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SUBSÍDIOS DE FORMAÇÃO DOMINICANA * Carisma e Espiritualidade OP *

Elementos para um retrato teológico do leigo dominicano

frei Bernard Olivier OP


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APRESENTAÇÃO O ramo leigo da Família Dominicana (Fraternidades Leigas e outros grupos e movimentos leigos ligados à Ordem) é com certeza o que mais foi marcado pelos efeitos benéficos, e ao mesmo tempo ‘revolucionários’, do ‘aggiornamento’ teológico e pastoral promovido pelo Vaticano II. A nova autocompreensão da Igreja, como ‘Povo de Deus’ e, neste contexto, a nova leitura teológica da ‘cidadania eclesial’ e da missão própria dos batizados leigos determinaram, também, a exigência de uma revisão crítica da proposta tradicional de vida e de missão para os leigos dominicanos. Depois do Concílio explicitou-se, dentro da Família Dominicana, e sobretudo entre os leigos da ‘Ordem Terceira’, uma inquietação crítica sobre a visão tradicional da estrutura da Ordem, articulada em: primeira, segunda e terceira Ordem de São Domingos. Questionava-se também o fato de os frades se autodefinir como ‘Ordem dos Frades Pregadores’, quase que negando a pertença à Ordem dos outros ramos, sobretudos dos leigos. Além do mais, depois do Concílio, aconteceu por toda parte na Ordem um grande florescimento de novos tipos de movimentos e grupos de leigos, com formas diferentes de ligação à Ordem. Este fenômeno, em si muito positivo, sinal certo da atualidade do carisma de São Domingos, determinava porém, sem o querer, uma

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certa relativização do modelo tradicional da Ordem Terceira. Sentiu-se, então, a necessidade de ‘parar para pensar’, para atualizar, à luz do magistério teológico e pastoral do Concílio, a forma mais tradicional da vida e da pertença dos leigos dominicanos dentro da Ordem. Pelo que o Concílio afirmou sobre os batizados leigos, não era mais possível continuar a propor o projeto de vida dos leigos dominicanos como ‘papel carbono’, como imitação “na medida do possível”, das formas e dos valores de vida que são próprios dos religiosos e religiosas dominicanos. Sempre no espírito do Concílio, explicitou-se a consciência de que os leigos dominicanos, pela sua vocação de ‘leigos pregadores’, têm seus ‘púlpitos’ próprios, que são diferentes dos púlpitos dos outros ramos da Ordem. Como a missão apostólica dos batizados leigos não consiste simplesmente em ser ‘instrumentos dóceis’ da missão pastoral dos bispos e dos padres, assim também a tarefa apostólica do leigo dominicano ‘pregador’ é de subir no púlpito que lhe pertence por vocação, e dar o testemunho e o anúncio que lhe é próprio. Os Mestres da Ordem, a partir de frei Aniceto Fernandes até hoje, souberam colher com lucidez este ‘clamor dos leigos ‘ e deram todo apóio na articulação de iniciativas de encontro, de reflexão, em vista de uma oportuna atualização. Este inevitável processo de ‘aggiornamento’ interessou de maneira especial a antiga Ordem Terceira

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de São Domingos. De fato, para os novos grupos, que surgiram à sombra do Vaticano II, a exigência de ‘aggiornamento’ foi menos urgente, porque a grande maioria deles se constituiu conforme o espírito da nova eclesiologia dos leigos, definida pelo próprio Concílio. A história recente da Ordem Terceira é marcada por um processo significativo de renovação, de ‘arrumação da casa’, com reuniões e congressos, revisão da antiga Regra, mudanças estruturais e também do vocabulário na indicação de cargos e tarefas, etc. Na nova Regra das Fraternidades (Montreal: 1985 e Pilar: 2007), sem negar a unidade e comunhão fundamental com o Mestre da Ordem e com os demais ramos da Família Dominicana, foram estabelecidas formas de maior autonomia para os leigos, quanto à sua organização interna e ao seu relacionamento com os frades. Não por acaso, uma das primeiras medidas foi a mudança do nome: não mais Ordem Terceira de São Domingos, mas ‘Fraternidades Leigas de São Domingos’. A ‘casa em três andares’ foi demolida, para restaurar o círculo da igualdade entre os vários ramos: a igualdade de irmãos. Frei Berdard Olivier foi Promotor geral das Fraternidades Leigas dominicanas nos anos ’70 e ‘80 e, como tal, contribuiu bastante para este processo de ‘aggiornamento’ da antiga Ordem Terceira. Em particular ele foi o grande articulador do Congresso de Montreal (Canadá - 1987) no qual foi elaborada a nova Regra das Fraternidades.

