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21/11/2011

Universidade de São Paulo Faculdade de Arquitetura e Urbanismo / Curso de Design

trabalho de conclusão de curso Gabriela Esteves Ribeiro 5717590 Orientador Prof. Dr. Vicente Gil FIlho

estudo das edições do livro “ou isto ou aquilo” de cecília meireles. proposição de ilustração e projeto gráfico para uma nova edição.


sumário

agradecimentos 4 introdução 5 materiais e método 6 1 o livro infantil

8

2 design para o livro infantil

2.1 o usuário

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11

2.1.1 o usuário e “ou isto ou aquilo”

2.1.2 definição do usuário 2.2 tipografia

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2.3 layout e grid

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2.4 produção gráfica

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3 análise das edições do livro “ou isto ou aquilo”

3.1 infográfico: projeto gráfico

3.1 infográfico: produção gráfica 4

requisitos de projeto

5 o projeto

34

34

5.1.2 processo de ilustração

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5.1.1 primeiros estudos e escolhas

conclusão bibliografia

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45 46

32

34

5.1 memorial do processo

5.2 projeto final

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agradecimentos pelos livros Biblioteca Monteiro Lobato Gilvaldo Amaral Santos pela paciência Professor Vicente Gil Mãe e Pai pelo desespero da última hora Evelin, Lia, Gabriel e Luca

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introdução Este trabalho de conclusão de curso pretende estudar as edições do livro “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles e propor uma nova edição a partir do projeto gráfico e ilustração. O estudo começa sua abordagem pela caracterização mais geral do objeto de estudo: o livro infantil. Isso se torna importante na medida em que pesamos a enorme quantidade de projetos com objetivos e características diferentes que recebem o mesmo nome genérico de livro infantil. Entender as diversas manifestações de livros para crianças é de suma importância para que possamos delimitar qual é exatamente o tipo de livro a ser abordado neste estudo. Em seguida parte para conceitos mais específicos referentes ao design e a produção dos livros infantis ilustrados, tais como: definição do usuário, considerações a respeito de layout e partes componentes de um livro infantil, características e possíveis restrições de tipografia; e, por fim, aspectos de produção gráfica. Com os conceitos mencionados acima apreendidos, se propõe a fazer um estudo comparativo das seis edições do livro “Ou isto ou aquilo” do ponto de vista do projeto gráfico e ilustração, e da influência destes na percepção do texto. Por fim, a partir do embasamento teórico deve partir para o desenvolvimento prático da nova edição do livro. A escolha deste tema se deu por algumas razões que considero cabíveis nesta introdução. Em um primeiro momento me deparei com a aptidão pessoal para trabalhar em um projeto que envolvia não somente habilidades de design mas também da área de ilustração. Posteriormente, com um julgamento mais incisivo a respeito desta escolha, considerei as possibilidades que poderia encontrar ao fazer um projeto com características tão peculiares quanto um livro infantil, no qual a relação entre projeto gráfico, ilustração e suporte influencia diretamente na leitura da história, exercendo um papel tão importante quanto o próprio texto. 5


Realizar o projeto completo de um livro infantil me permitiu enxergar a importância de que todas as etapas deste processo sejam feitas de maneira integrada, seja quando projetado por somente uma pessoa ou por uma equipe, com profissionais de competências variadas. Enfim há ainda a escolha específica pelo livro de Cecília Meireles. Em primeiro lugar julguei que seria interessante projetar um livro que já tinha tido outras seis edições e, a partir disto, entender como as escolhas de design e ilustração de cada edição se relacionam com resultado final e uso de cada livro. Por último, o “Ou isto ou aquilo” foi o meu livro preferido quando era pequena, além de ter sido um dos primeiros que tenho lembrança de ter lido.

materiais e método A pesquisa proposta por este projeto se deu por três principais eixos: A) levantamento e registro das seis edições (1964, 69, 77, 87, 90 e 2002) do livro de estudo; B) pesquisa bibliográfica acerca dos tópicos estudados, tanto para os itens referentes a caracterização, design e produção de livros infantis; quanto na etapa da análise das edições, por meio de possíveis estudos acadêmicos que já tenham sido feitos sobre este mesmo tema; C) levantamento de livros infantis ilustrados que possam compor um conjunto de referências para a etapa prática do projeto. Para o levantamento das edições a primeira opção cogitada foi procurar pelos livros em livrarias e sebos, o que facilitaria o processo de registro para consulta e posterior uso neste volume. Não foi possível, no entanto, encontrar todas as edições disponíveis para compra, dado que as primeiras são bem antigas e acabaram por se tornar itens raros. A primeira edição consta do ano de 1964 e é difícil encontrá-la até mesmo em bibliotecas especializadas, não somente pela data de edição, mas por fazer parte do conjunto seleto e único produzido pela editora Giroflé. Esta edição pode ser encontrada somente para 6


