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ENTRE entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

Francesco Perrotta-Bosch Gabriel Kozlowski Mariana Meneguetti Valmir Azevedo

VIANA & MOSLEY Editora


[ENTRE] entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

Projeto Editorial Marta Mosley Textos, Edição e Projeto Gráfico Francesco Perrotta-Bosch Gabriel Kozlowski Mariana Meneguetti Valmir Azevedo Prefácio João Masao Kamita Revisão dos Textos Ana Kronemberger Impressão e Acabamento Sermograf

VIANA & MOSLEY Editora

Barra Space Center Av. Das Américas, 1155, Sala 805 Barra Da Tijuca Rio De Janeiro VIANA & MOSLEY Editora Rj 22631-000 Tel/Fax: (21) 2111 9206 Diretor Comercial: Richard Mosley vmeditora@globo.com

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Casa com você.


ENTRE entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

Francesco Perrotta-Bosch Gabriel Kozlowski Mariana Meneguetti Valmir Azevedo

VIANA & MOSLEY Editora

Viana & Mosley Editora Rio

de

Janeiro

VIANA & MOSLEY

2012 Editora

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Prefácio Esse conjunto de 13 entrevistas realizadas por alunos do curso de arquitetura da PUC-Rio ao longo dos anos 2009-2012 (à exceção da entrevista com João Filgueiras Lima – Lelé, de 2007), e publicadas no site ENTRE (www.entre.arq.br) oferece uma rara chance de conhecer as palavras de arquitetos e críticos na atualidade: 10 escritórios (quatro cariocas, quatro paulistas e dois mineiros), dois arquitetos consagrados e um par de críticos (uma carioca, um paulista). Ainda que não tenha a pretensão de se colocar como um inventário da arquitetura contemporânea no Brasil, é mais do que saudável receber este livro, tendo em vista a parca atenção dada ao tema pelas publicações de arquitetura. E não poderia ser de outro modo que não indo direto à coleta das palavras daqueles que estão hoje operando de forma significativa e atuante no campo da arquitetura. Nas entrevistas temos a chance de conhecer um pouco da formação acadêmica, dos primeiros anos de escritório, dos projetos marcantes, das experiências e frustrações do cotidiano de trabalho, dos impasses da profissão, da herança da arquitetura modernista e da crise do moderno, das redefinições necessárias de conceitos e estratégias, dos novos desafios da cidade contemporânea. Não seria de esperar, é óbvio, unidade de posições, alinhamento de ideias e afinidades de grupo. Pluralidade e heterogeneidade são características evidentes, e não poderia mesmo ser diferente. E embora o traço geracional não seja expressão de muita coisa, é possível flagrar entre os entrevistados certa convergência, pelo menos no reconhecimento dos limites atuais da profissão, inclusive da própria figura do arquiteto e do recuo da ação da arquitetura no processo de construção social do país. Por outro lado, há certa preocupação com as temáticas contemporâneas, expressas no conjunto de referências citadas, bem como a busca de sintonização com as transformações em curso, fenômenos típicos de um mundo já globalizado que desfaz as distinções entre local e global. Nesse sentido, a maior parte desses escritórios encontra-se em rede com o campo internacional, estabelecendo intercâmbios produtivos, algo que no período do modernismo se realizava de modo bem mais tímido e reservado. Não obstante a oportuna ocasião de se conhecer, embora a partir de um recorte exclusivo e parcial, o que pensam e fazem os arquitetos nos dias de hoje, creio que a equação se mostraria incompleta se, para além das respostas, não incluirmos o ambiente que gera a pergunta. Vamos, portanto, recolocar a questão: o que podem os arquitetos dizer aos estudantes de arquitetura? Não se trata de artifício retórico, àquela que surge apenas por ocasião de formaturas, quando se tem de preparar palavras de incentivo para jovens formandos. A resposta dos arquitetos é sempre cheia de confiança, de positividade, de crença na ação construtiva da arquitetura, mesmo nos momentos de crise. A dos alunos é pergunta inquieta, ansiosa, incerta, sem horizonte delineado justamente porque ainda não se constituem como sujeitos-arquitetos. Mas se estamos vivendo um momento

