidade de ordem em meio ao conflito de classes nas cidades industrializadas. O Estado então, que deveria garantir a melhoria da condição de vida da classe trabalhadora, disponibiliza a terra para investimentos mais lucrativos. O urbanismo moderno, surgido na cidade industrial para enfrentar os problemas sociais em meio urbano, deu lugar a um urbanismo modernizador em São Paulo, no qual se priorizou a busca pelo aumento de produtividade e de capital: O urbanismo paulistano, apesar de pautado em uma racionalidade influenciada pelo ideário internacional, não pode ser considerado moderno, pois a questão social não ocupa o centro de seu discurso, mas sim a eficiência e o desenvolvimento da cidade e do capital. A globalidade dos planos é aparente, uma vez que exclui a população mais pobre (SOMEKH, 2014, p. 50).

Outra ação modernizadora notada no processo de urbanização de São Paulo foi o favorecimento de empresários na administração pública, que beneficiava os interesses do desenvolvimento

capitalista. O projeto iluminista do século XVIII colocava a ciência, a racionalidade e a objetividade a serviço do homem, porém não a serviço de todos os homens, mas a elite, aqueles que podiam consumila. São essas as principais características que conduzem ao modernismo, identificado com a crença no progresso linear, nas verdades absolutas, no planejamento racional de ordens sociais ideais, e com a padronização e estandardização do conhecimento e da produção (SOMEKH, 2014, p. 55).

O urbanismo como ciência moderna nasceu na tentativa de frear problemas sociais causados pela cidade industrial, reunindo economia, sociologia e arquitetura. Em contrapartida às tentativas de medidas que visassem o coletivo, havia uma arquitetura institucional, como a de Haussmann, que buscava a obtenção do lucro imobiliário, não se importando com o proletariado que acabava por ser amontoado nas periferias. A experiência urbana (...) foi uma reação à profunda crise da organização, do empobrecimento e do congestionamento urbano, em que toda uma tendência de prática e pensamento modernista foi diretamente moldada (HARVEY, 1992).

Dessa forma, e, semelhante ao que aconteceu em São Paulo, o urbanismo moderno tem como principal objetivo a cidade (SOMEKH, 2014), o plano como instrumento principal e a questão social como discurso. O urbanista modernista visa por meio da cidade,


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resolver os problemas da sociedade e as desigualdades sociais. Contrário a isso, o urbanista modernizador visa apenas a cidade como meio de acumulação de capital e as inovações constantes que aquecem as leis coercitivas da competição. “O espaço urbano entendido como máquina, produz valor” (SOMEKH, 2014, p. 58). A cidade não é só fruto da economia. Fatores políticos e culturais devem ser considerados. As transformações do território não resultam apenas das pressões vinculadas ao desenvolvimento econômico; são também fruto da disseminação internacional de modelos ideológicos, em que o progresso e a modernidade devem se impor aos detentores do poder (SANTOS et al, 1993 apud SOMEKH, 2014, p. 101).

O fenômeno da urbanização em São Paulo, e no Brasil de modo geral, é associado à industrialização que ganha força a partir de 1930. Porém, as cidades já eram sede do capital comercial e controlavam a produção agroexportadora do café até 1920. Interessado em produzir o padrão de vida europeu, o fazendeiro de café é fundamental na produção do espaço urbano até 1920, adquirindo terras e mão de obras, e dessa forma, interferindo na política econômica e financeira de São Paulo (OLIVEIRA, 1982, apud SOMEKH, 2014, p. 114). O estado é também um dos agentes transformadores do ambiente construído e gera, nessa função, duas ordens de conflito: entre os interesses na forma de as frações se apropriarem do excedente social e entre os interesses na luta por qualidade de vida residencial e expansão

espacial da acumulação. Como o capital não pode fazer que os resultados das lutas em torno do ambiente construído sejam determinados apenas pelos apropriadores de renda e pelo segmento da construção, ele intervém indiretamente, por meio da ação do Estado (HARVEY, 1980, apud SOMEKH, 2014, p. 151).

Como defende Harvey (1980) citado por Somekh (2014), por meio da produção industrial, a natureza do espaço urbano foi alterada por um mecanismo de concentração e apropriação de maisvalia. O ambiente urbano passa a ser um centro de estímulo ao consumo no qual a classe capitalista por meio do Estado intervém para evitar crises de subconsumo. O foco central na produção do ambiente construído torna-se o investimento pelo capital financeiro e não mais os problemas sociais. O preço do terreno carrega em seu valor o potencial do preço final do produto imobiliário, assim sendo, os preços fundiários são equivalentes ao produto que pode ser construído em determinada localidade. Em São Paulo, a verticalização não se concentra somente em áreas de infraestrutura consolidada e preços fundiários altos (SOMEKH, 2014). Concluímos então que não devemos considerar os preços altos da terra urbana a causa do adensamento e da verticalização. Nas áreas ocupadas fora do triângulo central temos outras estratégias de valorização do capital imobiliário: a concentração, a tentativa de reproduzir em outras localidades áreas já valorizadas - e verticalizadas - e a expansão, a busca por novas frentes de valorização.


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Contrário ao que costuma acontecer geralmente, em São Paulo, o crescimento precede a implantação do transporte. Nos anos 1930, antes da disseminação do automóvel já se via o processo de loteamentos, bem como em algumas regiões da cidade, a ocupação acontece antes da chegada do bonde. O bonde na região central da cidade, contribuiu para o aumento dos preços da terra e o adensamento. Entre 1920 a 1940, a população de São Paulo cresce significativamente, o que tem como consequência o aumento da demanda habitacional. Após a recessão 1929 surgem crises na falta de moradia, que até então era suprida sem qualidade. Assim, a partir de 1938, o Estado intervém na questão habitacional com a criação das Carteiras dos Institutos de Aposentadoria e Previdência, a legislação do inquilinato em 1942 e a criação da Fundação da Casa Popular em 1946. Em meados de 1930, com a instalação de linhas de ônibus, a construção da casa própria em lotes periféricos é vista como saída dos problemas da habitação, mesmo que a periferia não tivesse serviços e equipamentos urbanos básicos. Apesar disso, até 1940, o cortiço continuava sendo a principal forma de habitação para a população pobre. Até 1929, a verticalização se localizava, quase que totalmente, no triângulo histórico, onde os edifícios mais altos eram destinados ao uso terciário, e no que era chamado centro novo, onde havia edifícios de uso misto com uso terciário e residencial. Após 1929, a verticalização residencial passa a se expandir para o Largo do Arouche e bairros próximos como Santa Ifigênia e

Higienópolis e Liberdade. Esse processo marca a extensão da verticalização rumo a sudoeste de São Paulo. Com a disseminação do uso do concreto, nos anos 1930, a possibilidade de construção do edifício multifamiliar apresenta-se como a solução para os problemas de habitação na cidade. Essa ideia era fortemente rejeitada pela classe média que julgava os edifícios de apartamentos como cortiços para pobres, mas acabou sendo aceita e constituiu-se em uma grande inovação no setor habitacional. (LEME, 1979, apud SOMEKH, 2014, p. 201). Em meio a isso, visando o menor custo e a rapidez na construção, a estética do modernismo foi adotada, mesmo que as famílias considerassem o estilo neoclássico como sendo o belo. Ao invés de perseguir planos grandiosos baseados no zoneamento funcional de atividades diferentes, procuramos por estratégias “pluralistas” e “orgânicas” para o desenvolvimento urbano, como “colagens” de espaços diferenciados destinados a atividades diferenciadas (HARVEY, 2012). Em meados dos anos 60, os planejadores modernistas objetivavam por um plano urbano que englobasse toda a metrópole como uma “forma fechada”, encarada como uma totalidade. Os planejadores pós modernistas, por sua vez, inspirados por Jane Jacobs, enxergam o processo urbano como algo aberto, incontrolável e caótico, aceitando sua efemeridade, fragmentação e descontinuidade. O pós-modernismo (HARVEY, 1992), na negação da ideia de progresso, busca a quebra do sentido de continuidade e memória histórica, utilizando apenas


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partes do passado de maneira eclética, combinando-as originalmente. A cidade contemporânea também é marcada pela compreensão da diferença, como enfatiza Huyssens (apud HARVEY, 2012), na qual se faz presente novos movimentos sociais de mulheres, população LGBT, negros, ecologistas, entre outros. Essa cidade é fruto de toda uma mudança de condições técnicas e sociais. Jameson (1984, apud HARVEY, 2012, p. 59) então expõe o pós-modernismo como uma lógica cultural do capitalismo avançado, uma vez que agora já não se tem tanta autoridade nas formas de cultura. Essa diminuição da autoridade do produtor permite maior participação popular e de determinações democráticas de valores culturais. Desse modo, a produção cultural contemporânea passa a ser rasa, pouco profunda. Exemplo disso é a declaração de Venturi et al. (1972, apud HARVEY, 2012): “Não temos de concordar com a política operária para defender os direitos de classe média, branca e negra, liberal e conservadora”. A população buscava uma estética arquitetônica semelhante a dos arredores de Las Vegas, e não aquilo que os arquitetos faziam. A diminuição da autoridade do produtor cultural e a substituição do gosto cultural dos anos 60 pela cultura pop, uma cultura efêmera de massa, é fruto do sistema capitalista vigente. A produção cultural torna-se então uma mercadoria, fazendo-se necessário a produção cada vez mais acelerada de novas tendências (MENDEL, 1975, apud HARVEY, 2012, p. 65).

Seguindo os conceitos de Harvey (2012), o pós-modernismo no campo urbano é uma ruptura com a precedente ideia modernista que defende planos urbanos racionais e eficientes em larga escala, que englobam todo o limite metropolitano, sustentados por uma arquitetura funcionalista austera do modernismo “internacional”. Como exemplo desse urbanismo moderno, podemos citar a Ville Radieuse (1924) e o projeto para a cidade de Chandigarh (década de 1950), ambos de Le Corbusier; Brasília, projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer (1960). Contrário a isso, o pós-modernismo defende a cidade como forma orgânica, fragmentada, “um ‘palimpsesto’ de formas passadas superpostas umas às outras e uma ‘colagem’ de usos correntes, muitos dos quais podem ser efêmeros” (HARVEY, 2012). Pensando nas tradições vernáculas, nas histórias locais, desejos e necessidades dos diferentes “pedaços” urbanos, os pós-modernistas projetam formas arquitetônicas especializadas, sob medida, para os diferentes e efêmeros usos. Pensando nessas particularidades e fragmentações, bem como sua aparência e forma como os espaços se organizam, a cidade forma uma base material, cenário de diferentes sensações e práticas sociais. Arquiteto do gabinete doméstico de conselheiros do Príncipe Charles sobre questões vinculadas à arquitetura e ao projeto urbano, Leon Krier defende que, na cidade ideal, a totalidade das funções urbanas sejam fornecidas dentro de “distâncias a pé compatíveis e agradáveis”, não podendo crescer em largura e altura mas somente “por multiplicação”,


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ou seja, o que poderíamos chamar de “fragmentos” na cidade contemporânea (HARVEY, 2012). O ideal para Krier, seria uma cidade formada por “comunidades urbanas completas e finitas”, constituídos por quarteirões urbanos independentes que formassem “cidades no interior de uma cidade”. Nos Estados Unidos, a estratégia subsidiada pelo governo para construção de novas habitações, estradas e infraestruturas no processo de suburbanização, teve como consequência premeditada a deterioração do centro das cidades. Essa deterioração tinha como objetivo a renovação urbana através da demolição e a reconstrução dos centros urbanos antigos, fazendo deles mais convidativos e lucrativos pelo turismo e comércio. Robert Moses, então, por meio de fundos públicos e exigências dos empreendedores privados, planejou novos parques urbanos, autoestradas e pontes renovando toda a região metropolitana de Nova York. As cidades contemporâneas pós industrialização, tentam se reestruturar através de uma repetição em série de modelos bem-sucedidos, a exemplo de Baltimore, com o Harbor Place, centros financeiros, de consumo e entretenimento, e, dessa forma buscam uma imagem através da organização de espaços urbanos espetaculares na tentativa de se destacar, atraindo capital e pessoas (HARVEY, 2012). Fruto pós-modernista, o desconstrutivismo busca, semelhante ao modernismo, explorar a forma e os espaços puros, porém não como um corpo único, mas como fragmentos, como partes distintas que não adquirem

sentido de unidade, passíveis de uma leitura assimétrica. (HARVEY, 2012). A destruição criativa, como defende Harvey (2012) está contida no processo de circulação do capital. O capitalismo é levado a periódicas crises devido a inovação, a instabilidade e a insegurança. As metalinguagens, metateorias e metanarrativas do modernismo (particularmente em suas manifestações ulteriores) tendiam de fato a apagar diferenças importantes e não conseguiam atentar para disjunções e detalhes importantes. O pós-modernismo tem especial valor por reconhecer “as múltiplas formas de alteridade que emergem das diferenças de subjetividade, de gênero e de sexualidade, de raça, de classe, de (configurações de sensibilidade) temporal e de localizações e deslocamentos geogr áficos espaciais e temporais” (HUYSSENS, 1984, p. 50, apud HARVEY, 2012, p. 109).