consulta na Biblioteca Monteiro Lobato da cidade de São Paulo, especializada em literatura infantil e juvenil. A segunda edição, que data de 1969 pela editora Melhoramentos, foi encontrada disponível para compra em alguns sebos virtuais. A edição de 1977 e 87, que também podem ser encontradas na mesma seção de consulta da Biblioteca Monteiro Lobato, se caracterizam como “edições de luxo”, com formatos grandes e produção mais cara. A edição de 87 é a que originalmente eu lia quando criança e que me levou a escolher o livro como tema do trabalho de conclusão de curso. O meu livro no entanto é uma versão mais acessível da edição de luxo, adaptada para ser distribuída em bibliotecas públicas, encadernada como brochura e impressa em papel sem revestimento. As edições de 90 e 2002 foram encontradas com mais facilidade em sebos e livrarias. A etapa da pesquisa bibliográfica se deu com a consulta de livros que abordam conceitos básicos de design tanto para livros gerais como os específicos para livros infantis, já que estes últimos não são tão comuns. Foram pesquisados também livros que abordam a questão da delimitação e caracterização do livro infantil e a relação entre texto e ilustração. O conjunto de livros de referência para a etapa prática do projeto é inserido neste volume conforme o texto avança, na forma de exemplos para os temas abordados. Optei por este meio de organização por considerar mais eficaz utilizar estes livros para ajudar a entender os conceitos elaborados, ao invés de agrupá-los em um capítulo separado. A etapa de desenvolvimento da nova edição do livro deverá ser discutida no item 5 (o projeto) deste volume.

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1. o livro infantil O termo “livro infantil” pode abranger diferentes tipos de livros voltados para o público infantil. Para que se possa avançar com o desenvolvimento deste estudo devemos entender como o livro “Ou isto ou aquilo” se posiciona diante deste universo. O escritor Ricardo Azevedo (1999) elabora uma divisão dos livros infantis nas seguintes categorias: livros didáticos; livros paradidáticos; livros-jogo; livros-imagem e livros de literatura infantil. Essa divisão, no entanto, não deve ser encarada como restritiva e em alguns casos os limites entre categorias não são nítidos. Os livros didáticos são voltados exclusivamente para o ensino, e seu conteúdo é referente as matérias ensinadas na escola, têm por objetivo transmitir informações e dados de forma impessoal e neutra. Os livros paradidáticos tratam de assuntos complementares aos ensinados no currículo oficial escolar, sua função também é didática, mas podem utilizar a ficção e a linguagem poética para transmitir determinados conhecimentos. Os livros-jogo se caracterizam como brinquedos que utilizam o suporte livro, e os livrosimagem em livros que se utilizam somente de imagens para contar uma história. Os livros de literatura infantil não possuem objetivo didático e lidam sempre com textos de ficção, tem motivação estética e não são utilitários. Compreendem o discurso poético, isto é, trabalham com a linguagem, são subjetivos e podem ser ambíguos. (AZEVEDO, 1999) A pesquisadora francesa Sophie Van der Linden (2011) elabora uma classificação um pouco diferente que cria as categorias conforme a relação da quantidade de texto pela quantidade de imagem. O ponto central seriam os livros ilustrados, que possuem a quantidade de imagem preponderante a de textos, além de apresentar uma relação entre texto e imagem que resulte na narrativa da história, a imagem possui importância semelhante ao texto, ou maior. Para a autora, livros-imagem se encaixam também nesta categoria, a imagem cria a narrativa apesar de não haver texto. 8


Van der Linden (2011, p. 24 e 25) ainda elenca as outras categorias de sua classificação: livros com ilustração (nos quais o texto sustenta a narrativa e é preponderante a imagem, as ilustrações acompanham a história), primeiras leituras (meio termo entre o romance e o livro ilustrado, para leitores em processo, o texto ainda é preponderante mas possui mais imagens do que um romance), histórias em quadrinhos, livros pop-up, livros-brinquedo (objetos híbridos que apresentam tanto características de livros quanto de brinquedos), livros interativos (livros que servem como suporte para determinada atividade, livro de pintar por exemplo) e livros imaginativos (livro que “apresentam organização material e funcional específica indissociáveis […] visam à aquisição da linguagem por meio de imagens referenciais” [LINDEN, 2011, p. 25])

onda Suzy Lee Cosac Naify 2008

A partir das considerações dos dois autores mencionados acima poderíamos adotar tanto a categoria de livro de literatura infantil de Azevedo, quanto a de livro ilustrado de Sophie Van der Linden. Cada categoria privilegia determinados aspectos do livro, deste modo não vejo sentido em escolher por uma delas, mas sim em entender que o livro “Ou isto ou aquilo” se caracteriza como um livro de literatura ilustrado, sem fins didáticos, e suas edições apresentam ilustração, design e texto relacionando-se pela construção da narrativa.

lombada como parte

O livro-imagem

“Onda” se utiliza somente de

ilustrações para

contar a história

da aproximação de

uma menina com o

mar. O livro se utiliza também da própria significativa para

o desenvolvimento desta narrativa.

(Há uma confusão de nomes adotados pela diversas fontes bibliográficas utilizadas, mas de maneira geral todas se utilizam do termo “livro infantil” para se referenciar a objetos próximos aos delimitados no parágrafo acima. Desta maneira, o “livro infantil” quando mencionado neste estudo se refere ao livro de literatura ilustrado)

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Os livros infantis ilustrados apresentam uma série de características únicas, dentre elas a relação que nasce da junção de linguagens diferentes em um mesmo suporte. A relação entre a ilustração e o texto é um tema recorrente em livros e artigos sobre literatura infantil. Luís Camargo fala sobre o livro infantil como “suporte para um texto híbrido, composto pelo texto verbal e pelo texto visual”, estes dois textos operam um diálogo no livro, colaboram e discordam entre si no decorrer da história. O escritor chama a ilustração de texto visual por considerar que esta também deve ser lida e decifrada (CAMARGO, 2006). Lúcia Pimentel Góes se refere a função do ilustrador e sua responsabilidade no livro infantil quando acrescenta significados ao texto verbal, criando assim um “terceiro produto que não é apenas um texto ou somente ilustrações, mas sim, um livro para crianças” (GOÉS, 2003, p. 46) o anjo da guarda do vovô Jutta Bauer Cosac Naify 2003 O livro “O anjo da

guarda do vovô” é um bom exemplo

sobre como o texto e a ilustração se

fundem para criar a

história. Neste caso o

papel da ilustração na narrativa é mostrado

de forma explícita: só percebemos a

participação do anjo da guarda com a

ilustração, ele não é

mencionado no texto

nenhuma vez, a não

ser no título.