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Prefácio

João Masao Kamita


[ENTRE] entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

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Prefácio Apresentação

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ENTREVISTAS

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28 46 68 86 102 116 146 164 180 198 218 234

254 256

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Autores Créditos


Sumário

João Masao Kamita Autores Andrade Morettin Arquitetos Associados BLAC CAMPO aud Carla Juaçaba João Walter Toscano João Filgueiras Lima (Lelé) MMBB Nitsche Arquitetos Associados Rua Arquitetos SPBR Vazio S/A Ana Luiza Nobre + Guilherme Wisnik

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Andrade Morettin


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MAU, Bruce. Massive Change. GAUSA, Manuel. OPOP: Optimismo Operativo em Arquitectura. KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce. S,M,L,XL. KOOLHAAS, Rem; AMO. El Croquis Rem Koolhas / OMA [I]. SEJIMA, Kazuyo; NISHIZAWA, Ryue. El Croquis SANAA _ n.121/122. Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Vilanova Artigas. ARTIGAS, Rosa Camargo (org.). Paulo Mendes da Rocha. ARTIGAS, Rosa Camargo (org.). João Walter Toscano. SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. AB´SABER, Aziz. São Paulo. Ensaios e Entreveros.


Andrade Morettin

24/04/2009

Andrade Morettin

Na manhã do dia 24 de abril de 2009, visitamos o escritório Andrade Morettin Arquitetos, onde fomos recebidos por Vinicius Andrade, arquiteto responsável em conjunto com Marcelo Morettin, para uma entrevista. Ambos graduaram-se na FAU-USP no início da década de 1990 e, atualmente, lideram esse escritório de arquitetura com uma produção das mais notáveis do país. Venceram e receberam menções em diversos concursos no Brasil e no exterior, como, por exemplo, o Comperj, o Living Steel e o Instituto Moreira Salles de São Paulo. Projetando desde pequenas casas até intervenções urbanas, trabalham tanto para o setor público quanto para o privado, com programas e escalas distintos.

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Como aconteceu a transição da academia para a carreira profissional? Vinicius Andrade - No meu caso, não houve ruptura. Como muitos arquitetos, comecei a trabalhar ainda enquanto estava na faculdade, no escritório do professor Eduardo de Almeida, da FAU-USP. Eu estava no terceiro ano da faculdade e ele era o meu orientador. Por conta disso, acabei fazendo a FAU em sete anos, mas não me arrependo. Se soubesse, teria ficado uns dez anos. Após terminar a faculdade, continuei trabalhando com o Eduardo, e, depois, com os arquitetos que trabalhavam com ele, os que criaram o MMBB. Um ano depois de me formar, passei um ano trabalhando em Barcelona e, quando voltei, montei o escritório com o Marcelo Morettin, colega da FAU. Então, a experiência profissional foi quase uma continuidade da faculdade. Quando e por que vocês decidiram abrir um escritório? Vinicius Andrade - Desde que comecei a estudar na FAU-USP, gostava de arquitetura, mas realmente passei a entendê-la frequentando as aulas, a biblioteca, o prédio. Aquele prédio é uma iniciação à arquitetura moderna e à arquitetura como uma forma de vida. Então, eu tinha uma paixão muito grande pela faculdade e projetar era tudo o que queria fazer. Para mim, naquele momento, o lugar para projetar era o escritório próprio. Há nisso certo idealismo de que você quer fazer aquilo em que acredita, há uma vontade de construir a própria experiência. Tanto que o fizemos em condições muito precárias: eu tive um grupo, ainda na época da faculdade, que montou um escritório em cima de uma padaria e nele fazíamos projetos para amigos e familiares sem cobrar. Depois, abri o primeiro escritório com o Marcelo, mas faliu. Então, fui viajar e quando voltei reabrimos o escritório. Trabalhei no Eduardo de Almeida; no Felipe Crescenti; e em Barcelona, com o Emili Donato. Foi muito bom, mas sempre quis fazer o meu próprio caminho, por mais precário que fosse. Hoje, vejo que é necessário ter muita força de vontade, porque é difícil. Muita coisa dá errado. Não sabíamos administrar o negócio, mas acabamos aprendendo na prática. Existe alguma diferença substancial entre o escritório do início e agora que ele está estabelecido e ativo? Vinicius Andrade - São muitas as diferenças. Do ponto de vista do funcionamento interno do escritório, agora temos uma equipe na qual confiamos e que está aqui há anos. É uma equipe muito boa. No início, fazíamos absolutamente tudo sem qualquer apoio. Do ponto de vista da relação do escritório com o mundo exterior, temos alguma experiência e também uma história. No começo, muitas pessoas queriam encomendar um pagode, uma casa tirolesa, o que acarretava em muitos