Por outro lado, devemos não apenas apontar os erros, mas também considerar as conquistas modernistas como a organização da vida urbana e a construção de um espaço que conteve processos que causaram o rápido crescimento das cidades capitalistas do século XX. No caso de Puitt-Igoe, empreendimento de habitação social construído em 1954 e demolido em 1972, projetado por Minoru Yamasaki, o grande fracasso modernista, é de se questionar as condições sociais da época

Puitt-Igoe, projetado por Minoru Yamasaki. Fonte: The Pruitt-Igoe Myth


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mais do que a pura forma arquitetônica. As cidades então passaram por um processo de modernização, de transformação da sociedade, sendo suas histórias marcadas pelo sistema “bip”, com técnicas de transporte e estocagem de bens, informações e de pessoas (ASCHER, 2010, p. 20). Seu princípio essencial é moldado pela tradição e a referência ao passado. Essa modernização, segundo Ascher (2010, p.21), é resultado da interação de três dinâmicas socioantropológicas, sendo elas a individualização, a racionalização, e a diferenciação social. Assim, a arquitetura na cidade contemporânea integra novas técnicas e valores, assumindo novas liberdades mantendo em sua essência antigas referências. As cidades, semelhante a palimpsestos, foram capazes de sedimentar diferentes camadas de sua história: [...] as cidades comprovaram sua capacidade de sedimentar diferentes camadas de sua história, funcionando como palimpsestos, esses pergaminhos que não mudam, mas que acolhem sucessivamente escritas diversas (ASCHER, 2010, p. 28).

A pós-modernidade como crítica da modernidade, surgiu há cerca de quarenta anos, como uma superação da modernidade, propondo mudanças que não anunciam seu fim, mas liberando a sociedade moderna de um racionalismo simplista, desprendendo-a de formas de pensamento messiânico ou providencial que significavam uma ideia de progresso.

(ASCHER, 2010, p.31) [...] nas cidades, subúrbios e burgos do século 19, o vizinho era frequentemente um colega, um amigo, um parente, um correligionário, um companheiro de luta. Hoje, ao contrário, a vida nas cidades se desenvolve em outra escala, e a coincidência das diferentes esferas das relações sociais está cada vez menor. Os vizinhos são raramente amigos de infância, colegas, parentes, amigos (ASCHER, 2010, p. 44).

Atualmente, como consequência da globalização, a sociedade baseia-se em indivíduos “multipertencentes”, isto é, se desenvolvem em campos sociais distintos. Entre os campos sociais, os mais importantes são: o do trabalho, da família, o lazer, a vizinhança, as organizações religiosas e sociopolíticas (ASCHER, 2010, p. 45). Ascher (2010) defende então a hipótese de uma nova fase da modernização, uma terceira revolução urbana moderna, uma vez que a Europa já vivenciou duas revoluções urbanas modernas. Essa terceira revolução urbana moderna é caracterizada pela metapolização, a transformação dos sistemas urbanos de mobilidade, a formação do espaço-tempo individual, a redefinição das relações entre interesses individuais, coletivos e gerais, e as novas relações de risco. Nas duas primeiras fases da modernização, o crescimento interno das aglomerações, que se estendia pela periferia imediata e pelo adensamento, foi substituído agora na terceira fase


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da modernização pelo crescimento externo, a absorção de cidades, bairros e aglomerações distantes. Ocorre então uma multiplicação das polarizações, o centro tradicional das cidades já não é mais o lugar mais acessível, principalmente para os cidadãos que dispõem de automóvel. A terceira revolução urbana não gera, portanto, uma cidade virtual, imóvel e introvertida, mas sim uma cidade que se move e se telecomunica, constituída de novas decisões de deslocamento das pessoas, bens e informações, animada pelos eventos que exigem a copresença, e na qual a qualidade dos lugares mobilizará todos os sentidos, inclusive o toque, o gosto, o cheiro (ASCHER, 2010, p. 67).

Assim, a ferrovias se tornaram obsoletas, o transporte coletivo foi substituído pelas rodovias, pelo transporte individual, símbolo da individualidade moderna. Aqueles que não dispõem do automóvel, do transporte individual, tornaram-se deficientes, uma vez que a cidade agora lhes é menos acessível. A necessidade de dispositivos complexos, geralmente de mercado, como o exemplo do transporte individual, é responsável pela crescente desigualdade social. Faz-se necessário recorrer a princípios de equidade, mais do que de igualdade, com a criação de serviços cada vez mais individuais destinados para aqueles que detém do correspondente financeiro. Assim, é necessário o desenvolvimento de novos tipos de serviços públicos adaptados às

cidades da terceira revolução urbana (ASCHER, 2010, p. 71). Há, atualmente, a emergência de problemas ligados ao desenvolvimento de novas formas de segregação social. Com o desenvolvimento dos meios de transporte, novas possibilidades de escolha de localidade residencial podem ameaçar a coesão social e urbana, com agrupamentos de populações “distintas”, geralmente de populações excluídas do desenvolvimento econômico juntamente com aqueles que detém do capital, o que pode ocasionar a formação de bairros privados cercados de muros. As reivindicações de classe, assim como o individualismo tal como se institucionaliza atualmente, não devem ser consideradas como egocentrismo, mas como expressão de novas estruturas sociais que necessitam redefinir as noções de solidariedade e de responsabilidade (ASCHER, 2010, p.76).

O urbanismo moderno, segundo Ascher (2010), definia um programa de longo prazo para as cidades, sob forma de planos diretores, aplicando princípios de organização espacial, destinados a controlar o futuro e reduzir as incertezas. O urbanismo contemporâneo, é chamado pelo autor de neourbanismo, a terceira revolução urbana, que por se tratar de uma sociedade complexa, um futuro incerto, se apoia em atitudes mais reflexivas, elaborando múltiplos projetos de natureza variada. Através de ações que servem tanto para elaborar quanto para provar hipóteses, com procedimentos mais cautelosos e duráveis, o neourbanismo substitui a


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linearidade da antiga cronologia que encadeava o diagnóstico, identificação das necessidades, a elaboração eventual dos cenários, a definição de programa e o projeto que são característicos do projeto urbano moderno. Esse urbanismo moderno assegurava a realização de seus projetos de forma simples com zoneamento, funções, densidades, gabaritos, etc. O neourbanismo, por sua vez, privilegia os objetivos, visando os resultados, incentivando o poder público e as iniciativas privadas a encontrar meios de realização desses objetivos, de forma a serem os mais eficientes para a população. A cidade contemporânea, a cidade fragmentada, devido a sua diversidade crescente dos territórios e das práticas urbanas, a dificuldade de se tomar decisões igualitárias, tendo em vista princípios de equidade, busca projetos qualitativos que privilegiam os objetivos mais do que os meios, inclusive nos pontos de vista arquitetônicos e paisagísticos (ASCHER, 2010, p. 84) O urbanismo moderno, muito marcado pelo pensamento taylorista e fordista, buscava resultados na economia de escala, na simplificação e na repetição das funções urbanas destinadas a espaços específicos. Os zoneamentos e os grandes conjuntos habitacionais exprimiram fortemente essa lógica” (ASCHER, 2010, p. 85).

Contrário a isso, o neourbanismo não busca simplificar realidades complicadas buscando resolver os problemas dos territórios e situações complexas.

As soluções únicas e monofuncionais, frágeis ou pouco adaptáveis, dão lugar a respostas multifuncionais e redundantes, capazes de fazer face à evolução, à variedade das circunstâncias, às disfunções e às crises. Os resultados urbanos estão mais fundamentados na articulação e coordenação de potenciais variados do que na massificação. As economias de variedade predominam sobre as economias de escala (ASCHER, 2010, p.85).

O urbanismo moderno que buscava por soluções permanentes, coletivas e homogêneas, tendo em vista responder demandas massificadas de habitação, comércio, transporte e lazer, dá lugar ao urbanismo contemporâneo, que considera em seus processos, a individualização, a maior diversificação de situações e necessidades. O neourbanismo [...] esforça-se em propor um tipo de cidade à la carte, que oferece combinações variadas de qualidades urbanas. Para tanto, não hesita em utilizar as formas antigas e os estilos vernaculares, tanto quanto os tipos modernos. Tendo rompido com as ideologias simplificadoras e totalitárias do progresso, acomoda-se na complexidade das cidades que herda e em que atua. Também patrimonializa cada vez mais o quadro construído existente, seja museificando-o ou designando novos usos. O novo urbanismo tenta tanto quanto possível utilizar as dinâmicas do mercado para produzir ou conservar valores simbólicos da cidade antiga.” (p.94)

Devemos aprender com os erros cometidos por uma cidade moderna


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baseada no zoneamento funcional de diferentes funções, e desta forma, construir uma cidade contemporânea seguindo os princípios do neourbanismo (ASCHER, 2010), de uma cidade fragmentada, um “palimpsesto” (HARVEY, 2012), na busca de estratégias mais orgânicas e plurais. É necessário se fazer projetos que atendam as necessidades sociais, abrangendo diferentes faixas de renda, não destinados apenas aos seus moradores, mas abertos à toda a cidade. Assim sendo, vamos ver como olhar para o bairro de Santa Ifigênia a partir das considerações acima.


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2. Santa Ifigênia: um bairro em transformação

2.1 Santa Ifigênia

habitantes e apresenta uma densidade demográfica de 24.774 hab/km².

Santa Ifigênia, santa padroeira incorporada como a protetora dos incêndios e dos movimentos de moradia, dá nome à igreja e ao bairro Santa Ifigênia. Ironicamente, a região onde ocorreu o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida abriga cerca de 3.864 moradores em situação de rua – de acordo com o Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo de 2015 feito pela Prefeitura de São Paulo e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) – mais da metade dos moradores de rua de toda a cidade de São Paulo (52,7%) e contabiliza 53 ocupações irregulares – segundo dados do Grupo de Mediação de Conflito da Secretaria Municipal de Habitação, de 2018 – que reúnem 3.300 famílias, o que corresponde a 25,73% do total da cidade. O edifício Wilton Paes de Almeida desabou após ser atingido por um incêndio na madrugada de 1° de maio de 2018 e abrigava irregularmente cerca de 400 pessoas reunidas em 150 famílias.

O início do bairro tem-se com a criação da Freguesia, por volta de 1809 ligada à Paróquia de Santa Ifigênia em uma região que comportava uma bifurcação dos caminhos de Pinheiros e Luz e onde havia inúmeras chácaras. Tendo em vista o desenvolvimento da economia cafeeira e a consequente implantação do transporte ferroviário, Wa partir de 1872, São Paulo começa a apresentar transformações tais como a implantação do comércio para abastecer a população local, o fim das antigas chácaras que dão espaço para novos bairros, alargamento e pavimentação de ruas. As estações ferroviárias da São Paulo Railway (1867) e Sorocabana (1875), esta última posteriormente renomeada Estação Júlio Prestes, instaladas nas proximidades do bairro de Santa Ifigênia, acabaram por atrair hotéis e pensões para a região.