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Guto Lins se refere ao design, além do texto e ilustração, e caracteriza o livro infantil como “(...) um projeto de design peculiar. Um produto onde convivem interpretação de texto, projeto gráfico, as mais variadas técnicas de ilustração e todos os recursos gráficos disponíveis” (LINS, 2004, p. 12). O design se caracteriza como elemento que determina em quais circunstâncias ocorrerá o diálogo entre texto e ilustração, se constituindo como uma ponte entre as duas linguagens; mas também pode participar ativamente na construção narrativa, atuando de maneira semelhante à ilustração, como no caso da poesia concreta, na qual a construção gráfica


dos textos remete a significados e imagens dos poemas. Fica clara a importância da relação entre design, ilustração e texto para a construção do livro infantil, e a influência que tais linguagens operam entre si. Assim, em última análise poderíamos afirmar que cada edição (desconsiderando, aqui, reimpressões) de um livro infantil carrega uma essência única, e que o mesmo texto pode ser lido de inúmeras maneiras, de acordo com o projeto gráfico e ilustrações criados para cada tiragem. Tomando de partida que é da simbiose entre as três linguagens que emerge a relação do leitor com o livro podemos então concluir que é preferível que todas estas áreas estejam integradas no projeto do livro infantil, seja quando o livro é feito por uma pessoa só ou por uma equipe.

2. design para o livro infantil 2.1. o usuário A definição do usuário é um passo importante para o desenvolvimento de projetos de design, é a partir deste recorte que se define o que deve ser pesquisado, e o que é pertinente ou não ao projeto. No caso específico do livro infantil, o procedimento de definição do usuário e divisão das crianças e jovens em categorias de leitura se mostra bastante complicado, sendo esta uma questão constantemente discutida por teóricos, escritores e ilustradores. Um método bastante utilizado (e questionado) para a definição do leitor infantil e juvenil consiste na simples divisão por faixas etárias. As críticas feitas a este sistema consistem no fato de que as faixas etárias não definem necessariamente o nível de leitura e escolaridade das crianças, do mesmo modo que não contemplam diferenças culturais, sociais e subjetivas do desenvolvimento individual de cada leitor. O que o tornaria somente um procedimento “oficial”, burocrático, possível gerador de equívocos. (AZEVEDO, 2001) O que acontece com alguma freqüência é o método de divisão de leitores por faixas etárias consistir em um ponto de partida para outros 11


sistemas de divisão, que contenham mais elementos para a definição destas categorias. Ou ainda, que a divisão proposta por faixa etárias funcione de modo a ser mais aproximativo e menos incisivo. A maioria das editoras brasileiras trabalha seguindo algum tipo de divisão de leitores, muitas vezes essa divisão é aplicada por meio de coleções. Na Editora Ática, por exemplo, a coleção “Gato e Rato” é indicada para crianças que estão aprendendo a ler (de 4 a 6 anos) e a coleção “Barquinho de Papel” para leitores iniciantes. A Ática apresenta até 4 parâmetros de divisão em seu catálogo virtual: assunto, nível, série e tema (este parâmetro não é colocado para todos os livros). No entanto, o mecanismo de busca do catálogo também apresenta o parâmetro de idade, que quando escolhido desativa a opção de se procurar por nível, tornando os dois campos equivalentes.

a galinha choca Gato e Rato Assunto: Para aprender a ler Nível: Educação Infantil Série: Pré-Escola

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avental que o vento leva Barquinho de Papel Assunto: Família e amigos Nível: Ensino Fundamental Série: 1ª ou 2ª É evidente como as diferenças entre os dois livros relacionam-se com suas classificações etárias distintas. Primeiramente entre os tamanhos da tipografia e a quantidade de texto das duas coleções: a “Gato e Rato” utiliza letras muito grandes e o volume de texto pequeno, enquanto a “Barquinho de Papel” utiliza letras menores (ainda que sejam maiores do que em um livro adulto) e o volume de texto é um pouco maior. Os textos também apresentam temas e estruturas narrativas diferentes entre si, adequando-se às divisões propostas pela editora. De maneira geral as classificações baseadas, em menor ou maior grau, na divisão de leitores por faixas etárias e nível escolar, apresentam a mesma progressão conforme a criança cresce: a relação entre ilustração e texto vai mudando gradativamente e proporcionalmente – nos livros para as crianças mais novas a ilustração é imprescindível para a história; conforme a quantidade de texto vai aumentando, o espaço da ilustração vai diminuindo e sua função como parte essencial para o entendimento da história também, até se tornar somente decorativa. Esta progressão se torna um consenso porque as crianças na fase de pré-alfabetização iniciam a interpretação dos livros através das imagens, adquirindo aos poucos a capacidade de leitura. 13


Deve-se notar ainda que estas divisões parecem ignorar que a complexidade de um livro ilustrado nem sempre vem da quantidade de texto e do nível de leitura exigido do usuário, mas também da capacidade de entender as imagens e as relações das diversas linguagens presentes no livro. O caso de livros-imagem que desenvolvem a narrativa somente com ilustrações servem como exemplo desta questão, este tipo de livro não contém nada de texto verbal e pode apresentar uma dificuldade considerável de entendimento da história. Há ainda a consideração que nem sempre leitores mais velhos procuram por textos com menos ilustrações, e é comum se observar o contrário a isto: muitos adultos lêem livros ilustrados. Por fim deve-se ponderar a utilidade da divisão de livros por categorias que sejam convenientes as editoras, tomando-se o cuidado de que essas mesmas categorias não criem armadilhas que restrinjam o trabalho criativo de escritores e ilustradores, ou que menosprezem a capacidade de entendimento da criança.