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desencontros. Isso acabou. Hoje, quando alguém nos procura, já sabe o que podemos fazer ou, na linguagem dos clientes, qual é o nosso estilo. É natural que se acabe tendo uma linha. Não que eu ache que você tem que sair tentando encontrar sua linha de arquitetura. Depois de um histórico, você reconhece algumas características comuns do seu trabalho. Essas características são a cara do seu escritório. Como se relaciona a pesquisa de materiais com o desenvolvimento do projeto? Vinicius Andrade - Os dois pontos são indissociáveis. Temos uma maneira de pensar o projeto na qual não definimos nenhum material a priori. Começamos pelo conceito do projeto, o lugar, o como será feito. Depois, fazemos uma pesquisa de qual material responde satisfatoriamente ao conceito de projeto. Todos os materiais são escolhidos pelo desempenho, por isso temos que pesquisar, falar com o fornecedor, buscar na internet. Como preferimos usar componentes industrializados por várias razões, a cada projeto que fazemos tem um material novo no mercado. É algo inerente à área. Então, é preciso pesquisar sempre, senão você fica parado. Existe algo em arquitetura que é o arquiteto tentar usar sempre o mesmo repertório para construir uma linha identificável. Achamos que não. O que deve ser identificável são as formas de pensar, não o material. Cada projeto é uma pesquisa. Por exemplo: agora, estamos fazendo um projeto grande para a Petrobrás, o COMPERJ. Nós precisávamos de uma membrana de proteção, pois o prédio tem um lado voltado para as ruínas, para o poente, no Rio de Janeiro. Essa face precisava ter transparência visual, mas não sabíamos que material utilizar. Pesquisamos e descobrimos, na Arcelor da França, uma chapa ondulada e perfurada que também pode ser produzida aqui. Ela tem o desempenho e as características de que precisávamos. Qual é a importância do detalhe no projeto? Vinicius Andrade - Por um vício da profissão, sou obrigado a fazer uma distinção: existem os detalhes construtivos e os detalhes de acabamento. São dois pontos muito diferentes na hora de pensar e na hora de construir. Pela própria formação da gente, temos uma preocupação muito grande com o detalhe construtivo, que é aquele que está vinculado à estrutura do prédio, porque, na nossa arquitetura, muito se apresenta pela própria estrutura. Existe a seguinte frase feita lá na FAU: quando a estrutura está pronta, a arquitetura se apresenta por inteiro. Talvez, isso seja radical demais, mas acho que, no fundo, impregna o jeito de pensar. Para nós, o detalhe é muito importante quando desenhamos a construção do edifício. Por exemplo, a forma como a estrutura apoia e a leveza que ela deve ter são obtidas no detalhe. O Artigas dizia que é preciso fazer cantar os pontos de apoio. Quanto aos detalhes de

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Andrade Morettin

24/04/2009


Andrade Morettin

EdifĂ­cio Fidalga 772, SĂŁo Paulo


Arq. Associados


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HERTZBERGER, Herman. Lições de Arquitetura. XAVIER, Alberto. Depoimento de uma Geração. COSTA, Lúcio. Registro de uma vivência. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. LE CORBUSIER. OEuvre Complète 1-8. MONEO, Rafael. Inquietação teórica e estratégia projetual. KOOLHAAS, Rem. Delirious New York. BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. Editora Mondadori. Oscar Niemeyer. VENTURI, Robert. Complexidade e Contradição em arquitetura.