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O texto deste Caderno representa um fruto importante desta caminhada de reflexão e de renovação: é uma tentativa de redefinir a vocação própria dos leigos dominicanos, à luz da nova eclesiologia do Vaticano II. É também uma proposta para dar fundamento teológico e espiritual às medidas de renovação das Fraternidades Leigas que foram realizadas depois do Concílio. Apresentamos esse texto precioso como instrumento de referência para a constante renovação e o crescimento das Fraternidades Leigas Dominicanas no Brasil. frei Mariano Foralosso OP1

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Promotor do Laicado Dominicano no Brasil.

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I - MEMBRO DO POVO DE DEUS

Quando se tenta, em geral, uma teologia do laicato, a reflexão é centrada sobre a participação segundo os três aspectos da função de Cristo: sacerdotal, profética e régia. A nossa intenção aqui é ampliar um pouco esta perspectiva, sem contudo adulterá-la, porque ela nos parece essencial. (cf. Lumen Gentium, cap. 2 e 4). O leigo é o membro do 'laós': do 'povo', segundo a mais simples etimologia. É a sua própria natureza. Que tipo de povo? 1. Um povo em marcha através da história: É por aí que se precisa abordar o exame das características deste povo de Deus. O Deus dos cristãos, (mesmo) transcendente, não é um Deus que se confina na sua inacessibilidade. Ao contrário, é um Deus que entra na história dos homens. Um Deus que quer realizar seu desígnio de salvação reunindo um povo. E, se a vocação do cristão é marcada por uma relação 'transcendente' a Deus, ela está marcada também por uma dimensão histórica, ou melhor, 'horizontal': aquela de um povo em marcha para o término, através das vicissitudes da história humana. Todo leigo cristão deve ser bem consciente deste aspecto de sua vocação. O leigo dominicano o deve ser duplamente. A Ordem consagrada à verdade não deve jamais cessar de procurar mais verdade, descobri-la em qualquer lugar em que se encontre. Assim sendo, ele por

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sua própria natureza se encontra aberto à novidade, às mudanças necessárias. Por esse motivo o Leigo dominicano tem o sentido do caminhar do povo de Deus, de seu progresso, da sua procura; procura de formas novas e mais adaptadas à vida da Igreja (os ministérios novos, por exemplo), descoberta dos valores do mundo, e de sua evolução, invenção de novos modos de se chegar aos ambientes humanos para lhes anunciar o Evangelho em todas as suas dimensões. E, antes de tudo, descoberta das próprias exigências evangélicas, para uma sociedade mais humana, mais justa e mais autêntica. 2. Um povo católico, isto é: universal A verdadeira catolicidade e universalidade da Igreja implica um senso profundo de uma legítima diversidade, em seu seio, dos povos e das culturas. É necessária uma comunhão estreita no essencial: "uma só fé, um só batismo, um só Senhor...", mas respeitando as diferenças que podem ser muito grandes, que são sempre enriquecedoras. Ora, o leigo dominicano pertence a uma Ordem que é por natureza universal, mundial, profundamente marcada, neste sentido, por suas instituições, por suas constituições. Por outro lado, catolicidade quer dizer também: senso ecumênico. É reconhecida a vontade expressa do Vaticano II de reconhecer e enumerar todos os elementos da Igreja de Cristo (elementos de santidade e de verdade) que se encontram entre os cristãos não católicos (Lumen

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Gentium, n. 15). Sempre me impressionou, ouvindo homens como o Pe. Congar ou o Pe. Dumont, que foram dos que mais trabalharam para a unidade, insistir fortemente sobre esta idéia: o sentido do ecumenismo é parte integrante da vocação dominicana, do carisma da Ordem. Encontramos aqui ainda, com esta vontade incansável de uma Igreja una, a preocupação em se procurar em todo lugar mais verdade. 3. Um povo missionário A 'missão' não é um cargo acrescentado a outros encargos de Igreja, não é uma função 'livre' ou facultativa. Ela faz parte da própria essência da Igreja, tal como o Cristo a quis. A Igreja de Cristo é missão. Portanto é o povo de Deus inteiro que deve ser missionário. Sem dúvida ele tem, neste campo, especialistas, profissionais por assim dizer. Mas todos os cristãos estão engajados solidariamente no trabalho missionário. Para um Leigo Dominicano pode-se dizer que este engajamento é ainda mais premente. Não se quer mais falar de 'território de missão', de 'postos missionários', que correm o risco de apresentar um sentido limitado ou mesmo deformado. Quer se falar da missão da Ordem, em todo o mundo; não somente em espaços mais recentemente abertos à evangelização, mas também nos países de velha cristandade. Depois do congresso de 1982 sobre a pregação do Evangelho no Terceiro Mundo, foi celebrado um congresso da Família Dominicana sobre a missão na Europa.