2.1.1. o usuário e “ou isto ou aquilo” Nenhuma das edições do “Ou isto ou aquilo” apresenta indicações de leitores específicos. No entanto pode-se tentar chegar a algumas conclusões a partir dos conceitos apresentados anteriormente e também a partir de características próprias a cada uma das edições. Partindo-se do texto como obra isolada, ou seja, se fizermos uma análise desconsiderando todos os outros elementos (projeto gráfico e ilustração) podemos chegar a conclusão de que o livro não se propõe a nenhuma classificação etária restritiva, no entanto, é evidente que foi pensado como um livro para o público infantil. Há ainda que se considerar que o livro é geralmente utilizado em escolas com crianças entre 8 a 9 anos, idade correspondente a dificuldade de leitura exigida pelo texto. Por outro lado, ao pensarmos no livro “Ou isto ou aquilo” em sua totalidade de linguagens, pode-se dizer que sua indicação etária, ou somente sua atitude em relação ao usuário, muda de acordo 14


com a edição. Conforme as edições vão ficando mais recentes, mais evidentes se tornam os aspectos que caracterizam o livro especificamente para o público infantil.

2.1.2. definição do usuário No processo de definição de usuário para este estudo me deparei com a dúvida sobre utilizar ou não uma categoria de leitor para balizar os requisitos de projeto, se por um lado a divisão de leitores por categorias facilita a adequação dos livros aos usuários, por outro, dá margem a uma possível padronização, e infantilização ou didatização excessivas. Para tentar chegar a uma conclusão sobre como proceder frente a esta questão, exponho aqui as reflexões de Lúcia Pimentel Góes a respeito de literatura infantil: “O livro de literatura infantil e juvenil é um livro para todos: se a criança dele se apodera, qualquer adulto sensível e inteligente também o fruirá: em seu ludismo, nonsense, sonoridade, humor, simplicidade, verdade...A recíproca não é verdadeira: o bebê, a criança pequena (exceção feita aos gênios) não fruem a arte de um Humberto Eco ou de um Drummond de Andrade. (...) o que anteriormente foi sugerido explicita nosso conceito de literatura infantil e juvenil. O dirigir-se privilegiadamente (não exclusivamente) ao leitor criança e jovem é sua especificidade, sua característica. Sendo assim, exige de seu produtor os mais verticais, amplos e continuados preparo, reflexão e estudo.” (GOÉS, 2003, p. 40-41)

Podemos dizer que existe um consenso, explicitado por Góes, do que seria literatura infantil de qualidade: os livros devem respeitar acima de tudo seus leitores, o que quer dizer se preocupar tanto com questões de adequação específicas para o leitor infantil mas também não subestimar a inteligência e capacidade de apreensão do novo deste mesmo leitor. Em se tratando do livro “Ou isto ou aquilo” e de seu contexto na história da literatura e poesia infantil brasileira, o levantamento do embate entre a adequação necessária e a infantilização excessiva se torna latente, e pede por uma resposta condizente com a atitude do livro. 15


Desta maneira este projeto pretende se utilizar do que for considerado pertinente, tanto à ideia de respeito à criança quanto à atitude do livro estudado, para selecionar quais diretrizes e consensos feitos a partir da categorização de leitores devem ser seguidos e quais descartados. Respeitando-se todas as considerações feitas anteriormente, e com base na dificuldade de leitura dos textos do livro, a definição do usuário primário para este projeto se constitui como crianças que sabem ler, entre 8 e 9 anos. Nelly Novaes Coelho em “Literatura Infantil: teoria, análise e didática” (2000) define a criança entre 8 e 9 anos como o leitor em processo.

2.2. tipografia Para pensarmos nos aspectos tipográficos para o livro infantil podemos partir de uma relação de diferenças e semelhanças com um livro somente de texto, destinado ao usuário adulto. Os livros infantis diferem de um livro adulto no volume de texto e no tempo menor de leitura, o que quer dizer que para um livro infantil, em um primeiro momento, a legibilidade é mais importante do que a leiturabilidade, o que pode explicar o tamanho maior das fontes em livros para este público. O usuário definido para este projeto se caracteriza como um “leitor em processo”, ele domina o mecanismo de leitura, mas ainda não é um leitor fluente, assim os caracteres devem ser claros e legíveis, mas não precisam ser compostos em tamanhos muito maiores do que o normal. Por outro lado, livros infantis e adultos se assemelham na medida que ambos precisam ter seus textos bem compostos para o melhor aproveitamento do leitor, assim, algumas diretrizes gerais de livros texto podem ser úteis também para livros infantis.