26/02/2011

Arq. Associados

Arquitetos Associados

Numa conversa iniciada no escritório em Belo Horizonte e que prosseguiu em uma visita a Inhotim, os cinco integrantes do Arquitetos Associados receberam o ENTRE para mostrar suas ideias e seus projetos. Apresentaram o ambiente do qual fazem parte através de uma revisão das referências pós-modernas do meio arquitetônico mineiro do último quarto do século XX. Discutiu-se desde maneiras de organização de um escritório com maior liberdade entre as partes até a criação de meios para a ampliação do debate arquitetônico no Brasil, como a iniciativa da MDC. A entrevista deixa clara a importância de um olhar atento para a arquitetura elaborada fora do eixo Rio-São Paulo.

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Como aconteceu o encontro de vocês para a formação do escritório Arquitetos Associados? Alexandre Brasil - Em 1996, o Carlos Alberto Maciel, o André Luiz Prado e eu nos formamos pela mesma turma de arquitetura da UFMG e resolvemos montar um escritório na mesma época. Quatro anos depois, o Bruno Santa Cecília, que também fez a mesma faculdade, se juntou a nós. Mais recentemente, a Paula Zasnicoff Cardoso entrou no escritório. Ela tem uma formação um pouco distinta, tendo feito a graduação na FAU-USP até 2000 e vindo para Belo Horizonte em 2005 para o seu mestrado na UFMG. Carlos Alberto Maciel - Lembremos que, nesse intervalo, houve três outros integrantes: o Renato Pimenta, que esteve conosco por quatro anos, e o Ascanio Merrighi, que foi membro por um ano. E, de 2008 a 2010, Achiles Maciel. Como funciona o escritório? Paula Zasnicoff Cardoso - Nossa associação varia de acordo com a demanda. Os cinco sócios não são sempre autores dos projetos. Nos associamos livremente, conforme cada trabalho; ou seja, nos reunimos em alguns, mas não necessariamente em todos os projetos, o que nos deixa livres para fazer associações fora do escritório também. Carlos Alberto Maciel - Essa estratégia garante longevidade ao escritório. Conseguimos certa flexibilidade que nos possibilita trabalhar internamente de maneira variável e externamente com outras pessoas. Esse modus operandi nos assegura um convívio mais tranquilo entre os sócios e amplas trocas com pessoas de fora da equipe. Interessa-nos manter e reforçar esse modo de operar ao longo do tempo. André Luiz Prado - Grande parte dos trabalhos maiores que desenvolvemos envolve todos os cinco. Já projetos mais simples de serem resolvidos, como casas, acabam sendo resultantes de parcerias entre menos pessoas ou tornam-se até mesmo projetos individuais. Alexandre Brasil - Essa liberdade possibilita a todos realizar outras atividades. Fizemos mestrado (eu fiz em engenharia pela Universidade Federal de Ouro Preto, enquanto os demais fizeram pela UFMG). Com isso, também nos tornamos professores. E, por causa dessa maneira de administrar o trabalho aqui no escritório, conseguimos distribuir nossos horários distintos para projetar e para as atividades de ensino. Quais são os fundamentos e os conceitos que vocês consideram mais presentes em seus projetos atuais?