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E, como a própria Igreja, é a Família Dominicana toda inteira que deve ser missionária: nos seus diferentes ramos, inclusive o Laicato. É este o princípio fundamental da complementaridade, que deve atuar plenamente: cada um traz a sua parte e a sua especificidade à missão comum. 4. Um povo sacerdotal Entramos aqui no problema do sacerdócio dos fiéis, de que só podemos salientar alguns aspectos. O texto da Lumen Gentium coloca em evidência dois pontos: a) O poder de participar nos mistérios litúrgicos e nos sacramentos, em razão do caráter batismal que é o fundamento do sacerdócio dos fiéis. A Regra de nossas Fraternidades sempre insistiu, com razão, não somente sobre a prática do sacramento da Eucaristia, mas ainda sobre a liturgia: nós temos que celebrar a Palavra de Deus, que nós acolhemos na fé, que nós queremos praticar, que nós queremos anunciar. É esta uma maneira autêntica de exercer esse sacerdócio. b) Sobretudo a oferta de si próprio, como hóstia espiritual. E esta idéia está desenvolvida mais ainda no capítulo Vº da Lumen Gentium: a vocação de todos à santidade. Aqui, neste capítulo consagrado aos leigos, encontra-se posta em relevo a santificação do estado de vida dos leigos. Não é inútil citar a passagem do número 35: "Um estado de vida que é santificado por um sacramento especial: a vida conjugal e familiar. Aí se encontra a prática do apostolado dos leigos e sua

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eminente escola, quando a religião cristã invade toda a maneira de viver e a transforma sempre mais, de dia para dia. Os esposos têm nele a sua própria vocação de ser um para o outro e, para os filhos, testemunhas da fé e do amor de Cristo. A família cristã proclama em alta voz as virtudes presentes no Reino de Deus e a esperança da vida bem-aventurada..." Este segundo ponto me parece oferecer aos Leigos dominicanos uma vasta matéria para sua reflexão. Será que em nossas Fraternidades não se deveria procurar mais a vivencia do ideal dominicano enquanto casais? Existem Fraternidades de casais, mas elas são apenas exceção; além disto, nem todos estão convencidos do valor desta fórmula. Vale a pena refletir nisso seriamente. Seria preciso também estudar a idéia do 'culto espiritual' que se presta a Deus pelo trabalho, pela profissão, no lazer. Esta espiritualização, este 'suplemento de alma', esta transformação em homenagem a Deus, dos diversos aspectos da existência quotidiana, são um ato do sacerdócio universal. Parece-me que não se refletiu ainda bastante neste ponto: aí se encontra um trabalho interessante para o Laicato dominicano. 5) Um povo profético O povo de Deus participa da função profética de Cristo. E isso se traduz especialmente em duas maneiras: a) O 'sensus fidei' , ou a ‘luz da fé’, é um dote concedido por Deus a seu povo. O povo de Deus inteiro é conduzido pelo Espírito Santo. No seu conjunto possui a infalibilidade da fé. Este privilégio não é reservado ao

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Papa quando fala ex cátedra; é para a Igreja toda e poderia mesmo se dizer que a infalibilidade do Papa e do magistério 'in docendo' (na definição da doutrina) está ao serviço da infalibilidade na fé de toda a comunidade e que ela existe 'ministerialmente' só para garantir esta, 'in credendo' (em função da fé). Há pois uma procura incessante na fé que deve ser prosseguida. E para um Leigo dominicano, o estudo e a meditação da palavra de Deus deve ser um pouco como o pão de cada dia. b) Os carismas ou dons do Espírito Santo. Ultimamente fala-se muito de 'carismas', sobretudo nos movimentos carismáticos. É preciso lembrar que na época do Concílio a importância reconhecida aos carismas surgiu na Igreja como uma novidade. Conhece-se sem dúvida a bela comparação utilizada pelo Pe. Congar para apresentar os dois tipos de estruturas que sustentam a vida da Igreja: "Conforme o fio e conforme a trama". Existe uma estrutura vertical: a dos ministérios, dos poderes hierárquicos, que é como a ossatura da Igreja. Mas, um esqueleto não é corpo. Existe uma estrutura horizontal, a dos carismas. Assim o sacerdócio ministerial faz parte da estrutura carismática. A vida da Igreja é alimentada pelos ministérios, mas também pelos carismas. Estes carismas podem ser dados a todos: o Espírito Santo age onde e como quer. Seria fácil mostrar, pelos exemplos tirados da história contemporânea que, frequentemente, são simples cristãos da base, animados por estes dons do Espírito, que suscitaram na Igreja os mais fecundos movimentos de renovação. Não é somente a hierarquia que cria.