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Sue Walker (WALKER) realiza uma série de estudos e testes referentes a tipografia infantil e leitura, e consegue determinar algumas conclusões: A) não há diferença perceptível na leitura do texto composto com tipografia com serifa e sem serifa, no entanto, para fontes script se percebeu uma dificuldade um pouco maior; B) crianças percebem a diferença entre caracteres infantis (a e g) como o texto que se escreve e o texto que se lê, mas isso não causa diferença na dificuldade de leitura; C) fontes especialmente desenvolvidas para crianças, como a sasson, podem não ser a melhor escolha se a ideia é que o leitor infantil se familiarize com “convenções tipográficas da leitura”; D) os testes que apresentaram maior diferença para a dificuldade de leitura foram os que trataram de questões de espaçamento: configurações de entrelinha e entreletra apertados foram classificados pelos leitores como “difíceis” e “anormais”, enquanto o contrário – entrelinha e entreletra normais e largos – foi percebido como mais fácil;

Caracteres infantis e normais, fontes The Serif e Sasson.

eu sei um montão de coisas Ann e Paul Rand Cosac Naify 2010 Exemplo de livro

E) escolha da tipografia pode influenciar não somente na dificuldade da leitura, mas também na motivação da leitura. Segundo Walker, a motivação pode ser afetada por fontes consideradas pelas próprias crianças como “inapropriadas” ou “diferentes demais”, embora ao mesmo tempo, estas fontes possam causar curiosidade em relação ao livro (entre as fontes testadas no estudo, as crianças consideraram como fontes normais: Gill Sans, Century e Fabula);

com entrelinha e entreletra adequados.

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De maneira geral, Walker conclui que as crianças participantes do estudo foram bastante flexíveis aos textos expostos no teste e que necessitam apenas de textos bem compostos, com entrelinha e entreletra que favoreçam a legibilidade (WALKER). Por último podemos nos utilizar da recomendação de Bringhurst de que a tipografia escolhida, além de ser adequada para a leitura, deve ser condizente com o assunto e espirito do livro (BRINGHURST, 2005). Podemos citar a partir disto livros que se utilizam de letras desenhadas pelos próprios ilustradores, que de certa maneira são extremamente condizentes ao espírito do livro. limeriques do bípede apaixonado Tatiana Belinky Andrés Sandoval (ilustração) Editora 34 2004 zig zag Eva Furnari Global 2006

2.3. layout e grid A estrutura de um livro infantil possui basicamente os mesmos componentes de um livro de texto: capa e contracapa, guarda, página de rosto, dedicatória, miolo, créditos e colofão. Alguns livros podem apresentar também índice, como livros de poesias. (LINS, 2003)

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A capa geralmente é ilustrada e deve conter o título, nome do autor, ilustrador e símbolo da editora. A contracapa pode conter algum texto referenciando o livro ou a edição. A página de rosto apresenta as mesmas informações da capa dispostas de modo diferente, ou somente o título do livro. Alguns livros apresentam duas páginas de rosto, uma somente com o título do livro, e a outra com as informações da capa.

fico à espera Davide Cali Serge Bloch (ilustração) Cosac Naify 2007

viagens para lugares que eu nunca fui Arthur Nestrovski Andrés Sandoval (ilustração) Companhia das Letrinhas 2008 As páginas de rosto podem ser ilustradas cada uma a sua maneira, o que pode acontecer também com todos os componentes do livro infantil que não fizerem parte da história em si (o miolo do livro), isso só vem a somar para a qualidade final do projeto. É comum que além da página de rosto, índice, dedicatória e colofão sejam ilustrados e diagramados de acordo com o resto do livro. 19


A grande maioria de livros infantis não apresenta uma estrutura rígida de grid ou layouts baseados em proporções geométricas e tipográficas, com a exceção da utilização de margens de página para a composição do texto. Geralmente a diagramação destes livros é feita em função das ilustrações. Podemos encontrar padrões de diagramação que variam de acordo com a relação espacial entre o texto e as ilustrações, por vezes os dois se mostram totalmente separados, em outro casos a diagramação é feita de forma a mesclar a ilustração com o texto. Isto depende também do processo de como o livro foi produzido, se os projetos de ilustração e design trabalharam de forma integrada. a rainha das cores Jutta Bauer Cosac Naify 2003

monstruário Katia Canton Guazzelli (ilustração) Girafinha 2007

Outra questão importante é saber dosar a informação no decorrer do livro. Um livro infantil geralmente não possui texto corrido completando as páginas, desta maneira deve-se intercalar o texto e ilustração de modo a criar um ritmo para o livro, se utilizando tanto de páginas mais densas quanto de respiros, e criando assim uma harmonia entre o projeto inteiro, tanto do miolo quanto dos demais componentes. (LINS, 2003) 20


2.4. produção gráfica A área da produção gráfica é responsável por tornar o projeto de ilustração e design possíveis em um suporte. Cabe neste campo a escolha do tipo e formato de papel, método de impressão, acabamentos e técnicas de encadernação. Este item deve, no entanto, se concentrar especificamente em como as escolhas de produção gráfica podem interferir com o desenvolvimento da história dos livros infantis. As definições específicas de conceitos de produção gráfica compõem um conjunto de informações bastante extenso e, portanto, inviável para este estudo. Enfim, toda escolha de produção gráfica vai influenciar de certa forma a percepção da narrativa contada pelo livro, mas podemos elencar algumas escolhas que assumem um papel ativo para o desenvolvimento desta história. Um exemplo clássico se dá por meio do livro “O reizinho das flores”, de Kveta Pakovská, que se utiliza de uma faca para criar uma janela presente em algumas páginas. Deste modo a ilustração dentro da janela (o reizinho) se relaciona com outras de páginas diversas. Este artifício cria a possibilidade de interação direta entre ilustrações de páginas diferentes, bem como a repetição da figura sempre igual do reizinho em meio a diferentes situações, o que soma como aspecto semântico para a interpretação da história. o reizinho das flores Kveta Pakovská Martins Fontes 1991