O bairro de Santa Ifigênia localizase no distrito da República, pertencente à Subprefeitura da Sé, no centro de São Paulo. Com 2,3km² de área abriga 56.981

A população mais abastada concentrava-se na Rua Santa Ifigênia, aberta em 1810, até a Rua Elesbão (hoje Rua Aurora). Já na Rua dos Bambus (hoje Avenida Rio Branco) ocupavam em sua maioria residentes acadêmicos de estudantes da Faculdade de Direito. A divisão do espaço entre classes era nítida,


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Largo de Santa Ifigênia, por volta de 1910, mostrando o início das demolições para obras de ampliação do largo e entrada para o viaduto Santa Ifigênia. As construções à vista estão sendo demolidas para construção do viaduto inaugurado em 1911. Fonte: Aurélio Becherini via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo

Antiga igreja, demolida em 1905 para construção da atual, inaugurada em 1912, entre 1900 e 1905. Fonte: autor desconhecido via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo


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a elite ocupava o que hoje é chamado Campos Elíseos (inicialmente Campo Redondo) e a Rua Florêncio de Abreu, enquanto que a população de baixa renda ocupava os terrenos alagadiços próximos, se amontoando em habitações precárias, casas de cômodos para aluguel e moradias de caráter simples. No início do século XX, com o crescimento da cidade, o centro passa a sofrer intervenções urbanas claras afim de embelezar e descongestionar as vias públicas, conferindo-lhes características vindas da Europa. As obras de alargamento e retificação das ruas, executadas na época, resultaram na eliminação de casas de famílias de baixa renda, cortiços e prostíbulos o que ocasionou como consequência o deslocamento de prostitutas da Rua Líbero Badaró para o bairro de Santa Ifigênia, mais especificamente nas ruas Timbiras, Ipiranga e Amador Bueno.

O alargamento da rua Libero Badaró um discurso sanitarista como defesa, rua onde se concentravam cortiços e a então zona de prostituição de São Paulo. A eliminação da concentração dessa zona de prostituição e os cortiços – a pobreza, claramente dizendo – representavam a eliminação da disseminação de doenças na tentativa de buscar higiene e saúde para a cidade. Não havia preocupação com programas sociais (SOMEKH, 2014, p. 115). Com a criação da Praça Antonio Prado na busca de valorizar a área que até então era ponto de concentração de negros e escravos que ali celebravam ritos católicos, foi demolida a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, datada do começo do século XVIII, transferida para o Largo do Paissandu que na época era considerado longe do Centro.


36 Em cima, Campos Elíseos tirada da torre do Liceu Coração de Jesus em direção noroeste em 1897. Fonte: Guilherme Gaensly via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo Embaixo, Santa Ifigênia, tomada da torre da Estação da Luz em direção ao Largo do Arouche, por volta de 1914. Fonte: Aurélio Becherini via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo

Em cima, Igreja de Santa Ifigênia, por volta de 1912. Fonte: autor desconhecido via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo Embaixo, Igreja de Santa Ifigênia em 1975. Fonte: Waldemir Gomes de Lima via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo


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38 Em cima, Antigo prédio da Estação da Sorocabana, no Largo General Osório, por volta de 1910. Fonte: autor desconhecido – Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo

Obras para construção da Estação Ferroviária Júlio Prestes, por volta de 1931. Fonte: Aurélio Becherini via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.

Embaixo, Estação Sorocabana no Largo General Osório por volta de 1931. Fonte: autor desconhecido via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo


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Em cima, o Largo Paissandu, por volta de 1933. Fonte: autor desconhecido via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.

Embaixo, o Largo do Paissandu no centro. Fonte: Aristodemo Becherini via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.


41 Demolição para a abertura da Praça do Patriarca. entre 1912 e 1913. Fonte: Aurélio Becherini via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.

Avenida Rio Branco em 1967. Fonte: João Gomes via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.


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Outras medidas urbanizadoras da época foram a reforma, ajardinamento e criação de praças como o Parque da Luz (1898), Largo dos Guaianazes (nomeada Praça Princesa Isabel em 1902), Praça da República (1902), Praça da Sé, projetos paisagísticos do Parque do Anhangabaú, Praça do Patriarca e Parque Dom Pedro II (realizados entre 1911 a 1917). Na questão Patrimônio Histórico, a Santa Ifigênia é um bairro que apresenta grande relevância. Ao tratarmos da quadra escolhida para o projeto da atIvidade II, em meio a alguns edifícios ociosos e subutilizados, constatamos a existência de quatro edifícios no entorno, tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), sendo eles: o edifício da Companhia Mecânica Importadora de São Paulo, o CMISP, datado do início do século XX, na rua do Triunfo, 229; Antigo Grande Hotel Bristol, da década de 2010, localizado na rua dos Gusmões, 147; edifício do início do século XX, que hoje funciona como edifício de uso misto, com hotel e comércio, na rua do Triunfo, 220; e o Ateliê Amarelinho Pessoal do Faroeste, na rua do Triunfo, 307. O tombamento exige grau de preservação 2, no qual fachadas, componentes arquitetônicos e cobertura devem ser preservados. Além destes 4 edifícios, o CONDEPHAAT decretou tombamento para mais 82 edifícios localizados na Santa Ifigênia, como consta na Ata nº 1537 do dia 29 de junho de 2009.

Vista aérea do bairro de Santa Ifigênia, de 1969. Fonte: Ivo Justino via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.


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44 Mapeamento Sara de 1930. Fonte: Geosampa.

Ortofoto MDC de 2004. Fonte: Geosampa.


45 Mapeamento Vasp Cruzeiro de 1954. Fonte: Geosampa.

Ortofoto PMSP RGB de 2017. Fonte: Geosampa.


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Planta da Cidade de SĂŁo Paulo de 1810. Fonte: Geosampa.


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Carta da Capital de São Paulo de 1842. Notamos no centro esquerdo da imagem a formação do bairro de Santa Ifigênia. Fonte: Geosampa.


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Planta da Cidade de SĂŁo Paulo de 1968. Fonte: Geosampa.


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Mapa da Capital da ProvĂ­ncia de SĂŁo Paulo de 1877. Fonte: Geosampa.


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Planta da Cidade de SĂŁo Paulo de 1881. Fonte: Geosampa.


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Planta da Capital do Estado de SĂŁo Paulo de 1890. Fonte: Geosampa.


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Planta Geral da Capital de SĂŁo Paulo de 1897. Fonte: Geosampa.


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O Bairro de Santa Ifigênia passa por um processo de tombamento, pelo CONDEPHAAT, tendo sua audiência pública ocorrida em 16 de abril de 2018. A proposta visa o tombamento do Conjunto Urbano do bairro, e o reconhecimento oficial como patrimônio cultural paulista. No total, são 88 imóveis tombados e o perímetro de proteção, decidido em 1986 e ratificado em 2008/2009. A partir da análise dos mapas, desde 1810 até meados de 1900, notamos o crescimento da cidade de São Paulo a partir do centro, quando a Santa Ifigênia ainda era uma área distante e caminho para outras novas áreas. Na imagem de 1810, notamos ainda bastante vegetação onde hoje é o centro. No período se deu a fundação da Freguesia de Santa Ifigênia, que cresceu em uma área de chácaras ao redor da Capela de Nossa Senhora da Conceição. A Capela data do século XVIII, e sua demolição deu lugar a construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Igreja de Santa Ifigênia, por volta de 1912. A conexão do Vale do Anhangabaú era feita pelo Viaduto do Chá, uma vez que o viaduto Santa Ifigênia seria inaugurado um século depois. No mapa, não aparece a Luz, que é apenas mencionada pelo “Caminho da Luz” e o “Convento da Luz”. Em 1842, com o crescimento rápido do centro, as chácaras vão sendo substituídas por edificações e ocorre o crescimento da cidade em novas áreas, como o “Caminho do Braz”, o “Caminho da Muóca”, “Caminho de Santo Amaro”. O bairro de Santa Ifigênia apresenta

semelhante crescimento e a surge então a Avenida Rio Branco com o nome de Rua dos Bambus. O traçado do bairro de Santa Ifigênia tem seu início esboçado na Planta da Cidade de São Paulo de 1868, e é analisado quase completo na Planta da Cidade de São Paulo de 1881, juntamente com bairro bem edificado. O Parque da Luz, com o nome de Jardim Público, é agora bastante integrado com o resto da cidade Observa-se o Largo dos Guayanases posteriormente chamado de Praça Princesa Isabel. Em 1897, o centro já aparece bem consolidado. Logo, tendo em vista o processo de formação e crescimento do bairro, podemos analisar, algumas das questões que estiveram presentes no decorrer desse crescimento, sendo tanto causa quanto consequência.


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2.2 Prostituição “Gerado pelo sêmen da injustiça social, após longo e feio parto, emergia, do ventre da cidade grande, o odiado e odiento filho: a Boca do Lixo, o quadrilátero do Pecado” (JOANIDES, 1977, p. 29). A presença de prostitutas na região da Santa Ifigênia data de 1930 e é uma consequência das medidas urbanísticas que ocorreram com o alargamento da Rua Líbero Badaró. As prostitutas que ali passam a atuar foram em grande parte responsáveis pelo surgimento de bares, hotéis e casas de cômodos próximos as estações ferroviárias e rodoviária. Entre os anos de 1940 e 1953, o governo manteve entre as ruas Itaboca (atual Professor Cesare Lombroso), Aimorés, Carmo Cintra e Ribeiro de Lima, a “Zona do Meretrício”, onde as prostitutas ficavam confinadas para exercer seu ofício. Em 1953, com o fechamento das atividades no Bom Retiro, pela campanha moralizadora e os decretos governamentais do então governador Nogueira Garcez, centenas de mulheres seguiram para as ruas dos bairros da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos, e assim a área passa a concentrar a prostituição nas

ruas, em seus hotéis e casas de cômodos, marcando sua degradação e pobreza. Assim, casas de roupas para homens se fizeram lojas de artigos femininos [...] Geladeiras, fogões e enceradeiras permaneciam encalhados nos estoques, ao passo que a venda de fogareiros, garrafas térmicas e frigideiras, se multiplicavam. [...] nas prateleiras das drogarias do bairro Cocô Chanel via-se desbancada por Cashemeare Bouquet e L’Amant de Coty. E caixas de camisinha Vênus. Famílias de bem mudavam-se apressadamente do loca, escandalizadas com o clima tipicamente prostibular [...] ou então por não resistirem à tentação das propostas que recebiam [...]. Nunca um número tão grande de bares foi aberto em tão curto espaço de tempo e distância. Bares, hotéis, e pseudo casas-decômodos, restaurantes e salões de beleza surgiam da noite para o dia, para atender o reclamo de atendimento de um milhar de prostitutas e do número vinte vezes maior da “freguesia” atraída (JOANIDES, 1977, p. 29 apud OLIVEIRA, 2019, p. 35).

A prostituição que desde os primórdios se mantinha pelo centro, se diferenciava agora pela proporção ocupada na Rua dos Timbiras, Avenida São João, Avenida Duque de Caxias, Largo General Osório e Rua dos


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Rua Itaboca em meados dos anos 1950, atual rua Professor Cesare Lombroso no Bairro do Bom Retiro. Fonte: Elvira Aguiar Borger Furlan.

Protestantes, transformando a área em grande quadrilátero do baixo meretrício, o maior que a cidade já tinha visto. A região, localizada próxima as estações ferroviárias da Luz e Sorocabana e próxima ao bairro dos Campos Elíseos, onde habitavam os senhores de café, banqueiros e empresários, começou a ser abandonada no início do século XX. O movimento ocasionado pelas estações acarretou grande crescimento populacional e a locação de hotéis e comércio popular, o que acabava por expulsar as camadas mais abastadas da sociedade que buscavam fugir e habitar novos lugares mais exclusivos. Com o abandono das elites e como consequência do poder público, ocorreu a desvalorização de toda a área que passou a abrigar em seus palacetes e casarões, comércio, hotéis e cortiços. Dessa forma, ocorre um aumento populacional em novos territórios, como Higienópolis, Perdizes, Avenida Paulista


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e bairros próximos como os Jardins, onde habitavam as altas camadas, e um decréscimo na região central da cidade, onde predominavam a população de baixa renda. Em “Saudosa Maloca”, famosa música popular brasileira de Adoniran Barbosa, o cantor e compositor se inspirou em amigos que dormiam em um casarão abandonado, o antigo Hotel Albiron na Rua Aurora. Como a elite paulistana já não se encontrava mais na região, não houve reação do poder público quanto a ocupação dos abrigados vindos da zona do meretrício do Bom Retiro. Além disso, os imóveis abandonados geravam lucro para a alta classe que os locava, transformandoos em cortiços ou até mesmo, prostíbulos. Os prostíbulos na zona do meretrício do Bom Retiro tinham aparência residencial. Com seu fechamento e a proibição dos mesmos, os donos das casas precisaram arrumar uma nova forma para escapar de problemas com a

Prostíbulo na zona confinada no bairro do Bom Retiro em meados dos anos 1950. Fonte: Elvira Aguiar Borges Furlan.