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Os leigos dominicanos recebem os dons do espírito como todo mundo. Mais particularmente, contudo, eles participam do carisma próprio da Ordem, e é preciso que exerçam essa participação com coragem. Isto deve se verificar nos vários aspectos da vida do Leigo dominicano, mas de maneira especial no da espiritualidade. Cada Ordem tem a sua 'marca de fábrica', seus caracteres e marcas hereditárias, que nem por isso são sempre fáceis de serem definidos exatamente. Há um espírito de família, uma mentalidade, uma sensibilidade espiritual que não se deixa reduzir a formulas. Eu diria que um Leigo dominicano deve ter uma espiritualidade baseada numa teologia sólida, e não feita de pequenas devoções ou de simples práticas de piedade; uma teologia alimentada na doutrina de Santo Tomás que continua nosso mestre. E, se quisermos precisar um pouco mais, eu diria que esta deve ser essencialmente uma espiritualidade da graça. Nossa vida espiritual deve estar baseada só numa dupla convicção. A da gratuidade da graça (é quase um pleonasmo): ela é um puro dom de Deus e que, consequentemente, ultrapassa todos os nossos méritos e nossos 'direitos'; podemos, pois, pedi-la e esperá-la além do que poderíamos pretender. Por outro lado, a eficácia da graça: por nós mesmos não podemos nada, mas Deus pode tudo em nós. Daí esta nota tão característica da espiritualidade dominicana: ampla, livre e alegre. É Catarina de Sena que a descreve: "Toda ampla, toda alegre, toda perfumada, um jardim de delícias". (Diálogo, c. 158)

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I I - UMA VOCAÇÃO CRISTÃ TOTAL

1. A vocação dos batizados A vocação cristã fundamental é a dos batizados. O Evangelho, todo o evangelho, foi anunciado a todos e é para todos. É somente a partir desta vocação fundamental, e dentro dela, que podem aparecer especializações, como as funções ministeriais ou os estados de vida consagrada. Um religioso é antes de tudo um batizado e tem exatamente a mesma vocação cristã fundamental que os cristãos mais simples. Se os religiosos, como os frades e as irmãs dominicanas, são chamados por uma vocação especial, a dar testemunho do radicalismo do Evangelho, os leigos cristãos, os Leigos dominicanos são também chamados a dar testemunho deste mesmo evangelho, e de certa maneira, segundo um leque mais amplo de modos de vida e de engajamentos. Eles também, são chamados à santidade e o seu caminho é provavelmente mais difícil que o dos religiosos, os quais de certa maneira seguem atalhos... Os Leigos dominicanos podem assim alargar e ampliar o leque das possibilidades de realização do carisma dominicano. 2. Esta vocação cristã total se realiza no mundo. Esta é a nota característica dos leigos: sua relação com o mundo e mesmo, segundo Schillebeeckx, com a secularidade. Isto simplifica a sua tarefa.

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Lumen Gentium, já o vimos, faz referência ao estado do casamento. Mas é de maneira geral, sem exceções, que os leigos devem viver como filhos de Deus, como povo de Deus, como membros de Cristo no meio do mundo. Eles são os únicos, entre as diversas categorias de cristãos, a estarem, assim, inseridos nas realidades terrestres (família, profissão, cidades, política, etc.). É ali que eles devem realizar a missão cristã e não, por exemplo, vivendo como pseudo-religiosos. A eles pertence, diz o Concílio, "...sob a direção do espírito evangélico, contribuir como de dentro, à maneira de um fermento, na santificação do mundo... A eles pertence particularmente, iluminar e ordenar todas estas realidades temporais com as quais eles estão tão estreitamente ligados, para que elas realizem e cresçam sem cessar segundo o Cristo..." (LG n. 31) III- O APOSTOLADO DOS LEIGOS DOMINICANOS