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Carlos Alberto Maciel - Cada um tem suas próprias ideias, mas há uma linha de pensamento comum. Inclusive, talvez seja isso o que nos une. O ponto de partida comum é a visão crítica com a qual reinterpretamos determinados princípios da arquitetura moderna brasileira de maneira prospectiva. Buscamos entender determinados princípios que possam viabilizar uma prática contemporânea, sem perder a história e a relevância da produção feita nos últimos setenta anos. Há coisas muito importantes e procedimentos muito ricos na arquitetura brasileira que deram a ela uma relevância no cenário internacional que não pode ser ignorada pela prática cotidiana. Isso nos encaminha a um pensamento conjunto, com determinadas diferenças de abordagem e de referências de cada um. Alexandre Brasil - Nesse sentido, é possível notar que a Paula tem uma formação um pouco diferente em relação aos demais. As influências dos quatro que estudaram aqui em Belo Horizonte são diferentes das de um estudante da FAU-USP. Contudo, o pensamento acaba convergindo para essa questão que o Carlos estava expondo: trabalhar criticamente com os princípios da arquitetura moderna. Bruno Santa Cecília - Me lembro que certa vez o Carlos fez uma constatação interessante: nós estudamos numa escola moderna, num edifício moderno, ensinados por professores pós-modernos. Essa ambiguidade, de certa forma, nos marcou. Vocês moram numa cidade que passou por algumas reformas urbanísticas desde a Pampulha, de Niemeyer, a Éolo Maia. O que fica disso para vocês? Carlos Alberto Maciel - A obra do Niemeyer é muito singular. Ela é didática a cada dia. Se você puder andar no Conjunto da Pampulha diversas vezes, descobrirá coisas diferentes. Nesse sentido, ela é uma referência permanente. Quanto ao Éolo Maia, e também incluo a Jô Vasconcellos, além de terem sido referências na arquitetura pós-moderna brasileira, foram pessoas muito próximas com as quais tivemos a oportunidade de trabalhar. Recebemos influência não só da produção deles, mas também de um contato pessoal muito rico e de uma generosidade com a qual sempre tratavam as gerações mais novas. Outro ponto que considero muito interessante é a passagem pelo pósmodernismo que houve em Belo Horizonte. Ela nos permite tratar a arquitetura moderna de modo menos romântico. Todo esse conhecimento acumulado do pósmodernismo, desenvolvido ao longo de muito tempo como consciência crítica sobre o moderno, foi para nós um ponto de partida interessante para se repensar o próprio moderno. Nossa busca pelo entendimento sobre o que de fato ainda é válido pode ajudar a tornar mais contemporânea a tomada de uma produção. Do pós-moderno fica o reconhecimento do contexto e das preexistências, algo menos presente na arquitetura moderna como método de projeto. Toda a crítica pós-

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Arq. Associados

26/02/2011


Arq. Associados

Galeria Miguel Rio Branco, Inhotim


Carla Juaรงaba


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TANIZAKI. El elogio de la sombra. PAZ, Octavio. La casa de la presencia. PAZ, Octavio. Marcel Duchamp ou o castelo da pureza. CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. TORROJA MIRET, Eduardo. Raz贸n y Ser de los tipos estructurales. RICE, Peter. An engineer imagines. KAHN, Louis. Silence et lumi茅re. GUY-LECAT, Jean. El circulo abierto. BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade. BROOK, Peter. A porta aberta.


16/07/2009

Carla Juaçaba

Carla Juaçaba

Entrevistamos a arquiteta Carla Juaçaba em meados de julho de 2009. Meses antes dessa conversa, ela havia representado os arquitetos brasileiros na Bienal de Arquitetura Latino-Americana, em Pamplona, na Espanha. Com entusiasmo, falamos de arquitetura, matéria e construção. Juaçaba mostrou, além de um portfólio com belos exemplos de residências unifamiliares, um discurso apoiado pelas referências aos seus autores preferidos, encontrados nos livros próximos a sua mesa de trabalho.