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exploração da prostituição. Dessa forma, as casas tinham aparência de hotéis com permissão da prefeitura.

pinga e imoralidade” onde denunciava os prostíbulos que se passavam por hotéis na região:

Numa centena de ex-prostíbulos pregaram-se tabuletas de hotel nas portas, tiraram-se alvarás de funcionamento e continuam eles a ser exatamente o que eram antigamente. Tudo no centro nervoso da cidade, à vista da polícia, da família, do homem e da mulher (...). Muitas são as pessoas que, à noite, se esquivam de passar, com as famílias, pelas ruas Aurora, Guaianases, Vitoria, Santa Ifigênia e outras. Isso em virtude dos espetáculos que ali podem registrar-se. Mulheres passeiam a passos de tartaruga, esperando companhia. Vigaristas, malandros e elementos da escória moral da sociedade vagueiam sem rumo (...). Tudo se confunde. O bem e o mal, a moralidade e a imoralidade, a justiça e crime, num submundo fincado como um cancro perigoso, ameaçado alastra-se bem no centro da cidade. (FOLHA DA TARDE, 1954).

Se à polícia faltam forças para fechar esses antros de imoralidade e do vício, cabe à Prefeitura Municipal o supremo dever de lacrar suas portas e indicar à polícia, para que esta aponte à Justiça, os nomes dos exploradores do lenocínio que trocaram as casas suspeitas de porta escancaradas, pelas casas de prostituição rotuladas de hotéis, exploradores estes que continuam semeando na cidade a degradação, a imoralidade e o vício. Ninguém faz mistério da existência, naqueles bairros, da atual “fortaleza” da prostituição (DIÁRIO DA NOITE, 1954).

As mulheres dispostas nas ruas, encostadas nos hotéis ou caminhando lentamente pelas calçadas, deixaram para trás o confinamento e passaram assim a ganhar espaço nas ruas, o chamado “trottoir”, elemento que dava à Boca do Lixo ainda mais aspecto de zona do meretrício. Convidando os potenciais clientes, o valor era acordado na rua e algum quarto de hotel nas proximidades era alugado por alguns minutos, o que era chamado por “entra e sai”. Outro fato que exemplifica a presença da prostituição pelo bairro, Orlando Criscuolo, repórter conhecido da época, publicou no jornal “Diário da Noite” uma matéria com a manchete “Maconha,

Diferente dos proprietários de hotéis, que estavam protegidos por uma licença da prefeitura, as prostitutas sofriam uma violenta repressão policial. Sua conduta, apesar de não ser ilegal perante a lei, era imoral aos olhos da sociedade, que as julgavam como decaídas, “mariposas do amor e do pecado”. O discurso e as repressões tinham como intenção alertálas e corrigi-las, antes que viessem a cair em desgraça. A “limpeza” feita pelas nomeadas “detenções correcionais” eram relatadas pelos jornais como campanhas saneadoras cujo principal objetivo era proteger as pessoas de bem dos criminosos. Uma análise da socióloga Alessandra Teixeira exemplifica o que seriam as chamadas detenções correcionais: As detenções correcionais consistiram em práticas policiais arbitrárias que vigoraram no sistema de controle social e repressão criminal brasileiro do Império até meados dos anos 80 do século XX. Além de se caracterizarem como


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instrumento privilegiado aparentemente voltado à manutenção da ordem pública pelas forças policiais, referidas práticas não se voltavam, via de regra, a condutas criminais propriamente ditas ou mesmo contravencionais, mas antes a tipos sociais, operacionalizando-se à margem dos termos legais, sem ordem judicial ou situação de flagrante delito, à revelia de uma acusação formal, e da consequente formação de um (devido) processo. Não obstante a flagrante ilegalidade dessas prisões, sua utilização esteve plenamente difundida e incorporada à regular dinâmica social e à rotina das instituições, inclusive do poder judiciário.

O “trottoir” em rua desconhecida, em meados de 1950. Fonte: Alvamar Helena Meira.


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O Serviço Social do Estado de São Paulo atendia na Delegacia de Costumes e no Presídios da Alegria, para onde mulheres capturadas nas ruas pela polícia eram levadas. Haviam também centros de apoio com programa de “reabilitação” para mulheres. Boca do Lixo, durante os anos 50, as detenções correcionais foram prática comum da polícia. As mulheres que trabalhavam na Boca do Lixo possuíam perfil socioeconômico semelhante ao das mulheres que antes trabalhavam confinadas no Bom Retiro. Agora autônomas, se livraram do domínio das cafetinas e da obrigatoriedade de aceitarem todo e qualquer homem, mas ficaram sujeitas a problemas encontrados nas ruas como violências e prisões arbitrárias pela polícia. A total arbitrariedade policial das prisões como meio de repressão é clara em uma notícia do jornal Diário da Noite, de janeiro de 1956, na qual se publicava o balanço da Polícia de Costumes no ano anterior, relatando cerca de cinco mil mulheres presas praticando o “trottoir” nas ruas: De fato, a prostituição em si, não constitui crime ou contravenção, nem mesmo podendo ser considerada como vadia a mulher que a exerce. Houve já tentativas para coibir as atividades de meretrizes mediante processos de contravenção por vadiagem. Em pura perda, pois a Justiça decidiu não configurar-se a contravenção no caso. Assim, o recurso que resta à polícia é a clássica detenção das mulheres que se dedicam ao denominado ‘trottoir’ por dois ou três dias, medida anódina, que não resolve o problema, mas que é forçoso repetir permanentemente. O que não se pode é dar inteira liberdade

às infelizes, pois cometem escândalos, ofendem o pudor público e tomam certas partes centrais da cidade [...] (DIÁRIO DA NOITE, 1956).

Muito embora houvesse grande repressão e campanhas moralizadoras nos jornais, o número de prostíbulos e prostitutas só aumentavam. Muitos policiais “dignos até, então, ótimos servidores, ótimos chefes de família e ótimos cidadãos” acabavam desvirtuados como justificou em 1952, Osvaldo Silva, Diretor Geral da Secretaria Pública de São Paulo em uma palestra na Confederação das Famílias Cristãs. O que havia por trás eram policiais corrompidos pelo poder das mulheres, que acabavam por praticar extorsão, recebiam contribuição por parte daqueles que exerciam atividades ilícitas, desde donos de prostíbulos, traficantes de drogas até prostitutas, que muitas vezes eram exploradas diretamente. Um ano após o fechamento da zona do meretrício do bairro do Bom Retiro, e em meio a esse cenário de prisões arbitrárias e corrupções que mantinham o funcionamento da Boca do Lixo, as autoridades tentaram discutir sobre a necessidade de um novo confinamento. Porém, devido à proporção que o meretrício havia tomado no centro da cidade, seria inviável uma nova operação de confinamento. A Boca do Lixo havia se consolidado no gigantesco quadrilátero do baixo meretrício. As atividades ganharam destaque devido a uma imprensa dedicada a alardear e sensacionalizar o que era considerado como “vergonha social”, passando, então, a sofrer forte repressão e colocando em declínio como destino de atividades


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prostibulares. Em consequência a isso, em fins dos anos 1960 e início de 1970, a prostituição se espalha pela cidade (JOANIDES, 1977, p.200, apud OLIVEIRA, 2019, p. 35).


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3. Boca do Lixo

3.1 Cinema Novo e os anos de ouro do cinema no Brasil Durante as décadas de 1960 e 1970, no chamado período militar e em meio a censura e a repressão, formou-se o Cinema Novo no Brasil. Influenciado pelos movimentos internacionais como os acontecimentos de maio de 68 na França, os movimentos pacifistas americanos contra a Guerra do Vietnã, a contracultura do movimento hippie, a revolução sexual e os movimentos feministas, o Brasil da década de 70 era marcado pela ação política radical, a transformação nas formas de comportamento social, a inquietação criativa e o contra-ataque em forma de resistência contra o regime militar. Todas as relações sociais eram de certa forma “politizadas” pela intervenção estatal, que censurava fortemente os meios de comunicação de massa intervindo na produção artística e cultural. Foi em meio a este ambiente que a implementação de um projeto “modernizador” do Estado, provocaria fortes mudanças no campo cultural, especialmente no cinema. No final dos anos 40 até o final dos anos 50, surgem grandes estúdios em São Paulo, fruto de empreendimentos

da burguesia industrial paulista, predominantemente italiana que agora legitimavam sua nova posição econômica e social. Juntamente a outras iniciativas no âmbito cultural, como a criação do Museu de Arte de São Paulo, o Teatro Brasileiro de Comédia e a Bienal Internacional de São Paulo, em 1949, ocorre a fundação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, instalada em São Bernardo do Campo, comandada pelo cineasta Alberto Cavalcanti e capitaneada pelo industrial Franco Zampari. A empresa criada para produzir filmes em bases industriais e tecnológicas, era auto-suficiente e desvinculada dos movimentos anteriores do cinema brasileiro, chegando a realizar alguns documentários de curtametragem e 18 filmes sem sucesso com o público, e acabou fechando suas portas em 1954 em meio a uma vida de esplendor e desordem.


64 Em cima, passeata dos Cem Mil, em 1968, contra a censura da ditadura militar. Fonte: Jornal Correio da ManhĂŁ. Embaixo, protestos contra a ditadura militar no Brasil. Fonte: Arquivo Nacional.

Protestos contra a ditadura militar no Brasil. Fonte: Arquivo Nacional.


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Chamando a atenção para um setor econômico inexplorado, a Vera Cruz estimulou o surgimento de outras empresas cinematográficas como a Companhia Cinematográfica Maristela, a Kinofilmes, a Multifilmes, – bem como o surgimento de vários produtores independentes – que acabaram por enfrentar problemas como a rentabilidade insuficiente para criar horizontes promissores no âmbito cinematográfico. Podemos observar a valorização do cinema como instituição cultural na década de 50 no mundo ocidental, com o surgimento de cineclubes e festivais encontrando expressão artística e se legitimando como a “sétima” arte. O cinema passa a ser objeto de reflexão no campo da cultura e nos meios intelectuais. No Brasil, foi a época em que o cinema começou a se construir legislativa e ideologicamente, em meio a congressos, comissões e grupos de trabalho. Até meados dos anos 60, o governo pouco intervinha nos negócios cinematográficos, limitando-se as questões de legislação como a criação de mecanismos para a sua proteção, obrigando a exibição de filmes nacionais.

Em cima, Nelson Pereira dos Santos, precursor do Cinema Novo. Fonte: Divulgação. Embaixo, Glauber Rocha, símbolo do Cinema Novo, na filmagem do velório de Di Cavalcanti. Fonte: Divulgação.