Há também o exemplo do livro já citado “Viagens para lugares que eu nunca fui”, no qual as bordas das páginas foram arredondas para que o produto final tenha um aspecto semelhante a um caderno de viagens. Não é explicitado em nenhum momento do texto que o livro se trata deste tipo de caderno, mas a referencia clássica dos cortes arredondados nos remete a isso imediatamente. 21


Podemos citar também o livro “Quem Cochicha O Rabo Espicha” ilustrado por Eva Furnari, que possui um encadernação dupla a partir de quatro lombadas, de modo a formar dois livros opostos agrupados. Assim, quando as páginas são abertas os animais vão se formando e misturando, criando novas ilustrações, a partir das duas metades juntas. Por último há o livro-imagem “Onda”, que conforme citado no começo deste estudo se utiliza da lombada como componente ativo na narrativa. quem cochicha o rabo espicha Eva Furnari FTD 1986

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3. análise das edições do livro “ou isto ou aquilo” O livro “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles possui seis edições que constam das datas de 1964, 69, 77, 87, 90 e 2002, todas com ilustrações e projetos gráficos distintos. A análise das edições do livro deve abordar aspectos referentes ao projeto gráfico, ilustração, impressão e acabamento. De modo a igualar as características levantadas de cada edição, foram levantados os seguintes parâmetros para a análise: 1. projeto gráfico formato

diagramação tipografia

fonte título fonte texto

espaçamento 2. produção gráfica

papel capa / impressão capa

papel miolo/ impressão miolo encadernação acabamento 3. ilustração

O texto abaixo apresenta aspectos mais gerais e perceptivos das edições, enquanto os infográficos se focam na apresentação dos dados técnicos. A primeira edição que data de 1964 e foi publicada pela inovadora Giroflé, é lançada em meio a um contexto interessante para o cenário da literatura infantil brasileira. Para Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2007) a literatura infantil propriamente dita nasce como produto da revolução burguesa e industrial e das noções de criança e infância criadas nesta época. Assim, esta literatura é calcada em instituições básicas do estado burguês – família e escola – e possui desde o seu nascimento uma carga didática e moral que persistirá até os dias atuais. 23


No Brasil as relações entre literatura e escola são bastante estreitas, e é justamente a poesia infantil que rompe com esta tradição moral na década de 60. O livro “Ou isto ou aquilo” faz parte deste movimento em conjunto com os livros “A televisão da bicharada” de Sidónio Muralha e “Arca de Noé” de Vinícius de Moraes, este já nos anos 70. Sidónio é o primeiro a quebrar com o “paradigma moral e cívico”, e Cecília e Vinícius consolidam o novo “paradigma estético”, baseado no trabalho com a linguagem e na exploração de recursos sonoros e lúdicos. (Camargo, 2002) ou isto ou aquilo giroflé cecília meireles maria bonomi fernando lemos 1964

A giroflé se constitui como um experimento realizado por Sidónio Muralha e Fernando Lemos, a editora ocupou um papel peculiar na época, tanto pela escolha dos títulos a serem publicados; quanto pela execução dos livros, com projetos gráficos e ilustrações que iam de acordo com a ideia de criação de uma nova literatura infantil, desvinculada de preceitos morais.

Assim a primeira edição do livro é ilustrada por Maria Bonomi e tem o projeto gráfico atribuído a Fernando Lemos. As ilustrações são muito bonitas e se caracterizam como gravuras com cortes secos e abruptos, reproduzidas em cores fortes. O projeto gráfico 24


segue também nesta direção, e apresenta alguns cortes horizontais com mudanças de cores na área dos textos. As ilustrações por vezes não possuem um estilo totalmente coerente entre si. Esta edição apresenta somente 20 poemas, enquanto que nas próximas foram acrescentados mais 36, inéditos. O livro todo se utiliza do mesmo padrão de projeto gráfico, com cada poesia disposta em páginas duplas. Não possui números nas páginas, mas apresenta uma espécie de índice dos poemas, com pequenas gravuras referentes a cada um.

A segunda edição, publicada no ano de 1969 pela Editora Melhoramentos, e ilustrada por Rosa Frisoni, se diferencia em diversos aspectos com relação a de 64. As ilustrações são feitas com uma espécie de carimbo que cria espelhos, com cores suaves e formas arredondadas, lembrando uma aquarela. O projeto gráfico se utiliza de muitos experimentos na composição dos textos, mas mantém um formato e encadernação comuns. A respeito das experimentações com a tipografia cabe ressaltar que o livro parece não seguir nenhum padrão para compor os poemas, cada página possui grid, tamanhos de fonte e alinhamentos distintos, o que causa uma certa confusão. Em alguns poemas as linhas são desfeitas e as palavras são compostas de maneira solta, podendo ainda ocorrer rotações e palavras sobrepostas às ilustrações.

ou isto ou aquilo & inéditos melhoramentos cecília meireles rosa frisoni 1969 25


ou isto ou aquilo civilização brasileira cecília meireles eleonora affonso 1977

A próxima edição a ser lançada é a de 1977, pela Editora Civilização Brasileira, com ilustrações e projeto gráfico de Eleonora Affonso. O livro se caracteriza como uma edição de luxo e possui um formato grande, encadernação em capa dura e costurada, impressão em 4 cores e ilustrações que podem ocupar páginas inteiras. As ilustrações possuem um estilo peculiar e impactante, com aquarelas de cores fortes e muita informação contida em cada imagem. Em comparação com as duas edições anteriores, a ilustração de 77 possui aspectos mais infantis, tanto pelas cores quanto pela representação de pessoas e objetos, que ocorre de maneira mais caricata. O projeto gráfico se utiliza de padrões reconhecíveis, mas não se encaixa muito bem com as ilustrações: enquanto estas caminham para uma estética mais infantil, a diagramação se utiliza de molduras ornamentadas e capitulares.