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[ENTRE] entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

Como foi sua formação como arquiteta? Carla Juaçaba - Eu me formei na Santa Úrsula, uma faculdade muito interessante porque era muito experimental. Levei a “zona” a sério. A Lygia Pape, que tinha uma cabeça educativa, foi uma das bases intelectuais do curso. A faculdade na Santa Úrsula foi boa, mas também tive contato com o Sérgio Bernardes, que foi um mestre. Fiz arquitetura por causa das conversas que tive com Sérgio. O discurso dele fazia a cabeça de todo mundo que estava em volta, pois falava do sonho na arquitetura, de como ela pode mexer com o imaginário. Parece ingênuo falar disso, mas, na faculdade, é difícil ouvir algo tão encantador. Gosto especialmente do Sérgio como artesão, que inventava telha, sistemas construtivos, como o próprio sistema de construção das favelas com o tijolo de barro e vigotas de concreto, que considero um marco. Ele misturava os materiais como a viga de concreto dentro da pedra, que foi referência no meu projeto da Casa de Rio Bonito. O modo como ele usava os materiais me interessa. Como se deu a transição da formação acadêmica para a atuação profissional? Carla Juaçaba - Acho que descobri que sou arquiteta fazendo arquitetura. Nem fiz estágio em arquitetura durante a faculdade, pois não conseguia trabalhar como “cadista” por muito tempo. Comecei trabalhando com cenografia, por três anos, com a Gisela Magalhães, que era da geração do Niemeyer e do Darcy Ribeiro, e fazia cenografia de museus pelo Brasil inteiro. Achava que ia trabalhar nisso. De repente, me descobri arquiteta ao fazer minha própria casa com o Mário Fraga. Depois, um amigo do Mário me chamou para fazer uma casa em Rio Bonito; em seguida, a Renata Bernardes, neta do Sérgio, ao olhar essas casas, disse que gostaria de fazer a dela comigo também. Um projeto puxou o outro. Assustou-me muito passar da arquitetura que se faz na faculdade, que é sonho e fica no papel, para o real, a materialização da ideia. Mas acho muito fascinante sair do pensar para o fazer. Se eu não fosse arquiteta, seria uma profissional com uma relação direta com a mão. A segunda casa que fiz, a Casa de Rio Bonito, por exemplo, é a junção de duas imagens: a imagem antiga do muro de pedra e a imagem moderna da possibilidade do grande vão que o aço pode dar. Eu me questionava: o que é o suporte da arquitetura? O que é o suporte moderno? O pilotis do Le Corbusier? Por que ele mostrou essa possibilidade? Por que a técnica mostrou essa possibilidade? Mas por que tenho que usá-la? A partir dessas questões, o projeto da casa apresenta o peso do muro que suporta o peso da viga, que, por sua vez, suporta o peso da laje. O artista plástico Richard Serra escreveu um texto sobre o peso:

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16/07/2009

Tem gente que busca leveza em tudo. O Renzo Piano, por exemplo, é um arquiteto que procura a leveza, a delicadeza. É um caminho. Não há um melhor do que o outro. Por isso, houve a escolha dos muros de pedra, dos suportes. Acredito na construção de uma ideia, de um pensamento, que pode se cristalizar ou não. Quando se cristaliza, dá medo pela responsabilidade técnica e, principalmente, por ser uma arquitetura experimental. Apesar de o fazer muro de pedra ser antigo, ainda é experimental colocar uma viga de aço dentro de uma pedra, ainda mais no meio de uma floresta. Não é à toa que há poucas mulheres na arquitetura! O ato da arquitetura em si, o ato de construir, é um ato masculino: ver uma construção levantando, lidar com o operário e com o engenheiro... Foi o que senti nessas obras que aconteceram. O medo também vem da constatação de como a arquitetura é poderosa, monumental! Observei isso ao projetar uma casa de setenta metros quadrados! Imagine quão assustador é a construção de coisas imensas. Afinal, transforma-se a realidade, transforma-se um material. Não fico muito tranquila. Os três projetos que você citou são de residências unifamiliares. Você considera ter alguma expertise nessa tipologia de projeto? Carla Juaçaba - Não, foi por acaso que fiz três residências. Mas cada caso é completamente diferente do outro. Uma casa levou à outra. Afinal, ninguém vai me chamar para fazer uma escola porque fiz essas casas. Acho que é preciso participar dos concursos. Já participei de um, vou entrar em outro, mas fico adiando porque não me sinto tão madura ainda para isso. Arquitetura é muito difícil. Para entrar em um concurso, se você não tiver uma questão, uma coisa para pensar, nem vale à pena mostrar. Você falou de matéria, principalmente da pedra, mas também utiliza o aço recorrentemente. Qual é a razão disso? Carla Juaçaba - Na época em que construí a casa da Renata Bernardes [Casa Varanda], ela queria uma casa com estrutura em aço, com um teto semelhante ao da