Nos anos 70, a indústria do cinema passa a se inserir na economia do país por meio de uma política institucional que o direciona ao mercado. Naquele momento, a aliança entre uma parcela do setor cinematográfico, o Cinema Novo, e setores governamentais, do Planejamento e da Educação e Cultura, objetivando a modernização do cinema voltado para o mercado, fezse indispensável para a sobrevivência econômica do cinema brasileiro. Dessa forma, visando transformar as frágeis estruturas produtivas então existentes em sólidas instituições, juntamente com pragmatismo e ideologia, os realizadores do cinema se empenharam para enfrentar o predomínio da produção estrangeira aproveitando a intervenção estatal no mercado. Em novembro de 1966, pelo DecretoLei n. 43, criou-se o INC, Instituto Nacional de Cinema, órgão legislador, incentivador e fiscalizador, consolidando um programa que concentrava a possibilidade de desenvolvimento da indústria do cinema com o controle do Estado. Juntamente a ele, incorporaramse o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), do Ministério da Educação, e o Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica (Geicine), do Ministério da Indústria e do Comércio. O órgão tinha por objetivo ampliar e garantir a reserva de mercado para o cinema nacional, fiscalizando a aplicação da lei, e premiando os filmes que cumprissem as leis como forma de incentivo. Em setembro de 1969, a Junta Militar que então governava o país, promulga o Decreto-Lei n. 862, criando a Empresa Brasileira de Filmes S/A,


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a Embrafilme, empresa de economia mista vinculada ao INC que tinha como objetivos, promover e distribuir filmes brasileiros no exterior, realizando mostras e organizando a participação em festivais internacionais, além de exercer atividades comerciais e industriais. A Embrafilme, passa, em 1970, a se encarregar do financiamento dos filmes, o que antes estava a cargo do INC. Em 1973, ocorre a fusão do INC à Embrafilme, juntamente com a reformulação administrativa dos órgãos estatais do cinema brasileiro e a criação do Conselho Nacional de Cinema (Concine). A Embrafilme passa então a ter mais autoridade em 1975, com a aprovação da Lei n. 6.281 que extingue o INC, transferindo à Embrafilme a coordenação das atividades no setor cinematográfico, incluindo a distribuição. A Embrafilme veio para substituir as pequenas distribuidoras privadas nacionais, que eram incapazes de enfrentar o poderio econômico das grandes empresas estrangeiras. Dessa forma, a Lei n. 6.281, atribui a Embrafilme as seguintes responsabilidades: incentivo ao desenvolvimento da indústria cinematográfica em seus aspectos técnicos, artísticos e culturais, através da concessão de financiamento, da comercialização, distribuição e divulgação dos filmes nos mercados interno e externo; o registro de fatos socioculturais, pesquisa documental, prospecção, recuperação e conservação de filmes, visando a preservação da memória nacional; produção e difusão de filmes educativos, técnicos e científicos. Ao Concine, cabia a fiscalização e o cadastramento, bem

como a regulamentação protecionista do cumprimento das leis. O período de 1972-1982 pode ser considerado a “época de ouro” do cinema brasileiro devido às políticas de proteção e incentivo da Embrafilme e do Concine. Durante os anos 70, percebe-se um crescimento do público de filme brasileiro ocasionado pela reorganização das forças produtivas que provocaram modificações no âmbito da produção de bens culturais no país de modo a promover uma expansão do consumo artístico e cultural. Registra-se também a implementação de novas redes nacionais de televisão, imagens a cores e o aumento do número de televisores no país. O enfraquecimento dos poderes da Embrafilme e do Concine passa a ser notado a partir de 1982, quando muitas das leis não funcionam ou são revogadas, a fiscalização já não ocorre com o mesmo vigor, e, consequentemente, as leis já não são mais cumpridas.


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3.2 O Cinema da Boca Outro tipo de filme se fazia presente no mercado juntamente com os filmes da Embrafilme. O cinema tradicional brasileiro feito por meio de musicais, comédias e épicos ao estilo hollywoodiano, deu lugar a um cinema de oposição. A diminuição dos incentivos do governo e a crescente censura, acabaram por limitar a criatividade dos autores do Cinema Novo, que se viu obrigado a conciliar o Estado opressor e a indústria cinematográfica. Dessa forma, uma nova vertente surge, o Cinema Marginal, ou Cinema de Invenção, termo atribuído pelo crítico Jairo Ferreira, fazendo filmes que ignoravam tanto a censura quanto à indústria. Marcados pela busca do “gosto popular” e a exploração do erótico, eram filmes produzidos exclusivamente com dinheiro privado, num lugar chamado de Boca do Lixo, em São Paulo, região localizada no bairro de Santa Ifigênia/ Luz, zona de meretrício. O termo “Boca do Lixo” era usado desde os anos 50 de maneira pejorativa por ser o local da cidade onde mais se encontrava profissionais do sexo a preços baixos. A região, por ser próxima as estações

ferroviária e rodoviária, tinha o transporte de latas de filmes para o interior facilitada, o que atraíra desde as primeiras décadas do século, escritórios de distribuidores e exibidores nacionais e estrangeiros. Empresas como a Paramount, Fox e MGM se instalaram na região em meados de 1920 e 1930, atraindo fábricas de equipamentos especializados, distribuidoras e assistências técnicas. Assim, muitos cineastas como Walter Hugo Khouri, Rogério Sganzerla, Julio Bressane, Cláudio Cunha, Juan Bajon, Alfredo Sternheim, José Mojica Marins, Luiz Castelini, Carlos Reichenbach, entre outros, foram atraídos para a região com a proposta autoral de seus filmes. Da Boca do Lixo foram produzidos diversos gêneros como ação, romance, drama, faroeste, aventura, comédia, terror, policial, que permitiam driblar a censura pela sua diversidade. Em 1968, com a criação do AI-5 e o aumento da repressão militar, a Boca do Lixo se transformou, em contra-partida, em um reduto ainda maior para cineastas transgressores que se recusavam a se encaixar nas imposições da censura. Fato esse observado pela grande produção da Boca do Lixo na época, que chegou a quase metade da produção de filmes lançados no Brasil, constatando a grande


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força de resistência dos realizadores. Os filmes que alcançavam um público cada vez maior, deram espaço ao erotismo, como forma de transgredir ainda mais o conservadorismo vigente. As obras não se caracterizavam como pornográficas, mas misturavam seu conteúdo profundo, com questões sociais que eram normalmente censuradas pela ditadura, ao apelo erótico. Os produtores, artistas e técnicos da Boca do Lixo, que faziam cinema para o mercado exibidor estimulados pela lei de obrigatoriedade, tiveram seus produtos identificados pela mídia como “pornochanchada”. O título depreciativo, intolerante e preconceituoso julgava a baixa qualidade dos filmes “medíocres” e a exploração do erotismo e da nudez em cena. O cinema da pornochanchada era feito à margem da maioria dos enfoques culturais, sendo, portanto, objeto de críticas e julgamentos. Para aqueles que julgavam, como a elite financeira, política, intelectual, imprensa e setores do cinema “culto”, o cinema da Boca denegria uma possível imagem positiva que se buscava construir com o cinema brasileiro em vias de exponencial crescimento. Contrário às críticas, o cinema da Boca do Lixo obtinha um sucesso de público, predominantemente das classes populares, e desenvolveu uma identidade própria lidando com as mesmas questões as quais os outros segmentos da produção cinematográfica lidavam: a criatividade, a censura, relações com o mercado, modo de produção, entre outros. Dessa forma, amparada pela aceitação popular e o bom desempenho de bilheterias, a Boca do Lixo marcou presença na expansão da indústria cultural na década

de 70, e a rua do Triunfo sonhou em ser a Hollywood brasileira. Em São Paulo, sempre foi comum que as pessoas ligadas ao cinema se encontrassem em torno de pontos de encontro. O Honório Martins, localizado na rua Rego Freitas, tradicional locador e distribuidor de equipamentos de filmagem, era o ponto de encontro no início da década de 60 durante o dia. Já durante a noite, as reuniões eram no Touriste, um bar próximo à Biblioteca Municipal. Com a reforma do bar Touriste, as reuniões passaram a acontecer em um bar na rua Sete de Abril chamado Costa do Sol, próximo à Galeria Metrópole, ponto conhecido pela boemia intelectual paulistana entre os anos 60 e 70. Algum tempo mais tarde, a região da Luz/Santa Ifigênia, próxima as estações ferroviária e rodoviária, onde algumas produtoras se localizavam, começou a atrair pessoas. A Boca do Lixo, então, se consolida como “sede” do comércio cinematográfico em 1966, com a criação do INC e o cumprimento da lei de reserva, passando a atrair cada vez mais profissionais interessados em realizar e discutir cinema, estudantes, cinéfilos, jornalistas, gente de cinema de toda espécie que se reunia no Soberano, um bar localizado na rua do Triunfo, 145, a principal rua da Boca do Lixo. O pessoal jovem que se reunia na rua do Triunfo, tinha por objetivo fazer um cinema que convivesse com o mercado, rompendo com a linguagem europeia e elitista feita pelo Cinema Novo. Nomes como Jairo Ferreira (jornalista crítico), Antonio Lima (Jornal da Tarde), Carlos Oscar Reichenbach Filho, João Callegaro,


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Fotografia da Rua do Triunfo, tomada da esquina com o Largo General Osório em direção à rua dos Gusmões no bairro de Santa Ifigênia. Fonte: Aurélio Becherini. Rua General Osório em 1939. Fonte: Benedito Junqueira Duarte via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.


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Carlos Ebert, José Agripino, João Silvério Trevisan, etc, circulavam pelo Soberano. Outros nomes que passaram pela rua do Triunfo foram, Ozualdo Candeia, diretor considerado “marginal entre os marginais”, Augusto Cervantes, José Mojica Marins, conhecido pelo seu famoso personagem Zé do Caixão.

do cinema brasileiro, e, dessa forma, a Boca do Lixo se concretiza como um “pólo produtor”. Devemos lembrar que, a partir de dezembro de 1968, instituiuse o AI-5 (Ato Institucional n. 5) em meio ao regime de exceção em que vivia o país, o que fazia com que a censura coproduzisse os filmes.

Na região, se encontrava a Cinedistri desde os anos 50, produtora e distribuidora de Oswaldo Massaini, que se consagra com a realização de “O pagador de promessas”, filme de Anselmo Duarte, vencedor da “Palma de Ouro” no Festival de Cannes em 1962.

Em 1968 ocorre a formação da produtora e distribuidora Servicine (Serviços Gerais de Cinema), fruto da associação de Alfredo Palácios e Antonio Polo Galante, criadora de um modelo de produção para a Boca do Lixo. Palácios e Galante haviam se formado no ambiente industrial da Maristela, Cinematográfica Kinofilmes, Multifilmes, os estúdios paulistanos da década de 50, e empresas que visavam o mercado institucional e publicitário.

Em 1967, com a implementação de políticas protecionistas e fomento à produção, distribuição e exibição do cinema nacional pelo INC, criavam uma reserva de mercado no circuito comercial que garantia a sobrevivência


73 Rua General Osório em 1939. Fonte: Benedito Junqueira Duarte via Acervos da Cidade – Prefeitura Municipal de São Paulo.

Bar Soberano. Fonte: Ozualdo Candeias.


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A produção de “Vidas nuas” (1967), de Antonio Polo Galante e Sylvio Renoldi exemplificam bem as características principais da produção do cinema da Boca do Lixo: visão de mercado, espontaneísmo, erotismo, baixo custo. Como relata Galante na tese de doutorado de Nuno Cesar Pereira de Abreu, “Boca do Lixo: Cinema e classes populares”, por volta de 1966, o produtor comprou juntamente com Renoldi um filme chamado Erótica de Ody Fraga que não havia sido terminado. Renoldi terminou o filme que passou a se chamar “Vias nuas”, fazendo grande sucesso. Esse episódio mostra como era possível realizar empreendimentos cinematográficos na época. A Servicine foi uma das mais sólidas empresas da Boca do Lixo. A empresa que trabalhava com venda antecipada, conseguia se manter na continuidade das produções, que, por serem em geral de baixo custo, apresentavam bons resultados financeiros. Além disso, possuía fortes vínculos com grupos exibidores que visavam cumprir a lei de obrigatoriedade de exibição de filmes brasileiros. Assim como a Servicine, outras pequenas produtoras da Boca do Lixo seguiram o modelo de adiantamento de bilheteria e baixo custo de produções para se manterem no mercado. Na virada dos anos 70, período do auge da Boca, a Servicine abriu espaço para novos talentos, realizadores estreantes, fotógrafos, montadores, roteiristas, elenco, entre outros. Alguns dos nomes que se tornaram relevantes na história do cinema nacional, coproduzidos por Galante e Palácios na época, são, Rogério Sganzerla (A mulher

Interior do bar Soberano, onde pessoas ligadas ao cinema se reuniam em meados dos anos 1970. Fonte: Ozualdo Candeias.

Em cima, cineasta Ozualdo Candeias filmando “Festa na Boca” em 1976. Fonte: Ozualdo Candeias. Embaixo, cineastas Carlos Reichenbach e Rogério Sganzerla por volta dos anos 1970. Fonte: Ozualdo Candeias.