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As próximas edições que se seguem são todas lançadas pela editora Nova Fronteira. A quarta edição, de 1987, com ilustrações e projeto gráfico de Fernanda Correia Dias, apresenta formatos e acabamentos similares a de 77. As ilustrações continuam a manter uma estética infantil, mas neste caso menos caricata. O projeto gráfico, no entanto, se diferencia completamente para a anterior, a diagramação da quarta edição se utiliza da fonte futura, em cores que se opõem as ilustrações. Os textos são compostos sobre áreas de fundo das ilustrações. As manchas de texto não apresentam um padrão de diagramaçãoo e alinhamento. Esta edição apresenta ainda um recurso de produção gráfica que consiste em intercalar páginas com a metade da largura entre as páginas com tamanho normal. Estas páginas cortadas ao meio podem apresentar tanto ilustrações para a mesma poesia, mas que se encontram em um estágio diferente, ou ilustrações para a poe-

ou isto ou aquilo nova fronteira cecília meireles fernanda c. dias 1987

Guarda da

edição de 87.

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sia da página seguinte e que deste modo acabam por se relacionar com a anterior. Este recurso lembra de alguma maneira uma história em quadrinhos, onde os quadros revelam diferentes momentos da história.

ou isto ou aquilo nova fronteira cecília meireles batriz berman 1990

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A edição de 1990, com ilustrações de Beatriz Berman, se contrapõe as anteriores pelas escolhas mais modestas de produção gráfica. O livro possui formato menor, acabamento em brochura e impressão em 2 cores. As ilustrações são feitas com grafite e se organizam na página como uma moldura para a área de texto, que é composto sobre um quadro branco. O livro utiliza uma fonte sem serifa de tamanho médio e apresenta regras bem claras para a diagramação, que permanecem pelo livro todo.


Por último a edição de 2002 se diferencia sobremaneira de todas as outras anteriores, o livro possui um formato grande e as escolhas de acabamento criam uma semelhança com livros didáticos. As ilustrações são feitas em traço manual e manipuladas digitalmente, com o acréscimo de texturas e outros artifícios típicos do início do uso da computação no design. A gama de efeitos utilizados é bastante grande e isso causa confusão e incoerência, há também uma grande diferença de estilos nos traços das ilustrações. O livro é impresso em duas cores, escala de cinza e um laranja em cor especial, cujo matiz e brilho frio remetem a algo feito digitalmente.

ou isto ou aquilo nova fronteira cecília meireles thaís linhares 2002

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3.1. infogrรกfico projeto grรกfico

30


64 formato a x l cm

31,5 x 12

69 23 x 15,5

diagramação

77 19,8 x 27

(...)

tipografia (o tamanho das fontes é levantado de maneira aproximada e a partir das relações de tipografia entre as edições)

título e texto fonte igual, tamanho médio.

título e texto fonte igual, tamanho variável.

espaçamento entreletra: as vezes é muito separado, entrelinha: adequado.

espaçamento variável, as vezes apertado.

título e texto fonte igual além das capitulares, tamanho pequeno

espaçamento entreletra: apertado, entrelinha: adequado.


.

87

90

02

21,5 x 28,5

23 x 16

27 x 21

título e texto fonte igual, tamanho grande, variável.

título e texto fonte igual, tamanho médio

título e texto fonte igual além das letras iniciais, tamanho grande

espaçamento entreletra e entrelinha adequados.

espaçamento entreletra e entrelinha adequados.

espaçamento entreletra e entrelinha generosos.


3.2. infográfico produção gráfica

32


64 capa

capa dura

69

77

capa dura

capa dura

papel não revestido gramatura alta

papel não reve gramatura alta

cadernos costura

cadernos costura

possivelmente cores especiais miolo

papel cartão gramatura alta

possivelmente cores especiais

encadernação

folhas soltas


estido a

87

90

02

1 capa dura 2 brochura papel cartão

capa flexível papel cartão

brochura papel cartão

1 papel revestido gramatura alta 2 papel não revestido gramatura média

papel não revestido gramatura baixa

1 papel não revestido gramatura alta

cadernos costura

cadernos costura

cadernos costura


4. requisitos de projeto De acordo com a natureza do projeto a ser executado e levandose em conta a importância do processo de criação das ilustrações como parte integrante para o resultado e maturação das soluções que devem ser adotadas para o livro, considero pertinente elaborar, ao invés de requisitos de projeto específicos, algumas diretrizes mais amplas: (1) Esta nova edição deve seguir os conceitos levantados e ponderados na definição do usuário: adequação ao leitor e respeito à criança. (2) As ilustrações, projeto gráfico e suporte devem se relacionar a fim de contribuir para o entendimento e fruição dos poemas. (3) A tipografia deve ser adequada ao livro e ao leitor, nas medidas em que foi explicitado anteriormente.