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Carla Juaçaba

“(...) o peso é para mim um valor. Não que seja mais premente que a leveza e, portanto, tenho mais a dizer a seu respeito. (...) Sobre somar peso, subtrair peso, dispor peso, o desequilíbrio do peso, dos efeitos psicológicos do peso. (...) Somos contidos e condenados pelo peso da gravidade. (...)... O processo construtivo, a concentração e o esforço cotidianos me fascinam mais do que a leveza da dança, da busca do etéreo. Tudo que escolhemos na vida por ser leve logo nos revela seu peso insustentável”.


Casa em Rio Bonito


Casa Varanda Carla Juaรงaba


[ENTRE] entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura

Créditos Fotográficos

páginas:

Autores 2, 3, 46, 47, 86, 87, 88, 102, 103, 112, 113, 114, 115, 164, 165, 234, 235, 254, 255, 258, 259. Adriano C. Mendonça 116, 117, 142, 143, 144, 145. Ana Luiza Nobre 236. Ana Ottoni 146, 147. AndradeMorettin 14, 15, 16, 24, 25. Arquitetos Associados 28, 29, 30. BLAC 48, 64, 65, 66, 67. CAMPO aud 68, 69, 70, 82, 83, 84, 85. Fran Parente 98, 99. Gabi Abdalla 218, 219. Guilherme Wisnik 238. Leonardo Finotti 42, 43, 44, 45. MMBB 147, 148, 162, 163. Nelson Kon 26, 27,100, 101, 160, 161, 176, 177, 178, 179, 216, 217. Nitsche Arquitetos 166. Rua Arquitetos 180, 181, 182, 194, 195, 196, 197. Sofia Mattos 198, 199. SPBR 200, 214, 215. Vazio S/A 220, 230, 231, 232, 233. Capa e conta-capa foto retirada da estante de livros do conjunto 132, compartilhado pelos escritórios SIAA, Apiacás e Centro.

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Agradecimentos A todos os escritórios e arquitetos que nos receberam e se dispuseram a conversar conosco. A Adriano Carneiro de Mendonça, Carolina Maiolino, Patrícia Rodrigues, Pedro Pedalino e Tatiane de Oliveira pela colaboração nas entrevistas. Ao professor João Masao Kamita por escrever o prefácio deste livro. Aos estudantes, pelo retorno que nos deram ao longo das publicações das entrevistas. A todos que comentaram no site e enriqueceram a discussão.

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Créditos

A nossas famílias e amigos pelo apoio e incentivo constantes.


PERROTTA-BOSCH, Francesco; KOZLOWSKI, Gabriel; MENEGUETTI, Mariana; AZEVEDO, Valmir. ENTRE, entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura. Rio de Janeiro: Viana e Mosley, 2012. Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)

E52 ENTRE - entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura / Francesco Bruno Perrotta Bosch ... [et al.]. - Rio de Janeiro : Viana e Mosley 2012 260p.; 16cm x 23cm. ISBN- 978-85-88721-67-8 1.Arquitetos - Brasil - Entrevistas. I.Bosch, Francesco Bruno Perrotta. II. Título: Entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura. CDD- 720.981 José Carlos dos Santos Macedo - Bibliotecário CRB7 n. 3575


ISBN 978-85-87721-67-8

9 78 85 88 72 1 67 8

Andrade Morettin

Arquitetos Associados

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CAMPOaud

Carla Juaçaba

João Walter Toscano

João Filgueiras Lima (Lelé)

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Nitsche Arquitetos Associados

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Entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura. Viana & Mosley, 2012

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