Numa Ordem como a dos Pregadores, o apostolado é a própria finalidade, a razão de ser. É por isso bastante absurdo pensar num Laicato dominicano que não fosse profundamente apostólico. Sem isto não haveria uma real participação no carisma Dominicano. E notemos que o apostolado deve ser entendido, aqui, no sentido pleno, espiritual, e não apenas como uma espécie de suplência a fim de aliviar o clero de tarefas materiais. Sem dúvida, esta suplência pode ser necessária e extremamente preciosa e nesse sentido já é participação

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no apostolado, mas ela não pode se reduzir a isso. Limitemo-nos aqui em assinalar sucintamente três formas principais. 1) O testemunho espontâneo Pode-se discutir longamente para saber se o testemunho pode ser chamado apostolado. O que é certo é que na missão da Igreja, da qual participam os leigos, o testemunho de vida é de primordial importância. De um lado ele garante a credibilidade daqueles que anunciam uma palavra. Pregar "pela palavra e pelo exemplo" diz nossa Constituição Fundamental. Uma palavra que não se apóia no exemplo da vida, que não é levada por uma verdadeira 'testemunha', corre o risco de permanecer vã. Pascal dizia: "Acredito de bom grado nas testemunhas que enfrentam a morte". Por outro lado, não se pode dar a fé e nem comunicá-la diretamente. Pode-se proclamá-la, pregá-la e confessá-la. E pode-se testemunhá-la: é isso que interpela, que obriga a colocar os questionamentos que estimulam a se abrir à Palavra que salva. O Leigo dominicano deverá portanto tornar-se pregador, talvez silencioso, pelo testemunho espontâneo de uma vida marcada pelo Evangelho, e especialmente por uma vida no espírito das bem-aventuranças e dos conselhos evangélicos. Por exemplo: o que significa o conselho evangélico de pobreza para pessoas que vivem no mundo atual? O que é que isso implica como estilo de vida pessoal e familiar, como solidariedade com os pobres, como opção política? E será que existe uma

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maneira dominicana de conceber esta pobreza? Pessoalmente eu o creio: a maneira franciscana e a maneira dominicana são um pouco diferentes, mas seria longo demais mostrar agora. Aqui está um excelente tema de reflexão para nossas Fraternidades. 2) Apostolado organizado É o que muitos documentos oficiais apresentam nestes termos: "cooperação mais estreita com a hierarquia". Para nós é uma participação mais direta na missão específica da Ordem: a pregação do Evangelho. Neste ponto deveria atuar plenamente o princípio da complementaridade dos diversos ramos da Família Dominicana. Cada um deles tem a sua contribuição específica, seus próprios meios de penetração e seus próprios meios de ação. É preciso saber trabalhar com os outros e não pensarmos que nós, Dominicanos, somos os únicos a ter idéias. Muitas vezes os outros têm mais do que nós e podem nos ensinar muito. Mas é normal que se goste de trabalhar em família. E, neste ponto, parece-me que o Laicato dominicano deveria entrar na linha apostólica proposta pelos últimos capítulos gerais sob a forma das 'quatro prioridades' apostólicas da Ordem. Será que se fala disto nas Fraternidades? Será que se sabe o que são estas 'prioridades apostólicas' da Ordem? 3. Ação temporal Ela é, segundo o Concílio Vaticano II, o domínio próprio dos leigos, o campo de sua vocação específica, e

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onde eles exercem verdadeiramente a sua participação na função 'régia' de Cristo. É todo o imenso campo da política, da ação social, da ação caritativa. É o campo das atividades científicas, técnicas, artísticas. É o campo da vida quotidiana na realidade do mundo de hoje. Aí, os leigos são reis! Conhecem tudo isso melhor do que os clérigos, por se tratar de domínio de sua competência. Note-se, contudo, que este campo de ação não é atribuído aos leigos porque ele seria alheio ao mistério da salvação e não teria afinal grande incidência sobre a vida eterna e o Reino de Deus. É nele, pelo contrário, que se realiza a salvação. Os leigos enquanto tais, são chamados a procurar o Reino de Deus ordenando as coisas da sociedade segundo Deus (ver LG n. 31). Por isso, eles devem ser capazes de descobrir e reconhecer os verdadeiros valores humanos através de todas as fábulas e aparências, e orientar as realidades de nossa sociedade, segundo o plano de Deus. E, se possível, no espírito dominicano. Alguém que se limita a agüentar e seguir em frente não é dominicano. Um dominicano procura sempre mais a verdade, e quer ir mais adiante. O dominicano é alguém que diz sempre: "POR QUE?".

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Teologia dos leigos dominicanos