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Esta é a proposta. E tem muito a ver com o momento que o país estava vivendo naquele momento. Tem tudo a ver com o Tropicalismo e o teatro do Zé Celso. A música, o teatro, os filmes vinham de uma censura, uma repressão muito grande, e neste momento trocam, a meu ver, a subversão da música de protesto, do Cinema Novo, do Teatro Opinião, pela transgressão. Assumir a proposição do Helio Oiticica: seja bandido, seja herói. Assumir a Boca do Lixo, normalmente. No Tropicalismo, assumir o cafonismo, a barbárie... Quem assume a Boca foi a minha geração. Era um lugar neutro e libertário (...) Carlos Reichenbach


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Carlos Reichenbach durante as filmagens de “Amor, Palavra Prostituta� em 1981. Fonte: autor desconhecido.


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Em cima, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, Antonio Lima e Antonio Meliande. Fonte: autor desconhecido.

Embaixo, Atriz não identificada se exibe para diretores e técnicos nos anos 1970. Fonte: Ozualdo Candeias.


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de todos, 1969), Sylvio Back (A guerra dos pelados, 1970) e Walter Hugo Khouri (Último êxtase, 1973). Em “O bandido da luz vermelha” (1968) de Rogério Sganzerla, é apresentado pela primeira vez como personagem e locação, a existência e o cinema da Boca do Lixo. O filme marca uma transição e uma ruptura com a ética e a estética do Cinema Novo, tornandose uma referência do cinema da Boca. Em 1969, Antonio Lima, Carlos Reichenbach e João Callegaro produzem “As libertinas”, primeiro longa-metragem realizado por frequentadores da Boca do Lixo. Os filmes do chamado Cinema Marginal se caracterizavam pela provocação estética e política na tentativa de diálogo com o mercado exibidor, cheios de ironia, deboche, humor e erotismo, características de apelo popular que logo dariam lugar à pornochanchada. No começo, os filmes do chamado “cinema marginal” tiveram grande sucesso. Para atrair o público, a divulgação se pautava em anúncios apelativos como em “As libertinas”, divulgado como “Um filme SEXO de João Callegaro”. Esse tipo de estratégia, a forma de interação com o público, era um deslocamento dos protocolos da ética do Cinema Novo, que passam a ser vistos como “marginal”. O principal objetivo era criar uma comunicação direta com o grande público, que, diferente do culto cinema inteligível, era um cinema autoral, popular e comercial. Outros filmes usaram essa mesma estratégia no início dos anos 70, como é o caso de “O pornógrafo” (1970), intitulado por seu diretor João Callegaro por “Manifesto do cinema cafajeste”.

Mulheres na Boca do Lixo. Fonte: Ozualdo Candeias.


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Segundo Carlos Reichenbach: Esta é a proposta. E tem muito a ver com o momento que o país estava vivendo naquele momento. Tem tudo a ver com o Tropicalismo e o teatro do Zé Celso. A música, o teatro, os filmes vinham de uma censura, uma repressão muito grande, e neste momento trocam, a meu ver, a subversão da música de protesto, do Cinema Novo, do Teatro Opinião, pela transgressão. Assumir a proposição do Helio Oiticica: seja bandido, seja herói. Assumir a Boca do Lixo, normalmente. No Tropicalismo, assumir o cafonismo, a barbárie... Quem assume a Boca foi a minha geração. Era um lugar neutro e libertário (ABREU, 2002, p. 41).

Carlos Reichenbach é um dos nomes mais conhecidos da Boca do Lixo. Cursou a Escola Superior de Cinema São Luís (1966-1967) e é um dos poucos que permaneceu mantendo relações com a rua do Triunfo. Os filmes desse período, caracterizados pela ironia e o deboche embasados por atitudes da contracultura, acabaram germinando em diversos terrenos como no Rio de Janeiro, Minas Gerais e na Bahia. Em São Paulo, após uma pequena produção, essa vertente acaba por se desfazer e seus produtores tomando caminhos diferentes. Com o advento do filme em cores, o público já não se interessa mais pelo filme em preto e branco do cinema marginal. Desde meados dos anos 60, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, a devido as transformações nas formas de comportamento social relacionados principalmente a sexualidade, o cinema com apelo erótico estava em alta. No

Em cima, cópias de filmes sendo transportados na região da Boca do Lixo. Fonte: Ozualdo Candeias. Embaixo, David Cardoso entrega prêmio “Estrela da Boca” para Claudete Joubert na rua do Triunfo. Fonte: Ozualdo Candeias.

Brasil não seria diferente e o erotismo foi bastante explorado na época. Os filmes criados pela fórmula “produção de baixo custo + erotismo + título apelativo”, começaram a tomar forma e gerar lucratividade. O cinema marginal paulista passa então a dar lugar ao cinema erótico popular brasileiro. A partir disso, os “marginais” e os produtores emergentes, passam a realizar filmes comerciais com maior oferta de conteúdo erótico e uma cultura cinematográfica de filmes B, a fim de atender a demanda criada pela reserva de mercado para produção de filmes nacionais, que era garantida pela lei. Com o fim do regime militar no Brasil, em 1985, e a consequente extinção da censura aos filmes pornográficos, deu-se a decadência do cinema e da região, que teve seu fim decretado em 1990 com o fim da Embrafilme. O público não mais tinha interesse pelos filmes que não continham cenas de sexo explícito e dessa forma, as distribuidoras deixaram de exibi-los. Assim, a Boca do Lixo foi esquecida em meio aos pontos de drogas e o comércio de eletrônicos da Rua Santa Ifigênia.


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82 Em cima, rua do Triunfo nos dias de hoje. Nota-se a sujeira, as más condições das construções e o abandono. Fonte: Matheus Souza. Embaixo, casa que abrigava o antigo Bar Soberano, rua do Triunfo nos dias atuais. Fonte: Matheus Souza.

Bar Soberano. Fonte: Ozualdo Candeias.


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4. Cracolândia e o crime organizado

Junto à decadência do cinema no Brasil, a Boca do Lixo foi esquecida. Desde os anos 1990, a região passa a ser conhecida como Cracolândia, reduto de usuários de drogas, tráfico e prostituição. O consumo de drogas, e, como consequência o tráfico, já se fazia presente na nascente zona da Boca do Lixo desde meados dos anos 1950. A atividade ilícita teve início com o uso e o comércio de maconha que se seguiu com a cocaína e, a partir da década de 1960, a anfetamina (JOANIDES, 1977, apud OLIVEIRA, 2019, p. 36). Com a inauguração em 1961, do terminal rodoviário da Luz, aumentou a diversidade da população do bairro, que, atraídos pelo fácil acesso à infraestrutura básica, se juntou à população que lá vivia, em sua maioria, a população “residual” de baixa e média renda dos períodos anteriores. Em 1982, com o deslocamento do terminal rodoviário para a marginal do Rio Tietê, a região passa novamente por depreciação. Os hotéis, que até então acolhiam turistas e pessoas de passagem pela região, tornam-se ociosos e, para sobreviverem, passaram a acolher a população com menor poder aquisitivo, ligadas, muitas vezes, a atividades

informais. O crack então ganha espaço e se instala na Boca do Lixo a partir de 1990, passando a região a ser chamada de Cracolândia. No comumente chamado “fluxo” da localidade, encontramos usuários de droga chamados de “noias”, ou “zumbis”, a maioria no intento de consumir crack, alimentados pelo tráfico local que é dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Além disso, encontra-se também equipamentos de apoio na área da saúde e assistência, como profissionais municipais e estaduais, associados às igrejas católica, batista e neopentecostais, militantes, pesquisadores, policiais civis e militares. Para garantir a segurança do local, acontecem “tumultos”, muitas vezes violentos por parte da polícia, que acabam por quebrar a “ordem” de funcionamento da área, espalhando os usuários pelas ruas da região. Também se faz presente, por algumas horas em dias de concerto, a aristocracia da cidade que frequenta a Sala São Paulo, que parece guardar a promessa da futura gentrificação. A região ainda conta com comércios e serviços, como pequenos hotéis e pensões, herança das dinâmicas anteriores de outras épocas de passagem da região central (OLIVEIRA, 2019).


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Hoje, a Cracolândia conta com aproximadamente 15 quarteirões, um perímetro relativamente grande e flexível. Dentro desse perímetro, a maior concentração de pessoas fazendo uso do crack a céu aberto fica na esquina formada pela Alameda Dino Bueno e Rua Helvética. De acordo com censos da População de Moradores de Rua da Cidade de São Paulo, feitos pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE, 2017), essa população tem predominância do sexo masculino, negros, com idade média de 40 anos, sozinho e com problemas de saúde. A mesma pesquisa revela que a região central de São Paulo detém a maior concentração de pessoas em situação de rua.

No centro de São Paulo, é significativo o número de equipamentos de rede de serviços de Saúde e Assistência Social. São eles: Unidades Básicas de Saúde na Sé, República, Boracea e Bom Retiro, que contam com equipes específicas para população em situação de rua, a Estratégia Saúde da Família; Centro de Saúde Escola da Barra Funda; Centros de Atenção Psicossocial, a CPAS, categorias infanto-juvenil, adulto, álcool e drogas; Centro de Referência de Tabaco e outras Drogas, CRATOD; Assistência Médica Ambulatorial, AMA Sé, Boracea e Santa Cecília; Unidade de Medicinas Tradicionais, UMT; Centro de Referência à Saúde do Trabalhador, CRST; Serviço de Atendimento Especializado, SAE, para atendimento de DST/Aids;


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Hospital da Santa Casa de Misericórdia e recentemente o Complexo Prates, CAPS álcool e drogas junto de uma UBS e um Centro de Acolhida para adultos e outro para jovens. No âmbito da Assistência Social: Centro de Referência de Assistência Social, CRAS, na Sé; Centro de Referência Especializado de Assistência Social, CREAS, na Sé, Barra Funda e Bela Vista, sendo os dois últimos especializados em população de rua; Central de Atendimento Permanente e de Emergência, CAPE; Serviço de Assistência Social à Família e Proteção Social Básica no Domicílio, SASF, na Cracolândia; Centro de Atendimento ao Trabalhador, na Luz, junto ao SASF; Centros de Acolhida I – 16 horas de permanência, na Barra

Feira aberta e as barras de tráfico. Fonte: Joel Silva/Folhapress.


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Funda I, Lygia Jardim, Espaço Luz e Nova Vida; Centro de Acolhida II, em Pedroso, Portal do Futuro, Oficina Boracea, Santa Cecília e Barra Funda II; Centro de Acolhida Especial, Dom Bosco, Lar Transitório Batuíra, Oficina Boracea; Espaços de Convivência (conhecidos como Tendas, Jardim da Vida I e II, Santa Cecília, Bela Vista, Barra Funda, Espaço de Convivência Prates; Restaurantes Populares (Bom Prato, Sé e Luz; Núcleos de Inserção Produtiva, como o Reciclázaro, Coorpel e outras cooperativas de catadores de lixo reciclável. (ARRUDA, 2014). Em 2017, de acordo com dados da prefeitura, foram abordadas cerca de 105,3 mil pessoas nas calçadas da cidade, 66% maior do que a quantidade de pessoas abordadas na mesma situação no ano anterior, em 2016, quando foram contabilizados 63,2 mil indivíduos e, 88% acima dos dados de 2015, 56,1 mil indivíduos. Esse número refere-se não somente a pessoas que vivem de fato nas ruas, mas também moradores da periferia que passam dias e noites vivendo nas calçadas do centro de São Paulo, pessoas de passagem pela cidade, entre outros casos (ZYLBERKAN, 2019). Em 2015, o censo de moradores que vivem de fato em situação de rua feito pela prefeitura contabilizou 15 mil moradores de rua. Segundo Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual de População em Situação de Rua, há atualmente cerca 32.600 moradores de rua. A motivação principal desse quadro mudou com a crise econômica, que já dura cinco anos. Em 2018, o desemprego passou a ser a motivação mais comum dada pelas pessoas abordadas nas ruas,

substituindo os conflitos familiares que até então eram a principal explicação. A taxa de desemprego na cidade de São Paulo aumentou 8,1% entre os anos de 2016 e 2017, seguida de uma queda de 8,7% entre 2017 e 2018, segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada pela Fundação Seade e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Hoje, a taxa já é de 15,4%. A questão emocional ocasionada da perda do emprego e/ou a falta de condição para pagar aluguel são fatores determinantes para que pessoas, e as vezes famílias inteiras, acabem parando nas ruas. Outro fator que leva ao crescimento do número é o aumento de imigrantes e migrantes, que chegam a São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em 2010, os tipos de substâncias consumidas pela população em situação de rua na região central da cidade por um estudo da FIPE eram (ARRUDA, 2014): 65% de bebidas alcóolica, 27,3% de crack, 21% de maconha e 11,8% de cocaína. Com a crescente política de repressão às drogas, o crack tornou-se o novo inimigo a ser combatido e suas vítimas perseguidas (OLIVEIRA, 2019). As práticas que reinventam o modelo higienista como solução – como testemunhadas ali na década de 1950 e 60 – ao ferramentar a polícia com instrumentos de controle e punição e colocarem a questão da cena de uso de crack paulistana como problema de segurança, faz ascender os apelos populares às demandas por soluções expressas e o discurso político mais


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Barracas e pertences dos usuários sendo destruídos por tratores da ação policial. Fonte: Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo.