5. o projeto 5.1. memorial do processo O processo do projeto da nova edição do livro passou por várias etapas de desenvolvimento, as quais podem ser descritas neste memorial com o sentido de demonstrar a importância destes estágios para a escolha e execução das soluções adotadas. Desta maneira podemos elencar as etapas de desenvolvimento na seguinte ordem: 1. elaboração de diversos partidos de ilustração, 2. escolha do partido, 3. desenvolvimento das ilustrações do livro a partir do partido escolhido, 4. primeiros estudos de projeto gráfico, 5. finalização das ilustrações e projeto gráfico de maneira integrada, 6. escolhas de produção gráfica,

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5.1.1. primeiros estudos e escolhas

Linguagens

experimentadas

Partido escolhido:

a junção do desenho de caneta nanquim

com o fundo recortado em papel de seda ou espelho. Este

modelo passou por

alguns ajustes, mas basicamente as

ilustrações finais se

dão por este processo.

35


5.1.2. processo de ilustração

Rascunhos das

ilustrações: a maioria

das ilustraçãoes foram desenvolvidas a partir de desenhos diversos

espalhados pelo papel, muitas vezes estes

rabiscos sugeriram

soluções para partes integrantes das

ilustrações.

36


Rascunhos das ilustrações.

Rascunho da

ilustração com a diagramação da página.

37


5.2. projeto final O livro pronto conta com as seguintes características: capa e contracapa;

guardas das cores da capa; página de rosto ilustrada;

índice com ilustração de ícones das poesias (referência ao livro de 1964);

miolo com as 20 poesias contidas na primeira edição; colofão.

formato

21 x 19,5 cm grid de página dividida em 14 partes

O layout possui um grid de página dividido por 14 partes

proporcionais e margens provenientes desta divisão. Apesar

desta escolha não ser a mais usual para livros ilustrados, julguei interessante compor o texto acompanhando este grid, pois as

poesias formam blocos que se relacionam na página. A ilustração

não segue o grid, e como foi pensada de maneira quase simultânea ao projeto gráfico não encontrou dificuldades nesta formatação.

papel Alta alvura 150 g/m²

impressão digital de 4 unidades pela gráfica Inprima acabamento com costura

capa dura com laminação fosca

38


Cecília Meireles ou isto ou aquilo fau usp

ou isto ou aquilo

Cecília Meireles ilustrações Gabriela Esteves Ribeiro

39


40


41


42


43


44


conclusão Ao me deparar com o término deste estudo penso que tenho algumas considerações a fazer, tanto no que diz respeito aos livros infantis ilustrados, mas também acerca do meu próprio projeto e desenvolvimento. Acredito que a questão referente ao livro infantil ser o resultado da relação entre texto e imagem em um mesmo suporte é extremamente atual, sendo que cada vez mais as editoras e profissionais deste meio levam este conceito em consideração ao produzir livros para crianças, ou livros ilustrados para adultos. Esta relação de linguagens se torna ainda mais clara e evidente após o desenvolvimento do projeto da nova edição do “Ou isto ou aquilo”. Considero importante também retomar a questão do direcionamento do livro para o público infantil e como editoras, autores, ilustradores e designers devem proceder quanto a isto. Ainda penso ser válida a posição que adotei ao desenvolver a pesquisa teórica deste TCC: tentar encontrar o meio termo entre a adequação do livro ao leitor e a não subestimação da inteligência da criança. A respeito do meu projeto, considero o resultado final satisfatório, e, mais ainda do que ao livro pronto, me refiro ao processo que percorri desde o começo da etapa de pesquisa até a conclusão do livro de poesias. É interessante olhar para o começo do desenvolvimento, em meus primeiros estudos, e perceber a evolução do meu próprio trabalho como ilustradora e designer. A passagem pelas diversas etapas do desenvolvimento deste trabalho se fez importante na medida em que esclareceu diversos questionamentos que haviam ficado para trás junto com a fase de pesquisa. Me parece que somente o enfrentamente do projeto em si é capaz de responder a determinadas perguntas.

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bibliografia AZEVEDO, Ricardo. A didatização e a precária divisão de pessoas em faixas etárias: dois fatores no processo de (não) formação de leitores. 2001. Disponível em: <http://www.ricardoazevedo.com. br/Artigo06.htm>. Acessado em: 10/06/2010. __________. Livros para crianças e literatura infantil: convergências e dissonâncias. 1999. Disponível em: <http://www.ricardoazevedo.com.br/Artigo01.htm>. Acessado em: 10/06/2010. BRINGHURST, Robert. Elementos do estilo tipográfico (versão 3.0); título original: Elements of typographic style / tradução: André Stolarski. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2005. CAMARGO, Luís. A poesia infantil de Cecília Meireles. In: MELLO, Ana Maria Lisboa de (Org.). Cecília Meireles & Murilo Mendes: 1901/2001. Porto Alegre: Uniprom, 2002. p. 150-162. __________. Encurtando o caminho entre o texto e a ilustração: homenagem a Angela Lago. Campinas, SP: Sínteses - Revista dos Cursos de Pós-Graduação Vol. 11 p.109-122 2006. COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil – Teoria, análise, didática. São Paulo, SP: Moderna, 2002. GÓES, Lúcia Pimentel. Olhar de descoberta: proposta analítica de livros que concentram várias linguagens. São Paulo, SP: Paulinas, 2003. HASLAM, Andrew. O livro e o designer II - Como criar e produzir livros; título original: Book design / trdução: Juliana A. Saad e Sérgio Rossi Filho. São Paulo, SP: Edições Rosari, 2007. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literetura infantil brasileira. São Paulo, SP: Editora Ática, 2007.

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Monografia TCC  

Monografia da pesquisa para Trabalho de Conclusão de Curso pelo Curso de Design / FAU / USP

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