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consonante a esses apelos, como salvadores da boa ordem. Assim, servem como cortina de fumaça às reais intenções que vão aparecendo lateralmente no cerne da problemática, como processo de gentrificação predisposto à área, que se configura em ações realizadas por agentes privados que buscam conseguir a “retomada” da região, na substituição da classe pobre que se fixara, pela classe média e alta, por meio da valorização do espaço, recurso este escamoteado via prerrogativa de “regeneração urbana”. (OLIVEIRA, 2019). Dessa forma, ao longo das últimas décadas, a região da Boca do Lixo vem sofrendo ações por aqueles que detêm do poder que recaem sobre as vidas indignas que lá habitam. A Cracolândia é alvo de diversas medidas da prefeitura que usa da força policial para dispersar, na intenção de extinguir. Em uma manhã de janeiro de 2012, a prefeitura na gestão do prefeito Geraldo Alckmin deu início à ação policial violenta na região, descrita pelo coordenador estadual de políticas públicas de combate ao álcool e drogas, Luiz Alberto Chaves de Oliveira (Dr. Laco), em uma matéria do dia 05 de janeiro de 2012 do jornal O Estado de São Paulo, da seguinte maneira: A estratégia está dividida em três etapas. A primeira consiste na ocupação policial, cujo objetivo é “quebrar a estrutura lógica” de traficantes que atuam na área. Além de barrar a chegada da droga, policiais foram orientados a não tolerar mais consumo público de droga. Usuários serão abordados e, se quiserem, encaminhados à rede municipal de saúde e assistência

social. Em uma segunda etapa, a ação ostensiva da PM, na visão da Prefeitura e Estado, vai incentivar consumidores da droga a procurar ajuda. Na terceira fase, a meta será manter os bons resultados. “A falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda” (O ESTADO DE S. PAULO, 2012)

Em meados de 2014, a Cracolândia atraiu o PCC, que via na região um mercado em potencial, com baixíssimos riscos, uma vez que a multidão de viciados inibia a entrada da polícia. A região era propícia para a venda tranquila de drogas. O Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do país, que controla os presídios paulistas, detém o poder da venda de crack na região. Semelhante ao de concessão de franquias, o PCC vende um ponto de tráfico em torno de R$70 mil a R$80 mil exigindo que o “franqueado” venda exclusivamente crack da facção. Os criminosos comercializam a droga em barracas, em uma mesa em que ficam três traficantes, pequenos pedaços de crack, enquanto as porções maiores ficam escondidas nos prédios próximos.

Usuários na Cracolândia em junho de 2014, antes da Copa do Mundo. Fonte: Reuters.


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Fonte: Marcelo Camargo/ AgĂŞncia Brasil.


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Os usuários de drogas são usados como escudo para possíveis ações da polícia. O Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), a organização vendia diariamente cerca de 20 quilos de crack, equivalente a R$ 14,4 milhões ao mês. Um cinturão armado de homens, munidos de pelo menos dez armas, entre elas três submetralhadoras, pistolas e revólveres cercavam o quadrilátero, fazendo a segurança do esquema do PCC. Criado em janeiro de 2014, na gestão do então prefeito Fernando Haddad (PT), de 2013 a 2017, o Programa Braços Abertos foi uma tentativa de resolver os problemas da Cracolândia pacificamente, estruturado em frentes de trabalho de zeladoria com remuneração de R$15 reais por dia, atividades de capacitação, três refeições por dia e vaga em hotéis na região. O programa visava o resgate social dos usuários, por meio do trabalho remunerado, alimentação e moradia digna de forma pacífica, tratando o usuário como cidadão e não como bandido. Segundo Alexandre Padilha, médico, secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma, em uma matéria para a Revista Fórum, de 08 de agosto de 2017, dos 500 usuários beneficiados que estavam ativos até 2016 no programa, 85% reduziram o consumo de drogas, 84% estavam fazendo algum tratamento de saúde, 65% tinham aderido à frente de trabalho e 54% tinham retomado o contato familiar. No governo do prefeito João Dória (PSDB), de 2017 a 2018, foi criado o

programa Redenção, pautado em uma série de operações policias violentas que terminaram por dispersar os usuários de crack. O programa tinha intenção de internar à força os usuários de drogas, o que foi negado pelo Tribunal de Justiça. Em nova tentativa para “acabar” com a Cracolândia, em maio de 2017, sob comando de João Dória, 900 agentes das polícias Civil e Militar invadiram de forma truculenta a região, com mandados de busca e apreensão, interditando pensões e hotéis do programa Braços Abertos, que seriam derrubados e demolidos, prendendo 38 pessoas. A ação policial tinha como objetivo a identificação dos pontos de venda de drogas, apreensão de entorpecentes, localização e prisão de traficantes. Além da Polícia Civil e da Polícia Militar, agentes da tropa de Choque da PM e dos grupos de operações especiais da Polícia Civil, como o Goe e o Garra, também participaram da ação. Em meio ao tumulto, pessoas invadiram lojas, padarias e pequenos comércios, realizando saques. No principal quadrilátero da Cracolândia, policiais fizeram varreduras expulsando os usuários, que tentavam se esconder em buracos e sacos de lixo. Barracas e pertences dos usuários foram destruídos por tratores. Atualmente, na gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), foi lançado em maio deste ano, a segunda fase do Programa Redenção, que prevê 300 bolsas de R$ 698 para usuários de drogas já em fase final de tratamento, que serão capacitados profissionalmente e devem cumprir uma carga horária de quatro horas diárias, contando 20 horas semanais. Nessa segunda fase, criou-


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se o Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (SIAT), que oferece ação em três etapas: abordagem, acolhida temporária e profissionalização. As bolsas oferecidas e a abordagem de Redução de Danos, são medidas implantadas por Haddad no Programa Braços Abertos, criticadas por João Dória, que continuaram na nova fase do programa Redenção. O programa tem como objetivo internações voluntárias que não forcem a abstinência imediata. Segundo Covas: Se trata de um problema crônico de saúde pública, que não se resolve da noite para o dia. É necessária uma política de médio e longo prazo para que a cidade possa enfrentar esse tema (PINHONI, 2019).

Em cima, ação da polícia militar no governo Dória, em 2017. Fonte: Werther Santana/Estadão Conteúdo. Em baixo, policiais confrontando usuários. Fonte: Paulo Whitakers/ Reuters.


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5. Referências Projetuais: como transformar a área com inclusão

Superkilen BIG e Topotek 1 Copenhagen, Dinamarca

Future Towers MVRDV Pune, Índia

O projeto, localizado na cidade de Copenhagen, possui quase um quilômetro de extensão, atravessando um dos bairro mais etnicamente diversos, que se tornou um desafio social para a Dinamarca. O espaço urbano apresenta uma forte identidade em escala local e global, concebido como uma imensa exibição das melhores práticas urbanas, com uma coleção de objetos cotidianos globalizantes de mais de 60 países do habitantes que ali vivem. O projeto aberto ao público em junho de 2012, foi selecionado pelo Instituto dos Arquitetos Americanos (AIA) como um dos vencedores do prêmio 2013 Institute Honor Awards maior reconhecimento da profissão de obras que exemplificam a excelência na arquitetura, interiores e desenho urbano (JORDANA, 2013).

O projeto oferece 1.068 apartamentos para uma seção diversificada da população em rápida expansão, em meio a cidade de Pune, a 8ª maior cidade da Índia, abrigando cerca de 5.000 em um único edifício. Oferecendo apartamentos a um preço baixo, em vez de um conjunto de prédios independentes, o escritório MVRDV optou por uma estrutura montanhosa singular com picos e vales, sob a qual os apartamentos são unidos. O edifício, então, seria mais vibrante com a mistura de unidades diferentes, unindo toda a classe média da Índia, profissionais jovens e temporários novos na cidade, residentes mais velhos e estabelecidos, famílias grandes e pequenas. A diversidade é possibilitada pela forma montanhosa do edifício e suas plantas que variam de 45 a 450 metros quadrados. As varandas visíveis nas fachadas principais indicam a diversidade das casas existentes ali, que variam de tamanho. Elas perfuram a fachada para se conectar com o corredor central, proporcionando a convivência e a ventilação cruzada em


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todas as áreas comuns (GONZÁLEZ, M. F., 2018).

Conjunto Habitacional do Jardim Edite MMBB Arquitetos e H+F Arquitetos São Paulo, Brasil Em um dos pontos mais significativos para o recente crescimento do setor financeiro e de serviços de São Paulo, cruzamento das avenidas Luís Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho, junto à ponte estaiada, o Conjunto Habitacional do Jardim Edite foi projetado para ocupar o lugar da favela de mesmo nome. A fim de integrar o conjunto de habitação social a cidade, três equipamentos públicos ocupam o embasamento articulado a verticalização do programa de moradia: Restaurante Escola, Unidade Básica de Saúde e Creche, utilizados não apenas pela comunidade moradora como para o público das grandes empresas próximas. Para garantir a convivência dos moradores, o pavimento de cobertura desses equipamentos públicos, como um térreo elevado do condomínio residencial, une os edifícios habitacionais que proporcionam 252 apartamentos (VADA, 2019).

Unité d’Habitation Le Corbusier Marseille, França A Unidade de Habitação em Marselha, na França, foi o primeiro projeto em larga escala de Le Corbusier, projetado

em meio ao déficit habitacional do pós Segunda Guerra Mundial. O projeto, concluído em 1952, foi o primeiro de uma série de projetos habitacionais projetados por Le Corbusier, e tinha como foco a vida comunitária, onde se era possível fazer comprar, se divertir, viver e socializar, sendo então, uma “cidade-jardim” verticalizada. O projeto, que abriga cerca de 1.600 habitantes, foi pensado como uma abordagem inovadora para a organização espacial onde a maioria dos aspectos comuns ocorrem na cobertura (KROLL, 2016).

Copan Oscar Niemeyer São Paulo, Brasil O Copan, projetado por Oscar Niemeyer, é um dos edifícios mais importantes e emblemáticos de São Paulo, tendo sido inaugurado em 1966. Um volume marrom, no térreo, onde se encontra uma galeria, se conecta à rua por meio de cinco acessos, praticamente as únicas aberturas desenhadas nesse embasamento maciço. As seis portarias dos blocos de apartamento, são independentes entre si, sendo no total, 1.160 unidades habitacionais. A galeria do térreo acompanha a inclinação do chão da cidade, que adentra o projeto como uma rua interna. O projeto é símbolo da arquitetura moderna do país e abriga cerca de 5.000 residentes de diferentes classes sociais (OKUAWA, 2017).


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SEHAB Heliópolis Biselli Katchborian Arquitetos São Paulo, Brasil No projeto SEHAB Heliópolis, a quadra urbana foi ocupada dispondo os edifícios no alinhamento do lote junto à rua, de maneira a criar um pátio interno de acesso público voltado ao lazer dos moradores do conjunto. Em meio a maior favela da cidade e fazendo uso da topografia, o acesso se faz em diferentes níveis, totalizando até oito pavimentos sem uso de elevadores. As passarelas em estrutura metálica conectam os blocos nesses mesmos níveis de acesso. O projeto realizado dentro do Programa de Reurbanização de Favelas da Prefeitura do Município de São Paulo, através da Secretaria de Habitação proporciona 420 unidades habitacionais em dois tipos de plantas. A distribuição das unidades e o uso das cores são indispensáveis na leitura do conjunto como diferentes torres mas que pertencem ao todo.

Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho) Affonso Eduardo Reidy Rio de Janeiro, Brasil Projetado em 1947 pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy, tinha como principal objetivo criar moradia para os funcionários públicos do até então Distrito Federal no Rio de Janeiro. Nesse projeto, podemos notar a estética e os princípios defendidos por Le Corbusier, as preocupações funcionais estreitamente

ligadas as soluções formais, tais como o controle da luz e da ventilação e a facilidade de circulação. A retomada de arcos e abóbadas, as linhas curvas e os desenhos ondulantes são soluções semelhantes a de Oscar Niemeyer. Com 328 unidades habitacionais, a peçachave do projeto é o grande edifício de planta serpenteada que acompanha as condições naturais do terreno, trazendo em sua concepção a naturalidade e a consistência da Arquitetura Moderna brasileira, que, aliada aos princípios urbanísticos dos CIAM’s, revela de forma acabada a relação entre habitação social, modernização, educação popular e transformação da sociedade (SÁ, 2011).

Sesc 24 de Maio Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos São Paulo, Brasil O projeto do SESC 24 de Maio que ocupa o edifício sede da antiga Mesbla, localizado no centro de São Paulo, é um exemplo de transformação e adaptação do patrimônio urbano construído, que agora recebe o programa do SESC, um complexos de instalações de recreação e serviço. Partes do conjunto existentes foram demolidas seguindo a preocupação de não prejudicar a estrutura básica original, incluindo-se o antigo saguão coberto, criando um vazio no interior do edifício existente. Nele, uma nova estrutura independente foi apoiada em quatro pilares principais, sustentando os grandes salões intercalados e o volume do solário com piscina na cobertura. Além disso, diferentes associações de dois níveis foram adotadas, com caráter


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de grande salão, parte com pé direito duplo, galerias superiores e debruçadas, para os diferentes usos do programas, visando quebrar a monotonia da simples sobreposição de andares tipo (VADA, 2018).

Praça das Artes Brasil Arquitetura São Paulo, Brasil O projeto parte da restauração do Antigo Conservatório Dramático Musical de São Paulo, que se encontrava incrustado em uma região degradada do centro da cidade, sendo um importante marco histórico e arquitetônico. O Conservatório abriga uma rara sala de recitais, há décadas desativada. Por meio de um complexo de novas construções e espaços de circulação e estar, o projeto abriga as Escolas e os Corpos Artísticos do Teatro Municipal, sendo eles a sedes das Orquestras Sinfônicas Municipal e Experimental de Repertório, dos Corais Lírico e Paulistano, do Balé da Cidade e do Quarteto de Cordas. Abriga também as Escolas Municipais de Música e de Dança, o Museu do Teatro, o Centro de Documentação Artística, e outros equipamentos como restaurantes, estacionamento subterrâneo e áreas de convivência. Além de atender a histórica carência de espaços para o funcionamento do Teatro, desempenha um importante papel na requalificação da área central de São Paulo, uma vez que possibilita um espaço de funções e caráter público, de convivência e vida urbana.


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Projetos Urbanos no centro de São Paulo Breve exposição sobre os projetos urbanos criados nos últimos tempos que englobam a área projetual, sendo eles o Campos Elíseos Vivo, Nova Luz, PIU Rio Branco, Operação Urbana Centro.

Campos Elíseos Vivo O projeto, elaborado pelo Fórum Mundaréu da Luz e lançado em abril de 2018, propõe a viabilização de 3.500 unidades de habitação ou comerciais utilizando apenas imóveis vazios ou subutilizados sem precisar demolir prédios históricos ou remover a população local como alternativa ao projeto do governo do Estado de São Paulo de empreendimento habitacional e de um hospital, viabilizados por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) (CAMPOS ELÍSEOS VIVO, 2017).

a potencialização das atividades comerciais da área; a atração de novas atividades econômicas, de tecnologia e serviços; a incorporação e potencialização de atividades ligadas a cultura e entretenimento; a ampliação do uso residencial; novos espaços e equipamentos públicos de qualidade; a qualificação ambiental e urbanística da área. Sobre a questão do patrimônio histórico, todos os imóveis protegidos localizados no perímetro do Projeto Nova Luz, bem como os indicados para recuperação, poderiam ser restaurados pelos proprietários fazendo uso de incentivos como a transferência de potencial construtivo, até o décimo ano da Concessão. Caso os proprietários não implementassem a restauração, a partir do décimo ano, o Concessionário assumiria esta obrigação e, neste caso, procederia com a aquisição do imóvel.

O projeto de renovação urbana consistia, basicamente, na revitalização da área onde se concentra a Cracolândia, entre as avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e a Rua Mauá. Anunciado pela prefeitura de São Paulo em 2005, pelo então prefeito José Serra (PSDB), seria feito por meio de uma concessão urbanística e acabou sendo arquivado em 2013 pelo exprefeito Fernando Haddad (PT).

No ano de 2011, segundo dados do Projeto Nova Luz, a população residencial era de 11.679 de habitantes e a área construída era de 533.735 m²; a população não residencial era de 23.37 com uma área construída de 682.321 m²; as áreas construídas, habitacionais e não habitacionais contabilizavam um total de 1.216.056 m². A proposta visava uma população residencial de 23.657 habitantes em uma área construída de 879.745 m². A população não residencial somaria 42.758 habitantes em uma área construída de 1.131.277m². A área construída total, somando residencial e não residencial resultaria em 2.011.022 m².

A prefeitura tinha como principais estratégias de desenvolvimento,

O projeto é muito criticado pela organização Mundaréu da Luz que alega

Nova Luz


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que as determinações para intervenções em áreas de ZEIS não vem sendo cumpridas pelo poder público e nem consideradas pelo poder judiciário, que permitiu intervenções ilegais no bairro.

utilizados, encortiçados ou deteriorados em regiões dotadas de serviços, equipamentos e infraestruturas, como é o caso das quadras previstas no projeto Nova Luz.

As Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) são áreas determinadas do território urbano, de caráter popular, protegidas pelo PDE (Plano Diretor Estratégico) de São Paulo (lei no 16.050/2014) e previstas no Estatuto da Cidade, lei federal que rege a política urbana no país (no 10.257/2001), destinadas, predominantemente, à moradia digna para população de baixa renda.

Uma série de regras, conforme o artigo 52, devem ser seguidas pelas ZEIS 3, como: análise sobre o contexto da área; cadastramento dos moradores; diretrizes, índices e parâmetros urbanísticos para o parcelamento, uso e ocupação do solo e instalação de infraestrutura urbana, áreas verdes, equipamentos e outros usos; critérios, procedimentos, condições e limites para o remembramento e parcelamento dos lotes; dimensionamento físico e financeiro das intervenções propostas; formas de participação dos beneficiários; estimativas de custos e fontes de recursos; plano de ação social e pós-ocupação; soluções para a regularização fundiária; soluções e instrumentos para viabilizar a geração de emprego e renda (PROJETO NOVA LUZ, 2011).

Conforme consta na lei, essa moradia de qualidade deve ser executada juntamente com melhorias urbanísticas, recuperação ambiental e regularização de assentamentos precários e irregulares, bem como a provisão de novas habitações, juntamente com equipamentos sociais, infraestrutura, áreas verdes, comércios e serviços sociais. Uma vez definidas como ZEIS, as áreas devem possuir um Conselho Gestor que reúne moradores, comerciantes, movimentos de moradia, ONGs, universidades e representantes do poder público que delibere sobre qualquer proposta desenvolvida para a área, segundo o art. 48. A atuação do Conselho Gestor, segundo a lei, deve preceder a elaboração do plano de urbanização, participando de sua formulação, aprovação e implementação dos Planos de Urbanização ou projetos de intervenção. As ZEIS 3 são áreas com ocorrência de imóveis ociosos, subutilizados, não

PIU Rio Branco Objetiva repovoar e requalificar o Centro por meio do adensamento habitacional através da melhoria da mobilidade urbana e transformações dos imóveis não edificados ou subutilizados. A partir de intervenções pontuais ao longo dos eixos de transporte e junto a áreas cujos imóveis não cumprem a função social, a Prefeitura de São Paulo desenvolveu estudos técnicos para viabilizar a transformação da área. Visando esse repovoamento, propõe-se então esse Projeto de Intervenção Urbana (PIU) junto ao Corredor Rio Branco,


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previsto também na Operação Urbana Centro e no Plano Diretor Estratégico. (PIU RIO BRANCO, 2016).

Operação Urbana Centro A operação tem o objetivo de atrair melhorias e a revalorização da área central, atraindo investimentos imobiliários, turísticos e culturais, combatendo o processo de deterioração da área. A operação, que abrange o chamado Centro Velho e Centro Novo, bem como parte de bairros históricos como Glicério, Brás, Bixiga, Vila Buarque e Santa Ifigênia estabeleceu incentivos a construção de novas edificações, regularização de novas edificações, regularização de imóveis, reconstrução e reforma das existentes para sua adequação a novos usos e condições especiais para a transferência de potencial construtivo de imóveis de interesse histórico (OPERAÇÃO URBANA CENTRO, 2018).


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6. A proposta

O projeto, elaborado na atividade II do Trabalho Final de Graduação (TFG) consiste em um programa habitacional de HIS, HMP e habitação temporária; programa cultural com área expositiva, duas salas de cinema e oficinas de audiovisual; comercial, com lojas, coworking, restaurante e café. O programa cultural tem como principal objetivo, por meio das salas de cinema, retomar a memória do cinema da Boca do Lixo em uma área que carece de salas de cinema. Pensou-se, também, em uma grande praça aberta que liga os espaços internos e as ruas do entorno – Rua do Triunfo, Rua General Osório, Rua dos Andradas e Rua dos Gusmões – por onde funciona o programa comercial que acaba atraindo os transeuntes para dentro da quadra. O principal objetivo do “vazio” interno da quadra é criar fluidez, passagem e permanência, área de convivência. Nos edifícios habitacionais – HIS, HMP e habitação temporária – essa convivência é feita por meio das varandas, os vazios nas fachadas, que também permitem a entrada de ventilação e iluminação natural para os corredores dos apartamentos. Na cobertura, temos novamente a ideia de convivência, com

a área de lazer residencial que permite que todos possam usufruir das vistas estratégicas para a cidade de São Paulo, como a vista da Estação Júlio Prestes. O projeto, que nasceu da ideia de algo urbano, fazendo uso dos lotes ociosos e subutilizados, é um exemplo de uma quadra viva, livre de muros, convidativa e fluida, cuja habitação é feita para diversas faixas de renda garantidas pela ZEIS 3, do Plano Diretor Estratégico de São Paulo e o Estatuto da Cidade.


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Corte Perspectivado


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Corte Perspectivado


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Corte A Escala 1:250

Corte B Escala 1:250


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Corte C Escala 1:250

Corte D Escala 1:250


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Corte B Escala 1:250

IsomĂŠtrica habitacional


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Elevação rua do Triunfo Escala 1:250

Elevação rua dos Andradas Escala 1:250


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Elevação rua dos Gusmões Escala 1:250

Elevação rua General Osório Escala 1:250


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Praรงa interna vista da Rua dos Andradas

Praรงa interna


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Fachada Rua do Triunfo


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Escada de acesso ao cultural


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Pátio interno da habitação

Estação Júlio Prestes vista da área de lazer habitacional


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Sala de exposição

Foyer do cinema


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Café


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5. Considerações finais

Levando em consideração todo o processo e o material estudado sua formação, as análises da área, suas potencialidades e deficiências, o quadro social existente, a retomada da memória, e as necessidades da cidade contemporânea - chego a conclusão de que se faz necessário, mais do que novas propostas, a execução de propostas existentes, colocando bons projetos e medidas em prática, tendo como ponto principal aqueles que lá habitam e de que lá tiram seu sustento para sobreviver. Não devemos tolerar medidas de iniciativas privadas na criação de loteamentos e empreendimentos imobiliários, mas parcerias público privadas que construam urbanidade.


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Reabilitação e a preservação da memória da Boca do Lixo no Bairro de Santa Ifigênia  

Trabalho Final de Graduação (TFG) FAU Mackenzie 2019

Reabilitação e a preservação da memória da Boca do Lixo no Bairro de Santa Ifigênia  

Trabalho Final de Graduação (TFG) FAU Mackenzie 2019

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